Netiqueta - ética e etiqueta no ambiente educacional ... PDF file Netiqueta - ética e...

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  • 47Educação a Distância, Batatais, v. 2, n. 1, p. 47-69, junho 2012

    Netiqueta - ética e etiqueta no ambiente educacional virtual: questionamentos e uma proposta para ensino de filosofia

    Fábio Pestana Ramos 1

    Resumo: A sociedade da informação fomentou o surgimento de novas ferramentas edu- cacionais baseadas em blogs, revistas eletrônicas e no ensino EAD. Para regular as rela- ções surgiu a netiqueta, normas não oficiais de comportamento cordial. Neste sentido caberia perguntar se esta constitui um código de ética que pode facilitar a virtualidade educacional, regulando relações pedagógicas? Em caso afirmativo, poderia ser estabeleci- do um vinculo entre netiqueta e cidadania? As pessoas estão preparadas para lidar com a internet como meio de integração educacional? Questões que multiplicam as perguntas. O sistema educacional institucionalizado consegue lidar com a internet como ferramen- ta? Onde entra a netiqueta no ensino básico? Baseado no método lógico dedutivo, em pesquisa bibliográfica e documental, além de constatações empíricas, propomos realizar uma discussão inicial em torno destas questões. Os resultados parciais demonstram que existe uma desatualização da LDB e dos PCNs para lidar com a virtualidade educacional. Propomos como solução provisória a abordagem da netiqueta como conteúdo integrado ao ensino de filosofia.

    Palavras-chave: Educação. Netiqueta. Internet. Ética. Cidadania.

    1 Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduação em MBA em Gestão de Pessoas. Graduado em Filosofia pela mesma Instituição. Professor do Núcleo Docente Estruturante do curso de Filosofia do Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP). E-mail: .

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    1. INTRODUÇÃO

    Dentro do âmbito da sociedade da informação, em um ambiente globalizado, onde o acesso as informações e a produção e divulgação do conhecimento foi democratizado, com a educação sendo cada vez mais transposta para o âmbito virtual, torna-se necessário discutir o que se con- vencionou chamar de netiqueta.

    O termo “netiquette” foi criado pela norte-americana Judith Kallos, uma consultora do wordpress, em 1988 (NETIQUETA, 2010). Prestando serviço para empresas com negócios on-line nos Estados Unidos da Améri- ca, ainda durante o advento da internet discada, ela percebeu que o mundo empresarial não estava preparado como lidar com as novas realidades pro- movidas pelo avanço tecnológico. Foi assim que fundou cursos para treinar prestadores de serviços pela internet, para que as empresas pudessem parti- cipar das novas demandas abertas pela rede mundial de computadores, asso- ciando o compromisso com o próprio sucesso com um tratamento adequa- do do consumidor em potencial, tornando-se uma especialista em etiqueta virtual on-line pela internet (KALLOS, s. d). A palavra surgiu a partir da junção do termo “Net”, em referência a internet, com “Etiqueta”, passando a nomear um “[...] conjunto de regras não-oficiais, passadas de boca em boca e site em site que tenta estabelecer um padrão de comportamento conside- rável desejável pelos utilizadores e para os utilizadores” (SILVA, s. d.).

    Segundo Adelina Maria Pereira Silva (s. d., p. 01), mestre em Rela- ções Interculturais pela Universidade aberta de Lisboa, os objetivos destas regras poderia ser assim pontuado:

    As regras da netiqueta visam tornar a Internet um lugar menos caótico e mais sadio, ensinando as pessoas que certas atitudes aparentemente inofensivas podem aborrecer, atrapalhar ou agredir outros usuários, devendo ser evitadas. O usuário que desrespeita a netiqueta, proposi- talmente ou não, prejudica também a si mesmo, porque é deixado de lado pelos outros utilizadores. A Netiqueta pode variar ligeiramente de acordo com o tipo de comunicação que está a ser utilizado (por exemplo: canais chat, grupos de discussão, e-mail).

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    A netiqueta não é só um padrão de etiqueta, pois também configu- ra um conjunto de princípios éticos para os usuários da rede mundial de computadores. O que conduz seus preceitos a serem pensados como ele- mentos de regulação das relações estabelecidas na ótica educacional, à me- dida que; com a proliferação dos blogs especializados, revistas eletrônicas e cursos superiores baseados no Ensino a Distância (EAD); é essencial padronizar a comunicação para tornar a educação realmente efetiva na internet.

    Entretanto, refletir sobre o tema leva a uma série de constatações, in- citando questionamentos que levantam problemas. Para discuti-los é pre- ciso adentrar conceitos e definições, rever posturas, passando pela relação entre educação e tecnologia, pelo que entendemos por tecnologia em si, pela educação informal e formal, além do vinculo da netiqueta com a ética e como balizadora das relações virtuais pedagógicas.

    A despeito da enorme distancia que possa parecer existir entre a ne- tiqueta e cidadania, sua proximidade é muito maior do que poderia ser imaginada. O entendimento da netiqueta como fomentadora da cidada- nia, e esta última como parte do código de ética necessário para efetivação da educação no ambiente virtual, pensando a atual legislação educacional brasileira, torna óbvia a tarefa do ensino de filosofia: é sua obrigação jurí- dica e moral abordar a netiqueta como parte do conteúdo filosófico.

    2. EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA

    Existem muitas formas de compreender a tecnologia, portanto, an- tes, é necessário conceituar o que podemos entender por este termo. Pode ser classificado como tecnologia qualquer artefato, método ou técnica criada pelo homem para tornar seu trabalho mais leve, sua locomoção e comunicação mais fáceis ou simplesmente sua vida mais agradável e di- vertida.

    Formalmente, a tecnologia é o emprego de um conjunto de técnicas, mas filosoficamente, a partir da origem da palavra (tecno = técnica + logia

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    = ciência), seria a teoria ou filosofia da técnica. O que remete a perguntar: o que é técnica? Por definição, a técnica é um procedimento bem definido e transmissível, destinado a produzir um resultado útil.

    Neste sentido, desde os gregos antigos, reflete uma prática conscien- te, em oposição às atitudes tomadas ao acaso. A partir do século XIX, a técnica passou a denotar uma sistematização do conhecimento que repou- sa sobre o saber cientifico, a racionalização do emprego de instrumentos e materiais. Pensando assim, tanto em seu sentido original como contem- porâneo, a tecnologia é tão antiga quanto o homem (RAMOS, 2010).

    Isto porque um bastão de madeira, que amplifica um golpe e serve de extensão ao braço, também faz parte da tecnologia. Modernamente, exis- tem tecnologias que amplificam os poderes sensoriais, a percepção - como o telescópio ou o microscópio, altos falantes, etc -, melhoram a capacida- de de acumular informações - indo desde o papel, a escrita e o lápis até o computador -, permitem a ampla comunicação entre os homens - telefone e internet -, encurtam o deslocamento - carros, aviões e barcos -, enfim que facilitam a vida das pessoas e a necessidade humana de subjugar à natureza para sobreviver.

    No entanto, será que toda tecnologia pode ser aplicada à educação? Pensada na educação, a tecnologia é o que torna possível a transmissão e aperfeiçoamento do conhecimento. Configura o processo educacional em sentido amplo, inclusive no âmbito que extrapola a educação formali- zada nas escolas (BARRETO, 2003).

    Isto porque podemos incluir qualquer forma de tecnologia no pro- cesso educacional, incluindo meios de comunicação, como rádio, TV e cinema, além da própria fala e escrita. Em um sentido mais restrito, na escola, usamos tecnologias tradicionais, entre as quais giz, lousa, livros, cadernos, carteiras, mesas, cadeiras etc.

    Porém, podem ser usadas na escola também tecnologias mais recen- tes, como vídeos, DVDs, computadores, teleconferência, lousa digital, ensino a distância e outras. Em suma, boa parte da tecnologia humana, de uma forma ou outra, aplicam-se à educação.

    Portanto, a relação entre educação e tecnologia não poderia ser mais

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    estreita. As tecnologias são a síntese produzida pelas relações sociais, sis- tematizadas em um momento histórico, de acordo com as necessidades humanas para subjugar a natureza (MANASSÉS, 1980).

    A humanização só aconteceu a partir do processo educacional, a apropriação de saberes através de diferentes linguagens, formas simbólicas de mediação materializadas nas interações sócio-culturais.

    Neste sentido, a tecnologia pode ser entendida como uma das lin- guagens que o homem utiliza na construção social para transformar as relações sócio-econômicas e culturais, além do próprio acumulo e trans- missão do conhecimento, denotando as características típicas de uma ci- vilização e sua visão de educação (MORAN, 2004).

    Segundo Marx (2010, p. 425), “[...] a tecnologia revela o modo de pro- ceder do homem com a natureza, o processo imediato de produção da sua vida material e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que dela deco