MEMÓRIAS E SENTIMENTOS EM LÁPIDES ROMANAS … · universidade federal do paranÁ gabriel augusto...

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ GABRIEL AUGUSTO SOARES MEMÓRIAS E SENTIMENTOS EM LÁPIDES ROMANAS ANTIGAS DE REGIÕES ANFITEATRAIS CURITIBA 2016

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARAN

    GABRIEL AUGUSTO SOARES

    MEMRIAS E SENTIMENTOS EM LPIDES ROMANAS ANTIGAS DE REGIES

    ANFITEATRAIS

    CURITIBA

    2016

  • GABRIEL AUGUSTO SOARES

    MEMRIAS E SENTIMENTOS EM LPIDES ROMANAS ANTIGAS DE REGIES

    ANFITEATRAIS

    Monografia apresentada como trabalho de

    concluso do curso Histria

    Licenciatura e

    Bacharelado,(Departamento de Histria,

    Setor de Cincias Humanas da

    Universidade Federal do Paran)

    Orientadora: Renata Senna Garraffoni

    CURITIBA

    2016

  • Agradecimentos

    Toda trajetria, seja ela pessoal ou profissional, precisa de um suporte emocional que

    apenas pessoas podem nos dar. Tive a sorte de, nos cinco anos que estive estudando Histria

    na UFPR, ter contado com o apoio de pessoas muito especiais que fizeram com que essa

    minha vontade fosse mais prazerosa. Agradeo inicialmente minha famlia, em especial

    minha me e minha av, que me propiciaram, desde cedo, as condies para que eu pudesse

    estudar, e me apoiou em todas as minhas escolhas na vida at ento.

    Agradeo aos meus colegas de curso, principalmente os do GRR2012 (meu ano de

    entrada), que foram uma turma sempre alegre e que diminuram o fardo dos momentos

    difceis do curso; como falei, nenhuma trajetria se faz sozinha, e vocs foram importantes

    no s como colegas de provas, atividades e trabalhos, mas tambm como pessoas e amigos

    que me ensinaram muitas coisas e contriburam para que eu crescesse como pessoa. Poderia

    dizer aqui o que e o quanto aprendi com cada um de vocs, pois todos me ensinaram algo,

    mas me limito a agradecer por ter tido a chance de conhec-los.

    Destaco agora aqui melhores amigos da faculdade, o chamado beco, sempre me

    incentivando e lidando com meu gnio difcil em todos os momentos: Kelleny, que quase

    que um outro eu, com mapa astral e forma de ver a vida muito parecido; Vinicius, que com

    seu jeito nico de ser e sempre compreensivo comigo, se tornou meu amigo mais especial;

    Ana Paula, com quem sempre tive conversas muito importantes para meu autoconhecimento;

    e Yasmin, que escolheu sair do curso no primeiro ano, mas uma pessoa doce que jamais vou

    esquecer e que colaborou muito pros meus primeiros passos na universidade. Vocs foram o

    melhor grupo de amigos que eu fiz na vida! E claro, outras pessoas do curso que no do meu

    ano tambm foram essenciais nessa trajetria, como a Yonara, uma pessoa incrvel que a

    faculdade me deu a sorte de deixar conhecer, admirar e conviver. Agradeo tambm a todas as

    pessoas e professores que sempre foram legais comigo, vocs sabem quem so e o quanto

    considero vocs, so muito especiais.

    Por fim, e no menos importante, agradeo minha orientadora, a professora Renata,

    sempre prestativa e atenciosa. Mais do que orientadora, a professora foi fundamental para a

    produo da monografia com suas dicas, ajudas e correes; agradeo por toda a sua

    orientao e incentivo, uma grande profissional.

  • RESUMO

    A presente pesquisa tem como objetivo um estudo de caso de lpides romanas encontradas em

    regies anfiteatrais, feitas em pedra e escritas em latim. As lpides so referentes tanto a

    membros da elite local e organizadora dos jogos anfiteatrais quanto aos prprios gladiadores

    que deles participavam. O foco dado na anlise da construo de memria dos sujeitos

    histricos presentes nessa cultura material e, tambm, os sentimentos entre familiares, que

    faz-se presente nos epitfios, na maioria dos casos custeados pela famlia do enterrado. Assim,

    a pesquisa busca um olhar mais plural para a sociedade romana antiga, em dilogo

    interdisciplinar com a Arqueologia Clssica, ressaltando a importncia das fontes epigrficas

    para a historiografia. Essa monografia avana, portanto, no sentido de ressaltar a importncia

    de retratar os espetculos anfiteatrais com um vis cultural e social, levando em considerao

    no o que as fontes oficiais (repletas de julgamentos morais de uma elite) narraram sobre tais

    eventos histricos e seus personagens tendo como objetivo, em contraposio, demonstrar que

    os personagens envolvidos nos jogos eram dotados de vivncias e relaes interpessoais.

    Palavras-chave: Histria Antiga; Histria da Famlia; Epigrafia.

  • Sumrio

    1 Introduo..............................................................................................................6

    2 Os jogos anfiteatrais e as camadas populares: novas abordagens...........................8

    2.1 Histria Antiga e Arqueologia Clssica: um dilogo necessrio........................................10

    2.2 Repensando os conceitos de famlia e infncia na Roma Antiga.......................................14

    2.3 O conceito de escravido na Roma Antiga: repensando os modelos econmicos..............20

    3 A epigrafia na construo de modelos

    interpretativos....................................................26

    3.1 As fontes epigrficas e sua relao com a historiografia...................................................26

    3.2 Epigrafia funerria: as lpides e a busca por modelos interpretativos................................28

    3.3 Construo de uma metodologia de anlise dos epitfios: memrias e famlias................31

    3.4 Catlogo das lpides contempladas pela pesquisa.............................................................33

    4 Memrias, sentimentos e famlias nos epitfios das lpides...........................................44

    4.1 Os indivduos nas memrias construdas...........................................................................45

    4.2 Escravido e liberdade nos epitfios...................................................................................49

    4.3 Sentimentos e relaes familiares nas lpides....................................................................52

    5. Consideraes finais........................................................................................................57

    6. Referncias bibliogrficas...............................................................................................60

  • 6

    1. Introduo

    Essa monografia busca compreender e analisar a construo de memria feita por

    agentes histricos que por muito tempo foram marginalizados na historiografia, como os

    gladiadores e os escravos. Assim, o processo histrico dos jogos anfiteatrais romanos passa a

    ser analisado por um vis cultural, que prioriza a subjetividade destes agentes e, sobretudo, as

    relaes familiares em que eles estavam inseridos, tendo em mente que as estruturas

    familiares so construes sociais, que variam de acordo com o espao e o tempo e no

    podem ser interpretadas como estruturas fechadas e anacrnicas; logo, foi preciso estudar o

    que era a famlia na Antiguidade romana para desenvolver o trabalho. Ainda nesse sentido,

    procurei problematizar os espetculos anfiteatrais tomando como base a anlise, a partir de

    uma tica plural, de memrias construdas e de sentimentalidade em torno das relaes

    familiares dos agentes histricos envolvidos nesse processo. A problemtica da pesquisa

    busca, portanto, uma perspectiva cultural, revendo, assim, anlises dos espetculos anfiteatrais

    que privilegiem apenas uma histria poltica tradicional.

    Os primeiros passos foram dados no edital de iniciao de cientfica da UFPR nos

    anos de 2014/2015. O plano de trabalho inicial era estudar a infncia no mundo romano

    antigo, mas pela dificuldade de acesso s fontes para o andamento da pesquisa, o foco foi

    mudado, no retratando apenas as crianas, mas ampliando o tema para as relaes familiares

    romanas antigas. Assim, o objetivo passou a ser o estudo de caso de lpides romanas

    encontradas em regies anfiteatrais, realizando uma anlise da construo de memria dos

    sujeitos histricos presentes nessa cultura material e, tambm, os sentimentos entre familiares

    presente nos epitfios, visto que, na maioria dos casos, os epitfios foram custeados pela

    famlia do enterrado. A presente monografia um aprofundamento da pesquisa voluntria de

    IC , que foi realizada durante dois anos (2014-2016); destaco a importncia da IC para a

    construo dessa pesquisa pois, em reunies com a orientadora, foi possvel delimitar a

    escolha de trabalhar como essas fontes, que se tratam de um conjunto de lpides romanas

    antigas presentes em regies anfiteatrais, feitas em pedra e escritas em latim.

    Essa monografia repensa e discute anlises sobre os personagens envolvidos nos

    espetculos anfiteatrais que privilegiem apenas uma histria poltica tradicional,

    possibilitando, assim, a discusso de aspectos culturais e sociais da Roma Antiga, como:

    relaes familiares, sentimentos afetivos, construo e seleo de memria, e estudo do status

  • 7

    social presente (cidados, gladiadores/escravos e libertos, por exemplo). Nesta tica de

    analisar os indivduos com base em suas subjetividades e evitando fontes tradicionais, tornou-

    se possvel a desconstruo de esteretipos que a historiografia da antiguidade reforou ao

    tomar como base apenas as fontes oriundas apenas de elites dominantes.

    Aliada a essa vontade de estudar a subjetividade de agentes histricos, indaga-me

    tambm a percepo de sentimentos na Histria; memrias e sentimentos podem ser

    denotados pelas lpides por meio de uma construo seletiva de memria entre maridos,

    esposas, pais, mes e filhos. Tal construo, mesmo que no seja apenas afetiva ou emocional,

    pode possibilitar esse campo de anlise nas relaes familiares, bem como levantar uma srie

    de questionamentos sobre relacionamentos na sociedade romana antiga. Como essa memria

    ps-morte construda nas lpides e com qual possvel finalidade? Quais so as recorrncias e

    as dissidncias nas escritas dos epitfios? Como a carga de sentimentalidade comumente

    aparece neles, e quais so as relaes sociais presentes nas fontes? Diante de tais perguntas,

    surgiu o interesse pela famlia e pelas relaes interpessoais na sociedade romana antiga,

    temas que vem sendo pertinentes a Histria Cultural nas ltimas dcadas, e que considero

    essenciais para a compreenso subjetiva e cotidiana dos sujeitos histricos que a Histria

    Antiga pretende abordar.

    No primeiro captulo, abordarei um breve balano historiogrfico com as principais

    leituras sobre os temas pertinentes pesquisa (Arqueologia Clssica, famlia,

    escravido/liberdade); no segundo, tratarei da relevncia da epigrafia (sobretudo a funerria)

    para a Histria e de que modo ela colabora para a construo de interpretaes do passado,

    apresentando, em seguida, a metodologia adotada para a anlise das lpides; por fim, no

    terceiro captulo, analisarei os epitfios em suas especificidades, discutindo o contedo dos

    mesmos.

  • 8

    2. Os jogos anfiteatrais e as camadas populares: novas abordagens

    A Arqueologia Clssica, como ser argumentado, trata-se de uma rea que nos permite

    uma aproximao com o cotidiano dos agentes sociais da Antiguidade, e no somente retrat-

    los com base na viso de uma elite dominante. Nisso surge a ideia de estudar as camadas

    populares envoltas nos jogos anfiteatrais por meio de epigrafia funerria, levando em conta

    trs eixos: memria, sentimentos e relaes familiares. A elite dominante, por sua vez,

    tambm passa a ser entendida por outro prisma, o das relaes familiares e o da constituio

    de uma memria seletiva, atingindo o objetivo de compreender a subjetividade das suas

    relaes interpessoais.

    Para se estudar as camadas populares na Antiguidade romana, preciso se ater ao

    modo como a historiografia a retratou ao longo dos sculos. Vises como as de Mommsen e

    Friedlnder retrataram, no sculo XIX, os marginalizados da sociedade romana com uma

    viso extremamente moralista, baseada em julgamentos morais de seu presente (Garraffoni,

    2008). Ento, a conotao sobre membros da camada popular era extremamente negativa e

    opressora, repleta de preconceitos, numa viso capitalista que valorizava o trabalho e criticava

    o cio; a subjetividade desses sujeitos era renegada, enquadrando-os como um grupo

    desprovido de moral e at mesmo de relevncia social.

    Segundo Garraffoni, somente ao longo da dcada de 1960, com o surgimento da

    desconstruo de conceitos raciais e o incio mais acentuado de movimentos por direitos

    sociais (no qual se inserem mulheres, homossexuais e negros), inicia-se uma espcie de

    tomada de conscincia que viria a influenciar os estudos classicistas, repensando essas

    camadas populares e marginalizadas por outro vis:

    Neste sentido, os anos de 1960 representaram um marco importante na historiografia

    e seus ecos foram sentidos entre os classicistas. E neste momento que estudos sobre

    a escravatura ganham foras, assim como se constitui um longo debate se haveria

    classe ou estamento no mundo romano. Alm disso, influencia marxista, a busca por

    uma histria vista de baixo trouxe a cena os conflitos sociais renovando os estudos

    sobre economia e a sociedade romana, tornando os membros das camadas populares

    sujeitos de sua histria. Assim, escravos, libertos, cidados pobres, gladiadores,

    bandidos, prostitutas, velhos, crianas passaram a constituir parte das interpretaes

    no como massa manipulada, mas como sujeitos capazes de expressar suas vontades,

  • 9

    explicitando os conflitos que eram silenciados em modelos interpretativos mais

    tradicionais. (GARRAFFONI, 2008, pp. 174-175)

    Essa concepo de anlise das camadas populares foca, portanto, nos prprios

    registros e memrias deixados ao longo de suas vivncias em sociedade; disto vem a

    importncia das fontes arqueolgicas e, consequentemente, do dilogo entre Histria e

    Arqueologia Clssica para a busca de modelos interpretativos plurais nos estudos classicistas.

    Visando atingir esse objetivo de desconstruir uma concepo tradicional e que pouco

    menciona acerca da subjetividade de agentes histricos sobretudo das camadas populares

    envoltos nos jogos anfiteatrais, uma das principais influncias da pesquisa est na historiadora

    Garraffoni (2004), que afirma que os historiadores da Antiguidade necessitam produzir

    interpretaes de cotidiano e de dia a dia que sejam mais dinmicas. Esse dinamismo se

    encontra na inteno de valorizarmos a pluralidade dos sujeitos, para questionar as

    concepes e estudos normatizadores dos indivduos.

    A ideia de po e circo em seus diversos contextos interpretativos ou o prprio

    conceito de evergetismo proporcionou, portanto, uma valorizao de um nico

    aspecto dos munera, isto , o poltico, em detrimento de outras possibilidades. Uma

    srie de imagens acerca deste fenmeno particular da cultura romana foi sendo

    construda e transformada, enquanto outras esquecidas. Falou-se de ociosidade,

    parasitismo do Estado, violncia, prazeres profanos e nefastos, politizao das

    arenas, mas pouco se comentou sobre o cotidiano destes homens e mulheres que

    combateram nas arenas romanas, o que nos leva a pensar nos limites desta linha de

    interpretao que aprisiona a diversidade dos sujeitos impedindo que sejam agentes

    de sua Histria. (GARRAFFONI, 2005, p. 75)

    Essa abordagem proposta por Garraffoni sugere uma desconstruo dos jogos

    anfiteatrais pautados na tradicional ideia da plebe ociosa e ansiosa por diverso, bem como

    de compreend-los apenas como uma demonstrao do poder poltico do imperador. Essa

    monografia avana no sentido de ressaltar a importncia de retratar os espetculos anfiteatrais

    com um vis cultural e social, levando em considerao no o que as fontes oficiais (repletas

    de julgamentos morais de uma elite) narraram sobre tais eventos histricos e seus personagens

    (como gladiadores e escravos), mas sim entender que os personagens envolvidos nos jogos

    eram dotados de vivncia e agncia histrica, no sendo definidos somente pelas suas relaes

  • 10

    com os anfiteatros, seja em sua organizao (no caso da elite) ou em suas experincias de

    combate (no caso dos gladiadores).

    A escolha para destacar suas vivncias para alm dos jogos , no caso da presente

    pesquisa monogrfica, o estudo de suas relaes familiares e memrias afetivas. A ideia de

    retratar os jogos anfiteatrais com base nas camadas populares desconstri o exposto por Paul

    Veyne (1976), em O Po e O Circo, em que o historiador afirma que os espetculos nos

    anfiteatros retratavam uma disputa poltica entre povo e imperador. Os jogos funcionavam,

    assim, como um evergetismo, em que as elites locais comandavam uma poltica de po e circo:

    os espetculos, a diverso e doaes eram ofertados plebe como uma maneira de angariar

    votos e evitar uma resistncia poltica:

    Nas [...] cidades helensticas, eles [as elites locais] consagravam cidade o seu

    tempo e o seu dinheiro, ofereciam-lhe [aos pobres] edifcios, punham a sua

    influncia a servio dela; em Roma, davam plebe espetculos e festins, como

    convinha a chefes paternais [...] (VEYNE, 1984, p. 245).

    A anlise de Paul Veyne, embora inove ao reconhecer o posicionamento do povo, no

    privilegiou o cotidiano e a subjetividade dos agentes envolvidos nos jogos anfiteatrais. Veyne,

    ento, no avana no sentido de compreender de que forma as pessoas integrantes da chamada

    plebe vivenciavam e sentiam aqueles espetculos, no estudando registros histricos

    cotidianos e pertinentes ao universo dos membros das camadas populares.

    Quanto ao estudo das epigrafias (grafites, pinturas paretais e lpides) de regies

    anfiteatrais, este confere, segundo Garraffoni (2005), uma individualidade aos gladiadores que

    participavam dos espetculos, visto que nos permitem compreend-los enquanto pessoas, pois

    na construo dessa memria esto presentes suas relaes afetivas (mulheres, filhos, parentes,

    admiradores e/ou amigos). Nesse processo, o dilogo entre Arqueologia e Histria, a ser

    comentado no prximo tpico, faz-se essencial para a construo de modelos interpretativos

    do passado.

    2.1 Histria Antiga e Arqueologia Clssica: um dilogo necessrio

  • 11

    Ao longo do sculo XIX, a predominante escola metdica, influenciada pelas ideias de

    Ranke acerca da importncia do fato, da neutralidade e da Histria Poltica, ignorou a maior

    parte das fontes consideradas como testemunhos involuntrios, possibilitadoras de uma

    Histria Cultural. Nessa perspectiva, documentos oficiais (cartas, decretos, manuscritos),

    produzidos pelas elites que estavam no poder, foram tomados como os nicos realmente

    vlidos para uma produo historiogrfica consistente. O papel da Arqueologia nos estudos do

    mundo antigo, nesse contexto do dilogo entre a escola metdica com os estudos clssicos, foi

    a de uma disciplina auxiliar da Histria; logo, no era produtora do conhecimento histrico,

    mas sim interpretada como uma ferramenta.

    A partir de 1920, crticas fundamentais para uma mudana na conscincia da

    epistemologia histrica foram realizadas. Trata-se principalmente das ideias da Escola dos

    Annales, em que se destacaram nomes como Lucien Febvre e Marc Bloch, contrrios a essa

    concepo de Histria da escola metdica. Os Annales criticaram fortemente o privilgio

    dado aos acontecimentos, aos fatos polticos e a recusa de arriscar uma interpretao das

    fontes. Essa ampliao no modo de se pensar a operao historiogrfica aberta pelos Annales

    trouxe a busca por outros documentos e outras formas mais subjetivas de Histria, que

    fugissem quela histria poltica tradicional dos metdicos. Assim, buscava-se uma Histria

    econmica, social e/ou cultural; as fontes arqueolgicas, dentre outras, ganham importncia

    ao longo do sculo XX, principalmente com a emergncia da Nova Histria Cultural e da

    nova histria social inglesa.

    Quanto s origens da Arqueologia Clssica, encontram-se no Renascimento, com a

    coleta de obras de arte gregas e romanas. De acordo com Carlan (2007), essa disciplina estava,

    no incio, muito associada Histria da Arte; posteriormente, a rea se consolidou por meio

    de estudos tipolgicos, inspirados em modelos filolgicos. Se por muito tempo a Arqueologia

    Clssica foi considerada uma rea conservadora e legitimadora de discursos de dominao

    racial, nas ltimas dcadas, como argumenta Carlan, ela tem sido pautada em uma srie de

    questes e problemticas sobre o mundo antigo, repensando seu papel social e dialogando

    com as teorias ps-modernas. Esta tomada de conscincia dialoga justamente com novas

    concepes e preocupaes dos estudos clssicos e dos historiadores antigos que buscam

    desconstruir os discursos tradicionais da Antiguidade Clssica, pautados por muito tempo nos

    documentos oficiais e ignorando uma sorte de documentaes involuntrias e de origens

    populares.

  • 12

    preciso entender de que modo a pesquisa se utiliza desse dilogo interdisciplinar

    entre Arqueologia Clssica e Histria. No devemos considerar a Arqueologia como uma

    mera ferramenta auxiliar da Histria; na realidade, trata-se de um campo cientfico prprio,

    com sua prpria metodologia e histrico, mas com a habilidade de um proveitoso dilogo

    interdisciplinar com a historiografia:

    A dificuldade de estabelecer um dilogo entre Arqueologia e Histria, embora tenha

    suas particularidades no territrio nacional, no uma exclusividade dos estudos

    clssicos no Brasil. Ray Laurence (2005), em um recente estudo, afirma que na Gr-

    Bretanha as pesquisas nestes dois campos correm quase em paralelo e nem sempre

    os profissionais concordam com o dilogo, procurando reafirmar a separao entre

    ambas as disciplinas. Neste contexto, possvel afirmar que a separao entre as

    disciplinas mais uma postura terico-metodolgica que uma dificuldade de acesso

    s fontes, pois implica em discutir a percepo de Histria e Arqueologia na qual o

    classicista formado e, tambm, na sua postura diante da possibilidade ou no de

    concretizar este dilogo. (GARRAFFONI & FUNARI, 2010, p. 11)

    Nessa pesquisa, concorda-se e se incentiva o dilogo entre Histria e Arqueologia para

    a compreenso de conceitos e processos histricos. A arqueologia no deve servir para

    reforar alguma tentativa de veracidade sobre o passado, mas sim como um modo de abrir, ao

    historiador, um leque de possibilidades de estudos de caso:

    Num trabalho no qual a arqueologia no cumpre o papel de confirmar os textos, as

    hipteses de desdobrar as questes so maiores, abrindo caminhos para se construir

    o dialogo almejado por tantos estudiosos. A construo das pontes, por mais que

    seja um trabalho rduo, abre, por um lado, espao para novas abordagens,

    expandindo as noes sobre a sociedade romana como um todo e das camadas

    populares em especfico e, por outro, propicia uma anlise sistemtica dos mtodos

    de cada disciplina, explicitando as relaes de poder inerentes a elas.

    (GARRAFFONI, 2008, p. 177)

    Por meio do dilogo com os trabalhos arqueolgicos, o historiador pode atingir as

    camadas populares de sociedades, e aproximar-se das suas realidades mais cotidianas. As

    fontes arqueolgicas so uma alternativa s tidas como oficiais/estatais, que retratam a

  • 13

    viso dos grupos dominantes sobre os grupos populares, ou mesmo s literrias, que tambm

    so repletas de julgamentos morais e satricos. claro que, pela anlise dessas outras fontes,

    tambm podemos desconstruir e problematizar as vises construdas ao longo da

    historiografia; tudo depende do modelo e do olhar que utilizamos para interpret-las.

    Assim como a Histria, a Arqueologia Clssica tambm se trata com um discurso

    subjetivo, e que pode variar de acordo com a inteno e a metodologia de cada pesquisador,

    ou dos interesses polticos de grupos dominantes. Os trabalhos dessas reas tratam-se,

    portanto, de modelos interpretativos construdos sobre o passado:

    O que temos em vista desvendar o campo de possibilidades e, no, as relaes de

    determinao. O importante ter em mente que a construo do fato histrico e o

    trabalho com ele devem se dar de forma a dele extrair os mais diversos sentidos.

    Sem dvida, neste processo de construo est embutido um dilogo entre o

    historiador e o conjunto de valores da poca que objeto de estudo. (CARLAN,

    2007, p. 56)

    Por isso, importante pontuar as relaes entre a Arqueologia Clssica e a construo

    de discursos histricos sobre o mundo romano antigo, a fim de concluir qual o

    posicionamento da pesquisa ao produzir esse dilogo entre Histria e Arqueologia. A

    Arqueologia Clssica, ao longo dos sculos XIX e XX, esteve fortemente vinculada aos

    interesses de legitimaes imperialistas, como afirma Hingley (1996). Com o declnio do

    Imprio Britnico, os estudos clssicos sobre a Antiguidade romana foram atualizados,

    destacando o papel da elite local/nativa nos processos de recepo cultural da dominao

    romana.

    Mas no se pode negar que os Estudos Clssicos tm consigo o estigma de

    conservadorismo, por terem sustentado, na modernidade, discursos de poder violentos,

    opressivos e repletos de concepes moralizantes e racistas sobre as camadas populares.,

    como o imperialista e o fascista. Essa conexo ideolgica que existiu deve no s ser

    assumida pelos historiadores atuais como tambm superada, bem como seus resqucios

    metodolgicos e empricos. Devemos ampliar teoricamente a viso sobre a sociedade romana,

    e questionar o dado considerado concreto de quem so os romanos, e o que romano, dando

    margem a muitas possibilidades de estudo e pesquisa sobre a sociedade romana antiga. Nesse

    objetivo, o dilogo entre Arqueologia Clssica e Histria Antiga se faz fundamental:

  • 14

    [] acreditamos ser fundamental destacar que os trabalhos de Hingley, assim como

    de outros estudiosos ps-coloniais, apresentam a possibilidade da construo de

    uma postura crtica, baseada na interdisciplinaridade e na exposio dos avanos e

    limites das abordagens constitudas. Essa metodologia permite aos estudiosos uma

    reflexo crtica sobre a relao entre seu presente e o passado a ser interpretado,

    refresca as possibilidades de entendimento do mundo romano, to marcado pela

    homogeneidade e interpretaes normativas, e deixa aberto alguns caminhos para

    novas pesquisas sobre os marginalizados e os conflitos, praticamente esquecidos

    pelas perspectivas mais tradicionais de conhecimento. [] Assim, um dilogo

    profcuo [da Arqueologia] com a Histria fundamental no s para rever conceitos

    e desafiar as meta-narrativas, mas tambm para pensar outras formas de

    sensibilidades e de vises de mundo. (FUNARI & GARRAFFONI, 2010, pp. 13-14)

    Ou seja, os estudos ps-coloniais foram e so fundamentais para a construo de

    modelos interpretativos que descentrem o olhar do historiador dos discursos produzidos pelas

    elites. Esse olhar descentrado o que nos permite atingir camadas mais populares da

    sociedade antiga, dando voz a estes sujeitos na produo historiogrfica. A Arquelogia

    Clssica, ao dialogar com a Histria Antiga, apresenta, ao historiador, novas possibilidades de

    anlise para uma histria cultural e social da Antiguidade romana que desconstrua, repense e

    discuta as noes e conceitos criados pelos discursos da histria poltica tradicional. A seguir,

    discorrerei sobre de que foma os conceitos presentes na monografia sero repensados na

    abordagem efetuada.

    2.2 Repensando os conceitos de famlia e infncia na Roma Antiga

    Como citado, as camadas populares e as elites organizadoras dos jogos anfiteatrais

    sero analisados, no presente trabalho, com base na construo de memria pstuma em torno

    das suas relaes familiares. Para se produzir historiografia sobre famlia, em qualquer

    perodo histrico, necessrio termos em mente que o conceito de famlia se trata de uma

    construo social, variando de acordo com o espao e o tempo; relaes familiares no podem,

    portanto, ser interpretadas como estruturas fechadas e anacrnicas, ou julgadas do ponto de

    vista moral de nossa sociedade presente. Assim, ao trabalharmos com estruturas familiares no

  • 15

    mundo romano antigo por meio das fontes, preciso tomar o cuidado de evitar anacronismos,

    e tambm de entender que vivncias familiares so dinmicas. equivocado generalizar ou

    pretender reproduzir o que era viver em famlia no mundo romano antigo, mas possvel

    tentar compreender a diversidade lgica das etapas e estruturas da vida familiar, como

    estgios de idade (infncia/adolescncia/vida adulta), condies sociais variveis e relaes de

    paternidade, maternidade, matrimoniais, entre outras.

    Atualmente, vivemos uma concepo da famlia, e do que viver em famlia

    pensando em categorias como paternidade, maternidade e infncia , que comeou a se

    esboar sobretudo na Europa do sculo XIX, como demonstra Philippe Aris (1960) em

    Histria Social da Criana e da Famlia. Inspirando-se em Aris, pode-se afirmar que, ao se

    estudar a famlia romana antiga, estamos analisando uma conjuntura cultural distinta da nossa

    no apenas temporalmente; ou seja, o historiador da famlia, no geral, deve estar atento para

    as particularidades e singularidades do momento histrico a que se debrua, e compreender

    que a famlia como conhecemos uma construo cultural dos ltimos sculos.

    Porm, essa anlise de Aris enxerga a famlia romana antiga apenas pelo prisma da

    violncia, da indiferena, da violncia e do abuso, principalmente s crianas e mulheres. Um

    dos grandes critrios de anlise para tal argumentao construda pelo autor, e que inspirou

    uma gerao de historiadores, foi a alta mortalidade dos indivduos desse perodo, sobretudo

    infantil, e a relativa falta de representao de crianas na arte. Os direitos de violncia

    garantidos culturalmente e juridicamente ao pai, e tambm de abandonar ou vender seus filhos

    recm-nascidos como escravos, tambm fortaleceram esse tipo de discurso na historiografia,

    no qual a criana e as mulheres eram tidas como um pequeno adulto (e inferiores) por seus

    familiares.

    claro que, por aquela sociedade possuir uma lgica familiar distinta da nossa, no

    estamos lidando com o sentimento de infncia e de maternidade/paternidade que foi

    construdo aps a modernidade e que vivenciamos no presente. Mas, como ser demonstrado,

    havia ali relaes, sentimentos e o descaso estava longe de ser um fator definidor, ou a

    principal caracterstica; mesmo em relao ao direito do pater familias sobre a vida e a morte

    de sua prole, por exemplo, era necessrio que o grupo familiar concordasse com seu ato para

    que ele fosse legtimo, o que demonstra a importncia da famlia e no a reduz s mos de um

    homem apenas.

  • 16

    Para desconstruir essa viso do descaso e da violncia como sendo o marco da famlia

    na Antiguidade, destaco como referncia os historiadores Mary Harlow e Ray Laurence

    (2010), cujo conceito de ciclo da vida importante para a compreenso da estrutura familiar

    romana. Isto se explica pelo fato de que o conceito de ciclo da vida procura abordar os

    estgios da vida dos cidados romanos, de seu nascimento at sua morte, e permite uma

    viso menos generalizante do que a de Aris sobre a vida romana em famlia. Por exemplo:

    enquanto para Aris a infncia no era um estgio da vida naquela sociedade (as crianas j

    podiam, de certo modo, serem compreendidas como pequenos adultos), para Harlow e

    Laurence a infncia, ao contrrio, era um estgio do ciclo da vida separado da vida adulta; isto

    evidenciado pelo estudo de fontes epigrficas e construtivas de memria de pais para filhos,

    onde se inserem as lpides que a pesquisa contempla.

    Esta perspectiva, influncia no campo de estudos de famlia e ciclo da vida da

    Antiguidade romana, assume que a infncia no era uma etapa indiferente, invisvel ou

    inexistente na vida familiar romana, pois evidencia cdigos e regras prprios para esta fase na

    vida dos cidados, sejam elas comportamentais, rituais, pessoais ou emocionais. A infncia

    durava para os romanos do seu nascimento at prximo de sua puberdade (cerca de 12 anos

    para meninas e 14 para meninos), mas Harlow e Laurence ressaltam que esse critrio era

    muito mais uma construo social de costume do que um fator biolgico. Disso, pode-se

    concluir, ainda sob essa perspectiva, que havia sim uma percepo do que ser criana na

    Roma Antiga; um claro momento divisrio no crescimento dos indivduos que o distingue de

    estgios de vida posteriores. Se h tamanha preocupao dos pais em relao s expectativas

    de gnero e de idade de seus filhos e filhas enquanto crianas, evidentemente elas no podem

    ser vistas como um objeto de descaso at que crescessem.

    Ter em mente essa concepo de infncia na Antiguidade romana e afirmar que as

    crianas faziam sim parte da vida em famlia importante para repensarmos as relaes

    familiares, paternais e maternais, principalmente do ponto de vista da existncia dos

    sentimentos afetivos, como prope discutir esse trabalho monogrfico. Sobre a importncia

    das crianas e dos filhos nas famlias, os autores concluem:

    Crianas eram desejadas pelas famlias romanas e, quando nascidas e aceitas,

    cresciam com cuidado e ateno. A dificuldade das interpretaes modernas o

    contexto cultural e social em que as crianas nasciam, e as expectativas sociais

    assumidas por elas. A cruz do debate da indiferena mentiu em duas afirmaes

  • 17

    [a primeira] que crianas nascidas em tempos de alta mortalidade infantil no

    recebiam investimento emocional de seus pais; [a segunda] que a sociedade s

    valorizava as crianas quando essas atingissem a vida adulta. (HARLOW &

    LAURENCE, 2010, p.52)1

    No podemos, ento, lidar apenas com as percepes e estatsticas econmicas ou

    demogrficas para discutir relaes familiares na Antiguidade romana, tampouco concluir que

    o afeto era algo inexistente; a desconstruo da ideia de indiferena e violncia precisa ser

    realizada, pois enxerga essa sociedade de maneira muito esttica.

    No discurso que reduz a famlia romana violncia ou opresso, evidentemente a

    mulher tambm acaba sendo apagada, pois interpretada do ponto de vista de submisso e

    procriao. Nesta lgica, uma criana do sexo feminino cresceria at a idade do casamento

    (12 anos) como se esta fosse apenas sua funo, desprovida da sentimentalidade ou de outras

    preocupaes dos pais; novamente, predomina uma viso econmica sobre famlias na

    Antiguidade; o casamento visto meramente como uma estratgia.

    Esta outra generalizao que a pesquisa desconstri ao pensarmos essas expectativas

    de gnero com base no conceito de ciclo da vida. Se as fontes jurdicas nos do a impresso

    sobre a opresso s mulheres, a sensibilidade e a sentimentalidade em torno das mulheres na

    vida em famlia (sejam elas filhas, mes ou esposas) se fazem presentes nas memrias

    construdas pelas prprias e por seus familiares, o que nos permite repensar a agncia

    feminina nessa sociedade.

    No correto ignorar e tampouco reduzir as ms condies jurdicas s mulheres e

    crianas nesse perodo; mas podemos realizar abordagens para alm dessas fontes tradicionais,

    pois elas no podem determinar e significar a vida cotidiana desses indivduos, e nem definem

    o que eram as relaes familiares, pois estas eram dotadas tambm de sentimentos, paixes e

    afetos. importante considerarmos que as fontes jurdicas e oficiais foram escritas por

    homens adultos, pertencentes a uma camada da elite; logo, trazem-nos a viso de um grupo

    dominante sobre esses sujeitos sociais, pois sempre um homem (de posio autoritria e

    privilegiada) escrevendo sobre mulheres e sobre crianas. Acreditar que, por modelos

    1 Children were desired by Roman families and once born and accepted were raised with care and attention.

    The difficulty for modern interpreters is the cultural/social context into which children were born and the

    social expectations assumed of them. The crux of the indifference debate lies in two assumptions that

    children born in a time of high infant mortality were not invested in emotionally by their parents and that a

    society which practised exposure had little time for young children and only valued them once they had

    achieved childhood. Ressalto que, daqui a diante, todas as tradues so de minha autoria.

  • 18

    jurdicos impostos, todas as mulheres eram meros objetos de procriao na sociedade uma

    generalizao que comete o grave erro de silenci-las na historiografia. Se buscarmos fontes

    que deem voz a mulheres e crianas, conseguimos compreend-las na vida em famlia com

    um outro olhar.

    A despeito da autoridade social do pater famlias e da necessidade de arranjos

    matrimoniais como ascenso social, registros histricos demonstram cargas de afeto e

    sentimento entre maridos e esposas, como no exemplo do elogio fnebre Tria:

    Um elogio fnebre a uma senhora, datada do ano 2 a.C., demonstra quais os pontos

    destacados em uma boa rainha do lar: "Suas qualidades domsticas, virtude,

    docilidade, gentileza, bom carter, dedicao ao tric, piedade sem superstio,

    discrio nas roupas e na maquiagem, por que relembr-las? Por que falar do seu

    carinho e devoo aos familiares, j que voc tratava to bem meus pais quanto os

    seus.." (Elogio fnebre a Tria, 5-25). (FUNARI, 1994)

    Ainda que este elogio esteja focado nas qualidades domsticas de Tria e deva ser

    problematizado nesse aspecto (claramente uma viso masculina sobre a mulher), a

    importncia desse trecho que demonstra uma alternativa aos discursos dominantes sobre a

    opresso absoluta nas relaes matrimoniais e parentais, visto que h, na construo de uma

    memria afetiva sobre a cnjuge, um discurso de carinho e admirao.

    Discorrendo sobre a estrutura familiar romana, preciso entender que a compreenso

    lgica dessa estrutura, no perodo, no era a do mesmo modelo nuclear que vivemos.

    Pensando de modo mais amplo, o conceito de famlia na Antiguidade Romana baseava-se na

    ideia de famlia estendida, ou seja, a famlia era compreendida como uma grande casa, na

    qual todos os parentes possuam seu papel:

    A sociedade romana estruturava-se em torno da famlia, termo que compreendia no

    apenas pai, me e filhos, mas inclua os escravos, a casa, os animais e todos os bens

    sob o controle do chefe da famlia: o pai. Todo o parentesco estruturava-se na

    oposio entre pai e me e seus parentes. Os parentes do pai, que definia a

    identidade dos filhos e estabelecia os vnculos de hierarquia, nome, culto, residncia,

    eram severos. Os tios e avs paternos eram distantes e exigentes. Os parentes do

    lado materno, sem vinculaes institucionais j que as crianas no herdavam bens,

  • 19

    nome, culto e residncia da me, estabeleciam relaes muito mais ternas com seus

    afilhados, netos e sobrinhos. (Funari, 1994)

    Havia duas principais formas de parentesco na famlia romana: o direto (linha reta, ou

    seja, ascendente e descendente) ou colateral (em graus). Tambm o chamado parentesco de

    afinidade, que ligava o cnjuge aos parentes de seu par. Segundo Leda de Pinho (2002), as

    relaes familiares no eram somente hierrquicas por uma disposio jurdica; estavam

    permeadas por uma forte conotao religiosa, baseada na importncia de uma descendncia

    slida e garantida. Era essencial para qualquer famlia que houvesse uma descendncia capaz

    de se manter socialmente, o que pode nos ajudar a compreender, para alm de um mero ato de

    violncia ou de situao econmica, o abandono de filhos incapazes, estreis ou infrteis,

    assim como o incentivo em um sistema de adoes para se ter mais filhos, ato comum na

    Antiguidade romana.

    Outro ponto de destaque para se repensar as relaes familiares desse perodo histrico,

    de forma a no retrat-las de forma esttica e homognea, prestar ateno para as

    disparidades econmicas, regionais e sociais. As condies sociais faziam com que a vida em

    famlia diferisse entre pobres e ricos/plebeus e patrcios, ento, ao lidar com fontes desse tema,

    temos que levar em considerao a condio social dos sujeitos para saber de que tipo de

    vivncia familiar ou de relao matrimonial estamos lidando:

    A grande maioria dos romanos constitua famlias informais e vivia na pobreza. As

    habitaes familiares dessa massa no eram confortveis. Alm disso, havia muitas

    diferenas entre os habitantes de diferentes cidades e regies. Roma, uma cidade

    imensa e bem dotada de servios pblicos como banhos, padarias, lojas de todo tipo,

    servios mdicos, gua encanada, esgoto e iluminao noturna era, certamente, uma

    exceo. Mesmo ali, os pobres viviam em apartamentos pequenos, em grandes

    edifcios com at seis andares de altura, correndo riscos que iam do desabamento ao

    incndio. Em cidades menores, havia menos riscos mas, tambm, menos riqueza e,

    portanto, menor rede de servios pblicos. A vida dos pobres no campo era bem

    mais ingrata. [] Uma minoria [da sociedade], contudo, vivia em casas amplas e

    confortveis. Estas so as que melhor conhecemos, j que as habitaes dos pobres,

    muito menos ricas, deixaram menos vestgios arqueolgicos e, tambm, sempre

    despertaram menos ateno dos estudiosos modernos. (FUNARI, 1994)

  • 20

    Ou seja, o fator econmico e social da poca interfere diretamente na produo

    historiogrfica sobre a famlia romana antiga. provvel que famlias mais humildes tivessem

    sim, em muitos casos, a necessidade de vender filhos ou diminuir sua prole, o que explique e

    justifique esse sistema; contudo, essa concluso no pode ser uma generalizao de descaso

    ou desafeto, pois a memria pstuma de escravos (gladiadores e vilicus, por exemplo) faz

    meno a filhos e filhas com a mesma importncia que em memrias construdas por

    membros da elite.

    Esse panorama de ideias apontou maneiras de repensarmos historiograficamente as

    relaes familiares na Antiguidade romana, dando destaque para os pontos mais relevantes de

    desconstruo para essa monografia: a ideia de violncia/opresso, as questes de gnero e o

    debate da indiferena. Relaes familiares na Histria Antiga so um tema ainda pouco

    estudado, principalmente no Brasil; necessrio avanarmos nesse tema, para evidenciar a

    importncia do dilogo da Arqueologia Clssica com a Histria Antiga para a produo de

    modos mais plurais de se estudar questes sociais do perodo, e propor, assim, novos modelos

    interpretativos, na busca do estudo da vida cotidiana e prtica daqueles agentes, cada vez mais

    valorizando a subjetividade histrica e evitando modelos que generalizam e reduzem a

    vivncia familiar romana.

    Foi argumentado, nesse tpico, que as diferenas econmicas e sociais devem fazer

    parte da anlise sobre a vivncia em famlia na Antiguidade romana. As relaes familiares e

    matrimoniais das elites podem, por exemplo, diferir das de camadas menos favorecidas da

    sociedade, como escravos. Portanto, pensar famlia nesse perodo histrico no pode estar

    dissociado dos indivduos que compe esse grupo familiar; nesse sentido, faz-se necessrio

    discutirmos os conceitos de escravido e liberdade na Roma Antiga.

    2.3 O conceito de escravido na Roma Antiga: repensando os modelos econmicos

    Os personagens envolvidos nos jogos anfiteatrais e que esto citados nos epitfios so,

    em sua maioria, libertos e escravos. Disto, surge a necessidade de analisar

    historiograficamente conceitos como cidadania, escravido e liberdade na sociedade romana

    antiga, para assim discutir como estas posies sociais, que so conceitos construdos por uma

    sociedade e interpretados pelos historiadores, j foram abordados e estudados pela produo

  • 21

    historiogrfica, e de que modo a pesquisa, com o estudo das fontes, pode repensar e inovar

    essas concepes.

    comum que a historiografia aborde o tema da escravido com base nos modelos

    marxistas ou weberianos; apesar da importncia e da contribuio desses modelos para as

    relaes de escravido e liberdade na Antiguidade, h a necessidade de um maior dilogo com

    as subjetividades desses agentes histricos, para que a escravido no seja compreendida

    como um conceito homogneo e possa ser entendida a partir da memria construda pelos

    prprios indivduos e suas relaes interpessoais, e no somente pelas relaes econmicas

    em que estavam inseridos.

    A concepo jurdica de escravido e liberdade norteou muitos estudos sobre o

    escravo na antiguidade. Yvon Thbert (1992), arquelogo francs de tradio marxista,

    aborda o conceito de escravido antiga muito vinculado apenas a uma noo pautada na

    coisificao destes sujeitos, da qual deriva a denncia da violncia e da opresso que eles

    sofriam. Ou seja, a argumentao do autor nos leva a concluir que, na maior parte dos casos,

    os escravos no passavam, na sociedade romana, de propriedades objetificadas de seus donos,

    como uma espcie de ferramentas que auxiliavam nas tarefas necessrias. Embora o autor

    pontue que, em determinados momentos da Histria Antiga, como no Principado (justamente

    a poca na qual as fontes da pesquisa se remetem), os escravos tenham possudo uma maior

    chance de liberdade e de privilgios, a argumentao exposta por Thbert no valoriza como

    deveria, sob meu ponto de vista, a agncia histrica do escravo na Antiguidade, limitando-os a

    oprimidos.

    O problema no consiste em denunciar a violncia em torno da escravido que de fato

    existia, j que o pater familias poderia escolher a vida ou a morte do seu escravo; o problema

    consiste em, analisando a escravido apenas por esse vis, silenciar os escravos como

    propriedades e ignorar uma diversidade de fontes que podem indicar outras abordagens. O

    conceito de escravido, em Thbert, colocado sob uma viso apenas mercadolgica, ou seja,

    analisado sob uma preocupao estritamente econmica, tirando-lhe sua subjetividade e

    reduzindo a escravido noo ou ao esteretipo de que os escravos eram todos submetidos

    mesma condio e tipo de vida em sociedade.

    Isso pode ser percebido j pela preocupao do autor de tentar definir o que o

    escravo, como se todos fossem iguais, pelo ttulo do captulo; como podemos generalizar em

    uma sociedade to diversa o que ser um escravo? No busco negar na pesquisa,

  • 22

    evidentemente, a violncia e a opresso que os escravos sofriam; porm, os epitfios

    demonstram que escravos possuam famlias, sentimentos e buscavam a construo de uma

    memria. As anlises do arquelogo marxista Thbert avanaram e inovaram no sentido de

    incluir o escravo, indivduo de situao social marginalizada, na Histria; um grande mrito

    do marxismo em relao ao estudo das camadas populares antigas. Mas faltou compreend-

    los mais subjetivamente, em suas inseres e relaes culturais. Mais do que apenas coisas

    ou propriedades, tambm foram agentes sociais e possuam relaes distintas em seus

    espaos de sociabilidade, podendo ser estudados por abordagens no apenas econmicas.

    Sobre o conceito de liberto, Jean Andreau (1992) destaca alguns aspectos interessantes

    sobre a maior possibilidade de liberdade que ocorreu a partir do Principado, no qual os

    escravos tinham mais condies de atingir a liberdade. Esta liberdade, porm, no garantia ao

    liberto o direito de cidadania; ao contrrio de seus filhos e filhas, os ingenui, considerados

    livres por nascimento. Essa disposio da liberdade e cidadania da descendncia dos libertos

    claramente nos remete anteriormente citada importncia da descendncia para a sociedade

    romana antiga.

    Andreau afirma que os libertos possuam grande ligao com suas origens geogrficas

    e culturais de antes de serem escravizados e deslocados regionalmente, e que, quando em boas

    condies econmicas (o que era raro), buscavam imitar a construo de memrias feitas

    pelas elites, atravs de bustos e lpides, nos quais era costumeiro citarem e exaltarem seus

    locais de origem. Isto vai de encontro com o interesse de anlise de construo de memria da

    pesquisa, j que os escravos e libertos (ou seus parentes) costumam citar, em alguns epitfios,

    sua origem social como um elemento de destaque.

    Contudo, Andreau ainda associa muito o conceito de liberto com o de o fardo de um

    ex-escravo ou um servo, o que tambm lhe confere uma diminuio na sua agncia social e

    histrica, como se o liberto continuasse um servo e nunca se livrasse da imagem de escravo:

    [O liberto] no tem a coerncia do aristocrata, seguro da sua superioridade e

    protegido por valores que o fortificam, ainda que no os ponha em prtica na vida

    cotidiana. No tem a simplicidade rstica do verdadeiro campons indgena, nem a

    irreverncia bem controlada do escravo domstico. O liberto encontra-se na

    encruzilhada de vrias foras divergentes ou mesmo opostas. Por um lado, foi

    escravo, coisa que nem ele nem os outros podem esquecer. Por outro, o seu estatuto

    de liberto parcialmente contraditrio, porque a libertao confere-lhe a mesma

  • 23

    cidadania do seu patrono, mas sujeita-o a uma srie de obrigaes e de costumes que

    o separam dos ingnuos. (ANDREAU, 1992)

    Esse argumento, a meu ver, deve ser problematizado e discutido. Mesmo que existisse

    o preconceito contra libertos e ingnuos, estes procuram, nos epitfios, exaltar sua conquista

    de liberdade a todo custo, o que indica um orgulho da condio como um acontecimento

    importante em suas vidas, denotando um marco social importante e que lhes diferencia do

    passado em que eram sujeitos escravido. Tambm no pode ser ignorado o fato de que o

    status na sociedade romana antiga era muito mais flexvel do que determinado:

    Na prtica, status [a condio jurdica] era fluda. Uma pessoa podia vivenciar vrias

    mudanas de status ao longo da vida. Um cidado romano poderia (por ser

    capturado em uma guerra, por exemplo) cair na escravido. (TREGGIARI, 1996, p.

    875)2

    Uma abordagem sobre escravido e liberdade no mundo antigo que dialoga mais e

    contraste menos com o posicionamento adotado pela presente pesquisa monogrfica o de

    Geza Alfldy3. O historiador, que interpreta a sociedade romana no como dividida entre

    classes pois este seria um conceito anacrnico de aplicaes marxistas , mas sim entre

    estamentos. O arquelogo procura privilegiar a agncia social dos escravos e as suas diversas

    possibilidades de vida, de liberdade e de ascenso, que podia ocorrer at mesmo por

    casamentos, o que demonstra uma dinmica cultural bem maior do que a abordada pelos

    outros dois autores citados. Alfldy pontua, por exemplo, no apenas o maior direito de

    liberdade no incio do Principado, j considerado por Andreau; mas tambm do maior direito

    de conquistas de cidadania, o que demonstra que a escravido ou a conquista de liberdade no

    podem ser compreendidas como algo homogneo em nenhum tempo histrico.

    Oprimidos ou no, os libertos tambm ampliaram seus direitos de conquistar a

    cidadania e de ascender socialmente. Sobre a dinmica cultural dos libertos, no Principado

    aumenta o nmero de libertos ricos (perodo de intensa ascenso econmica deste grupo

    social), assim como de escravos urbanos. A compreenso desse enriquecimento fundamental

    2 In practice, status was fluid. A person might experience several changes of status in a lifetime. A

    Roman citizen might (through being captured in a war for example) fall into slavery.

    3 ALFOLDY, Geza. A Histria Social de Roma. Lisboa: Presena, 1989.

  • 24

    para a pesquisa, visto que o custeamento de uma lpide era relativamente caro, o que nos faz

    pensar que os libertos citados nos epitfios faziam parte desse estamento, bem como dos

    ingenui. A anlise de Alfldy , portanto, uma anlise econmica e social guiada por uma

    viso mais detalhada e plural da escravido, na qual o escravo no estudado como uma

    coisa social apenas vtima da propriedade de algum.

    O escravo e o liberto devem ser enxergados, para alm de suas dificuldades jurdicas e

    sociais, como agentes histricos que faziam uso de suas possibilidades para resistncia e

    ascenso, mesmo em condies limitadas e opressoras; isso nos faz enxerg-los como dotados

    de uma agncia social no processo histrico. Ao contrrio do que argumenta Andreau, a

    liberdade compreendida por Alfldy como um direito buscado e conquistado, no sendo o

    liberto necessariamente para sempre associado escravido ou servido, visto que o autor

    evidencia que muitos enriqueceram e prosperaram na sociedade romana antiga.

    Por fim, uma das obras mais clssicas sobre a escravido no mundo antigo consiste no

    livro Escravido Antiga e Ideologia Moderna, de Moses Finley (1980). Finley pretende

    elencar cinco grandes formas de escravido: a grega e a romana antigas, relacionando-as s

    trs grandes formas de escravido modernas (EUA, Brasil e o Caribe). O autor chama a

    ateno para a separao de duas grandes motivaes para o estudo da escravido: uma viso

    moralista e espiritualizada com o intuito de fortemente recrimin-la e denunci-la, viso esta

    dominante na academia do sculo XIX e condenada pelo historiador por ser insuficiente.

    Em contraposio, Finley apresenta outra viso, a chamada por ele de sociolgica, que

    visava compreender o fenmeno da escravido enquanto um processo social e econmico

    ineficiente para a produo. Para o historiador, em sua obra, ambos os modelos de se pensar a

    escravido so ineficazes, e ele sugere como alternativa a busca das razes da escravido, que

    estariam nas sociedades greco-romanas antigas; disto viria a importncia de se refletir sobre a

    escravido antiga: para ele, as bases das sociedades escravistas moderna estariam nela. Finley

    coloca o escravo, desde a Antiguidade como uma propriedade:

    [o escravo] sofria no s uma perda total de seu trabalho, mas tambm do controle

    sobre sua personalidade. (FINLEY, 1991, p.77)

    Isto posto, podemos compreender a nfase de Finley na aplicao de um olhar

    historiogrfico para o indivduo escravo pautado sobretudo em sua condio jurdica de

    propriedade; os escravos foram interpretados pelo autor, nas sociedades clssicas, como a

  • 25

    pea em um jogo: uma mo-de-obra a qual homens livres no se submeteriam. Essa

    interpretao, embora avance para uma reflexo sobre a importncia do estudo da escravido

    antiga, omitia outras possibilidades de estudos dos escravos na historiografia, ao consider-los

    apenas uma pea de trabalho da engrenagem econmica de uma sociedade.

    Com base nesse balano efetuado, analisamos e discutimos questes de concepes

    sobre a escravido e a liberdade na Antiguidade, concluindo que a escravido no pode ser

    um conceito homogneo. A compreenso dessa discusso historiogrfica apresentada e de que

    modo os escravos e libertos personagens majoritrios presentes nos epitfios das lpides de

    regies anfiteatrais contempladas pela pesquisa foram retratados pelos historiadores,

    permite um posicionamento da pesquisa diante dessa discusso, oferecendo uma nova

    possibilidade de anlise que no se paute apenas em aspectos econmicos para retrat-los

    enquanto agentes histricos, mas tambm na construo da memria e de relaes

    interpessoais. Alm disso, no buscamos aqui definir o que era ser escravo ou liberto, mas

    sim valorizar, mesmo que eles fossem oprimidos e em condies jurdicas inferiores a

    cidados, suas sociabilidades, vivncias e agncias, que no podem ser ignoradas pela

    historiografia.

    Foram discutidas as interpretaes sobre relaes familiares e condies sociais com

    base em anlises literrias e legislativas, bem como a necessidade de repensarmos o que j foi

    produzido sobre o tema para construir novas abordagens. Essa monografia, como apresentar

    o prximo captulo, visa deslocar essas abordagens para uma pautada na anlise de vivncias

    familiares e de escravido/liberdade com base na construo de memrias e sentimentos nos

    epitfios de lpides romanas antigas de regies anfiteatrais.

  • 26

    3. A epigrafia na construo de modelos interpretativos

    No captulo anterior, ressaltei a importncia do dilogo entre Arqueologia e Histria para

    uma abordagem historiogrfica mais dinmica e que alcance mais as camadas populares, sendo,

    portanto, uma alternativa histria poltica tradicional sobre a Antiguidade. Neste segundo captulo,

    discorrerei sobre de que maneira, no interior desse dilogo exposto, o estudo de fontes epigrficas

    colabora para a construo de um modelo interpretativo para o aqui proposto estudo de memrias,

    relaes familiares e escravido no mundo romano antigo.

    Entende-se como epigrafia as inscries deixadas por sociedades do passado grafadas em

    materiais slidos, como pedras e cermica, por exemplo. No caso da Roma Antiga, as fontes

    epigrficas se destacam, sobretudo, pela prtica comum daquela sociedade de realizar inscries

    paretais, os chamados grafites. Para alm dos grafites, outro campo de estudo no qual se insere o

    presente trabalho tambm tem relevncia: a epigrafia funerria, da qual fazem parte como fonte

    os tmulos e as lpides erguidas como dedicaes ps-morte a parentes e/ou entes queridos. Essa

    monografia possuiu como fontes um conjunto de lpides romanas antigas presentes em regies

    anfiteatrais, feitas em pedra e escritas em latim. O recorte de fontes da presente pesquisa compe-se

    em 21 lpides, que tem como datao os sculos I-III d.C, ou seja, pertencem ao perodo poltico do

    Principado.

    As lpides esto presentes na coleo italiana Epigrafia Anfiteatrale dell'Ocidente Romano,

    que divide-se em cinco volumes. No catlogo, encontram-se tanto as lpides transcritas em latim

    com um comentrio analtico em italiano quanto registros fotogrficos das mesmas. Essa coleo

    foi iniciada em 1988, com o trabalho de Patrizia Sabbatini Tumolesi, tendo a pretenso de reunir

    toda a epigrafia possvel referente a gladiadores e espetculos anfiteatrais; trata-se, portanto, da

    catalogao dessas fontes, aliado a uma anlise das mesmas, facilitando e possibilitando assim

    estudos mais aprofundados e especficos em torno delas.

    3.1 As fontes epigrficas e sua relao com a historiografia

    Voltando a refletir acerca das fontes epigrficas, fundamental ressaltar de que modo elas

    nos auxiliam na pretendida aproximao com o cotidiano dos indivduos histricos, demonstrando

    representaes sobre grupos sociais para alm de suas imagens repletas de cargas morais que foram

    usualmente construdas por elites dominantes:

    A opo por estudar diferentes tipos de inscries (lpides, inscries oficiais e grafites)

    justifica-se pela diversidade de elementos que elas proporcionam para o estudo da relao

  • 27

    entre as pessoas dentro e fora dos anfiteatros. [] a Epigrafia, em geral, tem proporcionado

    uma anlise crtica aos modelos normativos de cultura. (GARRAFFONI, 2004, p. 150)

    Ao estudar a epigrafia estamos, portanto, lidando com uma maneira distinta de

    representao (ou de autorrepresentao) dos membros da sociedade romana antiga, revelando suas

    aes histricas, seus sentimentos, anseios, desejos, relaes interpessoais, emoes e, enfim,

    subjetividades. Como a pesquisa procura demonstrar a relevncia do estudo de fontes epigrficas

    para a historiografia sobre a Roma Antiga, essencial, do ponto de vista terico-metodolgico,

    compreender com que vis a Epigrafia deve ser analisada enquanto fonte histrica.

    Enrique Gozalbes Cravioto (2001) expe um debate sobre duas grandes principais vertentes

    de estudo das lpides latinas da Antiguidade: o estudo demogrfico (iniciado no sculo XIX,

    preocupando-se com aspectos como migraes, natalidade, mortalidade e outras concluses de

    cunho estatstico) e o estudo sociolgico (trabalhos de anlises das fontes com base em estudar

    determinados aspectos e particularidades sociais/cotidianas, como escravos, libertos, elementos

    religiosos e nomenclaturas).

    Tomando como base as anlises sociolgicas dos epitfios indicadas por Gozalbes Cravioto,

    encontramos a valorizao exatamente do que a monografia est propondo: um olhar para

    indivduos da sociedade romana que raramente tm suas particularidades contempladas por uma

    historiografia que lida apenas com fontes oficiais, como as mulheres e as crianas, problematizando

    e analisando suas memrias com o intuito de dar voz a eles naquela sociedade.

    Como as fontes epigrficas lidam com a produo de um registro deixado por determinado

    sujeito histrico, sendo este pertencente a determinado grupo/camada social, o historiador deve se

    atentar ao contexto originrio da fonte com a qual est lidando (Lopez Barja, 2002). Contudo, aqui

    reside um grande perigo: essa aproximao com o cotidiano e a subjetividades de indivduos no

    pode ser interpretada como um retrato fiel da realidade. Sobre isso, Lopez Barja alerta,

    metaforicamente:

    Como toda fonte histrica, a epigrafia no um espelho, mas sim um prisma deformador da

    realidade social que est em sua raiz; ser necessrio conhecer a fundo as lentes ticas que

    sero escolhidas antes de decidirmos utiliz-las. (LOPEZ BARJA, 2002, p 38)4

    No devemos estudar as fontes epigrficas, portanto, buscando uma verso verdica da

    Histria, mas sim uma aproximao com grupos sociais e a produo de suas memrias que estejam

    4 Como toda fuente histrica, la epigrafa no es un espejo sino un prisma deformador de la realidad social que est

    em su raz y ser necesario conocer a fondo las leyes pticas que lo rigen antes de decidirnos a utilizarlo.

  • 28

    deslocadas de fontes oficiais. As chamadas por Lopez Barja de lentes ticas so aqui interpretados

    como os modelos interpretativos com os quais o historiador, em seu presente e com suas respectivas

    problemticas, produz um discurso historiogrfico utilizando-se da interpretao e discusso das

    fontes epigrficas. A fonte epigrfica no deve ser interpretada uma verdade sobre o passado, mas

    sim como uma possibilidade de anlise sobre indivduos e aspectos sociais de seu determinado

    perodo.

    Nesse sentido, em um manual para leitura de fontes epigrficas intitulado Taller de epigrafia

    latina, Fernando Redonet demonstra as variadas possibilidades de anlises das fontes epigrficas ao

    articular os conhecimentos tericos e historiogrficos sobre o mundo romano antigo com o

    contedo e o contexto originrio dessas fontes, como, por exemplo, os sentimentos, o respeito aos

    parentes, o amor de pais pelos filhos, de maridos e esposas e vice-versa. No campo social, as fontes

    epigrficas possibilitam ainda o estudo de aspectos como liberdade, escravido, gnero e relaes

    de trabalho na Roma Antiga, como demonstrarei no prximo captulo.

    3.2 Epigrafia funerria: as lpides e a busca por modelos interpretativos

    Exposta a breve anlise acima sobre a importncia da epigrafia para o estudo da

    historiografia do mundo antigo, partirei para a discusso sobre o tipo de fonte especfico da

    pesquisa: a epigrafia funerria (no caso, as lpides de regies anfiteatrais). Tmulos, lpides e

    placas funerrias denotam a busca da legitimao de uma memria ps-morte para indivduos

    queridos, amados ou admirados pelos financiadores desses registros. A prtica de erguer tmulos e

    lpides era muito mais urbana do que rural no mundo romano antigo, e ainda assim no era uma

    regra, pois, pelo custo, boa parte dos cidados pouco abastados eram enterrados em valas comuns.

    O preo de custeamento de uma lpide era elevado, o que explica, por exemplo, a existncia

    de epitfios curtos para famlias menos abastadas, com uma dedicatria feita em pequenas lpides,

    enquanto as famlias mais ricas ostentavam com tmulos, bustos e outras esculturas simblicas. Ter

    isso em mente foi fundamental para a seleo de lpides como fontes de pesquisa, pois pude, de fato,

    me aproximar mais de camadas populares, mais do que lidando com grandes tmulos, que estariam

    restritos vida em elite e sua maneira de construir a memria familiar. A centralidade de anlise da

    epigrafia funerria est nos epitfios, que contm dedicaes amorosas e enaltecedoras, bem como

    informaes destacadas dos feitos dos indivduos (tanto dos falecidos quanto dos dedicantes dessa

    memria pstuma).

    perceptvel que existia um certo padro na maneira de se construir a maioria dos epitfios

    das lpides, como ser demonstrado em discusses do captulo posterior. Este padro, a meu ver,

  • 29

    pode ser um aspecto social, semelhante ao nosso presente aqui jaz, mas no pode, de modo algum,

    estar dissociado de aspectos financeiros: quanto maior e mais escrita uma lpide conter, certamente

    mais cara foi sua confeco, o que colabora para explicar o fato de lpides possurem uma

    estruturao parecida, como uma espcie de modelos para fabricao, que apresentavam um custo

    tambm padronizado e acessvel.

    E quando encontramos uma lpide mais trabalhada de um indivduo fora da elite que a

    ateno se torna ampliada, por ser uma exceo aos casos mais comuns. Mas o que levava os

    romanos, sobretudo os mais pobres ou em condies inferiores como escravos, por exemplo , a

    buscarem a construo de uma memria para alm da vida para seus familiares? Podemos nos

    deparar com algumas possveis respostas, dependendo do vis de anlise das fontes.

    Meyer (1990) destaca a importncia da denotao de um status por meio das construes

    funerrias, clamando a legitimao de um reconhecimento dos feitos, cargos e posses da famlia ou

    do familiar jazidos, bem como do dedicador e/ou financiador da lpide. Assim, o funeral ou a

    dedicao de uma memria pstuma no era apenas um ato sacro, mas uma legitimao social. A

    autora chama a ateno para o fato de que a construo de uma cerimnia funerria para os entes

    falecidos era um fator preponderante em disputas por heranas, por exemplo. Contudo, embora seja,

    para a historiadora, o motivo central de se erguerem lpides, Meyer ressalta que esta no pode ser

    compreendida como a nica motivao:

    A nfase do status na interpretao dos epitfios no exclui muitas outras possibilidades

    para erguer uma lpide; somente tida [para a autora] como o motivo majoritrio. Outros

    motivos, como a afeio, podem ser facilmente relacionadas [], mas no podem ser

    compreendidas como motivaes principais [...] (MEYER, 1990, p. 83)5

    Para alm dessa centralidade da preocupao com o status social no ato de se erguer uma

    lpide, Saller & Shaw (1984) demonstram que os epitfios presentes em tmulos e lpides da

    Antiguidade romana possuem, de fato, uma grande e preponderante carga de afeio:

    Outro motivo, a afeio, ainda que difcil de mensurar, estava, sem dvida, envolvida na

    deciso de erguer um epitfio. Isso bem perceptvel nos memoriais para crianas

    5 The emphasis on status in the interpretation of epitaphs does not exclude the many other possible motives for

    erecting a tombstone it is merely singled out here as a major motive. Other motivos, such as affection, can easily be

    combined it with [] but cannot stand as sucessfully on their own as driving forces [].

  • 30

    pequenas, nas quais os dedicadores expressam afeio e carinho. (SALLER & SHAW,

    1984, p. 126)6

    O caso de lpides para crianas ou filhos nos faz refletir que a lpide no era, de fato,

    somente uma estratgia social ou uma dvida moral (como uma obrigao social), mas um ato que

    expressava sentimentos do povo romano diante de suas relaes interpessoais; nesse sentido,

    demonstrarei que possvel realizarmos anlises dos epitfios que se orientem nesse sentido. A

    despeito da importncia status, havia sim uma importncia dos sentimentos familiares envoltos na

    memria construda e selecionada nessa epigrafia funerria, e tais fatores no podem ser omitidos

    pela historiografia.

    Discutido esse panorama sobre o ato e a motivao de se erguer uma lpide naquela

    sociedade, hora de pensarmos nos agentes sociais que esto presentes nos epitfios. O estudo da

    epigrafia confere, uma individualidade aos sujeitos histricos marginalizados, sobretudo os

    gladiadores e outros tipos de escravos, visto que nos permite compreend-los enquanto pessoas.

    Isso se explica pelo fato de na construo dessa memria selecionada estarem presentes suas

    relaes interpessoais:

    [] os registros de prprio punho e os epitfios de amigos, amantes ou parentes se

    constituem em indcios fragmentados dos sentimentos e imagens que estes combatentes

    desejavam produzir de si mesmos, muitas vezes omitidos na historiografia moderna.

    (GARRAFFONI, 2004, p. 229).

    Este possvel caminho dos sentimentos exposto por Garraffoni , justamente, um dos

    objetivos na anlise das lpides que norteia a pesquisa, j que outras abordagens pertinentes ao tema

    da epigrafia funerria sobre a gladiatura, como a de Valerie Hope (2000), afirmam que os epitfios

    focam excessivamente nas glrias e conquistas deles como homens guerreiros, dificultando o estudo

    de suas relaes afetivas.

    O trabalho de Hope ressalta a importncia das lpides e dos epitfios na compreenso do

    fenmeno da gladiatura, mas no avana para alm do esteretipo de infames que os gladiadores

    carregavam; para Hope, os gladiadores carregariam essa imagem mesmo em sua memria pstuma.

    A anlise de Hope se foca excessivamente na imagem do gladiador guerreiro e viril, negando a

    possibilidade de estudar suas relaes ntimas ou pessoais por meio dos epitfios:

    6 Another motive, affection, though difficult to measure, was no doubt also involved in the decision to erect an

    epitaph. This seems especially clear in the memorials for young children expressing the dedicators affection and

    grief.

  • 31

    A mais comum e popular forma de expor as virtudes de um gladiador era a de bene merens:

    ele era digno de uma comemorao no por ser um bom marido ou pai, mas porque ele foi

    um grande combatente, que encarou bravamente a sua morte na arena. (HOPE, 2000, p.

    105)7

    Contrastando com essa ideia exposta por Hope, essa monografia refora que possvel

    outras leituras para essa cultura material: a de percepo de sentimentos, afetos, relaes familiares

    e desejos de representao na construo dessas memrias dos gladiadores e escravos, efetuando

    uma anlise para alm dos feitos ou do status presente nas memrias deixadas por esses epitfios.

    3.3 Construo de uma metodologia de anlise dos epitfios: memrias e famlias

    Nos tpicos anteriores desse captulo, foi exposta a importncia dos estudos epigrficos

    (principalmente os funerrios) para a produo historiogrfica e a construo de modelos

    interpretativos do passado. Essa discusso fundamental para a compreenso das razes de ter

    escolhido as lpides como as fontes; mas toda interpretao de fontes deve estar ligada a uma

    metodologia de anlise, sobre a qual discorrerei neste tpico. J foi afirmado que possvel, por

    meio das lpides, atingirmos as camadas populares de forma deslocada de abordagens normativas,

    bem como aspectos muitas vezes relegados pela historiografia moderna, como sentimentos,

    memrias, infncia, posies sociais e relaes familiares. Mas de que modo possvel estudarmos

    essas questes por meio desses epitfios?

    Uma possibilidade de anlise, proposta por Saller e Shaw (1984), a de categorizao das

    fontes por exemplo: de pai(s) para filho(s), de filho(s) para pai(s), de marido para esposa, entre

    outros. Assim sendo, a metodologia da pesquisa no busca apenas as particularidades de cada fonte,

    mas tambm as pensa em categorias, para a compreenso de como a famlia nuclear ou a famlia

    estendida aparecem mais nas lpides, bem como sobre como recorrente, na escrita, a maneira de

    se preservar a memria do falecido ou da falecida.

    Por essa categorizao, possvel notar quais indivduos esto mais presente nas lpides

    selecionadas, bem como a que posio social, gnero e papel familiar estes pertencem. Com esse

    recorte inicial e a criao de categorias, a anlise de suas especificidades torna-se mais eficaz.

    Evidentemente, todo cuidado para evitar generalizaes histricas que no levam a lugar algum ser

    7 The most suitable and popular way of summarizin a gladiators virtues was bene merens: he was well deserving of

    his commemoration not because he was a good husband or father, but because he had been a good comrade who

    bravely faced his death in the arena.

  • 32

    necessrio; Gozalbes Cravioto (2001) afirma que essa criao de categorias das lpides, embora

    denote uma srie de aspectos sociais e culturais, no pode ser dissociada de suas especificidades que

    tambm devem ser trabalhadas. As lpides devem, portanto, ser pensada como um conjunto de

    informaes, nos quais cada fonte possui tambm as suas individualidades especficas.

    importante considerar tambm os limites da documentao selecionada. Alguns epitfios,

    por exemplo, esto com seus textos parcialmente ilegveis; alm disso, a datao de parte das fontes

    nem sempre exata, bem como nem sempre se encontra no catlogo a informao de provenincia

    exata das lpides; o que sabemos que, pela separao dos catlogos originais (em cinco volumes),

    esto agrupadas em referncia a grandes regies.

    Isto posto, o primeiro passo metodolgico (a categorizao geral das fontes) foi feito com

    base nos seguintes aspectos:

    1) Grau de parentesco presente entre dedicado e dedicante.

    2) Posio social dos indivduos (era um gladiador, um escravo de outro tipo ou estava

    envolvido na organizao dos espetculos?).

    Aps essa categorizao mais geral, parto para um mtodo de anlise mais especfico,

    sendo que nem todos estes itens se fazem sempre presente; cito aqui os aspectos mais recorrentes a

    serem percebidos, pois cada lpide pode conter informaes relevantes que lhe so particulares:

    1) Como o dedicante se refere ao dedicado no epitfio (muitas vezes um termo sentimental

    ou afetuoso utilizado). Isso fundamental para a percepo da carga de afeto presente na

    construo de memria das lpides.

    2) Demonstrar como suas qualidades e feitos so apresentados e como isso se articula com a

    memria proposta pelo epitfio, j que recorrente, no caso dos gladiadores, por exemplo, a

    presena de seu nmero de vitrias.

    3) Buscar no catlogo ou em outras referncias bibliogrficas uma explicao sobre o cargo

    ou profisso exercida pelo dedicado/dedicante

    4) Idade dos envolvidos no epitfio, j que isto revela em que estgio da vida em sociedade

    se encontram

    5) Local de origem do falecido, muitas vezes reforado no epitfio, o que demonstra uma

    escolha de construo de memria

    6) Datao e localizao regional da fonte

  • 33

    Aps a categorizao das fontes, o segundo passo para as anlises foi a procura, nos detalhes

    oferecidos pelos epitfios, a percepo dos relacionamentos e sentimentos envoltos nessa memria

    entre os dedicadores e os falecidos, e a apreenso de como a preservao de memria constri-se

    nas lpides. Os aspectos mais especficos de cada lpide, em conjunto, revelam os padres

    recorrentes que ocorrem nos epitfios. A percepo desses padres recorrentes, assim como

    qualquer informao particular e destoante do resto contida em uma lpide, demonstra uma escolha

    de construo de memria, e disto vem a importncia da anlise das informaes que se fazem

    presente nos epitfios.

    Essa anlise constri um conhecimento no apenas categrico sobre a epigrafia funerria; a

    inteno da pesquisa no demonstrar como eram dedicadas as lpides na Roma Antiga do incio

    do primeiro milnio d.C., mas sim destacar, nessas dedicatrias, a individualidade dos agentes

    sociais envolvidos, j que a memria dedicada a eles os retrata como indivduos particulares, com

    vivncias, sentimentos e relaes prprias para alm dos jogos anfiteatrais. a subjetividade desses

    personagens que me interessa metodologicamente ao analisar tais lpides, para possibilitar a

    construo de um olhar mais plural para a Antiguidade, e sobre como a Arqueologia e a Histria,

    em dilogo, podem construir um mtodo de historiografia que vai nessa direo.

    A inteno de anlise de relaes familiares, portanto, demonstrar que as famlias no

    eram tidas com absoluta indiferena nas sociedades antigas como alguns estudos procuraram propor,

    j que elas sugerem a preocupao de preservao de uma memria familiar aliada a uma carga de

    afeto deixada pelas dedicatrias. Alis, o prprio ato de dedicar uma memria pstuma j pode ser

    considerado um ato de carinho, afeto, admirao ou, minimamente, respeito. A pesquisa e sua

    metodologia, alm desta concluso, pretende ir alm e analisar como essa carga de sentimento se

    faz demonstrada nos epitfios, e como as fontes epigrficas funerrias abrem caminhos de

    interpretar a famlia romana para alm dos critrios de fontes legislativas ou literrias.

    3.4 Catlogo das lpides contempladas pela pesquisa

    A seleo das fontes para a pesquisa foi feita com critrios adotados de acordo com o

    objetivo da pesquisa: foram escolhidas lpides que possuam qualquer tipo de relaes familiares

    mencionadas na memria construda, desde que restritas aos jogos de gladiadores, visto que a

    inteno desconstruir esteretipos dos personagens envolvidos nos espetculos anfiteatrais.

    Tambm serviu como critrio de escolha a possibilidade de leitura dos epitfios, j que muitas

    fontes, embora mencionem relaes familiares nos epitfios, esto incompletas em seus escritos, e

    dificultaram uma anlise eficaz para o andamento da pesquisa.

  • 34

    No tpico anterior, discutimos a metodologia de anlise dos epitfios adotada. Antes de

    discorrer, no prximo captulo, sobre a categorizao e o estudo das especificidades das fontes,

    apresentarei, neste tpico, um catlogo das lpides que a pesquisa contempla. importante entender

    que a produo de um catlogo em um trabalho de Arqueologia e de Histria no apenas um

    anexo com as fontes, tampouco uma opo arbitrria para apresentar, descrever e/ou citar a

    cultura material aos leitores.

    A catalogao das fontes constitui parte do processo de anlise ao lidar com as fontes

    arqueolgicas, pois cria um corpus documental a ser discutido em seu trabalho (Carlan, 2007). No

    caso dessa monografia, estamos criando um corpus de lpides encontradas em regies anfiteatrais,

    para dar visibilidade a presena de gladiadores, outros escravos e membros da elite local e

    organizadora dos espetculos. Nesse catlogo, apresentaremos os seguintes itens: o cdigo de cada

    lpide; o epitfio transcrito; a descrio do contedo do epitfio; a referncia bibliogrfica referente

    lpide.

    CATLOGO DAS LPIDES

    LPIDE 01

    CIL, VI 10162, cfr. 33981

    Flviae

    Athenaidi,

    Augustlis

    Aug(usti) lib(ertus) tabul(arius)

    a muneribus et

    Appia Istina

    filie dulcissim(ae).

    Lpide que um dedicante principal (um contador liberto imperial, Flavius Augustalis), com sua

    esposa, Appia Istina, dedica filha, Flviae Athenaidi, a qual se referencia carinhosamente como

    encantadora filha. A fonte pertence ao sculo I, j que o contador um liberto imperial de Flvio

    (Tumolesi, 1988).

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni, 1988, pp. 20-21.

    LPIDE 02

    CIL, VI 10089, cfr. p. 3492; ILS 1766

  • 35

    D(is) M(anibus)

    Claudiae Faustinae,

    filiae pientissimae,

    quae vix(it) ann(is) XVI,

    Ti(berius) Cl(audius) Aug(usti) lib(ertus) Philetus,

    a comment(ariis) rat(ionis) vestium scaenic(ae) et

    gladiat(oriae) et Flavia Procula parentes.

    Item Flavius Daphnus et Cl(audius) Martialis

    fratres fecerunt et sibi, lib(ertis), libertabus

    suis, posterisq(ue) oerum

    Lpide dedicada pelo pai, o liberto imperial Tiberius Claudius Augusti, para a falecida filha de 16

    anos, Claudiae Faustinae. No epitfio, o pai cita sua profisso de ratio vestiaria, ou seja,

    trabalhava na confeco de vesturios para os atores e gladiadores dos espetculos. uma das

    poucas fontes sobre esse cargo (Tumolesi, 1988). O pai expressa carinho pela filha atravs do

    termo filha estimada.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni, 1988, p. 23

    LPIDE 03

    CIL, VI 33981, cfr. 10162

    D(is) M(anibus)

    T(iti) Flavi Augustalis

    tabulari a muneribus, filia at optaticia cense

    Flavia Alexandra fecit coniugi Albineo se bibos

    et alumnae

    Elviniae Atticeni

    et Flaviae Maximinae vernae mae Euos possedere d(e)bere ita nequ(e) vendant neque

    donent

    Lpide construda ao falecido liberto imperial tabularius a muneribus Flavius Augustalis por parte

    de sua filha adotiva, Flavia Alexandra. Tambm do perodo flaviano e data do sculo I.

    (Tumolesi, 1988). A especificao da filha ser adotiva chama a ateno nesse epitfio.Mesmo sem

    ser consangunea do pai, esta dedicou a ele uma lpide com um epitfio relativamente grande, o

    que demonstra que provavelmente ela foi cara.

  • 36

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 21

    LPIDE 04

    CIL, VI 10083; ILS 1768

    Habe (!) Marce, dulcis a[nima],

    adiut(or) proc(uratoris) summi chor[agi];

    Marcus piisimo patri.

    Curta lpide dedicada do filho Marcus ao pai Marce, que se tratava de um provvel liberto. A

    fonte provavelmente data do sculo III (Tumolesi, 1988). O filho se refere ao pai como piisimo

    patri (pai pientssimo).

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 27

    LPIDE 05

    CIL, VI 10163, ILS 5155

    D(is) M(anibus).

    Claudiae

    Thallusae Aug(usti)

    lib(ertae) et Thalliae

    f(illiae) eius, Hyacin =

    thus vilicus ma=

    phiteatri (!), con=

    iugi suae et filiae.

    Eius et sibi et su=

    is.

    Lpide dedicada me e filha de um escravo vilicus; esta fonte data do perodo claudio-

    neroniano (Tumolesi, 1988). Ainda, pela nomenclatura, perceptvel que sua esposa se tratava de

    uma liberta, o que gera uma indagao interessante sobre as posies do vilicus na sociedade, j

    que no era uma prtica comum no mundo romano antigo.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 45

    LPIDE 06

    CIL, VI 10201; ILS 5131

  • 37

    D(is) M(anibus).

    Cornelio Eugeniano

    summa (!) rudi

    et Corneliae Rufinae

    parentibus dulcissimis,

    bene merentibus,

    filia fecit.

    Lpide dedicada aos pais Cornelio Eugeniano e Corneliae Rufina, ambos libertos, por parte de sua

    filha, cujo nome no consta no epitfio. O pai exercia a profisso de summa rudis, uma espcie de

    rbitro dos espetculos anfiteatrais, com a funo de interromper os jogos caso um gladiador

    desistisse, por exemplo; a fonte data do sculo II ou III (Tumolesi, 1988). A carga de afeto na

    construo da memria pode ser denotada pelo uso do termo pais to bons.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 58

    LPIDE 07

    CIL, VI 10167; ILS 5125

    Aos Deuses,

    Publiciae Aromte,

    estimada esposa.

    fec(it) Albanus, um eques veteranus

    Ludi Magni; vixit annis

    XXII, mensibus V, diebus VIII.

    In fronte pedes III, in agro pedes VIII.

    Lpide dedicada falecida esposa (livre ou liberta), Publicia Aromate, pelo marido Albanus, um

    gladiador eques veteranus (Tumolesi, 1988), ou seja, um veterano que lutava montado em um

    cavalo. O esposo se referencia mulher carinhosamente com o termo estimada esposa.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 67

    LPIDE 08

    CIL, VI 4335

    Caius Iulius Iucundus

    Iucundus

    essedarius,

    v(ixit) a(nnis) XXV;

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    filia patri.

    Lpide dedicada, pela filha sem nome citado, ao pai Claius Iulius Iucundus, gladiador essedarius e

    morto aos 25 anos (Tumolesi, 1988), o que indica que a filha uma criana de cerca de 10 anos de

    idade.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 67-68

    LPIDE 09

    CIL, VI 10177 = 33977; ILS 5104

    Diis Manibus

    M(arci) Ulpi Felicis mirmillonis

    veterani; vixit ann(is) XXXX;

    natione Tunger;

    Ulpia Syntyche liberta coniugi

    suo dulcissimo, benemerenti

    et Iustus filius fecerunt.

    Lpide dedicada pela mulher liberta Ulpia Syntyche, com com o filho, para o mirmilho veterano

    Marci Ulpi Felicis, falecido aos 45 anos (Tumolesi, 1988). O epitfio faz questo de recordar que

    o gladiador era de origem Tungri, uma opo de construo de memria que possibilita refletirmos

    a importncia dos locais de origem para parte dos gladiadores. Como demonstrao de afeto do pai

    pelo filho, a mulher afirma que o filho era, para o morto pai, doce e benevolente.

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

    Edizioni Quazar, 1988, p. 70

    LPIDE 10

    CIG 7021; IG, XIV 2008; ICUR, 1.4032, IGUR, II 939

    A inscrio est ilegvel para a livre traduo completa e eficaz, mas pela sua descrio em

    italiano no catlogo do qual foi retirada, podemos saber que se trata de uma lpide dedicada pelos

    pais, Fuscinus e Taos, e de origem egpcia, ao falecido filho, cuja idade de falecimento

    desconhecida. No epitfio ressalta-se que o pai era um gladiador do tipo provocatores (Tumolesi,

    1988).

    In: SABBATINI, TUMOLESI, P.L., Epigrafia anfiteatrali dell'Occidente Romano I Roma,

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