Made in Brasil

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    14-Dec-2015
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  • PROJETO UTPICO DE TELEVISO

    Yvana Fechine

    Framc do prcxparr.) Armopto RmttaOa e x x io prta Globo entre 198S 1988 com dreAode Gu

  • As relaes entre a televiso e o vdeo no Brasil lembram a ligao tensa e instigante entre o mais famoso serial killer do cinema hollywoodiano. o Dr. Hannibal Lecter, e os obstinados agentes do FBI protagonistas da clebre trilogia inspirada nos livros de Thomas Harris.' Como no admirar a personalidade bizarra e subversiva do Dr. Hannibal Lecter. um psiquiatra forense que, depois de ajudar o FBI a traar o perfil de inmeros psicopatas. passa a auxiliar o agente Will Graham a desvendar uma srie de assassinatos, envolvendo canibalismo, nos quais ele mesmo o algoz? O genial e requintado psiquiatra canibal, imortalizado pelo ator Anthony Hopkins, apresentado no ltimo filme da srie, Drago Vermelho, como o perfeito avesso do policial que. por fim, o desmascara. No filme, o prprio Dr. Lecter quem se encarrega de lembrar ao agente Will Graham que ele s conseguiu prend-lo porque ambos so muito parecidos. Mesmo depois de preso, Hannibal Lecter colabora com o FBI na investigao de outro serial killer. Mas, agora, o assassino quem impe ao investigador os seus mtodos, estimulando o policial a raciocinar como o psicopata que persegue, pautando uma das mais caras instituies americanas (o FBI) por sua lgica outsider. Como j acontecera antes com o prprio

    10 Si1ndo dos Inocentes (1991). Hannibal (2001). e Drago Vermelho (2002).

    O vdeo como um rnojEio u to ko de trevisao 85

  • Hannibal, a nova caada s acaba quando se estabelece uma tal cumplicidade entre os dois, o policial e o psicopata, que o primeiro comea a pensar como o segundo: a identidade de um define-se assim, nesse processo, pela contnua contraposio ao outro. Entre o vdeo e a TV, observa-se, historicamente, a mesma reciprocidade e tenso.

    Para que seja possvel, ao final, sugerir o paralelismo entre os protagonistas dessa histria e de outra que pretendemos aqui iniciar preciso, no entanto, perguntar logo: de qual vdeo e de qual televiso estamos tratando? E de qual tenso estamos falando? Para comear, devemos reconhecer que seria uma misso quase impossvel falar de lodo o vdeo e de toda a televiso nos limites de um artigo. Vamos ento ao que nos interessa. Na televiso, a produo est concentrada nas emissoras comerciais, pblicas e estatais. Por ora, deixaremos de lado o novo e vasto universo dos canais por assinatura distribudos no pas, e justificaremos isso mais adiante. No vdeo, a preocupao com o campo da produo artstica e documental. Nos dois casos, o cenrio basicamente o Brasil das duas ltimas dcadas, nesse perodo que se instaura a tenso que perdura at hoje. Como incorporar grade dessas emissoras de TV uma produo independente em vdeo que, mesmo ambicionando ocupar espao em suas programaes define-se, esteticamente, justo pela contraposio aos seus modelos? Eis a tenso. Porm, em que termos e em que medidas esses produtores de vdeo independentes acabaram se inserindo nesse universo reconhecidamente fechado das TVs abertas no Brasil? Eis a questo. Para respond-la, ser preciso mais uma vez delimitar a abordagem. Na impossibilidade de traar a trajetria das centenas de produtoras que abriram e fecharam suas portas no decorrer mesmo dos anos 80 e comeo dos 90. destacaremos apenas os realizadores ou grupos de realizadores que participaram mais decisivamente na dissoluo dessas fronteiras entre o vdeo e a televiso pelo menos no que se refere linguagem.

  • Com essa delimitao, fica claro, desde j. o pressuposto aqui adotado: a produo audiovisual em televiso no Brasil deve seus momentos mais criativos e inovadores colaborao de profissionais que fizeram parte do movimento do vdeo independente ou que, mesmo de modo indireto, beberam na fonte do experimentalismo que o acesso aos meios eletrnicos proporcionou. Dezenas de profissionais que tiveram sua formao inicial ligada s artes plsticas, ao teatro, msica, literatura ou ao cinema experimental migraram tambm para a televiso em busca de condies de produo e de pblico. Esses realizadores dificilmente podem ser identificados com grupos especficos porque, hoje. se espalham por diferentes emissoras de televiso geralmente colaborando com projetos especiais (sries e minissries, por exemplo) ou por produtoras independentes, que, s agora e ainda timidamente, comeam a estabelecer parcerias mais sistemticas com os canais comerciais. O principal reduto desses profissionais do audiovisual, e um dos raros grupos que podem ser assim identificados, o Ncleo Guel Arraes, que funciona desde 1991 na Rede Globo. O grupo de artistas visuais, atores e roteiristas que gira hoje em torno de um dos mais inventivos produtores e diretores de TV no Brasil, o pernambucano Guel Arraes, esteve envolvido em projetos que uniram renovao esttica, experimentalismo formal e bons ndices de audincia justamente na maior emissora comercial do Brasil. No apenas nas redes abertas, como a Globo, mas tambm em emissoras pblicas, como a Cultura e a TVE-Rede Brasil, ou em canais segmentados, como a MTV, podem ser apontadas experincias que nos permitem perguntar, hoje. at que ponto o vdeo no Brasil no estaria associado TV que a gente gostaria de ver.

    8 6 Yvana Fechine

  • No haveria mesmo razo para a separao entre TV e vdeo em campos de atuao to distintos. A rigor, os termos vdeo e televiso podem ser aplicados a uma mesma tecnologia, explorao de um mesmo meio para a produo e difuso de imagens eletrnicas. A diferena entre o vdeo e a TV est, essencialmente, na sua proposta tico-esttica. O sistema de televiso por broadcast definiu, com base em interesses polticos e econmicos, um modelo de comunicao que se tornou hegemnico na explorao do suporte eletrnico. Este modelo orientado, de modo geral, por uma hierarquia da transmisso sobre a recepo (unidirecionalidade), pelos cnones da representao ilusionista (TV como 'janela' do mundo), pela 'mtrica' dos intervalos comerciais (interrupes que ditam a sua sintaxe). Despontando nos Estados Unidos e na Europa Ocidental 25 anos depois do advento da televiso, o campo de produo que se convencionou chamar de'vdeo'definiu-se justamente pela negao desse modelo. Ainda hoje, o vdeo tratado por muitos crticos e realizadores como uma espcie de contrateleviso, ou, quando muito, associado reinveno da sua linguagem, idia de qualquer experimentalismo envolvendo seu aparato. Com razo. Desde sua primeira utilizao, por artistas de vanguarda dos anos 60, toda uma gerao de pioneiros do vdeo assumiu como proposta o desenvolvimento de novas formas artsticas com os recursos tcnico-expressivos do seu antecedente, a TV. Procurando seu lugar entre a arte e a mdia, o vdeo acabou se afirmando, desde cedo. pela sua crtica contundente aos modos de produo tanto de uma quanto de outra. Encarado com desconfiana pela arte e pela mdia mais conservadoras, o vdeo se valeu, alternadamente,*dos postulados e procedimentos de uma para levar a termo o seu projeto crtico em relao outra.

    No Brasil, a proposta esttica do vdeo foi determinada em grande parte pelo acesso tecnologia. A produo de um video exige equipamentos de gravao e edio caros, que, ainda hoje, quando comparados, por exemplo, com os recursos exigidos pela pintura ou

  • mesmo pela fotografia, envolvem custos muito maiores. Em meados dos anos 70, quando se deram as primeiras experincias de artistas brasileiros com o uso de vdeo alguns deles com acesso s novas tecnologias por viverem no exterior , as prprias emissoras de TV no operavam ainda com sistemas portteis de gravao, que s se tornaram disponveis no Brasil entre 1979 e 1980. Como o investimento na aquisio dos importados era alto, a primeira gerao de artistas do vdeo no Brasil produziu seus primeiros videoteipes, no Rio de Janeiro, com um equipamento disponibilizado/ Em So Paulo, as primeiras manifestaes da videoarte s comeam a aparecer em 1976, quando o Museu de Arte Contempornea de So Paulo, MAC/USP, adquiriu um portapack (gravador de vdeo porttil) e coloca-o a disposio dos artistas da cidade. At meados dos anos 80, no entanto, o Museu da Imagem e do Som de So Paulo, MIS/SP, no possua sequer um equipamento de vdeo para exibir as obras dos artistas. Sem acesso tecnologia que lhes permitiria investir na explorao das especificidades do meio ou nos efeitos de manipulao da imagem eletrnica, a maioria dos trabalhos dessa primeira gerao de realizadores utiliza o vdeo apenas como meio de registro ou como parte de manifestaes performticas concebidas para uma cmera, mas ainda sem nenhuma

    2 Em 1974. uma prim eira gerao de artistas brasileiros convidada a participar de m ostra de videoteipes na Filadlfia Na poca. Jom Tob Azulay colocou disposio de um grupo de artistas cariocas (Snia Andrade. Fernando Cocchiarale, Anna Betla Geiger e Ivens M achado) um portapock que acabara de trazer dos Estados Unidos. A produo desses videoteipes considerada hoje. pela m aioria dos crticos, o m arco do surgim ento oficial da videoarte no Brasil (M achado, 1998 76). Cf. tam bm Zannini (1985).

    O VIDEO COMO UM PROJETO UTOP1CO C TELEVISO 87

  • pretenso de interferir diretamente na proposta esttica da prpria TV. No h, no entanto, galerias, centros ou museus especializados capazes de configurar um circuito alternativo de produo e exibio de trabalhos que exploram, antes de mais nada, a relao entre os meios e as novas subjetividades. Sem um mercado que lhes permita financiar e sobreviver do vdeo, muitos desses artistas acabam retornando ao universo de produo das artes plsticas, de onde vieram.

    Enquanto, no Brasil, a primeira gerao de artistas do video se debatia para conseguir ao menos um gravador de vdeo porttil, nos Estados Unidos as emissoras pblicas de televiso, graas s verbas de instituies filantrpicas e aos fundos do Public Broadcasting Service, PSB,J mantiveram, ao longo de quase duas dcadas, workshops, prog