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N 6 - 02/2014

JUZO FINAL OU SPRUNG?

FLVIA MARIA DE MENEZES PROPED/UERJ. flaviamaria37@yahoo.com.brPRISCILA DE O. DORNELLES MACHADO PROPED/UERJ.

pridornelles@hotmail.com

DILOGOS E INTERROGAES NAS TRAMAS DA HISTRIA

Resumo: A proposta deste artigo contribuir com nossas interpretaes, indagaes e reflexes acerca da perspectiva histrica de Walter Benjamin em dilogo com a obra Juzo Final, do pintor alemo Fritz Lohmann. Fritz foi um artista que nos seus 85 anos de vida nunca desejou publicar suas telas, preferindo o anonimato, mas acreditamos, ao analisar a obra referida, que ele encontrou-se com Benjamin em pensamento e reflexo, sem nunca t-lo conhecido. Na tela Juzo Final, possvel perceber impresses que nos possibilitaro interpretar algumas ideias que Walter Benjamin desenvolveu nas teses que escreveu sobre o conceito de histria, como as ideias de melancolia e redeno, que nos permitiro colocar a obra de Fritz em dilogo com este pensador.

Palavras-chave: histria, intertexto, reflexes

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JUZO FINAL ou SPRUNG? Dilogos e interrogaes nas tramas da histria, pp. 81 - 94.

O cu de caro tem mais poesia que o de Galileu

E lendo teus bilhetes, eu lembro do que fiz

Querendo ver o mais distante e sem saber voar

Desprezando as asas que voc me deu...

(Os Paralamas do Sucesso)

Introduo

No somente a extraordinria filosofia de Walter Benjamin como tambm a

de muitos brasileiros annimos ou no, nos instigaram a encaminhar uma

proposta de artigo e discusso para participar da II Jornada Benjaminiana.

Ouvindo pelo rdio a cano Tendo a Lua, da banda Os Paralamas do Sucesso,

pensamos que trazer parte desta cano na epgrafe do texto seria um bom comeo

para nossa discusso. O cu de caro um cu mtico e trgico; um jovem sonhador,

que ignorou os conselhos de seu pai colocando a frente de qualquer coisa sua nsia

juvenil por conhecer e desvendar as maravilhas da liberdade, voando ao encontro do

sol e da morte. Galileu com seu telescpio mostrou que, muito mais do que mistrios,

lendas, mitos, o universo explicado pelas leis da cincia; entretanto, mesmo a cincia

de Galileu no se distanciou da poesia. Mas que cu pode satisfazer teu sonho de cu?,

nos pergunta Manoel Bandeira. O cu de caro ou o de Galileu (acrescentamos)?

Acreditamos que tem sido o sonho de cu, como nos convida a refletir o poeta,

a nutrio para muitos pensadores, com os quais nos encontramos no percurso da

pesquisa no curso de mestrado, produzirem suas filosofias, suas ideias, interrogaes

e reflexes. No mesmo sentido pensam os poetas que escrevem as poesias e as canes,

que nos instigam a olhar nossa trajetria como pesquisadora por outras lentes, s vezes

pouco ntidas, porm sempre reveladoras.

Nosso encontro com Walter Benjamin comeou em uma disciplina do curso

de mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenada pelas

professoras Rita Ribes e Maria Luiza Oswald, duas desbravadoras do pensamento

benjaminiano. Pensamos que um encontro com este pensador no tem hora marcada

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JUZO FINAL ou SPRUNG? Dilogos e interrogaes nas tramas da histria, pp. 81 - 94.

para terminar. A filosofia benjaminiana nos levou a compreender que para um

pesquisador da rea das Cincias Humanas como somos, o cu de Galileu pode ser

revelador, mas no basta, preciso nutrir a pesquisa com o cu de caro que , para ns,

tem sido possvel atravs de Benjamin.

Portanto, nossa proposta contribuir nesta Jornada com nossas interpretaes,

indagaes e reflexes acerca da perspectiva histrica de Benjamin em dilogo com a

obra Juzo Final, do pintor alemo Fritz Lohmann1. Fritz foi um artista que nos seus

85 anos de vida nunca desejou publicar seu trabalho, preferindo o anonimato, mas

acreditamos, ao analisar a obra referida, que ele encontrou-se com Walter Benjamin

em pensamento e reflexo, sem nunca t-lo conhecido, ou melhor, sem ter tido o prazer

da leitura de suas obras, e que traz-lo para dialogar com as perspectivas histricas

Benjamin seria, para ns, uma experincia fascinante no exerccio reflexivo sobre a

obra deste pensador.

Fritz Lohmann nasceu na cidade de Berlim, na Alemanha, no ano de 1916. Aos

onze anos, veio para o Brasil com sua famlia e aqui permaneceu at a sua morte, em

2001. As telas foram, ao longo de sua vida no Brasil, o modo pelo qual Fritz expressava

sua filosofia. Na tela Juzo Final possvel perceber impresses deste artista que nos

possibilitaram interpretar algumas ideias que Benjamin desenvolveu nas teses que

escreveu sobre o conceito de histria, como as ideias de melancolia e redeno, que nos

permitiram colocar a obra de Fritz em dilogo com este pensador. Nossas interpretaes

esto ancoradas nas obras de Walter Benjamin (1986, 1987), Michael Lwy (2005),

Boaventura Sousa Santos (2002), e outros interlocutores que nos tm atravessado nas

leituras benjaminianas.

O qu de Benjamin atravessa o Juzo Final?

O salto benjaminiano , para ns, uma ideia fascinante para falar de histria.

1 Fritz Lohmann av de uma das autoras do artigo. Optamos em no detalhar aspectos de sua vida pessoal respeitando, assim, seu desejo de permanecer no anonimato.

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Fomos educados a pensar a histria a partir da fora da correnteza, ou melhor,

levados a ver os fatos histricos e acreditar naquilo que nos foi contado, como faz a

fora da correnteza que nos leva para onde o curso das guas caminha, o tempo todo

nesta direo; at porque nadar contra a correnteza exige flego e coragem; sempre

uma situao de enfrentamento do que parece ser inevitvel, sem medo; como se

desconfissemos daquilo que nos colocado como verdade, com provas legtimas,

como narrou Benjamin em sua Tese XI: nada foi mais corruptor para a classe operria

alem que a opinio de que ela nadava com a corrente2.

O salto benjaminiano nos encantou pelo fato deste pensador no trazer, na sua

filosofia, o desmascaramento das verdades histricas, mas sim e sempre, outra forma

de conhec-las, ou seja, um reconhecimento de uma histria contada sob outros pontos

de vista. Outros pontos de vista possveis, pois o que Benjamin nos tem possibilitado

pensar quais seriam os enredos e os desdobramentos se os fatos acontecessem de outra

forma; se fossem protagonizados por outros heris; se os heris da histria tivessem

no lugar dos vencidos e os vencidos no lugar dos heris; se o poder se rendesse s foras

da resistncia.

Exatamente, no ano em que a famlia de Fritz larga sua histria alem para

construir uma outra histria no Brasil, em 1927, a Repblica de Weimar, como assim

passou a ser chamado o sonho de democracia alem, institua o seguro desemprego para

tentar minimizar a misria de boa parte das famlias alems em decorrncia da Primeira

Guerra Mundial, inclusive a da sua famlia. Fritz dizia que seu pai era um conservador

que desejava a Alemanha de outrora. Culpava seu pai por no ter se criado na sua terra

de origem; queria ter podido dar uma chance s promessas da social democracia pela

qual sempre demonstrou simpatia, mas se lamentava pelo fato desse mesmo sonho

de democracia, aliado ao medo da realidade e a uma certa nostalgia de um passado

imperial terem fortalecido Adolf Hitler e o terror do nazismo que, ao mesmo tempo,

o fazia agradecer ao seu pai por ter escolhido deixar as esperanas para trs. Assim,

pensando na trajetria de Fritz, como seria pintado o Juzo Final se sua famlia tivesse

resistido tentao de abandonar a ptria para fugir da recesso? Ser que a dor social

que moveu a criao de Fritz existiria em seu peito?

2 BENJAMIN, 1987, p. 227.

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JUZO FINAL ou SPRUNG? Dilogos e interrogaes nas tramas da histria, pp. 81 - 94.

Lohmann, Fritz. Juzo Final, 1989

Para ns, a tela Juzo Final, pintada por Fritz no ano de 1989, uma das obras

em que este pintor dialoga com mais intensidade com a filosofia histrica de Walter

Benjamin. Deus, o velho vestido de branco, representa toda a dor social que Benjamin

colocou na sua filosofia, dor essa presente em cada reflexo, em cada alegoria, em cada

palavra que escreveu em suas teses para tratar o conceito de histria. A melancolia foi

mais que um sentimento, podemos arriscar dizer que foi um contedo que Benjamin

utilizou para escrever suas obras. Vejam a tela Juzo Final: a melancolia est em Deus,

que carrega o fardo de sua criao e sofre pela ausncia da necessria inveja de cada

presente com relao ao seu futuro3, que Walter Benjamin j denunciava em suas

teses. A melancolia est, tambm, presente na paisagem de fundo, nas cores da terra

e do cu; na expresso de alguns estadistas, como Napoleo, por exemplo, cuja causa

revolucionria o fez imperador, mas tambm o entorpeceu pelo poder, transformando-o

em um dos maiores ditadores da histria.

Muitas interpretaes podem surgir desta obra, entretanto, para ns, chama

a ateno os grandes estadistas da histria da humanidade que Fritz reuniu para

representar o que estamos entendendo como o f