Mário de Andrade

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    10-Jul-2015
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Mrio de AndradePoesia

DescobrimentoAbancado escrivaninha em So PauloNa minha casa da rua Lopes ChavesDe supeto senti um frime por dentro.Fiquei trmulo, muito comovidoCom o livro palerma olhando pra mim.

No v que me lembrei que l no Norte, meu Deus!muito longe de mimNa escurido ativa da noite que caiuUm homem plido magro de cabelo escorrendo nos olhos,Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,Faz pouco se deitou, est dormindo.Esse homem brasileiro que nem eu.

Poemas da amiga

A tarde se deitava nos meus olhosE a fuga da hora me entregava abril,Um sabor familiar de at-logo criavaUm ar, e, no sei porque, te percebi.Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrana.Estavas longe doce amiga e s vi no perfil da cidadeO arcanjo forte do arranha-cu cor de rosa,Mexendo asas azuis dentro da tarde.Quando eu morrer quero ficar,No contem aos meus amigos,Sepultado em minha cidade,Saudade.

Meus ps enterrem na rua Aurora,No Paissandu deixem meu sexo,Na Lopes Chaves a cabeaEsqueam.

No Ptio do Colgio afundemO meu corao paulistano:Um corao vivo e um defuntoBem juntos.Escondam no Correio o ouvidoDireito, o esquerdo nos Telgrafos,Quero saber da vida alheiaSereia. O nariz guardem nos rosais,A lngua no alto do IpirangaPara cantar a liberdade.Saudade

Os olhos l no JaraguAssistiro ao que h de vir,O joelho na Universidade,SaudadeAs mos atirem por a,Que desvivam como viveram,As tripas atirem pro Diabo,Que o esprito ser de Deus.Adeus. No exijas mais nada.no desejotambm mais nada,s te olhar,enquanto A realidade simples e isto apenas.Ode ao burgus

Eu insulto o burgus! O burgus-nquelo burgus-burgus!A digesto bem-feita de So Paulo!O homem-curva! O homem-ndegas!O homem que sendo francs, brasileiro, italiano, sempre um cauteloso pouco-a-pouco! Eu insulto as aristocracias cautelosas!Os bares lampies! Os condes Joes! Os duques zurros!Que vivem dentro de muros sem pulos,e gemem sangue de alguns mil-ris fracospara dizerem que as filhas da senhora falam o francse tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burgus-funesto!O indigesto feijo com toucinho, dono das tradies!Fora os que algarismam os amanhs!Olha a vida dos nossos setembros!Far Sol? Chover? Arlequinal!Mas chuva dos rosaiso xtase far sempre Sol! Morte gordura!Morte s adiposidades cerebrais!Morte ao burgus-mensal!Ao burgus-cinema! Ao burgus-tiburi!Padaria Sussa! Morte viva ao Adriano!" Ai, filha, que te darei pelos teus anos? Um colar... Conto e quinhentos!!!Ms ns morremos de fome!" Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!Oh! pure de batatas morais!Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!dio aos temperamentos regulares!dio aos relgios musculares! Morte infmia!dio soma! dio aos secos e molhadosdio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,sempiternamente as mesmices convencionais!De mos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!Dois a dois! Primeira posio! Marcha!Todos para a Central do meu rancor inebriante! dio e insulto! dio e raiva! dio e mais dio!Morte ao burgus de giolhos,cheirando religio e que no cr em Deus!dio vermelho! dio fecundo! dio cclico!dio fundamento, sem perdo!

Fora! Fu! Fora o bom burgus!...Lundu do escritor difcil

Eu sou um escritor difcilQue a muita gente enquizila,Porm essa culpa fcilDe se acabar duma vez: s tirar a cortinaQue entra luz nesta escurez.Cortina de brim caipora,Com teia caranguejeiraE enfeite ruim de caipira,Fale fala brasileiraQue voc enxerga bonitoTanta luz nesta capoeiraTal-e-qual numa gupiara.Misturo tudo num saco,Mas gacho maranhenseQue pra no Mato Grosso,Bate este angu de carooVer sopa de caruru;A vida mesmo um buraco, Bobo quem no tatu!Eu sou um escritor difcil, Porm culpa de quem !...Todo difcil fcil, Abasta a gente saber.Baj, pix, chu, h "xavi"De to fcil virou fssil, O difcil aprender!Virtude de urubutingaDe enxergar tudo de longe!No carece vestir tangaPra penetrar meu caanje!Voc sabe o francs "singe"Mas no sabe o que guariba? Pois macaco, seu mano, Que s sabe o que da estranja.

Macunama (Eplogo)

Acabou-se a histria e morreu a vitria. No havia mais ningum l. Dera tangolomngolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um.No havia mais ningum l.Aqueles lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solido do deserto... Um silncio imenso dormia beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra no sabia nem falar da tribo nem contar aqueles casos to panudos. Quem podia saber do Heri?

Mrio de Andrade.