MARÇO 2009 - CENTENÁRIO DA FPV

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Informativo O ESTAFETA, edição 146, de março de 2009, edição especial comemorativa do centenário da Fábrica de Pólvora sem Fumação.

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  • RGO DA FUNDAO CHRISTIANO ROSADISTRIBUIO GRATUITA PIQUETE, MARO/2009 - ANO XIII - EDIO COMEMORATIVA - No 146

    O ESTAFETAFoto arquivo Pro-Memria

    O Centenrio da Fbrica Presidente VargasTu nasceste, na verdade, pra Defesa do Brasil!

    A Fundao Christiano Rosa, comgrande alegria, une-se comunidadepiquetense para comemorar o centenrio daFbrica Presidente Vargas.

    Ao registrarmos to grata efemride especial tanto para a histria desse estabe-lecimento, como para Piquete , cumpre-nosevocar a memria do insigne Marechal JooNepomuceno de Medeiros Mallet, Ministroda Guerra do governo Campos Sales, a quemse deve a iniciativa da criao de uma fbricade plvora sem fumaa no Brasil. Em 1902, oMinistro, acompanhado de uma comissode tcnicos, veio regio de Piquete vistoriaras terras doadas pelo Baro da Bocaina aogoverno federal, para que nela se cons-trusse um sanatrio militar e uma fbrica deplvora sem fumaa. Escolheu para edifi-cao do sanatrio a regio de Lavrinhas,no alto da Mantiqueira, e para a fbrica, aregio do Bemfica, em terras piquetenses. OMinistro determinou, alm da constituiode uma comisso construtora do sanatrioe de outra para o Ramal Frreo Lorena-Bemfica, o imediato incio das obras. Aconstruo da fbrica de plvora semfumaa, porm, s foi iniciada em julho de1905, no governo Rodrigues Alves, pordeterminao de seu Ministro da Guerra,Marechal Francisco de Paula Argollo. Olocal originalmente escolhido foi subs-titudo, por questes estratgicas e tcnicas,pela regio das fazendas "Estrela do Norte","Limeira" e "Serto", adquiridas pelogoverno federal.

    Decorridos pouco mais de trs anos deobras dirigidas pelo Ten. Cel. Augusto MariaSisson, chefe da Comisso Construtora, a

    fbrica foi inaugurada pelo Presidente daRepblica Afonso Pena, em 15 de maro de1909, sob a denominao de Fbrica dePlvora sem Fumaa, sendo designado seuprimeiro diretor o Ten. Cel. Achilles VelosoPederneiras, sob cuja envergadura moral eintelectual firmaram-se as bases de suaorganizao e regulamentao.

    Ao longo de sua histria, a Fbrica foiadministrada por destacados vultos doExrcito, que deixaram reflexos de suacultura, alm da contribuio patritica doseu trabalho, das experincias e sacrifciospela causa da defesa nacional. Nomes comoAntnio Afonso Carvalho, Jorge FranaWiedmann, Alpio Gama, Jos GomesCarneiro, Pompeu Cavalcante e WaldemarBrito de Aquino deixaram traos indelveis,pois impulsionaram o desenvolvimentodessa indstria, ampliando suas instalaes,montando outras e aperfeioando a quali-dade de seus produtos.

    O que a Fbrica deu para a Nao no semede apenas pelos produtos que dela sarampara quartis, fortalezas, navios e avies,numa contribuio quase desconhecida, masfundamental para as Foras Armadas. A reade ao sempre foi muito extensa. Pioneirano Brasil em certas atividades, foi nela quese fabricaram os primeiros explosivosindustriais brasileiros e se deu partida centelha de que se originou a indstrianacional de explosivos qumicos.

    De norte a sul, de leste a oeste do Brasil,onde uma grande obra se realizava produtosda Fbrica se faziam necessrios. Assim, emhidreltricas, tneis, estradas, metrs,prospeco de petrleo, minas de carvo,

    de ferro, de ouro, o nome da Fbrica e,indiretamente, o de Piquete, se tornavamconhecidos. Paralelamente ao grandedesenvolvimento industrial experimentadonesses cem anos, suas administraespriorizaram polticas sociais voltadas para obem-estar do operariado e seus familiares.Assim, justo lembrarmos que todas asgrandes obras sociais desenvolvidas emPiquete, sem exceo, foram conduzidas pelaFbrica, com planejamento, seriedade ecompetncia administrativa. Piquete ganhouvilas operrias, hospital, farmcia, mater-nidade, centro odontolgico, departamentoeducacional, clubes recreativos, praas,monumentos, campo de futebol, igrejas,zoolgico... Esses benefcios se estendiama toda a cidade. Desde seus primrdios, aFbrica sempre colaborou com os poderespblicos, de maneira que muitas obrasconstrudas na cidade tiveram o apoio daFbrica, direta ou indiretamente.

    Em 1977, a Fbrica foi desmembrada doExrcito, passando a fazer parte da Imbel,dentro da nova poltica do governo federal,deixando de priorizar aspectos sociais.

    Num olhar retrospectivo, constata-seque a Fbrica Presidente Vargas foi aconsagrao do esforo de nosso povo e otestemunho de nossas possibilidades, poissignifica uma conquista de que se orgulhouo pas. Nesta obra modelar que completa seuprimeiro centenrio, consubstanciaram-se atenacidade do trabalho, o sacrifcio deoficiais, funcionrios e operrios, e aabnegao de humildes obreiros que, naobscuridade de seus misteres, aqui edi-ficaram uma ptria forte e nova.

  • O ESTAFETAPgina 2 Piquete, maro de 2009

    Inaugurada oficialmente sob a denominao de Fbrica dePlvora sem Fumaa, em 15 de maro de 1909, passou a serchamada de Fbrica de Plvoras e Explosivos de Piquete porfora do Decreto n 878, de 3 de junho de 1936. Em 1939, pormeio do Aviso Ministerial n 328, de 29 de abril, parasimplificao, foi novamente mudado o seu nome para Fbricade Piquete. Finalmente, quando da visita Fbrica do entoMinistro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, em 8 dedezembro de 1942, numa cerimnia no salo nobre do CrculoMilitar da Estrela, foi assinado, em ato solene, o Aviso no 3231,segundo o qual a Fbrica de Piquete passou a denominar-seFbrica Presidente Vargas.

    Para acompanhar de perto as obras de expanso dessaindstria blica, a menina dos olhos do Ministrio da Guerra, opresidente Getlio Vargas visitou a Fbrica de Piquete em 17 dejulho de 1939. Foi uma visita memorvel, ainda lembrada porex-funcionrios. O presidente, acompanhado pelo Ministro daGuerra, General Eurico Gaspar Dutra, e o chefe de sua CasaMilitar, Francisco Jos Pinto, foi cumprimentado na escadariado Cassino dos Oficiais pelo Almirante Guilhem, Ministro daMarinha, pelo Dr. Adhemar de Barros, Interventor Federal noEstado de So Paulo, generais Maurcio Cardoso, Comandanteda 2a Regio Militar, Lcio Esteves, Comandante da 5a a RegioMilitar, Slio Portela, Diretor do Material Blico, RaimundoSampaio, Diretor de Engenharia, e pelo Coronel Jos GomesCarneiro, Diretor da Fbrica de Piquete. L estava tambmgrande nmero de oficiais, autoridades, pessoas gradas,famlias, estudantes e o povo de Piquete.

    A banda dos operrios da Fbrica executou o HinoNacional e uma seo de artilharia deu as salvasregulamentares. Em seguida, o Contingente da Fbricaapresentou armas em continncia, enquanto os estudantesdas escolas de Piquete agitavam centenas de bandeirinhasbrasileiras. O regozijo foi geral - em cada fisionomia umsorriso de simpatia e uma expresso de curiosidade pelafigura simples e afvel do magistrado supremo do pas.

    No salo de honra do Cassino, o Coronel Gomes Carneiro,Diretor da Fbrica, apresentou todos os oficiais que serviam

    sob suas ordens, bem como alguns tcnicos civis contratados. Mais tarde, todos se dirigiram para o jardim emfrente administrao, no interior da Fbrica, onde o presidente foi saudado pelo Coronel Gomes Carneiro que, em nome da diretoria, daadministrao e da oficialidade deu as boas-vindas ao insigne visitante.

    O operrio Augusto Ribeiro de Souza, em nome do operariado saudou tambm o presidente, e a menina Maria Augusta Beraldo Leitedeclamou com graa e naturalidade uma poesia dedicada ao chefe da nao. Os alunos da Escola Pblica da Fbrica, dirigidos pela Prof.Cenira Arajo, e todos os operrios, sob a direo do Cap. Bibiano Srgio Dale Coutinho, cantaram o Hino Nacional. Em seguida, um batalhoconstitudo pelo Contingente da Fbrica e por mais de mil operrios desfilaram recebendo palmas pelo garbo, disciplina e entusiasmo comque se apresentaram. Aps essa solenidade, o presidente da Repblica iniciou a visita Fbrica percorrendo demoradamente todos osgrupos de fabricao.

    Ao chegar s obras de instalao da fbrica de plvora de base dupla, foi recebido e saudado pelo chefe da Comisso Construtora da"Base Dupla", Cel. Luiz S Affonseca.

    Terminada a visita s instalaes fabris, o presidente da Repblica dirigiu-se ao "Hospital da Estrela", onde hoje se encontra instalado oFrum, e percorreu a vila operria em construo ao lado. Terminada a visita, o presidente noescondeu o entusiasmo por tudo que observara, tendo ressaltado a disciplina, a ordem, o asseioe a perfeita compreenso de responsabilidade de todos que empregavam suas atividades nomaior e mais importante estabelecimento fabril do Ministrio da Guerra. noite, no salo doCinema, magnificamente engalanado, foi servido um jantar pela direo da Fbrica. Aps obanquete, o Presidente foi presenteado com um artstico bronze pelo Coronel Gomes Carneiro,que discursou agradecendo a honrosa visita. Ante o inesperado da cerimnia, o Presidente,visivelmente comovido, agradeceu com palavras repassadas de emoo a lembrana doada pelaFbrica de Piquete.

    Antes de se retirar, inaugurou a iluminao do campo de esportes dos operrios e recebeuestrondosa manifestao do povo que, em massa, aglomerava-se para novamente o saudar.

    Em outubro de 1940, o presidente Getlio Vargas, participando de manobras militares no Valedo Paraba, fez uma segunda visita Fbrica. Foi, com carinho, que a oficialidade, o operariado ea populao de Piquete receberam a notcia de que a Fbrica de Piquete, a partir de 8 de dezembrode 1942 passaria a se chamar Fbrica Presidente Vargas. A Redao no se responsabiliza pelos artigos assinados.

    Diretor Geral:Antnio Carlos Monteiro ChavesJornalista Responsvel:Rosi Masiero - Mtd-20.925-86Revisor: Francisco Mximo Ferreira NettoRedao:Rua Coronel Pederneiras, 204Tels.: (12) 3156-1192 / 3156-1207Correspondncia:Caixa Postal no 10 - Piquete SPEditorao: Marcos R. Rodrigues Ramos

    Laurentino Gonalves Dias Jr.Tiragem: 1000 exemplares

    O ESTAFETA

    Fundado em fevereiro / 1997

    Imagem - Memria

    A visita de Getlio Vargas

  • O ESTAFETA Pgina 3Piquete, maro de 2009

    GENTE DA CIDADEGENTE DA CIDADECoronel Pederneiras

    O passar dos anos faz cair no esque-cimento fatos e pessoas notveis quelutaram pelo desenvolvimento de nossaterra. Assim, sempre bom recordar aquelesque muito fizeram por ela.

    Neste ms de maro, um fato quereputamos como um dos mais importantesda histria de Piquete completa cem anos -a inaugurao de Fbrica de Plvora semFumaa. Este foi um dos maiores feitos doExrcito brasileiro voltado para a defesanacional.

    Comemorar este fato significa reviverde forma coletiva a memria de um acon-tecimento que marcou a vida de todos dePiquete. A cidade ganhou alma nova com achegada dos militares e seus habitantespassaram a conviver com homens dedi-cados ao servio da Ptria, sempre dandoexemplo de verdadeira cidadania.

    Terminadas as obras de construo daFbrica, em 03 de maio de 1907, aumentoua curiosidade dos construtores, dosoperrios e da populao de Piquete sobrequem viria assumir a direo de toimportante empreendimento. Tal curiosi-dade foi sanada em 17 de dezembro de 1908,quando foi nomeado por decreto federalpara dirigi-la o Tenente Coronel AchillesVeloso Pederneiras. Toda a histria daFbrica est invariavelmente ligada a essebrilhante oficial do Exrcito.

    Fundador e diretor dessa indstria blica,ele chegou a Piquete, com sua famlia, em 16de janeiro de 1909. Deixou aqui vestgiosinapagveis de dedicao e amor ao traba-lho. Os servios por ele prestados soconhecidos muito alm dos limites daFbrica. Quando da inaugurao da Fbrica,recebeu simbolicamente do presidenteAfonso Pena as chaves do estabelecimentoe fez-se merecedor do cargo que lhe foraconfiado.

    Lutou dia-a-dia pelo levantamento mate-rial, tcnico e moral da Fbrica, encontrandoa cada passo ingentes obstculos a transpor,desde a questo financeira organizaodo pessoal eficiente para o trabalho.

    Durante os quase sete anos de suaadministrao correspondeu s responsa-bilidades do cargo procurando resolvertodas as questes. As dificuldades, todosos anos repetidas com a exiguidade dasverbas votadas pelo Congresso, foram osmaiores obstculos com que conviveu.

    Entretanto, apesar de todos os bices,manteve a Fbrica em perfeito estado deconservao, com funcionamento regularde todos os servios, com estoque dematria-prima e produtos para todos osanos. No por acaso fora escolhido paraa direo da Fbrica - seu preparo para ocargo era inquestionvel. Em janeiro de1908, atravs de um Boletim do Exrcito,foi elogiado em nome do Presidente daRepblica pelo modo lisonjeiro, crite-rioso e correto com que desempenhouo elevado cargo de adido militar junto Embaixada Brasileira nos EstadosUnidos da Amrica do Norte. Emnovembro daquele mesmo ano, atravsdo Aviso 1658, foi louvado pelainteligncia, zelo, critrio e notvelcompetncia com que integrou a comis-so encarregada de adquirir nos Esta-dos Unidos o material destinado monta-gem da Fbrica em Piquete.

    A par de todos os atributos intelectuais,o Cel. Pederneiras era uma pessoa afvel econciliadora, que procurava manter harmo-nioso o ambiente de trabalho. Seu relacio-namento com os assessores diretos e com ooperariado era notvel. Verdadeiro pai.

    Vivendo numa pequena Vila, longe dafascinao do mundo que conhecera,construiu em torno de si um ambientesaudvel, mantendo bom relacionamentocom a sociedade piquetense. O coronelPederneiras era presena frequente nasfestas promovidas pelo coronel JosMariano, lder poltico local, no Hotel dasPalmeiras, reduto social de Piquete. Foiresponsvel pela doao do campo defutebol do Esporte Clube Estrela, tendosido seu primeiro scio benemrito. Foihomenageado ainda em vida pela munici-

    palidade de Piquete, por meio da LeiMunicipal no 57, de 01 de agosto de 1914,com seu nome dado a uma rua na VilaOperria So Jos a Rua Coronel Peder-neiras. Em Lorena, manteve bom rela-cionamento com o meio social e com osmilitares do 53 Batalho de Caadores e,principalmente, com os salesianos doColgio So Joaquim. Muitos militares daFbrica tinham seus filhos matriculadosnesse colgio. Por mais de uma vez foiparaninfo dos alunos salesianos nas festasde formatura. E estes vinham com certafrequncia Fbrica, a convite de seu diretor,para lhe conhecer as instalaes.

    Aps mais de seis anos de um rela-cionamento intenso com a Fbrica, ooperariado e Piquete, no dia 4 de maro de1915, o Cel. Pederneiras foi transferido parao Rio de Janeiro. Iria comandar o Arsenal deGuerra. Foi nomeado para substitu-lo oTenente Coronel Antnio Afonso de Car-valho. Sua partida deixou grande vazio. Mas,so ossos do ofcio e, aos poucos, as coisasforam retomando o ritmo. Em meados de maiode 1917, a Fbrica recebeu a infausta notciada morte do Cel. Pederneiras no Rio deJaneiro. Foi uma perda lamentvel, um durogolpe no operariado. Afonso de Carvalhodecretou luto, mandou que depositassemuma coroa de flores no tumulo de Peder-neiras e suspendeu os trabalhos naquele dia.Rendia-lhe, assim, um preito de homenagem.

    Para relembrar este grande homem, aspalavras do arquiteto Adolpho Morales delos Rios Filho, lanadas no livro de visitasda Fbrica, no dia 27 de dezembro de 1916:"... Ao ilustre Coronel Pederneiras, alma deartista num corpo de ao, fundador eprimeiro Diretor da Fbrica, o meu in-condicional parabns."

    Primeira diretoria da FPSF, aocentro o Cel. Pederneiras

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  • O ESTAFETA Piquete, maro de 2009Pgina 4

    A instalao da Fbrica dePlvoras em Piquete foi resul-tado da combinao de acor-dos celebrados entre trsforas motrizes altamente moti-vadas pela idia da organi-zao nacional.

    1. Os interesses dos pol-ticos ligados ao Partido Repu-blicano Paulista, que foi cauda-trio das idias positivistasque deram nascimento Re-pblica e fizeram conserva-dores monarquistas se trans-mudarem para o liberalismo eo republicanismo. Alinhavam-se entre esses o ex-deputadoe senador Arnolfo de Azeve-do, um incontestvel lderentre os camaristas de Lorenae com grande espectro deinfluncia nas polticas regio-nal, estadual e mesmo nacional.

    2. Os arranjos tramados pelos alvistasem apoio a Rodrigues Alves (Francisco dePaula Rodrigues Alves), guaratinguetaenseque ocupou a presidncia da Repblica entre1902 e 1906. Foi nesse perodo de governoque o Ministro da Guerra, o MarechalArgollo (Francisco de Paula Argollo),visitando a Vila Vieira do Piquete, nelareconheceu o local ideal para a construoda pretendida fbrica, a que se sucederamas construes da Usina HidroeltricaRodrigues Alves, da Estao FerroviriaRodrigues Alves e da instalao do ramalfrreo Lorena-Piquete todos estabele-cimentos inaugurados em 1906.

    3. A recm-emancipada Vila Vieira doPiquete (15/06/1891), como cidade nascente,vida de estabelecimento que lhe dessecondies de sustentao e aos seushabitantes despojados das produescafeeiras. Alm dos muitos retornados dailuso do ouro e dos caminhos perversos,nos quais o perigo e a fome presentesdificultavam at mesmo as produes desubsistncia. Viver, por aqui, sempre foimuito perigoso.

    A Fbrica - a idia formadora

    A misria e sua companheira, a insegu-rana, grassavam nos velhos caminhosprejudicados pela agudeza das escarpas daserra.

    Esses trs motivos tpicos norteavam-se pelos propsitos do Ministrio da Guerrae das Foras Armadas, particularmente doExrcito, em atender a necessidade dainstalao de uma indstria blica nacionalpara se evitar importao, at de plvora,pois a incipiente produo no Rio de Janeirono satisfazia.

    Impunha-se essa providncia pelanecessidade da defesa do territrio na-cional, particularmente nas fronteiras aindanem todas totalmente consolidadas, aslutas internas e externas e a exigncia emse atender a capacidade de dissuasorequerida pelos Estados-nao ao se cons-titurem frente s organizaes geopo-lticas. Movimentos como a Guerra doParaguai e as questes do Contestado eda Campanha de Canudos estavam entreas motivaes mais destacadas.

    Da a correlao de foras civis emilitares para a instalao da nossaFbrica, cuja histria vinculou-se vida da

    cidade, definiu seu destinoe modelou a populao quehoje demonstra, pelos ladospositivos e negativos, amarca indelvel dos resul-tados.

    A inaugurao a 15 demaro de 1909 revestiu-se desolenidade pela presena doPresidente da Repblica,Afonso Moreira Pena, e doMinistro da Guerra, Mare-chal Hermes Rodrigues daFonseca, alm de outrasautoridades nacionais, regio-nais e locais.

    A inaugurao da Fbricaem Piquete foi um dos marcosdestacados de uma polticaque ganhara corpo com aRepblica, no sentido devalorizar o que a elite definira

    como governo de nao, processo civi-lizatrio e conscincia de, tomadas as liesda Histria, dar-lhes clareza, mtodo eorganizao, para que a nacionalidade sedefinisse como guardi de um princpiobsico de ordem e progresso. Princpio essedefendido pelos positivistas, principaismentores da idia republicana.

    Para a populao piquetense da poca,a possibilidade de se atrelar aos rgosfederais na implantao de uma indstriaacenava para um novo tempo, que nosincios do sculo XX, se anunciava comopromissor.

    A prioridade estratgica apontava pelasituao no eixo dos dois maiores polosconsumidores: So Paulo e Rio de Janeiro.

    A fronteira ou divisa entre So Paulo eMinas Gerais ainda gerava muitas discus-ses, importantssima questo para definirreas de segurana e de cobrana de taxase impostos. Uma questo fiscal que mobi-lizava registros e barreiras.

    A questo ambiental ainda no estavaem jogo. Ao contrrio, um quadro natural,praticamente intocado, acenava, para-disaco, para a obteno de lenha e gua.Hoje, podemos discutir os resultados dessainterveno, e no so poucos os dadospara cruzarmos e podermos explicar a acidezdas guas da chuva, a "morte" dos rios e osentido do uso das guas correntes paracarrear toda sorte de sedimentos biode-gradveis ou no.

    Quando da primeira locomotiva seemitiu o primeiro apito de trem, os coraesse incendiaram, a circulao sangunea seacelerou, os foguetes espocaram e osprimeiros viajantes foram recebidos eufori-camente. O progresso chegava pelos trilhosda estrada de ferro. Os animais de cargasubsidiariam a circulao nos caminhosmais rudes e ngremes sujeitos a toda sortede intempries. Nos trilhos frreos,assegurava-se a movimentao. Na esta-o, o telgrafo complementaria a efici-ncia. Piquete entrava na modernidade dosculo XX movido pelo industrialismo epelo urbanismo.

    Dli de Castro FerreiraFotos

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    O Presidente da Repblica Afonso Penna ( frente), no dia 15 de maro de 1909, na Vila da Estrela, emPiquete, quando da inaugurao da Fbrica de Plvoras sem Fumaa.

    O Marechal Mallet e o Baro da Bocaina acompanhados por comitiva quando daescolha do local para a construo da fbrica de plvora sem fumaa, em 1902.

  • O ESTAFETAPiquete, maro de 2009 Pgina 5

    O cristianismo e o hindu-smo divergem na consideraodo elemento p.

    Os cristos so todos p. Nodizer do Pe. Vieira, o cristomorto p deitado; o cristovivo, p levantado.

    Os hindus, divididos emcastas, consideram p somenteos prias, os dalits. p queno deve ser tocado, porquecontamina.

    Quando a memria do povose publica nas praas, nas festas,nos encontros de amigos efamiliares, somos obrigados aconcluir que nem sempre apsicologia acerta a respeito dos sentimentoshumanos.

    Diz a psicologia que a dor tem maiorcarga emotiva que o prazer, que nos esquece-mos mais facilmente das alegrias do que dastristezas, dos elogios do que das ofensas.

    Parece que o ofendido quase sempreobrigado a se lembrar de sua condio dep e parece no gostar disso. Sem nenhumarazo; porque o p levantado o que semovimenta, que observa, que escolhe, queconstri que vive; que, pressionado,aprende.

    Chamo a ateno para este ponto,porque, na proximidade da comemorao doscem anos da Fbrica Presidente Vargas,fomos anotando as lembranas espontneasdos operrios aposentados e de seusfamiliares a respeito dos oficiais e asseme-lhados que conduziram a vida do estabe-lecimento. E verificamos que, poucas vezes,se referem a acontecimentos negativos oudolorosos.

    Os mais antigos fazem referncia aoesprito democrtico do Cel. Carneiro, que,preocupado com a assistncia religiosa aseus subordinados, ajudou tanto na cons-truo de um templo catlico, como na de

    foram Senhores em gentileza(Gonalves Dias)

    um templo protestante.Ningum se esquece do fino trato do Cel.

    Aquino. Dizem que era to gentil e afetuosoque, mesmo quando no tinha sua apelaoatendida, o funcionrio saa da audinciagrato ao seu superior.

    Numerosos so os que rendem home-nagem ao Cel. Monte pelo esforo emoferecer boas escolas aos filhos dosoperrios; e ao Cap. Tibrcio, mdico quese esmerou no curso para a formao de seusauxiliares na sade.

    Muito elogiado tambm o Maj. Toledopelo seu senso de justia, nunca permitindoque seu subordinado pagasse pelo queno devia.

    Os ento estudantes so muito gratosao Cel. Xexo e ao Cel. Pinheiro, quechamavam os colegas de seus filhos paraestudar em suas residncias e lhes minis-travam excelentes aulas.

    Algumas esposas e filhas de oficiais setornaram conhecidas e admiradas, porquederam aulas ou compuseram bancas nosfamosos exames finais orais.

    Entre elas, so citadas D. Alda VitalBrasil, D. Selma Vital Brasil e D. NellyMeneses Quadrado.

    Grande alegria proporcionouao meio artstico piquetense aesposa do Cel. Almir, D. MariaEugnia da Graa Franco de S.

    As professoras do GrupoEscolar da FPV preparavam, todosos anos, uma festa para a entregados diplomas aos que conluam ocurso primrio.

    Eram nmeros variados decanto, dana e declamaoapresentados no palco do CineEstrela.

    D. Geninha preparou o ro-teiro da pea Cinderela (A GataBorralheira) e convidou as pro-fessoras a represent-la na

    formatura seguinte. Aceita a proposta, elamesma ensaiou as crianas, cuidou dofigurino, da cena e da msica.

    Durante muito tempo, a populao dePiquete comentou, encantada, a atuao dascrianas e a dedicao das professoras e daD. Geninha.

    Os ps levantados de Vieira criaram emPiquete, durante muito tempo, uma at-mosfera saudvel e produtiva.

    Os ps que produziam e os ps quecomandavam, administravam, curavam,encaminhavam, uniram seus esforos criaram uma orquestra bem afinada.

    E o que poderia ter sido apenas mais umaempresa decidiu afirmativamente o destinode muitos piquetenses.

    Bons augrios Fbrica PresidenteVargas !

    Oficiais citados: Jos Gomes Carneiro,Waldemar Brito de Aquino, Jos PompeuMonte, Otvio Tibrcio Ferreira, BeneditoToledo dos Santos, Jos de MesquitaCaldas Xexo, Jos Guimares Pinheiro,Almir Autran Franco de S.

    Foto: Coronel Aquino e Mestres daFbrica Presidente Vargas em 1945.

    Abigayl Lea da Silva

    "No tempo de semear, aprender. Notempo de colher, ensinar. E quando oinverno chegar, gozar...".

    A frase atribuda ao ingls William Blake(1757/1827) resume bem a beleza da longe-vidade. No h nada mais rico do que aexperincia. A oportunidade de registrar osanos, de contar as primaveras pela lem-brana do tamanho e intensidade das folhase das flores impagvel. As marcas do temposo inevitveis. Qual o problema de assumi-las? Ningum, nem nada, ser jovem eterna-mente. Essa a beleza do viver o acmulode tempo, de vida. Quem tenta vencer otempo acaba vencido por ele.

    A tecnologia e o avano da Medicinapermitem, atualmente, que se tente apagaras marcas do tempo. Nada contra. Anecessidade de bem-estar natural. Se estarbelo significa sade, que venham as inter-venes plsticas; elas esto a para nosajudar. H que se tomar cuidado, porm, comos excessos. A eterna insatisfao consigomesmo a chave para o ridculo e torna-seuma disfuno sria quando afeta a perso-nalidade. O culto beleza deve valorizartambm as marcas do tempo leiam-se as

    rugas... O lugar-comum j deixa claro: rugasso sinais de experincia. Prefiro pensar quedevemos agradecer a possibilidade de nosenrugarmos; caso isso no acontea, sinalde que "paramos" muito cedo... Concordam?

    A Fbrica Presidente Vargas completaneste 15 de maro 100 anos. Ao longo desseseu sculo de vida, passou por diversasintervenes plsticas. Todas com a finali-dade de melhorar, jamais visando a escondero passado. Suas rugas so visveis. So,porm, de uma centenria que as exibe comprazer: os filhos criados, o patrimnioadquirido com o rduo trabalho, a descen-dncia... Nem tudo belo, sabe-se. Halguns cancros inextirpveis, demonstradosem arte estilhaada; esses, sim, seriamdesejados no existir. Mas esto a paramostrar que se deve aprender com os errose, assim, aperfeioar as tcnicas.

    A beleza de um centenrio no se contapelo nmero dos anos. Parece tambm lugar-comum, mas resume a "vida" da Fbrica. Suahistria to bela quanto rica. Conhec-lafaz-se necessrio para que a amemos aindamais. Deixemos de lado, por instantes, suaidade atual, em que ela no se apresenta to

    bela quanto na juventude, e pensemos emcomo podemos participar de uma equipecirrgica que faa intervenes para torn-la mais feliz e, consequentemente, maisprodutiva e atuante nestes pesados dias.Faamos de conta que um pouco da estriade "Benjamim Button" seja possvel...Tratemo-na como um recm-nascido cente-nrio. Dessa forma, se a ajudarmos agora,sero, no mnimo, mais cem anos em que ajuventude ser a recompensa.

    Parabenizo a FPV. Parabenizo seusoperrios e a memria de todos os que jo foram. Quero, tambm, agradecer os 100anos da Fbrica. Quero agradecer ossulcos na pele dessa senhora que soube,no tempo de semear, aprender; que soube,no tempo de colher, ensinar. Desejo queseja longo e duradouro o outono de suaexistncia; que ele sirva para angariarainda mais recursos para se enfrentar oinverno, que, sabemos, chegar. Mas queesse inverno seja um tempo de gozo, juntocom a famlia de piquetenses, de brasi-leiros e estrangeiros que a ajudaram emtodas as outras estaes.

    Laurentino Gonalves Dias Jr.

    muito bom saber identificar e entender a beleza do tempo...

  • O ESTAFETA Piquete, maro de 2009Pgina 6

    Sntese histrica da Fbrica Presidente VAcontecimentos

    Em ato solene, o tenente-coronelAugusto Maria Sisson, chefe da ComissoConstrutora, entregou a chave simblica daFbrica de Plvora sem Fumaa ao Dr.Afonso Moreira Pena, Presidente daRepblica, que a repassou ao coronelAquiles Velloso Pederneiras, diretor damesma, com palavras de confiana na suaadministrao frente da novel indstria.Eram mais ou menos 14h30min de 15 demaro de 1909.

    AntecedentesPara suprir as necessidades de nossas

    Foras Armadas e, consequentemente,assegurar a soberania do seu territrio, oBrasil dependia da importao de explosivose munies.

    Como Ministro da Guerra de CamposSalles, o Marechal Joo Nepomuceno deMedeiros Mallet deu incio a um movimentorenovador no Exrcito. Entre outrasmedidas, incluiu no plano de obras daDiretoria Geral de Engenharia a construode uma fbrica de plvoras e explosivos,que obteve aprovao atravs do Aviso no15, de 4 de fevereiro de 1902.

    Piquete foi o local preferido, poisatendia s exigncias estratgicas no campoda segurana, devido sua topografia, e,no tcnico, pelos seus recursos naturais.Determinou o Ministro, na mesma oportu-nidade, a construo de um ramal frreoque ligasse a Estrada de Ferro Central doBrasil ao Bemfica, local primeiramenteaceito para a edificao da fbrica.

    Eleito Presidente Rodrigues Alves, seuMinistro da Guerra, marechal Francisco dePaula Argollo, deu continuidade iniciativae, em 1905, a Unio adquiriu as fazendasEstrella do Norte, Limeira e Sertopara a localizao do empreendimento, emdetrimento da Fazenda Bemfica, oferta doBaro da Bocaina.

    O projeto da fbrica foi elaborado pelaCia. E.I.Dupont de Nemours, EUA, tendosido aprovado pelo Aviso no 105, de 4 demaio de 1905. O governo criou, ento, aComisso Construtora do Parque Industrial,de acordo com o Decreto de 6 de julho de1905, nomeando como seu diretor o tenente-coronel Augusto Maria Sisson.

    A Comisso de Compras, chefiada pelogeneral Modestino de Assis Martins,nomeada pelo governo em 26 de janeiro de1906, cuidava da aquisio das mquinas eoutros materiais indispensveis fbrica.Nesse mesmo ano, o ramal frreo chegava aPiquete. O primeiro prdio edificado pelaComisso Construtora, a usina hidroeltrica,

    foi inaugurado com pompaspelo marechal Argollo, em 15 desetembro. Recebeu o nome deRodrigues Alves, em homena-gem ao Presidente da Repblica.Tambm o Ministro foi reveren-ciado, tendo seu nome ligado represa que, no mesmo dia, seinaugurava.

    Com a construo de 37edifcios, no ano seguinte, 1907,a Comisso Construtora deu porencerrada a sua misso em 3 demaio. Processar-se-ia a instau-rao da maquinaria.

    Pelo Decreto no 7230, de 17de dezembro de 1908, foi apro-vado o primeiro regulamento daFbrica de Plvora sem Fumaa,fixando entre seus objetivosabastecer o Exrcito e a Armada com seusprodutos; entregar ao mercado as sobrasdestes, adaptadas no que convier aos usoscorrentes, criando assim uma fonte de receitapara o Estado; e proceder a toda a sorte deestudos tcnicos relativos a plvoras eexplosivos, no s em bem do serviopblico, como tambm mediante indeni-zao para fins particulares. Mais ainda,dispunha o Decreto sua organizao: 1Grupo cidos; 2 Grupo AlgodoPlvora; 3 Grupo Nitroglicerina e Dis-solventes; 4 Grupo Plvoras; 5 Grupo Usina Hidroeltrica, Casa da Fora Motriz,Oficinas de mquinas e ferraria, de carpin-taria e latoaria. Como servios subsidirios,o Laboratrio Qumico e Casa Balstica.Nesse mesmo dia, 17 de dezembro, eranomeado Diretor da FPSF o coronel AquilesVelloso Pederneiras, que assumiu o cargo a16 de janeiro de 1909.

    Tudo estava pronto, aguardando apenasa inaugurao oficial do Estabelecimento. Efoi marcada a data: 15 de maro desse 1909,com a presena da mais alta autoridade dopas. Em comboio especial, s 5h encostouna estao de Lorena o trem trazendo acomitiva que tinha como destino Piquete.Na gare lorenense, aguardava o squitopresidencial o Presidente do Estado de SoPaulo, Dr. Albuquerque Lins, e secretariado,deputado Arnolpho de Azevedo, Conde deMoreira Lima e outras autoridades. s 7horas, no Ramal Frreo Lorena-Bemfica, oPresidente Afonso Pena, acompanhado devrios ministros, do Presidente do Estado,de secretrios, de grande nmero de altaspatentes militares e autoridades civis,tomava o rumo da obra a ser inaugurada.

    J em territrio militar, a Usina Hidro-eltrica Rodrigues Alves foi o primeiroponto de visitao. Seguindo para a fbricapropriamente dita, o Presidente Afonso Penae todos os seus acompanhantes percorrerame examinaram detalhadamente todas asoficinas. As informaes e explicaes sobreo funcionamento dos mecanismos foramtransmitidas aos visitantes pelo tenente-coronel Sisson, chefe das construes; pelotenente-coronel Pederneiras, Diretor daFbrica; pelo major Pedro Alexandrino, Sub-diretor, e pelos responsveis das sees.

    hora do almoo, deslocaram-se para oprdio do quartel (Contingente), onde foi

    servido um banquete. O general ModestinoMartins, Diretor Geral de Engenharia,usando da palavra, agradeceu a visita doPresidente da Repblica, do Presidente deSo Paulo, dos Ministros de Estado e demaisautoridades, e traou um histrico daFbrica, reverenciando os nomes dosMarechais Mallet e Argollo. Finalizando,enalteceu a misso do governo presidencial,a quem coubera a glria de concluir tonecessria iniciativa. Respondendo saudao, disse o Presidente Afonso Penaestar radiante pela realizao dessa arrojadaempresa do governo anterior, que preparavao Brasil para a defesa da sua soberania.

    Em seguida ao almoo, o Presidente daRepblica recebeu carinhosa manifestaodos habitantes de Piquete. A banda demsica que os acompanhava executou oHino Nacional. Em nome do povo piquetensee da Cmara Municipal discursou o senhorFrancisco Torres Sobrinho.

    Retornando Fbrica, a comitiva foidiretamente para o ltimo prdio a servisitado o laboratrio, denominadoAfonso Pena. Neste local, foi lavrada aata da inaugurao, que foi assinada portodos os presentes.

    SubsequnciasSob o acompanhamento dos enge-

    nheiros L.W.Bierwirth, representante daCia.E.I. Dupont, Theodore Baker, qumicoespecialista, e T.R. Wright, mecnico, a 25de maio desse 1909, nossos operrios deramincio fabricao de plvora sem fumaa,tendo, em setembro, o Exrcito recebido oprimeiro lote fabricado no Brasil. Antes decompletar seu primeiro ano de estadia, ostcnicos americanos foram dispensados.Nossos patrcios encontravam-se total-

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    Sntese histrica da Fbrica Presidente Vargas

    mente conscientes de suas atribuies.Confirmando a eficcia de nossos

    engenheiros qumicos e do operariado, em1911, participando da Exposio Interna-cional de Torino, na Itlia, a FPSF de Piquete,conquistou com brilhantismo o GrandePrmio. Prmio este que se repetiu naExposio Internacional, no Rio de Janeiro,durante as comemoraes do primeirocentenrio da nossa independncia, em 1922.

    Sob a direo do coronel Jos Pompeude Albuquerque Cavalcante, iniciou-se aconstruo da Fbrica de Trotil, inauguradaa 19 de maio de 1933.

    Atravs do Decreto n 878, de 3 de junhode 1936, o estabelecimento passou adenominar-se Fbrica de Plvoras eExplosivos de Piquete.

    No 3 Congresso Sul-Americano deQumica, em 1937, no Rio de Janeiro, aFbrica participou como Hors-concours,recebendo o diploma correspondente.

    Como Diretor desde 1935, o coronel JosGomes Carneiro propiciou um ciclo gran-dioso nos anais da Fbrica. Deu incio construo das Fbricas de Nitroglicerina,Dinamite e Plvora de Base-Dupla; da novaoficina de leum, nova oficina de fundio,novo laboratrio qumico experimental;refeitrio, alm de ampliaes e cons-trues em todas as oficinas. Isso tudo nointerior da Fbrica. Fora dela, construiu oCassino dos Oficiais, playground,enfermaria-hospital, farmcia, gabineteodontolgico, escola primria, reforma eiluminao para jogos noturnos no campode futebol, residncias para operrios,cantina; montou a banda de msica,proporcionou a contratao de jogadorespara o E.C. Estrela etc.

    Novamente foi alterada adesignao do estabelecimento,observando o Aviso 328, de 25de abril de 1939, para Fbricade Piquete.

    Na administrao do coronelSlvio Loureno Scheleder, em15 de maro de 1941, foraminauguradas as Fbricas dePlvoras de Base Dupla, Dina-mite e Nitroglicerina.

    Em 25 de fevereiro de 1942,assumiu o coronel WaldemarBrito de Aquino. No mbito daFbrica, registramos a inau-gurao do Refeitrio, do Labo-ratrio Central, Usina de leum.Na rea social, procedeu-se construo de casas residen-ciais, do Cine Estrela do Norte,

    do Elefante Branco, da Vila Duque deCaxias, do magnificente DepartamentoEducacional, entre outras obras.

    Ainda a registrar que, em 8 de dezembrode 1942, por Aviso Ministerial 3231, ocomplexo industrial passou a chamar-seFbrica Presidente Vargas.

    O cinquentenrio da Fbrica, em 15 demaro de 1959, ocorreu na administrao docoronel rio Rodrigues Ribas, e foi condig-namente comemorado.

    Da sua inaugurao at os dias atuais, aFbrica no fez outra coisa a no ser investirem novas tecnologias, em novos estudos,sempre acompanhando os passos doprogresso. Seu desligamento direto doMinistrio do Exrcito, para ingressar noconglomerado Indstria de Material Blicodo Brasil (IMBEL), deu-se em 1977.

    Nesse perodo destacou-se a cons-truo das unidades de Fabricao deNitrocelulose, Unidade Piloto de Prope-lentes Moldados e a Oficina de MassaPrimria, sendo a primeira inaugurada em1987, com a presena do Presidente daRepblica Jos Sarney.

    Ao completar seu centenrio no dia 15de maro de 2009, a Fbrica PresidenteVargas conta com rea construda de112.879m; com 343 edifcios operacionaise 8 administrativos, mantendo uma rea depreservao ambiental de 28.000.000 m,contendo as seguintes unidades de pro-duo: Fbricas de Nitrocelulose, Nitrogli-cerina e Dinamites, Plvoras de BaseSimples, Massa Primria (para plvoras debase dupla), Plvoras de Base Dupla, Trotil,Propelentes Moldados (motores parafoguetes), Nitrato de Monoetalonina,Lamas Explosivas, Explosivos Tipo Nitro-carbonitrato, Carbonitrato, EmulsesExplosivas e Utilidades Industriais: Estaode Tratamento de gua, Estao deTratamento de Despejos Industriais,Estao de Gerao de Vapor, com oobjetivo precpuo de produzir produtosqumicos, explosivos e propelentes deemprego militar e civil.

    Nos seus cem anos de existncia, aFbrica tem reconhecida sua importnciaestratgica para a IMBEL, para o Exrcito epara a Segurana Nacional, no sentido deestar preparada, com seus produtos eservios de alta tecnologia militar, para

    suprir as necessidades de fornecimento ede mobilizao das Foras Armadas doBrasil.

    H que se fazer justia, pois alm dasqualidades morais e administrativas dosdiretores que geriram os destinos daFbrica para planos mais elevados, semprehouve a assessor-los uma pliade degabaritados oficiais, engenheiros e admi-nistrativos do Exrcito, que primavam, comseus esforos e competncia, para agrandeza do Estabelecimento. Citar algunsseria injustiar outros. Ligados igualmente histria da instituio esto os tcnicoscivis, os mestres e o operariado que, atravsdos tempos, demonstraram capacidadeinvulgar, e somente honraram, na labutadiria, a confiana neles depositada.

    A Fbrica e PiqueteNossa cidade, humilde Vila do final do

    sculo 19, que se propunha um progressobaseado no caf e na agricultura, fatalmenteteria a estagnao como futuro e uma vidamodorrenta. Tivemos a felicidade de emnossas terras instalar-se a Fbrica dePlvora sem Fumaa. A, realmente, Piquetenasceu. Toda a cidade passou a viver emsua funo e, mesmo aqueles que nenhumvnculo possuam com ela, indiretamente sebeneficiavam.

    As atividades sociais da Fbrica paraseus funcionrios e familiares eram, semnenhum embarao, extensveis aos parti-culares. Relembremos de quantas glrias oEstrela de Piquete trouxe cidade (e no Fbrica). O nome de Piquete que sedestacava. O mesmo acontecia com a Bandade Msica e seus dois Jazz Bands.

    A educao, atravs do extraordinrioDepartamento Educacional, elevoupiquetenses, filhos de operrios ou no,aos mais diversificados ramos da vidanacional.

    Atendendo indistintamente, o mais bemaparelhado hospital da regio, o da Fbrica,amenizou muitos sofrimentos.

    Tambm a cidade, nas horas tristes desinistros acontecimentos na Fbrica, cei-fando vidas de operrios, chorava, lamen-tosa, essas armadilhas do destino. Irma-navam-se todos na mesma dor, no mesmoluto.

    Piquete ainda a Fbrica. Fundem-se,embora a maioria da populao, na atua-lidade, nenhum vnculo direto mantenhacom ela. A Fbrica nosso smbolo.

    Parafraseando o brio patritico deHibraim Nobre, encerramos: pena que parato grande histria to curto espao.

    Antnio Carlos Monteiro Chaves

  • O ESTAFETAPgina 8 Piquete, maro de 2009

    As lembranas me vm memria umpouco apagadas, mas ainda vivas no meuinconsciente e, talvez, no inconsciente demuitos da minha gerao. Certamente, osdetalhes ficaram esquecidos, pois as marcasdo tempo em nossas vidas so inexorveis.Mas consigo me recordar das boas coisasque vivenciamos naquele longnquo tempoque comeou antes mesmo do nascimentode muitos de ns.

    Quem no se lembra do trem dosoperrios, que subia e descia todos os dias,de manh e ao entardecer, levando-os parao trabalho dirio na fbrica? Eu o via "pelosentres" da cerca do quintal da casa do meuav. Todo dia, dia a dia.

    Curioso constatar que a identidadeda FPV no exigia nenhuma outra meno,nenhum outro dado para complement-la.Todos diziam apenas: a fbrica. Ondetrabalha seu av? Na fbrica. E seu pai?Na fbrica. Onde mora fulano? Perto doporto da fbrica.

    Era a nica na cidade. Dispensavaquaisquer outros nomes, complementos ourtulos. E, assim como ela, a maioria de seussetores e servios agregados se identificavatambm como sendo da fbrica: o aougue,o armazm reembolsvel, o cinema, oprtico, a farmcia, a mata, as casas da VilaDuque. Tudo da fbrica.

    Alguns poucos setores no eram assimidentificados: o cassino era dos oficiais, aestao era e at hoje da Estrela. Alis, nocassino faziam um sorvete que tinha saborde delcias!!!

    Quando descamos do Colgio Esta-dual, aps as aulas, juntvamos nossodinheirinho para comprar, de vez emquando, aquele sorvete cujo sabor seperdeu no tempo.

    E o futebol? Era programa familiar demuitos ir ao campo do Estrela nos finais desemana, para ver o time do mesmo nomejogar contra vrios adversrios da regio.O time era formado por operrios quetrabalhavam na fbrica e vinham de vrioslugares. Muitos vinham mais pela opor-tunidade de jogar futebol, mesmo tendo quetrabalhar na fbrica.

    Quando o jogo era contra a Hepacar deLorena, aquele campo ficava absolutamentelotado de espectadores e torcedores. muito bom ter tambm esta lembrana.

    Quando crianas, ficvamos encantadoscom os enfeites-de-natal que eram colo-

    Fbrica de Sonhoscados na pracinha do cinema, com ospresentes que nossos pais recebiam paraentregar aos filhos, com as cestas-de-natal.Tambm com os parquinhos que erammontados perto da pracinha, com seusbrinquedos que, poca, eram inovadorese desafiantes. Tudo por conta da fbrica.

    Havia a Escola Industrial, que tambmera da fbrica, onde muitos alunos de vriascidades do Vale iam estudar; a Escola do"Seu Leopoldo", onde muitos de nsestudamos. Alm disso, e ainda maissignificativo, havia o Hospital da Fbrica,que possua um corpo mdico altamentecompetente e especializado e para ondeafluam pessoas de inmeros lugares.Algumas para se consultar, outras para setratar e outras, ainda, que passavam porcirurgias diversas. Era um hospital deexcelncia, como poucos hoje o so.

    Felizes de ns que vivemos na cidade,nessa poca. Ela possua vida, prosperidade,recursos culturais, materiais e mdicos, almde toda a gama de suporte cotidiano. Issodava aos moradores a certeza de que podiamencontrar tudo ali e sequer precisavamprocurar em outras cidades coisas bsicaspara viver.

    Frequentvamos o cinema, onde pas-sava quase sempre um filme diferente a cadadia. porta do cinema, ficava o "seu"Geraldo pipoqueiro, com frio, sob chuva,para abastecer os cinfilos e os passantes.

    O cinema, bom lembrar, era da fbricatambm. O mesmo filme que passava nocassino dos oficiais era projetado para apopulao da cidade. Todos os dias. Foiali que conheci os grandes mestres dacinematografia e assisti tambm aosseriados eletrizantes que passavam antesde cada filme.

    Enfim, vivemos por muitos anos sombradessa instituio que foi a Fbrica. A cidadeat hoje sobrevive contando com os pro-ventos deixados por ela, representados naaposentadoria de muitos e no valor que aspensionistas recebem a cada ms.

    Essas boas lembranas afloram dequando em quando em minha mente e chegoa divagar, a imaginar como seria a cidadehoje caso essa sombra benfica da Fbricano tivesse deixado de pairar de vez sobreela, mas tivesse apenas diminudo deintensidade.

    S.J. dos Campos, fevereiro/2009.Eunice Ferreira

    Esquecimento caro...Crnicas Pitorescas

    Palmyro MasieroComo jamais me esqueo do que quer

    que seja, exceto quando no me lembro, ficoimaginando o que passou pelas cabeas dosoperrios Joo Wenceslao e Nelson Gomesda Luz, para aprontarem essa!

    Deixar algo escapar da memria bastante normal. Esquecer, por exemplo, bastante normal. Esquecer, por exemplo, oguarda-chuva quase que um ponto dehonra. Ele, o guarda-chuva, no passa deum objeto mesquinho, no cria laos deamizade e sequer proporciona maioresintimidades. Talvez por estar sempre vestidode luto considere-se no direito de seresquecido.

    Existem casos mais graves. A mulhermanda o marido dela l comprar sabo emp e, passadas umas trs horas, ele surgecom um quilo de linguia embaixo do brao.

    Voltemos aos nossos amigos Wenceslaoe Nelson Gomes. Antes, uma viso doambiente. Um ramal da linha frrea passavapor trs do Almoxarifado aquele antigo,onde, dentro, na parede, bem grande haviaum dstico, num arremedo de letras gticas:"Cada cousa em seu lugar, cada lugar comsua cousa". Era ali, numa plataforma, em quese carregavam e descarregavam merca-dorias. Como a linha fazia uma curva, omaquinista no tinha boa viso do trajeto.

    Pois bem. Os dois operrios citadospertenciam ao 4o Grupo e haviam levadosobre um "trolley" algo para se descar-regado no Almoxarifado. Feito o servio,retiraram-se, lado a lado, num bom bate-papo. Andando e conversa rolando. S quese esqueceram do trole em frente aoAlmoxarifado.

    No momento em que o auxiliar demaquinista Jos Alves pegou o desviopara o depsito, a maria-fumaa, ao fazera curva, estava quase em cima do trole.Com uma rapidez invejvel e uma perciaextraordinria, Jos Alves conseguiuevitar o choque que poderia destruir ocarrinho ou at provocar o descarrilamentoda mquina.

    A a coisa esquentou. Quem deixou otrole na linha? O pagode entrou num ritmoacelerado e no demorou para que seencontrassem os autores da arte. Foiquando tomaram conhecimento da besteira.

    Sabem no que resultou isso? O Diretorda F.P.S.F, Cel. Achilles Pederneiras, lascou,no Boletim no 86, de 23 de julho de 1909, umCASTIGO, multando-os em oito dias devencimentos. Esquecimento caro!

    Em compensao, nesse mesmo Boletim,l est gravado um ELOGIO ao ajudante demaquinista Jos Alves, louvando-o pelapresena de esprito e habilidade.

    Esquecimento no rima com distrao,mas que so afinadssimos entre si, isso so!Fot

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  • O ESTAFETAPiquete, maro de 2009 Pgina 9

    A histria da Fbrica de Plvora SemFumaa inicia-se com os primeiros planeja-mentos realizados sob a responsabilidadedo marechal Medeiros Mallet, em 1902,exatamente o ano em que Euclides da Cunhapublicava "Os Sertes" que, num Brasil comos olhares voltados para a Europa, tornavam-se um marco da valorizao da realidade edas tradies do pas e um sinal de rupturacom o projeto de Brasil europeizado. Nessecontexto em que sopravam ventos nacio-nalistas, comeava a ser gerada a Fbricade Plvoras numa grota encravada naMantiqueira, onde nossas foras militarespassaram a buscar o alimento de suaartilharia para a defesa, manuteno econstruo da federao a partir de 1909,incio das atividades fabris.

    Os primeiros anos da Repblica do Brasilforam fortemente marcados por uma hege-monia agrria exportadora. Isto durou de1889 at a grande depresso de 1929, quandoa decadncia do caf e as dificuldades domercado externo foraram o sistema agrrioda velha Repblica a investir na economiaindustrial orientada para o mercado interno,substituindo as importaes.

    Mesmo levando em conta que a primeiraguerra mundial dera um pequeno incentivoa uma precria industrializao em algumasregies do pas, ainda podemos afirmar quea cidade de Piquete, com a implantao daFabrica de Plvoras, viveu situao mpar

    Os filhos da Fbrica de Plvoraentre as cidades do Vale doParaba fortemente atreladas aocaf. Ela conheceu precoce-mente o fenmeno da indus-trializao e isto provocou,gradativamente, profundamodificao no seu perfileconmico, poltico, social,religioso e cultural.

    A riqueza gerada com aproduo industrial criou,aos poucos, uma classe ope-rria independente das an-tigas elites; a capacitaoprofissional, em diversificadosofcios, causou impacto na infra-estrutura eno embelezamento da cidade; o desenvol-vimento econmico atraiu operrios de todoo Brasil, bem como artesos, sapateiros,alfaiates e comerciantes que vieram supriras necessidades dos operrios. Isto causouuma rica adio de novos elementos cul-turais na vida social da cidade, que foiconhecendo uma diversidade capaz deromper a sedimentao do etos, doscostumes anteriormente estabelecidos.Acredito que a diversidade sempreenobrecedora; por isso, penso que este fatofoi muito positivo para nosso povo.

    Nestes 100 anos de atividades, a Fbricade Plvora alimentou no s as forasmilitares e a construo civil, mas tambma vida dos piquetenses. Gerou muita

    A principal conduo que levava osoperrios moradores de Lorena FbricaPresidente Vargas, em Piquete, era o trem.

    Conhecido por muitos como Piqueteiroe por alguns como o "Trem dos Operrios",de segunda a sexta-feira saa da Estao deLorena, s 6h. Repleto de operrios,militares, professores, estudantes, o tremcarregava a esperana de dias melhores quecada um trazia no corao.

    A convergncia de passageiros, logode manhzinha, para o embarque era macia.Todos, irmanados, procuravam sentar-se janela das composies para poder apreciara paisagem lindssima no transcorrer daviagem. A fuligem largada pela mquina noincomodava.

    A caminho da FbricaComo se fosse um trem de turismo, os pas-

    sageiros conversavam, sorriam e comentavamalgo acontecendo l fora, e, de vez em quando,o maquinista acionava o apito charmoso,numa festana incomparvel.

    O Chefe da Estao, ao badalar a sineta,autorizava a partida. O trem comeava suajornada entre os bairros centrais e o daGabelinha. A primeira parada dava-se naPonte Nova, sobre o rio Paraba do Sul. Deolhares vidos, os passageiros curtiam asguas mansas do rio e brincavam com ospescadores s suas margens.

    A parada seguinte era a Estao Ange-lina (Fazenda Amarela). Ali no haviadesembarque, apenas apresentava-se umapaisagem buclica. O rio da Angelina, entre

    arbustos, corria to pertinhoda linha frrea, que dava paraouvir o murmurinho das guasmisturando-se aos cantos dospssaros.

    Na estao seguinte, Cel.Barreiros, s vezes a maria-fumaa tinha sede. Depois dearrefecida a caldeira, seguiaadiante.

    Da Parada Ramos prafrente, comeava a aparecerPiquete, pequeno trechoda rodovia BR-459, ascurvas do Rio do Piquete,

    casas e quintais arborizados.

    O maquinista, antes de chegar paradaBela Vista, colocava a cabea pra fora damquina; se houvesse passageiro, facili-taria seu embarque.

    Na Estao Rodrigues Alves, a paradaera um pouco demorada, pois embarcava edesembarcava muita gente. O Chefe daEstao estava sempre atento: s permitia asada do trem com a estao sem qualquermovimento de pedestre.

    Na Estao da Estrela desciam algunsestudantes, professores e militares. Erauma estao movimentada, pois algunsfuncionrios ali picotavam seus cartes.Dali at a ltima parada, no Porto daLimeira, onde ficava a Casa do Ponto,alguns operrios procuravam ir plata-forma das composies a fim de serem osprimeiros a descer.

    Com as composies vazias, o trempassava pelo Porto da Limeira, fazia amanobra no interior da Fbrica e retornava.Nunca atrasou. Sempre hora deslizou pelotempo a fora.

    O barulho das rodas rilhando, o apitocharmoso, a fuligem que s vezes queimavao capim seco ao longo do itinerrio, a sinetadas estaes, o picotador de passagens tudo passou como sonho.

    Neste 15 de maro, centenrio da FbricaPresidente Vargas, ns a abraamos eagradecemos sua existncia.

    Edival da Silva Castro

    alegria, produziu bom fute-bol, carnaval, templos e festas religiosas,deu s famlias o po de cada dia. Com aplvora, produziu tambm a dor e osofrimento, separando pessoas que seamavam, quase sempre antes da hora. AFbrica foi sempre um ponto de con-vergncia da vida da cidade.

    Ns, que somos filhos de Piquete, somostambm filhos da Fabrica de Plvora.Desejamos que esta data seja um marco naconstruo de uma empresa ainda mais fortee atual. Que este novo sculo que se iniciaem sua histria seja um tempo de sucesso eprosperidade, e que a Fbrica continueexercendo seu importante papel social emnosso municpio.

    Pe. Fabrcio Beckmann

    Fotos arquivo Pro-Memria

  • O ESTAFETA Piquete, maro de 2009Pgina 10

    A IMBEL/Fbrica Presidente Vargas parceira da Fundao Christiano Rosa (FCR)desde sua instituio, em 1997. Por meio deseus dirigentes vem acompanhando ostrabalhos da Fundao, tendo firmado comela seu primeiro convnio de cooperaotcnica em 1998. Nesta ocasio foi viabilizadauma srie de visitas tcnicas ao fragmentode Mata Atlntica conservado pela FPV aolongo de 100 anos, que teve como resultadorelatrios dos diversos especialistas que poraqui passaram. Entre eles, citamos oseclogos Dra. Janice Wiles (MarylandUniversity-USA) e Dr. Richard Wiles (EWG-USA), bilogos Dr. Dalton MorrisomValeriano (INPE) e Dra. Diana Damasceno,ornitlogos Drs. Fbio Olmos e HerculanoAlvarenga (USP), Dra. Ana Valria Arajo(Fundao Ford), Dr. Srgio Leito(Greenpeace), Dr. Joo Paulo Capobianco(ex-Secretrio Nacional de Meio Ambiente),Gegrafa Slvia Jordo (Fundao Florestal),Dra. Ceclia (UNITAU), entre outros. Todosse encantaram com a riqueza de biodi-versidade encontrada na Mata. Pretendia-se a criao de uma unidade de conservao,a implantao do corredor ecolgico daMantiqueira e a criao do Parque daCidade. Foram previstos cursos de capa-citao tcnica e de conscientizao ambi-ental, pesquisa cientfica de fauna e flora,

    IMBEL/FPV Responsabilidade Socialna regio, equiparada a trabalhos existentesna Europa. fundamental visit-lo para oconhecimento da histria da FPV, que seconfunde com a histria de nossa cidade.Na ocasio, foi lanada uma bem ilustradarevista que orienta o visitante.

    Ainda em 2006, nova parceria foi firmada,agora para a preservao de recursoshdricos: a recuperao da mata ciliar doribeiro Limeira, cuja nascente se encontraem terras da IMBEL/FPV. At o momentoforam plantadas 34 mil mudas, com mais de90 espcies nativas. O plantio na mata ciliardo ribeiro Limeira faz parte de um projetomaior denominado Corredor de conec-tividade entre a APA da Mantiqueira e a APAdo Paraba do Sul, atravs do ribeiroLimeira. Trata-se de um projeto pioneiro novale do Paraba. Em 100 anos, a FPV con-servou mais de trs mil hectares de florestae, em parceria com a FCR, ir recuperar mais46 hectares. Em 2009, devero ser plantadasmais 16 mil mudas, totalizando 50 milunidades plantadas.

    Por seu lado, a FCR, reconhecendo aimportncia da FPV para o municpio, sepreocupou em arregimentar um arquivofotogrfico-documental mpar sobre suahistria. Parte desse arquivo ser expostano Espao Cultural Clia Apa. Rosa nestecentenrio.

    O agradecimento pela confiana dis-pensada Fundao nos seus treze anostorna imperiosa a citao dos nomes do Gen.Paiva Chaves, Cel. Alfredo Arajo, Cel.Wagner Carini, Gen. Cssio Cunha, Gen.Fernando Manquinho e Gen. lvaro Hen-rique de Moraes, que representam osadministradores que, ao longo dos anos,puderam entender seu trabalho. A grandezade pensamento desses homens e de outrosmilitares que por aqui passaram tornoupossvel a preservao e a conservao dogrande patrimnio ambiental, artstico,cultural e arquitetnico construdo pela FPVem seus 100 anos de existncia, a qual sefirmou ao longo do tempo como umaempresa com responsabilidade social.

    Ana Maria Gouva, Arquiteta e Urba-nista, Presidente do Conselho Curadorda FCR

    preservao dos recursos hdricos, ex-plorao do potencial turstico-ecolgico,criao de viveiro e produo de sementescom espcies nativas do fragmento florestalda FPV, gerao de empregos e renda para acomunidade de Piquete.

    Outra parceria significativa na rea depreservao do patrimnio cultural da cidadefoi a cesso em comodato do prdio daAntiga Capela do Hospital, que se encon-trava em estado precrio de conservao.Reformado, transformou-se no EspaoCultural Clia Apa. Rosa, no qual a FCRrealiza atividades culturais, artsticas,musicais, educacionais, encontros e reu-nies tcnicas.

    A FPV, com a anuncia e promoo daIMBEL e seus dirigentes, alm de parceirasempre foi nossa aliada na preservao damemria piquetense, restaurando diversosedifcios e monumentos de significativaimportncia histrica e turstica para Piquete(antigo Contingente, Casa 1, Estao daEstrela com sua locomotiva, Prtico).

    Recentemente, em 2006, quando docentenrio da Usina Hidreltrica RodriguesAlves e da Represa Mal. Argollo, a FPVrecuperou-as e transformou o edifcio dausina no Memorial Usina Rodrigues Alves. importante registrar a qualidade dotrabalho realizado no Memorial, obra mpar

    Fotos arquivo Pro-Memria

    Inaugurao doMemorial da Usina Rodrigues Alves

    Diana Valeriano, Kiko Ribeiro eDalton Morrison na mata da IMBEL

    Projeto de recuperao de mata ciliar do RibeiroLimeira: plantio de mudas

    Exposio ce Artes Plsticasno Espao Cultural Clia Ap.Rosa

  • O ESTAFETA Pgina 11Piquete, maro de 2009

    A instalao da Fbrica de Plvora semFumaa, em Piquete, no comeo do sculoXX, inaugurada a 15 de maro de 1909,trouxe animao e esperanas recm-emancipada cidade.

    Os homens em idade adulta passaram aser incorporados a suas fileiras produtivas,desde a construo das oficinas, estradasde ligao, at os galpes e prdios daadministrao e burocracia, e das linhas deproduo propriamente ditas, alm daedificao das residncias dos oficiaisgraduados.

    Ligada desde as origens ao estabe-lecimento militar do Exrcito e s ForasArmadas, logo cedo ela j incorporava ahierarquia dos comandos e dos seuscomponentes.

    Pertencer aos quadros de produo daFbrica no era apenas uma necessidade,chegava a ser uma questo de "status", umescalonamento social respeitvel. Afinal,havia um salrio, algumas garantias paraalugar-se uma casa, casar-se e ter filhos; eos mais jovens, para conseguir emprego eascender na escala produtiva, aceitavamcomear dos trabalhos mais pesados emenos atraentes, para lutar por melhoresposies.

    Muitos nomes ascendentes na escalasocial da cidade e nos quadros do funcio-nalismo da Fbrica iniciaram suas carreirasnas seguintes condies: instalavam dor-mentes e faziam reparos na estrada de ferro,faziam limpeza de todo tipo, cuidavam dehortas, pastagens e animais, alm de seremusados como mensageiros e serviais dosmais diferentes afazeres. Afinal, eramsubalternos, e como tais tratados. Ahierarquia era obedecida sem pejo e comhumildade. Esta foi a marca individualizadoradaqueles homens que, depois de idade nomuito avanada, anunciavam, nos rostos, amarca indelvel das histrias das quaisforam protagonistas.

    Enquanto isso, a plvora base denitrocelulose, denominada sem fumaa, eraproduzida segundo as tcnicas que vinhamde 1884, que, com propriedades balsticasadequadas, exigidas pelos fuzis Mauser

    Os operrios da FPV

    1894, importados, justificavam a imple-mentao produtiva da munio neces-sria.

    A importao, onerosa, impunha acriao de fbricas de munio de armasportteis como a que foi instalada no Rio deJaneiro a Fbrica do Realengo, concludaem 1898, e a Fbrica em Piquete, no incio dosculo XX.

    Os operrios eram treinados paraelaborar o trabalho junto s oficinas deproduo que se instalavam sob orientaodos tcnicos norte-americanos da Dupont-Nemours.

    Nem tudo so glriasHouve ferimentos e mortes entre os

    trabalhadores da Fbrica. A poluio notrabalho e os descuidos da seguranacausaram muita dor e perdas.

    Este um captulo muito difcil de sertratado. Os nmeros reais dos eventosinfaustosos misturam-se e o que permanece uma angstia para no se esquecer jamais.Esta memria no deve ser perdida, por suaexemplaridade.

    O rudo forte e rouco da exploso naserra, pois as usinas, perigosas, eram

    encaixadas nas grotas rochosas, o penachode fumaa nas vertentes dos vales encai-xados estreitavam a circulao sangunea eaceleravam as taquicardias.

    Todos saam s caladas e portas.Corria-se entrada da Enfermaria-Hospital,depois do Hospital propriamente dito.Boatos. Confirmaes. Avisos fnebres.Tudo muito difcil de ser cumprido. Asfamlias dos desaparecidos em angstia.

    Os restos buscados nas matas. Osenterros quase simblicos. As cruzesestilhaadas no cemitrio. As memrias dosque foram naquele dia ou pernoite, e novoltaram. Os sorrisos deixados no ar. Osanseios sepultados e os sonhos inter-rompidos. A ausncia de muitas pers-pectivas. Os balces dos bares, na procurainsana da possibilidade do esquecimentodo destino trgico. Os pulmes afetados. Aneurose do trabalho. As contas a pagar e osfilhos, o lar, os preos, a comida, osremdios. A necessidade da moradia.

    Paralelamente, os diretores da Fbrica, eespecialmente, o Cel. Aquino, na angstiade tentar evitar maiores males, buscando,de alguma forma, superar essas dificuldades.Visitava as famlias, procurava oferecer umaresidncia de posse permanente e here-ditria, educar os filhos, e funcionava comoconselheiro. Mas as situaes compli-cavam-se e as circunstncias nem semprefavoreciam.

    O destino incerto, entretanto, irmanavaa todos. A populao inteira de Piquete eLorena solidarizava-se.

    O sincretismo religioso, as festaspopulares e religiosas, os bailes, o Car-naval e os desfiles cvicos pomposostentavam disfarar esses males.

    O glorioso Esporte Clube Estrela erauma boa derivao para as emoesreprimidas. Uma elite nos sales pro-gramava eventos e encontros. As bandasmarciais encantavam e animavam. E ajuventude disputava prmios entre bailese bailes. Havia uma euforia paralela. Eramas dcadas de 1940 - 1950 -1960.

    Dli de Castro Ferreira***************

    Operrios da FPV em 1909Fotos arquivo Pro-Memria

    Operrios em 1977, quando a FPV foiincorporada ao grupo IMBEL

  • O ESTAFETA Piquete, maro de 2009Pgina 12

    11-02-1902: O Marechal Mallet chegaa regio de Piquete, a convite do Baroda Bocaina, para escolha do local paraconstruo de um sanatrio militar e deuma fbrica de plvora. Em maro temincio a construo do Ramal FrreoLorena-Bemfica e do Sanatrio Militar,em Lavrinhas, prximo a So Franciscodos Campos.

    26-03-1904: Visita do Marechal Argollo,que veio inspecionar as obras militares naregio. Nesta ocasio foi escolhido o localdefinitivo para construo da fbrica deplvora.

    05-07-1905: Compra das fazendas"Serto", "Estrela do Norte" e "Limeira" parainstalao da Fbrica

    19-07-1905: Chega a Piquete a Comis-so Construtora da FPSF, sob o comandodo Tenente Coronel Augusto Maria Sisson.

    24-07-1905: Lanamento da pedrafundamental da usina hidreltrica.

    26-01-1906: Nomeada a Comisso deCompras, com a funo de adquirir, nosEUA, aparelhagem necessria Fbrica,tendo como chefe o General Modestino deAssis Martins.

    novo regulamento da Fbrica, que passa adenominar-se "Fbrica de Plvoras eExplosivos de Piquete".

    25-06-1936: Inaugurao do novoedifcio do Cassino e Cinema dos oficiais.

    25-08-1937: Inaugurados o GrupoEscolar da Fbrica, a arquibancada doEstdio do Estrela e a Enfermaria-farmcia.

    03-05-1939: Por determinao doMinistrio da Guerra, a Fbrica de Plvorase Explosivos de Piquete passa a denominar-se "Fbrica de Piquete".

    17/07-1939: Visita do Presidente daRepblica Getlio Vargas.

    19-10-1939: Criao do "Patronato" daFbrica de Piquete.

    24-10-1940: Visita do Presidente daRepblica Getlio Vargas acompanhadodo Dr. Adhemar de Barros, InterventorFederal em So Paulo, e do general EuricoGaspar Dutra, Ministro da Guerra.

    15-03-1941: Inaugurao de um novogrupo fabril composto das fbricas denitroglicerina, dinamite, plvora de basedupla e novo laboratrio experimental, numtotal de 44 edificaes.

    8-12-1942: Inaugurao oficial dafbrica de Base Dupla, pelo Ministro daGuerra, Eurico Gaspar Dutra, ocasio em quea Fbrica de Piquete passa a ser denominadaFbrica Presidente Vargas.

    28-08-1948: Inaugurao, pelo Pre-sidente da Repblica Eurico Gaspar Dutra,do novo Hospital da FPV.

    Cronologia da Fbrica Presidente Vargas17-12-1908: O ento Tenente Coronel

    Aquilles Veloso Pederneiras nomeadoprimeiro Diretor da Fbrica.

    15-03-1909: Inaugurao da FPSF,pelo Presidente da Repblica, Dr. AfonsoAugusto Moreira Penna.

    15-09-1906: Inaugurados pelo Mare-chal Argollo e pelo Presidente de SoPaulo, Washington Luiz, o Ramal FrreoLorena-Bemfica, a Estao FerroviriaRodrigues Alves, a Usina HidreltricaRodrigues Alves, a Represa MarechalArgollo e a iluminao eltrica da Vila daEstrela, em construo.

    19-12-1906: Atravs do Decreto Esta-dual no 1033, a Vila Vieira elevada categoriade cidade, com o nome de "Vieira doPiquete".

    03-05-1907: A Comisso Construtorada Fbrica d por concludos os 37 edifciosda FPSF.

    1977: A FPV incorporada IMBEL,empresa vinculada ao Ministrio do Exrcito.

    02-09-1987: Visita do Presidente daRepblica Jos Sarney.

    15-09-2006: Inaugurao do MemorialUsina Rodrigues Alves

    22-05-1909: Produo dos primeiros500kg de cido sulfrico.

    30-08-1909: Primeiro lote de plvoraqumica no Brasil .

    1911: Conquista do "Grande Prmio" daExposio Internacional de Torino, na Itlia

    06-12-1913: Fundao da SociedadeBeneficente do Pessoal da FPSF.

    14-12-1914: Fundao do Esporte ClubeEstrela.

    11-03-1915: Aps seis anos frente daadministrao da Fbrica, o Cel. Pederneiras nomeado Diretor do Arsenal de Guerra doRio de Janeiro, deixando a FPSF.

    29-10-1915: Restringida para Piquete,por meio da Lei Estadual no 1470, a desig-nao de Vieira do Piquete.

    20-05-1918: Visita do Presidente daRepblica, Dr. Wenceslau Braz PereiraGomes, e comitiva FPSF.

    06-06-1919: A Fbrica recebe a visitado General Emilien Maurice Gamelin, chefeda Misso Militar Francesa, instrutora donosso Exrcito.

    1922: A FPSF premiada na ExposioInternacional, no Rio de Janeiro, durante ascomemoraes do primeiro centenrio daIndependncia.

    08-07-1924: Em vista da "situaoanormal" que atravessava o pas, chega FPSF um contingente de 83 praas do 4 B.E.,para guarnec-la.

    14-02-1931: Criao da Seo Comercialda FPSF.

    11-08-1932: Suspenso do Coronel JosPompeu de Albuquerque Cavalcante dadireo da FPSF, em funo da RevoluoConstitucionalista de 1932. Assume adireo da Fbrica o tenente coronelFelisberto Antnio Fernandes Leal em nomedo general Bertold Klinger, chefe das forasrebeladas.

    14-09-1932: Abandono da Fbrica pelasforas revolucionrias.

    31-05-1933: Inaugurao da Fbrica deTrotil.

    03-06-1936: O Decreto no 878 aprova o