Miolo gestao dasustentabilidade_vol01_final_23_11_2011

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Marxismo e descendência · 1 GESTÃO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL: DESENVOLVIMENTO DE ECOSSISTEMAS COLABORATIVOS
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Marxismo e descendncia 1

GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL: DESENVOLVIMENTO DE ECOSSISTEMAS COLABORATIVOS

2 As bases estruturais do marxismo

Marxismo e descendncia 3

GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL

VOLUME 1

DESENVOLVIMENTO DE ECOSSISTEMAS COLABORATIVOS

Adalberto M. M. AzevedoMarco Antonio Silveira (orgs.)

OrganizadoresAdalberto Mantovani Martiniano de Azevedo

Marco Antonio Silveira

Autores de captulosAdalberto Mantovani Martiniano de Azevedo

Ana Karina da Silva BuenoAna Lcia Vitale Torkomian

Daniela da G. e S. V. M. de Moraes Daniela Maria Cartoni

Iara Regina da Silva FerreiraJos Rocha Andrade da Silva

Josiane Fachini Falvo Marlia Tunes Mazon

Marco Antonio Silveira Nanci Gardim

Srgio de Oliveira CaballeroTiago Barreto Rocha

Impresso no Brasil, Outubro de 2011

Copyright 2011 by Adalberto Mantovani Martiniano de Azevedo e Marco Antonio Silveira

Os direitos desta edio pertencem ao CTI (Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer) Rodovia Dom Pedro I, Km 143,6 13069-901 Campinas SP, BrasilTelefone de contato: +55 (19) 3746-6083E-mail de contato: [email protected] eletrnico: http://www.cti.gov.br/gaia

OrganizadoresAdalberto Mantovani Martiniano de AzevedoMarco Antonio Silveira

Gesto EditorialCEDET Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnolgico Ltda.

RevisoSilvia Elizabeth da Silva

Capa, projeto grfico e editoraoJoo Toniolo

Imagem de fundo da capa Foxaon | Dreamstime.com

ImpressoGrfica Bandeirantes

Reservados todos os direitos desta obra.Proibida toda e qualquer reproduo desta edio por qualquer meio ou forma, seja ela eletrnica ou mec-nica, fotocpia, gravao ou qualquer outro meio de reproduo, sem permisso expressa do editor.

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

Adalberto Mantovani Martiniano de Azevedo e Marco Antonio Silveira (Organizao)Gesto da Sustentabilidade Organizacional: Desenvolvimento de Ecossistemas Colaborativos; Campinas, SP: CTI (Centro de Tecnologia da Informao Re-nato Archer), 2011.

208 pp.

ISBN 978-85-65163-01-9

1. Gesto Organizacional 2. Pesquisa e Desenvolvimento. 3. Inovao Tecnolgica. 4. Indstria Eletrnica 5. Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer. I. Ttulo.

CDD 658.406

ndices para Catlogo Sistemtico:1. Gesto Organizacional 658.4062. Inovao Tecnolgica 338.0643. Pesquisa e Desenvolvimento 658.574. Indstria Eletrnica 338.47621381

SUMRIO

PrefcioSergio Luiz Monteiro Salles Filho .............................................................................................11

ApresentaoAdalberto Mantovani M. de Azevedo e Marco Antonio Silveira.............................................15

seo 1: gesto de ecossistemas organizacionais para o desenvolvimento scio-econmico

1. Introduo sustentabilidade organizacional: integrando o capital humano aos ecossistemas organizacionais Marco Antonio Silveira .............................................................................................................23

2. Gesto de arranjos multiorganizacionais para a inovao: a contribuio do conceito de ecossistemas organizacionais Adalberto Mantovani Martiniano de Azevedo .......................................................................... 53

seo 2: gerao e transferncia de tecnologia em ecossistemas organizacionais

3. A disseminao do conhecimento no apoio inovao e sustentabilidade organizacional: a importncia dos portais corporativos Nanci Gardim, Daniela Maria Cartoni e Srgio de Oliveira Caballero.....................................81

4. Transferncia de tecnologia, inovao tecnolgica e desenvolvimento Ana Lcia Vitale Torkomian ....................................................................................................... 101

5. Parque Cientfico da Unicamp: papel estratgico no desenvolvimento do sistema local de inovao de Campinas Josiane Falvo e Iara Regina da Silva Ferreira ............................................................................ 115

seo 3: sustentabilidade na indstria eletrnica:

legislao, desafios e oportunidades

6. Polticas setoriais de fomento indstria microeletrnica no Brasil: descrio e resultados Ana Karina da Silva Bueno ............................................................................................................ 133

7. Avaliao do Ciclo de Vida como ferramenta para sustentabilidade do setor eletroeletrnico Jos Rocha Andrade da Silva e Tiago Barreto Rocha .................................................................. 157

8. Gesto da cadeia produtiva de ciclo fechado em empresas do setor eletroeletrnico para adequao a requisitos ambientais Marlia T. Mazon e Daniela da G. e S. V. M. de Moraes ............................................................. 173

9. Gesto da sustentabilidade em ecossistema organizacional: caso ilustrativo na indstria eletrnica Marco Antonio Silveira .................................................................................................................... 189

8 | GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL VOLUME 1

SOBRE OS AUTORES

Adalberto Mantovani Martiniano de AzevedoBacharel em Administrao Pblica pela UNESP (1999), mestre (2005) e doutor (2010) em Pol-tica Cientfica e Tecnolgica pela UNICAMP. Atualmente, pesquisador no Departamento de Tecnologias de Suporte Deciso do Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI) e coordenador acadmico do Grupo de Apoio Inovao e Aprendizagem em Sistemas Organizacionais (GAIA). Tem interesse nas reas de anlise e avaliao de polticas de cincia, tecnologia e inovao, e gesto de arranjos multiorganizacionais para a inovao.

Ana Karina da Silva BuenoPossui graduao em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1998) e mestra-do em Cincia Econmica pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Tem experincia na rea de Economia Fundiria e do Meio Ambiente.

Ana Lcia Vitale TorkomianEngenheira de Produo pela Universidade Federal de So Carlos UFSCar (1987), mestre (1992) e doutora (1997) em Administrao, rea de Gesto de Cincia e Tecnologia, pela Facul-dade de Economia, Administrao e Contabilidade da Universidade de So Paulo FEA/USP. docente do Departamento de Engenharia de Produo DEP/UFSCar desde 1993, tendo ocupado no perodo de novembro de 2009 a julho de 2011 o cargo de Secretria Adjunta na Secretaria de Desenvolvimento Tecnolgico e Inovao do Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao SETEC/MCTI.

Daniela da Gama e Silva Volpe Moreira de MoraesPossui graduao em Administrao Pblica pela Universidade Estadual Paulista Jlio de Mes-quita Filho (2008) e mestrado em Engenharia de Produo pela Universidade Federal de So Carlos (2011).

Daniela Maria CartoniPossui Mestrado em Poltica Cientfica e Tecnolgica pela Universidade Estadual de Campi-nas (2002), MBA em Gesto de Recursos Humanos pela FAV (2008) e Graduao em Cincias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1998). Atua como professora universitria e consultora organizacional.

Jos Rocha Andrade da SilvaPossui graduao em Qumica pela Universidade Estadual de Campinas (1981) e mestrado em Engenharia Mecnica pela Universidade Estadual de Campinas (2000). Atualmente Pesqui-sador do Centro de Pesquisas Renato Archer.

Josiane Fachini FalvoDoutora e mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Bacha-rel em Cincias Sociais e Jurdicas. Scia-diretora da TRIELIS Consultoria em Tecnologia e Inovao e pesquisadora da FIPE Fundao Instituto de Pesquisas Econmicas.

SOBRE OS AUTORES | 9

Iara Regina da Silva FerreiraBacharel em Direito pela Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (1989), especialista em Gesto da Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa pela UNICAMP (2010). Atualmen-te Secretria Executiva do Parque Cientfico da UNICAMP e Gerente do Centro de Inovao de Software UNICAMP. Marco Antonio SilveiraDoutor, mestre e engenheiro com experincia em gesto tecnolgica, empresarial e acadmica atravs de atividades de direo, consultoria, ensino e pesquisa. Atua desde 1986 no CTI e, desde 1994, como docente em diversos cursos de ps-graduao (UNICAMP, PUC-Campinas, UNISAL, INPG, USM entre outras)

Marlia Tunes MazonGraduada em Cincias Econmicas e Relaes Internacionais pela FACAMP (2010). Atualmen-te, pesquisadora do Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI).

Nanci GardimAtua como pesquisadora no Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI-MCT). J atuou na elaborao de Estudos de Caso sobre os Licenciamentos de Tecnologias efetuados pela Agncia de Inovao Inova Unicamp e, no desenvolvimento de cursos e treinamentos (pre-senciais, distncia e semipresenciais) para capacitao de profissionais de Ncleos de Inovao Tecnolgica (Projeto InovaNIT). Graduada em Comunicao Social/Rdio e TV pela Universi-dade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho (UNESP/2002).

Srgio de Oliveira CaballeroMestre em Informtica pela Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (2006) e graduado em Cincia da Computao pela Universidade Municipal de So Caetano do Sul (2000). Possui experincia de 22 anos na rea de Telecomunicaes tendo atuado em vrios projetos nacionais e internacionais. Atualmente coordenador Executivo do GAIA no Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI-MCT), tambm atua como professor de gesto de projetos e gesto de TI em diversos cursos de MBA. Membro ativo do PMI (Project Management Ins-titute) desde 2004. Tiago Barreto RochaBacharel em Cincia da Computao pela Universidade Estadual de Santa Cruz (2008), mes-tre em Engenharia Mecnica e de Materiais pela Universidade Tecnolgica Federal do Paran (2011). Atualmente pesquisador do Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI) no mbito do programa AMBIENTRONIC.

PREFCIO

Sergio Luiz Monteiro Salles Filho 1

Quando bens e servios inovadores so lanados e tm sucesso, pode-se ter cer-teza que um jogo coletivo relativamente bem construdo esteve por trs. Digo relati-vamente porque a construo de um jogo coletivo, alm de planejamento e diviso de tarefas com boa coordenao, exige tambm flexibilidade, tato e um sentimento de oportunidade que no nada trivial. Em inovao, quase nunca o que se planeja exatamente o que se obtm. Quase sempre os resultados sero um conjunto de coisas imaginadas combinadas com outras inesperadas.

Evidentemente, este fato observvel e to caracterstico do avano do conheci-mento e da criao do novo no supe apenas comportamentos tcitos e mtodos intuitivos. Muito ao contrrio, coloca imensos desafios para quem busca a inovao. Planejar, gerenciar, acompanhar e avaliar programas, modelos, arranjos, projetos e tudo o que exija desenvolver e colocar em uso coisas que at ento no existiam e, sempre ser, uma fronteira do conhecimento para as cincias da gesto.

A diversidade e a velocidade com que indstrias, mercados e empresas emergem e submergem no espao hiper competitivo da inovao tecnolgica , em si, um desa-

1 Engenheiro Agrnomo formado pela UFRRJ (1980), mestre em Cincias Agrrias pela Unesp de Bo-tucatu (1985) e doutor em Economia pela Unicamp (1993), Professor Titular do Departamento de Po-ltica Cientfica e Tecnolgica do Instituto de Geocincias da Unicamp. Foi Superintendente de Planeja-mento Operacional da FINEP durante o perodo 20012003. Na Unicamp destaca-se como ganhador por trs vezes do Prmio Zeferino Vaz (1998, 2001 e 2009), em reconhecimento pelo desempenho acadmico. Atualmente coordenador de avaliao de programas da FAPESP e Diretor da Faculdade de Cincias Aplicadas da Unicamp. Fundou, juntamente com Rui Albuquerque, em 1995, o Grupo de Estudos sobre Organizao da Pesquisa e da Inovao GEOPI. Tem como linhas de pesquisa a economia, o planeja-mento e a gesto de cincia, tecnologia e inovao.

12 | GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL VOLUME 1

fio maior para o planejamento e a gesto. No bastasse isto, este desafio vem acompa-nhado de contornos polimrficos relacionados sustentabilidade. No basta inovar, preciso faz-lo atendendo a um mundo cambiante de valores e preocupaes.

Na verdade, os contornos da sustentabilidade acabam definindo rumos e tendncias que permeiam todos os setores. Dos segmentos mais tradicionais aos mais contem-porneos, dos mais bvios aos nem tanto. Automobilstica, petroqumica e siderurgia com seus problemas ambientais intrnsecos, mas tambm eletrnica de consumo, sof-twares e literatura, tm agenda sustentvel pela frente. Em alguns casos, inovao est se tornando sinnimo de busca de solues sustentveis.

O livro que o leitor ora aprecia entra no mar agitado destes temas e coloca uma perspectiva desafiadora para a gesto da inovao na indstria eletrnica, com aten-o naquilo que os autores chamam do triple bottom line da sustentabilidade: as dimenses econmica, social e ambiental. Seu ponto de partida a noo de que os ambientes inovadores operam como ecossistemas e, como tal, exigem modelos com-plexos de organizao e gesto. Mais que isto, esses ambientes tm, crescentemente, diretrizes sustentveis. De um lado e de outro, inovar e ter sucesso torna-se a meta a buscar e a defender.

O inesgotvel debate sobre as relaes entre ambiente acadmico, indstria e gover-no, precisa, de fato, de uma abordagem sistmica para prosperar. Antes estacionado na sombra de assertivas de lugar-comum, como a de que esses trs grupos de atores so diferentes e tm linguagens diferentes, necessitando tradues, o debate tem se renovado com perspectivas sistmicas e, mais recentemente, ecossistmicas.

Uma nova tecnologia, por mais bem desenvolvida e tecnicamente bem avaliada e testada que seja nada mais que uma nova tecnologia. Da a ela ser usada por empre-sas, consumidores finais, governo etc. vai uma distncia ocenica. Algum tem que produzir, vender, distribuir, querer comprar, consertar, renovar etc.

So realmente animais diferentes esses que povoam os ambientes inovativos. Tm vises e interesses diferentes que no se orientam com a mera traduo de linguagem. Trata-se, sobretudo, de uma questo de compromisso entre as partes, pois, como se sabe, quando um no quer, dois no fazem. Assim com jogos coletivos: talentos e vises individuais complementam-se em aes conjuntas que podem levar ao sucesso. Quanto mais bem compromissados e orquestrados, mais ntidas ficam as chances de bons resultados (embora nada possa, de verdade, garantir o sucesso).

Modelos organizacionais e de gesto especficos, modelos institucionais com suas regras e referncias balizadoras das decises, so as exigncias da gesto deste tipo de coisas. Um mundo de alternativas e opes conceituais e metodolgicas abre-se neste contexto. O mais curioso que, apesar de exigente em modelos, este mundo no muito dado a padres e prticas rgidas.

aqui que reside a arte de quem se lana no mar agitado da gesto da inovao em bases sustentveis: prover conceitos e ferramentas que deem suporte as duas das

PREFCIO | 13

caractersticas mais crticas dessa atividade: a flexibilidade para lidar com o inesperado e o inusitado e a complexidade dos interesses conflitantes e oscilantes dos agentes da inovao.

A presente obra contribui com ideias e conceitos promissores (seo 1), prope fer-ramentas, modelos e casos ilustrativos (seo 2) e faz uma aplicao em particular para o ecossistema organizacional da indstria eletrnica (seo 3).

Ganham todos com mais esta obra elaborada pelo Grupo GAIA, sediado no Cen-tro de Tecnologia da Informao Renato Archer, local mais que apropriado para pen-sar o desenvolvimento daquela que provavelmente a mais inovativa das indstrias destes nossos tempos.

Sergio Luiz Monteiro Salles Filho

APRESENTAO

Este livro se origina das atividades de pesquisa e extenso desenvolvidas pelo Gru-po de Apoio Inovao e Aprendizagem em Sistemas Organizacionais (GAIA), um grupo de pesquisas aplicadas sediado no Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI), unidade de pesquisa diretamente ligada ao Ministrio da Cincia, Tec-nologia e Inovao (MCTI), localizada em Campinas (SP).

Alinhado com a misso do CTI, o GAIA foi concebido para auxiliar a viabilizao da indstria eletrnica no Brasil, bem como de outros setores intensivos em tecno-logia, atuando em iniciativas como a Rede de Tecnologia e Servios de Qualificao e Certificao em Tecnologia da Informao (Rede TSQC), o Instituto Nacional de Cincia e Tecnologia de Sistemas Micro e Nanoeletrnicos (INCT-NAMITEC), entre outras aes relevantes, como as conduzidas junto Associao Brasileira da Inds-tria de Artigos e Equipamentos Mdicos, Odontolgicos, Hospitalares e de Labora-trios (ABIMO).

Um dos objetivos estratgicos do GAIA disseminar informaes de interesse para os seus pblicos-alvo, razo de ser dos dois volumes desta srie Gesto da Sustenta-bilidade Organizacional. Neste primeiro volume, os textos esto focados em questes relativas a ecossistemas organizacionais. O segundo volume, intitulado Gesto da Sustentabilidade Organizacional: Inovao, aprendizagem e capital humano para a excelncia, foca questes relacionadas com o gerenciamento da inovao, da aprendi-zagem e do capital humano nas organizaes.

A proposta desses dois volumes registrar alguns dos vrios temas que foram abor-dados nas palestras realizadas nos anos de 2010 e 2011, no mbito de um dos projetos do GAIA mais conhecidos para difuso de conhecimento, denominado Manhs da Inovao.

16 | GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL VOLUME 1

As Manhs da Inovao so palestras abertas ao grande pblico, que vm sen-do realizadas mensalmente no auditrio do CTI desde 2004. Durante 2010 e 2011 o projeto recebeu aporte de recursos do CNPq, o que permitiu tambm a filmagem e a disponibilizao desses contedos no website do GAIA.

A atuao do GAIA focada em pesquisas aplicadas, e visa fomentar o desenvol-vimento sustentvel de empresas brasileiras, orientando-as para o uso do capital inte-lectual disponvel e para o crescimento profissional e pessoal de seus colaboradores. Acredita-se que, dessa maneira, seja possvel sustentar inovaes organizacionais e tecnolgicas que incrementem a competitividade dessas empresas. Para isso, a apli-cao de metodologias de gesto da inovao e para aprendizagem organizacional um fator crucial, especialmente em empresas atuantes em setores de alto dinamismo tecnolgico.

Na viso dos integrantes do GAIA, a competitividade e a capacidade de inovar de uma organizao dependem de variveis econmicas, organizacionais, tecnolgicas e humanas, tanto internas como presentes no ambiente onde a organizao est inse-rida. Os nveis mais agregados que influenciam os processos de inovao (ecossiste-mas) so complementares e interdependentes dos nveis mais desagregados (grupos e instituies), tambm essenciais para o processo inovativo, que garantem vantagens competitivas sustentveis, diferenciando as empresas de seus concorrentes.

Entendem-se aqui como vantagens sustentveis aquelas que garantem a manuten-o da sustentabilidade organizacional em suas trs dimenses, a saber: dimenses ambiental, econmica e social (enfoque triple bottom line). Na concepo do GAIA, a harmonia entre essas trs dimenses a chave para o desenvolvimento sustentvel das organizaes no longo prazo.

O presente livro busca apresentar alguns dos fundamentos tericos que embasam a concepo do GAIA sobre sustentabilidade organizacional, bem como os problemas especficos vividos pela indstria eletrnica. Para isso, divide-se em trs sees:

Seo 1: Gesto de ecossistemas organizacionais para o desenvolvimento socioeconmico;Seo 2: Gerao e transferncia de tecnologia em ecossistemas organizacionais;Seo 3: Sustentabilidade na indstria eletrnica: legislao, desafios e oportunidades.

A Seo 1: Gesto de ecossistemas organizacionais para o desenvolvimento socioeconmico foca as interaes entre os diversos agentes que atuam em uma determi-nada indstria ou regio, envolvendo, de maneira geral, instituies do setor produ-tivo, da academia e do governo. Considera-se que a gesto das interaes em sistemas cooperativos um fator chave para promover a competitividade de uma indstria,

APRESENTAO | 17

garantindo que os atores estejam alinhados a objetivos comuns que criem sinergias, potencializando os resultados positivos das aes dos diversos membros desses ecos-sistemas, em funo dos objetivos e motivadores dessas aes. A Seo 1 composta de 2 captulos, cujo objetivo principal apresentar os fundamentos conceituais que norteiam os demais captulos do livro, tratando, portanto, das ideias fundadoras que orientam o livro como um todo. No Captulo 1, Introduo sustentabilidade organi-zacional: integrando o capital humano aos ecossistemas organizacionais, Marco Anto-nio Silveira define e discute o conceito de sustentabilidade organizacional utilizando o enfoque triple bottom line, que concebe a sustentabilidade como um estado de equil-brio entre as dimenses ambiental, econmica e social. O autor argumenta que o uso do capital intelectual presente nas organizaes um meio efetivo para o desenvolvimento equilibrado dessas trs dimenses. No por acaso, este o captulo que abre o livro: o conceito de sustentabilidade apresentado norteia os captulos seguintes que, atravs de diferentes enfoques, buscam responder a uma pergunta comum: como promover a sus-tentabilidade de arranjos colaborativos e organizaes individuais, fomentando pro-cessos de inovao tecnolgica, coletivamente construdos e baseados no uso do capital intelectual disponvel? Os arranjos colaborativos multiorganizacionais para a inovao so discutidos no Captulo 2: Gesto de arranjos multiorganizacionais para a inovao: a contribuio do conceito de ecossistemas organizacionais, de Adalberto Mantovani Martiniano de Azevedo. No captulo so revisados os diversos conceitos relacionados a esses arranjos e apresentando o conceito de ecossistema organizacional, destacando sua funcionalidade prtica no apoio gesto de sistemas complexos, tais como redes tcnico-cientficas e sistemas de inovao.

A Seo 2: Gerao e transferncia de tecnologia em ecossistemas organizacionais foca a gesto de sistemas cooperativos para a criao e difuso de novas tecno-logias. Desta maneira, uma seo voltada apresentao de ferramentas de gesto da gerao e da circulao de conhecimentos e recursos entre as diversas instituies presentes nos ecossistemas organizacionais, visando sustentabilidade das organiza-es desses ecossistemas, especialmente as empresas privadas. A Seo 2 composta de trs captulos. Nanci Gardim, Daniela Maria Cartoni e Srgio de Oliveira Caballero so os autores do Captulo 3: A disseminao do conhecimento no apoio inovao e sustentabilidade organizacional: a importncia dos portais corporativos, em que se investiga a efetividade dos repositrios de informao corporativa na internet como ferramenta de disseminao do capital intelectual das organizaes entre seus colabo-radores internos e externos, e suas possibilidades para a explicitao e disseminao do conhecimento tcito detido pelos colaboradores da organizao. No Captulo 4: Transferncia de tecnologia, inovao tecnolgica e desenvolvimento, Ana Lcia Vitale Torkomian discute os problemas da cooperao universidade-empresa no Brasil, des-tacando a importncia dos Ncleos de Inovao Tecnolgica (NITs) para a transfern-cia de tecnologia de ICTs (Instituies de Cincia e Tecnologia) para o setor produtivo.

18 | GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL VOLUME 1

A Seo 2 do livro encerra-se com o Captulo 5: Parque Cientfico da Unicamp: papel estratgico no desenvolvimento do sistema local de inovao de Campinas, de Josiane Falvo e Iara Regina da Silva Ferreira. Ilustrado por uma descrio dos parques tec-nolgicos da regio de Campinas, o captulo mostra como a constituio de parques tecnolgicos pode incrementar a sustentabilidade das organizaes de uma regio, gerando e transferindo tecnologias e aproximando atores importantes dos ecossiste-mas organizacionais constitudos em volta de indstrias de alto contedo tecnolgico.

A Seo 3: Sustentabilidade na Indstria Eletrnica: Legislao, Desafios e Oportunidades produto dos trabalhos de pesquisa aplicada do GAIA junto a diversos ato-res pertencentes ao ecossistema organizacional da indstria eletrnica brasileira. Nes-sa seo so apresentados resultados de estudos e de aes de interveno do GAIA e de seus colaboradores mais prximos. A Seo 3 composta de quatro captulos. No Captulo 6: Polticas setoriais de fomento indstria microeletrnica no Brasil: des-crio e resultados Ana Karina da Silva Bueno descreve as principais polticas desen-volvidas para fomentar a indstria eletrnica brasileira, apresentando alguns de seus resultados e deficincias, determinantes do desempenho desse setor to importante para diversos setores de atividade empresarial. O Captulo 7: Avaliao do Ciclo de Vida como ferramenta para sustentabilidade do setor eletroeletrnico, de Jos Rocha Andrade da Silva e Tiago Barreto Rocha, descreve as atividades envolvidas na Ava-liao de Ciclo de Vida (ACV) de produtos, destacando a importncia desse tipo de avaliao como balizador da busca da sustentabilidade ambiental, econmica e social na produo de eletroeletrnicos. A incorporao da problemtica ambiental no setor de eletrnicos discutida com base em um estudo do setor brasileiro de equipamentos eletromdicos 1 no Captulo 8: Gesto da cadeia produtiva de ciclo fechado em empresas do setor eletroeletrnico para adequao a requisitos ambientais. Neste captulo, Marlia Tunes Mazon e Daniela da G. e S. V. M. de Moraes investigam as mudanas introduzi-das nessa indstria pela legislao ambiental incidente sobre as cadeias produtivas de equipamentos eletrnicos, focando as novas oportunidades de negcios trazidas pela legislao, especialmente em relao ao gerenciamento dos Resduos de Equipamentos Eletroeletrnicos (REEs). Por fim, o Captulo 9: Gesto da sustentabilidade em ecossis-tema organizacional: caso ilustrativo na indstria eletrnica, de autoria de Marco Anto-nio Silveira, descreve o trabalho que o GAIA e seus parceiros vm desenvolvendo para incrementar a sustentabilidade da indstria eletrnica, iniciado com um projeto piloto desenvolvido em nove empresas brasileiras produtoras de equipamentos eletromdicos,

1 A indstria de eletromdicos tema de diversos captulos deste livro, pois o GAIA desenvolve atual-mente um projeto-piloto em parceria com a Associao Brasileira da Indstria de Artigos e Equipamen-tos Mdicos, Odontolgicos, Hospitalares e de Laboratrios (ABIMO) que visa capacitar nove empresas desse setor. O projeto est detalhado no Captulo 9: Caso Ilustrativo de Gesto em Ecossistemas: Projeto Piloto para Sustentabilidade da Indstria Eletrnica.

APRESENTAO | 19

com o objetivo de aprimorar os processos de gesto dessas empresas de modo a viabili-zar a introduo de tecnologias sustentveis.

Os organizadores do presente livro esperam que o conjunto da obra auxilie a dis-cusso sobre ferramentas organizacionais e tecnolgicas que possam contribuir para o desenvolvimento sustentvel, em termos ambientais, econmicos e sociais, da inds-tria eletrnica brasileira. Tambm se espera que o livro aprimore o conhecimento sobre referenciais tericos e metodolgicos que possam orientar aes em outras indstrias, destacando-se o conceito de ecossistemas organizacionais colaborativos e sua gesto. Para finalizar essa apresentao, oportuno frisar que o livro no teria sido elabora-do sem a frutfera colaborao e intercmbio de ideias entre os autores dos diversos captulos, pertencentes a diversas instituies, mas que compartilham um sentimento comum: a colaborao que torna o todo maior que a soma das partes individuais, e com esse sentimento colaborativo que deve ser gerido qualquer ecossistema organiza-cional. Sem esse sentimento, esse livro certamente no teria se materializado.

Obrigado pela escolha de nosso livro e boa leitura!

Adalberto Mantovani Martiniano de AzevedoMarco Antonio Silveira

(organizadores)

seo i

GESTO DE ECOSSISTEMAS ORGANIZACIONAIS PARA O DESENVOLVIMENTO SCIOECONMICO

CAPTULO 1

Introduo sustentabilidade organizacional: integrando o capital humano

aos ecossistemas organizacionais

Marco Antonio Silveira

Introduo

O termo sustentabilidade comporta vrias interpretaes e abordagens. Mui-to embora sua origem remonte aos anos 80, trata-se do conceito emergente mais importante do sculo XXI, tema de discusses em fruns internacionais e item sem-pre presente nas agendas de instituies pblicas e privadas:

Um dos resultados mais perceptveis das conferncias internacionais na ultima dcada foi a incorporao da sustentabilidade nos debates sobre desenvolvimento. Governos, universidades, agncias multilaterais e empresas de consultoria tcnica introduziram, em escala e extenso crescentes, consideraes e propostas que refletem a preocupao com o esverdeamento de projetos de desenvolvimento e a democratizao dos pro-cessos de tomada de deciso. Muitas ONGs, adotando um posicionamento crtico em relao definio oficial de desenvolvimento dos governos e agncias internacionais, entendem sustentabilidade como o princpio estruturador de um processo de desen-volvimento centrado nas pessoas e que poderia se tornar o fator mobilizador e moti-vador nos esforos da sociedade para transformar as instituies sociais, os padres de comportamento e os valores dominantes (Rattner, 1999: 233).

Qual a razo de tal importncia? Por que surge agora com tanta fora nas agen-das polticas e empresariais? E, o que significa, afinal, sustentabilidade?

24 | GESTO DA SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL VOLUME 1

Todas essas questes vm sendo respondidas por diversos autores, alguns com muita propriedade. O que queremos destacar neste texto nossa viso pessoal sobre o tema, em alguns momentos de forma at um pouco prosaica ou passional, come-ando por afirmar que sustentabilidade, no importa em qual acepo for tomada, traz em si a ideia de sobrevivncia ao longo do tempo. Sobrevivncia de uma empresa, de um nicho ecolgico, de um pas e da sociedade humana tal como a concebemos.

Esse tema surge com intensidade crescente nos ltimos trinta anos em virtude dos mltiplos problemas ambientais e sociais decorrentes de muitas aes inadequadas cometidas de forma sucessiva e ininterrupta, principalmente a partir do incio da Revoluo Industrial no sculo XVIII.

A pegada humana no planeta tem se mostrado de tal forma perniciosa vida em suas vrias manifestaes, incluindo prpria vida dentro de nossa sociedade, que no mais possvel manter os paradigmas subjacentes a esses modelos que, visivel-mente, trazem o risco de afetar a nossa prpria sobrevivncia em condies minima-mente adequadas.

1. Sustentabilidade e a necessidade de um novo modelo de sociedade

e o que neste momento se revelar aos povos, surpre-ender a todos no por ser extico, mas por ter perma-necido oculto quando ter sido o bvio!

Caetano Veloso (na msica Um ndio)

As perturbaes no meio ambiente fsico e a deteriorao dos recursos naturais so as consequncias mais visveis e contundentes de modelos industriais, econmicos e polticos contrrios ao bem comum que vm sendo adotados em larga escala h sculos. Porm, apesar de muito srias, essas no so as nicas conseqncias negativas de tais modelos. A m distribuio de renda existente entre diferentes estratos sociais e naes outra de suas faces perversas, com consequncias srias para uma parcela significativa da populao mundial que vive numa situao de pobreza extrema.

Existem ainda diversos outros sintomas desses mesmos modelos como sistemas polticos dissociados das reais necessidades da sociedade, sistemas financeiros asse-melhados a cassinos globalizados (quando deveriam promover a gerao de rique-zas reais), disseminao de valores contrrios ao bem comum e valorizao do ser humano (como consumismo, hedonismo e imediatismo), tambm so aspectos dire-tamente ligados aos tais modelos que precisam ser revisados com a profundidade e a urgncia necessrias.

INTRODUO SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL | 25

1.1. Desafios centrais para a sociedade no sculo xxi

Como consequncia deste estado pernicioso vida e dignidade humana, a socieda-de atual se depara com alguns desafios de grande envergadura, os quais podem ser sintetizados em duas questes centrais:

Como e quando ser substitudo o modelo econmico vigente do lucro sem responsabilidade, que leva acumulao de riquezas numa ponta, e ao desem-prego e misria em outra?

Como e quando seremos capazes de substituir o paradigma dominante no uni-verso empresarial de crescimento ilimitado, que tem causado tantos impactos desastrosos ao meio ambiente?

Os fundamentos do crescimento ilimitado esto diretamente vinculados bus-ca do mximo lucro, sendo que esse comportamento dos agentes econmicos entra radicalmente em contradio com os princpios que governam a natureza e a vida. O modelo ainda vigente de crescimento ilimitado, em razo das limitaes dos recursos naturais e dos ecossistemas, bem como da interdependncia dos componentes do sistema global, leva ao comprometimento do sistema como um todo: o enriqueci-mento-crescimento em uma parte leva ao empobrecimento-deteriorao em outra.

Mantemos ainda hoje modelos e princpios que vigoram h sculos, remontando a pocas em que a populao humana era algumas ordens de grandeza menor: cem anos atrs, por exemplo, a populao mundial era cerca de cinco vezes menor que os atuais 7 bilhes de seres humanos, sendo que, individualmente, consumimos muito mais energia e recursos naturais. Ou seja, crescemos no s em quantidade, mas em voracidade de consumo. A demanda por recursos naturais nesse modelo de desenvol-vimento, portanto, cresce exponencialmente.

Alguns autores, como Alexandre King, comparam este crescimento exponencial indiferenciado de produo e consumo ao nico fenmeno equivalente na natureza: o cncer, que uma proliferao desordenada, descontrolada e desenfreada, que s tem a finalidade de se reproduzir indefinidamente at levar morte o prprio sistema que a abriga!

No Clube de Roma nos anos de 1970, mostrava-se que, se continussemos crescen-do exponencialmente, os bens econmicos deveriam se multiplicar por 500 at 2.100. Por esse motivo, as discusses do Clube de Roma foram no sentido de propor no a estagnao ou crescimento zero, mas sim a noo de crescimento diferenciado e qualitativo: um reajustamento do crescimento em escala mundial em busca do equi-lbrio e da recuperao progressiva dos mais necessitados.

Neste novo momento, h de ser repensado o princpio ainda dominante em pases, comunidades e organizaes: o interesse dos poucos pertencentes s classes domi-

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nantes se sobrepondo ao interesse comum. A busca do bem comum entendido como um estado em que os interesses coletivos so priorizados em relao aos indi-viduais, sem deixar de contemplar as reais necessidades de todos os envolvidos est implcita na noo de sustentabilidade. Assim, o que sempre foi apenas um ideal utpico de pensadores, religiosos e humanistas, hoje deve ser tema central na agenda de todo lder consciente: a busca do bem comum como caminho para um mundo eco-nomicamente vivel, ambientalmente equilibrado e socialmente justo (esse tema ser retomado na stima seo deste captulo).

Isso pode soar num primeiro momento como uma viso romntica da realidade, uma utopia inalcanvel. Porm, se considerarmos o esgotamento dos recursos naturais, a deteriorao de muitos ecossistemas, o nvel de misria em vrias regies do planeta, a falncia do sistema financeiro internacional (evidenciada por crises sucessivas e insol-veis), as crises dos sistemas polticos, entre outras mazelas caractersticas do nosso scu-lo, conclumos que tais problemas no comportam mais tergiversaes ou procrastina-es. Vrias fronteiras seguras j foram ultrapassadas e, nesses casos, s resta minimizar as sequelas de nossas transgresses, como, por exemplo, nos processos de aquecimento global da perda da biodiversidade, entre outros exemplos que podem ser citados. Temos a responsabilidade de evitar que outros limites seguros sejam ultrapassados.

1.2. Buscando os novos modelos sustentveis

Este texto no tem a pretenso de originalidade, mas to somente a de se somar a outras obras, como o livro A revoluo decisiva de Senge at al (2009), de onde foram extra-das as seguintes citaes, as quais esto ilustradas na Figura 1:

Como diz o provrbio, a gravidade no apenas uma boa ideia; a lei. A Bolha da Era Industrial transgride vrios aspectos da gravidade mais ampla do mundo natural. Ns, que vivemos dentro desta bolha, agora devemos reconhecer este fato para vis-lumbrar o caminho adiante. Veja, por exemplo, a maneira como, dentro da Bolha da Era Industrial, realizamos a tarefa de atender s necessidades fundamentais dos seres humanos por energia, alimentos e gua, alm de por produtos e servios

Durante uns dois bilhes de anos a vida floresceu na Terra com base numa fonte de energia: a radiao solar. Em contraste, 90% ou mais de nossa energia hoje produzida pela queima de combustveis fsseis.

Do mesmo modo, na natureza, quase toda a comida local Ao contrrio, nossos alimentos raramente so locais, percorrendo milhares de quilmetros entre o produtor e o consumidor

Na natureza no h desperdcios: todos os subprodutos de um sistema natural so nutrientes para outros sistemas naturais a nossa sociedade gera enormes quantida-des de resduos.

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Essas contradies se estendem maneira como a sociedade se organiza e define suas prioridades a busca por eficincia e por padronizao aos poucos desencadeou foras implacveis que promovem a homogeneizao, da mesma maneira como vem devastan-do a diversidade biolgica Em forte contraste com esse impulso pela homogeneizao, vemos em todos os lugares o amor da natureza pela diversidade e pela singularidade Durante milnios, as sociedades saudveis e duradouras fomentaram o senso de inclu-so e de segurana para que cada indivduo cresa e expresse seus dons e aspiraes nicos. Em contraste, dentro da bolha, o bem estar social geralmente se reduz a cresci-mento material, mormente expanso do PIB (Senge et al., 2009: 36)

Divulgar os problemas e as suas causas importante para conscientizao e mobili-zao, todavia, os textos aqui reunidos no se limitam a isso. Neles so buscados cami-nhos e apresentadas algumas propostas visando contribuir para o desenvolvimento de modelos industriais e organizacionais sustentveis. Entre os caminhos aqui discutidos para a sustentabilidade se destacam os seguintes:

Abordagem de cadeias produtivas de ciclo fechado, onde os fabricantes so res-ponsveis pelos seus produtos desde a sua origem (o bero) at o final da sua vida til (o tmulo).

Figura 1: Contradies dos modelos adotados pela sociedade moderna em relao na-tureza (Fonte: Senge et al., 2009: 36)

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Aprofundamento do princpio de desmaterializao do produto, onde as em -presas buscam lucros mais na prestao de servios do que na comercializao de bens fsicos (em substituio ao insustentvel princpio da obsolescncia programada).

Gesto do capital intelectual como ativo empresarial e econmico, uma vez que os processos a ele relacionados dependem fundamentalmente do fator huma-no, o que o torna um importante instrumento da sustentabilidade em suas dimenses ambiental, econmica e social.

nfase em estratgias competitivas baseadas em diferenciao, que dependem mais do capital humano do que as estratgias baseadas em minimizao de custos, que so subordinadas aos ganhos de escala, explorao comercial dos elos mais fracos na cadeia produtiva e ao uso intensivo de meios de produo automatizados.

Gesto de sistemas organizacionais com enfoque sistmico, contribuindo para a humanizao de empresas mantendo a sua competitividade.

Gesto integrada do composto de marketing para explorar nichos de mercado que valorizam produtos e processos verdes, inclusive atravs da utilizao de redes sociais e de outros mecanismos de interao, como no fenmeno social denominado de groundswell por Li e Bernoff (2008).

Coordenao de ecossistemas organizacionais para gerao e transferncia de tecnologias de interesse atravs do princpio das hlices triplas (integrao academia-empresas-governo).

Adoo das vrias formas de arranjos colaborativos que exploram as sinergias potenciais entre organizaes, tais como arranjos produtivos locais, gesto inte-grada de cadeia de suprimentos, redes organizacionais (como os recm criados no Brasil INCTs), integrao universidade-empresa e parques tecnolgicos.

Esses temas esto presentes nos vrios captulos que se seguem no presente livro, sendo que no ltimo apresentado um caso prtico ilustrativo da aplicao de vrios princpios e enfoques, em um projeto que visa apoiar a sustentabilidade de empresas brasileiras fabricantes de equipamentos eletromdicos.

2. Origem da necessidade de novos modelos: o imperativo ambiental

As duas ocorrncias abaixo so ilustrativas de procedimentos vigentes em nossa sociedade.

i. Com a alegao de que no existiam evidncias cientficas suficientes a respei-to dos malefcios do tabagismo, a indstria do cigarro prosperou durante anos como um setor econmico forte e pujante, geradora de empregos, impostos e divisas. Ainda hoje esta indstria tolerada, muito embora o tabagismo seja cada vez mais combatido, uma vez que so muito evidentes os problemas pro-

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vocados pelo vcio do cigarro, implicando em mortes e importantes perdas de qualidade de vida, impondo sociedade custos financeiros imensos na rea de sade, alm dos problemas diretos causados para o fumante e a sua famlia (fumantes passivos).

ii. Apesar dos esforos de vrios pases durante anos em torno do denominado Pro-tocolo de Quioto, 1 somente em 2009, aps o fim do governo Bush, vrias subs-tncias, como o CO2 e o CH4, foram oficialmente reconhecidas nos EUA como responsveis pelo efeito estufa. At ento, de acordo com o governo americano, no haviam evidncias cientficas suficientes sobre a relao de causalidade entre a emisso desses gases e o aquecimento global provocado pelo efeito estufa.

Ficam evidentes as semelhanas nesses dois eventos: como destacado na seo anterior, as decises so tomadas quase sempre para atender aos interesses de poucos grupos econmicos poderosos, em detrimento de toda a sociedade, muitas vezes de maneira cnica e agressiva ao bom senso, como nesses dois casos e em vrios outros que assistimos diariamente no Brasil e no mundo.

Os recursos naturais e os ecossistemas, que se constituem em um bem de toda a humanidade, vm sendo agredidos e dilapidados h dcadas com a conivncia dos governantes, em favor dos lucros econmicos de alguns poucos. uma situao mui-to semelhante ao mau uso que se faria se, perdidos em uma embarcao em alto mar, alguns poucos utilizassem de forma indiscriminada a proviso da gua e de alimen-tos necessria para a sobrevivncia de todos.

Os grupos e as pessoas que denunciam esta situao h dcadas, como o Greenpe-ace, por exemplo, so desqualificados e considerados como romnticos e excntricos. Mas, felizmente, hoje j existe um grande nmero de movimentos e obras vdeos, filmes, livros, estudos e palestras mostrando os equvocos, premeditados ou no, dos modelos atuais e propondo alternativas viveis.

A seguir, iremos destacar alguns aspectos que nos parecem mais importantes no contexto dos dois volumes deste trabalho, cuja nfase a gesto da sustentabilidade em sistemas organizacionais. 2

1 O Protocolo de Quioto um acordo internacional voltado para a reduo das emisses de gases de efeito estufa, visando prevenir uma interferncia humana perigosa para o clima de nosso planeta e que reconhece as mudanas climticas globais como uma questo que requer o esforo de todos os pases. Foi elaborado com o objetivo de regulamentar a Conveno Climtica e, assim, determinar metas especfi-cas de reduo de emisses de seis dos principais gases causadores do efeito estufa: dixido de carbono (CO2), metano (CH4), xido nitroso (N2O), hexafluoreto de enxofre (SF6), hidrofluorcarbonos (HFCs) e perfluorcarbonos (PFCs),a serem alcanadas pelos pases desenvolvidos. S entrou em vigor em feve-reiro/2005, depois da sofrida espera de muitos anos pela adeso de um nmero significativo de pases. 2 O presente livro o primeiro volume de dois trabalhos relacionados a esse tema. O segundo volume trata da relao entre sustentabilidade, gesto do capital humano e excelncia na gesto.

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2.1. Responsabilidade das organizaes e a questo ambiental

At bem pouco tempo, as empresas eram livres para atuar sem se preocupar com os impactos ao meio ambiente, visando unicamente o seu lucro e crescimento. Mas, o nvel de degradao dos nossos ecossistemas chegou a situaes to alarmantes que a sociedade e seus governantes viram-se obrigados a reconhecer que a questo ambien-tal no simplesmente uma questo de carter ideolgico: trata-se de limites fsicos, cujas transgresses resultam em consequncias danosas para todos.

Assim, comearam a surgir mecanismos efetivos de presso, como requisitos legais, que induzem as empresas a reformularem seus conceitos de negcios. Foi neste novo contexto que, visando refrear o apetite devastador das empresas, o desenvolvimento sustentvel foi definido em 1987, no documento denominado Relatrio Brundtland, 3 como sendo:

desenvolvimento que atende s necessidades do presente, sem comprometer a capacida-de de geraes futuras de satisfazer suas prprias necessidades.

Se a nossa sociedade fosse assentada em valores mais saudveis, esse modo equilibra-do e responsvel de conduzir o nosso desenvolvimento nem precisaria ser reafirmado: homens e mulheres responsveis sabem que fundamental pensar no futuro de suas crianas, da sua comunidade, do seu Pas e da sua espcie. A necessidade de se alertar para a sobrevivncia das prximas geraes , em si mesma, reveladora de que h algo bastante errado nos modelos que estamos adotando. Assim, o alerta contido no Relat-rio Brundtland pode ser reescrito de um modo mais explcito e contundente para:

a nossa viso de curto prazo ir acarretar a destruio no longo prazo.

2.2. Desenvolvendo novos padres mentais: do maniquesmo imediatista a uma atitude integradora

Churchman, em seu livro sobre teoria de sistemas aplicada soluo dos proble-mas socioeconmicos, afirma que:

3 O Relatrio Brundtland, como ficou conhecido o relatrio Nosso Futuro Comum, em referncia ex-primeira ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland, foi elaborado pela Comisso Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e faz parte de uma srie de iniciativas, anteriores Agenda 21, que re-afirmam uma viso crtica do modelo de desenvolvimento adotado pelos pases industrializados e repro-duzido pelas naes em desenvolvimento, ressaltando os riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte dos ecossistemas. O relatrio aponta para a incompatibilidade entre desenvolvimento sustentvel e os padres de produo e consumo vigentes.

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[] os lgicos dizem-nos que quando desejamos resolver problemas deveramos come-ar pelo processo de pensamento. A no ser assim pode acontecer-nos de enveredar por um caminho completamente errado em nossa explorao como se um homem que se achasse perdido embarafustasse pelo primeiro caminho que visse antes de comear a pensar em algum modo lgico de sair da dificuldade; mas, ento, j poder ser tarde demais (Churchman, 1972: 20).

Nesta mesma linha, Capra, no prefcio do seu famoso livro Ponto de Mutao, 4 destaca os sinais mais visveis da crise do modelo de desenvolvimento atual:

Estou convicto de que hoje nossa sociedade, como um todo, encontra-se numa crise Podemos ler acerca de suas numerosas manifestaes todos os dias nos jornais. Temos taxas elevadas de inflao e desemprego, crise energtica, crise na assistncia sade, poluio e outros desastres ambientais, uma onda crescente de violncia e crimes e, assim por diante. A tese bsica do presente livro de que tudo isso so facetas diferen-tes de uma s crise, que , essencialmente, uma crise de percepo (Capra, 1982: 13).

A nossa experincia profissional tem nos mostrado a verdade contida nas afirma-es de Churchmann e Capra. Percebemos que, para conduzir mudanas profundas em qualquer sistema, necessrio avaliar a prpria maneira de pensar o sistema, sob pena de comprometer a implantao das transformaes necessrias.

A sustentabilidade o estado natural de equilbrio dos ecossistemas: o ser huma-no que, com seus equivocados padres mentais e comportamentos nocivos, transgri-de esse equilbrio. Portanto, importante identificar tais padres mentais subjacen-tes s nossas aes, entre os quais destacamos os dois seguintes:

Viso tendenciosa e fragmentada da realidade em suas vrias manifestaes e denominaes, tais como, viso mecanicista, cartesiana, atomstica, no-sist-mica, entre outras;

Comportamento imediatista, que nos leva a supervalorizar as consequncias mais prximas em termos de tempo-espao, em detrimento da percepo dos enlaces existentes ao longo do tempo e do espao fsico.

Nossos modelos mentais so excludentes, parciais e muito limitados. Temos a ten-

4 O livro O Ponto de Mutao do fsico e pensador humanista Fritjof Capra uma obra pioneira ao es-clarecer para o grande pblico a necessidade de se pensar os problemas de forma holstica (ou sistmica). O autor consegue mostrar com didatismo e competncia as razes, as limitaes e os impactos produzidos pelos nossos atuais paradigmas nas cincias (fsica e biologia, principalmente), na medicina, na psicologia, na economia e em outras reas do conhecimento humano.

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dncia a uma viso maniquesta e desagregadora, onde impera o paradigma do ou isso, ou aquilo, como por exemplo, lucro ou humanizao, desenvolvimento eco-nmico ou preservao ambiental e outros similares. 5 Uma experincia pessoal vivi-da em 2003 ilustrativa disso.

Naquele ano, promovemos um evento reunindo pessoas da academia, de empresas e de governo sobre inovao para sustentabilidade, no qual foram debatidos temas como a necessidade de desenvolvimento econmico com equilbrio ambiental, meios para implantar o princpio dos 3Rs (reduzir-reutilizar-reciclar) e problemas ambien-tais como a contaminao por agrotxicos do Aqufero Guarani, uma das maiores reservas de gua doce do mundo. Ao final do evento, fui interpelado pelo Secretrio de Desenvolvimento de um dos municpios da regio dizendo que tudo isso era mui-to interessante e bonito, mas que a prioridade deve ser gerar empregos.

Aquele comentrio vindo na contramo de tudo o que estvamos procurando transmitir foi um choque de realidade que causou no primeiro momento uma rea-o indignada: aquela autoridade deveria ter entendido a mensagem bsica de bus-car o desenvolvimento econmico com equilbrio ambiental! Mas aquele coment-rio desagradvel foi til pelo seu aspecto revelador do mencionado modo de pensar mecanicista e desintegrado.

O outro padro a destacar o nosso comportamento imediatista, direcionado pelas nossas necessidades individuais prementes, em detrimento do nosso prprio futuro e da coletividade. 6 O modelo de hierarquia das necessidades humanas proposto por Mas-low (1954) no mbito das teorias motivacionais bastante esclarecedor a este respeito.

Segundo essa teoria, existe uma hierarquia interna inerente s pessoas que se inicia pela busca de atender prioritariamente as necessidades fisiolgicas, seguida, sucessiva-mente, pela busca de segurana, de reconhecimento social, de estima e de autorreali-zao. Trata-se de um poderoso processo subjetivo que modula nossos comportamen-tos e as nossas reais hierarquias de valores. Assim, as necessidades fisiolgicas, como saciar a fome e a sede, se sobrepem s necessidades de segurana, como garantir que teremos o almoo de amanh. Essas, por sua vez, se sobrepem de reconhecimento social e assim por diante.

Por este modelo, a tendncia do ser humano permanecer preso na busca por

5 A esse respeito, Edward de Bono, mdico e psiclogo maltense, publicou em 1990 pela Penguin Books um livro com o sugestivo e instigante ttulo I am right You are wrong. From this to the New Renaissance: from Rock Logic to Water Logic.6 Esse padro de comportamento imediatista est relatado de maneira simblica em uma das obras mais antigas da humanidade, atravs da histria de Esa e Jac contida no Genesis, o primeiro livro do Antigo Testamento. Nessa histria, que conta a origem do povo hebreu, Esa abre mo dos direitos de sua primogenitura em favor de Jac, seu irmo mais novo, em troca de uma sopa de lentilhas que ir saciar a fome que o acomete naquele momento. S depois da fome saciada que Esa se d conta do terrvel engano que cometeu, quando j era tarde demais.

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atender suas necessidades em um determinado nvel, at que ele sinta que conseguiu satisfaz-las. Isso talvez explique, em parte, a razo pela qual muitas pessoas buscam consumir e acumular riquezas numa quantidade muita acima das suas reais neces-sidades, demonstrando ser incapazes de superar os nveis de segurana e de reco-nhecimento social, em direo aos nveis de necessidades mais altas, nos quais so buscados relacionamentos humanos verdadeiros e profundos, e a realizao de ideais e de aspiraes nobres da vida humana.

Essa incapacidade de superar os prprios limites pessoais acarreta prejuzos tanto para o prprio indivduo que ter uma vida limitada pela falta de crescimento pes-soal e de relacionamentos emocionalmente enriquecedores como para toda a socie-dade, uma vez que o consumismo desenfreado e a busca por acumulao excessiva de riquezas esto na raiz da maioria dos nossos problemas.

Queremos com isso enfatizar que solues efetivas para a sustentabilidade devem considerar as caractersticas e as tendncias dominantes no ser humano. Um caso ilustrativo o Projeto TAMAR, considerado uma ao ambiental bem sucedida na proteo de tartarugas marinhas, espcie importante no ecossistema dos oceanos por ser um dos raros vetores de integrao entre as suas praias e suas profundezas.

Uma das principais ameaas para as tartarugas marinhas no Brasil eram os tar-tarugueiros, moradores das praias que tinham na comercializao dos ovos de tarta-ruga uma das suas nicas fontes de renda. Uma deciso importante para o sucesso do empreendimento foi, aps um trabalho de educao e conscientizao, contratar esses homens como agentes do prprio Projeto TAMAR, fazendo da preservao dos ovos a sua nova fonte de renda.

Essa ao integradora do Projeto TAMAR que, ao invs de negar ou repudiar a realidade da vida daquelas famlias que dependiam dos ovos para a sua subsistncia, trouxe-os para dentro do novo sistema, um princpio importante para se alcanar a verdadeira sustentabilidade.

2.3. Urgncia e irreversibilidade

grande a probabilidade de ocorrer frustrao se houver a expectativa de que as pessoas tenham espontaneamente comportamentos sustentveis. No se trata de se acomodar diante de comportamentos perniciosos, mas, de reconhecer as suas ori-gens mais profundas e trabalhar com inteligncia, competncia e perseverana para transformar a realidade, o que inclui (mas no se limita a) aes para conscientiza-o, sensibilizao e educao.

Para ter solues sustentveis efetivas preciso conseguir mobilizar as pessoas envolvidas, que a melhor opo ou, ento, haver respaldos legais eficazes, pois, infe-lizmente nem sempre possvel adotar uma soluo como a do projeto TAMAR, que integre de modo to harmnico todos os agentes envolvidos com a velocidade e a

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abrangncia necessrias. Muitos dos problemas planetrios exigem aes rpidas e contundentes, as quais s podem se viabilizar atravs da fora da lei.

Tomemos como referncia da necessidade de solues rpidas e profundas, o tra-balho desenvolvido em 2009, por uma equipe de 29 pesquisadores internacionais liderada pelo cientista sueco Johan Rockstrm, que estudou os limites para nove pro-cessos sistmicos essenciais do sistema terrestre, a saber: 1. acidificao dos oceanos; 2. alteraes no uso do solo; 3. carga de aerossis atmosfricos; 4. interferncia nos ciclos globais de nitrognio; 5. interferncia nos ciclos globais de fsforo; 6. poluio qumica; 7. taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha. 8. uso de gua potvel; 9. mudanas climticas.

A equipe de Rockstrm publicou em 2009 um estudo que d nmeros para esses limites (Rockstrm et al., 2009). Para o ciclo do nitrognio, por exemplo, o limite seguro para retirada desse gs da atmosfera de 35 milhes toneladas/ano, sendo os valores atuais o triplo deste limite aceitvel (antes da Revoluo Industrial a quan-tidade de nitrognio removido da atmosfera para uso humano era zero). A taxa de perda de biodiversidade, calculada em nmero de espcies extintas por milho de espcies por ano tem como valor limite 35 espcies extintas/milho.ano; o valor atual passou de 100. O terceiro processo sistmico cujo limite aceitvel j foi ultrapassado o referente s mudanas climticas.

O estudo afirma tambm que a humanidade est rapidamente se aproximando dos limites no uso de gua, na converso de florestas e de outros ecossistemas natu-rais (para uso agropecurio), na acidificao ocenica e no ciclo de fsforo. O consu-mo de gua potvel por humanos chegou a 2.600 km3/ano, perigosamente prximo ao limite sugerido de 4.000 km3/ano.

Infelizmente, nos outros processos sistmicos a situao no muito animadora tambm, destacando-se os seguintes comentrios:

[] Embora a Terra tenha passado por muitos perodos de alteraes ambientais importantes, o ambiente planetrio tem se mantido estvel pelos ltimos 10 mil anos. Esse perodo de estabilidade que os gelogos chamam de Holoceno viu civilizaes surgirem, se desenvolverem e florescerem. Mas tal estabilidade pode estar em risco [] Desde a Revoluo Industrial, um novo perodo surgiu, o Antropoceno, no qual as aes humanas se tornaram o principal condutor das mudanas ambientais globais (Rockstrm et al., 2009: 273).

Esses cientistas argumentam que transgredir uma nica dessas fronteiras plane-trias por um tempo demasiadamente longo o suficiente para promover alteraes ambientais abruptas e inaceitveis que sero muito danosas ou at mesmo catastrfi-cas sociedade. Alm disso, quando um limite derrubado, os nveis de segurana dos outros processos acabam sendo seriamente afetados.

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Portanto, imperioso que os processos de inovao sejam conduzidos sob a tima de princpios sustentveis, o que inclui o uso de tecnologias verdes, logstica reversa, consumo consciente entre outros.

3. Sociedade saudvel, economia sustentvel

O lanamento, em 1962, do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, conside-rado por muitos um marco para o entendimento das inter-relaes entre economia, meio ambiente e as questes sociais. Mas, foi em 1999, atravs do livro Cannibals with forks, de Elkington, que se consolidou a ideia de uma abrangncia ainda maior para o conceito de sustentabilidade, integrando dimenso ambiental as dimen-ses econmica e social, no que ficou conhecido como trip da sustentabilidade, ou enfoque dos 3Ps (das palavras inglesas Profit-econmico, People-social e Planet-ambiental) ou, ainda, enfoque triple bottom line.

O equilbrio dos aspectos ambiental, econmico e social, que est ilustrado na Figura 2, , no nosso entender, o fundamento para que sejam efetivamente alcana-dos os necessrios modelos de desenvolvimento sustentvel. Isso porque a sustenta-bilidade com enfoque triple bottom line , do ponto de vista socioeconmico, o estado que proporciona os melhores ganhos sistmicos a mdio e longo prazos, em funo

Figura 2: Integrao das trs dimenses no trip da sustentabilidade (enfoque triple bot-tom line)

Desempenho Econmico

EquilbrioAmbiental

Necessidadesda Sociedade

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das melhores condies para o uso racional dos recursos naturais, a minimizao dos impactos ambientais e o desenvolvimento humano.

3.1. Enfoque sistmico e sustentabilidade

Quer consigamos perceber ou no, os fenmenos ambientais, econmicos ou sociais so sistmicos, isto , existem interaes dinmicas entre vrios eventos; isso vale para uma famlia, uma empresa, uma comunidade e o mundo como um todo. Portanto, o estado de sustentabilidade requer, necessariamente, uma abordagem sistmica dos problemas, visando trabalhar nas causas-raiz e, assim, aumentar a probabilidade de se obter solues efetivas Para ilustrar, vamos analisar dois exemplos ilustrativos: a questo do trnsito catico nas grandes cidades e a produo em massa de alimentos.

Um bom sistema de transporte coletivo e uma engenharia de trfego competente podem minimizar os transtornos a quem precisa se locomover numa grande cidade. Porm, a causa primria dos congestionamentos a grande densidade populacional que tambm pode provocar uma srie de outros problemas graves como altas taxas de criminalidade, falta de moradia, desabastecimento de gua, baixa qualidade do ar, poluio sonora, aquecimento excessivo e enchentes.

Uma soluo mais sustentvel isto , mais racional, inteligente, eficaz e eficien-te para os problemas apontados no pargrafo anterior seria pensar em como dimi-nuir as altas concentraes urbanas que tornam a vida na sociedade to problemtica.

Mudando o eixo da abordagem do efeito (congestionamento, criminalidade, en -chentes etc.) para a causa (alta concentrao urbana) obtm-se melhores condies de encontrar solues que, em seu conjunto, so muito mais eficientes no retorno dos recursos alocados e mais eficazes no sentido de resolver os vrios problemas, e no ser um simples paliativo temporrio.

Um pequeno exerccio de clculo para ilustrar essa questo: se os 11 milhes de pessoas que moram no municpio de So Paulo, concentrados em uma rea de 1.500 km2 (densidade populacional de 7.300 habitantes/km2) 7 morassem em vrias outras cidades menores, com uma melhor distribuio geogrfica, haveriam importantes ganhos qualitativos e quantitativos em termos de: a) tempo de deslocamento; b) con-sumo de combustvel nesses deslocamentos; c) acidentes e mortes no trnsito (em 2010, na cidade de So Paulo, a cada dois dias morreram trs pessoas por acidentes de moto, alm de vrios outros com sequelas graves); d) problemas respiratrios (devido baixa qualidade do ar); e) vida social e familiar; f) criminalidade; g) saneamento pblico.

7 Se for considerada a regio metropolitana de So Paulo, com os 38 municpios que circundam a ca-pital, a populao chega a aproximadamente, vinte milhes de habitantes que vivem numa rea de quase 8.000 km2, o que d uma densidade populacional de 2.500 habitantes/km2.

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Mesmo sabendo que uma desconcentrao urbana desse porte tem pouca viabi-lidade de ocorrer a curto e mdio prazos, esses clculos so ilustrativos da insusten-tabilidade econmica e social dos nossos modelos atuais. O que ocorre que essas consequncias negativas no so percebidas de forma clara pela maioria das pessoas, seja por incapacidade, acomodao ou convenincia.

O outro exemplo ilustrativo das consequncias de uma abordagem parcial dos pro-blemas so os sistemas que adotamos para a produo em massa de alimentos que, entre outros problemas, fazem uso intensivo de agrotxicos, contaminando o solo, lenis freticos e trazendo problemas de sade. Os procedimentos empregados nas cadeias produtivas de alimentos esto gerando problemas que se avolumam a cada dia, entre os quais:

Uso de hormnios prejudiciais sade humana para aumentar a velocidade de crescimento de aves (como frangos, por exemplo) que nos servem de alimento; A escala de produo agrcola torna os preos dos alimentos mais baratos, porm o seu manejo exige altos volumes de agrotxicos (uma vez que as monoculturas so bem mais suscetveis s pragas e doenas), que contaminam os alimentos e o meio ambiente; A indstria pecuria uma das principais responsveis pela destruio de nossas florestas e pelo efeito estufa.

Um gestor competente sabe que preo diferente de custo. Se analisarmos as externalidades geradas pelos processos acima, talvez cheguemos concluso de que o aparente barato est saindo muito mais caro do que supomos.

Qual o custo real desses alimentos contaminados por hormnios e agrotxicos, se forem consideradas as externalidades dos processos associados, como os impactos na sade pblica e no meio ambiente? 8 Qual o custo real da carne bovina, se forem considerados os seus impactos no meio ambiente? Que modelo este que, para alimentar a populao atual, desalimenta as geraes futuras?

8 No trabalho de Soares (2010) intitulado Uso dos agrotxicos e seus impactos sade e ao ambiente: uma avaliao integrada entre a economia, a sade pblica, a ecologia e a agricultura foi feita a valora-o das externalidades negativas em sade associadas ao uso dos agrotxicos no estado do Paran. Os resultados indicam que os custos com a intoxicao aguda podem representar cerca de 64% dos benef-cios dos agrotxicos e, na melhor das hipteses, quando as caractersticas de risco dos estabelecimentos encontram-se ausentes, esses custos representam 8% dos benefcios.

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3.2. Teoria de sistemas e cooperao

A teoria de sistemas traz uma srie de conceitos que evidenciam o fato de que padres cooperativos so mais benficos para a coletividade. Ou, colocados em outros termos, a cooperao uma atitude intrinsecamente sustentvel, em suas duas acepes possveis:

Co-operar = coordenar aes & Cooperar = contribuir solidariamente

Um postulado da rea de pesquisa operacional mostra que o timo global dife-rente da soma dos timos locais. Esse postulado est na raiz da busca de solues, oti-mizadas dentro de um determinado contexto (o timo global), sendo aplicado para uma srie de problemas prticos nas organizaes, como na administrao de produ-o (qual o melhor sequenciamento de um sistema produtivo?), na rea de logstica de transporte (qual a melhor rota para os veculos?) ou de engenharia de produto (qual o melhor desenho para aproveitamento de tecido?), entre vrias outras.

Este postulado traz ensinamentos importantes, sendo o principal que o melhor para o todo (a empresa, a cidade, o pas) quase sempre diferente do melhor para cada parte vista isoladamente. O mesmo raciocnio se aplica quando pensamos a dimenso do tempo: a melhor soluo no ser encontrada considerando somente aspectos de curto prazo ou somente aspectos de longo prazo.

Ao pensar qualquer sistema, quanto mais abrangente conseguirmos ser, maior a probabilidade de alcanar a soluo otimizada.

Dois outros conceitos importantes da teoria de sistemas so sinergia e proprie-dades emergentes. Enquanto o primeiro diz respeito aos ganhos de escala de uma ao colaborativa (pois, onde h relaes sinrgicas, 1+1 mais que 2), o segundo revela os ganhos de escopo que emergem das relaes agregadoras entre elementos de um sistema. 9

3.3. Recursos naturais e concentrao de renda

Uma sociedade sustentvel aquela que faz uso dos recursos naturais 10 dentro dos limites de renovao dos ecossistemas direta e indiretamente afetados. esse princ-pio que est implcito na conceituao do Relatrio Brundtland que, ao contrrio de

9 Reduzindo nosso corpo aos elementos qumicos que o compem chega-se a um conjunto de compostos orgnicos, gua e sais minerais os quais, isoladamente, no apresentam nenhuma das propriedades do nosso corpo, como a capacidade de crescer, falar, se locomover, se reproduzir etc. Essas propriedades s emergem quando as partes so combinadas dinamicamente produzindo esses novos resultados. 10 Os recursos naturais podem ser renovveis, como a energia do Sol e do vento, ou no renovveis como o petrleo e os minrios em geral. J a gua, o solo e as rvores so potencialmente renovveis, desde que sejam respeitadas as suas taxas de renovao.

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algumas crticas feitas, no uma definio vaga e subjetiva. Existem limites fsicos nos ecossistemas que, se devidamente avaliados e mensurados, podem nos dar indi-cadores quantitativos do que um desenvolvimento sustentvel.

Mais uma vez estamos diante de uma dificuldade de natureza ideolgica e poltica e no de uma inviabilidade prtica, pois o desenvolvimento sustentvel requer impor limites ao crescimento desordenado e isso esbarra em pelo menos duas questes j mencionadas: crescimento ilimitado e concentrao de renda.

No faltam riquezas no mundo; o problema que elas esto muito mal distribu-das. Do ponto de vista econmico, nada mais insustentvel que uma distribuio de renda muito assimtrica, como a verificada principalmente em pases em desen-volvimento, como o Brasil, por exemplo. O Brasil um pas economicamente rico, com uma parcela significativa de sua populao abaixo da linha de pobreza. Essa legio de pessoas de grande vulnerabilidade social uma chaga aberta na sociedade que, alm de agredir o senso de tica humana e de justia social, produz consequ-ncias muito danosas do ponto de vista socioeconmico, entre os quais podem ser citados os seguintes impactos negativos sistmicos:

A desnutrio infantil acarreta sequelas fsicas e cognitivas irreversveis no indi-vduo, de modo que a criana desnutrida de hoje carregar durante toda a sua vida uma srie de problemas os quais, alm de prejudicar o desenvolvimento dessa pessoa, resultaro em altos custos socioeconmicos.

O analfabetismo torna essas pessoas pouco capacitadas para uma vida digna nas sociedades atuais, deixando-as com grande vulnerabilidades social.

A alienao poltica, que faz desses estratos sociais massa de manobra de pol-ticos que se sustentam exatamente da ignorncia de seus eleitores.

Pessoas sem poder aquisitivo no impulsionam a economia: um dos principais fatores atribudos para a dinamizao da economia brasileira nos ltimos anos foi o acesso ao mercado de parcelas da populao que estavam economicamen-te marginalizadas .

A lgica subjacente ao neoliberalismo econmico que dominou os mercados mun-diais durante os anos 90, pregada pelos pases de primeiro mundo e aplicada princi-palmente nos de terceiro mundo (onde o poder de manipulao das classes dominan-tes bem maior), o da livre empresa. No neoliberalismo selvagem se buscava, na verdade, a ausncia total de obstculos, o que significa barbrie e no liberdade.

Para uma distribuio de renda mais equnime no necessrio migrar desse neoliberalismo selvagem para sistemas polticos autoritrios e radicais, como foram as experincias comunistas do sculo XX, permeadas por altos nveis de corrupo, violncia e/ou agresso s liberdades individuais. possvel compatibilizar a livre ini-ciativa, que mobiliza o esprito empreendedor e criativo, com regulao social, atravs

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de uma srie de mecanismos efetivos, tais como um sistema tributrio que desonere o trabalho e cobre mais do capital acumulado, mecanismos de incentivo distribuio de lucros auferidos pela empresa, tais como, desonerao progressiva de impostos, privilgio em compras governamentais, reduo de encargos trabalhistas, entre outras medidas possveis.

No h nenhuma utopia nessas medidas, as quais j so adotadas em diversos pa-ses. So solues viveis tecnicamente, mas que dependem de vontade poltica e de uma viso mais sustentvel da vida em sociedade.

Os pases que melhor enfrentaram as crises na dcada de 90, segundo o Banco Mundial, tinham uma economia regulamentada ou dirigida pelo estado. Ou seja, aqueles pases que estavam no meio termo entre a abertura sovitica e a desregula-mentao selvagem do perodo Reagan 11 (o neoliberalismo). Fenmeno semelhante ocorreu no Brasil durante a crise econmica de 2008, pas que conseguiu minimi-zar os problemas econmicos atravs de uma poltica de distribuio de renda que aumentou o poder de consumo de classes socialmente menos favorecidas.

4. Sustentabilidade empresarial

A nfase nos dois livros que compem esta srie a gesto da sustentabilidade em sis-temas organizacionais, sejam esses pequenos empreendimentos, corporaes transna-cionais de grande porte, arranjos cooperativos, cadeias produtivas ou setores econmi-cos. Essa nfase de deve a concordarmos com a seguinte afirmao:

as organizaes constituem-se em um dos agentes centrais da concretizao de uma escolha de sociedade e dos relacionamentos humanos (Acktouf, 1996: 228).

As empresas e outras instituies so sistemas organizacionais de alta comple-xidade em contnua interao com o seu ambiente externo, de onde importam os recursos necessrios para a execuo de suas atividades e para onde exportam os seus produtos. 12 por isso que o sucesso de um sistema organizacional depende tan-to da sua capacidade de entender as demandas de seu ambiente de atuao, como da capacidade para se organizar (e, reorganizar-se) internamente para oferecer os produtos, sejam esses bens tangveis ou servios, que efetivamente possam atender a essas demandas.

11 Essa expresso se refere ao ex-presidente americano Ronald Reagan, a quem atribuda a seguinte frase: Government is not the solution to our problem. Government is the problem. 12 Vrios autores propem a empresa como um sistema em transformao, sendo que esse enfoque sis-tmico parece oferecer um meio efetivo de prover as capacidades estratgicas que so valorizadas pelos mercados atuais.

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4.1. O novo ambiente empresarial

O universo corporativo parece comear a perceber que mudanas profundas esto ocorrendo de forma inexorvel, e passa a incorporar estratgias e princpios mais alinhados com as propostas de um mundo sustentvel. Os principais pensadores da administrao trazem novas concepes de negcio, como Michael Porter, propondo uma mudana de criao de valor para o acionista para criao de valor comparti-lhado, no qual os interesses dos vrios stakeholders so contemplados. Ou Prahalad, que h anos mostra como atitudes cooperativas dentro e fora das empresas podem trazer resultados interessantes para os negcios. Vrios outros pensadores poderiam ser citados, alm desses dois cones da estratgia empresarial, como Kotler e Mintz-berg, por exemplo.

Mesmo empresas com impactos diretos ao meio ambiente relativamente peque-nos, esto iniciando a implantao de prticas e processos que sejam ambientalmente sustentveis. Por exemplo, uma empresa de servios que estimula seu funcionrio a no usar copos plsticos, ou que contabiliza a quantidade de carbono emitida nos transportes de seus funcionrios e na sua cadeia de valor.

Uma viso superficial e imediatista poderia considerar essas prticas incuas, frente aos grandes volumes de lixo e de outros poluentes gerados por indstrias de grande porte. Porm, essas pequenas mudanas podem mobilizar efeitos multiplica-dores com potencial para produzir impactos positivos em trs diferentes vertentes:

Na cadeia de valor onde a empresa se situa, em especial junto aos fornecedores das vrias camadas, que podem ser estimulados a se alinharem a esse princpio sustentvel.

Na sociedade como um todo, pois as empresas so importantes matrizes sociais, cujos vetores so seus funcionrios que podem disseminar prticas e valores para os outros grupos sociais a que pertencem (famlia, igreja, entre outros).

Na prpria empresa, na medida em que essas prticas simples so disseminado-ras de novos e saudveis valores e princpios, que tendem a permear de modo direto e indireto outros processos e comportamentos internos empresa.

Mas as transformaes no mundo empresarial so historicamente lentas pela pr-pria inrcia do sistema e, tambm, pelos seus fundamentos histricos. Segundo Acktouf (1996, 232), a cincia econmica, em especial os ramos neoclssico, marginalista, micro-econmico e economtrico, marcou a administrao moderna, a qual enxerga a socie-dade como uma coleo de produtores, consumidores e prestadores de servios. J a viso de sustentabilidade requer relaes mais enriquecidas, enxergando as pessoas como cidados, de modo a que o princpio de responsabilidade social seja parte inte-grante das estratgias de negcio e do modo de pensar das empresas e dos seus gestores.

Os estudos tradicionais da administrao no levam muito em considerao o

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porque e para quem, interessando-se primordialmente pelo como. Falta, por-tanto, a viso de responsabilidade socioambiental. Torna-se necessrio repensar as prticas e princpios em direo a uma gesto inteligente do futuro, como clama Acktouf. Neste novo enfoque, devem ser buscados novos conhecimentos alinhados com uma viso na qual administrar seja:

conduzir atividades integradas e interdependentes, destinadas a combinar meios (finan-ceiros, humanos, materiais etc.) para produzir produtos economicamente e socialmente teis e rentveis (Acktouf, 1996: 25).

Essa ruptura com os modelos gerenciais tradicionais vm sendo implantada com sucesso em diversas organizaes. Mas, provavelmente ainda teremos alguns anos antes que a ruptura das rupturas ocorra, isto , uma mudana fundamental de men-talidade nos negcios em dois aspectos centrais e inextricavelmente inter-relaciona-dos: os dirigentes verem trabalhadores como parceiros e no recursos; e, por sua vez, os sindicatos abandonarem a postura defensiva, adotando a estratgia da parceria.

4.2. Desafios para a Sustentabilidade Organizacional

O enfoque triple bottom line para sustentabilidade aplicado no mbito das organi-zaes resgata os princpios subjacentes a uma gesto de excelncia, na medida em que introduz a necessidade de pensar a organizao de forma holstica, equilibrada e responsvel.

A sustentabilidade organizacional pressupe o equilbrio no atendimento dos inte-resses e das necessidades de todos os stakeholders da organizao: clientes, propriet-rios, fornecedores, funcionrios e a sociedade como um todo, nos seus vrios estratos (comunidade circundante, segmentos sociais especficos, governo local e nacional, entre outros).

A anlise das relaes dos stakeholders de uma dada organizao com as trs dimenses do trip da sustentabilidade leva s seguintes reflexes:

Dimenso econmica, que contribui para o desenvolvimento dos cinco grupos de stakeholders: o sucesso econmico das organizaes, em especial aquelas do setor produtivo, um dos principais fatores para o desenvolvimento socioeco-nmico do Pas e beneficia toda a sociedade. A viabilizao econmica de uma organizao se d por meio da oferta de produtos que agregam valor aos seus clientes, vindo ao encontro dos interesses imediatos de seus proprietrios, na for-ma de retorno sobre seus investimentos, de seus funcionrios pela manuteno de bons empregos e de seus fornecedores, pela manuteno de seus negcios;

Dimenso social, com impactos diretos nos funcionrios e na sociedade: a res-ponsabilidade social que deve estar presente nas organizaes se reflete, em

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primeiro lugar, nas condies de trabalho oferecidas a seus funcionrios. Essas boas condies de trabalho iro beneficiar tambm a sociedade como um todo na forma de empregos qualificados, entre outros benefcios diretos e indiretos.

Dimenso ambiental, que impacta diretamente funcionrios e a sociedade: o equilbrio ambiental nos processos e produtos produzidos pela organizao de grande interesse para toda a sociedade, especialmente daqueles segmentos que so afetados mais diretamente, como os seus funcionrios e as comunida-des prejudicadas por eventuais impactos ambientais.

Uma gesto visando sustentabilidade requer a coordenao de diferentes com-petncias, uma vez que se lida com mltiplas variveis associadas aos diversos fatores tangveis e intangveis presentes nos sistemas organizacionais de interesse. Esses fato-res so de natureza humana, tecnolgica e organizacional, o que requer uma gesto integrada que articule um conjunto variado de recursos e de competncias (internas e externas) em diferentes domnios de conhecimento como, por exemplo, das enge-nharias e das cincias sociais aplicadas, entre outros componentes que constituem o capital intelectual das instituies do sistema organizacional em foco. 13

A idia de sustentabilidade contm em si os mais importantes princpios gerenciais que so o enfoque sistmico e a viso de longo prazo. Esses dois princpios trazem o melhor da natureza do mundo corporativo e, portanto, contribuem para reforar as boas prticas gerenciais, o que inclui aspectos como o senso de equipe, a percepo dos vrios efeitos de uma mesma ao, a identificao das mltiplas causas de um mesmo efeito, a identificao das repercusses futuras de uma ao presente, a percepo da interao dinmica da empresa com o seu ambiente, o enfoque multidisciplinar dos problemas, a integrao departamental, o respeito, entre outros itens.

5. A dimenso humana da sustentabilidade organizacional: ressignificao do trabalho e dos relacionamentos nas organizaes

Vrios exemplos histricos mostram que erros gerenciais evidentes podem ser man-tidos por longo do tempo, desde que este seja o paradigma dominante no mercado. Um dos mais ilustrativos exemplos ocorreu sob a gide do chamado milagre japons do ps-guerra. At o surgimento nas dcadas de 70 e 80 das grandes empresas japo-nesas (Sony, Toyota, Mitsubishi etc.), os paradigmas dominantes nas empresas eram foco na equipe de engenheiros (ao invs de foco no cliente), foco no produto (ao invs de foco nos processos), enfoque cartesiano (e no sistmico) entre outros.

Aos olhos de hoje so evidentes os erros gerenciais acima mencionados que eram

13 O sistema organizacional pode ser tanto uma empresa individual, como um grupo de empresas, um setor econmico, grupos de instituies em arranjos cooperativos (como redes organizacionais e INCTs) ou qualquer outro conjunto de organizaes.

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a regra no mundo corporativo at a dcada de 80. Acreditamos que esse mesmo fen-meno ocorrer dentro de alguns anos, quando for analisada a maneira pela qual o fator humano ainda hoje (pouco) considerado na maioria das empresas.

As unidades constituintes de qualquer sistema social, como so as empresas e os demais tipos de organizao, so os seres humanos. Portanto, a ignorncia a respei-to da natureza humana e a desconsiderao de suas necessidades constituem-se em importantes lacunas de competncia gerencial. A manuteno de empresas com tal dficit de competncia nos mercados atuais s se explica pelo fato de que essa mesma anomalia ocorre na maioria das empresas, ou seja, o paradigma dominante ainda o da viso tecnocrtica, nivelando por baixo o desempenho das organizaes.

Numa perspectiva de recursos, o funcionrio pode transcender as sua condio de mera mo de obra, tornando-se do valioso capital intelectual. Para isso, necess-rio que ele compartilhe dos valores e/ou interesses comuns predominantes naquela organizao. Caso contrrio, como ele dotado de livre arbtrio, seus interesses iro divergir dos demais indivduos e, neste caso, na melhor das hipteses, ele ir se manter alheio s necessidades da empresa. Na pior das hipteses, ele ir trabalhar contra os objetivos comuns da organizao como, de fato, ocorre atravs de erros conscientes e no conscientes, o que demonstrado por estudos feitos na rea de confiabilidade humana razo pela qual o sistema dever canalizar recursos para sustentar meca-nismos de coero e controle, os quais impactam negativamente a sua eficincia.

Para que uma organizao seja mais humanizada no necessrio eliminar as divi-ses tcnicas de trabalho ou os nveis hierrquicos. Essas estratificaes so naturais, inerente s organizaes sociais e, muito embora possa haver excees, no so ruins em si mesmas. O real problema existente nas organizaes modernas, que tm origem na prpria forma como as primeiras empresas foram estruturadas no sculo XVIII durante a Revoluo Industrial, o trabalho alienado.

A alienao (ie., corte, separao, estranhamento) pode ser explicada por qua-tro cortes determinantes que clareiam os fundamentos do trabalho alienado: entre o trabalhador e o ato de trabalhar, entre o trabalhador e o produto resultante do seu trabalho, entre o trabalhador e o empregador (que deu origem s lutas de classe) e, entre o trabalhador e a natureza.

Segundo Acktouf (1996: 107), O ato humano, por excelncia, o ato do trabalho!. Portanto, a alienao (corte) entre o trabalhador e o trabalho, o mais importante e o mais pernicioso, pelas implicaes psicolgicas e motivacionais. Origina-se na espe-cializao do trabalho e est na origem da viso unicista de criao do valor econ-mico, onde o ato de produo guiado pela lgica do crescimento e no do bem-estar da sociedade. quando o ser humano passa a vender a sua fora de trabalho e no o resultado do seu trabalho.

Dejours (2009) afirma que o trabalho possui papel central na construo da iden-tidade dos indivduos e para a sua sade mental. Portanto, as condies no trabalho

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podem afetar vrios aspectos da vida das pessoas (familiar, cidadania etc.), alm de outras possveis repercusses em sua sade fsica e mental. O sistema nervoso central do ser humano feito para agir, no para ser inibido, sendo de uma complexidade inusitada, concebido para situaes ricas e variadas, razo pela qual se demonstra que manter um trabalhador no mais baixo grau de suas capacidades provoca sofrimentos e somatizaes.

Existem tambm numerosas formas de violncia simblica que os nveis hierr-quicos descarregam uns sobre os outros, para compensar os seus prprios problemas, tais como, o exerccio patolgico da comunicao, pela recusa em dar a palavra, pelo abuso da autoridade ou pelas prticas de controle e regras degradantes.

5.1. Humanizao dos negcios: integrando competitividade e viso social

Uma empresa mais humanizada desejvel e possvel e isso no um ideal romntico, nem utopia, nem filantropia gratuita, mas, uma necessidade.

Acktouf cita, ainda, frases do bilogo Albert Jacquard, reveladoras da insusten-tabilidade de nossos valores, como por exemplo: Enfraquecer seu semelhante ou a natureza enfraquecer sua espcie e a si mesmo! ou O homem a nica criatura cuja natureza combater sua prpria natureza!.

Na lgica da qualidade total, que esteve na raiz da extraordinria recuperao japo-nesa no j mencionado milagre do ps-guerra, vale a primazia do capital humano, mesclando temas como esprito de equipe, valores compartilhados, projeto comum, grupos de negociao (como Crculos de Controle de Qualidade), alm de outros temas emergentes, como ecologia, tica, coeso, iniciativa e criatividade. Foi sob a gide da qualidade total que surgiu a noo de responsabilidade social corporativa.

A viso ocidental de luta foi contraposta pelas empresas japonesas que, sob a batu-ta do Ministry of International Trade and Industry (MITI), praticavam a colaborao e o intercmbio de descobertas, tornando possvel criar uma sinergia industrial e uma massa crtica de colaborao que permitiu reduzir duplicaes e desperdcios.

importante destacar que, nesta viso sinrgica, no se questiona o princpio da concorrncia. O que se questiona o aspecto disfuncional da corrida pelo mximo, sob o pretexto da concorrncia, que leva a desperdcios de recursos humanos, natu-rais e energticos!

Esse contexto cooperativo torna o ambiente organizacional mais propcio cria-tividade, com funcionrios comprometidos, ativos e pensantes. A seguinte frase de Deming, um dos maiores pensadores da qualidade total, sintetiza esse modo de agir: work smarter, not harder.

A empresa inteligente to procurada uma combinao das diversas intelign-cias individuais, impelidas pelo desejo de colaborar. A sinergia da reunio dos cre-bros para ter maior capacidade criativa, nica maneira de enfrentar os desafios da

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complexidade, um dos principais desafios dos dias de hoje.Ainda segundo Acktouf o respeito dignidade do ser humano um leitmotiv,

isso , um motivo recorrente que deve nos orientar. Assim, chegaremos a empregados mais bem formados, serenos, saudveis, cooperativos, responsveis, presentes e cria-tivos. Para isso, Acktouf acredita em um humanismo como sendo a busca de uma concepo humana do homem, baseada nas grandes escolas do pensamento, sendo as seguintes bases essenciais desse humanismo:

i. Considerar o ser humano como tendo autoconscincia, com aspiraes ao prprio engrandecimento, centrado no seguinte princpio: o homem no um meio para alcanar um fim, mas ele carrega em si sua prpria finalidade.ii. Homem como um ser fundamental de sociedade, de relaes com seus semelhantes.iii. Extinguir a alienao do trabalho (que uma fonte de desumanizao). O homem deixa de vender a sua fora de trabalho e passa a vender o resultado do seu trabalho, que uma expresso de ato criador.iv. Estabelecer uma posio humanista que tenda para uma teoria do sujeito, 14 em oposio s teorias dominantes na administrao que faz