Jeferson De

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  • Jeferson De

    Dogma Feijoada

    O cinema Negro Brasileiro

    miolo Jeferson De okok.indd 1 29/5/2008 21:13:58

  • Imprensa Oficial do Estado de So Paulo

    Diretor-presidente HubertAlqures DiretorVice-presidente LuizCarlosFrigerio DiretorIndustrial TeijiTomioka DiretoraFinanceirae Administrativa NodetteMameriPeano ChefedeGabinete EmersonBentoPereira NcleodeProjetos Institucionais VeraLuciaWey

    Coleo Aplauso Cinema Brasil

    CoordenadorGeral RubensEwaldFilho CoordenadorOperacional ePesquisaIconogrfica MarceloPestana ProjetoGrfico CarlosCirne Editorao MarliSantosdeJesus AssistenteOperacional AndressaVeronesi TratamentodeImagens JosCarlosdaSilva

    Governador GeraldoAlckminSecretrioChefedaCasaCivil ArnaldoMadeira

    Fundao Padre Anchieta

    Presidente MarcosMendona ProjetosEspeciais AdliaLombardi DiretordeProgramao MauroGarcia

    miolo Jeferson De okok.indd 2 29/5/2008 21:13:58

  • Jeferson DeDogma Feijoada

    O Cinema Negro Brasileiro

    porJefersonDe

    SoPaulo005

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  • ndicesparacatlogosistemtico:

    .Cineastasbrasileiros:Biografia79.098

    FoifeitoodepsitolegalnaBibliotecaNacional(Lein.85,de0//907).Direitosreservadoseprotegidospelalei960/98

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao elaborados pela Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado de So Paulo

    De,JefersonJefersonDe/porJefersonDe.SoPaulo:ImprensaOficialdoEstadodeSoPaulo:CulturaFundaoPadreAnchieta,005.p.:il.(Coleoaplauso.SriecinemaBrasil/coordenadorgeralRubensEwaldFilho).

    ISBN85-7060--(Obracompleta)(ImprensaOficial)ISBN85-7060--0(ImprensaOficial)

    .CinemaBrasil.CineastaseprodutoresBrasil.NegronocinemaBrasil.JefersonDeI.EwaldoFilho,Rubens.II.Ttulo.III.Srie.

    CDD79.098

    005

    ImprensaOficialdoEstadodeSoPaulo

    RuadaMooca,9Mooca00-90SoPauloSPBrasilTel.:(0xx)6099-9800Fax:(0xx)6099-967www.imprensaoficial.com.bre-mail:[email protected]

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  • 5

    Apresentao

    O que lembro, tenho.

    GuimaresRosa

    A Coleo Aplauso, concebida pela Imprensa

    Oficial,temcomoatributoprincipalreabilitare

    resgataramemriadaculturanacional,biogra-

    fandoatores,atrizesediretoresquecompem

    acenabrasileiranasreasdocinema,doteatro

    edateleviso.

    Essa importantehistoriografiacnicaeaudio-

    visual brasileiras vem sendo reconstituda de

    maneirasingular.Ocoordenadordenossacole-

    o, o crtico Rubens Ewald Filho, selecionou,

    criteriosamente, um conjunto de jornalistas

    especializados para realizar esse trabalho de

    aproximao junto a nossos biografados. Em

    entrevistaseencontrossucessivosfoi-seestrei-

    tandoocontatocomtodos.Preciososarquivos

    dedocumentoseimagensforamabertose,na

    maioriadoscasos,deu-seaconhecerouniverso

    quecompeseuscotidianos.

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  • 6

    Adecisoemtrazerorelatodecadaumpara

    aprimeirapessoapermitiu manteroaspecto

    detradiooraldosfatos,fazendocomquea

    memriaetodaasuaconotaoidiossincrsica

    aflorasse de maneira coloquial, como se o

    biografado estivesse falando diretamente ao

    leitor.

    Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator

    importantenaColeo,poisosresultadosobti-

    dosultrapassamsimplesregistrosbiogrficos,

    revelando ao leitor facetas que caracterizam

    tambmoartistaeseuofcio.Tantasvezeso

    bigrafoeobiografadoforamtomadosdesse

    envolvimento, cmplices dessa simbiose, que

    essas condies dotaram os livros de novos

    instrumentos.Assim,ambos secolocaramem

    sendas onde a reflexo se estendeu sobre a

    formaointelectualeideolgicadoartistae,

    supostamente,continuadanaquiloquecaracte-

    rizavaomeio,oambienteeahistriabrasileira

    naquelecontextoemomento.Muitosdiscutiram

    o importantepapelquetiveramos livrosea

    leituraemsuavida.Deixaramtransparecera

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  • 7

    firmeza do pensamento crtico, denunciaram

    preconceitossecularesqueatrasarameconti-

    nuamatrasandoonossopas,mostraramoque

    representouaformaodecadabiografadoe

    suaatuaoemofciosdelinguagensdiferen-

    ciadascomooteatro,ocinemaeateleviso

    eoquecadaumdessesveculoslhesexigiuou

    lhesdeu.Foramanalisadasasdistintaslingua-

    gensdessesofcios.

    Cadaobraextrapola,portanto,ossimplesrelatos

    biogrficos, explorando o universo ntimo e

    psicolgicodoartista,revelandosuaautodeter-

    minaoequasenuncaacasualidadeemterse

    tornadoartista,seusprincpios,aformaode

    suapersonalidade,apersonaeacomplexidade

    deseuspersonagens.

    Solivrosqueiroatrairograndepblico,mas

    quecertamenteinteressaroigualmenteaos

    nossosestudantes,poisnaColeo Aplausofoi

    discutidoointrincadoprocessodecriaoque

    envolveas linguagensdoteatroedocinema.

    Foramdesenvolvidostemascomoaconstruo

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  • 8

    dos personagens interpretados, bem como a

    anlise,ahistria,aimportnciaeaatualidade

    dealgunsdospersonagensvividospelosbiogra-

    fados.Foramexaminadosorelacionamentodos

    artistascomseusparesediretores,osprocessos

    e as possibilidades de correo de erros no

    exercciodoteatroedocinema,adiferenciao

    fundamentaldessesdoisveculoseaexpresso

    desuaslinguagens.

    A amplitude desses recursos de recuperao

    da memria por meio dos ttulos da Coleo

    Aplauso, aliada possibilidade de discusso

    de instrumentos profissionais, fez com que a

    ImprensaOficialpassasseadistribuiremtodas

    asbibliotecas importantesdoPas,bemcomo

    em bibliotecas especializadas, esses livros, de

    gratificanteaceitao.

    Gostaria de ressaltar seu adequado projeto

    grfico, em formato de bolso, documentado

    com iconografia farta e registro cronolgico

    completoparacadabiografado,emcadasetor

    desuaatuao.

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  • 9

    A Coleo Aplauso, que tende a ultrapassar

    oscemttulos,seafirmaprogressivamente,e

    esperacontemplaropblicode lnguaportu-

    guesa com o espectro mais completo possvel

    dosartistas,atoresediretores,queescreveram

    a rica e diversificada histria do cinema, do

    teatro e da televiso em nosso pas, mesmo

    sujeitosapercalosdenaturezasvrias,mascom

    seusprotagonistassemprereagindocomcriati-

    vidade, mesmo nos anos mais obscuros pelos

    quaispassamos.

    Alm dos perfis biogrficos, que so a marca

    da Coleo Aplauso, ela inclui ainda outras

    sries:Projetos Especiais,comformatosecarac-

    tersticasdistintos,emquejforampublicadas

    excepcionaispesquisasiconogrficas,queseori-

    ginaramdetesesuniversitriasoudearquivos

    documentaispr-existentesquesugeriramsua

    edioemoutroformato.

    Temosasrieconstitudaderoteiroscinemato-

    grficos,denominadaCinema Brasil,quepublicou

    oroteirohistricodeO Caador de Diamantes,

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  • 0

    deVittorioCapellaro,de9, consideradoo

    primeiroroteirocompletoescritonoBrasilcom

    aintenodeserefetivamentefilmado.Parale-

    lamente,roteirosmaisrecentes,comooclssico

    O Caso dos Irmos Naves,deLuisSrgioPerson,

    Dois Crregos,deCarlosReichenbach,Narrado

    res de Jav,deElianeCaff,eComo Fazer um

    Filme de Amor, de Jos Roberto Torero, que

    deverosetornarbibliografiabsicaobrigatria

    paraasescolasdecinema,aomesmotempoem

    quedocumentamessaimportanteproduoda

    cinematografianacional.

    GostariadedestacaraobraGloria in Excelsior,

    dasrieTV Brasil,sobreaascenso,oapogeu

    e a queda da TV Excelsior, que inovou os

    procedimentoseformasdesefazerteleviso

    no Brasil. Muitos leitores se surpreendero

    ao descobrirem que vrios diretores, autores

    e atores, que na dcada de 70 promoveram

    o crescimento da TV Globo, foram forjados

    nos estdios da TV Excelsior, que sucumbiu

    juntamentecomoGrupoSimonsen,perseguido

    peloregimemilitar.

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  • SealgumfatordesucessodaColeo Aplauso

    merece ser mais destacado do que outros,

    o interessedo leitorbrasileiroemconhecero

    percursoculturaldeseupas.

    Denossapartecoubereunirumbomtimede

    jornalistas, organizar com eficcia a pesquisa

    documental e iconogrfica, contar comaboa

    vontade, o entusiasmo e a generosidade de

    nossos artistas, diretores e roteiristas. Depois,

    apenas,comigualentusiasmo,colocardispo-

    siotodasessasinformaes,atraenteseaces-

    sveis, em um projeto bem cuidado. Tambm

    a ns sensibilizaram as questes sobre nossa

    culturaqueaColeo Aplausosuscitaeapresenta

    ossortilgiosqueenvolvempalco,cena,coxias,

    set defilmagens,cenrios,cmerase,comrefe-

    rnciaaessesseresespeciaisquealitransitame

    setransmutam,delesquetodoessematerialde

    vidaereflexopoderserextradoedisseminado

    comointeressequemagnetizaroleitor.

    A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter

    criadoaColeo Aplauso,poistemconscincia

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  • de que nossa histria cultural no pode ser

    negligenciada,eapartirdelaqueseforjaese

    constriaidentidadebrasileira.

    HubertAlquresDiretor-presidenteda

    ImprensaOficialdoEstadodeSoPaulo

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  • Afinal Jeferson De

    Quem vem lSou euQuem vem lSou euA cancela bateuCavaleiro sou eu.

    EstrofedesambaderodadaBahia|annimosc.0.

    Devemos,commuitoorgulho,simsenhor,saudar

    estaesperana,queJeffersonDe.

    Aelecabearesponsabilidadedebotarospontos

    nosis,comosediziaantigamente,equandopenso

    oquantoa imagemdonegro foi vilipendiada

    pelacinematografianacionaldedararrepios.

    Quantagentedetalentoseperdeunessabarbrie

    depreconceitos,deracismo,delugarescomuns

    nospersonagenscriadospelocinemabrasileiro,

    feito de empregadas domsticas, de ladres,

    deassassinos cruis,depersonagenshistricos

    destorcidos.Tantoexotismoetantofolclore.

    Pergunta-se: de onde vem tanta raiva? Tanto

    desprezo?Serporpurogozo?Que,certamente,

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  • existe certa ingenuidade perversa, ningum

    duvida.Comcerteza,conscientemente,ningum

    poderiaexplicar.

    O certo que no se explicam as mesmas

    omissesnahistoriadamemria.Porquetanta

    perversidadesilenciosacontraessesmilhesde

    negros chegados aqui fora, para construir

    este pas pilhado por seus conquistadores e

    colonizadoresimpiedosos?

    Forammesmomilhesdenegrostrituradosna

    lavouradacanadeacar,docaf,naminerao

    doouroedodiamante.Comoeraumcaminho

    semvolta,sempreestiveramaquicomraiva,

    certo,masmesclou-seaessaraivadocativeiroa

    msica,aalegria,orisodesuaprpriamisria.

    Tiraram de seu patrimnio intangvel, seus

    deuses, seus orixs, para suportar tanta dor,

    resignando-seaosofrimentodasenzalaemuitas

    outrasatrocidades.

    Foram fundadores da identidade nacional e

    transformaram a lngua, o paladar, o olfato.

    Mas foram esquecidos quando construram e

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  • 5

    criaram os perodos de inegvel riqueza do

    Pas, caracterizando-se,ento,aexclusocom

    quesotratados,quandolhesfoinegadaat

    mesmoapossibilidadedecontaremsuaprpria

    histria.

    EisquesurgeJeffersonDe,comoumalentode

    esperana.Algumcomoele,muitoesperado,

    comesseolhardepuragenerosidade.Esseolhar

    dedentro,noestrangeiro,dequemsabeque

    sentiueaindasentirnaprpriapeleasmazelas

    institudascontraadignidadeeacidadania.

    Seu documentrio sobre Carolina de Jesus,

    assinalaessasensibilidadeetalentoemcontara

    histriadaquelamulheremmeioaodesespero,

    aoabandono,emesmoassim,aforadecriar

    contrariandoaadversidadesua inexorvel

    histria.

    Alm de solues plsticas admirveis, o

    magistral roteiro denso, contido, sem ape-

    losexticos,quetomouvidacomabelainter-

    pretao de Zez Motta, com seu final, que

    persisteressoandoemnossosouvidos,comoo

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  • 6

    ecodoregistrodasolidoedodesespero.Da

    meninaachamar,repetidasvezes,ame.

    Bravo, Jefferson De! Voc nossa grande

    esperana.Porquevocnoveioantes?Para

    registrarotalento,aforadramticadeGrande

    Otelo,AgnaldoCamargo,RuthdeSouza,Antonio

    Pitanga, Lea Garcia, Zzimo Bulbul, Haroldo

    Costa, Aizita Nascimento, Luiza Maranho,

    MiltonGonalves?Edetantosoutros,ainda,que

    desapareceram,semdeixarrastro.

    Mas h diante de voc, todos esses novos e

    jovensatoresdesuagerao,comtalento,garra

    esensibilidade.Maspensequetodocineasta

    um ser poltico, que a histria do cinema, no

    tempo,nofurtoudessalinguagemessepoder

    de persuadir, de registrar as transformaes

    histricasdeumasociedadeemmutao,mesmo

    quando se recorre ao passado, como voc,

    brilhantemente,ofez.

    Emanoel Araujo

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  • 7

    Introduo

    Esboo para uma Histria do Negro no Ci-nema Brasileiro

    1 - O negro no cinema mudo

    Asinformaessobreocinemamudobrasileiro

    sorelativas.Muitosfilmesseperderamentreos

    vriosincndioseamconservao.Amaioria

    daspesquisassebaseiaemjornaiserevistas.

    Quantopresenadonegro,asinformaesso

    quasenulas,masdestacam-sedoistrabalhos:O

    Negro Brasileiro e o Cinema(00),livropioneiro

    escritoporJooCarlosRodrigues;eacuidadosa

    pesquisarealizadaporRobertStamqueresultou

    nolivro:Tropical Multiculturalism a Comparative

    History of Race in Brazilian Cinema and Culture

    (997).Artigosesparsosdecarterinformativo

    podemserencontradosatmesmonaInternet.

    Josdeteoranaltico,sopoucos.Citodois:O

    Personagem Negro no Cinema Silencioso Brasi

    leiro Estudo de Caso Sobre A filha do Advogado

    (00),deArthurAutraneO Negro no Cinema

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  • 8

    Brasileiro O Perodo Silencioso(00)deNoel

    dosSantosCarvalho.

    No perodo silencioso (898 - 99), o negro

    aparecerepresentadoemalgunspoucosfilmes.

    RobertStamfaz inferncias sobreaparticipa-

    o de negros nos documentrios: Dana de

    um Baiano (Afonso Segreto, 899), Dana de

    Capoeira (Afonso Segreto, 905),Carnaval na

    Avenida Central (906), Pela Vitria dos Clu

    bes Carnavalescos (909),O Carnaval Cantado

    (98).Jornaisdapocaanunciavamapresena

    depierrsnegrosnumdocumentrio sobre

    o carnaval paulista, Os Trs Dias do Carnaval

    Paulista(95).

    Algo prximo do que hoje chamamos de do-

    cumentrios,oureportagens(vistasanimadas,

    como eram chamados na poca), registravam

    eventos polticos pblicos, bem como a vida

    mundanadaburguesia.Emmuitosdelesvemos

    negros entre os populares, quase sempre nas

    bordasenofundodosenquadramentos.Essas

    imagens do a impresso de escaparem ao

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  • 9

    controledocinegrafista.Comoaperfeioamento

    dalinguagemcinematogrfica,asimagensinde-

    sejveis,sejamelasdenegros,pobres,indgenas,

    etc.,seropaulatinamenteeliminadas.Onome

    tcnicoparadesignaresse controlenaproduodosentidodas imagensdecupagem.Oque,

    semexageros,maisumadasvriasformasde

    dominaosimblica.

    Nosanos90e90,elafoiutilizadanocinema

    paraproduzirumacertaeugeniaracialbrasilei-

    ra.Apassagemabaixofoipublicadanaprincipal

    revistadecinemadoperodomudo,Cinearte,e

    expressaoquepartedacrticapensavasobrea

    presenadenegrosnosfilmes:

    Quando deixaremos desta mania de mostrar ndios,

    caboclos, negros, bichos e outras avisraras desta

    infeliz terra, aos olhos do espectador cinematogr

    fico? Vamos que por um acaso um destes filmes v

    parar no estrangeiro? Alm de no ter arte, no

    haver technica nelle, deixar o estrangeiro mais con

    vencido do que ele pensa que ns somos: uma terra

    igual a Angola, ao Congo ou cousa que o valha. Ora

    miolo Jeferson De okok.indd 19 29/5/2008 21:14:00

  • 0

    vejam se at tem graa deixarem de filmar as ruas

    asfaltadas, os jardins, as praas, as obras de arte, etc.,

    para nos apresentarem aos olhos, aqui, um bando de

    cangaceiros, ali, um mestio vendendo garapa e um

    porunga, acol, um bando de negres se banhando

    num rio, e cousas deste jaez.

    OdadocuriosoofatodequenoBrasilode-

    senvolvimentodadecupagem,oudalinguagem

    cinematogrfica,nestesprimeirosfilmes,deu-se

    pelaexclusodosnegrosemestios.Atravsdela

    buscou-seoembranquecimentodasimagens

    doPas.NosEUA,diferentemente,a inveno

    dalinguagemcinematogrficaesteve,desdeo

    incio, intrinsecamente ligadarepresentao

    dosnegrosedasrelaesraciais.OfilmeO Nas

    cimento de uma Nao(DavidW.Griffith,95)

    ,nessesentido,amatrizfundantedarelao

    linguagem/decupageme representao racial.

    Resumindo:aquiaexcluso,losesteretipos.

    Asuperaodessasituaovaipassar,nadcada

    de60,pelainvenodenovasformasderepre-

    sentar.Isto,pornovasformasdehegemonia

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  • simblicaconstrudaspeloscinemasnovos,da

    qualocinemanegrofoiumavertente.Noen-

    tanto,oquedesejofixaraquialigaoentre

    linguagemerepresentaoracial.NoBrasilessas

    relaesnoforamexploradasdevido, talvez,

    pela nossa dificuldade histrica de falar em

    termosraciais.

    Masvoltemosaosfilmesmudos.Amaioriade-

    lesfuncionavacomocaixadeecoideolgica

    (expressousadaporJean-ClaudeBernardete

    MariaRitaGalvoparareferir-seaomodocomo

    omeiocinematogrficorepercutiusuasrelaes

    comoEstadoeaideologianacionaldasidias

    dominantes).exemplar,nessesentido,odocu-

    mentrio,O Progresso da Cincia Mdica,dirigi-

    dopelomdicoOctviodeFarias,em97,sobre

    afaculdadedemedicinadoRecife.Todoocorpo

    deprofessoresealunosformadoporbrancos,

    enquantoospacientesdoHospitalPsiquitrico

    somajoritariamentenegrosemestios.Estes

    somostradosemseusleitosrecebendotrata-

    mento.Algunsforamfilmadosseparadamente,

    simulandoosefeitosfsicosdasdoenas,oque

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  • indicaqueforamorientadosparatanto.Ouseja,

    dirigidos.Odocumentrioestemfasecomo

    quepensavapartedoscientistasnofinaldos-

    culo9ecomeodo0.Asprincipaisinstituies

    mdicas e de direito do perodo atribuam as

    doenasraa,pobrezaemiscigenao.Tal

    concepoeradifundidanasprincipaisfaculda-

    desdemedicinadapoca.

    Osfatoshistricosnosquaisapresenadapo-

    pulaonegrafoideterminantetambmforam

    filmados.Oepisdio conhecido comoRevolta

    daChibatarendeuodocumentrioRevoltada

    Esquadra,eosfilmesA Revolta dos Marinheiros;

    Rebelio da Marinhagem da EsquadraeRevolta

    no Rio,todosde90.Em9,odiretorCarlos

    Lambertini realizaumaficosobreavidade

    umdosenvolvidosdaRevolta,A Vida do Cabo

    Joo Cndido,masofilmefoiconfiscadopelas

    autoridadesdamarinhaedesapareceu.

    Aadaptaoderomancesefatoshistricosfoi

    umfiloexploradonosprimeirosfilmesdefic-

    o.Em909,AntonioSerradirigeA Cabana do

    miolo Jeferson De okok.indd 22 29/5/2008 21:14:00

  • Pai Toms,baseadonolivrodeHarretBeecher,

    Uncle Toms Cabin.Olivrofezsucessoentreos

    abolicionistasbrasileiros.Ofilmefaziaumaho-

    menagemaosabolicionistas,JosdoPatrocnio

    eViscondedoRioBranco.

    O romance abolicionista brasileiro, A Escrava

    Isaura,escritoporBernardoGuimares,foiadap-

    tadoedirigidoem99porAntnioMarques

    Filho.OpapelprincipalcoubeElisaBetty,atriz

    de pele branca. As fotos do cartaz indicam a

    presenadepelomenosumaatriznegra,Maria

    Lcia,nopapeldeRosa.

    Dois filmes sobre a malandragem do Rio de

    Janeiro traziam personagens negros em suas

    imagens:Capadcios da Cidade Nova(Antonio

    Leal,908)eA Quadrilha do Esqueleto,(Eduar-

    doArouca,97).Ambostinhamseusenredos

    centradosnamalandragemcarioca.Oprimeiro

    sobreseresteiros,malandros,capoeirase valen-tesnasimediaesdaRuaViscondedeItana

    edaPraaOnze,antigoredutodamalandragem

    carioca.A Quadrilha do Esqueletotraziaescrito

    miolo Jeferson De okok.indd 23 29/5/2008 21:14:00

  • nocartazdeapresentao:Aventuras policiais

    descrevendo tipos da nossa malandragem.

    Alguns poucos atores negros trabalharam em

    filmesdoperodo.BenjamimOliveira,artistade

    circo,palhaoeator,inovounarepresentao

    circense ao introduzir encenaes teatrais no

    picadeirodoCircoSpinelli, sediadonoRiode

    Janeiro.Mestre de geraes,segundoProc-

    pioFerreira,adaptoupeasclssicaseoperetas

    obtendosucessojuntoaopblico.Em908,o

    cinegrafista Antonio Leal filmou Os Guaranis,

    pantomimaqueOliveiraapresentavanoCirco

    Spinelli, baseada na obra de Jos de Alencar.

    Pintadodevermelho,Oliveirafaziaopapeldo

    ndioPeri.Em99,trabalhounofilmedeCar-

    menSantos,Inconfidncia Mineira(99).

    Outrosartistasnegrosdoperodoforam:Tcito

    deSouza,queapareceutravestidodendiono

    filmeO Guarani (96),deVittorioCappelaro;

    FerreiraCastro,queatuounofilmeA Filha do

    Advogado,dirigidoporJotaSoaresem96;e

    Eduardo das Neves, famoso ator, compositor,

    miolo Jeferson De okok.indd 24 29/5/2008 21:14:01

  • 5

    cantorepalhao.Trabalhounosfilmescantan-

    tes:O ProntoeSangue Espanhol(9).

    2 - Trs perspectivas cinematogrficas na dcada

    de 50

    Apartirdadcadade0emSoPaulo,parteda

    burguesiapassaafomentaraartecomacriaode

    teatros,museusevultososinvestimentosnocine-

    ma,construindoestdioseempresasdeproduo.

    OscasosmaisconhecidosforamosdaVeraCruz

    eMaristela.Jentreosintelectuaisnacionalistas

    deesquerda,quasetodosligadosousimpatizantes

    doPartidoComunistaBrasileiro(PCB),processa-se

    umricodebatesobreasestratgiasdeconquista

    domercadocinematogrficobrasileiro.

    No plano ideolgico, o Pas vive o ufanismo

    nacionalistaabertocomadeposiodeVargas

    em95eaexpansocapitalistaimpulsionada

    pelo desenvolvimentismo da era Kubitschek

    (956-960).

    As representaes do negro nos filmes desse

    perodoestointrinsecamenteligadassdeman-

    miolo Jeferson De okok.indd 25 29/5/2008 21:14:01

  • 6

    dasquecadagrupodeprodutoresestabeleceu

    como estratgia para a conquista do pblico.

    Asquestesdeordemideolgicapesaram,so-

    bretudo entre os cineastas e produtores mais

    comprometidos com o nacionalismo. Ele foi

    o idioma dominante no perodo e interpelou

    dasmaisvariadasformasosrealizadores.Assim

    sendo, a participao dos negros nos filmes

    deveservistanessaperspectivaideolgicamais

    geralqueorientouo campo cinematogrfico.

    Vejamosaseguir,rapidamente,comoonegro

    aparecerepresentadoemtrsmomentoschaves

    daproduodoperodo:achanchada,osfilmes

    produzidospelaVeraCruzeoquedesignarei

    aqui, sob minha inteira responsabilidade, de

    pr-CinemaNovo.

    2.1 - Celebrando a democracia racial: chanchada,

    esteretipos e a luta por representao

    Aparticipaodosatoresnegrosnosfilmesda

    chanchadafoidecisiva.GrandeOtelo,porexem-

    plo, foiumdosmaiores.Ao ladodeOscarito,

    protagonizouosprincipaisfilmesdognero.Os

    miolo Jeferson De okok.indd 26 29/5/2008 21:14:01

  • 7

    nmeros musicais eram repletos de bailarinos

    e figurantes negros. As referncias cultura

    negra aparecem na figurao, na msica, na

    cenografia,formandoumaespciedemoldura

    queenvolvetodaarepresentao.Umaimagem

    exemplardoqueestouafirmando,mostraaal-

    vssimaElianaimitandoCarmenMirandaemRio

    Fantasia(957),cercadademsicosebailarinas

    negrosemumcenrioestilizadodefavela.Ou-

    troexemplonofilmeTreze Cadeiras(957),o

    personagemBonifcio(Oscarito)sobeomorroe

    recebidopelosmoradores,quasetodosnegros,

    ensaiandoumsambaenredo.

    Noentanto,aharmoniaracial,comoamaioria

    dashistriasfantasiosasqueformamosmitos

    nacionais,ficourestritaaosfilmes.Nocotidiano,

    mesmoondeosambaeosartistasnegrosbrilha-

    vam,adiscriminaoracialrolavasolta.Segundo

    osambistaHeriveltoMartins:

    O Cassino era uma casa de respeito, de luxo, onde

    qualquer um entrava... desculpem, eu no sou racis

    ta... eu disse qualquer um, mas no era bem assim...

    miolo Jeferson De okok.indd 27 29/5/2008 21:14:01

  • 8

    no entrava preto no Cassino. Tinha preto no palco,

    mas no grill no tinha. preciso explicar que o Cassino

    da Urca tinha dois lados. Havia uma rua no meio. De

    um lado, do lado da praia, estava o cemitrio, onde

    jogavam as pessoas que j estavam sem dinheiro.

    Do outro lado estava o grill, o jogo mais grfino, os

    grandes shows.

    A representao do negro na chanchada foi

    estereotipada. Esteretipossovalores,idias,opinies generalizadas sobre grupos sociais.

    No raramente, eles se do numa relao de

    dominaoemqueogrupodominadorecebeos

    esteretiposdeinteriorizao.Osesteretipos

    maiscomunssoosqueocaracterizamonegro

    como infantil, cmico, bondoso, irracional e

    assexuado.OspersonagensPinoeNico(Grande

    OteloeCol)nofilmeCarnaval Atlntida (95),

    soexemplaresnessesentido.

    No caso da chanchada os esteretipos mais

    comunssoosdomalandro,sambista,cmico,

    emrelaoaospersonagensmasculinos. Jos

    femininos so as empregadinhas voluptuosas

    miolo Jeferson De okok.indd 28 29/5/2008 21:14:01

  • 9

    e intrometidas, como em De Vento em Popa

    (957)eGarotas e Samba(957).DonaldBogle,

    noseuestudosobrearepresentaodonegro

    no cinema norte-americano, enumera osesteretiposrecorrentesnaconstruodospersonagens. Soeles:otioTom(uncle Tom),umaespciedevelhonegrodebondadeservil;o

    palhaobufo(the Coon);omulatotrgico(the

    Tragic Mulatto),umtipoquenoBrasilestpr-

    ximodonegrodealmabranca,isto,aquele

    querecusaasuaorigemracialafricananegra

    ecolaboracomaopressodosnegros;onegro

    revoltado(the Buck)eaconhecidaMePreta

    (the Mammy).JooCarlosRodrigues,noseulivro

    O Negro Brasileiro e o Cinema (00),descreve

    doquechamadearqutiposecaricaturassobre

    onegro.ParaRodrigues,osarqutiposprovm

    deduasfontesprincipais:dasreligiesdematriz

    africanaedoimaginriodaescravido.

    Noentanto,osfilmessosistemasabertosonde

    ocorremdisputaspelarepresentao.Disputas

    essas que escapam ao controle dos produto-

    res. Os atores negros no so passivos diante

    miolo Jeferson De okok.indd 29 29/5/2008 21:14:01

  • 0

    dosesteretipos,eresistemsubvertendoesses

    personagensaseufavor,diminuindoassimos

    prejuzos raciaisquedelespossamdecorrer.

    comose,emdeterminadassituaes,atoresne-

    grosatuassemcontraoroteiro,subvertendo-o.

    Ouseja,umatornegrocomoGrandeOteloou

    Mussum,mesmofazendopapissubalternosou

    cmicospodemroubar a cenaesomaraoeste-

    retiposeutalento,ultrapassando-o.

    AduplaformadapelobrancoOscaritoeone-

    groGrandeOteloserve-nosdeexemplo. Porumlado,elafoiacelebraocinematogrfica

    doconvvioentrenegrosebrancosnoBrasil

    dademocraciaracial.Poroutro, elarevelaasassimetrias,tenseselutastravadasemtorno

    da representao. Otelo sempre se queixou

    do fato de, em alguns filmes da dupla, seu

    nomevirdepoisdodeOscarito.Queixava-se

    dosalriomenoredostatussubordinadodos

    seuspersonagensemrelaoaosdoparceiro

    branco, segundoeleuma formade racismo.

    Recusava-se a ser escada para as cenas c-

    micase,emalgunsfilmes,passouaimprovi-

    miolo Jeferson De okok.indd 30 29/5/2008 21:14:01

  • sar em cima do roteiro numaabertadisputa

    pelarepresentao.

    Emsuaestriacomodiretor,nofilmeA Dupla do

    Barulho(95),CarlosMangadramatizouessadis-

    puta.NeleTio(GrandeOtelo),formaumadupla

    cmicacomTonico(Oscarito).Numcertomomento

    Tiorecusa-seaservirdeescadaparaseuparceiro

    edispara:(...) estou cansado de ser explorado. Por

    que no quero mais ser escada de ningum. Estou

    farto dessa dupla Tonico e Tio. Grande Tonico e

    Tio! Por que no Tio e Tonico?

    Adisputa aparece tambm no filme Carnaval

    Atlntida(95),dirigidoporJosCarlosBurle.

    PinoeNico(GrandeOteloeCol)sodoisrotei-

    ristasnegrosquedisputamarealizaodeum

    filmecomoprodutorbrancoCecliodeMilho

    (RenatoRestier).Emumdadomomento,ofilme

    contrastaasduasformasderepresentaonuma

    explicitabatalhasimblica:osroteiristasnegros

    levamamelhor.

    Antesderealizarchanchadas,aAtlntidapro-

    duziufilmessrios,normalmentedramassociais.

    miolo Jeferson De okok.indd 31 29/5/2008 21:14:01

  • OprimeirodelesfoiMoleque Tio(9),escrito

    porAlinorAzevedoedirigidoporJosCarlos

    Burle. Inspirado na vida de Grande Otelo, o

    filme foi um sucesso de pblico, mas, infeliz-

    mente,tantoonegativoquantoascpiasforam

    perdidas.

    Aquestoracialfoiabordadasemfiltrosnofilme

    Tambm Somos Irmos(99),escritoedirigido

    pelamesmadupla.Rompendootabudademo-

    craciaracial,que,aindahoje,recomendanose

    tratardecores,raaeracismo,pelomenosem

    pblico.Ofilmetratadopreconceitoracialdire-

    tamenteesemrodeios. Algunspersonagenssomovidospormotivaes raciais. Segundodois

    dosseusrealizadores,aintenoeraabordaro

    racismode frente:

    AlinorAzevedo:(...) E Tambm Somos Irmos era um

    filme simptico, que encarava o problema racial. E

    encarava de frente, no , Otelo?

    GrandeOtelo:, realmente. Eu me lembro de uma

    cena do Agnaldo Camargo, j falecido (...) Ele era

    criado por uma famlia rica e eu, criado no morro.

    miolo Jeferson De okok.indd 32 29/5/2008 21:14:01

  • AlinorAzevedo:E voc no se conformava que ele

    tivesse aquela vida (...) Voc queria a rua (...)

    Grande Otelo: Eu achava que ele tinha que ter a

    mesma vida que eu, porque era negro tambm. Era

    esse o problema.

    Alinor Azevedo: , era esse o problema. E ele era

    estudante de direito. Eu me lembro at que na for

    matura, que ns fizemos no Fluminense, ele convida

    a moa branca, da casa em que ele se criou, para ser

    a madrinha. E ela aceita. Mas, no baile, ela tirada

    por outro cavalheiro, mais importante, e ele fica so

    brando. Ento, ele volta para casa, de terno branco,

    que a mulata do morro havia passado de ltima hora

    e, como estava uma noite chuvosa, ele tem que pas

    sar pela lama. Os ps vo entrando na lama, a cala

    branca vaise lameando, at que ele chega ao seu

    quarto, com uma lmpada acesa, mergulha na cama

    e chora. Essa cena foi muito comentada... Comoveu

    o pessoal (...)

    Outrasingularidadedestefilmedeve-seaofato

    determantidoumacomunicaocomoTeatro

    ExperimentaldoNegro(TEN).OTENfoioque

    miolo Jeferson De okok.indd 33 29/5/2008 21:14:02

  • houvedemais representativona tematizao

    racialnoteatroentreasdcadasde0e50.A

    histriaabordadanofilmeerasemelhanteaos

    enredosdaspeasqueogrupoencenava.Alm

    doque, seusprincipaisatores trabalharamno

    filme,como:RuthdeSouza,AgnaldoCamargo

    eMarinaGonalves.

    Entretanto, a proximidade no garantiu a

    boarecepodepoisdofilmepronto.Ojornal

    Quilombo, publicado pelo grupo, dedicou-lhe

    apenasduaspequenascolunas.Umaduranteas

    filmagenseaoutra,quandoGrandeOtelorece-

    beuoprmiodemelhoratordaAssociaode

    CrticosCinematogrficos.Emumadelasojornal

    destacaacoragemassaz elogivelemtratardo

    temadonegro,emborasemgrandeprofundi-

    dade.Anosdepois,odiretorJosCarlosBurle

    comentariaarecepoaofilme:

    O filme no foi um sucesso de bilheteria por um

    simples motivo: os brancos se sentiam inconfortavel

    mente atingidos com a denncia, e os negros no se

    encontravam suficientemente politizados para alcan

    miolo Jeferson De okok.indd 34 29/5/2008 21:14:02

  • 5

    ar a sua mensagem. Os militantes, como Abdias do

    Nascimento e a Ruth de Souza, me parabenizaram

    efusivamente. Lamento que tenham se abstido de

    manifestaes pblicas. Quanto crtica, a Associao

    Brasileira de Crticos Cinematogrficos lhe outorgou

    o premio de melhor filme nacional de 1949.

    2.2 - Vera Cruz e adjacncias: o negro como

    representao do arcaico

    A trajetria da atriz Ruth de Souza sintetizapartedomodocomoonegrofoiretratadonos

    filmes.

    RuthnasceuemEngenhodeDentro,noestado

    doRiodeJaneiro.Aindacriana,mudou-secom

    ospais,SebastioJoaquimSouzaeAladePinto

    Souza,paraumapequenapropriedadenoEsta-

    dodeMinasGerais.Apsamortedopaimuda-se

    paraacidadedoRiodeJaneiro,agoracomos

    irmosMariaeAntonio.

    Em95,comapenas7anos,ingressanoTea-

    troExperimentaldoNegro(TEN)paratrabalhar

    napeaO Imperador Jones,escritaporEugene

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  • 6

    ONeill,primeiramontagem independentedo

    grupo. Elarecordaessesprimeirospassos:

    Na minha carreira, os primeiros passos, o primeiro

    caminho, foi com o Teatro Experimental do Negro.

    Quando comeamos com o TEN, em 1945, foi quase

    tudo como um milagre. Eu me dirigi ao TEN porque

    naquela poca no havia escolas de teatro. Eu no sa

    bia por onde comear (...) Quando havia uma pea que

    tinha um personagem negro, eles pintavam de preto

    um dos atores brancos. Ento o Abdias do Nascimento

    resolveu criar o TEN. Na verdade, criamos juntos, eu,

    Abdias, Aguinaldo Camargo e muitos outros.

    Natrupenegra,atuanaspeas:Todos os Filhos

    de Deus Tm Asas(95),O Moleque Sonhador

    (96),ambasescritasporEugeneONell;O Fi

    lho Prdigo(97),deLcioCardoso;Aruanda

    (98), de Joaquim Pedro;Terras do Sem Fim

    (97),deJorgeAmado;FilhosdeSanto(99),

    de JosdeMoraesPinhoeCalgula (99),de

    AlbertCamus.ForadoTENtrabalhanaspeas

    Mensagem sem Rumo(98),deAgostinhoOla-

    vo;O Balo que Caiu no Mar (99),deOdlio

    miolo Jeferson De okok.indd 36 29/5/2008 21:14:02

  • 7

    CostaFilho;Vestido de Noiva(95),deNelson

    Rodrigues e Orao Para uma Mulher Negra

    (959),deWilliamFaulkner.

    Em950,comumabolsadeestudosdaFundao

    Rockefeller,viajaparaosEUA.Lestudateatro

    noKaramuHouseemCleveland,Ohio,etrabalha

    comoassistentededireo,contra-regraedire-

    toradepalco.AtuanapeaDark of the Moon

    deH.RichardsoneW.Burney.Emseguidapassa

    doismesesemNovaYorknaAmericanNational

    TheaterandAcademyemaisdoismesesesta-

    giandonaHarvardUniversity.

    AestrianocinemasedeunosfilmesdaAtln-

    tida. Trabalhou em Terra Violenta (98), de

    Eddie Bernoudy, Falta Algum no Manicmio

    (98)eTambm Somos Irmos (99),ambos

    deJosCarlosBurleeASombradaOutra(99),

    deWatsonMacedo.

    Em95passouaintegraroelencopermanente

    daCompanhiaCinematogrficaVeraCruzacon-

    vitedeAlbertoCavalcanti,primeirodiretorgeral

    daempresa.NacompanhiatrabalhouemTerra

    miolo Jeferson De okok.indd 37 29/5/2008 21:14:02

  • 8

    Sempre Terra (95),ngela (95)eSinh Moa

    (95),ostrsdirigidosporTomPayne,sendo

    oltimoco-dirigidocomOsvaldoSampaio.Seu

    derradeirotrabalhofoiemCandinho(95),de

    AblioPereiradeAlmeida.Otrabalho nosfilmesdirigidosporPaynerendeu-lheoreconhecimen-

    todacrtica,daqual recebeutrsprmiosde

    melhoratrizcoadjuvante.

    ApsofechamentodaVeraCruz,Ruthatuou

    aindaemtrsproduespaulistas: Quem matou Anabela? (956),deD.A.Hamza; Osso, Amor e Papagaio (957),deCarlosA.deSouzaBarroseCsarMmolo Jr.;Ravina (959),deRubem

    BiforaeFronteiras do Inferno (959),deWalter

    HugoKhouri.

    Emborasempremuitoelogiadaecomexperin-

    cianoteatroecinema.Ruthnoprotagonizou

    nenhumfilmedaCompanhia.Suaatuaolimi-

    tou-se a papis secundrios e estereotipados:

    a criada solteirona, agregada e empregada

    da casa. Todos sem origem familiar, como

    historicamentea regranas representaeses-

    miolo Jeferson De okok.indd 38 29/5/2008 21:14:02

  • 9

    tereotipadasdonegro.Emngelainterpretou

    a empregada alcoviteira (Divina) que prev o

    futuroporcartas,auxiliandoapatroavilarea-

    lizarseusobjetivos.Ousodeatoresnegrospara

    interpretarpersonagensassociadosafeitiariae

    aadivinhaoaparece,jnoprimeirofilmeda

    companhia,Caiara,(950),porintermdioda

    personagemDonaFelicidade.

    EmCandinho,RuthfazapersonagemManuela,

    cozinheira da fazenda. Sobre sua atuao no

    cinemadeclaroudeformalcida:

    (...) se formos juntar todos os papis que fiz no

    cinema no sei se d duas horas de projeo. (...)

    Conquistei muita coisa na minha carreira sem me

    preocupar se o papel era pequeno ou grande. No

    importa o trabalho que vou fazer. Todo filme, toda

    pea e toda novela que fao, pode ter o elenco que

    for, mas aquele trabalho meu. A pea minha!

    Estou fazendo a minha pea! A minha novela!

    Tamanhadedicaonoiriapassardespercebi-

    da.EmSinh Moa(95)elafez,reconhecida-

    mente,suamaioremelhoratuaonocinema.

    miolo Jeferson De okok.indd 39 29/5/2008 21:14:02

  • 0

    InterpretouaescravaSabinaquefaziaparro-

    mnticocomoescravorebeldeFugncio.Ruth

    realizaumamagnficainterpretaoapartirde

    umpapelpequeno,quasesemfalas.Almdo

    reconhecimentodacrtica,foiindicadaparao

    prmiodemelhoratrizno festivalde cinema

    deVeneza.Aquivaleaobservaoquefizemos

    acima,quantoresistnciacontraoesteretipo

    quealgunsatorespodemempreenderemdeter-

    minados papis, subvertendo a representao

    estereotipada.

    Sinh Moaummelodramahistricoeserve

    demodeloparaentendermoscomoaVeraCruz

    tratoudaquestoracial.Nelearepresentao

    donegroestmediadapelaideologialiberalque

    animavaosfundadoresdaCompanhia.

    Ofilmeumaadaptaodolivrocomomesmo

    nomeescritoporMariaDezzonePachecoFer-

    nandez(esposadeumdosbanqueirosacionistas

    daCompanhia)econtaahistriadeSinhMoa

    (ElianeLage),quevoltadacidadedeSoPaulo

    paraafazendadospais,napequenacidadede

    miolo Jeferson De okok.indd 40 29/5/2008 21:14:02

  • Araruna.Construdacomouma jovemmulher

    moderna,romnticaeabolicionista,durantea

    viajemdetremconheceRodolfo(AnselmoDu-

    arte),comquemtemumpequenoflerte.Ocasal

    formaoncleocentraldahistria.

    Nafazenda,opaideSinhMoa,CoronelFerrei-

    ra,enfrentaproblemascomasrevoltasefugas

    deescravos.Umaorganizaoabolicionistaatua

    secretamentepromovendootransportedoscati-

    vosparaosquilombos.ArefernciaaosCaifazes

    ficaporcontadopersonagemdeRodolfoque

    noite,trajandochapudeabaslargasecapa

    preta,percorreasfazendaslibertandoosescra-

    vos.Muitoscrticos,deformajocosa,associam

    essafiguraaopersonagemZorro.

    Sinh Moa contrasta e pe em conflito dois

    mundossociais:urbanoversusrural,cidadede

    SoPauloversusAraruna,trabalholivreversus

    trabalhoescravo,modernoversusarcaico,jovem

    versusvelho,eassimsucessivamente.Dentroda

    CasaGrandeopaiautoritrio,CoronelFerreira,

    amesubmissa,DonaCndidaeatiasolteirona,

    miolo Jeferson De okok.indd 41 29/5/2008 21:14:02

  • Clara,estoassociadosaoprimeirotermo.

    JSinhMoaeRodolforepresentamaurbani-

    dadeealiberdade.Emboraacidadenoapare-

    a,humasriedeobjetosassociadosaosdois

    personagensquefiguramavidamodernacomo

    livros,objetosmecnicos,relgios,caixasde m-sicas,pianoe,principalmente,alocomotivaonde

    osdoisseencontrampelaprimeiravez.

    Ospersonagensnegroscompemaescravaria,

    excetoBenedito,mulatocruel, capatazda fa-

    zendaecapito-do-mato.Ficaregistradodesde

    jqueBeneditoeodelegadodeAraruna,Ca-

    margo,soosnicosvilesdahistria,poisso

    movidos por uma crueldade irracional contra

    oscativos.Ofilmerealizaassimumaespciede

    indenizao simblica ao fazendeiro Ferreira,

    umavezqueonusdarepresentaorecaisobre

    onegrocapito-do-mato.

    Josescravosestodivididosentreosquehabi-

    tamacasagrandeeosdasenzala.Osprimeiros

    soextremamentedceisecontraasrevoltas.

    Simbolizamomundoescravocrataetudooque

    miolo Jeferson De okok.indd 42 29/5/2008 21:14:03

  • eletemdeacomodao,submissoeconserva-

    dorismo.So representadospordoispersona-

    gensvelhos,MathiaseVirgnia,quelembramos

    tiposdocinemanorte-americano:oUncleTom

    eaMammie.

    Nasenzalaestoosjovensrevoltosos,Justinoe

    Fugncio,lderesdoscativos.Estescontrastam

    comosescravosdacasagrande,tantopelaida-

    dequantopelaposturaativa.Aquiumdadoda

    maiorimportncia,ofilmenoeximeosescravos

    dalutapelaliberdade.Elesnosomostrados

    trabalhando, mas se rebelando e sendo casti-

    gados.

    Noentanto,talcomopostopelofilme,arebelio

    escravaineficazporqueespontnea,explosiva

    esemplanejamento.Levandoassimaderrotae

    oacirramentodoscastigos.Oplanejamentoea

    racionalidadedasrebeliesobradosabolicio-

    nistasbrancos.OfilmeIgnoracompletamente

    apresenadeabolicionistasnegroscomoJos

    do Patrocnio e Luiz Gama e passa longe da

    historiografiamaisrecentequeconstataapar-

    miolo Jeferson De okok.indd 43 29/5/2008 21:14:03

  • ticipaointensaeativadosnegrosnoprocesso

    abolicionista.

    Haindaumdiscursopr-branqueamentoque

    causaestranhezaumavezquenohnenhum

    casalinter-racialnofilme,anoserarefern-

    ciapejorativaqueodelegadoCamargofazao

    fatodeamedeBeneditoserumaescrava.O

    discursopartedeRodolfodefendendoJustino

    no tribunal, onde est sendo julgado por ter

    lideradoumarevoltafracassada:

    (...) No matars dizem as tbuas do senhor e a

    legislao dos homens. No entanto filhos de Deus

    como ns que nesta gerao s se diferenciaram de

    ns pela cor, mas que nas geraes futuras a ns se

    igualaro tambm na cor (...).

    Ospersonagensbrancosdetmomonoplioda

    fala.Osnegrosficamnamaiorpartedofilme

    emsilncio.Humfortepaternalismoexpresso

    nasprimeirasimagens.Logonoinciodofilme,

    aindaduranteaapresentaodoscrditos,ve-

    mosumhomemnegrocorrendonamata,dorso

    nu,descalo,rostoofegante:umescravo.Ele

    miolo Jeferson De okok.indd 44 29/5/2008 21:14:03

  • 5

    encontraumalinhadetremepassaacorrerna

    suadireo.Emseguidapulaparadentrodeum

    buracoembaixodostrilhos,espciedeescon-

    derijo.Umalocomotivapassaporcima.Dentro

    delaviajamSinhMoaeRodolfo.Ametfora

    paraldebvia:oprogressodeveprotegere

    conduziraliberdade.Ouseja,aAboliopro-

    dutodaexpansodaracionalidadeecapacidade

    de planejamento branca, moderna, mecnica,

    citadinaeliberal.AburguesiapaulistanadaVera

    CruzimprimesualeituradahistriadoBrasil.

    Oeventonopoderiasermaisbemescolhido,

    aAbolio simbolizao fimdotrabalhoescra-

    voeo inciodo trabalhoassalariado, smbolo

    maiordeumaburguesiaquesequerialiberal.

    Nessa leitura positivista da histria que ope

    cidade versus campo e, por extenso, sudeste

    industrializadoemodernoversuszonasrurais

    arcaicas,osnegrossoassociadosaoarcaicoe

    certaanomaliasocialqueostornamincapazes

    deumaaoplanejadaracionalmente.

    ApedagogiadosrealizadoresexpressaemSinh

    miolo Jeferson De okok.indd 45 29/5/2008 21:14:03

  • 6

    Moa muito clara (demais at!): os negros,

    comosmbolodoarcaico,deveriamsertreina-

    dos e preparados para o trabalho planejado

    edisciplinadoquea liberdadeadvindacomo

    capitalismoexigiria.

    2.3 - O sambista, o operrio, o malandro e o

    favelado: A voz do morro sou eu mesmo. Sim

    senhor.

    O negro povo no Brasil. Afrasedosocilo-gonegroGuerreiroRamos(995).Guerreirocom

    passagenspeloTeatroExperimentaldoNegro

    (TEN)epeloInstitutoSuperiordeEstudosBrasi-

    leiros(Iseb)foiumdosprincipaisformuladores

    donacionalismonadcadade50.Inicieiotexto

    citandosuafrasefamosaporqueelatraduzde

    formasimplesasrepresentaesdonegronos

    filmes realizados pelos cineastas identificados

    comaesquerdanacionalista.

    Nadcadade50,omeiocinematogrficoestava

    polarizado.Deumlado,estavamaquelesque

    advogavamumcinemacomercial,realizadoem

    estdios e voltados para o mercado externo.

    miolo Jeferson De okok.indd 46 29/5/2008 21:14:03

  • 7

    Seusprincipaismembroseramoriginriosdos

    estdios,especialmentedaVeraCruz.Nooutro

    plo, estavam os adeptos do que entendiam

    porcinemapopular.Estes,quasetodosmuito

    jovens,eramfiliadosousimpatizantesdoPar-

    tidoComunistaBrasileiro (PCB).Comungavam

    dacrenadequeparacooptaropblicopara

    osseusfilmes,deveriamrealizarumcinemaque

    seaproximassedopovo.

    Nointeressaaquiesmiuaroqueessescineastas

    entendiamporpovo.Observandoosfilmeseal-

    gunsdepoimentos,verificamosquesereduzem

    aunspoucostipos:ocampons,otrabalhador,

    ofavelado,omigrante,onordestino,osambista

    eofavelado.

    DirigidosporNelsonPereiradosSantos,Rio 40

    Graus (955) e Rio Zona Norte (957), foram,

    seguramente,osfilmesquemelhorrepresenta-

    ramopensamentocinematogrficodaesquerda

    nacionalistadosanos950.Oprimeirocontaa

    histriadecincomeninosnegrosfaveladosque

    descemomorroondemoramparavenderamen-

    miolo Jeferson De okok.indd 47 29/5/2008 21:14:03

  • 8

    doimnospontostursticosdacidade.Apartir

    delesofilmecruzaoutrashistriasquevose

    alternandodesituaoemsituao.Oconjunto

    acabaporconstruirumantidaseparaoentre

    ospersonagensdacidadeeosdomorro.Entre

    osfaveladospredominampersonagensnegros

    e mestios e suas historias de sobrevivncia

    cotidianae solidariedade:odesempregado,a

    mulhermiserveldoenteauxiliadapelavizinha

    amiga,arainhadaescoladesambaeseuna-

    moradooperrio,auniodasduasescolasde

    samba: Unidos do Cabu e Portela, a unio

    dosmeninosparavenderamendoimecomprar

    aboladefutebol.

    J a representao da classe mdia branca

    nodasmaisedificantes.Sodescritoscomo

    individualistas, arrivistas e hipcritas. Nela h

    oplayboy depraiaquequer seaproveitarda

    namoradagr-fina,afamliaqueofereceafilha

    aopolticocorruptoparaconseguirvantagens,

    ocartolaeotcnicoqueexploramosdoisjo-

    gadoresdefutebol,osturistas,funcionriose

    passantes indiferentes ao drama vivido pelos

    miolo Jeferson De okok.indd 48 29/5/2008 21:14:03

  • 9

    garotosvendedoresdeamendoim.

    Desdeoinicioofilmeassumeopontodevista

    dos moradores do morro. Depois de algumas

    tomadasareasemqueapresentaacidadedo

    RiodeJaneiroeseuspontostursticos(aosomde

    A Voz do Morro,letraemsicacompostaporZ

    KtiearranjadaporRadamsGnatalli)acmera

    aterrizanafavela.Apartirdaisomoslevadosa

    nosidentificarcomosfaveladosevivenciaros

    seusdramas.

    Tantosnegrosepobresnatelanoiriampassar

    despercebidos.Ofilmefoicensuradopelochefe

    doDepartamentoFederaldeSeguranaPblica

    (DFSP) chamado sugestivamentedeDr.Cortes.

    NaverdadecoronelGeraldodeMenezesCortes.

    Segundoeleofilmesdestacavaosaspectosne-

    gativosdasociedadecarioca,mostravaumRiode

    Janeirodesorganizadoemiservel,almdoque,

    acreditava,nacidadenuncahaviafeito0graus.

    NelsonPereira, recordando,destacaoquese-

    gundoeleincomodavaoscensores:

    miolo Jeferson De okok.indd 49 29/5/2008 21:14:03

  • 50

    Pra direita era um filme que tinha muito negro,

    muito pobre, muita criana descala. E o cinema no

    podia pintar a realidade, tinha que fazer propaganda.

    E naquele tempo o Rio tinha 200 mil favelados, era

    um aspecto negativo do Rio. No era essa exploso

    social que hoje. As artes, especialmente o cinema,

    com seu poder, no podiam lembrar a realidade.

    Reagindoproibio,houveamplamobilizao

    pelaliberaodofilmedaqualparticiparamin-

    telectuaisbrasileiroseestrangeirosdoportede

    JorgeAmado,JacquesPrevert,GeorgesSadoul.

    Acampanhaassumiuumdiscursocadavezmais

    polticoepassouaserassociadatentativagol-

    pistaplanejadapeladireita.Amesmaquelevou

    Getlioaosuicdiomesesantes,entenda-se,Car-

    losLacerdaeseusaliadosdaUnioDemocrtica

    Nacional(UDN).JorgeAmadoescreveumartigo

    ondefazaassociaoentreaproibiodofilme

    eatentativagolpista:

    Rio0Graus precisa ser exibido. Porque um bom

    filme obra de talento e de sensibilidade, honesto,

    brasileiro, patritico, e porque, ao proibilo, esto os

    miolo Jeferson De okok.indd 50 29/5/2008 21:14:03

  • 5

    homens do golpe iniciando sua luta frontal (...) contra

    a inteligncia brasileira. (...) A luta contra o golpe

    uma luta de todo o povo brasileiro, por conseqncia

    uma luta dos intelectuais. Ofilmesserialiberado

    comapossedeJuscelinoKubitschek.

    PorvriasrazesRio 40 Grausfoiummarconoci-

    nemabrasileiro.Primeiramente,porquesetornou

    umarefernciaculturalepolticaimportantepara

    ocinemabrasileirodaqueleperodo.Estedeixava

    deserapenasmeiodeentretenimentofcilparaas

    massas,comoachanchada,ouparaaelite,como

    queriaaVeraCruz,epassavaaseruminstrumento

    dereflexosobreosproblemasdopovo.Depois,

    antecipoutipoumdecinemaedeabordagemda

    problemticasocialquenosanos960setornaria

    caraaoscineastasdoCinemaNovo:apobreza,

    osubdesenvolvimentoalutadeclasseseoutras

    mazelas.Finalmente,sobretudoparaoquenos

    interessaaqui,otratamentodadoaonegrofugiu

    completamenteaocorrentenocinemabrasileiro

    ataquelemomento, tantonos filmesdaVera

    Cruzquantonasdachanchada.Sobreospapis

    paranegrosnosfilmesdeclarouNelsonPereira:

    miolo Jeferson De okok.indd 51 29/5/2008 21:14:03

  • 5

    Debatamos muito os preconceitos terrveis que havia

    no cinema em So Paulo; por exemplo, o preto no

    aparecia nos filmes a no ser em papis determinados,

    estereotipados para os pretos, como Ruth de Souza,

    que era sempre empregada. Isso era preconceito, era

    o preto enxergado do ponto de vista do branco bur

    gus, era caracterstica do cinema norteamericano

    transportada para o cinema brasileiro.

    Noentanto,aidealizaonoeraprivilgioda

    VeraCruze Rio 40 Grausproduziutambmuma

    visoidealizadadopovosemprebom,honesto,

    solidrio, alegre e trabalhador. Mais tarde o

    prpriocineastareconheceriaopreconceito:

    Fiquei um ano convivendo com o pessoal do morro.

    Vi cerimnias, vi despachos, sabia quando era o dia

    das almas, mas realmente no tomei conhecimento,

    pois achava que aquilo no fazia parte da realidade.

    A realidade para mim era esquematizada em outros

    nveis. Eu estava procura de relaes sociais. Vejo que

    a minha posio era preconceituosa e fazia parte de um

    esquema de opresso das outras formas religiosas, o que

    comeou no Brasil com o primeiro colonizador.

    miolo Jeferson De okok.indd 52 29/5/2008 21:14:04

  • 5

    Rio, Zona Norte (957) aprofunda a temtica

    do filme anterior, centrando a histria nas

    recordaesdopersonagem feitoporGrande

    Otelo,EspritodaLuzSoares.Espritooutro

    faveladoeparasobrevivervendeseussambas

    paraparceirosqueosnegociamjuntosrdios

    egravadoras.Osambistaametforadopovo

    bom,generoso,masingnuo,semconscincia

    daexploraoaqueestsubmetido.Aconsci-

    ncia vir mais tarde, depois de abandonado

    pelamulher,verofilhoserassassinadoeterseu

    sambaroubado.Aletradoseultimosamba

    reveladoradessanovaconscincia:

    Samba meu, que do Brasil tambm. Esto queren

    do fazer de ti um desprezado. Joo ningum. S o

    morro no te esqueceu, para ns, o samba no mor

    reu. Tens na Mangueira e na Portela, no Salgueiro e

    na favela tua representao.

    Nofinaldofilme,depoisdamortedeEsprito,

    saindodohospital,opersonagemrepresentante

    daclassemdia(retratadacomodecadenteepa-

    ternalista)perguntaoutromoradordomorro:

    miolo Jeferson De okok.indd 53 29/5/2008 21:14:04

  • 5

    Voc conhece os sambas do Esprito?Ooutro

    responde:Um pouco. Se voc quiser podemos ir

    l no morro. Muita gente conhece os sambas do

    compadre.Moraldahistria:amensagemdo

    sambistapermanecernamemriapopular.

    Nos dois filmes a presena predominante de

    negrosnasfavelasestemfasecomaspesquisas

    sociolgicasdapoca.

    Do ponto de vista da representao racial os

    doisfilmesavanamquandocomparadoscom

    oscasosmaisestereotipadosdachanchadaeda

    VeraCruz.Masmuitopoucoquantotemati-

    zaodoracismosetomarmoscomoreferncia

    umfilmecomoTambm Somos Irmos(99),

    porexemplo.Emenosaindasecomparadoscom

    aspeasencenadaspeloTeatroExperimentaldo

    Negro(TEN).

    Alis,comexceodofilmedeBurle,ocinema

    desseperodonoabsorveuasreflexesacumu-

    ladaspeloTEN.Nemmesmoosfilmesdirigidos

    pelosdoisnicosrealizadoresnegrosdapoca:

    JosRodriguesCajadoFilhoeHaroldoCosta.

    miolo Jeferson De okok.indd 54 29/5/2008 21:14:04

  • 55

    3 - Cajado Filho: um mestre das chanchadas

    JosRodriguesCajadoFilhonasceunoRiode

    Janeiroem9efaleceunamesmacidadeem

    966,desenvolveuumacarreiracontnuacomo

    cengrafo e roteirista. Seu primeiro trabalho

    foinofilmemusical,Astros em Desfile,dirigido

    porJosCarlosBurleem9,noqualfezace-

    nografia.Trabalhouemmaisde0produes,

    contabilizandoemmdiademaisdedoisfilmes

    porano,cifranadadesprezvelparaumacine-

    matografiamarcadaporciclotimias.

    Nasdcadasde0e50fezcenografiaeroteiro

    paraosprincipaisdiretoresdachanchada,entre

    elesJosCarlosBurle,WatsonMacedo,Carlos

    Manga e Moacyr Fenelon. Na empresa deste

    ltimo,aCineProduesFenelon,escreveu,fez

    cenografiaedirigiuseuprimeirofilmeEstou A,

    em98.Em99e950dirigiu:Todos por Um

    (98)eO Falso Detetive (950),ambosprodu-

    zidosporFenelon.PelaAtlntidadirigiriamais

    doisttulos:E O Espetculo Continua(958)eA

    Vem Alegria(959).

    miolo Jeferson De okok.indd 55 29/5/2008 21:14:04

  • 56

    OfatodeCajadosernegrotevealgumainflun-

    cianosfilmesemquetrabalhou,principalmente,

    como diretor? Aqui nos deparamos com um

    problemadedifcilsuperaoumavezqueos

    filmesestodesaparecidos. JooCarlosRodri-

    gues(00)enfrentaoproblemaefazalgumas

    conjecturas.Sugerequeaanlisedosroteiros

    escritospodemoferecerpistasquerevelem(ou

    no)algumorgulhooucomplexoassociados

    cor.Escreve:

    OPetrleoNosso e OHomemdoEsputinique tra

    tam de um casal provinciano que possui algo de muito

    valor (poos de petrleo / satlite artificial sovitico)

    sendo alvo das armadilhas dos espertalhes que ten

    tam enganlos. Nos dois filmes o casal protagonista

    (Violeta Ferraz e Pituca / Zez Macedo e Oscarito)

    interpretado por atores brancos, mas a pardia (ou

    metfora) da ascenso social um assunto muito per

    tinente aos negros de maneira geral. Imaginemos no

    seu lugar um casal de crioulos (Grande Otelo e Vera

    Regina) e veremos como atrs das deliciosas comdias

    inconseqentes, talvez problemas graves estivessem

    sendo questionados nas entrelinhas.

    miolo Jeferson De okok.indd 56 29/5/2008 21:14:04

  • 57

    Oressentimentopareceumachaveinteressante

    parapensarmosaquestoracialnosseusfilmes.

    Alis,elaajudaaexplicaraobrademuitosoutros

    artistasnegrosemulatosnasmaisdiversasreas.

    Osseusfilmes,bemcomoaquelesemquetraba-

    lhou comocengrafoou roteirista, seguemas

    convenesdeumgneroqueeleajudouafundar:

    asortecomofatordedistinodospersonagens,a

    representaodomundodoespetculopormeio

    dapardia,acarnavalizaoapartirdojogode

    mscarasedisfarces,aesculhambaodaaltacul-

    tura,osesquemaspolarizadoscommocinhosevi-

    les,aintroduodenmerosmusicais,aoposio

    entreocampoeacidade,amalandragem,etc.No

    hexageroalgumemafirmarqueCajadofoium

    dosinventoresdachanchada.Oseuressentimento

    aconscinciadessaimportncia.

    4 Haroldo Costa: na trilha das Brasilianas

    HaroldoCostanasceuemdemaiode90no

    bairrodaPiedadenacidadedoRiodeJaneiro.

    Adolescente, fez poltica estudantil e militou

    noGrmiodoColgioPedroIIenaAssociao

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  • 58

    Metropolitana dos Estudantes Secundaristas

    (Ames).Com7anosfoi indicadopelocolega

    Moiss Veltman e comeou a trabalhar como

    datilgrafonardioMayrinkVeiga.Lentraem

    contatocomSadiCabral,CyroMonteiro,maes-

    troZPereiraentreoutrosimportantesnomes

    damsicanaquelemomento.

    Em98,aproxima-sedoTeatroExperimentaldo

    Negro(TEN),paraajudarnoscursosdealfabeti-

    zaodeadultosmantidospelogrupo.Passaen-

    toatrabalharcomocontra-regranosensaiosda

    peaOFilhoPrdigo,escritaporLcioCardoso

    especialmenteparaoTEN.Poucotempodepois

    estriacomoatornamesmapea.Emseguida

    trabalhaemAruanda(98),deJoaquimRibeiro

    eCalgula(99),deAlbertCamus.Estaltima

    foi representada diretamente para o escritor

    durante sua estadia no Brasil. O contato com

    osartistasquecirculavamemtornodoTENfoi

    importanteparaHaroldo.Elerecorda:

    Havia vrias pessoas a intelectualidade da poca

    envolvidas nesse movimento, que tentava revelar

    miolo Jeferson De okok.indd 58 29/5/2008 21:14:04

  • 59

    atores e atrizes negros sobretudo porque o repertrio

    de ento restringia muito a participao negra, quase

    sempre acidental e estigmatizada, quando ocorria

    como a apario de um escravo, carregando uma

    bandeja, em uma cena de Senhora, de Jos de Alencar

    (...) Estreamos no Teatro Ginstico. E a comeou de

    fato minha aproximao maior com o pessoal: Ruth

    de Souza, Manuel Claudiano Filho todos os que mili

    tavam no teatro da poca. Brutus Pedreira, que passei

    a conhecer mais de perto, era fabuloso, um homem

    de teatro integral no sentido exato da palavra e dava

    muito apoio ao Abdias, que dirigiu Ofilhoprdigo.

    Fazia parte do grupo Os comediantes. Santa Rosa,

    cengrafo e pintor, era um sujeito absolutamente

    formidvel, um mulato assumido. Foram dele os

    cenrios de VestidodeNoivae de OFilhoPrdigo.

    E tinha Aguinaldo Camargo, que era comissrio de

    polcia e timo ator, talvez um dos maiores que j vi

    em minha vida.

    Em99,devidoadivergnciascomAbdiasdo

    Nascimento, no qual reconhecia certo autori-

    tarismo, retira-se do TEN e funda com outros

    artistasoGrupodosNovos.Delefaziamparte

    miolo Jeferson De okok.indd 59 29/5/2008 21:14:04

  • 60

    ofotgrafoJosMedeiros,WanderleyBatista,

    NatalinoDionsioeAhiltonConceio.Onovo

    grupoplanejaentoumespetculoteatralpara

    contarahistriadonegronoBrasilintitulado

    Rapsdia de bano. Ensaiando nos fundos de

    umalivrariapertencenteMiessioAskanazi,logo

    chamamaatenodeintelectuaiseartistas.O

    cineastaAlbertoCavalcanti,hpoucoregressado

    daEuropa,passaadivulgarogrupoeinveste

    comercialmentenapreparaodapea.Opo-

    etaeescritorSolanoTrindadeeodramaturgo

    Ziembinski escrevem pequenas inseres para

    seremincorporadasaotexto.

    Comosucessoalcanado,ogrupoparteemex-

    cursoparaaAmricaLatinaseapresentandona

    Argentina,Uruguai,Venezuela,Chileeoutros

    pasesdocontinente.Naturndecidemmudaro

    nomedogrupoquedeTeatroFolclricoBrasilei-

    ro,passaasechamarBrasilianas.Embarcampara

    aEuropaeseapresentamemvriascidadescomo

    Barcelona, Londres,Madri, Paris, Lisboa,entre

    outras.Nototalogrupopermaneceuquatroanos

    emturnapresentando-seem5pases.

    miolo Jeferson De okok.indd 60 29/5/2008 21:14:04

  • 6

    EmParisaBrasilianasficoutrsmesesemcartazno

    TeatroEtoille,temposuficienteparaHaroldofazer

    umcursodeetnologiamusicalministradopeloan-

    troplogoRogerBastidee,principalmente,conhe-

    ceroentofuncionriodaembaixadabrasileira

    epoeta,VinciusdeMoraes.Ocursoserviriapara

    aprimorarotextodoespetculo,jocontatocom

    Vinciusteriadesdobramentosartsticosfuturos.

    Opoetaapresentou-lheoprimeiroatodotexto

    parateatro,Orfeu da Conceio,desuaautoria.

    DevoltaaoBrasilHaroldoprotagonizariaapea

    nopapeldeOrfeuacompanhadodasatrizesLea

    Garcia(Mira)eDircePaiva(Eurdice).

    Orfeu da Conceioestreouem5dejaneirode

    956noTeatroNacionaldoRiodeJaneirocom

    msicasdeTomJobimecenriosdeOscarNie-

    meyer.Ahistriabaseava-senatragdiagrega

    domitodeOrfeu,msicodaTrciaque, com

    sualira,tinhaopoderdeencantarosanimaise

    estabelecerumaperfeitacomunhodohomem

    comanatureza.Adaptadaparaumafavelaca-

    rioca,nofaltavamassociaescomocarnaval

    easescolasdesamba.

    miolo Jeferson De okok.indd 61 29/5/2008 21:14:05

  • 6

    Aps Orfeu da Conceio, Haroldo atuou no

    teatro,trabalhoucomojornalista,dirigiumusi-

    caisefezcarreiracomodiretordeprogramasna

    televiso.Escreveuquatrolivrossobreahistria

    dosambaedocarnavalcarioca:Salgueiro, aca

    demia de Samba(98),Na Cadncia do Samba

    (000),Cem Anos de Carnaval no Rio de Janeiro

    (00)eAs Escolas de Lan(00).Nadcadade

    80escreveuolivroFala Crioulo(98),composto

    dedepoimentosdehomens,mulheresecrianas

    sobreaexperinciadesernegronoBrasil.

    Atualmente,emplenaatividade,trabalhaprin-

    cipalmente no carnaval carioca ena televiso

    comocomentarista.Aseguirexploraremosum

    momentopontualnasuacarreiracomodiretor

    eroteiristadecinema.

    5 Pista de grama: a norma como natureza

    Em 957, um ano aps a estria deOrfeu da

    Conceio,Haroldo foi convidadopara traba-

    lharnoprojetodeumfilmeintituladoPistade

    Grama.OprojetoeraencabeadoporWilson

    Nascimento,cronistadeturfedojornalltima

    miolo Jeferson De okok.indd 62 29/5/2008 21:14:05

  • 6

    Hora.Formaramentoumaempresaprodutora,

    aCineclanfilmes,compostaporGenildeVas-

    concelos,JaymedeFariaRocha,HaroldoCosta

    eOtvioAmaral.ComexceodeGenil,todos

    eramestreantesnocinema.Apartetcnicafoi

    entregueaMrioDelRio,experientefotgrafo

    eiluminadormexicano,nessemomentotraba-

    lhandonaTVContinental.HaroldoCostaeJaime

    FariaRocha(esteltimoescritordenovelaspara

    ardioMayrinkVeiga)ficaramencarregadosdo

    roteiroedoargumento.Nodesenrolardapr-

    produoHaroldoacabouassumindotambm

    adireo.Elerecorda:

    Quando o Wilson props a idia do filme o Jaime

    e eu fizemos a sinopse e ficamos encarregados de

    escrever o filme. Para a direo eu sugeri o Jorge Ileli,

    que era um diretor de cinema que fez aquele filme

    AmeiUmBicheiro. Eu conhecia o Ileli dos tempos da

    UNE, ele foi meu contemporneo. Da pensei: Poxa

    o Ileli vai ser o cara ideal! Comeando a escrever o

    filme eu falei com ele, mas no aceitou porque estava

    envolvido com outros projetos (...). A na ausncia ou

    na impossibilidade do Jorge Ileli sobrou pra mim. Eu

    miolo Jeferson De okok.indd 63 29/5/2008 21:14:05

  • 6

    disse que nunca tinha dirigido um filme, mas os caras

    insistiram. Eu pensei: Como que vai ser? Ai o Mrio

    Del Rio que era um fotografo e iluminador experiente

    disse que tecnicamente me ajudava. Eu ficaria encar

    regado da concepo artstica, e podia ficar tranqilo

    quanto concepo tcnica. Bem, a continuamos a

    escrever o roteiro e a pensar no elenco.

    OfilmecontaahistriadeLuciano(PauloGou-

    lart)queescondesuaidentidadederapazrico

    paratrabalharnoharasdePatrcia(YonMa-

    galhes),porquemestapaixonado.Oharas,

    heranadopai,cobiadopordoisvigaristas.

    Nodecorrerdahistria,Lucianolivraamoados

    viles,conquistasuaconfianaerestituiafigura

    masculinaquefaltavanavidadabelarf.Da

    paraoseuamorumpulo.

    Estahistriasimples,quasebanal,tinhaoturfe

    comomote.Amaioriadascenasfoirodadano

    harasFidalgo,emJacarepagu,ondeaequipe

    filmoudurante0dias.Aestriaaproveitouo

    calendriodascorridaseocorreuem8dejulho

    de958,duranteasemanadoGrandePrmio

    miolo Jeferson De okok.indd 64 29/5/2008 21:14:05

  • 65

    Brasil.EmSoPauloofilmeestreoucomottulo

    deUm Desconhecido Bate Porta.

    O Pista de Grama(958)obtevereconhecimento

    dacrtica.Ganhouosprmiosdemelhorfotogra-

    fiaemelhorargumentonoVIFestivaldeCinema

    doDistritoFederalem958.

    Emboraescritoedirigidoporumativistanegro

    com passagem pelo TEN, Pista de Grama no

    apresentaqualquernovidadequantoaopapel

    dospersonagensnegros.Aocontrrio,reproduz

    oesteretipomaistradicionalnoquesereferes

    mulheresnegras,odaempregadinhasilenciosae

    (ou)alcoviteira.ocasodasduaspersonagens:

    Marlene (VeraRegina)que trabalhanobare

    funcionacomoumaespciedecorocomentan-

    doaaodospersonagens,eLeaGarcia,que

    fazasilenciosaempregadadacasaqueapenas

    entra, servee sai.Rigorosamente,estaltima

    nochegasequeraserumapersonagemjque

    notemfala,duraonotempoequalquerca-

    racterizaopsicolgica.Elaarepresentao

    maiscompletadoesteretiposocialdecorrente

    miolo Jeferson De okok.indd 65 29/5/2008 21:14:05

  • 66

    daescravidoqueassociaamulhernegraaos

    papis sociais de servido. Quando indagado

    sobrearepresentaoracialnofilmeHaroldo

    respondeu:

    No meu filme a questo racial aparece e aparece

    mal. Porque dentro da ideologia ou do formato de

    cinema que se fazia na poca, e que era o que eu via,

    no meu filme a nica personagem negra a empre

    gada. E isso uma coisa que eu hoje abomino, quer

    dizer... Foi a Lea que fez a empregada. Uma empre

    gada negra, voc v? Mas era a ideologia da poca

    e era o que eu via na poca. por isso que hoje eu

    no condeno muita gente... Naquele momento era

    normal, todos os filmes que eu via, da Atlntida ou

    fora da Atlntida, a empregada era negra. Ento eu

    botei a negra mais bonita que eu encontrei na poca

    e que era a Lea Garcia no papel de empregada.Hoje

    eu me penitencio, fao minha meaculpa. No foi

    legal. Eu podia ter feito de outra maneira, podia ter

    feito um personagem negro, sei l...

    Odepoimentomuitomaisdoqueapenasuma

    mea-culpa.Eoquemelhorainda,nosajudaa

    miolo Jeferson De okok.indd 66 29/5/2008 21:14:05

  • 67

    pensar.Aoreproduziroesteretipodonegro,o

    cineastanaturalizouumtipoderepresentao

    que era tido como norma pelo meio cinema-

    togrficonaquelecontexto.Asexplicaesde

    normalouoformatodecinemaquesefazia

    napoca,mostramcomoeleacabouinterna-

    lizandoaexperinciasocialdeumcampocuja

    presena do negro e de reflexo racial eram

    mnimas.(Jafirmeiemoutrolugarqueaex-

    perinciadedramaturgiadoTENsimplesmente

    nofoiabsorvidapelocinema.)Enfim,Haroldo,

    comoamaioriadaspessoas,tomouparasianor-

    macomonatureza.Agindoassim,otratamento

    aospersonagensnegrosdificilmentepoderiaser

    outro. A questo racial s comearia a tomar

    formanocinemabrasileiroapartirdaecloso

    doCinemaNovo.

    6 - O Negro como assunto: a questo racial no

    cinema novo

    Emboraotematenhapassadoembrancasnu-

    vensparaamaioriadosanalistas,a represen-

    tao do negro esteve no centro das revises

    miolo Jeferson De okok.indd 67 29/5/2008 21:14:05

  • 68

    crticas, invenesedemarcaode fronteiras

    quederamorigemaoCinemaNovo.Onegro

    easpectosdasuaculturaehistria,aparecem

    retratadosnamaioriadosfilmesdessaprimeira

    fasedomovimentocujatemtica,basicamen-

    te,oNordestesecoedistante,olitoraleafavela.

    oquevemosemfilmescomo:Aruanda (959-

    960),deLinduarteNoronha,Barravento(96),

    deGlauberRocha,Cinco Vezes Favela(96),de

    CarlosDiegues,LeonHirszman,MarcosFarias,

    Miguel Borges e Joaquim Pedro de Andrade,

    Bahia de Todos os Santos (96),deTrigueirinho

    Neto,A Grande Feira(96),deRobertoPires,

    Ganga Zumba(96),deCarlosDiegues.Enas

    produes que, embora rigorosamente no

    pertenamaomovimento,foram-lhescontem-

    porneascomo:O Pagador de Promessas(96),

    deAnselmoDuarteeAssalto ao Trem Pagador

    (96),deRobertoFarias.

    Em965realizou-senaItlianacidadedeGe-

    novaaVResenhadoCinemaLatino-Americano.

    Emumadasmesasrealizadas,ocineastaecrti-

    coDavidNevesapresentousuatese:O Cinema

    miolo Jeferson De okok.indd 68 29/5/2008 21:14:05

  • 69

    de Assunto e Autor Negros no Brasil,naqual

    reconhece o desconhecimento geral quanto

    existncia de filmes realizados por autores

    negros,masdestacaaexistnciadeumcinema

    deassuntonegroeindicaostrsmodoscomoo

    temaveiosendotratadoataquelemomento.

    O filme de autor negro fenmeno desconhecido

    no panorama cinematogrfico brasileiro, o que no

    acontece absolutamente com o filme de assunto ne

    gro que, na verdade, quase sempre uma constante,

    quando no um vcio ou uma sada inevitvel. A

    mentalidade brasileira a respeito do filme de assunto

    negro apresenta ramificaes interessantes tanto no

    sentido da produo e de realizao quanto do lado

    do pblico. O problema pode ser encarado como: a)

    base para uma concesso de carter comercial atravs

    das possibilidades de um exotismo imanentes; b) base

    para um filme de autor onde a pesquisa de ordem

    cultural seja o fator preponderante, e; c) filme indi

    ferente quanto s duas hipteses anteriores; onde

    o assunto negro seja apenas um acidente dentro de

    seu contexto.

    miolo Jeferson De okok.indd 69 29/5/2008 21:14:05

  • 70

    Apostandonoencontroentreocinemadeau-

    toreapesquisacultural,Nevesavanaparaa

    definio de um cinema negro. Para tanto se

    detmnaanalisedecincofilmesrealizadosat

    aquelemomento.Vejamoscomoeleabordao

    temanegroemcadaumdeles.

    Podese ver que, culturalmente, a manifestao de

    um cinema negro quanto ao assunto foi at hoje

    episdica e s tem sido abordada como via de conse

    qncia. Digo foi porque, no panorama cinematogr

    fico brasileiro emergiram cinco filmes que sero, no

    mtodo indutivo que proponho adotar aqui, as bases

    de uma modesta fenomenologia do cinema negro

    no Brasil. Os filmes so: Barravento,GangaZumba,

    Aruanda,EsseMundoMeueIntegraoracial.

    EmtornodeBarravento(96)eGanga Zumba

    (96)oautorarmaamaiorpartedaargumenta-

    o.Segundoele,emboraBarraventonotenha

    sidointencionalmentevoltadoparaadiscusso

    do tema negro, acaba fazendo-o por via in-

    direta.Atravsdascaractersticasnaturaisdo

    realizador (seu inconsciente e temperamento

    miolo Jeferson De okok.indd 70 29/5/2008 21:14:05

  • 7

    naturalista), o assunto negro (indolncia, vio-

    lncianegra,africanismo,religiosidade)emerge

    suplantandoalinhalgicaeracional:

    A histria de Barravento um pouco agitada e

    parecida ao aspecto formal do filme. Mais uma vez

    aqui, a inteno no foi a pesquisa de um ambiente

    negro, mas, das conseqncias do misticismo e das

    crenas, de uma coletividade de pescadores do litoral

    baiano. O fator negro no a tecla sobre a qual se

    calca diretamente, mas, suas harmonias fazem, por

    via indireta, vibrar as cordas s quais aquele fator

    est mais ligado. Assim, tratandose do misticismo

    (candombl, Iemanj, etc.) no fala diretamente

    do negro? Quantas referncias no se fazem aos

    territrios de almmar de onde todos vieram? A

    impresso que agora se extravasa a de que nada

    alm de costumes negros se passa em Barravento, isto

    , que procurando negar, chegamos a afirmao de

    um fato. A verdade que, sendo um filme nascido

    num temperamento to naturalista como de Glauber

    Rocha, as manifestaes inconscientes suplantam as

    demais e o que era uma linha narrativa lgica, a anli

    se racional de fenmenos concretos e decorrentes o

    miolo Jeferson De okok.indd 71 29/5/2008 21:14:06

  • 7

    misticismo e o subdesenvolvimento sem a pesquisa

    de suas causas, passa a ser um emaranhado de idias

    onde as teses negras, a violncia negra, a indolncia,

    o africanismo afloram com toda a fora e buscam a

    prioridade no sentido geral do contexto do filme.

    diferena dos demais, Barravento um filme negro

    outrance e, no fora a existncia de Ganga Zumba,

    seria a melhor e mais elucidativa obra do gnero, no

    cinema brasileiro.

    J Ganga Zumba (96) o filme negro por

    excelncia,poisfoi(...)inteiramentebaseado

    edesenvolvidosobreoproblemadacor.Nele,

    ospersonagensexistememfunodela;vivem,

    lutam,morremeseimortalizamporela.Num

    sentidorestritoesseonicofilmedeassunto

    negrofeitopelocinemanovo.Aruanda(959-

    960)eGanga Zumba,soosnicosfilmesque

    tratam do assunto quilombo no comeo dos

    anos960.Aruanda identificadocomouma

    obraprimitiva:Com uma simplicidade que lhe

    extirpa toda a lgica, porm, que lhe faz crescer

    o interesse transpirado, Aruanda progride tosco,

    fazendo como um leal nordestino, da humilda

    miolo Jeferson De okok.indd 72 29/5/2008 21:14:06

  • 7

    de, a sua arma mais perigosa. Um quilombo no

    Brasil, hoje!

    SobreEsse Mundo Meu(96)deSrgioRicar-

    do,Nevesdestacasuaintenodetratardeum

    temaanti-racista.Selecionacincocaractersticas

    dofilme:a)primitivismoformal;b)foranatural

    eespontnea;c)musicalidadeeritmoscontradi-

    trios;d)problemasraciais.Finalmente,quanto

    Integrao Racial(96),documentriodirigi-

    doporPauloCsarSaracenisobreaformao

    racialbrasileira,escreve:

    IntegraoRacial, de Paulo Csar Sarraceni, final

    mente passa um nvel ainda acima de GangaZumba

    com o intuito de indagar o provvel espectador sobre

    os problemas aos quais a cor est ligada no neces

    sria, mas, tipicamente (...) Nos momentos em que o

    tema negro dele participa verificase que pela primei

    ra vez se procura um juzo crtico (digo pela primeira

    vez porque GangaZumba era mais um a decantar

    as qualidades e as possibilidades dos negros, pois

    j partia das origens) a respeito do problema e sua

    situao atual no Rio e indiretamente no Brasil.

    miolo Jeferson De okok.indd 73 29/5/2008 21:14:06

  • 7

    SegundoNeves,oCinemaNovoinauguraoutro

    tratamentonarepresentaodonegroemque

    se evita a indiferena e o exotismo. O texto

    chamaaatenoparaadiferenaentreofilme

    negro (os filmesacima),o filme indiferente

    questoracialeofilmeracista.Esteltimocor-

    responde,segundooautor,tradioadvinda

    daVeraCruz.

    O cinema brasileiro, tem felizmente uma interessan

    te tradio antiracista. Salvo num setor especfico,

    oriundo da crtica, que procura forar uma sada para

    nossos filmes, alegando busca de universalidade. H

    alguns exemplos desse racismo indireto (o arianis

    mo escandinavo Bergman e Sternberg so cha

    ves mestras dessa escola que s vezes se apresenta

    evidente em Ravina, de Rubem Bifora), s vezes se

    dissimula nos meandros da prpria ambigidade. Eis

    uma das conseqncias mais funestas da tentativa

    industrial que foi a Cia. Cinematogrfica Vera Cruz,

    marco negativo da histria cinematogrfica brasileira

    que em 1949 estabeleceu em So Paulo um imenso

    parque industrial completamente dominado por es

    trangeiros sobretudo tcnicos e artistas que introdu

    miolo Jeferson De okok.indd 74 29/5/2008 21:14:06

  • 75

    ziram e cultivaram o inegvel esprito expressionista

    (ariano?) que ainda hoje temos dificuldade de afastar

    de nossos filmes.

    Os filmes do Cinema Novo so anti-racistas

    porque promovem uma identificao entre o

    realizador (branco) e os personagens negros,

    semqueacorfaaqualquerdiferena.Usacomo

    exemploBarraventoemqueopersonagemFir-

    mino(negro)oporta-vozdocineasta(branco).

    SegundoDaviNeves,oCinemaNovopretendeu

    representaronegro(comotemaouassunto)sem

    reproduzirospreconceitosanteriores(indiferen-

    a, exotismo, explorao comercial, racismo).

    Nessa concepo, a cor era indiferente, mas

    nonegligencivel:Na maioria das vezes a cor

    no percebida objetivamente, pois se tornou

    uma presena natural e de menor importncia.

    Evidentemente,aindiferenaquantocoraqui,

    refere-seaomodocomoonegrovinhasendo

    retratado at aquele momento no cinema. O

    argumentoestemfasecomasinvestidasmais

    geraisdogrupoCinemaNovonassuasestrat-

    giasdediferenciaoemrelaoaosfilmesda

    miolo Jeferson De okok.indd 75 29/5/2008 21:14:06

  • 76

    Vera Cruz (racistas) e os filmes da chanchada

    (comerciais,exploradoresdoexotismo).Ouseja,

    acornodeverialembrarasrepresentaeses-

    tereotipadasidentificadascomoracistas.

    ApsaV Resegna,aRevistaCivilizaoBrasileira

    promoveuumencontrocomosdiretoresGus-

    tavoDahl,CarlosDiegues,DavidNeves,Paulo

    CsarSaracenieAlexVianyparaavaliarapar-

    ticipaodoBrasilnocongresso.Nobalano,a

    questosobreumcinemanegroapareceassocia-

    daaocinemaafricano,que,naquelemomento,

    eraprotagonizadapeloCinemaNovo.Ouseja,

    oCinemaNovoeraocinemanegro.Declarou

    GustavoDahl:

    Uma coisa que tambm me pareceu muito boa

    o interesse dos africanos pelo cinema brasileiro. O

    colquio sobre o cinema africano era um pouco um

    colquio sobre as possibilidades do cinema negro,

    sobre um cinema que ainda no existe. Em verdade,

    em matria de cinema negro, o que se pode discutir

    foi o cinema brasileiro. E isso de tal modo que os

    africanos, quando queriam discutir seus problemas,

    miolo Jeferson De okok.indd 76 29/5/2008 21:14:06

  • 77

    se referiam freqentemente aos filmes brasileiros

    e mais especialmente a GangaZumba, que estava

    muito perto das coisas que eles queriam fazer. (...)

    Portanto as coisas que mais me impressionaram em

    Gnova foram, de um lado, a imensa capacidade de

    dilogo com os africanos (...). Em verdade, podese

    mesmo dizer que eles torcem para que ns possamos,

    para que tenhamos condies de salvar um cinema

    que, em seus pases, est morre no morre.

    Quatorze anos depois (979), um texto de

    outro notrio cinemanovista, Orlando Senna,

    procurouanalisararepresentaodonegrono

    cinemabrasileiro.Paratanto,dividiuahistria

    docinemanoBrasilemtrsfases,utilizando-se

    demetforasraciais.Aprimeiracorrespondeao

    cinemabrancoevaide898at90.Foimar-

    cadapeloetnocentrismodeummodelobranco

    europeuemqueseevitouarepresentaodo

    negronosfilmes.

    Asegundafaseadocinemamulatoeocor-

    reu aps a Revoluo de 0. Foi influenciada

    pelaemergnciadosnovosparadigmassobrea

    miolo Jeferson De okok.indd 77 29/5/2008 21:14:06

  • 78

    mestiagempostaspelolivrodeGilbertoFreyre,

    Casa Grande & Senzala,publicadoem9.Seu

    picedeu-seprincipalmentecomosdramalhes

    eas chanchadasproduzidaspelaAtlntida.A

    avaliaonoimparciale,comonotextode

    DavidNeves,apontaparao carter comercial

    e de explorao do exotismo dos filmes pro-

    duzidosnesseperodo.Maisumavezapobre

    chanchadarecebeacrtica:

    No alvorecer dos anos 50 o Cinema Brasileiro tem

    uma concepo meramente epidrmica do negro:

    principalmente a fmea negra (como reflexo do ma

    chismo de nossa sociedade) apresentada e oferecida

    como objeto de prazer. A incidncia dessa utilizao do

    Corpo negro cresce geometricamente da Chanchada

    da Atlntida at a pornochanchada dos anos 70, que

    ocorre na mesma poca em que a indstria da mula

    taria se organiza e aumenta seus lucros. Em toda uma

    linha de comdia a mulher negra vista numa situao

    de Senzala, sempre servindo a um Senhor, satisfazendo

    sua luxria, limpando a casa e fazendo a comida (a

    presena de um ator do porte de Grande Otelo nesta

    linha de comdia no bastante para descaracterizar

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  • 79

    esse tratamento mesmo porque a lucidez, o talento

    e a garra dos nossos grandes artistas negros nunca

    conseguiram furar o bloqueio que o Cinema impe

    s suas aspiraes e reivindicaes). Difundindo uma

    imagem colonial e estereotipada do negro animal

    de carga ou objeto sexual esta parcela do Cinema

    Brasileiro evoca e confirma o sentido pejorativo da

    palavra mulato (que vem de mula).

    AprximafaseadoCinemaNovo,batizadade

    negro/povo.DiferentedeNeves,aquialinha

    decontinuidadebuscadanosfilmesdeNelson

    PereiradosSantos.ParaSennaotemanegro

    tomadocomometforadopovopobre,favelado

    eoprimido:

    No que diz respeito ao negro, a linha adotada pelo

    Cinema Novo estabelecida em RioZonaNorte, ou

    seja: denunciar a explorao de que vtima o negro

    mas sem se deter em uma anlise racial, uma vez que

    o negro est englobado na massa multirracial dos

    pobres e oprimidos.

    Emborarepresentemumamudanasubstancial

    notratamentodaquestoracial,principalmente

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  • 80

    quandocomparadosaosfilmesdoperodoan-

    terior.Paraoautor,trata-sedeumcinemade

    esquerdaemqueas representaesdonegro

    estosubmetidasslutaspolticasquemarcaram

    operodo.

    ComofizeraDavidNeves,SennaretomaBarra

    ventoeGanga Zumbacomoasduasprincipais

    abordagensdonegrofeitaspeloCinemaNovo:

    Pelo prprio assunto e pelo tratamento que

    lhe dado, pela imagem propositiva do negro

    em sua luta libertria,Ganga Zumba compe

    (completa) comBarraventoa indicao ideol

    gica bsica do Cinema Novo no que diz respeito

    ao Negro Brasileiro.

    EmboravejaemBarravento principalmenteuma

    discussosobreaalienao,nostermoscepecis-

    tas (regradas interpretaessobreofilmena

    poca),levantaumainteressantehiptesesobre

    o conflito entre os dois personagens negros

    principaisdofilme(ArueFirmino).Sugereque

    alutadecapoeiraentreosdoispodeserinter-

    pretadacomoumdesafiodeAruidentidade

    miolo Jeferson De okok.indd 80 29/5/2008 21:14:06

  • 8

    negradeFirmino,jqueesteficaraausenteda

    aldeiamorandona cidade. Isto,uma forma

    dacomunidadedosnegrospescadoresdetes-

    taremantersuaidentidadetnica.Oconflito

    Aru/Firminoexpressariaassimumatensoen-

    treamanutenodaidentidadedosnegrosea

    transformaoadvindadacidadepersonificada

    emFirmino.

    Senna no desenvolve sua interessante hip-

    tese, mas num certo sentido, ela se encontra

    comalgumasdasobservaesdocrticoIsmail

    Xaviersobreofilme.ParaXavier,Barraventono

    comportaumdiscursounvocodotiporevolucio-

    nrionostermoscepecistas.Aocontrrionele

    oscilamdoisnveisdiscursivosequeatuamem

    pdeigualdade.Adimensomgicaereligiosa

    (espaosimblicodascrenasdacomunidade)

    contaminaadimensoracionalerevolucionria

    dopersonagemprincipalFirmino.Seassimfor,

    odadoracialnoneminconscienteetampou-

    cosecundrio,comovimosemNeves,masest

    no centro do discurso poltico de Barravento.

    EscreveXavier:

    miolo Jeferson De okok.indd 81 29/5/2008 21:14:07

  • 8

    (...) quero evitar a idia de que existe uma inteno

    racional que se manifesta no esqueleto da histria,

    mais consciente e controlvel, contraposta expres

    so de disposies inconscientes, descontroladas

    e irracionais, na textura de imagem e som. Quero

    sublinhar exatamente o oposto: todo o filme que

    se contorce para que nele desfile a oscilao entre

    os valores da identidade cultural solo tradicional

    da reconciliao, da permanncia e da coeso e os

    valores da conscincia de classe solo do conflito, da

    transformao, da luta poltica contra a explorao

    do trabalho.

    JGanga Zumba,segundoSenna,temomrito

    defazerumresgate pelo cinema (ou pela cul

    tura dominante) do peso e da projeo histrica

    do negro na formao do Pas.

    Para finalizar vale lembrar que o tratamento

    dadoaospersonagensnegros,as formulaes

    nostextosedepoimentosdoscineastasdevem

    servistosdaperspectivadeaproximaocoma

    culturapopularquecaracterizouaatuaodos

    artistas vinculados esquerda nacionalista. A

    miolo Jeferson De okok.indd 82 29/5/2008 21:14:07

  • 8

    radicalizaodoprocessopolticoeodesfecho

    trgicodogolpemilitardadoemdeabrilde

    96interromperamesseprocesso.

    Novas representaes do negro aparecem na

    dcadade70,informadasagorapeloacmulo

    crticoque representoua clivagemcinemano-

    vistaeosmovimentosnegrosestadunidensee

    africano.

    7 - Diretores negros: quem so?

    Apresentoaseguiralgunsdiretoresnegros.No

    cabe neste texto tratarmos de todos, embora

    no sejam muitos. Aqui veremos, apenas de

    passagem,osmaisconhecidos,cujavisibilidade

    foipossvelpeladivulgaodosseusfilmesem

    mostrasefestivaisdecinema.Otratamentotam-

    poucoseranaltico,masapenasinformativo.

    Comovimosacima,osrealizadoresdoCinema

    Novo, na busca pela realidade do Pas e do

    homem brasileiro, construram novas repre-

    sentaesdonegroemqueosantigosestere-

    tiposforamcondenadoseabolidos.Noplano

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    profissional,essanovamentalidadepossibilitou

    ainserodeatoresnegrosnaatividadecine-

    matogrfica.MiltonGonalves,WaldyrOnofre,

    Antnio Pitanga, Lea Garcia, Jorge Coutinho,

    HaroldodeOliveira,LuizaMaranhoeEliezer

    Gomes so alguns nomes que tiveram suas

    carreiras marcadas pela passagem e pelo mo-

    vimento. Nos anos 970, alguns desses atores

    passaroparaadireocinematogrficacomo,

    porexemplo,ZzimoBulbul,WaldyrOnofree

    AntnioPitanga.

    Em seguida apresento um rpido inventrio

    sobrealgunsdiretoresnegrossurgidosnasd-

    cadasde70e80.Aquasecompletaausnciade

    dadoseestudosnessesentidodificultamuma

    classificaomnimaqueseja.Olevantamento

    abaixoportantoparcial,apenasoesboodo

    que, espero, sejam os futuros trabalhos nesse

    sentido.

    O primeiro destes atores a enveredar para a

    direo foi Zzimo Bulbul. Em 97 realizou

    seuprimeirotrabalho,AlmanoOlho.Ottulo

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    foiinspiradonolivrodolderdosPanterasNe-

    gras Eldridge Cleaver, Alma no Exlio. O livro

    deCleaverfoipublicadoem968nosEUAeno

    Brasilem97.Tornou-seleituracorrenteentre

    osintelectuaisnegrosbrasileiros,quasetodos,

    naquele momento, antenados com os movi-

    mentospolticosqueocorriamnafricaenos

    EUA.Alis,nessesentido,refletetotalmenteo

    ideriodanegritudeafro-americananahistria

    enabandasonora:amsicaKulusemama,de

    JulianLewis,executadaporJonhColtraneentra

    emoff,enquantooator (Bulbul),pormeio

    de pantomimas, conta a histria da dispora

    negra,desdeafricaatosdiasatuais.Nofinal

    opersonagemvestidoderoupaafricanaquebra

    acorrentebrancaqueoprendepelospunhos.

    A mensagem no poderia ser mais poltica: a

    liberdadedefinitivasvircomaassunoda

    negritudecujosmboloafrica.

    DedicadoaosaxofonistaJohnColtrane,Alma no

    Olho umdospoucosfilmes(talveznico)que

    absorveu na poca as influncias do protesto

    negronorte-americano.Emboraaparcelamais

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