Monografia Revisada

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Instituto de Filosofia e Cincias Humanas Departamento de Cincias Sociais Faculdade de Cincias Sociais

Luane Bento dos Santos

Para ficar bonita tem que sofrer! A construo de identidade capilar para mulheres negras no Nvel Superior.

Rio de Janeiro 2010

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BANCA EXAMINADORA _____________________________________ Professor Orientador _____________________________________ _____________________________________

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AGRADECIMENTOS Primeiro queria agradecer como religiosa (candomblecista) aos meus ancestrais, pois sem eles no chegaria no espao acadmico numa discusso de identidade. Sou religiosa, acredito no mundo mtico, acredito em milagres, minha religiosidade faz parte dos conjuntivos de minha identidade negra. Por isso agradeo a Olodumar, o criador de todos os orixs; a Oxal, o mais velho orix e criador do homem; a Iemanj, deusa do mar e me das cabeas, ao meu santo de frente, meu amado e querido paizinho Omolu, que me ensinou a esperar; a minha me Oxum que me acalmou e me deu uma casa com paz para estudar; ao meu Preto Velho, a minha Preta Velha, a Vov Cambina das Almas pela simpatia ensinada; aos Ers, as Crianas; ao Oxossi do meu Pai de Santo pela demonstrao de afetividade, ao meu Pai de Santo pelo carinho, as Pombagiras e Malandros pelos recados. Enfim a todo o mundo espiritual que sou herdeira so esses os primeiros que devo agradecer por saber que sem eles no estaria aqui e no perceberia tantas coisas importantes e existncias para minha vida. Em segundo, e no com menor valor, mas ao que se refere ao plano fsico-material, a minha me carnal que sempre me amou, me cuidou incansavelmente e me ensinou a tranar. Me colocou tantas vezes diante do espelho e me falou que era negra e que deveria aprender a me amar como era. E que hoje valoriza minha esttica afro e da esttica afro tambm faz usos com seus lindos dreadlooks. Ao meu pai carnal, o primeiro homem a me chamar de bela e que me ensinou a ter orgulho de possuir cabelos tranados e a pele negra. A minha prima Walnice que quando eu era pequena, com sua habilidade de tranadeira me tranou e desenhou em minha cabea inmeras possibilidades de tranas. A minha av materna por me mostrar o caminho da religio, o caminho da esttica negra sem discusses polticas acadmicas, apenas como hbito e tradio herdada. Ao meu irmo por me proteger durante toda infncia, por nunca te me maltratado com agresses fsicas e verbais e por ter me ensinado a refletir sobre ser negro no Brasil atravs dos grupos negros que fez parte e atravs das msicas reggae e rap. Agradeo a minha famlia pelo fato de me passar tantos valores, que foram importantes para eu me guiar no mundo e me tornar de fato uma mulher negra. Agradeo ao Movimento Negro s pelo fato de existir e ter lutado pelas Aes Afirmativas para Negros, pois sem elas eu no cursaria Cincias Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Agradeo ao Movimento dos Negros CENEGA (Coletivo de Estudantes Negros e Negras do Rio de Janeiro); DENEGRIR (Coletivo de Estudantes Negros da UERJ); Aqualtune (Associao de Mulheres Negras do Rio de Janeiro) por colaborarem em meu crescimento pessoal, subjetivo e identitrio com as reunies exclusivas apenas para negros e negras. Agradeo tambm aos amigos e amigas que me ouviram com minhas lamrias, com minhas aflies em torno da monografia: Vanessa Menezes, Mariana Almeida Reis, Nilma Gama, Carla, Marjore, Ana Luisa Nalui ou adolescente para os ntimos, Joni, Bruno Roza, Georgina e Snia Ribeiro. Aos amigos que me ajudaram a pensar o objeto de estudo, que me incentivaram a estudlo Hugo, Humberto, Fabiana, Erivelton, Cludia Miranda, Carmem e Rodrigo Reduzino. Agradeo aos intelectuais negros que produziram obras de referncia para esse trabalho. Agradeo aos meus professores do Ensino Fundamental e Mdio por me proporcionarem conhecimentos que me incentivaram ao pensamento crtico possibilitando a minha chegada ao Ensino Superior na Graduao de uma Cincia Humana. Agradeo a minha orientadora, Simone Pond Vassallo, por me aceitar e colaborar na minha pesquisa bibliogrfica e ficar horas me orientando em meio a minha disperso ao meu prprio tema. 3

E agradeo principalmente as entrevistadas porque sem elas nada disso seria vlido, porque sem as suas vozes, sem os seus relatos eu faria uma monografia terica cheia de vis, uma monografia que pelo tema no poderia ser escrita sem ouvir e considerar as falas das mulheres negras.

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DEDICATRIA

Dedico este trabalho a minha av Maria das Neves dos Santos Bento. Preta Velha Ancestral!

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RESUMO (SANTOS, Luane Bento dos. Para Ficar bonita tem que sofrer! A construo de identidade capilar para mulheres negras no nvel superior.) Este trabalho tem como objetivo investigar de que forma mulheres negras, inseridas no nvel superior, construram identidade negra para seus cabelos crespos. Para isso abordaremos pontos que elas destacam como importante em suas vidas, pontos de conflito racial, que causaram uma identificao negra por vias negativas. De tal modo que a identidade negra, a construo sobre cabelos foi estabelecida em dois momentos. Para entendermos esses momentos trabalharemos com os mecanismo de construo de identidade que passam pela representao, identificao, sinais diacrticos, essencialismo, esttica, linguagem e histria.

Palavras-Chaves: Identidade Negra, Mulheres Negras, Cabelos Crespos, Esttica, Antropologia.

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ABSTRACT This work aims to "investigate" how black women entered in Higher Education, black identity constructed for her curly hair. To discuss this point that they stand out as important in their lives, points to "racial conflict", which caused a negative way for black identification. So that the black identity, building on hair was set on two occasions. To understand these moments work with the mechanism of identity construction that are the representation, identification, diacritics, essentialism, aesthetics, language and history.

Keywords: Black Identity, Black Women, Curly Hair, Aesthetics, Anthropology.

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SUMRIO INTRODUO...............................................................................................................................9 1. A CONSTRUO DE IDENTIDADE.....................................................................................16 1.1 Identidade e Estado Moderno................................................................................................ 1.2 Identidades negras brasileiras................................................................................................ 2. MULHERES NEGRAS: CONDIES HISTRICAS E SOCIAIS..................................... 2.1 Sobre Mulheres Negras....................................................................................................... 2.2 Das consideraes histricas................................................................................................. 2.3 Das consideraes sociais..................................................................................................... 3. SOBRE CABELOS....................................................................................................................23 3.1 Cabelo e Sociedade................................................................................................................ 3.2 Cabelo e poltica: um pequeno balano dos movimentos polticos em torno do cabelo negro............................................................................................................................ 4. O PODER DO CABELO: A IMPORTNCIA DO CABELO NA CONSTRUO DE

IDENTIDADE DE MULHERES NEGRAS...............................................................................40 4.1. Cabelo crespo e o mito da Cinderela loura.......................................................................... 4.2 Cabelo crespo e escola............................................................................................................ 4.3 O cabelo como fardo!............................................................................................................. 4.4 Na fuga do fardo: problemas de sade................................................................................ 5. AS IDENTIDADES CRIADAS..................................................................................................64 5.1 Descobrindo a construo de duas identidades em torno dos cabelos crespos negros.............................................................................................................................................. 5.2 Identidade negra sobre cabelos crespos quimicamente tratados................................... 5.3 Identidade negra sobre cabelos crespos afro................................................................ CONCLUSO........................................................................................................................77 REFERNCIA.......................................................................................................................81 ANEXOS................................................................................................................................

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INTRODUOA esttica, pensar o belo no faz parte somente das preocupaes dos povos europeus. Maquiagem, pintura e embelezamento so preocupaes antigas dos povos africanos. E por isso no devem ser esquecidas e inferiorizadas e sim valorizadas. Isso faz parte da nossa identidade negra, de nossa herana e ancestralidade! (Snia Ribeiro, sociloga, pesquisadora e militante negra, Recife, PE, 2009)

A escolha do objeto

O objetivo desse trabalho desde que foi iniciado era interpretar, atravs da investigao dos casos pesquisados, de que forma mulheres negras construram identidade corprea sobre seus cabelos crespos. Os questionamentos em relao a esse tema partiram de um processo particular da pesquisadora. Como mulher negra, militante de algumas organizaes dos Movimentos Negros e tranadeira h mais de sete anos tive uma relao muito intensa com mulheres negras universitrias, que me procuravam para tranar seus cabelos e aprender modos de cuid-los, quando estes se apresentavam com procedimentos qumicos ou sem procedimentos qumicos. Nessas relaes, eu no apenas tranava os cabelos num processo silencioso, geralmente, ouvia muitas falas que me estigavam a refletir sobre porqu eram to parecidas, to iguais e em alguns casos colocavam o cabelo crespo num mesmo lugar comum1. Durante os seis anos em que cursei Cincias Sociais na UERJ (Campus Maracan), tive inmeras clientes e amigas, que me procuravam para tranar seus cabelos ou para aprender a tranlos comigo. Muitas delas eram de algumas organizaes negras, outras eram simpatizantes de grupos como o DENEGRIR e o no mais existente CENEGA. Todos em que participei por algum tempo. Quando elas no eram desses grupos, eram amigas de militantes, de simpatizantes ou de colegas de curso de extenso de Histria Negra, que fiz na UERJ nos anos de 2003 a 2006, ministrados pelo PROAFRO (Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afro Americanos), SEMPRE NEGRO-Coletivo de Professores Negros da UERJ e pelos ESPAOS AFIRMADOS2. E quando no eram colegas ou amigas de colegas do curso de Histria Negra eram colegas de Curso (Cincias Sociais). Tive todos os tipos de clientes durante esse perodo: homens negros, mulheres negras e mulheres brancas. Porm, as mulheres negras eram as que mais queriam conversar comigo sobre as1

Ocabeloerasemprevistocomofeio,duro,ruimemuitodifcildesercuidado. OsEspaosAfirmadoseraumprojetodoLaboratriodePolticasPblicasLPPdaUERJ.Oprojetovisavainstrumentalizaos alunosdasGraduaesdeCinciasHumanas,oriundosdosistemadeAesafirmativasparanegroseescolaspblicas,com cursosrelativosareadePolticasPblicas.

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relaes que tinham desenvolvido com seus cabelos, em alguns momentos e eu me sentia at um pouco psicloga3. Muitas mulheres que me procuravam alm de estarem interessadas em tranar os cabelos 4, me procuravam num processo que eu entendo como de identificao. Como desde que iniciei o curso de Cincias Sociais optei, particularmente, pelo uso de cabelos com penteados afro sem nenhum tipo de procedimento qumico, sempre era vista como a menina negra de cabelos bem crespos que queria agredir as pessoas com seu visual; ou como a menina que sentia-se mais negra s porque usava o cabelo com inmeras formas de penteados afro, como a menina negra que regrediu e estava usando os penteados que as mulheres negras s usavam na infncia ou como a menina negra que optou por uma esttica alternativa extica porque cursava Cincias Sociais. Eram inmeros os questionamentos em torno da minha esttica pelas mulheres negras. Devido ao fato de eu ter cabelos considerados muito crespos, muito duro ou aquele bem prximo do negro africano duro mesmo. Utiliz-los soltos em modelo black power ou com penteados afro era algo que trazia questionamentos a todos os tipos de mulheres que tranavam comigo. Se no eram elogios concebidos, segundo elas, pela minha coragem, eram questionamentos que acreditavam que meu cabelo era muito ruim e que eu s usava assim porque estava em Movimentos Negros. Os questionamentos, as longas conversas que tinha em muitos casos antes de comear a fazer os cabelos ou quando era procurada pela cliente para a realizao dos penteados, foram provocando em mim uma curiosidade de interpretar de que forma ocorria o fenmeno social de considerar que cabelos crespos so inferiores. Os questionamentos delas tambm eram uma forma de identificao como tinha falado porque eles partiam de uma semelhana que elas viam na minha figura com os seus corpos. Uma semelhana que (em muitos casos) procuravam negar nas falas afirmando que meu cabelo era mais ruim do que o delas. E na maioria das situaes, os cabelos das clientes ou amigas eram iguais ou muito prximos aos meus. Essa negao partia, acredito, da identificao comigo em relao cor, a ter a mesma faixa etria e por freqentar o mesmo ambiente5. Por isso aos poucos procurava realizar desconstrues de pensamentos de que os cabelos crespos eram ruins e difceis. Mas alm de uma identificao que procurava negar as proximidades, muitas me3

Comotranavaemalgumassalasdafaculdade,noCentroAcadmicoounasSalasdoEspaoAfirmado.Oambiente acabavamelembrandoumasaladeterapia.Geralmenteeraapenaseueaclientequeficvamosnassalasass. Porquetranarnaquelemomentoestavanamodaeeraumaformasegundoelasdesentiremmaisnegrasebelas. Universidade.

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procuravam na tentativa de entender como eu consegui chegar ao estado de no mais utilizar qumica, como eu podia toda semana estar com um penteado diferente, como eu aprendi a tranar cabelos de outros, os meus prprios e quem era a responsvel por me ensinar s tcnicas de tranas com cabelos crespos. Eu gerava muita curiosidade pela minha aparncia e segundo as clientes pela habilidade em tranar. Em alguns casos as pessoas achavam que era de algum pas africano, porque alm de andar com penteados afro usava roupas que remetiam a uma indumentria afro. Quando dizia que meus parentes africanos tiveram origens pelo navio negreiro, que nenhum at onde soubesse era de geraes prximas mais intrigadas elas ficavam. Acredito que isso se deva ao motivo de que tranar cabelos nas famlias negras tem sido uma coisa perdida, no mximo as tranas realizadas so tranas soltas, tranas nags so pouco feitas porque as prticas de tranar vo sendo no cotidiano reduzidas6. Assim aos poucos eu fui pensando sobre o tema. As relaes vivenciadas anteriormente foram me levando a curiosidade cientfica de investigar essas relaes. Em 2007, no ms de agosto, fui convidada a ministrar aulas de Cidadania, Conscincia Negra e Tranas num Centro Juvenil em Niteri7. Ali ministrei aulas por seis meses para crianas e adolescentes. Pelo Centro, tive a oportunidade de realizar um curso de cabeleireiro, que foi o ponto crucial para a escolha do tema. Dentro do Centro o meu cabelo e a minha indumentria causavam os mesmos estranhamentos vivenciados no meio acadmico, as crianas (curiosas) queriam saber o porqu eu era assim. No curso de cabeleireiro a mesma coisa, porm l 8 a maioria das mulheres eram negras e obcecadas em aprenderem tcnicas de alisamento dos cabelos crespos. As brancas tambm queriam aprender com interesse no mercado, que elas diziam ser muito amplo e com possibilidade de investimento e retorno rpido. Diferente das brancas, as negras no queriam apenas o retorno do investimento de gastar com produtos, objetos e as horas de aulas. Elas desejavam, naqueles dias de curso, encontrar solues quase que definitivas para a ruindade dos cabelos. Elas perguntavam a professora, que tambm era negra, se no haveria estudos na rea de cosmticos que criassem produtos que mudassem de vez a textura dos cabelos crespos para lisos ou quase. Foram momentos dificeis para mim. O curso tinha cerca de dez alunas e ocorria uma vez na semana durante cinco horas, no6

PelomenosnoscontextosemquetivecontatoenoscontextosdoEstadodoRiodeJaneiro. Cidadeemquevivo. NaFundaoNeiltonMolinemSoGonalo,umcursogratuitocomduraodequatromeses.

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segundo andar da Fundao Neilton Molin. Eu para me proteger ia sempre de cabelos tranados para que meu cabelo nunca fosse alvo do dia da transformao9. Nos dias da transformao me era sempre perguntado: Quando voc vem de cabelo solto para agente (alunas) poder passa um relaxante, depois escovar e fazer o antes e depois 10? Eu s ria e dizia: Perto do trmino eu realizo o sonho de vocs. Mas nunca aconteceu. O curso e a experincia de dar aulas para as crianas. possibilitou-me ter certeza que, de fato, a linguagem associada aos cabelos crespos e as formas que eram manipulados era um fenmeno social. No cabia, como eu acreditava, apenas rea de Psicologia, mas que tinha espao para ser estudado na Antropologia. A minha primeira preocupao, depois de ter certeza que poderia estudar o tema, foi de que forma eu iria sistematiz-lo se at aquele momento eu no tinha anotado e gravado nada sobre o que pensava. Eu no tinha comeado a fazer um caderno de campo nem mesmo por exerccio 11. Ali vi que tinha um problema grave a resolver. Naquele momento eu j fazia alguns levantamentos bibliogrficos sobre o tema, e como militava desde 2004 no Movimento Negro tinha por hbito ler artigos e livros relacionados questo negra. Eu sabia que os materiais sobre a rea eram escassos em considerao a outros temas como Sade do trabalhador que tm muita coisa produzida na rea de Sociologia do Trabalho 12 e outras cincias. Sabendo da falta que o Dirio de Campo me fazia, comecei a pensar de que forma eu construiria o objeto, mas considerei que o uso do caderno de campo tem uma peculiaridade. Primeiro no me adiantaria ter um caderno de campo se eu ainda no sabia exatamente o que do tema eu queria investigar. Eram muitas coisas envolvidas dentro de um tema s. Eu podia investigar de que forma cabeleireiras (os) negras se relacionam com seus cabelos ou com cabelos de outros, de que forma o cliente negro (a) v seus cabelos em sales tnicos, como as (os) meninas (os) do Centro Juvenil negras(os) viam seu cabelos crespos13 ou o meu cabelo, de que forma negras(os) pensam seus cabelos e relacionam-se com eles, de que forma minhas clientes viam seus cabelos, de que forma militantes viam seus cabelos, de que forma minhas colegas negras de graduao viam seus cabelos, entre outras perguntas que poderiam ser realizadas e que eu no teria pensado.9

OdiadaTransformaoeraaqueleemqueumaalunaeraescolhidaousedispunhaaparticipardaaplicaodealgumatcnica deprocedimentosqumicosemseuscabelos. Momentoemquesetirafotosdaaplicaodeprocedimentosqumicos. MesmoqueesseexerccionofosseparaumTrabalhodeFinaldeCurso.Eunotinhatreinado. Tiveaoportunidadedefazer estgioemSociologiadaSade edoTrabalhocomoProfessorCarlosMinayo,pesquisadore socilogodaFIOCRUZ,vinculadaaminhagraduaodeBiblioteconomiaeDocumentaoUFFnoanode2009.Ondeeu levantavaartigos,dissertaes,tesesemonografiassobreotemaemtodasasdisciplinasqueeleconciliase.Apesquisaque realizeidurouemmdiasetemeses.Nelalevanteicercadequinhentostrabalhostratandodotema. AmaioriadosalunosdoCentroJuvenileramnegrosoriundosdeComunidadesFavelasdeNiteri.

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Terminei o curso, fui mandada embora do Centro que era Catlico, por no comungar do catolicismo e nem ler a bblia para as crianas antes de comear minhas aulas. Aps essa experincia em 2008 finalizava as matrias do Bacharelado e Licenciatura. Nesse ano escolhi que trabalharia com entrevistas, porque no sabia utilizar outro mtodo que no fosse prximo a minha experincia pessoal. A deciso pelas entrevistas passou tambm pela influncia de dois livros utilizados nesse estudo, Sem perder a raiz: Corpo e cabelo como smbolos de identidade negra, de Nilma Lino Gomes e Tornar-se negro, de Neusa dos Santos Souza 14. O primeiro livro resultado de uma tese em Antropologia Social, o segundo de uma Dissertao em Psicologia Social. Neles o mtodo de estudo preferido pelas autoras so as entrevistas (de pessoas negras), o que para minha viso facilita muito no trabalho porque leva o pesquisador a enxergar sobre as falas as construes sociais que, geralmente, vemos na teoria sendo elaboradas na prtica dos sujeitos. A partir da deciso pelo mtodo de entrevista fui para a escolha do perfil desejado para minha pesquisa. Como tinha dito, eu trancei inmeras pessoas, mas o pblico de mulheres negras em meus atendimentos eram maiores. As mulheres negras nos outros contextos descritos que participei me ajudaram a escolher o tema porque elas tinham maior visibilidade a meu ver. Elas causavam em mim sentimentos de maior curiosidades 15. Depois de escolher que seriam mulheres negras, e no homens negros, por entender que elas exteriorizavam mais a relao com os cabelos, eu tinha que escolher que recorte alm da identificao (racial) eu iria utilizar. Como tinha vivenciado at 2007 experincias mais prximas s universitrias e s mulheres formadas que faziam ps-graduao ou outras atividade de interesse dentro da academia, optei pelo perfil inserido no meio acadmico, de qualquer classe social, idade, religio e opo sexual. O perfil escolhido tinha que se identificar como negra (autoclassificar), estar no meio acadmico (graduando-se ou j graduada), ter cabelos crespos e consider-los, ser de qualquer classe social, religio e opo sexual. O perfil no necessariamente teria que morar no Rio de Janeiro, duas entrevistadas eram de outros Estados: Pernambuco e So Paulo. O convite para entrevista, a minha entrada no campo no partiu de convites para clientes, na verdade entrevistei duas e achei que isso poderia causar vis, por isso optei ir a lugares com atividades do Movimento Negro e fazer abordagens nas universidades UFF, UERJ e na Fiocruz (de outros setores que no o meu16).14

Tornarsenegrofoioprimeirolivrosobrequestonegraquelidentrodoespaoacadmico,infelizmentenoemdisciplinasdo Curso,masdadoamimporumamigodemovimentonegro,osocilogoMrcioAndr.15

Talvezporqueeusounegraevenhadeumafamliacommuitasmulheresnegras.Muitasmulheresquemetranavamepenteavam duranteainfncia.16

Fuiestagiria na Biblioteca- CLAVES-FIOCRUZ de 2008 a 2009. Estagiaria de Biblioteconomia.

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Foram entrevistadas cerca de quinze mulheres atravs de um roteiro de entrevistas com cerca de 30 perguntas que se relacionavam a contexto de vida de infncia, adolescncia e fase adulta onde as perguntas eram relacionadas com concepo de beleza atravs do corpo/ cabelo e auto imagem. Das quinze entrevistas apenas consegui salvar dez porque durante o campo ocorreram problemas tcnicos com a utilizao do mp4 (gravador). As entrevistadas foram mulheres negras simpatizantes ao movimentonegro, mulheres militantesemulheresquenotinhamumaopinioformadasobreosmovimentosnegros.Todas foram convidadas aps alguns dilogos, os convites ocorriam depois que eu tentava seduzilas abordandoemalgummomentododialogomeutemaevendoseascandidatasteriaminteresseem participar. No foi uma surpresa ver de pessoas negras, mesmo que no estivessem no perfil, auto convites para serem entrevistadas em colaborao com o trabalho. Muitas ficavam empolgadas com a possibilidade de falar sobre a relao com os cabelos. Devo dizer tambm que o no convite para antigas clientes causou certos questionamentos e em alguns casos at brigas, Por que eu no estava dando espao para histrias que conhecia to bem. Mas como fez Gomes (2006) ao optar em no escolher militantes negros em seu trabalho, eu optei em no escolher clientes com as quais tinha uma relao antiga de trabalho e amizade. Os marcos tericos desse trabalho, os autores com que dialogo, so Nilma Lino Gomes (2006), Muniz Sodr (1999), Cesar Sabino (2007), Oracy Nogueira (1985) e Neusa dos Santos Souza (1983) em grande parte da anlise. Eles so os pontos de referncia, contudo os trabalhos de Nilma Lino Gomes (2006) e a anlise que ela cria em seu ltimo livro (Sem perder a raiz: corpo e cabelo como sinnimo da identidade negra) ser a chave para a interpretao do fenmeno estudado. Alm desses autores como marco terico para a anlise do fenmeno, utilizo outros como base para a discusso de identidade nacional, mulheres negras e a importncia de cabelo nas sociedades. Para a discusso de identidade os autores preferidos so Stuart Hall (2001) e Kathyn Woordward (2000); para a discuso de mulheres negras Jurema Werneck (2008), Hdio Silva Jr (2001) e Sueli Carneiro (2003) e para a discusso da importncia do cabelo nas sociedades Edmund Leach (1983), Marcelo Mauss (1974). Assim os captulos seguintes tm os principais objetivos: O captulo I est relacionado importncia da identidade dentro do Estado Moderno. dirigido para a reflexo sobre A crise da identidade e o surgimento de outras formas de identidade na contemporaneidade. Nele trabalhamos com autores que fazem uma anlise critica ao conceito de identidade nacional e outras formas de identidade como a negra. O captulo se divide em duas 14

partes: a primeira discute a identidade nacional e a segunda, a identidade negra. O captulo II destinado a descrever as situaes sociais atuais e passadas que vivem as mulheres negras. Ele dividido em trs partes: a primeira que compreende o que ser negra e mulher dentro de uma perspectiva antropolgica, a segunda enfatiza as situaes de violncias histricas sobre as mulheres negras no Brasil e a terceira as situaes sociais e econmicas atuais das mulheres negras. O captulo III fala sobre a importncia do cabelo nas sociedades seus signos e smbolos. Est dividido em duas partes, na primeira: mostro importncia em contextos gerais e, na segunda parte, mostro a importncia poltica do cabelo crespo para os movimentos negros. O captulo IV anlise das entrevistas relacionadas aos contextos mais referenciados no campo: contexto escolar e familiar. O captulo IV se divide em quatro partes: na primeira, abordo os problemas ocasionados pelo processo de idealizao de beleza branca na construo coletiva das negras e os modos que elas reproduzem tais conceitos sobre seus corpos; na segunda parte, abordo o contexto escolar como um dos responsveis pela identidade negativa das negras sobre seus corpos; na terceira parte, abordo a formulao dos cabelos crespos como um fardo e as influncias do contexto familiar, somado ao contexto familiar e escolar, nessa elaborao e na quarta parte abordo problemas de sade relativos ao uso de qumica. O captulo V responde a pergunta do estudo que saber quais representaes de cabelos crespos as mulheres formulam. No entanto no de interesse apenas as negativas sobre eles e sim responder qual identidade positiva elas recriaram nos processos vividos. Este captulo se divide em duas partes na quais consideram a existncia de duas formas de identidades negras sobre os cabelos crespos. Por fim, a concluso, com descrio das respostas adquiridas pelo processo de investigao.

CAPTULO 1 A construo de identidades 15

1.1 Identidade e Estado Moderno

Os Estados Modernos tm como principal fonte de representao cultural as identidades nacionais (HALL, 2001). As identidades nacionais so identidades culturais que representam os smbolos, signos e imagem de constituio dos Estados Modernos. A idia de Nao, to forte no mundo contemporneo como inerente ao indivduo e a humanidade, na verdade uma formulao social histrica, na qual os indivduos sentem-se pertencentes ao Estado por suas identidades nacionais. Como apontou Benedict Anderson (1983) a identidade nacional uma comunidade imaginada. A construo das identidades nacionais passam por uma elaborao de estrias, imagens, panoramas, cenrios, eventos histricos, smbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experincias partilhadas, as perdas, os trunfos e os desastre que do sentido nao( HALL, 2001). Ela cria contextos de sentimentos, referncias, hbitos que levam ao indivduo reproduzilos como valores comuns em relao a outras culturas como o caso de imigrantes que escolhem comidas, vesturios, msicas que os distinguem da cultura dominante do pas que os abriga. Essas escolhas so feitas de modo imperceptvel pelo sujeito. So escolhas baseadas em sentimentos comuns propagados na idia de identidade nacional, idias de nao. A identidade nacional como representante unificada da histria de uma Nao pode esconder as histrias dos povos oprimidos, como num processo de dominao por colonizao. De modo crtico, podemos dizer que a perspectiva de identidade nacional passa pela elaborao de uma representao europia da realidade, que necessita ser universalizante sobre o mundo, contado apenas a histria de seu lugar (SODR, 1999). A identidade nacional como responsvel pelo legado cultural da Nao est arraigada na histria dos dominadores, de tal modo que no permite outras interpretaes sobre a histria de construo do Estado-Nao. Abordagens sobre mitos de origem, como mitos fundacionais, esto ligados a histrias dos colonizadores sempre no estabelecimento de imagens grandiosas atravs da histria, seja trazendo a civilizao com os genocdios dos colonizados, ou seja, omitido tal fato (SODR, 1999). O discurso de identidade nacional uniformiza as interpretaes sobre a histria. Classe, gnero e raa so elementos subordinados, omitidos e unificados no conceito de identidade nacional. Por outro lado identidade nacional tambm funciona como dispositivo poltico para os oprimidos. Ela pode ser usada como forma de afirmao da identidade atravs da ascendncia 16

histrica do grupo (HALL, 2001). No Brasil, a identidade nacional formulada pelas elites17 tem como proposta a idia de relaes harmoniosas entre os portugueses, nativos e africanos. O mito fundacional sempre contado em vieses integrativos dos mesmos, escondendo as inmeras revoltas e insurreies do perodo colonial. H obsesso pela recuperao de uma memria histrica que gire em torno da estria dos portugueses com seus feitos, suas contribuies na posio de grandes patronos para indgenas e negro-africanos.Persiste ainda hoje a utopia civilizatria da Europa. Aps cinco sculos de colonizao da Amrica, os europeus-diretamente ou por meio das elites nacionais mediadoras [...] continuam reproduzindo o discurso de enaltecimento de seu valor universalista, como garantia da colonialidade do poder. Costuma-se esquecer o genocdio fundador [...] mas igualmente o fato de que o desenvolvimento econmico, o progresso, a modernizao tecnolgica (cujos parmetros de realizao partem da civilizao europia) impem a amplas parcelas populacionais com efeitos to ou mais radicais do que os primeiros genocdios (SODR, 1999, p.33).

A idia de identidade nacional brasileira omite a participao dos oprimidos no processo de construo do Estado Brasileiro. O Estado Brasileiro hoje resultado da contribuio de vrios povos, no entanto essa contribuio s enfatizada pela perspectiva das relaes sexuais. H um enaltecimento da miscigenao de negros, indgenas e portugueses e pouca propagao das heranas sociais que negros e indgenas deixaram nas bases da sociedade. A contribuio negra focada em sua herana cultural (FREYRE, 2006), desaparece dos discursos a fora de trabalho da populao negra empregada para a construo arquitetnica e econmica do pas, a fora que construiu a acumulao do capital. Obviamente, a histria de Portugal deve ser conhecida, assim como seus hbitos, mas apenas a histria da formao do povo portugus e os hbitos e heranas civilizatrios que nos deixaram para a criao do Estado. Cria uma identidade brasileira deturpada, baseada em perspectivas histricas hierrquicas centradas apenas na viso de quem dominou, onde os sujeitos brasileiros de ascendncia africana no se enxergam como sujeitos de histria (participativos na construo histrica do pas), apenas como descendentes de homens escravizados sem atuao na sociedade. Aidentidadenacionalcomosmboloderepresentaodaculturanacional,narealidade, umrecurso,queemmuitoscasos;apenasvalorizaashistriasdosdominantes.Eporisso,temsido naatualidadetoquestionadapelosgrupossubalternizadoshistoricamente.Elestendemarecuperar17

Falardeelitedesignarosgruposeasinstituiescomacessodiferenciadoamecanismosgeradoresdepoder,taiscomorenda,

emprego,educaoeforarepressiva.Soaselitesqueocupam,emcadaEstadoNacional,sejamasposiesdecontrolediretoda mdia,sejampossibilidadesdemoldaroseudiscurso.NoBrasil,essaselitestmbasicamenteumanaturezafamiliar(SODR., 1999,p.243)

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a histria de seus grupos defrontandose com a histria conhecida como oficial.Assim essa redescoberta do passado parte do processo de construo da identidade que est ocorrendo nesse exato momento e que, ao que parece, caracterizado por conflito, contestao e uma possvel crise (WOODWARD, 2000, p.12). Muitos tericos nas Cincias Sociais tm discutido sobre uma possvel crise da identidade no mundo contemporneo, mas como mostra Hall (2001) em Identidade cultural na ps-modernidade, o que est ocorrendo no exatamente uma crise deslocamentos e sim processos de ocasionados por mudanas estruturais nos centros sociais. Essas mudanas,

oriundas da Modernidade tardia, trazem para o ambiente acadmico a necessidade de se repensar formas, abordagens e conceitualizaes de termos como identidade. No basta conceitualizar identidade como elemento representativo da cultura nacional de um povo. necessrio entender as diversas formas de identidades (gnero, raa, etnia, religio, nao) que esto aparecendo atravs da fala dos estudados, de suas produes cientficas que visam reivindicar outras formas de cientificidade, de episteme e conhecimento. Em outras palavras, o momento de quem sempre foi estudado como objeto cientifico tornar-ser produtor de conhecimento cientfico. Modificando, assim, todo um cenrio intelectual que se considerava legtimo em suas descries sobre o outro. Neste sentido concordamos com o argumento de Caldeira:O antroplogo no se encontra mais numa situao privilegiada em relao produo de conhecimentos sobre o outro. Ele no mais aquele que reelabora uma experincia para explicar realidade de uma cultura com uma abrangncia e uma coerncia impossvel para aqueles que a vivem no cotidiano. O antroplogo no mais sujeito cognoscente privilegiado. Perdendo o status de sujeito cognoscente privilegiado, o antroplogo igualado ao nativo e tem que falar sobre o que os iguala: suas experincias cotidianas [...] Tudo que o antroplogo pode fazer inscrever processos de comunicao em que ele apenas uma das muitas vozes. As vozes so todas equiparadas e oque se apresenta so sujeitos individuais e no papeis sociais. (CALDEIRA, 1988, p. 135)

O panorama abordado nos mostra que o fazer cientfico vem mudando sua forma de atuao, por causa das reivindicaes identitrias de inmeros grupos. Ocasionando novas formas de produo cientfica e novos paradigmas. Oconceitodeidentidadecomoidentidadespossibilitamelhorcompreendernotrabalhoa interpretao que mulheres negras do aos seus corpos, aos seus cabelos. Pois como coloca Woodward,O corpo um dos locais envolvidos no estabelecimento das fronteiras que definem quem somos servindo de fundamento para a identidade (WOODWARD,2000, p.15). O corpo no processo identitrio distingue os indivduos, representa suas culturas, suas tradies e seus processos histricos. E na construo das identidades serve como local de representao simblica emitido a posio que o indivduo ocupa na sociedade em muitos casos. 18

A construo identitria possibilita o indivduo saber quem no mundo, quais valores carrega, que lugar ocupa. A identidade diferencia grupos tnicos, culturas, pela diferena no contato com o outro. Ela especificamente relacional sendo acionada por um conjunto representativo que (...) inclui prticas de significados e os sistemas simblicos por meio dos quais os significados so produzidos, posicionados - nos, como sujeitos. (WOODWARD, 2000, p.17). Partindo dessa orientao a identidade acionada em contextos em que a diferena est posta, ou seja, em momentos em que as representaes que o indivduo faz sobre si e sobre a realidade so colocadas como sinais diacrticos No caso de muitos grupos negros brasileiros o cabelo crespo, cor da pele, traos do rosto como lbios e nariz so sinais diacrticos, que so apontados como marcadores de seu pertencimento tnico nas relaes raciais brasileiras (NOGUEIRA,1985). A escolha de sinais diacrticos envolve posicionamentos essencialistas. A posio essencialista de alguns grupos oprimidos, como os negros, dificilmente so percebidas como tal pelos grupos. O essencialismo tpico nos movimentos de identidades nacionais e tnicas. No sendo tpico apenas do contexto negro aqui abordado. Os movimentos nazistas, fascistas e de independncia dos pases europeus so essencialistas com suas construes histricas e com suas ideologias de purezas raciais (HALL, 2001). A noo de pertencimento a uma nao europia, motivo de orgulho e ostentao, relacionada a uma pureza tnica em detrimento dos povos de periferias dos pases subdesenvolvidos, que adentram os solos europeus como imigrantes de suas antigas colnias, para viverem um sonho de vida melhor, sendo olhados como intrusos e destruidores de suas identidades nacionais, tambm um processo essencialista, alm de xenfobo .Pois a maioria das naes consiste de culturas separadas que s foram unificadas por um longo processo de conquista- violenta- isto pela supresso da fora da diferena cultural. O povo britnico' construdo por uma srie desses tipos de conquistas-cticas, romanas, saxnicas, vikings e normandas de toda a Europa, essa histria se repete ad nauseam (HALL, 2001, p.65).

O medo europeu de se relacionar e miscigenar baseado em concepes de pureza tnica e passado maravilhoso s uma falsa idia da construo arbitrria de identidades nacionais, que sinaliza atravs das suas representaes o que ser francs, ser ingls, ser espanhol, ser italiano perante a diferena a grupos de colonizados18. A identidade nacional europeia baseada em pertencimentos tnicos com unificao pacifica uma invenso histrica para criar nos indivduos sentimentos de ligao ao passado (HALL, 2001). A etnia, como mostra Hall (2001), no pode ser usada como categoria fundacional, pois ela18

Quenaatualidadebatemaportadoterritrioeuropeudesejandomelhorescondiesdevida.

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remete muito mais s caractersticas culturais do que aos traos fsicos ou biolgicos. E a raa muito mais discursiva, ela est associada a modos culturais, e no a diferenas biolgicas, como se pensava nos sculos XIX e meados do XX. A identidade fluida e no fixa, ela pode mudar, ser flexibilizada em muitos casos. Portanto, pensar a identidade de maneira esttica e sem fluidez um erro. Como parte da cultura, a identidade muda e realiza trocas. A identidade uma constante forma de negociao, que est ligada a revindicaes de tradies culturais que no so estticas, mas recursos para afirmao dela. A identidade, a partir das caractersticas que foram abordadas, um recurso poltico, entrelaado a afirmao de subjetividades. Ela, quando acionada, pode ser uma grande arma (dispositivo) para mudanas sociais ou manuteno de antigos modelos polticos.

1.2 As identidades negras brasileiras 2

As identidades negras brasileiras so oriundas de diversas culturas africanas que aqui aportaram com o trfico de escravos. Falar em identidades negras entender que elas ocorrem de vrias formas, uma das maneiras mais fcil de ilustrar esse fenmeno atravs da diversificao cultural das danas e religies consideradas afro: Jongo, Congo, Coco, Tambor de Crioula, Maracatu, entre outras danas. Assim como no meio religioso o Candombl, o Xang, o Catimb, a Umbanda e o Vodu so originrias dessa presena africana no Brasil. Os negros19 brasileiros criaram vrias formas de identidades e no que foi possvel tentaram preservar e recriar smbolos, histrias e tradies que relembram sua trajetria de sada de frica. As culturas negras fazem parte desse conjunto de culturas que simbolizam a identidade nacional. No entanto como a identidade nacional elitizada, e apenas ressalta a contribuio do colonizador as culturas negras so vistas em segundo plano. A identidade brasileira composta por inmeros elementos das sociedades africanas trazidos pelos povos africanos, (...) estruturas hierrquicas, administrativas, jurdicas e classificaes sociais. Os avanos tecnolgicosalcanadosnocontinenteafricano,comoasplantaescomtecnologias avanadas parapoca,acriaodegado,ametalurgia,ocomrcio,aescrita,asformasdemanifestao artsticaseourbanismoutilizadonoscentrosurbanosfornecerammodeobraespecializadapara aqueles que compravam mo de obra escrava. Alm das formas de organizao poltica, as distribuies territoriais e as diferentes formas de elaborao intelectual constituem heranas importantesnoprocessodeincorporaodapopulaoafricanizadaescravizadapopulaodo Estadoemformao(SANTOS, 2006)

Sem os elementos das culturas africanas o Estado que conhecemos seria outro, no entanto, no so abordados como constituitivos em prol dos referenciais oficiais. Tal como a histria de Portugal em quase todo o processo antes Descobrimento do Brasil e no processo de Metrpole Brasileira difundidos nos nveis escolares Fundamental e Mdio (Lei 10.639/2003) . preciso destacar que a identidade negra brasileira assim como toda identidade negra: aparece na histria a partir da discriminao cultural operada por indivduos e grupos de cor clara (SODR, 1999, p.255). A identidade negra como qualquer identidade acontece no processo de contraste, na situaoemquehajadiferena.Elacomumenteocorrenosprocessodeconflitosediscriminaes, precisa do diferente para existir e o diferente no caso o branco. Mas como uma identidade subjugada ela opera nas transformaes do cenrio poltico porque a partir do momento em que estabelecida transforma paradigmas. Ela mais um dos pontos crticos para a crise da identidade moderna.19

Apalavranegroserusadaparadesignarumapartedapopulaocompostaporpessoasqueseautoclassificamcomonegraseso classificadasnocensocomopretasoupardas.Negro,nessetrabalho,segueasdefiniesdoIBGEpretoepardo.

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Ela faz parte daquelas identidades, que comeam a aparecer pelas vozes de intelectuais negros e negras no contexto acadmico provocando modificaes no campo cientfico.

Capitulo 2.0 -Mulheres negras: Condies (sociohistricas) 2.1 Mulheres negras 2

No podemos definir o que ser uma mulher negra apenas pela cor da pele, traos fsicos e rgos sexuais - reprodutivos porque essa categoria envolve muitas variveis. Como sabemos ser mulher no apenas a distino biolgica do corpo masculino, ser mulher passa por processos educativos. Aprendemos a ser mulher, como aprendemos a ser homem nos processos culturais de cada sociedade. O gnero de natureza cultural. a cultura que constri o gnero, simbolizando as atividades como masculinas ou femininas (HEILBORN, 200?). A percepo feminina criada a partir dos valores que o indivduo vive. Com isso no podemos desconsiderar as particularidades que o corpo feminino possui principalmente em relao aos cuidados com a sade20. Porm, as percepes sobre ele, as to variadas construes partem do social. Ele, o social, defini os papeis para os sujeitos em todas as suas atividades. Ser mulher negra uma construo social diferenciada de ser homem negro, mulher branca, mulher indgena, homem branco e homem indgena por questes culturais de carter poltico, histrico, econmico, psicolgico e social. Descrever ou interpretar quem so as mulheres negras no cabvel para um s estudo porque, o que definimos como tal, na verdade uma inveno social 21 que aborda histrias comuns, origens prximas, situaes sociais similares e no apenas a cor da pele. Falar sobre mulheres negras envolve um campo de estudo amplo e diversificado, onde precisamos delimitar o que queremos abordar para no nos perdemos. imprescindvel delimitar em qualquer estudo cientfico o que queremos e como justificar o interesse por ele. E como coloca Weber (1974) , os interesses pelo objeto cientfico partem tambm de uma proximidade. O objeto sempre algo que para ns tem algum valor, que desenvolve em ns alguma curiosidade privativa. No escrevemos sobre algo que nos desinteressa. O interesse pela temtica feminina negra faz parte de meus interesses pessoais, claro. Entendo que ser negra esta prximo ao estabelecido por Jurema Werneck (2008, p.76)22As mulheres negras no existem. Ou, falando de outra forma: as mulheres negras, como sujeitos identitrios e polticos, so de uma articulao de heterogeneidade, resultantes de demandas histricas, polticas, culturais, de enfrentamento das condies adversas estabelecidas pela dominao ocidental eurocntrica ao longo dos sculos de escravido, expropriao colonial e da20

Ocorpofemininotemnecessidadesdecuidadosdistintosaomasculino.Osestudossobresaderealizadosquandodestacam gneroabordamasespecificidadesdoscorposfemininos.VideaPolticaNacionaldeAtenoIntegralmulheres.21

Sernegrainvenosocial,quandoconsideramosquenegrosnosentidousadonaatualidaderemeteapovosoriundosdo continenteafricanodediversasetnias.Tendodistinodetraosfsicosecultura,pormenxergadoscomoiguaisnoreferente situaosocialqueestoinseridos22

Mdica,mestreemEngenhariadeProduoedoutoraemComunicaoeCulturapelaEscoladeComunicaodaUniversidade FederaldoRiodeJaneiro.coordenadoradaONGdeMulheresNegrasCriola,fundadaem1992.

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modernidade racializada e racista em que vivemos.

2.2 Das consideraes histricas

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Quando voltamos nossos olhares para a histria das mulheres negras vemos a efetivao de prticas violentas legitimadas no perodo colonial e imperial, atividades desumanas que demonstram o quanto o corpo feminino negro era atravessado por pensamentos e atividades grotescas.Os tribunais firmaram jurisprudncia contrria punio dos senhores estupradores, mesmo depois da adoo do Cdigo Criminal de 1830, que capitulava o estrupo em seu art. 219, segundo entendimento de boa parte dos ilustres magistrados, no sendo a pessoa, a mulher escravizada no era portadora de reputao ou de honra, nem poderia exercer o direito de queixa, deferido legalmente apenas aos senhores estupradores. Convm notar que o referido preceito legal, como tambm os delitos de seduo e atos libidinosos (Cdigo Criminal de 1830, arts. 224 e 226), empregavam a expresso mulher virgem menor de dezessete anos sem qualquer meno cor/raa ou condio de escrava, de sorte que a discriminao imposta pelos Tribunais resultava de pura interpretao, refletindo a ideologia racista e o despudorado engajamento de parte do Poder Judicirio na defesa dos interesses dos senhores de engenho [...] Valer notar que a prtica de prostituio da mulher escravizada-que registrava certa preferncia por meninas de 10 a 15 anos de idade-forada a tanto por seu senhor e obrigada a entregar-lhe uma quantia pela venda de seu corpo, perpassou todo o perodo colonial e o Imprio. Com base na interpretao do direito da propriedade [...] Entendia os Tribunais que a plenitude conferida propriedade inclua a possibilidade dos senhores desempenharem o rduo papel de cafetes, de alcoviteiros (SILVA, 2001, p.23, 24).

O corpo negro, o corpo da mulher negra, no perodo colonial e imperial, visto como objeto de compra e venda, propriedade privada, do senhor. Nele podem ocorrer todas as efetivaes de violncia sem que estas sejam criminalizadas. E quando h tentativas de respostas s violncias proferidas pelos seus senhores, segundo Silva (2001),Em resposta proliferao de assassinatos de senhores de escravos, cometidos por negros e negras escravizados, o Imprio faz publicar em 10 de junho de 1835, a Lei n 4, cujo art. 1. [...] Art 1. Sero punidos com a pena de morte os escravos ou escravas que matarem por qualquer maneira que seja, propinarem veneno, ferirem gravemente ou fizerem qualquer outra ofensa fsica a seu senhor, a sua mulher, a descendentes ou ascendentes, que em sua companhia morarem, e a administrado, feitos, e as mulheres que com eles conviverem. Referida lei no previa a possibilidade de recurso (2001, p.21).

Esses so alguns dos momentos comuns e modos de regulao vivenciados por africanos (as) e descendentes de africanos (as) escravizados ao longo do perodo de escravido brasileira, que implica numa histria particular. Momentos comuns, histrias similares de violncia sobre os corpos negros, que propiciaram o surgimento de organizaes negras, atuaes femininas importantes contra o regime escravista. importante destacar as atuaes negras contra o regime escravista como outras formas de lembranas em relao escravido. O protagonismo da negra, do negro elemento positivo na construo das identidades negras, principalmente na construo de identidade feminina negra. A histria das mulheres negras, contada apenas na linha das opresses, no proporcionam sentimentos identitrios valorativos (WOORWARD, 2000). Por esse motivo necessrio mostrla por todos os lados. O lado da revolta, o lado da estratgia fortalece o sentimento de orgulho e 2

identificao em meio a tantas lembranas de opresses herdadas. Como coloca Werneck (2008, p. 17), Referem-se a figuras femininas que atuaram e ainda atuam como modelos, como condutores de possibilidades identitrias para a criao e recriao de diferentes formas de feminilidade negra. Destacar os papeis, os protagonismos negros, das quilombolas Aqualtune 23, Dandara24; ou o papel das Irmandades Negras Nossa Senhora do Rosrio, que durante o sculo XIX comprou vrias alforrias; ou falar da Rainha Nzinga em Angola 25( WERNECK, 2008). possibilitar outra viso sobre a mulher negra na escravido. No apenas como vtima passiva da violncia e, sim atuante contra ela. Podemos lembrar das mulheres negras no perodo ps-escravido movimentando-se e realizando aes em prol das mulheres e atuantes contra a violncia. Conforme Werneck uma delas,Ficou conhecida como Me Senhora26, foi uma das principais responsveis pelas negociaes polticas, culturais e sociais que permitiram a manuteno de tradio e da religio de origem iorub (Werneck, 2008, p.80).

Por outro lado conforme afirma Gonzalez ,Desnecessrio dizer que a presena de mulheres negras no Movimento de Favelas tm sido altamente representativas [...] O desempenho das mulheres negras na formao do Movimento Negro no Rio de Janeiro, por exemplo, foi da maior importncia. (Gonzalez, 1984, p.8)

Os momentos expostos e abordados no histrico de atuao e opresso vivenciado por mulheres negras no do conta do que j foi produzido no contexto cientfico brasileiro. Contudo o objetivo era fazer uma breve apresentao nas quais se constituiram as identidades e no um estudo histrico mais intenso. Buscou-se delinear aspectos dos contextos histricos das negras brasileiras, suas heranas polticas e histricas.

2.3- Das consideraes sobre a situao scio econmica atual.

23 24 2526

FundadoracomseufilhoGamgaZumbadoQuilombodosPalmareseavdeZumbi(Werneck,2008) EstrategistablicadePalmaresalmdecompanheiradeZumbi(Werneck,2008). Atuoucomeuexercitode10.000homenscontraaInvasoPortuguesa(Werneck,2008) Foi uma das principais sacerdotisas brasileiras de religio de matriz africana Candombl a conseguir destaque e reconhecimentopoltico.

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Os estudos sobre as condies sociais do negro na sociedade brasileira so muitos, trazem informaes importantes para implementao de polticas pblicas, que visem diminuir as diferenas causadas por anos de excluso. Nas consideraes do Professor Marcelo Paixo (2003) em Desenvolvimento Humano e Relaes raciais,Sem embargo, desde o comeo dos anos 1980, tendo tal movimento se intensificado na segunda metade dos anos de 1990, baseando-se nos indicadores sociais e demogrficos de nossa populao, surgiram diversos livros, artigos e relatrios de pesquisa dedicados ao tema das desigualdades raciais brasileiras no perodo contemporneo. Estas pesquisas vm ganhando uma complexidade cada vez maior, seja em termos dos instrumentos metodolgicos utilizados, seja no que tange natureza e ao escopo dos estudos realizados (PAIXO, 2003, p.12)

As estatsticas oficiais sobre as condies de vida da populao negra brasileira auxiliam na compreenso do universo feminino negro estudado, de tal modo que podemos ilustrar melhor nosso objeto. No que nos referimos populao brasileira pela composio, os dados oficiais 27 estimam que a populao negra seja cerca de 100 milhes de habitantes no pas. E que a populao feminina negra seria em torno de 50 % (IBGE, 2009). Quando os dados de escolaridade so apresentados por raa e gnero, segundo a PNDA 28 (2007) as mulheres negras possuem em mdia uma escolaridade de 6.5 anos de estudos, as mulheres brancas de 8,18 anos de estudos, os homens brancos de 8,4 anos de estudos e os homens negros de 6,12. Em relao acesso ao Ensino Superior, s mulheres negras apresentam as piores condies de acesso. A taxa lquida compreendida em faixa etria de 18 a 24 anos frequentando a Universidade, apresenta as mulheres negras em 7,9, as mulheres brancos, 17,37 e os homens negros, 5,88 . Tabela de Escolaridade da populao brasileira ajustadas por raa e gnero Anos de Escolaridade Homens Brancos Mulheres Brancas Homens Negros Mulheres Negras*Dados BRASIL. IBGE. PNDA, 2007.

brancas, 22,15, os homens

8,4 8,18 6,12 6,5

As mulheres negras em relao aos homens negros esto em posio superior, porm em relao s mulheres brancas esto abaixo. As mulheres brancas esto em melhores posies de27

ReferentesaoIBGEde2009. PesquisaNacionalporAmostradeDomiclios,doIBGE.

28

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escolaridade em relao aos homens negros. No entanto quando a posio das mulheres brancas se refere ao mercado de trabalho elas ocupam taxas maiores de desemprego em relao a homens brancos e negros, segundo os estudos da PNDA 2007, as mulheres brancas apresentam taxa de 9,67, as mulheres negras apresentam taxa de 12, 66, os homens brancos apresentam 5,61 e os homens negros apresentam taxas de 6,84.

Taxa de Desemprego por Raa e Gnero Homens brancos Homens Negros Mulheres Brancas Mulheres Negras* *Dados BRASIL. IBGE. PNDA, 2007.

6,84 5,61 9,67 12,66

Os dados mostram as questes de gnero no mercado de trabalho como interferncias considerveis. Mas, ao levantarmos os dados sobre a renda as mulheres brancas apresentam posies melhores que a dos homens negros. Vejamos as tabela extrada de Retrato das Desigualdades, 2 edio. Programa de Igualdade de Gnero e Raa. UNIFEM-IPEA.2006. Mdia de renda da ocupao principal por cor ou raa, Brasil - 2003 Mdia de renda da ocupao principal por cor ou raa, Brasil - 2003 Homens brancos Mulheres brancas Homens negros Mulheres negrasUNIFEM-IPEA .Retrato das Desigualdades, 2 ed.,2006.

R$931,10 R$554,60 R$428,30 R$279,70

Os dados sobre renda mostram que as mulheres negras ocupam a ltima posio na tabela. Isso demonstra o quanto raa e gnero acentuam no modo de vida da populao.Quando empregadas, as mulheres negras em mdia ganham metade do que ganham as mulheres brancas e quatro vezes menos do que ganham os homens brancos. [...] As mulheres negras brasileiras compem em grande parte o contingente de trabalhadores em postos de trabalho considerados pelos especialistas como os mais vulnerveis do mercado, ou seja, aqueles sem carteira assinada, os autnomos, os trabalhadores familiares e os empregados domsticos (CARNEIRO, 2004, p.79)

No campo da sade a questo da raa associada cor dos usurios agrava ainda mais as condies de acesso e a perspectivas de Direito Universal a Sade vejamos alguns exemplos.

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Mulheres que realizam pr- Natal, por raa/ cor no Brasil em 2005 (%) Branca Preta Amarela Parda Indgena mais67,1 44,7 45,7 38,6 23,1 1,2 4,7 3,3 3,9 12,2

Fonte: Mulheres negras brasileira e os resultados de Durban (WERNECK, 2009) dados retirados do Ministrio da Sade pela autora.

Principais causas por morte materna no Brasil, por raa/cor, em 2005 (%) Transtornos maternos Transtornos maternos Infeco hipertensivos hemorrgicos Puerperal Branca Preta Parda 20,6 30,3 24,5 13,5 10,5 12,0 6,5 5,9 8,1 Aborto Distrbios da contrao uterina 10,6 10,5 8,3 3,7 2,6 4,3

Fonte: Mulheres negras brasileiras e os resultados de Durban, (WERNECK, 2009) dados retirados do Ministrio da Sade pela autora.

Ao trabalharmos com dados sobre a sade das mulheres negras vemos como diz Werneck (2009) que, As mulheres negras representam um dos grupos mais vulnerveis a agravos sade, bem como a piores condies de acesso a polticas de promoo, preveno e assistncia (p.114) No caso dos dados sobre violncia Werneck (2009) mostra que a questo da raa/cor interfere com grandes impactos: Atendimento de emergncia registrados pela VIVA segundo tipo de violncia e raa/cor. Brasil, 2006. Agresses Negra Branca 2,996 1,053 Tentativas de suicdios Maus-tratos 256 154 132 64

Fonte: Mulheres negras brasileiras e os resultados de Durban, (WERNECK, 2009) dados retirados do Ministrio da Sade pela autora.

Porm preciso lembrar que no caso de violncia domstica contra as mulheres, as mulheres pobres e negras so atendidas em instituies de sade governamentais, onde tais agresses so registradas, no caso das mulheres brancas de classe mdia os atendimentos so realizados em muitos casos em instituies de sade privadas, que tendem a silenciar junto a mulheres brancas o fenmeno. (CANEIRO, 2003) Nos dados sobre a violncia sexual, vemos que esse tipo de agresso perpretada desde os perodos colonial e imperial, como colocamos anteriormente, elevada sobre os corpos das mulheres negras.

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Casos de violncia sexual obtidos pela VIVA, por cor/raa/sexo. Brasil, 2006-2007 Raa/Cor Nmero Branca Parda-preta Amarela Indgena 128 172 1 Masculino % 38 52