Liv Ro Guarulhos

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Conto, canto e encanto com a minha história... Espaço de Muitos Povos Guarulhos 9 788576 731221 ISBN 978-85-7673-122-1 1 – Antigo campo do Paulista Esporte Clube, atual Praça GetúlioVargas; 2 – Atual Rua Capitão Gabriel; 3 – Atual Rua 7 de Setembro; 4 – Atual Rua D. Pedro II; 5 – Atual Rua Felício Marcondes; 6 – Igreja Matriz; 7 – EE Capistrano de Abreu; 8 – Atual Rua João Gonçalves; 9 – Cemitério São João Batista. Centro de Guarulhos em 1940. 8 1 2 3 4 5 6 7 9 1 2 3 4 5 6 7 9 8 0 5 25 75 95 100 0 5 25 75 95 100 0 5 25 75 95 100 0 5 25 75 95 100 D:\CIDADES\GUARULHOS\Capa final 2008\Capa Guarulhos elton2009.cdr terça-feira, 28 de abril de 2009 14:53:13 Perfil de cores: Perfil genérico de impressora CMYK Composição 175 lpi a 45 graus
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Perfil de cores: Perfil genrico de impressora CMYK Composio 175 lpi a 45 graus

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1 Antigo campo do Paulista Esporte Clube, atual Praa Getlio Vargas; 2 Atual Rua Capito Gabriel; 3 Atual Rua 7 de Setembro; 4 Atual Rua D. Pedro II; 5 Atual Rua Felcio Marcondes; 6 Igreja Matriz; 7 EE Capistrano de Abreu; 8 Atual Rua Joo Gonalves; 9 Cemitrio So Joo Batista.ISBN 978-85-7673-122-1

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9 788576 731221

D:\CIDADES\GUARULHOS\Capa final 2008\Capa Guarulhos elton2009.cdr tera-feira, 28 de abril de 2009 14:53:13

Copyright 2008 GUARULHOS Editor Responsvel

by Noovha Amrica

Espao de Muitos Povos

Nelson de Aquino Azevedo Coordenador Editorial Jefferson Pereira Galdino Organizadores do Livro Elton Soares de Oliveira, Maria Cludia Vieira Fernandes, Glucia Garcia de Carvalho, Elmi El Hage Omar, Benedito Antnio Genofre Przia, Sandra Emi Sato, William de Queiroz, Mrcio Roberto Magalhes de Andrade, Antnio Manoel dos Santos Oliveira, Lcia de Jesus Cardoso Oliveira Juliani, Edson Jos de Barros, Jos Elmano de Medeiros Pinheiro, Caetano Juliani e Vagner Carvalheiro Porto. Diagramao, Tratamento de Imagens e Capa Jefferson Pereira Galdino Mapas William de Queiroz Laboratrio de Geoprocessamento UnG Cesar Cunha Ferreira Fotografias Maria Cludia Vieira Fernandes, Mrcia Pinto, Alexandre de Paula, Elton Soares de Oliveira, Joo Machado, Aparcio Reis (ndio), Jos Maria Muniz Ventura, Levi da Silva, acervo de Isabel Borazanian, Glucia Garcia de Carvalho, acervo da Casa de Cultura Paulo Pontes, Massami Kishi, acervo do Grupo Literrio Letra Viva, acervo da Prefeitura Municipal de Guarulhos e Arquivo Histrico de Guarulhos. Reviso Arte da Palavra Sirlene Francisco Barbosa Agradecimentos A todos que colaboraram com a cesso de dados e fotos para esta publicao, especialmente a Maria Genaina de Almeida Reder, Terezinha Missawa Camura e Marco Raczka. www.guarulhostemhistoria.com.br Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Guarulhos: espao de muitos povos. 2a ed. So Paulo: Noovha Amrica, 2008. (Srie conto, canto e encanto com a minha histria...) Vrios organizadores Vrios fotgrafos Bibliografia ISBN 978-85-7673-122-1 1. Guarulhos (SP) Histria Literatura infanto-juvenil I. Srie. 08-11628 ndices para catlogo sistemtico: 1. Guarulhos: So Paulo: Estado: Histria: Literatura infanto-juvenil 028.5 2. Guarulhos: So Paulo: Estado: Histria: Literatura juvenil 028.5 2a Edio 2008Todos os direitos desta edio reservados Noovha Amrica Editora Distribuidora de Livros Ltda. Rua Monte Alegre, 351 Perdizes So Paulo/SP CEP 05014-000 Telefax: (0xx11) 3675-5488 Site: www.noovhaamerica.com.br E-mail: [email protected]

CDD-028.5

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Este livro chega no momento em que os moradores de Guarulhos anseiam por conhecer a histria local, preservar suas tradies culturais e cuidar do meio ambiente. Perodo mpar na histria, quando surgem falas que reivindicam aes de fortalecimento da autoestima das populaes locais, em face ao fenmeno massificado da globalizao. Certamente, a divulgao da histria, a promoo da cultura e da educao, por exemplo, so fatores que fortalecem o reconhecimento das pessoas. Ao resgatar o papel da histria como elemento identitrio, esta publicao se reveste de grande valor humanitrio, prestando enormes servios para a educao e o aprendizado de nossas crianas, jovens, adultos e para o municpio como um todo. Lembramos que em 2010 Guarulhos far 450 anos de sua fundao e os contedos desta publicao, nas reas de histria natural, histria social, aspectos geogrficos e culturais, sero de grande valia para as reflexes no aniversrio da cidade. Com frequncia, ouvimos dizer que o brasileiro no tem memria e no valoriza a histria. Contrariando o senso comum, assumimos o compromisso de resgatar e divulgar os fatos que nos dizem respeito, oferecendo, especialmente s nossas crianas e jovens, a oportunidade de se apropriarem do conhecimento histrico local. Certamente, as aes que desenvolvemos hoje sero o legado que deixaremos para as geraes vindouras. Este trabalho traz consigo a mensagem de que cada pessoa responsvel pela histria e que est em nossas mos compreender o presente e o passado e construir um mundo melhor. Dedicamos este trabalho memria de bravos homens e mulheres que por aqui passaram, viveram e ajudaram a construir o municpio de Guarulhos e tambm para os que hoje do continuidade a esse trabalho e transformam Guarulhos em uma cidade mais humana, lembrando que nosso cenrio urbano guarda o que temos de melhor: nossa gente, sua cultura e sua histria. Prefeitura Municipal de Guarulhos Secretaria Municipal de Educao

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Vista parcial do centro antigo e da Praa Getlio Vargas, na dcada de 1950.

Praa Getlio Vargas, Rua Felcio Marcondes, em 2008.

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Antiga Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosrio dos Homens Pretos Rua D. Pedro II, igreja demolida no final da dcada de 1920.

SumrioIntroduo .......................................................................................................................... 7 Captulo 1 Aspectos Fsicos e Naturais ........................................................................................ 9 Captulo 2 Formao Socioeconmica ...................................................................................... 23 Captulo 3 Mudanas Polticas e Administrativas..................................................................... 51 Captulo 4 Circuitos Tursticos Patrimnios Culturais e Ambientais ............................... 57 Captulo 5 Guarulhos Diversidade Cultural e Religiosa ..................................................... 85 Captulo 6 Retrospectiva Histrica ............................................................................................. 97 Captulo 7 Sistema de Transportes e Rodovias ......................................................................111 Captulo 8 Esporte e Lazer .........................................................................................................115 Captulo 9 Educao ....................................................................................................................117 Captulo 10 Smbolos Municipais ................................................................................................119 Captulo 11 Os Trs Poderes ........................................................................................................121 Referncias Bibliogrficas ...................................................................................................................127

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MINERAO DE OURO INCIO DA EXPANSO URBANA DA CIDADE DE GUARULHOS

Fonte: Instituto Geogrfico e Geolgico IGG/Secretaria de Agricultura do Estado de So Paulo, 1950.

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Aldeia de tapuias. Johann Moritz Rugendas.

Introduouarulhos constituiu-se como aldeia indgena por volta de 1560, mas seu nome, sua data de fundao e at mesmo o nome do padre fundador so alvos de polmica. Pesquisas iniciais apontavam os nomes dos padres Joo lvares, Manuel de Paiva e Manuel Viegas como possveis fundadores. Em 1983, a Cmara Municipal votou a Lei no 2.789/83, oficializando o nome do padre Manuel de Paiva como o fundador de Guarulhos. A criao da aldeia de Nossa Senhora da Conceio, atual cidade de Guarulhos, esteve vinculada, desde o incio, Vila de So Paulo de Piratininga. A iniciativa dos colonizadores portugueses ao fundarem vrias aldeias indgenas em So Paulo visava controlar o espao para impedir a passagem dos espanhis que rumavam, por terra, em direo s minas de ouro e prata de Potos, na Bolvia, e tambm para a proteo contra os ataques dos indgenas Tamoio. Em 1675, nas terras de So Paulo, a aldeia de Nossa Senhora da Conceio foi elevada condio de distrito; dez anos depois, em 8 de maio de 1685, passou categoria de freguesia. Apenas em 24 de maro de 1880 foi elevada condio de vila, emancipando-se de So Paulo, ocasio na qual teve seu nome abreviado para Conceio de Guarulhos. A atual denominao, por sua vez, foi assumida em 6 de novembro de 1906, quando ganhou o estatuto de cidade.

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Fundao de So Vicente. Obra de Benedito Calixto.

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A origem do topnimo Guarulhos est intimamente relacionada aos primitivos habitantes do territrio. Os Maromomi foram os primeiros povoadores do lugar; expulsos do litoral paulista pelos Tupi, chegaram regio por volta de 1400 da era crist; eram nmades e viviam da caa, da pesca e da coleta de frutos. Os Maromomi pertencem famlia dos indgenas Puri e ao tronco lingustico Macro-J. Em contato com os colonizadores, foram escravizados e, a partir de 1640, passaram a ser chamados de Guarulhos. Entre 1560 e 1623, Guarulhos era chamada de Nossa Senhora da Conceio dos Maromomi. No ano em que Guarulhos completou 448 anos de fundaIndgena Puri, aparentando o, foram observados pelo menos cinco aspectos para com- aos Maromomi. Ilustrao de Rugendas. preender sua histria: seu passado geolgico; os primeiros habitantes; os colonizadores portugueses; os imigrantes europeus, rabes e asiticos e o xodo rural brasileiro. Tudo isso somado nos far entender a histria da cidade, que muito tem a revelar. Alm disso, tambm cruzaremos informaes sobre economia e globalizao com os acontecimentos locais. Este livro descortinar o vu sobre nosso passado e nos far entender o nosso presente. Apresentar nossa cultura e os costumes de nosso povo, que muito se orgulha de ser o 13o municpio do Pas em nmero de habitantes e a primeira no capital no ranking das 100 maiores cidades do Brasil.

Mapa com diviso do territrio brasileiro em Capitanias Hereditrias.

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1Serra do Itaberaba Pico do Gil, com 1.438 metros de altitude.

Aspectos Fsicos e NaturaisRECURSOS NATURAISDa economia natural explorao econmica comercial, a existncia de recursos naturais essencial para a fixao de grupos humanos e para o estabelecimento de atividades produtivas e comerciais. Guarulhos apresenta grandes faixas de terras de baixa qualidade para agricultura, porm possui muitas riquezas minerais em seu subsolo. Um estudo mineralgico da Secretaria Estadual de Agricultura de So Paulo indica a existncia de ouro, pedras, areia, argila (ocre, amarela e vermelha), caolim, quartzito, granito, ardsia e argila refratria. Em sua parte de baixadas encontram-se as terras mais frteis para atividades agropastoris. A histria da cidade seria diferente se os recursos naturais fossem outros. Os seres humanos, em sua relao com o meio ambiente, constroem riquezas e desenvolvem habilidades a partir da disponibilidade da natureza. Nesse sentido, Guarulhos um espao territorial privilegiado em recursos naturais, fato que possibilitou a existncia de quatro ciclos econmicos correspondentes ao processo de povoamento e expanso territorial urbana.

Palacete Vila Borghese, localizado na Serra da Cantareira, bairro Cabuu, construdo pelo banqueiro paulista Aquiles Lima em data ainda desconhecida, certamente antes de 1960.

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LOCALIZAO GEOGRFICAGuarulhos est situada ao nordeste da Regio Metropolitana de So Paulo (RMSP) e fica a 17,7 quilmetros do centro da Capital. Dentre os 39 municpios dessa regio, apontada pelo IBGE como uma cidade industrial. Com 320 quilmetros quadrados, um municpio relativamente pequeno. Guarulhos tem como limites Mairipor e Nazar Paulista (N), Santa Isabel (NE), Aruj (E), Itaquaquecetuba (SE) e So Paulo (S, SW, W e NW). No municpio, o Sol e a Lua nascem no lado dos bairros de Morro Grande, Bonsucesso e Araclia, na zona leste, e pem-se no lado dos bairros de Vila Galvo, Jardim Vila Galvo e Itapegica, na zona oeste. Os bairros de Cabuu de Cima, Tanque Grande e Capelinha esto na zona norte e os bairros de Jardim Nova Cumbica, Pimentas e Itaim na zona sul.

Parque Estadual da Cantareira Cachoeira Cabuu, Guarulhos, 2008.

Guarulhos localiza-se sobre a rea de transio entre as zonas tropical e temperada. O Trpico de Capricrnio corta o municpio em duas partes, de oeste a leste (WE), sentido Vila Galvo Morro Grande. O municpio situa-se entre os paralelos 231623" e 233033" de latitude sul, e entre os meridianos 462006" e 463439" de longitude oeste, ou seja, o municpio encontra-se na

CIDADES CIRCUNVIZINHAS AO MUNICPIO DE GUARULHOS

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latitude do Trpico de Capricrnio (2327S), que o cruza na altura do quilmetro 215 da Via Dutra. Estrategicamente posicionada no centro do principal eixo econmico do Brasil (So Paulo,

Rio de Janeiro e Minas Gerais), Guarulhos atraiu para seu territrio empreendimentos de alto impacto, o que possibilitou o desenvolvimento regional e sua insero no modo de produo capitalista no perodo colonial e contemporneo.foto de Plnio Thomaz, de 1969.

Represa Tanque Grande, reservatrio afetado pela seca de 1969. Represa Tanque Grande, construda em 1958. Foto de 2007.

REGIO METROPOLITANA DE SO PAULO

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HIDROGRAFIAGuarulhos, assim como os outros municpios da RMSP, depende de recursos hdricos limitados, considerando a grande demanda relativa regio, que possui a economia mais ativa do Pas, e sua localizao na regio das nascentes que formam a Bacia do Rio Tiet. Desta forma, Guarulhos possui quantidades de gua superficial e subterrnea que no alcanam 10% das necessidades locais, dependendo do fornecimento dos sistemas produtores Cantareira e Alto Tiet, que captam a gua em regies distantes. Os principais rios so o Tiet, o Baquirivu-Guau e o Cabuu de Cima, sendo este ltimo o nico com a nascente em Guarulhos. As guas nas regies de nascentes e mananciais so de boa e tima qualidade, como no caso das represas do Cabuu e do Tanque Grande. Estudos hidrogeolgicos revelam a existncia de significativos reservatrios de gua no subsolo, especialmente na regio sul do territrio, onde a geologia sedimentar e reconhece-se o Aqufero Cumbica, como o caso dos bairros ao longo da Rodovia Dutra, prximos ao centro, ao aeroporto, ao Jardim Presidente Dutra e a Cumbica.

Os corpos dgua passam a ter pssima qualidade quando atravessam reas urbanizadas, principalmente devido ao lanamento de efluentes poluidores. Em 2007, a Prefeitura anunciou que seriam iniciadas obras para tratamento de parte do esgoto. Na paisagem da cidade destacam-se os cursos dgua Piracema, Pedrinhas, Canal de Circunvalao, Itapegica, So Joo, Queromano, Cavalos, Cubas, Japoneses, Cocaia, Taboo, Invernada (ou Cachoeirinha), Capo da Sombra, gua Suja, Tanque Grande, Lavras, Guaraau, Taboo (Araclia), gua Chata, Moinho Velho, Baquirivu-Mirim, Cocho Velho, Parati-Mirim, Popuca e Botinha. Alguns deles desguam nos rios Baquirivu-Guau e Cabuu de Cima, outros diretamente no Rio Tiet, que o destino final das guas drenadas das reas urbanas de Guarulhos. Parte do municpio, em zona rural, ainda apresenta relao com a Bacia Hidrogrfica do Rio Paraba do Sul, como o caso dos ribeires Tom Gonalves e Itaberaba e dos crregos Jaguari e Morro Grande, ambos no bairro do Morro Grande.

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Rio Tiet: interface com GuarulhosO Rio Tiet percorre o Estado de So Paulo de leste a oeste. Nasce em Salespolis, na Serra do Mar, a 840 metros de altitude e 22 quilmetros distante do Oceano Atlntico. Como no consegue vencer os picos rochosos rumo ao litoral, ao contrrio da maioria dos rios, que correm para o mar, o Tiet segue para o interior, atravessa a Regio Metropolitana de So Paulo e percorre 1.100 quilmetros at o municpio de Itapura, em sua foz no Rio Paran, na divisa com o Mato Grosso do Sul. Nessa jornada sinuosa, banha 62 municpios ribeirinhos e seis sub-bacias hidrogrficas (Alto Tiet, Sorocaba/Mdio Tiet, Piracicaba/Capivari, Jundia, Tiet/Batalha, Tiet/Jacar e Baixo Tiet), uma das regies economicamente mais ricas do hemisfrio sul. Embora seja apenas um filete de gua em Salespolis, recebe a vazo de quase 30 pequenos afluentes e vai se tornando um rio volumoso, com uma longa srie de corredeiras e cachoeiras. Com grande importncia histrica como via de penetrao do povoamento, foi, durante muito tempo, a nica estrada para o interior do Brasil, servindo de caminho para os bandeirantes, que o percorriam em busca de ouro, ndios e novas terras. Nesse contexto socioeconmico, o Rio Tiet desde os primrdios da colonizao interagiu com o processo histrico e com a expanso territorial urbana de Guarulhos. No cenrio da colonizao portuguesa muito provvel que tenha sido a via de acesso para as descobertas das minas de ouro no Ribeiro das Lavras. No incio do ciclo do tijolo, foi o mais importante corredor de transporte das olarias e dos portos de areia para atender a demanda da construo civil de So Paulo. Funcionava como

hidrovia. Em uma das citaes historiogrficas sobre Guarulhos, consta que o padre Manuel de Paiva navegou, em 1560, sobre o Rio Anhembi, antigo nome do Rio Tiet. Atualmente, utilizado, em algumas regies, como rio de navegao, j que as construes de vrias barragens e eclusas regularizaram seu curso. As barragens tambm foram aproveitadas para a construo de usinas hidreltricas, que fornecem energia ao Estado de So Paulo.Laboratrio de Geoprocessamento UnG.

CLIMAO municpio de Guarulhos apresenta um clima subtropical mido, com temperatura mdia anual entre 17 C e 19 C; umidade relativa do ar mdia anual de 81,1%; precipitao pluviomtrica anual mdia de 1.470 mm e ventos dominantes SE-NO-E-O. (Dados cedidos pelo Ministrio da Aeronutica Diviso de Meteorologia.)

RELEVOA topografia da cidade est expressa na sua paisagem. O municpio de Guarulhos est localizado no Planalto Atlntico, possui grandes baixadas e picos elevados com mais de 1.000 metros de altura, onde as altitudes variam entre: mxima de 1.438 metros, ao norte, na Serra do Itaberaba (Pico do Gil); mdia de 850 metros; e mnima de 660 metros, na foz do

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Crrego Jaguari, divisa com Aruj e Santa Isabel. A parte mais acidentada 2 fica no norte, junto aos limites com Mairipor e Nazar Paulista. 1 Podemos observar na regio norte do municpio que os morros e montanhas so formados por rochas de origem pr-cambriana (grupos So RoCentro de Guarulhos em 1959. que e Serra do Itaberaba), tendo como 1 Atual Rua Joo Gonalves; 2 Cemitrio So Joo destaques as serras da Cantareira e do Batista, antes da construo da biblioteca. Itaberaba. J ao sul, onde encontramos o centro e os bairros mais ocupados da cidade, percebemos que o relevo formado por colinas, cujas elevaes no passam de 40 metros de altitude, e plancies, que so reas muito baixas sujeitas s inundaes dos rios Tiet, Cabuu de Cima e Baquirivu-Guau. As colinas so formadas por sedimentos tercirios e as plancies por aluvies quaternrios.

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Guarulhos Bairros

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VEGETAOA paisagem antiga de Guarulhos era totalmente coberta por vegetao arbrea, arbustiva e herbcea. Era formada por vegetao florestal, compreendendo a Mata Atlntica; arbustiva ou cerrados e cerradinho; herbcea de campos e vrzea, junto aos rios. O uso rural, a minerao e a crescente urbanizao da cidade mudaram quase totalmente a situao inicial, restando em maior quantidade a floresta tropical na regio serrana, onde predominam a mata secundria, havendo apenas no Ncleo Cabuu do Parque Estadual da Cantareira a presena de mata primria, e extensas reas de campos antrpicos. Com o crescimento da cidade, restou apenas a vegetao da Serra da Cantareira, a maior mata nativa que sobrevive dentro do municpio. A Reserva Estadual da Cantareira possui uma rea de 5.674 hectares, dividida entre a zona norte da Capital, parte de Guarulhos, Mairipor e Franco da Rocha. formada por florestas latifoliadas tropicais, onde vivem

Araucria, proximidades da Represa Cabuu.

serelepes, nhambus, tucanos e outros animais. Quase um tero da extenso do municpio composto por reas de proteo aos mananciais, fontes ou nascentes e reservatrios de gua que so protegidos por lei.

Casa da Candinha Serra do Bananal, futuro Centro de Preservao da Memria e Cultura Negra.

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RESERVAS ECOLGICASO municpio de Guarulhos participa da Reserva da Biosfera do Cinturo Verde de So Paulo (RBCV), outorgada pela Unesco como patrimnio mundial. A RBCV fornece servios

ambientais importantes para o controle das ilhas de calor, reduo de enchentes, poluio atmosfrica e produo de gua para Guarulhos por meio dos seus mananciais da Represa Cabuu e Tanque Grande.Foto de Ccero Felipe Guarnieri Ribeiro.

Represa Cabuu.

Trilha do Tapiti Parque Estadual da Cantareira, Guarulhos, 2008.

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Dados Gerais do MunicpioAniversrio da cidade (fundao): 8 de dezembro. Distrito: 1675. Criao da freguesia: 1685 Denominao da poca: Nossa Senhora da Conceio dos Guarulhos. Criao da vila: Lei no 34, de 24 de maro de 1880 Denominao da poca: Conceio de Guarulhos. Alterao do nome: a Lei no 1.021, de 6 de novembro de 1906, altera o nome para a denominao atual, Guarulhos. Santa Padroeira: Nossa Senhora da Conceio. Distrito Jardim Presidente Dutra: foi criado pela Lei no 3.198, de 23 de dezembro de 1981, com sede no bairro do mesmo nome, em territrio desmembrado do distrito sede do municpio de Guarulhos. Prefeito atual: Eli Alfredo Piet (PT). rea: 320 km2 (Seade). Populao: 1.236.192 (Fonte: IBGE, 2007). Densidade demogrfica: 3.857,08 hab/km. Latitude do distrito sede do municpio: 231623 e 233033 sul. Longitude do distrito sede do municpio: 462006 e 463439 oeste. Limites: ao norte com Mairipor e Nazar Paulista; nordeste com Santa Isabel; ao leste com Aruj; ao sudeste com Itaquaquecetuba; a sul, sudeste, oeste e noroeste com So Paulo. Altitudes: mxima 1.438 metros, no Espigo da Serra do Itaberaba (Pico do Gil); mdia 759 metros; mnima 660 metros, localizada na foz do Ribeiro Jaguari e com o Rio Jaguari, nas divisas de Guarulhos, Santa Isabel e Aruj; sede 773,14 metros.

Marco Zero: Praa Tereza Cristina. Distncias: So Paulo 17,7 quilmetros; Atibaia 67 quilmetros; So Jos dos Campos 75 quilmetros; Rio de Janeiro 411 quilmetros; Belo Horizonte 570 quilmetros; Braslia 1.050 quilmetros; Santos (Porto) 90 quilmetros; So Sebastio (Porto) 183 quilmetros. Rodovias: Presidente Dutra (BR-116); Ferno Dias (BR381); Ayrton Senna (SP-70); Hlio Smidt (SP-19/BR-610); Vereador Francisco de Almeida (SP-36). Avenidas: Guarulhos; Dr. Timteo Penteado; Brigadeiro Faria Lima; Tiradentes; Presidente Juscelino Kubitschek; Papa Joo Paulo I; Santos Dumont; Monteiro Lobato; Emlio Ribas; Salgado Filho; Octvio Braga de Mesquita; Jamil Joo Zarif; Presidente Tancredo Neves; Antnio de Souza; Jlio Prestes; Benjamim Harris Hunnicult; Anel Virio, que liga a Vila Galvo ao Parque Cecap e engloba a Av. Pres. Humberto de Alencar Castelo Branco e parte da Av. Guarulhos. Esta via foi construda no local onde passava a E.F. Sorocabana (ramal Guarulhos), conhecida como Trenzinho da Cantareira; Av. Pedro de Sousa Lopes, Marginal Baquirivu e Av. Silvestre Pires de Freitas.

Estrada Bonsucesso, em Itaquaquecetuba.Estradas: do Cabuu, David Corra, do Recreio, Ana Diniz, Tanque Grande ou Sabo, do Sacramento, dos Veigas, do Morro Grande, Albino Martello, do Capuava, Ary Jorge Zeitune, das Lavras, gua Chata, Guarulhos-Nazar, Estrada Velha de Bonsucesso (no bairro Cumbica, Lavras e Parque Piratininga e nos municpios de Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes), Estrada Velha do Cabuu, no bairro da Ponte Grande, Estrada da Parteira, Estrada da Conceio, na Vila Sabrina, municpio de So Paulo. Adjetivo ptrio: guarulhense. DDD: 11.

Estao Guarulhos em meados de 1930.

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PASSADO GEOLGICO DE GUARULHOS VULCES, TERREMOTOS E MARQuando andamos pela cidade raramente prestamos ateno nas formas topogrficas do local que nos cerca e, geralmente, no vemos mais os rios e suas encostas. Quase tudo se tornou urbano.

A Terra se formou h aproximadamente 4,5 bilhes de anos, quando nem os continentes nem os oceanos hoje conhecidos existiam. A superfcie do planeta era to quente, devido s atividades vulcnicas e aos impactos de meteoritos, que a gua no podia nem se condensar na superfcie para formar rios, lagos e oceanos.

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interessante obserDurante a evoluo var que as rochas, quangeolgica da Terra, contido submetidas a condinentes inteiros surgiram e es de presso e tempeforam destrudos por vratura como estas, so rias vezes e, assim, as fordobradas como um pamas dos continentes que pel, sem que se quebrem; hoje conhecemos so geomuitos registros desse logicamente recentes. metamorfismo, suas doNa regio de Guarubras e seus minerais polhos o evento geolgico dem ser vistos nos arrereconhecido mais antigo dores de Guarulhos. corresponde ao desenAssim, Guarulhos, volvimento de muitos nesta poca, era como vulces, que resultou na os Andes so hoje, formao de derrames de uma grande cadeia de lavas h pouco mais de Fumarola vulcnica de fundo ocenico. montanhas, com mui1,5 bilho de anos. Mas essas lavas formaram-se no fundo de um ocea- tos vulces e terremotos. Acalmados esses no profundo, ou seja, para passar naquela po- eventos ao longo de milhes de anos, a eroca por onde hoje Guarulhos, somente com so causada pelas chuvas, ventos, geleiras e um barco. A formao deste oceano deveu-se rios por milhares de anos foi desgastando as quebra e separao de um grande conti- montanhas, levando os materiais erodidos penente que hoje no mais existe, e as partes re- los rios at lagos e mares. As chuvas torrenciais levavam grande quansultantes afastaram-se uma da outra, como hoje ocorre com a Amrica do Sul e a frica, sepa- tidade de pedras, lama e areia das partes mais radas pelo Oceano Atlntico. Nesse antigo oce- altas, acima das escarpas das falhas, para a parte ano, onde hoje est Guarulhos, havia muitos afundada, chamada de bacia sedimentar, geranvulces. As rochas formadas nesses vulces es- do, inicialmente, grandes escorregamentos, to hoje distribudas principalmente no sop cujos depsitos foram retrabalhados por rios, da Serra do Itaberaba (ou do Gil), em Guaru- com lagos, pntanos, florestas e matas entre eles. Hoje, nas partes mais altas, esses materiais, lhos, mas podem tambm ser observadas mais para nordeste e para sudoeste, at a re- sedimentos do perodo Tercirio, j foram remogio de Araariguama, perto do municpio de vidos pela eroso, estando preservados quase que So Roque. Entretanto, com as mudanas que exclusivamente nas baixadas. Como o tempo geolgico no para, hoje ocorreram no interior da Terra, esses continentes inverteram seu movimento de distan- podemos ver os rios erodindo as encostas e ciamento e passaram a deslocar-se um em espraiando-se, e as lagoas aquelas que ainda direo ao outro. Isso ocorreu h cerca de no foram preenchidas com entulhos entre 1,2 bilho de anos, gerando zonas de sub- eles, na regio de Guarulhos. O maior exemplo duo, processo geolgico no qual o fundo o Rio Tiet, que originalmente tinha um trado oceano penetra a Terra, quando se formou ado cheio de curvas e hoje est muito alterado um arco de ilhas (como o Japo dos dias de pelas obras de engenharia, com uma plancie forhoje), com grandes vulces na superfcie e no mada por sedimentos recentes, conhecidos como aluvies. fundo do mar, e com grandes terremotos.

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O contorno do relevo atual da cidade remonta a aproximadamente 60 milhes de anos atrs. Nesta poca, a regio do Aeroporto de Cumbica sofreu um grande afundamento, configurando o formato atual do municpio.

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2Soldados com ndios. Jean Baptiste Debret.

Formao Socioeconmicae uma aldeia indgena coletora a uma cidade industrial. O que ocorreu para que houvesse tamanha transformao? A mudana principal ocorreu no modo de organizao social, que passou de uma sociedade nmade para a sedentria. Os primeiros habitantes, os Maromomi, eram nmades, viviam da pesca, da caa e da coleta de frutos; o tempo de permanncia em um local era determinado pela colheita. Uma cidade industrial caracteriza-se por um tipo de organizao social sedentarizada, que possui habitaes e atividades econmicas fixas. Guarulhos atualmente possui caractersticas essencialmente urbanas: concentrao densa de populao e farta infraestrutura rede de fornecimento de gua, coleta de esgoto, gs, eletricidade, telefonia, transporte, escolas, postos de sade, reas de lazer, vias de acesso, praas, moradias etc. Qual o caminho percorrido?

D

EVOLUO DO VALOR ADICIONADO FISCAL 2000 2005, SETORES ECONMICOS (EM BILHES DE REAIS)Divulgao: Prefeitura de Guarulhos.

Fonte: Secretaria Estadual de Negcios da Fazenda (2006).

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O processo de urbanizao e expanso territorial da cidade comeou com o ciclo do ouro. A minerao concentrou a fora de trabalho na regio da Serra do Itaberaba, de Bananal, Tanque

INDGENAS MAROMOMI OS PRIMEIROS HABITANTES DE GUARULHOSOs primeiros habitantes do territrio foram os indgenas Maromomi, um povo pertencente famlia Puri, do tronco lingustico Macro-J, que eram nmades. A famlia Puri ocupava o imenso territrio entre a Serra do Mar, o Vale do Rio Paraba do Sul e a Serra da Mantiqueira. Os Maromomi passaram a frequentar a regio de Guarulhos por volta do ano 1400 da era crist, aps serem expulsos do litoral paulista pelos indgenas de lngua tupi-guarani. Segundo os registros, esses indgenas eram hbeis andarilhos, troncudos, muito fortes e de pequena estatura, o que lhes dava uma aparncia um tanto distinta dos Tupi.

Um dos canais de garimpo de ouro do Ribeiro das Lavras.

Grande e Lavras. Passado o ciclo do ouro, aconteceu a ocupao das vrzeas da cidade para produo de tijolos cozidos, atividade situada prxima aos rios Tiet, Baquirivu-Guau e Cabuu de Cima. A grande expanso da cidade veio com a consolidao do processo industrial. Quanto ao povoamento do municpio, pode-se verificar a presena indgena, dos colonizadores portugueses, de etnias africanas, de imigrantes europeus, rabes, asiticos e dos prprios trabalhadores rurais brasileiros. Atualmente, mais de 40 etnias habitam o municpio de Guarulhos.

Uma famlia de indgenas Puri em viagem s margens do Paraba, outubro de 1815. Gravura de Maximilian Alexander Philipp.

Trecho da certido de aldeamento de ndios 1721-1810. Arquivo Pblico do Estado de So Paulo.

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Os Maromomi so citados por todos os rea situada entre a margem do Rio Paraba pesquisadores da Histria de Guarulhos, po- do Sul, os municpios de So Joo da Barra, rm so ilustres desconhecidos. Estudo recen- Itaperuna, Cambuci, So Fidlis e o Estado te feito por Benedito Przia, linguista douto- do Esprito Santo. Outra hiptese possvel rado pela Universidade de So Paulo, traz con- que, com o advento da minerao de ouro tribuies das mais importantes para se conhe- em Guarulhos, em 1602, o governador-geral do Brasil, d. Francisco de Sousa, trouxe para cer a nao Maromomi. Os Maromomi eram nmades e viviam da as minas de ouro paulistas 200 ndios do Escaa, da pesca e coleta de frutos. A partir de prito Santo. Das minas de ouro paulistas fa1640, aproximadamente, os colonizadores ziam parte as de Guarulhos, descoberta feita por Afonso Sardiportugueses passaram a cham-los de nha, em 1597. Guarulhos, possivelmente devido Os Maromomi semelhana fsica e cultural com os no praticavam a agriculparentes que habitavam o litoral tura, pois eram coletores. norte do Rio de Janeiro, na freMantinham-se com a coleta do guesia de Santo Antnio pinho, da castanha da sapucaia de Guarulhos. O terrie do mel silvestre, alm da caa trio dos Guarulhos Fruto da sapucaia. e da pesca. compreendia toda a

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Viviam em pequenos grupos, deslocando-se de acordo com a extrao das frutas e morando em abrigos provisrios (tapusas). Por isso, esses grupos coletores e, posteriormente, os que no falavam a lngua tupi, foram chamaPinhes, frutos dos de Tapuia. No usavam redes, preferindo dormir no cho, sobre folhas. H registros de um contingente de aproximadamente 3 mil Maromomi nas imediaes de So Paulo. Os missionrios tentaram alde-los, mas houve muita resistncia. Os poucos que foram levados para as misses fugiram, pois no se acostumaram com uma vida sedentria. Mesmo assim, os paulistas tentaram escraviz-los. Com o abandono das misses, o queFoto Eduardo Cesar Pesquisa Fapesp 112, junho de 2005.

hoje a cidade de Guarulhos se transformou em uma vila portuguesa. Frente escravizao, os Maromomi tiveram trs atitudes: aceitar como um mal inevitvel, reagir de forma violenta ou fugir para o serto. Muitos reagiram de forma violenta e vrias reda araucria. voltas ocorreram: em 1652, atearam fogo na fazenda de Joo Sutil de Oliveira; oito anos depois, em 1660, a Cmara de So Paulo registrou uma nova rebelio envolvendo Guarulhos. Do idioma falado pelos Maromomi foram conservadas apenas duas palavras: ar, que significa padre, e Nham nhax muna, que significa Deus. Foi o padre Manuel Viegas quem melhor conheceu o idioma, chegou a traduzir para essa lngua o catecismo Tupi, usado nos aldeamentos, e concluiu a gramtica iniciada por Anchieta. Confrontando outros idiomas de povos da regio, como os Puri e os Coroado, chegamos concluso, pela semelhana que existe entre eles, que os Maromomi pertenciam famlia lingustica Puri. (Benedito Przia.)

Homem de Capelinha: crnio encontrado em sambaqui de rio, no Vale do Ribeira, revela a cultura mais antiga de So Paulo meio homem do mar, meio homem do mato, membro de um povo singular, com traos no mongoloides, semelhante a Luzia.

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Rio Paraba do Sul territrio dos indgenas Guarulhos em Campos dos Goytacazes, RJ.

Os Primeiros Brasileiros. Como chegaram a Guarulhos?No tempo em que o Brasil ainda no era Brasil, quem eram seus habitantes? Quando chegaram? De onde vieram? Como chegaram a Guarulhos? Com certeza, essas quatro indagaes so difceis de responder. Mesmo no tendo respostas conclusivas, de forma resumida abordaremos a temtica a partir dos estudos realizados. Motivo a mais, que com certeza servir de estimulo nossa curiosidade e ajudar o aprofundamento de nossas pesquisas. Se voc pensou que foram os portugueses, ou mesmo os atuais indgenas, errou. De acordo com o pesquisador Eduardo Bueno, a complexa e fascinante questo sobre quem foram os primeiros brasileiros passa, evidentemente, pela indagao primordial: quem foram os primeiros seres humanos a colonizar a Amrica? Sabendo-se que jamais Reproduo do existiram, no continente, grandes primatas que pudessem evoluir para a forma humana, crnio de Luzia. arquelogos e antroplogos cedo partiram da premissa de que os primeiros povoadores haviam chegado ao novo mundo vindos de outro (ou outros) continentes. Mas de onde e quando? Em 1974, no Stio da Lapa Vermelha IV, municpio de Pedro Leopoldo, MG, a equipe da arqueloga Annette Laming-Emperaire encontrou vrias ossadas, inclusive o crnio de uma mulher, mais tarde batizada de Luzia. Luzia teria morrido h cerca de 11.500 anos. O que mais surpreendeu o mundo acadmico foi quando o arquelogo Walter Neves, da Universidade de So Paulo, demonstrou que o crnio encontrado tratava-se de uma pessoa com traos negroides, o que foi confirmado pela reconstituio facial feita pelo dr. Richard Neave, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, em 1999. Segundo Neves (1999) e Pucciarelli (2004) a hiptese melhor documentada na literatura postula que a Amrica foi povoada a partir de duas ondas migratrias. A mais recente foi constituda por populaes asiticas, cujo DNA o mesmo das populaes indgenas atuais. Anterior a esta, houve uma migrao de povos no mongoloides, cujas caractersticas nos remetem aos atuais africanos e aborgines australianos. Esse grupo ancestral, que tambm povoara a Austrlia, teria chegado ao Brasil possivelmente atravs do Estreito de Bering em uma poca de grandes modificaes na paisagem terrestre por consequncia da ltima glaciao. Esse grupo viveu tranquilamente at a chegada da migrao asitica, que ocorreu a partir de oito mil anos atrs. Com o tempo, esses primeiros povoadores, em menor nmero, foram sendo assimilados ou mortos, o que levou sua total extino. Os primeiros brasileiros a maior parte de hbito coletor percorreram muitas regies do Brasil em busca de alimentos e melhores climas. provvel que parte desse grupo tenha se deslocado para o litoral, onde havia mais fartura, tornando-se os homens do sambaqui. Ocuparam todo o litoral sul, sudeste e leste vivendo, sobretudo, de coleta de mariscos, peixes e pequena caa. Muitos dos registros das populaes litorneas podem estar submersos, pois ocorreram transgresses e regresses do nvel relativo do mar durante o Holoceno, episdio que tem a durao de aproximadamente 12.000 anos (Suguio, 1985). As variaes do nvel do mar comearam por volta de 7.000 anos atrs e vm at os dias atuais. Como os Maromomi so supostamente descendentes dessas populaes dos sambaquis, podemos fazer uma ligao entre a histria desses primeiros ocupantes de Guarulhos com os primeiros povoadores do Brasil.

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CICLO DO OURO COLONIZAO PORTUGUESA NO TERRITRIO GUARULHENSEComprovadamente, a primeira atividade econmica/comercial da cidade foi a extrao de ouro. A descoberta ocorreu no final do sculo XVI na Serra do Jaguamimbaba, em 1597, e o feito atribudo a Afonso Sardinha, o velho, estendendo-se at 1812. No incio do sculo XVII, Geraldo Corra tambm descobriu ouro no Rio Baquirivu-Guau e recebeu carta de sesmaria em 1611. Do incio ao fim da minerao foram mais de 200 anos de atividade. Veios de ouro em meio a rocha Toda atividade econmica de quartzo. So extrados por produtiva induz outras; a atividatriturao. No stio arqueolgico de principal s se realiza satisfado Ribeiro das Lavras verifica-se ouro nas duas formas, toriamente se existir comrcio, quartzo e cascalho. prestao de servios, agricultura, fora de trabalho, meios de minerador precisava dispor de transporte, estradas etc., por isso Ouro em gros, encontra-se recursos financeiros para gaa produo econmica um ato na terra em depsito de rantir o sucesso do empreeneminentemente social. areia ou cascalho. A explodimento. Escravos, ferramenQuando os colonizadores porrao feita com a bateia tas de trabalho, abertura de tugueses chegaram antiga Aldeia ou por dragagem. estradas, mercrio, transporte de Nossa Senhora da Conceio de carga, alimento, vestirio, dos Maromomi, vindos da senzala, armas de fogo, muVila de So Paulo, e inicianio e impostos contabiliram a extrao de ouro, nada zavam custos e benefcios. do que existe hoje, em terMuito do que se comprava mos de infraestrutura urbaera pago em ouro. na, havia. Guarulhos, nesta O garimpo de ouro poca, era mata fechada. Os de Nossa Senhora da lugares onde atualmente anConceio estava locadamos, moramos, trabalhaBenguela. Congo. lizado no centro da Vila de mos e nos divertimos so So Paulo de Piratininga, ou obras humanas. seja, entre a Vila de So Paulo e as A caa ao ouro foi o incio do sadas para o Rio de Janeiro e Minas processo de expanso urbana da loGerais. Os mineradores precisaram calidade e das atividades comerciais. abrir caminhos para integrar-se CaOs locais onde antes s existiam mapitania de So Vicente. Guarulhos tas passaram a sofrer interferncia interligava-se s atividades da Cahumana com fins comerciais. Para pitania por trs estradas: um iniciar a extrao de ouro, o

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Escravo. Jean Baptiste Debret.

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caminho pela regio leste, Bonsucesso-Itaqua- pilo; e a Capela de So Benedito, onde h mais quecetuba-So Miguel Paulista; outro pelo lado de 250 anos realizada a romaria e a Festa da sul, Ponte Grande-Penha; e pelo lado norte, Carpio. O lugar compe parte do cenrio do Cabuu-Santana. Guarulhos, atravs desses ciclo do ouro na cidade. O mais importante stio arqueolgico, para acessos, ligava-se Vila de So Paulo, ao litoral paulista e carioca, bem como s minas velhas compreender os mtodos de minerao de ouro no Brasil, encontra-se em Guarulhos. Trata-se do serto de Taubat. Ouro, caminhos, tropeiros e pousos, Guaru- do Stio Arqueolgico do Garimpo de Ouro lhos comeou assim em seu processo econmico. do Ribeiro das Lavras. Para o gelogo da UniUm dos pousos de tropeiros mais conhecidos da versidade de So Paulo, Caetano Juliani, ...o regio leste guarulhense fica na pequena Vila de Bon- local pode ser considerado um laboratrio por sucesso, pouso onde se arranchavam os tropeiros tudo que oferece em termos de conhecimento em local que era dotado de gua (Rio Baquirivu- mineralgico, histrico, geolgico e ambiental. A minerao de ouro, entre outros fatores, -Guau) e vegetao para alimentar animais etc. No local confluem a Estrada das Lavras, Estrada Ve- trouxe a Guarulhos duas novas etnias: os cololha de Bonsucesso e a do Caminho Velho. Os nizadores portugueses e os negros africanos. Nesse perodo, ndios, brancos e negros, uns tropeiros costumavam descansar aps como escravos e outros como senhores, marchar de 15 a 20 quilmetros, a 18 foram os principais atores da Histquilmetros do pouso de Bonsucesso, ria da cidade. onde fica o stio arqueolgico do garimCacos de cermica com estilo po de ouro do Ribeiro das Lavras. e gravura de influncia africana, o De modo geral, em torno dos cemitrio de escravos no adro pousos de tropeiros formaram-se da Igreja da Irmandade de pequenos povoados dotados Nossa Senhora do Rosrio com pequeno mercado codos Homens Pretos, na Rua berto com folhas de pinD. Pedro II, bem como os doba, uma igreja, uma topnimos Estrada das Lapraa e poucas casas. vras, Campo do Ouro, Catas Algo muito semeVelhas, Crrego dos Entulhante a Bonsucesso, lhos etc., existentes na paionde no pequeno largo da sagem da cidade, dimenpraa existem a Igreja de sionam a importncia da Nossa Senhora de BonsucesEscravo trabalhando com a bateia. minerao em Guarulhos. so, construda em taipa de Quilombolas da Conceio dos GuarulhosMartim Lobo Sardinha em 1776 mandava que o sargento-mor Teotnio Jos Zuzarte sem perda de tempo convocasse os auxiliares necessrios para dar combate aos quilombolas que se encontravam na sada da cidade, na aldeia Pinheiros e Stio da Ponte... Mandava aquela autoridade que o capito-mor providenciasse Capites-do-mato e Sertanejos para desinfestar os caminhos. Mas, ao que parece, as coisas no iam muito bem. Os quilombolas continuavam desafiando as autoridades. Da ter sido organizado um plano de propores bem maiores para combat-los. O governador Cunha Meneses enviou ofcio aos capites-mores dos bairros da Penha, Cotia, Santo Amaro, Conceio dos Guarulhos, Cangussu e So Bernardo. No documento dava instrues para que fosse executado um plano de vasta envergadura contra os escravos fugidos.(Clovis Moura, 228)

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Transcrio de trecho da Carta de sesmarias Livro I do Arquivo Pblico do Estado.Carta de data de terras de sesmaria de Geraldo Corra dada pelo capito Gaspar Conqueiro, aos 19 dias do ms de setembro de 1611.

Em Guarulhos chegaram a existir pelo menos seis garimpos de ouro: bairro das Lavras, Catas Velhas, Monjolo de Ferro ou Lavras Velhas do Geraldo, Campo dos Ouros, Bananal e Tanque Grande. O ouro tornou-se base monetria internacional em 1445 e, justamente por isso, possua significado especial para o imprio portugus. Neste contexto colonial, Guarulhos foi um dos locais a compor o mercantilismo portugus durante a Idade Moderna. As minas de So Paulo, entre elas as de Guarulhos, foram o laboratrio para os bandeirantes paulistas acumularem experincia para asFilho de escrava, no escravo. Joaquim do Esprito Santo ou Joaquim Antnio dos Santos, apelidado Nh Quim de Ferro, era filho da escrava Josepha, que foi vendida pelo dr. Joo lvares de Siqueira Bueno para sua irm, Ana Maria de Castro. Teria sido o ltimo remanescente da escravido da Fazenda Bananal. Fonte: Guarulhos Sculo XX imagens e histrias, autor: Massami Kishi.

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descobertas e minerao em Minas Gerais. A minerao em Guarulhos e So Paulo antecede em 100 anos as descobertas em Minas Gerais. Durante os trs primeiros sculos de presena colonial portuguesa no planalto paulista, as construes de casas, igrejas, cmaras, cadeias etc., eram feitas em taipa de pilo. A taipa representava um modo construtivo barato, seguro e duradouro, por isso utilizado pela comunidade lusa, sendo a terra a principal matria-prima. Da poca das construes em taipa de pilo restou pouco em Guarulhos. Em 1685, foi erguida a Igreja de Nossa Senhora da Conceio, atual Igreja Matriz, que mantm paredes de taipa revestidas com tijolos e todas as paredes do altar em taipa de pilo. No bairro de Bonsucesso, a Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso foi construda, com essa tcnica. No bairro das Lavras, no meio da mata, resta um pedao de Ideia Metalista

parede que os moradores afirmam ser de uma antiga senzala, haja vista que h pouco tempo foram retiradas argolas de ferro da referida parede. Ao esgotamento das atividades de minerao de ouro em Guarulhos sucedeu o ciclo do tijolo cozido. Entre essas duas fases, no incio do sculo XIX, teve destaque a plantao de cana-de-acar, direcionada para a produo e comercializao de cachaa e rapadura, contando inclusive com a fora de trabalho escravo.

Parte da parede de taipa da Casa Grande do bairro das Lavras.

O que se convencionou como Idade Moderna ocorreu na Europa, a partir de 1453, com a Tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos; no Brasil, a partir da chegada das caravelas de Pedro lvares Cabral a Porto Seguro, no dia 19 de abril de 1500; e em Guarulhos, com a fundao da aldeia, o ciclo do ouro, o trabalho escravo indgena e africano. O mercantilismo caracterizou-se como uma poltica de interveno do Estado na economia. A riqueza de um pas era medida pela quantidade de metais preciosos, portanto, a riqueza era entendida como a acumulao de ouro e prata. A fim de colocar em prtica a ideia metalista, uma das medidas mais comuns adotadas pelos Estados europeus foi a de estimular a exportao e desestimular a importao. Desse modo, procurava-se favorecer a entrada de metais preciosos e impedir a sua sada. (Fonte: Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira in: Histria do Brasil.)

Provavelmente aventureiro ingls esteve em Guarulhos, em 1597Em muitos desses crregos encontramos pequenas pepitas de ouro do tamanho de uma noz, e muito ouro em p feito areia. Depois disso, chegamos a uma regio bonita onde avistamos uma enorme montanha brilhante nossa frente. 7 ( p. 116).7

A montanha brilhante, segundo Teodoro Sampaio, seria a Serra de Itaberaba, um prolongamento da Mantiqueira, entre os municpios de Nazar Paulista e Santa Isabel. Itaberaba, em Tupi, quer dizer montanha reluzente. Gabriel Soares de Sousa, em seu tratado descritivo do Brasil, 1587, d testemunho semelhante,... E no h dvida seno que entrando bem pelo serto desta terra h serras de cristal finssimo, que enxerga o resplendor delas de muito longe. Fonte: As incrveis aventuras e estranhos infortnios de Anthony Knivet, Sheila Moura Hue, organizao, introduo e notas. Jorge Zahar Editor.

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Arqueologia em GuarulhosA Arqueologia tem uma funo social bastante importante, pois interage com a comunidade desde o momento de localizao de um stio arqueolgico at o momento em que se integra a ela para o trabalho de Educao Patrimonial. No caso de Guarulhos, mais propriamente no stio arqueolgico do Ribeiro das Lavras, propomo-nos a mostrar como a Arqueologia se faz imprescindvel para a reconstruo do passado guarulhense. Alm de que o trabalho arqueolgico tambm nos permite ajudar na preservao, no s dos vestgios materiais removveis, mas das estruturas macias. O trabalho arqueolgico permitir, tomando como exemplo o caso do RiCaco de cermica beiro das Lavras, uma reconstituio do contexto da minerao, do trabalho encontrado no stio nas lavras de ouro pelos trabalhadores indgenas e africanos, conjugando de arqueolgico do forma interdisciplinar a pesquisa arqueolgica com a Geologia, Geografia Ribeiro das Lavras. Fsica, Biologia e com a Educao Patrimonial, um dos principais expoentes do trabalho do arquelogo no Brasil e no mundo. Por fim, o intuito final da Arqueologia para a regio de Guarulhos deve passar pela criao de um espao educativo que possa se constituir em uma referncia para pesquisadores, universitrios e estudantes da rede estadual e municipal de Guarulhos. A reconstruo da Histria de Guarulhos no somente passa pela importante documentao textual deixada por jesutas, viajantes ou historiadores do passado, como tambm pelos veios de ouro do Ribeiro das Lavras, e a que a Arqueologia se apresenta como fundamental para se recontar bairro das Lavras essa histria. Arquelogos Vagner Carvalheiro Porto e Lcia Juliani.

Guarulhos.

Prefeitura de Guarulhos Secretaria do Meio Ambiente.

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Entradas e bandeiras busca do ouro e a interface com GuarulhosAs entradas e bandeiras eram expedies colonizadoras feitas pelo interior do Brasil nos sculos XVI, XVII e XVIII. As entradas eram expedies de carter oficial, visando conquista da terra e consolidao do domnio portugus, combatendo as tribos indgenas rebeldes. As bandeiras, por sua vez, de carter particular, tinham objetivos nitidamente econmicos. Foram empreendidas, sobretudo por paulistas, para capturar ndios para utiliz-los no trabalho escravo e descobrir jazidas de pedras e metais preciosos. Os bandeirantes, alguns deles nascidos ou donos de terras em Santana de Parnaba, e suas aes levaram expanso do territrio brasileiro, ao povoamento do interior e ao levantamento dos recursos naturais. Mas eles tambm dizimaram muitas populaes indgenas e atacaram misses jesuticas para aprisionar nativos. Entre os bandeirantes paulistas constatam-se em Guarulhos as presenas do bandeirante Afonso Sardinha e de Geraldo Corra, ambos envolvidos diretamente com a minerao de ouro e a escravido indgena.

Bandeirantes. Obra de Jean Baptiste Debret.

AGRICULTURA E PECURIA EM GUARULHOSA atividade em meio rural na cidade passa basicamente por trs momentos. De coletora agricultura de subsistncia e posteriormente comercializao do excedente produzido. Em seu ltimo perodo, com base em dados disponveis, no chegou a constituir um ciclo econ-

mico nos moldes da pujante agricultura no Estado de So Paulo, onde se pode observar o predomnio do plantio de caf, cana-de-acar, soja e laranja, por exemplo. Na poca da ocupao indgena, os Maromomi se restringiam coleta do fruto da sapucaia, do pio da araucria, mel, razes etc. Como descrito em captulo anterior, os Maromomi

Produo de hortalias margens do Rio Baquirivu-Guau.

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Matadouro Municipal inaugurado em 13 de maio de 1929 local atual do Tiro de Guerra.

so de uma comunidade indgena nmade, que no chegou a desenvolver tcnicas produtivas no tocante a agricultura e muito menos quanto a domesticao de animais. Segundo pesquisas, houve uma transio gradual na qual a economia de caa e coleta coexistiu com a economia agrcola: algumas culturas eram deliberadamente plantadas e outros alimentos eram obtidos da natureza. Sobre a agricultura de subsistncia em Guarulhos, no existe data precisa de seu incio. Sabemos que desde o comeo da colonizao em So Paulo as famlias portuguesas viviam da agricultura de subsistncia. Em Guarulhos, a primeira atividade econmica dos colonizadores foi a minerao de ouro. provvel que nas proximidades dos garimpos do municpio, a exemplo do que aconteceu em Minas Gerais durante o ciclo do ouro, tenham existido plantaes voltadas para o abastecimento dos trabalhadores envolvidos na minerao e das respectivas famlias proprietrias. De modo geral, a agricultura comercial ganha fora com a evoluo das tcnicas agrcolas, fator essencial, que possibilitou a produo de excedente de mercadorias no meio rural. Com isso, foi possvel a formao de mercados de consumo de produtos agropecurios. A existncia de muitas olarias e o aumento populacional em Guarulhos e So Paulo favoreceu a diversificao da economia local, inclusive a ampliao da atividade agrcola: logo aps

a minerao de ouro, o produto de maior destaque da agricultura no municpio era a cana-de-acar. No final do sculo XIX chegaram a existir na cidade 30 engenhos situados nas regies de Ituverava, Tapera Grande, Pirapora e Bonsucesso. A diversificao aconteceu com a criao de gado, aves, equinos, sunos e caprinos. Em 1901, com uma populao de 4 mil pessoas residentes em Guarulhos, constata-se a quantidade de 300 cabeas de gado, 20 caprinos, 100 porcos, pouca produo de feijo e arroz e boa safra de milho. Em 1942, com mais de 10 mil habitantes, relatrios apontavam apenas a existncia de 800 cabeas de gado e cultivo de cereais. Aps 1950, com o avano da industrializao e o crescimento urbano da cidade, ganha importncia a produo hortifrutigranjeira, tendo frente do processo famlias imigrantes asiticas e europeias, principalmente. Ao longo das vrzeas se percebe a ocupao dos leitos dos rios e crregos com pequenas glebas para produo de hortalias. No sop da Cantareira se observam muitas plantaes de chuchu, uva, tomate, entre outras culturas. Entre as vrzeas e a Serra da Cantareira, muitas famlias se dedicam criao de porcos e aves. Os produtos hortifrutigranjeiros de Guarulhos, alm do mercado local, eram e continuam sendo vendidos no mercado da Capital paulista. Segundo dados da declarao para o ndice de participao dos municpios (Dipam, 2006), atualmente em Guarulhos existem apenas 54 unidades produtivas em meio rural.

Matadouro e Frigorfico Mercantoni, inaugurado em 1954 localizado na Av. Monteiro Lobato.

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Reunio na Fazenda Bananal. Da direita para esquerda: Nicola Rinaldi, Arnaldo Santoni, Olegrio Barbosa (dono da fazenda), Juvenal Ramos Barbosa, Jos Luis Prata e Ulisses Tavares. Seis fazendeiros, donos da metade das terras do municpio. Foto de 1924.

CICLO DO TIJOLO CHEGAM OS IMIGRANTES ITALIANOS, ALEMES, LIBANESES E JAPONESESAo conversarmos com as pessoas mais idosas sobre a Histria da cidade, muitas se lembram das olarias. A atividade oleira foi to significativa que marcou a memria dos mais antigos e a paisagem da cidade. Placas de ruas e tijolos timbrados com iniciais de famlias proprietrias de olarias podem ser um dos caminhos para compreender a importncia da produo de tijolos cozidos na histria e na economia locais. O que talvez alguns moradores e mesmo pesquisadores no expliquem como comeou, quais as alteraes ocorridas e as mudanas que a produo de tijolos trouxe para o desenho arquitetnico, a vida cultural e poltica da cidade.

Uma das muitas olarias existentes ao longo da vrzea do Rio Tiet, exploradas na sua maioria por imigrantes europeus.

Remanescente de olaria no bairro das Lavras, em 2008.

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Argila das margens do Rio Baquirivu-Guau.

A introduo do tijolo como material construtivo, em substituio taipa de pilo, alterou a funo das olarias e fez com que Guarulhos reencontrasse seu espao na economia paulista. O uso do tijolo imps alteraes na forma tradicional de funcionamento das olarias, que alm de telhas, passaram a produzir tijolos cozidos. De poucas unidades artesanais nos bairros da Ponte Grande, Vila Augusta e Gopouva, o fenmeno se espalhou por todos os cantos do municpio, coexistindo duas formas produtivas: a artesanal, atravs das olarias, e a industrializada. A atividade, alm de todos os significados histricos, aconteceu no perodo de transio da escravido para a forma de trabalho assalariado. A expanso do mercado consumidor, aliada ao conhecimento tcnico dos imigrantes europeus na rea da construo civil e revoluo tecnolgica no mundo do trabalho fizeram

Famlias alems bairro Torres Tibagy.

com que o sistema produtivo artesanal das olarias sofresse alteraes, tanto na forma de produo de tijolos como no sistema de transporte. Em 1911, foi implantada em Guarulhos a primeira indstria voltada produo de telhas e tijolos (Cermica Paulista) e logo em seguida foi inaugurada a estao do Trenzinho da Cantareira, ambos em Vila Galvo. Sobre a origem das olarias em territrio paulista, uma pesquisadora diz: A primeira notcia que se tem a respeito da instalao de uma olaria em So Paulo data de 1575, ano em que o oleiro Cristvo Gonalves requereu Cmara Municipal terreno para a implantao de um forno destinado ao cozimento de telhas de barro...; ...entretanto no pode haver dvida de que em fins do sculo XVI em torno de 1590 j havia muitas casas cobertas de telha, pois, em 1593, os oleiros tinham at a sua organizao e o seu juiz de ofcio na povoao. (DAlambert, p. 74.) Antes de comear a falar do ciclo do tijolo em Guarulhos, devemos pensar que sem argila no possvel produzi-lo. A argila, pelas qualidades maleveis e plsticas que possui, desde o incio da Antiguidade era utilizada na Mesopotmia e no Egito como material construtivo. Argilas so sedimentos minerais normalmente encontrados prximos aos rios e crregos. A existncia de grandes jazidas de argila em Guarulhos explica-se pelo relevo da cidade. Guarulhos est localizada no fundo do Vale do Planalto Paulista e da Serra da Cantareira, plancie por onde correm os rios Tiet, Cabuu de Cima, Baquirivu-Guau, alm de inmeros crregos e ribeires; e, da lavagem do solo, resultou a formao argilosa na camada sedimentar. Quanto importncia do tijolo cozido no Estado de So Paulo, veja o que diz a pesquisadora Clara Correia DAlambert: A expanso ferroviria na dcada de 1860 e a imigrao estrangeira trazem, principalmente, alemes e italianos colaboraram muito para a difuso do uso da alvenaria de tijolos no Estado de So Paulo. As fazendas de caf do interior paulista

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foram pioneiras na utilizao do tijolo em suas instalaes, na primeira metade do sculo XIX. Os cafeicultores importaram para as cidades a novidade tecnolgica do tijolo, que to bem solucionou problemas tcnicos e construtivos nas suas fazendas. Ao esgotamento das atividades de minerao de ouro em Tijolo feito em olarias guarulhenses, de 1884, acervo do Guarulhos sucedeu outro moMuseu Histrico de Guarulhos, 2008. delo de ocupao do espao. Correspondendo ao momento econmico, O povoamento e as atividades econmicas deslocaram-se dos morros, nas regies norte e leste da alm da chegada dos imigrantes europeus, iniciacidade, para as reas prximas aos rios Tiet, -se a imigrao de turcos, libaneses e japoneses. O Cabuu de Cima e Baquirivu-Guau. A partir de ciclo do tijolo, entre outras coisas, trouxe trs ele1870, a imigrao subvencionada trouxe milhares mentos novos para o cenrio poltico da cidade, a de imigrantes europeus para o territrio paulista; saber: implantao das primeiras indstrias, o momuitos italianos, alemes, espanhis e portugue- delo assalariado para a remunerao do trabalho ses vieram para Guarulhos. As condies naturais e o aparecimento dos primeiros operrios urbaexistentes em Guarulhos (gua, argila, madeira, nos. Na Inglaterra, as oficinas artess precederam areia e pedra) e a proximidade com a Capital pau- a indstria; em Guarulhos, o processo industrial lista possibilitaram o desenvolvimento de um novo foi antecedido pelas olarias, tambm chamadas de ciclo econmico, baseado no tijolo cozido. proto-indstrias. O ciclo industrial guarulhense comeou a se Outro fator importantssimo para o ciclo do tijolo foi a extrao da cal no territrio paulista, formar paralelamente ao ciclo do tijolo. Em 1911, a primeira fbrica instalada em Guarulhos mineral responsvel pela feitura da massa. O consumo de tijolos cozidos na regio me- foi a indstria Cermica Paulista, no bairro de tropolitana, utilizados em galpes industriais, vi- Vila Galvo, que produzia tijolos cozidos e telas operrias, pontes, igrejas, prdios, moradias etc., lhas. A presena dos povos que chegaram no sefez aumentar a demanda, concorrendo para a gundo momento da imigrao externa turcos, ampliao do nmero de olarias, fbricas e, libaneses e japoneses contribuiu para a Histconsequentemente, para a diversificao econ- ria local, fato que pode ser constatado nas reas mica constatada na cidade. No bairro da Ponte Grande existiu o Porto da Igreja de Nossa Senhora da Conceio. Local de escoamento da produo de tijolos e areia, via Rio Tiet, para a cidade de So Paulo, propiciou a abertura de novas estradas, ampliao do comrcio, incremento do rebanho bovino e grande nmero de engenhos voltados para a produo de cachaa.Barco no Rio Tiet transportando tijolos, em 1945.

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do comrcio, da agricultura e do setor hortifrutigranjeiro. Em 1950, o ciclo econmico da cidade j era considerado industrial, conforme veremos a seguir. A produo de tijolos guarulhense foi fundamental para a nova configurao arquitetnica da cidade de So Paulo, expressa em monumentos como Museu do Ipiranga, Pinacoteca do Estado, Palcio das Indstrias e Teatro Municipal. Os tijolos cozidos substituram a tradicional tcnica construtiva da taipa de pilo.

Pedras utilizadas para calamento de ruas.

CICLO INDUSTRIAL PROCESSO DE METROPOLIZAOGuarulhos faz parte do seleto grupo das dez cidades brasileiras responsveis por 25% do Produto Interno Bruto (PIB). A cidade conta com mais de 2.890 indstrias, 11.835 estabelecimentos comerciais, 6.662 empresas prestadoras de servios e 54 unidades produtivas em meio rural (Dipam, 2006). Em 2006, atingiu o 9o maior PIB do Pas, sendo os dez maiores: So Paulo, Rio de Janeiro, Braslia, Manaus, Belo Horizonte, Campos de Goytacazes, Curitiba, Maca, Guarulhos e Duque de Caxias. Como se deu o processo?

A expanso econmica e urbana no perodo industrial da cidade pode ser compreendida a partir do estudo que envolve a combinao de fatores polticos e sociais, e de recursos naturais do municpio, aspectos que possibilitaram a insero da cidade no contexto do desenvolvimento produtivo local, regional, nacional e mundial, tendo como base a indstria estabelecida. Nossa reflexo destaca os efeitos comerciais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial no Brasil e em Guarulhos. Concomitante industrializao, ocorreu a implantao da estrada de ferro e a ocupao do espao areo para fins

EMPREGOS FORMAIS SETORES ECONMICOS

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Divulgao: Prefeitura de Guarulhos.

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estratgicos militares, e o embrionrio modal de transporte de carga area, a partir da base area de Cumbica. Nos dias atuais, analisamos os impactos da poltica neoliberal. Para o estudo da evoluo da indstria na cidade, bem como a formao do proletariado urbano, entre outros aspectos, importante periodizar a anlise, e para isso definimos trs momentos. Primeiro momento, de 1911 a 1945; segundo momento, de 1946 a 1989; terceiro momento, de 1990 aos dias atuais.

INDUSTRIALIZAO: PRIMEIRO MOMENTO PROCESSO ECONMICO ENTRE AS DUAS GUERRAS MUNDIAISNo primeiro momento, de 1911 a 1945, a cidade comea seu processo de industrializao em 1911, com a implantao da Cermica Paulista em Vila Galvo. Entre 1915 e 1945, o municpio avana em seu processo fabril, contabilizando 58 unidades produtivas, empregando 624 operrios. Importante destacar que as primeiras indstrias foram instaladas na regio do centro antigo, no eixo que vai da Vila Galvo ao bairro do Macedo. Em termos de Brasil, no primeiro censo econmico posterior Primeira Guerra, realizado em 1920, o levantamento aponta a existncia de 13.336 estabelecimentos industriais. Do total, 5.936 foram implantados no quinqunio 1915-1919. Ao avano da industrializao em Guarulhos corresponde, tambm, a implantao do Ramal da Tramway Cantareira, trecho ferrovirio que trouxe o trem de ferro ao centro de Guarulhos, bem como a implantao das primeiras fbricas ao longo das imediaes da linha da rede ferroviria na cidade. A primeira indstria a se instalar em Guarulhos foi a Cermica Paulista, em 1911, implantada no bairro de Vila Galvo, e as indstrias produtoras de bens de consumo na regio do centro expandido, por onde passava o trem da Cantareira, posteriormente chamada de Rede Ferroviria Sorocabana.

Foto da primeira cermica mecnica, instalada em 1911.

O trem da Cantareira foi to importante para a industrializao do municpio quanto a Estrada da Conceio no ciclo do ouro, a Hidrovia Tiet no incio do ciclo do tijolo cozido, ou mesmo as rodovias Dutra e Ferno Dias, a partir da dcada de 1950. O ramal do trem da Cantareira em Guarulhos foi um dos principais facilitadores da indstria nascente. Nos primeiros anos do sculo XX, Guarulhos se insere no contexto paulista como fornecedora de produtos para construo civil, produtos agrcolas, alimentcios e bens de consumo. As barreiras naturais (Rio Tiet e a Serra da Cantareira) representavam um impedimento ao deslocamento da produo guarulhense, que tinha caminhos de ligao com a Capital por Bonsucesso, Penha e Jaan. O Rio Tiet, at 1915, era o principal corredor de transporte de mercadorias.

Parte da parede da primeira fbrica de Guarulhos Vila Galvo.

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A regio da Ponte Grande, localizada estrategicamente na via de ligao com o mercado paulista, em 1912 abrigava 45 das 137 casas do municpio e as 12 olarias existentes. Do Porto da Igreja de Nossa Senhora da Conceio saam os materiais para o porto da Capital, localizado na atual Ponte das Bandeiras. A construo do Ramal da Tramway at o centro de Guarulhos possibilitou a diPorto da Igreja, em 1930 bairro Ponte Grande. versificao da economia local e o deslocamento do eixo produtivo para outros bairros de So Paulo, atravs do trem da Cantareira. A da cidade, principalmente para as regies aten- Primeira Guerra Mundial desorganizou o sistedidas pelo trem. Integrando Guarulhos pela ma de abastecimento dos mercados dependenZona Norte da Capital, o trem tornou-se a prin- tes de produtos da economia europeia. Guarulhos, nesse contexto histrico, rececipal via de transporte de passageiros e de merbe investimentos em indstrias, que foram imcadorias do municpio. Nessa fase aconteceu a implantao de f- plantadas ao longo do ramal do trem da Cantabricas de bens de consumo para o atendimento reira, surgindo assim as primeiras fbricas na da demanda criada com a rpida urbanizao regio do centro expandido. Por volta de 1920, da cidade de So Paulo e para substituio das sua economia contava com as seguintes empreimportaes, interrompidas pela Primeira sas: Empresa Carbonel de Henrique Carbonel, Guerra Mundial. A inaugurao da Estao de inaugurada em 1923, tecelagem situada prxiTrem Cabuu, posteriormente denominada de mo a Estao Guarulhos; mais duas empresas Vila Galvo, favoreceu a expanso industrial do dos srs. Gacomo Candenuto e Evaristo Bisognini; duas fbricas de polainas, sandlias e municpio. A Cermica Paulista, localizada ao lado da artigos de couro; uma de propriedade de Jos estao de trem da Vila Galvo, segunda maior Saraceni, situada nas proximidades da Estao empresa do ramo do Estado de So Paulo, e de Vila Augusto; uma Fbrica de alpargatas do olarias tradicionais transportavam sua produ- sr. Cerdam Galvez, tambm na Vila Augusta; o de tijolos e materiais cermicos para aten- Moinhos Reisa, de moagem de gros e fabricadimento da demanda da urbanizao da cidade o de farinha dos irmos Fiza, na Vila Augusta; e um matadouro municipal, de propriedade de Gino Montagnani, inaugurado em 1929 no local onde hoje o Tiro de Guerra. Nas palavras do ento prefeito Jos Maurcio de Oliveira, a Estrada de Ferro foi fundamental para a expanso urbana do municpio. Apesar da falta de comodidade que se verifica na Estrada de Ferro do Tramway da Cantareira, que diariamente nos d 14 trens, extraordinrio o progresso que esta estrada trouxe ao municpio no s sede e seus Fbrica de Tecidos Carbonel, arredores como tambm s estaes vizinhas. edificada em 1917.

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Assim que por ocasio da inaugurao do Ramal da Estrada de Ferro da Cantareira, a 4 de fevereiro de 1915, eram completamente desabitados os lugares onde hoje florescem e prosperam as estaes de Vila Galvo e Vila Augusta, cheias de habitaes, desde casas operrias at os palacetes luxuosos. (Oliveira Sobrinho, 1920 in: Santos, 2006.) Sem corresponder ao desenvolvimento de uma tecnologia nacional, os investimentos industriais foram principalmente de empreendedores imigrantes europeus e grandes proprietrios agrcolas. Os investimentos de capital estrangeiro, principalmente ingls, concentraram-se nos setores de servios pblicos, como transporte ferrovirio, energia eltrica, telefonia etc. A imigrao europeia foi o principal fator de crescimento populacional do perodo, constituindo um contingente de fora de trabalho envolvida nesse primeiro momento da industrializao. Em Guarulhos, tanto nas olarias como nas indstrias, eram os italianos, portugueses, espanhis, alemes, japoneses, turcos e libaneses que exerciam funes produtivas e comerciais, transformando matria-prima e mercadorias para venda no crescente mercado paulista. Os efeitos da Primeira Guerra Mundial, alm de induzir ampliao do parque industrial, acarretaram tambm em So Paulo a ecloso de trs greves gerais, em que os trabalhadores buscavam soluo para o problema da carestia, denunciavam a especulao com gneros alimentcios e as condies precrias de trabalho, gerando greves em 1917.Abrasivos Norton Meyer S.A.

Chegam as primeiras multinacionaisNo incio da dcada de 1930, o estmulo industrializao da cidade passou pela edio da primeira lei, isentando empresrios do pagamento de impostos ao governo municipal, Lei no 20, de 24/3/1937. No ano seguinte, em 11 de maro de 1938, chegam ao municpio as primeiras multinacionais. Tratava-se das fbricas Norton Meyer S.A. e a Harlo do Brasil Indstria e Comrcio S.A., situadas no bairro do Macedo, nas proximidades da Estao Ferroviria Guarulhos e futuras instalaes da Rodovia Presidente Dutra. No incio da dcada de 1940 Guarulhos contabilizava aproximadamente 58 fbricas, que empregavam 624 trabalhadores em atividades industriais.

O movimento grevista foi duramente reprimido pela polcia. No temos informaes se houve a participao de trabalhadores de Guarulhos nas greves gerais de 1917. Nesse contexto de formao e crescimento do proletariado urbano, aparece o primeiro movimento social de Guarulhos, em 1928, e surge a comisso popular pela regularizao e aumento do nmero de auto-nibus no transporte coletivo. A necessidade de fora de trabalho para construo da base area de Cumbica e a Via Dutra, entre os anos de 1944 e 1950, foi atendida pela migrao nacional, principalmente nordestina. A liberao da populao rural e constiFoto Massami.

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Estao Vila Galvo, em 1950.

tuio de um mercado de reserva de trabalhadores nos centros urbanos foi condio imprescindvel para concretizao da poltica de desenvolvimento capitalista brasileira, a partir dos anos de 1930. Alm disso, foi necessria tambm a integrao do Pas atravs de uma rede de rodovias que possibilitasse o deslocamento populacional para os principais centros urbanos e de investimentos governamentais para favorecer a migrao interna. As transformaes econmicas e sociais ocorridas nas dcadas seguintes alteraram a configurao populacional, com a chegada macia de imigrantes nacionais, vindos principalmente do interior de So Paulo, Minas Gerais, Paran, Bahia e outros Estados, ampliando a zona urbana e configurando novos espaos de convivncia, que causaram estranhamento aos moradores estabelecidos, grande parte imigrantes estrangeiros, e aos guarulhenses natos. As experincias culturais preservadas na memria de antigos moradores e materializadas na geografia da cidade demonstram uma apropriao do espao pelos moradores anteriores ao processo de imigrao interna, manifestaes e expresses culturais ainda hoje presentes na cidade. Experincias de sociabilidade que possibilitaram a formao de um sentimento de pertencimento vida local.

A partir da dcada de 1950, quando a populao ultrapassou 35 mil habitantes, o fato comeou a causar estranhamento s famlias mais antigas do municpio. A nova composio social gerou uma situao conflituosa entre as famlias de imigrao europeia, asitica, libanesa, guarulhenses natos e os imigrantes nacionais. A presena dos imigrantes nacionais implicou em novas prticas culturais e hbitos sociais. O perodo em anlise abre com a implantao da primeira indstria, a Primeira Guerra Mundial e a implantao do trem da Cantareira e fecha com a construo da base area de Cumbica. Dois modais de transportes, o sistema Cantareira e a Base Area de Cumbica, modificaram o cenrio da cidade. O primeiro com grande influncia na expanso da economia local. O segundo, que alm da ocupao do vasto espao na Fazenda Cumbica significou tambm a ocupao do espao areo do municpio, para finalidades militares e incio do transporte de carga area, processo que se ampliar com a construo do Aeroporto Internacional de Cumbica. Os efeitos da Segunda Guerra Mundial (19391945) impulsionaram a industrializao do Brasil e de Guarulhos. Alm da produo para o mercado interno, muitos grupos empresariais brasileiros passaram a vender seus produtos para os pases em guerra; com isso, a indstria cresceu. Isso o que veremos nas pginas seguintes.

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Estrada de Ferro Em 1896, Vereadores Discutem a Implantao do TremA partir do final da dcada de 1860, com a implantao da primeira ferrovia em So Paulo a So Paulo Railway, em 1868 surge um novo e importante elemento articulador do desenvolvimento econmico da provncia, responsvel pelo progresso que marcou profundamente a sociedade paulista e a sua civilizao material. (D Alambert, p. 7.) No final do sculo XIX, em 1896, j se discutia na Cmara Municipal de Guarulhos a necessidade de a regio ser servida por uma estrada de ferro, ligando Guarulhos estao do bairro da Penha. A justificativa recaa sobre a farta quantidade de recursos naturais da regio, Parada Sorocabanos, atual Praa Luiz mais especificamente produo de madeira e pedra, Matheus Maylaski. alm da produo de tijolos. Toda a produo estava direcionada s crescentes edificaes da Capital, justificando a implantao do ramal ferrovirio que se efetivou somente em 1915, com a inaugurao do Ramal Guapira Guarulhos, o trem da Cantareira. Existiram seis estaes e uma parada de trem em Guarulhos: Vila Galvo, Torres Tibagy, Gopouva, Vila Augusta, Parada Sorocabanos, Estao Guarulhos e Estao Cumbica, na Base Area. O ramal de Guarulhos comeou como uma extenso da Estrada de Ferro da Cantareira, que, aberto em 15 de novembro de 1910, saa da Estao do Areal e atingia o Asilo dos Invlidos, no Guapira (depois Jaan). Somente em 1913 foi aberta a primeira estao intermediria, Tucuruvi, e aos poucos outras estaes passaram a ser abertas na linha que atingiu Guarulhos, em 1915. Em 1947, a linha teve a bitola ampliada de 60 cm para 1 metro, quando esta j atingia o Aeroporto Militar de Cumbica. Em 31 de maio de 1965, o trfego do ramal foi suprimido, um ano depois de o trecho Areal - Cantareira ter sido extinto. Os trilhos foram retirados e logo depois diversas estaes foram demolidas. A Estao Guarulhos foi inaugurada em 1915, como terminal do ramal de Guarulhos. A partir da primeira metade dos anos 1940, passou a sair de l um ramal na verdade, a continuao da linha para a Base Area de Cumbica. Esse ramal foi extinto aparentemente junto com o ramal de Guarulhos, em 1965. A Estao Guarulhos foi desativada em 1965, com o ramal. A Estao Guarulhos, atualmente, serve de sede para a Guarda Civil Metropolitana, na Praa IV Centenrio, situada no Jardim Santa Francisca. A praa um dos logradouros mais antigas do municpio e abrigava a antiga estao de trem Guarulhos. Hoje, a estao no existe, mas as instalaes que ela possua foram restauradas e colocada na praa uma locomotiva antiga, da Usina Tamoio, em Araraquara que, segundo consta, foi resgatada pela Prefeitura, que a deixou exposta em frente plataforma da antiga estao. Junto a ela, de um lado, fica a casa que abrigava o chefe da antiga estao de trem e foi restaurada, apresentando-se em perfeitas condies. conhecida como Casa Amarela, que hoje a sede do arquivo municipal.

Estao Ferroviria de Cumbica Base Area.

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INDUSTRIALIZAO: SEGUNDO MOMENTO OFERTA DE EMPREGO, EXPLOSO DEMOGRFICA E CRESCIMENTO DESORDENADONo segundo momento, de 1946 a 1989, cabe destacar que as indstrias passaram a se instalar na regio de Cumbica. Entre muitos fatores, cinco foram essenciais para o avano da industrializao guarulhense nesse perodo: concluso das obras da Base Area de Cumbica; implantao da Estrada de Rodagem Rio - So Paulo; fora de trabalho disponvel com a macia migrao interna; implantao do loteamento Cidade Satlite Industrial de Cumbica, em 1946, pela famlia Guinle; e a disponibilidade de gua do Aqufero Cumbica. Esses fatores foram essenciais para a prxima fase da industrializao da cidade, sem desconsiderar os demais. As obras federais da Base Area de Cumbica e da Estrada de Rodagem Rio - So Paulo, cujo traado atinge a parte mais baixa da cidade, tm concorrido tambm para o progresso crescente que se verifica, principalmente pela grande valorizao de propriedades. (Oliveira, 1943 in: Santos, 2006). A transferncia da Base Area do Campo de Marte, em So Paulo, para Guarulhos, como parte do Plano Quinquenal de Desenvolvimento do governo Getlio Vargas, modificou radicalmente a vida da cidade. At aquele momento as atividades econmicas se davam em terra. A chegada do equipamento militar significou

tambm o incio da ocupao do espao areo para fins militares e comerciais; parte dos pousos e decolagens na pista da base area era voltada para o transporte de carga. A implantao do loteamento Cidade Satlite Industrial de Cumbica e a respectiva infraestrutura vinda com a Base Area mudaram o eixo de implantao de indstrias e a logstica na cidade. O eixo produtivo da cidade, que era localizado na Regio Central, definido pela Estrada

Foto da Base Area de Cumbica, trecho da antiga rodovia Rio - So Paulo e do loteamento da cidade Industrial Satlite de Cumbica, em 1948.

Antigo caminho Chevrolet.

Via Dutra.

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GUARULHOSLaboratrio de Geoprocessamento UnG.

de Ferro Sorocabana, transfere-se para Cumbica, zonas sul e leste, nas proximidades da Rodovia Presidente Dutra. A partir da Segunda Guerra Mundial, investimentos do capital estrangeiro, principalmente norte-americano, impulsionaram o desenvolvimento do setor industrial de bens de consumo durveis e capital, caracterizando uma nova fase do processo industrial brasileiro. A predominncia do modelo de desenvolvimento dependente sobre o desenvolvimento nacionalista se configurou com o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956 1961). Com o lema 50 anos em 5, acelera o desenvolvimento com a entrada macia de capital estrangei- Mapa do loteamento da cidade Industrial Satlite de Cumbica, ode 5 de novembro de 1945 Implantado pelo Decreto Municipal n 14. ro na implantao da chamada indstria pesada. Guarulhos, nesse contexto histrico, do gelogo dr. Hlio Nbile Diniz: ...a regio favorecida por sua localizao geogrfica na Re- de Guarulhos e de Aruj industrializada e necesgio Metropolitana de So Paulo e por estar no prin- sita de grande quantidade de gua para suas ativicipal eixo industrializado, entre Belo Horizonte, Rio dades e processos. A ausncia de um sistema mude Janeiro e So Paulo. O ciclo industrial, diferente- nicipal efetivo de abastecimento de gua fez com mente dos ciclos do ouro e do tijolo, que dispu- que as perfuraes de poos aumentassem basnham de sua matria-prima no prprio municpio, tante durante a dcada de 1960. Os aquferos nunpassou a contar com matrias-primas vindas de ca antes explorados favoreciam boas vazes. O sucesso do desenvolvimentismo associaoutras regies. Para isso, as duas principais artrias rodovirias, a Rodovia Presidente Dutra e a Ferno do pode ser observado na quantidade e velociDias, foram tambm importantes fatores de est- dade da instalao do parque industrial na cidade. Em 1953, eram 27 grandes indstrias; em mulo industrializao do municpio. Alm da localizao no tringulo entre Minas 1956, eram 90 grandes fbricas e 80 pequenas. Gerais, So Paulo e Rio de Janeiro, o Aqufero Ao processo de implantao das indstrias de Cumbica foi essencial para o pleno desenvolvi- grande porte nas dcadas de 1950, 1960 e 1970 mento do ciclo industrial na cidade. Nas palavras correspondeu uma acelerao do processo

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migratrio para a cidade de Guarulhos, provocando profundas mudanas na sua estrutura urbana e social. A cidade v multiplicada sua populao, como podemos verificar na tabela demogrfica: ano 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2007 populao 13.439 35.523 101.273 235.865 532.724 787.866 1.071.299 1.236.192 migrantes %

57,5 71,3

Fontes: IBGE/Prefeitura de Guarulhos.

Conforme observa o economista Paul Singer: ...o desenvolvimento capitalista da economia brasileira foi profundamente marcado por esta ampla mobilizao do exrcito industrial de reserva, que deu lugar a um abundante suprimento de fora de trabalho pouco qualificada, mas dcil e de aspiraes modestas. A concentrao de indstrias foi acompanhada pela aglomerao de fora de trabalho em loteamentos populares e ocupaes de terras pblicas e particulares, criando uma demanda por servios pblicos de abastecimento de gua, transporte, pavimentao, educao, saFoto Massami.

de, entre outras. Para criao da infraestrutura necessria indstria houve a socializao dos gastos e at financiamento pelo Estado; porm, para a satisfao da demanda surgida pela ocupao desordenada, decorrente do processo industrial, os gastos foram assumidos prioritariamente pelo poder pblico. Com o intuito de ordenar o crescimento e ocupao do solo, a Lei municipal no 1.503, de 1969, define as zonas de expanso urbana da cidade, incluindo nela vrios bairros, tais como: Jardim Rosa de Frana, Cocaia, Taboo, Cidade Serdio, Santos Dumont, Jardim Maria Dirce, Jardim Presidente Dutra, Vila Nova Bonsucesso, Jardim Leblon, Parque So Miguel, entre outros. Em 1950, havia em Guarulhos 35.523 moradores; em 1990, a cidade contava 787.866 habitantes. Em 40 anos vieram para Guarulhos 752.343 novos moradores. A maioria absoluta dos novos moradores da cidade foi morar nos loteamentos populares da periferia, reas de ocupao e favelas, nas proximidades dos locais de trabalho. Os baixos salrios pagos aos trabalhadores e as precrias condies dos bairros levaram formao de movimentos reivindicatrios de bairros e sindicatos.

INDUSTRIALIZAO: TERCEIRO MOMENTO DAS MEDIDAS NEOLIBERAIS AOS DIAS ATUAISPerodo que vai de 1990 aos dias atuais; momento em que tratamos como a economia da cidade foi impactada pela poltica neoliberal e o quadro atual. Em 1990, algumas grandes empresas faliram e outras se mudaram do municpio. Nesse perodo falava-se que a cidade havia deixado de ser industrial e se tornava uma cidade de servios. O que aconteceu em Guarulhos reflete uma tendncia mundial das economias perifricas frente poltica neoliberal nos marcos da globalizao. Em 1989, na cidade de Washington, representantes das oito maiores economias do mundo se reuniram e elaboraram um plano para os

Fbrica de Casimiras Adamastor S/A.

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demais pases capitalistas. A estratgia visava resolver a crise de superproduo de mercadorias e excedentes de capitais constatados entre eles. De forma resumida, a poltica neoliberal consiste em abertura comercial, estado mnimo e garantia de contratos por parte do Estado nacional. A economia guarulhense, nesse contexto, foi afetada com a poltica de abertura econmica. A falncia de empresas e a reduo da participao das exportaes do Brasil no Famlia Saraceni, em 1951 imigrantes italianos. mercado internacional trouxeram consequncias para a vida da cidade. para amplo desenvolvimento dos setores de Amplos setores passaram a apostar na pers- servios e comrcio. Esperando a grande mupectiva de abertura da economia brasileira com dana de rota econmica, o municpio passou a implantao da rea de Livre Comrcio das a receber muitos hotis na regio central e o Amricas (Alca) e na otimizao das atividades incentivo ao turismo de negcio. aeroporturias, como elemento privilegiado A repercusso das falncias de algumas empresas no incio da dcada de 1990 (governo Collor), e a instalao de vrios hotis no centro da cidade levou construo do mito da mudana de perfil econmico do municpio. Para o censo comum, a economia da cidade havia deixado de ser industrial e se tornara de servios. A confuso sobre o destino da economia brasileira e a vocao econmica do municpio durou, aproximadamente, dez anos. A vitria dos movimentos sociais no plebiscito em 2002, onde 10 milhes de pessoas votaram contra a Alca, e a publicao de um estudo do IBGE, em 2005, favoreceram a compreenso sobre a situao e os rumos da economia da cidade. Segundo estudo: Onde se instalam indstrias concentra servios e populao. Tal concentrao reflexo direto do nvel de industrializao. Alm do prprio peso da atividade, a indstria agrega uma srie de servios em torVista panormica do centro expandido da cidade. no de si, o que faz crescer a economia local.

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Espao de Muitos Povos

Shopping Internacional de Guarulhos antiga Fbrica Olivetti.

duo chega a R$ 12,06 bilhes anuais no setor industrial, e a cidade figura no cenrio nacional com um PIB de R$ 18.194.924 bilhes. O emprego no setor formal contabiliza 227.914 trabalhadores. Os setores de comrcio e servios completam os nmeros do PIB local. Segundo informaes da Prefeitura, o setor de servios o que cresce em ritmo mais intenso. Seja em funo das indstrias, que cada vez mais terceirizam servios, como entregas, contratao de pessoal, manuteno, ou da preAntiga Fbrica Olivetti, 1958. sena do aeroporto, que impulsiona a implantao de uma srie de servios de transporte e a indstria, e no diretamente o Aerologstica, hotelaria, turismo e eventos. Atualmenporto Internacional, a grande responsvel te, so mais de mil empresas dos setores de pelo Produto Interno Bruto de Guarulhos. transporte e logstica atuando em Guarulhos. A produo se reflete na receita do municpio: cerca de 60% da arrecadao vm, segundo a Prefeitura, das atividades industriais. (Estudo IBGE/Ipea-2005.) Atualmente, o municpio ocupa a 9a posio no cenrio econmico, sendo responsvel por 1,03% do PIB Brasileiro (IBGE-2006). Com um parque industrial diversificado, conta com 91.847 trabalhadores e mais de 2.890 indstrias. A proEra industrial modelo automobilstico transporte rodovirio de cargas.

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Espao de Muitos PovosFoto extrada do livro: Philips 80 Anos Frente.

GUARULHOS

se deram a formao do operariado urbano e a organizao dos seus membros em sindicatos, partidos polticos, associaes etc. No municpio registram-se inmeras greves e protestos, conduzidos por trabalhadores nas fbricas e nos bairros. Que se tm registros, a fundao do primeiro sindicato na cidade ocorreu em 1958 (Sindicato dos Condutores). A primeira greve operria ocorreu em 1963, por 100% de aumento salarial.

Vista area da Philips, 1960. No local atual abriga o Campus da Universidade de Guarulhos.

Alm disso, a privilegiada localizao atraiu, nos ltimos anos, importantes centros de distribuio e logstica. Para atender s exigncias da produo local e de outros polos econmicos regionais, esto em andamento a modernizao do terminal de cargas do Aeroporto de Cumbica, a construo do terceiro terminal, obras para interligao do Porto de Santos ao Aeroporto de Cumbica, atravs da extenso da Av. JacuPssego, So Paulo a Guarulhos e a revitalizao da Cidade Satlite Industrial de Cumbica. A industrializao na regio metropolitana, e especialmente em Guarulhos, gerou enorme contraste social, criou riquezas e, tambm, muita pobreza, inclusive um grande passivo socioambiental. Junto com a industrializao

Trabalhadores em frente ao Frum.

Do processo de desenvolvimento e da forma como se deu a expanso territorial urbana decorre a quantidade de problemas ambientais e sociais: de acordo com o IBGE, 10% da populao habitam em favelas o IBGE considera ncleos de favelas aqueles com menos de 50 unidades habitacionais. Quanto s questes ambientais, as mais graves so o desmatamento, a gua e o

Mulheres metalrgicas, incio de 1970. Foto extrada do livro: