Notas de um percurso pela barbárie

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1 POSTAIS PARA CHARLES LYNCH (NOTAS DE UM PERCURSO PELA BARBÁRIE) Coletivo Garapa
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    23-Jul-2016
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Este ensaio complementa o projeto “Postais para Charles Lynch”, realizado pelo Coletivo Garapa como resultado da Bolsa ZUM/IMS de Fotografia, recebida em 2014.

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  • 1POSTAIS PARA CHARLES LYNCH(NOTAS DE UM PERCURSO PELA BARBRIE)

    Coletivo Garapa

  • 2

  • 3A mais triste nao/ na poca mais podre/

    compe-se de possveis/ grupos de linchadores.

    Caetano Veloso (O Cu do Mundo)

  • 4DEPOIMENTO

    Eu chamo isso de violncia. P pum. Mas, assim, no aquela que mostram

    na TV, tiro, metralhadora. Quer dizer, faz parte, s que vem antes. Bem

    antes. () Antes da polcia, do reprter, da porrada toda. A TV ajuda, mas

    essa vem de dentro. () Ah, de dentro, do corao, do fgado, vai saber, na

    cabea que no t. Quer dizer, na verdade acho que t bem embaixo da

    pele. Fica ali, quietinha, finge que t dormindo. O senhor j sentiu isso,

    no vai dizer que no. () uma fora, s, um sentimento. T dentro do

    ser humano. Todo mundo mesmo. E tambm no tem a ver com dio, no.

    Quer dizer, dio outro sentimento, n? Amor tambm. Alegria, fome,

    medo. Sentimento. No que seja de todo ruim. S outra coisa. () No,

    no tem a ver com bicho, no. Quer dizer, tem e no tem. que bicho no

    pensa. Bicho deu vontade vai l e ataca. Deu medo vai l e foge. E na gente

    ela t ali, quieta, do lado da conscincia. Nuns mais, noutros menos. A

    gente at sabe, mas faz que no. Aquele dia eu fui l e arrebentei, nem

    pensei. Que nem bicho. Disseram que era caso de estupro. () Sei l se

    era mesmo, mas estupro foda, n? () O senhor no t com medo? Eu

    no sou violento. Tem gente que . Uns mais, outros menos. Mas ela

    matreira. Uma hora formiga, o sangue borbulha e p. () Voc v, depois

    que passa o cara no quer mais nem lembrar. No fingir que no acon-

    teceu, no. Mas parece que apaga. () Foi. Foi ela que fez eu entrar nessa

    histria. () Essa histria a, que o senhor quer saber. Foi ela. A violncia.

    () Parece que apaga. () Mentira, apaga nada. T lembrando de tudo.1

  • 5

  • 6UM PUNHADO DE PERGUNTAS

    A repetio insistente da palavra barbrie, como no jogo

    barbariebarbariebarbariebarbar..., pode acabar por esva-

    ziar o seu sentido? Expandindo o alcance da pergunta:

    em que medida a superexposio s imagens da violncia

    nos afeta em relao aos eventos registrados? Esse afetar

    acontece no sentido da ao ou da imobilidade, da me-

    mria ou do apagamento? At que ponto o espectador

    ou no cmplice e tambm perpetrador da violncia que

    consome em noticirios e redes sociais? Qual o instin-

    to pornogrfico que nos impele a esse consumo? Se a tor-

    rente de imagens da violncia inelutvel, como ento

    lidar com ela de forma crtica, combatendo a anestesia?

    Como question-la? Por fim, como conjugar, no trabalho

    artstico que se debrua sobre o tema, uma dimenso

    documental (o trgico) a uma camada esttica (o belo)?

  • 7UMA ETIMOLOGIA DA BARBRIE

    De forma corriqueira, costuma-se ler o termo barbrie

    como um quase-sinnimo do caos: o lado avesso da civili-

    zao. No surpreende, ento, que a palavra seja encontra-

    da j na Repblica de Plato, obra filosfica que institui as

    bases da civilizao ocidental. Na Repblica, Plato faz S-

    crates dizer que os gregos (ou helenos, o conjunto dos po-

    vos que descendem de um mesmo ancestral mtico, Hlen)

    fazem parte da mesma famlia, ao passo que os brbaros

    (os povos no-helnicos) pertencem a famlias diferentes

    e estranhas. Assim, quando gregos lutam contra brba-

    ros, Plato diz que guerreiam, por serem inimigos natu-

    rais; quando os povos gregos lutam entre si, que a Grcia

    est doente: denominaremos discrdia essa inimizade.2

    O brbaro nasce, portanto, de um estigma: o outro, que

    no se expressa como ns, no compreende os valores ci-

    vilizados; tambm aquele que vive s custas do desejo

    e do seu caos interior3, um ser arredio que despreza os

    valores da sociedade: o selvagem, aos olhos da civilizao.

  • 8Desde a Grcia e Roma antigas, a humanidade civilizada

    teve a necessidade, para se reconhecer como tal, de ne-

    gar o seu lado brbaro (como sugere a ideia de uma Grcia

    doente que sofre com a discrdia entre irmos) e elevar o

    homem alm da prpria barbrie. Mas o que escapa nas

    entrelinhas dos escritos gregos que a barbrie represen-

    ta no o avesso da civilizao, como o discurso tenta supor,

    e sim o outro lado do espelho. O brbaro, estigmatizado

    no papel de escravo ou de estrangeiro, no passa de uma

    projeo deformada da violncia inata da civilizao sobre

    o mundo primitivo do qual ela se afasta.4

    O suplcio de DamiensAutor desconhecido

  • 9FOUCAULT NA ERA DO YOUTUBE

    Em 1975, Michel Foucault publicou, na Frana, a primeira edio de Vi-

    giar e Punir, uma anlise dos mecanismos que orientaram as transfor-

    maes sofridas pelos sistemas penais (em especial o francs) na era mo-

    derna. So mudanas estruturais que atravessam a Histria e chegam at

    a sociedade contempornea entre elas, a substituio gradual da puni-

    o como espetculo pblico (a tortura e o suplcio) pelo disciplinamento

    do corpo nas prises. O corpo supliciado escamoteado, diz Foucault:

    penetramos na poca da sobriedade punitiva.5

  • 10

    O livro comea com a citao de um fragmento que narra o suplcio e a

    execuo pblica, na Frana pr-Revoluo, de Robert-Franois Damiens,

    sentenciado pelo Parlamento de Paris depois de golpear com uma faca o

    rei Lus XV:

    [Damiens fora condenado, a 2 de maro de 1757], a pedir

    perdo publicamente diante da porta principal da Igreja

    de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa

    carroa, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera

    acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroa, na praa

    de Greve, e sobre um patbulo que a ser erguido, atenazado

    nos mamilos, braos, coxas e barrigas das pernas, sua mo

    direita segurando a faca com que cometeu o dito parricdio,

    queimada com fogo de enxofre, e s partes em que ser

    atenazado se aplicaro chumbo derretido, leo fervente,

    piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente,

    e a seguir seu corpo ser puxado e desmembrado por quatro

    cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo,

    reduzidos a cinzas, e suas cinzas lanadas ao vento.6

  • 11

    Em 2007, 250 anos depois da execuo de Damiens, um homem acusa-

    do de roubar um celular na periferia de Belm, estado do Par. A descri-

    o abaixo foi feita por Danielle Rodrigues, sociloga do Rio de Janeiro, a

    partir de um vdeo encontrado no YouTube:

    A populao se aglomera em torno dele, um negro aparen-

    tando ter por volta de 30 anos, retira suas roupas e o deixa

    apenas com os trajes ntimos. Tudo se processa em uma larga

    rua asfaltada, onde aproximadamente 30 moradores tentam

    captur-lo. O homem corre de um lado para o outro, mas, em

    todas as direes, encontra pessoas dispostas a imobiliz-lo.

    Os perseguidores, ao no conseguirem prend-lo devido a

    sua rapidez, comeam a usar diversos objetos para agredi-lo

    distncia. Atiram pedras e pedaos de madeira na tentativa

    de acert-lo. Alguns lanamentos atingem o alvo e o ferem.

    Graas s feridas, o sangue comea a ficar visvel. O homem

    continua correndo de um lado para o outro, tentando escapar,

    porm cada vez mais pessoas se aglomeram em torno dele

    tentando encurral-lo. J cansado de correr, ele se encolhe em

    frente ao porto de uma casa cobrindo o rosto, de maneira in-

    defesa. Nesse momento, um homem se aproxima e lhe d uma

    paulada forte na cabea. A multido grita em comemorao.7

  • 12

    H diferenas fundamentais entre os dois relatos, claro por exemplo,

    o fato de Damiens ter sido executado pela Coroa francesa por esfaquear

    o rei, enquanto o homem de Belm foi sentenciado e linchado pelos pr-

    prios moradores (seus pares) por conta de um delito menor. Mas, apesar

    da distncia no tempo e no espao e das diferentes metodologias utiliza-

    das, uma caracterstica que aproxima os dois eventos a funo que a

    punio pblica adquire enquanto espetculo.

    As mudanas analisadas por Foucault eram vistas, nos anos pr-Revolu-

    o, como traos evolutivos da civilizao ocidental a barbrie interior

    passaria a ser ocultada em proveito de uma racionalizao dos cdigos

    penais. Um exemplo desse pensamento o verbete dedicado ao suplcio

    na famosa Enciclopdia editada por Diderot e dAlembert:

    SUPLCIO, s. m. (Governo) punio corporal, mais

    ou menos dolorosa, mais ou menos atroz. Um dicionrio

    dos diversos suplcios, praticados entre todos os povos

    do mundo, faria tremer a natureza; um fenmeno

    inexplicvel a extenso da imaginao dos homens

    para a barbrie e a crueldade.8

    No mundo iluminista, a tortura passa a ser um mal, um sintoma da barbrie.

    O vdeo do Par atingiu, depois de oito anos na rede, quase um milho e

    meio de visualizaes e mais de dois mil comentrios. um caso raro de

    sobrevida na internet, j que muitos dos vdeos que apresentam violncia

  • 13

    explcita acabam sendo apagados em pouco tempo. Nas diretrizes da co-

    munidade, o YouTube afirma no aceitar postagens de contedo violento,

    cuja inteno principal seja a de chocar, impressionar ou desrespeitar9,

    e permite que o pblico denuncie contedos que considere imprprios.

    Mas ainda que, individualmente, a maioria dos vdeos no resista por mui-

    to tempo, o fluxo de imagens da violncia contnuo, permanentemente

    atualizado basta uma pesquisa no site por termos prximos (linchamen-

    to, linchado, espancado) para que a tela seja inundada por imagens da

    barbrie. Na maioria delas, repete-se um roteiro bastante uniforme: uma

    sequncia de acusaes, xingamentos, chutes, pauladas e golpes em que

    se utilizam ferramentas to diversas quanto prosaicas, como capacetes e

    bicicletas, que ilustram de forma eloquente o ritual do excesso descrito

    por Foucault: a morte-suplcio a arte de reter a vida no sofrimento, sub-

    dividindo-a em mil mortes e obtendo, antes de cessar a existncia, the

    most exquisite agonies [as agonias mais requintadas].10

    Ainda que o espetculo do suplcio tenha perdido espao dentro do leque

    de punies do nosso tempo, no preciso pesquisar tanto para concluir

    que, durante todo o sculo 20 e nestas primeiras dcadas do 21, a prti-

    ca da tortura fsica se manteve presente no apenas como instrumento

    de brbaros (jihadistas, extremistas hutus, quadrilhas do trfico), como

    tem sido tambm amplamente utilizada pelas foras oficiais da civiliza-

    o (vide Abu Ghraib, Guantnamo, ditaduras militares latino-america-

    nas). Tambm no surpreende que o suplcio do corpo se espalhe como

    prtica corriqueira em cidades de pases pobres e em desenvolvimento,

  • 14

    especialmente nas regies onde no h a presena efetiva

    de um Estado benfeitor. Os linchamentos e justiamentos

    pblicos, e tambm a tortura perpetrada pelo Estado, repre-

    sentam formas arcaicas de controle social, realizado a par-

    tir da imposio violenta de valores vistos como civilizados,

    em oposio barbrie dos delitos dos quais se acusam os

    torturados seja o roubo de um celular ou uma conspirao

    poltica. Simone Weil, em um ensaio sobre a Ilada escrito

    em 1940, disse que a fora aquilo que transforma quem

    quer que lhe seja submetido em uma coisa11, e sob essa

    lgica que as diversas modalidades de tortura operam.

  • 15

  • 16

    LINCHAMENTOS NO BRASIL

    Uma dificuldade bsica encontrada por qualquer pessoa que tente pes-

    quisar os linchamentos no Brasil a ausncia de dados oficiais o lincha-

    mento no um crime tipificado, ou seja, no existe enquanto categoria

    no Cdigo Penal, como o caso do homicdio e do latrocnio, por exemplo.

    Essa ausncia costuma ser explicada por alguns motivos: por ser uma

    ao coletiva, difcil apontar, por exemplo, quem foi o autor do golpe fa-

    tal, quando ele acontece (o que caracterizaria homicdio); por ser espont-

    neo, geralmente impossvel determinar o nvel de envolvimento de cada

    participante (o que diferenciaria agressores de cmplices). Sem estatsti-

    cas oficiais, a categorizao fica a cargo da imprensa ou, nesse caso, dos

    responsveis pelos vdeos publicados no YouTube (autores e uploaders).

    Um esforo consistente de compilao de dados da violncia no Brasil, lin-

    chamentos inclusive, foi realizado pelo Ncleo de Estudos da Violncia da

    Universidade de So Paulo (NEV-USP), que tabulou registros publicados

    pela imprensa em um perodo de 30 anos, de 1980 a 2010.

  • 17

    Ariadne Natal, pesquisadora do NEV-USP, utilizou o banco de dados sobre

    linchamentos em sua dissertao de mestrado, restringindo-se Regio

    Metropolitana de So Paulo. Apesar de existirem relatos de linchamentos

    desde o sculo 16 (mesmo que o termo no existisse), Ariadne percebe

    uma clara ligao entre a intensa e precria urbanizao decorrente do

    crescimento econmico na segunda metade do sculo 20, a violncia poli-

    cial advinda da ditadura militar, a desconfiana das populaes marginali-

    zadas em relao ao Estado e a ampla divulgao, em especial pela mdia

    popular, de uma moral binria que ope homens de bem a bandidos e

    serve para justificar socialmente o suplcio pblico.

    [Os linchamentos] esto ligados a uma deslegitimao pblica

    dos direitos civis que acionada depois da passagem para o re-

    gime democrtico e toma forma se enraizando em uma cultura

    na qual o corpo do indivduo pode sofrer interferncias exter-

    nas, e na qual a dor, o sofrimento e o abuso so vistos como

    instrumentos de desenvolvimento moral e ordem. 12

    Hoje, essa mentalidade encontra eco em uma srie de veculos de impren-

    sa popular, que se dedicam cobertura de casos policiais e propagam a

    ideia j recorrente de que bandido bom bandido morto (tambm bas-

    tante presente nos comentrios adicionados aos vdeos no YouTube). Essa

    moral dualista, que rechaa os direitos humanos em prol do que se cha-

    ma popularmente de humanos direitos, coloca o acusado na posio de

    brbaro, um ser tomado pelo mal, pela perversidade; como se, em uma

    escala moral de humanidade, o bandido estivesse no nvel mais inferior

  • 18

    desumanizado, portanto. Uma vez localizado, o mal precisa ser extinto

    seja pelos meios oficiais, seja com as prprias mos ou se espalhar

    pela sociedade feito um tumor. Diz Lcio Kowarick:

    O medo e a desconfiana so elementos que estruturam o

    cotidiano e o modo de vida das pessoas, que levam em conta

    a sua situao de vulnerabilidade e acionam mecanismos de

    autodefesa e retraimento que implicam na evitao do outro.

    (...) O olhar sobre os outros como seres ameaadores abre

    espao para uma mentalidade exterminatria. No se trata,

    portanto do outro excludo e confinado, trata-se daquele que

    visto como risco e por isso demonizado, a encarnao do

    mal pode e precisa ser eliminada.13

    Ariadne conclui que os linchamentos no podem ser interpretados como

    aes irracionais, j que os dados pesquisados mostram que as vtimas

    dos linchamentos tm, em geral, o mesmo perfil apontado pelas estatsti-

    cas de violncia policial e homicdios: os linchamentos dialogam com seu

    tempo, eles fazem parte de uma realidade e acionam um repertrio que

    aponta quem so os exterminveis. Este repertrio no exclusivo dos

    linchadores, ele compartilhado por boa parte das pessoas que apoiam

    estas aes.14

  • 19

  • 20

    Jovem preso a poste no bairro do Flamengo

    Yvonne Bezerra de Mello / acervo pessoal

    2014

    PelourinhoJean-Baptiste Debret1827

  • 21

    2014 E A ONDA

    Em 31 de janeiro de 2014, um adolescente foi agredido a pauladas e preso

    pelo pescoo, com um cadeado de bicicleta, a um poste no bairro do Fla-

    mengo, no Rio de Janeiro, acusado de furto. Na poca, uma reportagem

    da Folha de S. Paulo comentou:

    Moradora da regio, a filloga Yvonne Bezerra de Mello, 67,

    do Projeto Uer, encontrou o garoto desorientado e chamou os

    bombeiros. ()Me pareceu que algum quis fazer Justia com

    as prprias mos j que aqui tem acontecido muito assalto,

    principalmente com gangues de garotos e ciclistas. Mas admira

    ver uma cena deplorvel dessa em 2014. Uma barbrie... se

    marginal, prende, disse a filloga Folha. (...) Na hora, eu vi

    um quadro de Debret, aqueles negros no pau de arara, amarra-

    dos no tronco para serem castigados a pauladas, lembrou.15

  • 22

    O caso ganhou notoriedade, rendendo discusses acirradas nas redes so-

    ciais e na imprensa. Ficou famoso o discurso da colunista Rachel Shehe-

    razade, veiculado pelo SBT no dia 4 de fevereiro e usado como exemplo

    tanto por seus apoiadores como por seus opositores:

    O marginalzinho amarrado ao poste era to inocente que,

    ao invs de prestar queixa contra seus agressores, preferiu

    fugir antes que ele mesmo acabasse preso. que a ficha do

    sujeito est mais suja do que pau de galinheiro. No pas que

    ostenta incrveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes,

    que arquiva mais de 80% de inquritos de homicdio e sofre

    de violncia endmica, a atitude dos vingadores at com-

    preensvel. O Estado omisso, a polcia desmoralizada, a

    Justia falha. O que resta ao cidado de bem que, ainda por

    cima, foi desarmado? Se defender, claro. O contra-ataque

    aos bandidos o que chamo de legtima defesa coletiva de

    uma sociedade sem Estado contra um estado de violncia

    sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se

    apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lano uma

    campanha: faa um favor ao Brasil, adote um bandido.16

    Trs meses depois, no dia 3 de maio, a dona de casa Fabiane Maria

    de Jesus, de 33 anos, foi espancada e assassinada no bairro de Morri-

    nhos IV, no Guaruj, onde vivia. Os agressores so moradores do mes-

    mo bairro, que disseram ter confundido Fabiane com o retrato falado

    de uma suposta bruxa, uma mulher que estaria sequestrando crianas

    para utiliz-las em rituais satnicos. A imagem e a denncia foram di-

    vulgadas dias antes pelo portal Guaruj Alerta, uma pgina indepen-

  • 23

    dente de notcias sobre segurana, mas a polcia infor-

    mou pouco tempo depois que o retrato falado no tinha

    qualquer relao com Fabiane tratava-se de um crime

    ocorrido no Rio de Janeiro anos antes, nada relacionado

    a rituais de magia negra e que no havia nenhum re-

    gistro de desaparecimento de crianas em Morrinhos IV.

    Quando o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, mor-

    ta por engano, entrou para o noticirio nacional, grande

    parte dos veculos de imprensa passou a noticiar a onda

    de linchamentos que assolava o pas falou-se inclusi-

    ve em um efeito Sheherazade. Foram divulgados dados

    que enumeravam os casos ocorridos entre o jovem do Fla-

    Retrato-faladoPolcia Civil do Rio de Janeiro

  • 24

    mengo e o assassinato de Fabiane uma delas apontava que 38 pessoas

    haviam sido vtimas de linchamentos no pas no perodo, 20 delas com

    desfecho fatal. Uma reportagem do jornal Estado de Minas, publicada trs

    dias depois da morte de Fabiane, sugeria uma ponte entre os dois casos,

    marcando como incio da onda o linchamento do Flamengo: especialistas

    sugerem que a repercusso do vdeo de um adolescente do Rio de Janeiro,

    agredido a pauladas e amarrado nu a um poste no fim de janeiro, tenha

    desencadeado uma onda de crimes.17

    O fenmeno descrito pela reportagem conhecido como copycat: um indi-

    vduo que j tinha propenso a cometer aquele ato termina por reproduzir

    um modus operandi observado.18 Como no h dados oficiais sobre lincha-

    mentos, no possvel confirmar a suposio de que o caso do Flamengo

    desencadeou a tal onda, como afirmam as anlises. O que se pode dizer

    com certeza que a ampla divulgao de um crime pela mdia acarreta

    um aumento considervel na divulgao de outros casos. Ainda assim,

    bastante plausvel que tenha ocorrido um aumento no nmero de lincha-

    mentos naquele perodo: na medida em que aumentam o interesse geral e

    a reao positiva de parte da sociedade e da mdia a prticas como essas,

    no parece to ilusrio pensar que o linchamento acabe se legitimando

    enquanto mtodo de controle social, ainda que extraordinariamente.

  • 25

  • 26

    UMA ETIMOLOGIA DO LINCHAMENTO

    J quase consenso que a palavra linchamento deriva de Lynch Law

    (Lei de Lynch), um termo utilizado no perodo da Revoluo Americana,

    em finais do sculo 18, para identificar a prtica da punio sem chance

    de julgamento. O nome pode se referir tanto a William Lynch quanto a

    Charles Lynch, ambos fazendeiros do estado da Virginia nos anos 1780. O

    primeiro dos dois a utilizar o termo, reconhecidamente, foi Charles, que

    instalou uma corte no seu condado para julgar, de forma extralegal, colo-

    nos que defendessem a monarquia britnica. Charles menciona a Lynch

    Law em uma carta datada de 11 de maio de 178219.

    O termo lynching s se tornou popular a partir da Guerra de Secesso,

    quando passou a ser associado diretamente execuo pblica, em geral

    por enforcamento, com participao popular. Os linchamentos tinham

    como vtimas, em sua grande maioria, os negros do sul dos Estados Uni-

    dos; foram muito comuns aps o fim da escravatura, mas os registros

    existentes chegam at os conflitos raciais do final dos anos 196020. En-

    tre 1882 e 1968, foram registrados 4.742 casos nos Estados Unidos; no

    mesmo perodo, foram apresentados aproximadamente 200 projetos de

    lei antilinchamento, mas nenhuma passou pelo Congresso. Em 2005, o

    Senado norte-americano aprovou um pedido de desculpas oficial pela sua

    recusa histrica em condenar a prtica.

  • 27

    No Brasil, os jornais comearam a usar o termo j no final

    do sculo 19, primeiro em referncia aos casos ocorridos

    nos Estados Unidos, e depois aplicando-o tambm aos casos

    semelhantes ocorridos por aqui. O primeiro linchamento

    de que se tem notcia no Brasil data de 1585, em Salvador,

    quando a populao enfurecida executou o ndio Antnio

    Tamandar, um fugitivo de uma reduo jesutica que,

    segundo consta, estaria tomado por ideias messinicas21.

    Linchamento de Laura e Lawrence Nelson em Okemah, OK,

    25 de maio de 2011George Henry Farnum

  • 28

    claro que h diferenas cruciais entre o contexto norte-americano e o

    brasileiro, o que torna a comparao bastante frgil: enquanto nos Estados

    Unidos dos sculos 18 e 19 os linchamentos eram predominantemente

    rurais e de corte racial, no Brasil, como j dissemos, o fenmeno

    contemporneo est diretamente ligado intensa urbanizao por que o

    pas passou nas ltimas dcadas (ainda que existam registros tambm em

    reas rurais), e em geral tem motivao moral. Apesar disso, possvel

    buscar uma razo mais profunda para aproximar os dois contextos: para

    o pesquisador Jos de Souza Martins, o carter racial dos linchamentos

    nos Estados Unidos ps-escravido representava uma crise mais pro-

    funda, que se manifestava como deteriorao de uma hierarquia social

    preexistente22, que na poca colocava os brancos legalmente acima dos

    negros. H uma dupla moral envolvida nos linchamentos, diz Martins,

    uma popular e outra legal. O linchamento representaria, em sua raiz, um

    julgamento dos cdigos legais pela moral popular: com seu ato, os lin-

    chadores indicam que h violaes insuportveis de normas e valores23.

    O linchamento no seria, portanto, uma manifestao da desordem, e sim

    de um questionamento da desordem, um questionamento da legitimidade

    do poder e das instituies. A crise brasileira que justifica os linchamen-

    tos tambm uma crise de representao, e a violncia uma forma de

    reao sensao de desagregao de uma sociedade gestada pelo medo.

  • 29

  • 30

    Linchamento de Will Moore, 20 de maio de 1919

    Na fotografia, l-se: Negro que atirou em J. H. Rogers em Ten Mile, Mississippi

  • 31

    DOCUMENTOS DA BARBRIE

    Os linchamentos foram to presentes na cultura dos Estados Unidos que

    se tornaram objetos de curiosidade e colecionismo. Um hbito bastante

    comum na virada do sculo 19 para o 20 era o registro fotogrfico das exe-

    cues e a troca de cartes postais. Uma reportagem da revista Time24 de

    abril de 2000 diz que, em 1908, o comrcio de cartes postais retratando

    linchamentos havia se tornado to grande e repugnante que o servio de

    correios dos Estados Unidos decidiu banir o seu envio. Muitas das foto-

    grafias e postais produzidos na poca foram reunidos pelo colecionador

    James Allen no projeto Without Sanctuary25, transformado em livro e ex-

    posio. As imagens repetem exausto cenas de enforcamento, apedre-

    jamento e queima de corpos humanos em ambientes pblicos, em geral

    acompanhados por uma multido atenta e festiva. Ao espalhar a mensa-

    gem dos linchamentos pelo territrio americano, os postais amplificavam

    o carter educativo e moralizante desses eventos, realizados em sua

    maioria com o propsito de colocar o negro no seu devido lugar, para

    usar uma expresso corriqueira.

  • 32

    Centenas de Kodaks clicavam no local do linchamento duran-

    te toda a manh. Pessoas vinham de muito longe em auto-

    mveis e carruagens para ver o cadver pendurado na ponta

    de uma corda... Fotgrafos de cartes postais instalaram na

    ponte uma mquina de impresso porttil, e colhiam uma sa-

    fra na venda de cartes com a fotografia do negro linchado...

    Em vrias escolas rurais a rotina do dia foi adiada para que

    meninos e meninas pudessem ver o homem linchado.26

    Linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith, em 1930

    A foto inspirou a composio do poema Strange Fruit, posterior-

    mente musicado por Billie Holiday

  • 33

    Paul Reed e Will Cato, que assassinaram e queimaram os cinco membros da famlia Hodge, 28 de julho de 1904,

    prximo a Statesboro, Georgia.

    Vinte minutos depois que Cato e Reed foram queimados, 16 de agosto de 1904.

  • 34

    Apesar de no existir no Brasil uma iconografia das execues pblicas

    to representativa quanto a dos Estados Unidos, quando analisamos em

    conjunto as representaes feitas no sculo 19, os relatos de torturas exe-

    cutadas na ditadura militar e as imagens de linchamentos publicadas hoje

    na internet, possvel visualizar uma espcie de genealogia do imaginrio

    da barbrie, um trao que conecta histrica e visualmente grande parte

    desses eventos. O pau-de-arara, por exemplo, est presente no imaginrio

    desde as aquarelas feitas por Debret no sculo 19 at os relatos de presos

    polticos da dcada de 1970, como este, recolhido por Maurcio Lissovsky:

    O pau-de-arara consiste numa barra de ferro suspensa que

    atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho,

    sendo o conjunto colocado entre duas mesas, ficando o corpo

    do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 cm do solo.27

  • 35

    Movimento, semanrio de esquerda que circulou entre 1975 e 1981, publicou uma fotografia que retrata o pau-de-arara encenado por seus reprteres.

    Fragmento do filme Arara, de Jesco von Puttkamer (1970), que mostra a encenao de um pau-de-arara real-izada pela Guarda Indgena em um cortejo diante das autoridades.

  • 36

    A imagem do jovem acorrentado a um poste pelo pescoo, em janeiro de

    2014, fez a moradora que o encontrou lembrar-se de Debret e das repre-

    sentaes do pelourinho. No YouTube, so abundantes as cenas de corpos

    amarrados e espancados por linchadores. Uma fotografia de Luiz Morier,

    vencedora do Prmio Esso de Fotojornalismo em 1983, lembrada por

    Lissovsky em outro texto:

    Naquele dia, o nmero de prises foi to grande que falta-

    ram algemas. Um policial conseguiu uma corda, e os presos

    foram conduzidos amarrados uns aos outros. Morier deu

    foto o ttulo de Todos negros, e no houve quem no relacio-

    nasse a ao dos policiais aos capites do mato, agentes que

    no tempo da colnia eram encarregados de recapturar os es-

    cravos fugidos. Tal semelhana foi, claro, o motivo do prmio.

    Uma imagem adormecida, latente, que se materializa, em

    igual medida, no gesto dos policiais, nas lentes do fotgrafo e

    na memria dos leitores do jornal. primeira vista, a indig-

    nao do pblico parece motivada pela brutalidade policial,

    mas a naturalidade da ao que verdadeiramente choca.

    Isto , o modo como naturalmente coloca-se em atono pre-

    senteas imagens que a histria nos acostumou a ver como

    passadas. Que os presos sejam tratados com desrespeito

    menos motivo de revolta, creio eu, que a ao dos policiais ao

    reencarnar em corpos vivos a imagem morta.28

  • 37

    Todos negrosLuiz Morier1983

  • 38

    Fabiane Maria de Jesus foi acusada de sequestrar crian-

    as para rituais de magia negra. Seu crime, ao que pare-

    ce, foi oferecer uma fruta a um menino desconhecido (no

    lembra a bruxa que envenena Branca de Neve?). Sua pena:

    a morte pelo suplcio do corpo. A histria nos transporta

    imediatamente aos autos-de-f realizados pela Inquisio

    catlica e perseguio a bruxas e protestantes na Idade

    Mdia. A queima dos corpos (vivos ou mortos) acontece

    tambm em alguns linchamentos recentes, como no caso

    de Matup, no Mato Grosso (o registro de linchamento em

    vdeo mais antigo de que se tem notcia). No dia 23 de no-

    vembro de 1990, uma multido linchou e queimou vivos os

    corpos de trs assaltantes que haviam tomado moradores

    da cidade como refns29. Mais recentemente, em 31 de ja-

    neiro de 2015, um homem de 52 anos foi linchado e morto

    no bairro de Bom Jesus, em Porto Alegre, aps ser acusado

    de tentar estuprar a enteada. Moradores da regio o ataca-

    ram com pedras e tijolos; quando j estava desacordado,

    atearam fogo ao corpo30.

    Linchamento em Matup - MT

    1990

  • 39

    Linchamento em Matup - MT

    1990

    Queima de John Rogers, tradutor da Bblia e mrtir protestante

    John Foxe1563

  • 40

  • 41

  • 42

  • 43

  • 44

    UMA PROPOSIO

    Daremos um salto no percurso histrico para propor uma associao sim-

    blica que passa a ser a chave deste trabalho: na nossa percepo, h um

    paralelo entre os vdeos de linchamentos publicados hoje no YouTube e os

    postais que circularam nos Estados Unidos de um sculo atrs. Obviamen-

    te, h diferenas de contexto, mas a comparao, mesmo que arbitrria,

    parece fazer sentido por trs caractersticas comuns s duas narrativas:

    - compreendem uma forma popular e contempornea de transmis-

    so de informao (correio X internet);

    - utilizam uma linguagem visual realista apoiada no testemunho

    documental (fotografia X vdeo de celular);

    - esto permeados por um carter moralizante, como se, por meio

    da transmisso, buscassem legitimar as aes representadas.

  • 45

    Susan Sontag, em um artigo publicado no New York Times em 2004, j

    anunciava um possvel paralelo comparando os postais de linchamentos

    s imagens produzidas e disseminadas pelos soldados em Abu Ghraib:

    As imagens de linchamentos funcionavam, na natureza da

    fotografia, como trofus tiradas por um fotgrafo com o obje-

    tivo de serem colecionadas, guardadas em lbuns, exibidas. As

    fotografias feitas pelos soldados americanos em Abu Ghraib,

    entretanto, refletem uma mudana no uso destas imagens de

    objetos de coleo, passam a mensagens que visam disse-

    minao e circulao. A cmera digital um objeto comum

    entre soldados. Enquanto antes a fotografia de guerra era o

    terreno prprio dos fotojornalistas, agora soldados so todos

    fotgrafos registram a sua guerra, a sua diverso, aquilo que

    acham pitoresco, as suas atrocidades e trocam imagens entre

    eles prprios, compartilham-nas com o mundo por e-mail.31

    As prximas notas procuram dar conta dessa dimenso.

  • 46

    O ESPETCULO DA VIOLNCIA

    Um linchamento, hoje, se caracteriza pela reunio espontnea de um gru-

    po de pessoas a fim de punir fisicamente um suposto criminoso, acusado

    pela prpria populao. Alm disso, costuma acontecer em espaos pbli-

    cos, geralmente na rua, atraindo a curiosidade dos vizinhos; possui, assim,

    uma dimenso de espetculo, no sentido da representao de uma cena.

    Danielle Rodrigues analisou 42 vdeos de linchamentos coletados no You-

    Tube. A partir da observao desses registros, Danielle interpreta os lin-

    chamentos como teatro, uma representao dotada de visualidade e dra-

    maturgia prprias. No centro do enredo est a acusao, que em geral

    sumria, sem chance de argumentao: na maioria das vezes, basta um

    grito de Pega ladro! para que a indignao se alastre pela comunidade

    e o linchamento comece. Na pesquisa, Danielle desenha uma estrutura

    composta por 18 cenas e 6 personagens presentes na maioria dos vdeos.

    As cenas progridem da aglomerao de pessoas em torno do acusado at

    a disperso final. A tipologia dos personagens inclui o linchado, o lincha-

    dor, o instigador, o espectador, o policial e, por fim, o cmera, cada qual

    representando papis definidos no roteiro do espetculo.

  • 47

    O linchamento geralmente tem um formato circular. O ncleo

    da cena o linchado e cada um dos personagens se posiciona

    como em camadas concntricas. Em volta dele, o primeiro

    crculo composto pelos linchadores, os mais prximos, justa-

    mente por acessarem fisicamente o acusado. No segundo crcu-

    lo esto os instigadores, imediatamente localizados atrs dos

    linchadores, permitindo processar um movimento de intercm-

    bio, j que em algumas situaes eles se revezam (linchadores

    se tornam instigadores e vice-versa). O cmera geralmente

    circula entre a primeira e segunda camadas. Os espectadores

    esto na parcela mais externa da multido, em uma ltima

    camada, a mais afastada do agredido.32

    Alm disso, a observao dos vdeos torna mais clara a ideia j discutida

    de que a legitimao da violncia se d pela estigmatizao do acusado

    vagabundo, bandido, vacilo, piranha, filho da puta so expresses recor-

    rentes. A um indivduo considerado no-humano pode-se negar qualquer

    direito, e novamente a barbrie surge como doena: os linchadores sen-

    tem-se na obrigao moral de curar a comunidade daquele mal.

  • 48

  • 49

  • 50

    VER OU NO VER AS IMAGENS?

    A palavra espetculo vem do latim, e deriva de spectre: olhar, obser-

    var atentamente, contemplar. Podemos distinguir duas camadas de espe-

    tculo nos linchamentos gravados e disseminados na rede. A primeira

    fsica, presencial: acontece na rua e tem a finalidade especfica de punir

    um criminoso; contemplam-na moradores e transeuntes, perpetradores,

    cmplices e testemunhas. A segunda, o espetculo da imagem registrada

    e disseminada, virtual: distante, com fins educativos e moralizantes, p-

    blico vasto e indeterminado.

    Os vdeos gravados por celulares e cmeras amadoras so, muitas vezes,

    publicados pelos prprios autores; noutras, so replicados em perfis de

    apoiadores ou crticos, ou por canais online, as fanpages (Faca na Caveira

    Oficial e Apoio Policial, por exemplo), que os empacotam em imitaes

    toscas de programas jornalsticos. Na maioria absoluta dos casos, os v-

    deos so publicados com comentrios em apoio aos linchadores.

    Em julho de 2015, uma pesquisa pelos termos linchamento e lincha-

    do no YouTube rendia aproximadamente 31.300 resultados, o que nos faz

    ressoar perguntas deixadas por uma srie de pensadores desde que Ro-

    ger Fenton inaugurou a fotografia de guerra na Crimeia, em 1854. Como

    reagir diante do fluxo incessante (e crescente) de imagens da violncia?

    Por outro lado, qual o instinto mrbido que cria tamanho interesse pela

    representao da atrocidade?

  • 51

    Anthony W. Lee, historiador e editor do livro Lynching Photographs, abor-

    da a segunda pergunta na introduo que faz ao livro. Lee conta a his-

    tria de uma modesta exposio de fotografias e cartes postais sobre

    linchamentos realizada em uma galeria de arte de Nova York (a mesma

    Without Sanctuary citada anteriormente). Em pouco tempo, diz, a mostra

    passou a receber filas que dobravam a esquina; Stevie Wonder e Oprah

    Winfrey fizeram visitas privadas, jornais e TVs a noticiaram, e meses de-

    pois a exposio reabriu em um espao maior, recebendo filas ainda mais

    longas. Lee conclui que, em um sentido desconfortvel, as multides que

    se reuniram na galeria replicavam as multides que assistiram aos even-

    tos originais, trazidos cena por causa do espetculo do corpo linchado.33

    Sobre a mesma exposio, Susan Sontag comentou em 2003:

    Argumentou-se tambm que nos submetermos a uma prova-

    o nos ajudaria a compreender tais atrocidades no como um

    ato de brbaros, mas como o reflexo de um sistema de cren-

    a, o racismo, que, ao classificar um povo como menos huma-

    no do que outro, legitima a tortura e o assassinato. Mas talvez

    eles fossem brbaros. Talvez seja essa a aparncia da maioria

    dos brbaros. (Eles so semelhantes a qualquer pessoa.)34

  • 52

    Ser que essa mesma lgica pode ser aplicada s imagens de violncia

    disseminadas hoje na internet? Seremos ns, espectadores, tambm cm-

    plices dos eventos registrados? Frank Mller, pesquisador da Universida-

    de de Tampere, na Finlndia, coloca em questo a posio do espectador

    diante de imagens de atrocidades. Os objetos que Mller analisa so as

    imagens dos atentados de 11 de setembro de 2001, as fotografias de Abu

    Ghraib e os vdeos de execues produzidos por terroristas, como aque-

    les divulgados recentemente pelo ISIS. So todos crimes cometidos em

    um contexto de distribuio massiva, o que nos faz associar a anlise aos

    vdeos de linchamentos publicados no YouTube. Mller expe um dilema:

    O ato de ver constitui um espao pblico, e como parte deste

    o indivduo capaz de exercer algum poder poltico. A partir

    deste ponto de vista, parece ser obrigatrio aos indivduos

    olhar para tais imagens, incluindo as que retratam o sofri-

    mento de pessoas, j que, do contrrio, eles se posicionariam

    fora da esfera poltica, privados da possibilidade de agir. O

    outro lado da moeda que, para isso, independentemente

    dos sentimentos das vtimas, o sofrimento humano tem de

    ser capturado visualmente, porque, caso contrrio, seria efe-

    tivamente despolitizado. A construo do espao poltico pelo

    espectador implica tanto a compulso de olhar quanto a de

    mostrar, e ambas so suscetveis de se chocar regularmente

    com os sentimentos e interesses das vtimas.35

  • 53

    As imagens de linchamentos publicadas no YouTube no carregam a mes-

    ma premeditao presente nas execues do ISIS, por exemplo: enquan-

    to os fundamentalistas islmicos se apropriam da linguagem audiovisual

    com o fim determinado de chocar o espectador, os vdeos de linchamentos

    so produzidos no calor do momento, por cidados comuns sem deman-

    das polticas elaboradas. Na nsia por reconhecimento e popularidade,

    tpica das redes sociais, os vdeos atrozes so publicados (e eis o seu lado

    mais trgico) com a mesma naturalidade com que se compartilha a ima-

    gem de um gato tecladista. como se autores e defensores do linchamen-

    to convidassem os espectadores cumplicidade.

    O prisioneiro Ali Shallal al-Qaisi torturado em Abu Ghraib2003

  • 54

    No fim, tanto Mller quanto Sontag concluem que no h sada na evita-

    o do contato com a atrocidade. Deixemos que as imagens atrozes nos

    persigam36, diz Sontag. Se somos cmplices ou no, tais imagens devem

    ser vistas. Mas o olhar crtico sobre a enxurrada de imagens da barbrie

    exige do observador, em primeiro lugar, a oposio ao olhar complacente,

    e isso implica borrar as fronteiras entre eu e outro, reconhecer o br-

    baro que h em cada um: no mais o outro no civilizado, desumanizado,

    mas o espelho da barbrie que constitui uma sociedade doente, para re-

    tomar Plato.

    Sontag:

    Mostrar um inferno no significa, est claro, dizer-nos

    algo sobre como retirar as pessoas do inferno, como amai-

    nar as chamas do inferno. Contudo, parece constituir um

    bem em si mesmo reconhecer, ampliar a conscincia de

    quanto sofrimento causado pela crueldade humana existe

    no mundo que partilhamos com os outros.37

  • 55

    Prisioneiros egpcios ajoelham-se diante de militantes armados do Estado Islmico em uma praia na Lbia.2015

  • 56

  • 57

    ESTTICA, ANESTESIA, PS-FOTOGRAFIA

    As palavras esttica e anestesia compartilham a mesma raiz: aisthsis,per-

    cepo, sensibilidade. J bastante divulgada a ideia de que a superexposi-

    o s imagens da violncia teria um efeito anestsico sobre o observador,

    que ficaria cada vez menos impressionvel e menos reativo violncia.

    ideia de anestesia podemos associar tambm a da amnsia, j que, no

    mundo das imagens atrozes, a insensibilidade relativa aos registros com-

    partilhados na rede est ligada impossibilidade de elaborar construes

    racionais em reao barbrie. Quem no lembra, no reage. Alm disso,

    j senso comum dizer que vivemos sob uma enxurrada, ou uma ava-

    lanche de informaes, e o uso de palavras que sugerem a ideia de fluxo

    intenso obviamente no gratuito. Jacques Le Goff diz: o documento

    um monumento, o produto de uma montagem, voluntria ou no, da so-

    ciedade que o produziu e das sucessivas pocas s quais sobreviveu.38 Os

    documentos da cultura (e da barbrie), no entanto, deixaram de pertencer

    aos grandes e concretos arquivos do passado para compor uma gigantesca

    massa de dados, um universo em constante fluxo e reconfigurao39. E

    essa torrente afeta a forma como a memria criada, processada, fixada.

  • 58

    O tema da memria na contemporaneidade digital recorrente (e bas-

    tante associado ao tema da violncia), reflexo do boom da memria do

    sculo 20 que agora se v desmaterializada. Na era da memria como

    informao, a memoria rerum experimental d lugar a uma sobrecarga

    de memoria verborum textual, agora escrita em cdigo, diz Yayza Hernn-

    dez40. Aristteles chamou de estado de fluxo aquele no qual a memria

    incapaz de se imprimir, e Mrcio Seligmann-Silva cita-o para sustentar

    que, paradoxalmente, sofremos concomitantemente de hipermnsia e de

    amnsia. A memria demais leva tambm a um apagamento da informa-

    o por impossibilidade de metabolizao da mesma.41 Por fim, o terico

    da imagem Hubertus von Amelunxen faz a pergunta que consideramos

    essencial para a reflexo proposta aqui:

    Como a cultura ocidental, cuja tradio pictrica baseada

    essencialmente em uma viso de mundo anloga / analgica, vai

    ser capaz de se referir, no futuro, a uma presena sumariamente

    numrica, estabelecida em imagens e escrita, sons e formas?42

    Quais os gestos criativos capazes de transformar em esttico o anestsi-

    co? Como fixar a memria e assim reagir barbrie? Se a arte luta contra

    o caos para torn-lo sensvel, como disseram Deleuze e Guattari43, como

    ento tornar sensvel aquilo que parece nos encaminhar insensibilidade?

  • 59

    O fotgrafo catalo Joan Fontcuberta prope que, em um mundo saturado

    de imagens, sejam elas capturadas por cmeras fotogrficas ou por apa-

    relhos celulares e cmeras de vigilncia, no vivemos mais no tempo da

    fotografia, mas na ps-fotografia, na qual todos produzem imagens espon-

    taneamente como uma forma natural de se relacionar com os outros44. A

    ps-fotografia seria, assim, uma nova linguagem universal que habita es-

    pecialmente o ambiente virtual, da conectividade, onde todos so fotgra-

    fos (talvez realizando a sociedade do espetculo de Debord, que anteviu

    um mundo em que as relaes sociais entre pessoas seriam mediada por

    imagens, mas esse assunto para outro ensaio).

    Ainda assim, no mundo ps-fotogrfico, natural que consumamos as

    imagens digitais como se fossem analgicas, interpretando-as como um

    quadro, um fluxo suave e contnuo que oculta os blocos de dados que com-

    pem suas entranhas (estamos longe ainda de tornarmo-nos operadores

    da Matrix, que leem o mundo a partir da chuva digital de letras verdes).

    Entretanto, uma falha na transmisso desses blocos pode causar a inter-

    rupo daquela continuidade, fazendo com que a simulao analgica no

    permanea mais secreta. Aquilo que, de outra forma, seria recebido pas-

    sivamente um vdeo, fotografia ou gravao musical agora tosse uma

    inesperada bolha de distoro digital. Seja ela intencional ou acidental, a

  • 60

    falha (ou glitch) tem a capacidade de desnudar as estruturas (eletrnicas,

    econmicas, polticas) que organizam e se impem ao mundo. E natural

    que, na medida em que somos apresentados a uma infinita e amorfa cole-

    o de pacotes de dados, a potica, a esttica e a tica voltem-se tambm

    para a discusso e a problematizao dessas estruturas. Na falha reside

    uma potncia potica (e poltica) de atuao.

    Geoffrey Batchen afirma que toda a fotografia hoje gira em torno da re-

    produo e do consumo, do fluxo, das trocas, da manuteno e da pertur-

    bao de dados. Em seguida, conclui:

    Se um trabalho de arte deseja ser relevante para a vida social

    contempornea, dentro e atravs dessa corrente de dados

    que ele deve, doravante, ser empreendido. Pois aqui, no cer-

    ne dessa [virtual] existncia, que as aes polticas e culturais

    de todas as formas devem agora se localizar. 45

    Na mesma linha de raciocnio, Yayza Hernndez contrape o arquivo mate-

    rial do passado com esse, virtualizado, e insere ainda o tema da violncia:

    possvel que os artistas interessados em lidar com os

    arquivos contemporneos tenham de deixar para trs a

    imagem do arquivo como slido repositrio de nossos

    vestgios materiais e comear a encarar essa abstrao,

    que como a histria monumental tambm se constri

    sobre o esquecimento da violncia.46

  • 61

  • 62

    O GESTO

    Em 1962, Andy Warhol deu incio a uma srie de silkscreens em que se

    apropriava de fotografias de suicdios, tragdias areas e outras imagens

    da violncia publicadas originalmente nas pginas dos jornais. Uma das

    sries mais conhecidas desse projeto, Electric Chair, traz a imagem de

    uma cadeira eltrica repetida mltiplas vezes. A srie foi apresentada ao

    pblico pela primeira vez em 1963, o mesmo ano em que a penitenciria

    de Sing Sing, em Nova York, realizou as ltimas duas execues utilizan-

    do esse mtodo. Warhol comentou em uma entrevista que, quando voc

    v uma imagem horrvel uma e outra vez, ela no tem qualquer efeito,

    ecoando a sensao que temos hoje diante do fluxo de imagens atrozes

    ao qual estamos expostos. A serializao que Warhol imprime violncia

    cotidiana dos anos 1960 nos desperta para o que h por detrs daquelas

    imagens (Siegfried Kracauer afirmou certa vez que as fotografias nos pro-

    tegem da realidade). Electric Chair, com sua cadeira impressa em mlti-

    plas cores em cada uma das folhas da srie, torna-se, assim, uma tentativa

    de exorcizar a imagem por meio da repetio.

  • 63

    Electric ChairAndy Warhol1962

  • 64

    O que Warhol faz ao estetizar a cadeira eltrica promover um corte sim-

    blico no fluxo dessas imagens. Recontextualizada, modificada e ressig-

    nificada, a imagem supostamente objetiva sai da pgina do jornal para

    assumir novas dimenses e interpretaes, que se opem ao carter tes-

    temunhal da fotografia jornalstica. Podemos associar o gesto do artista

    (o corte) ao gesto arquetpico do fotgrafo: um rasgo no tempo e no espa-

    o. Ernst Simmel, neurologista e psicanalista alemo contemporneo de

    Sigmund Freud, descreveu o trauma de guerra como uma luz do flash do

    terror que estampa uma impresso fotograficamente exata. E a bidimen-

    sionalidade das fotos como trauma pode adquirir volume e vida, conforme

    a sua recepo e reinsero em um novo contexto, diz Seligmann-Silva

    comentando Walter Benjamin: falando do cinema (que com a montagem

    incorpora tambm o choque como princpio esttico), ele [Benjamin] in-

    dicou uma capacidade teraputica via esta performance que abala. Estes

    dispositivos nos treinam para a vida pontuada por choques e rupturas.47

    Em 1888, diz Joan Fontcuberta, George Eastman cunhou o slogan popu-

    lar que levou a Kodak para o topo da indstria fotogrfica (Voc aperta o

    boto, ns fazemos o resto!); hoje nos damos conta de que o importante

    no quem aperta o boto e sim quem faz todo o resto: quem pe o con-

    ceito e gere a vida da imagem.48 Ou seja, mais do que a imagem em si, o

    que se preserva no corte artstico e o que se impe sobre a efemeridade da

    vida contempornea o gesto. Imagem-gesto-reao. Jean-Franois Mat-

    ti, no final do livro A Barbrie Interior, conclui:

  • 65

    o instante efmero, voltado para si mesmo como o instante

    de Fausto, tambm sabe virar-se para formar um fragmento

    de eternidade. (...) E, no corao do imediato, tudo se volta

    instantaneamente em direo ao sentido. A barbrie no est

    nem atrs de ns nem nossa frente: est inteirinha onde

    nos encontramos. A cada instante, esse era o ensinamento

    do mito da caverna, o prisioneiro pode libertar-se de suas

    amarras e erguer-se, de uma s vez, em direo luz.49

    E se apropria de Albert Camus, que, em 1939, no texto que inaugura a

    revista de cultura mediterrnea Rivages, escreveu que, se verdade que

    a verdadeira cultura no se separa de uma certa barbrie, nada do que

    brbaro pode nos ser estranho. Tudo se resume a nos entendermos a res-

    peito da palavra brbaro.50

    Tudo se resume a olhar de frente como disse Drummond, penetrar surda-

    mente no reino das palavras (e das imagens, por que no?). De-cifrar os cdi-

    gos. E nessa chave que se inscreve Postais para Charles Lynch.

    Setembro de 2015.

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    Notas1 Depoimento fictcio.2 Plato, Repblica. Traduo de Enrico Corvisieri. So Paulo: Crculo do Livro, 1997.3 Jean-Franois Matti, A Barbrie Interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. Traduo de Isabel Maria Loureiro. 1a. Edio. So Paulo: Editora UNESP, 2002.4 Idem.5 Michel Foucault, Vigiar e punir: nascimento da priso. Traduo de Raquel Ramalhete. 29 edio. Petrpolis, RJ: Vozes, 2004.6 Idem.7 Danielle Rodrigues, O crculo da punio: O linchamento como cena de acusao e denncia criminal. In DILEMAS Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, vol. 6, no. 4, OUT/NOV/DEZ 2013. Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ.8 Encyclopdie, ou dictionnaire raisonn des sciences, des arts et des mtiers, etc.,eds. Denis Diderot and Jean le Rond dAlembert. University of Chicago: ARTFL Encyclopdie Project (Spring 2013 Edition), Robert Morrissey (ed.). Disponvel em http://encyclopedie.uchicago.edu9 YouTube Diretrizes da comunidade. Disponvel em http://www.youtube.com/yt/policyandsafe-ty/pt-BR/communityguidelines.html10 Michel Foucault, op. cit.11 Simone Weil, AIladaou o poema da fora (1940), inA condio operria e outros estudos sobre a opresso, org. Ecla Bosi, traduo de Therezinha G. G. Langlada, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.12 Ariadne Natal, 30 anos de linchamentos na Regio Metropolitana de So Paulo 1980 2009. 13 Lcio Kowarick, Viver em Risco: sobre a vulnerabilidade no Brasil urbano. In Novos Estudos, no. 63. So Paulo: CEBRAP, 2002.14 Ariadne Natal, op. cit.15 Disponvel em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1407239-adolescente-e-agredi-do-a-pauladas-e-acorrentado-nu-a-poste-na-zona-sul-do-rio.shtml16 Disponvel em https://www.youtube.com/watch?v=gi_O9ko-OWE17 Disponvel em http://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2014/05/06/interna_nacio-nal,525783/mulher-linchada-e-a-20-vitima-fatal-de-justicamentos-em-2014.shtml18 Hoanna Arago, A onda de linchamentos no Brasil, o fenmeno copycat e o esvaziamento das normas. Disponvel em http://jus.com.br/artigos/28268/a-onda-de-linchamentos-no-brasil-o-feno-meno-copycat-e-o-esvaziamento-das-normas19 Christopher Waldrep (ed.), Lynching in America: a History in Documents. Nova York: NYU Press, 2006.20 Disponvel em http://law2.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/shipp/lynchingyear.html21 Jos de Souza Martins, Linchamentos: a justia popular no Brasil. So Paulo: Contexto, 2015.22 Idem.23 Idem.24 Disponvel em http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,42301,00.html25 Veja o site do projeto em http://withoutsanctuary.org/main.html26 Leon F. Litwack, sobre o linchamento de Thomas Brooks, no condado de Fayette, Tennessee, 1915. In Without Sanctuary: Lynching Photography in America.Twin Palms, 2000.

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    27 Maurcio Lissovsky, Desmonumentalizar a ditadura, parte 2. Disponvel em http://iconica.com.br/site/desmonumentalizar-a-ditadura-parte-2/28 Maurcio Lissovsky, Para onde foi a senzala? Disponvel em http://revistazum.com.br/revista--zum-7/para-onde-foi-a-senzala/29 Disponvel em http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/pior-linchamento-da-historia-do-bra-sil-tambem-foi-filmado30 Disponvel em http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/01/homem-e-linchado--apos-ser-flagrado-tentando-estuprar-enteada-no-rs.html31 Susan Sontag, Regarding the torture of others. Disponvel em http://www.nytimes.com/2004/05/23/magazine/regarding-the-torture-of-others.html32 Danielle Rodrigues, op. cit.33 Dora Apel e Shawn Michelle Smith, Lynching Photographs. Berkeley: University of California Press, 2007. 34 Susan Sontag, Diante da dor dos outros. Trad. Rubens Figueiredo. So Paulo: Companhia das Letras, 2003.35 Frank Mller, Viewers as accomplices: associates in crime and guilt. Artigo apresentado no simpsio Arts, Violence and Imagination, The Finnish Institute, Londres, em outubro de 2009.36 Susan Sontag, op. cit.37 Susan Sontag, op. cit.38 Jacques Le Goff, Histria e Memria. Traduo de Bernardo Leito. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.39 Yayza Hernndez, Arquivando para o esquecimento. In Caderno SESC_Videobrasil 10: usos da memria. Edies SESC So Paulo, 2014. 40 Idem.41 Mrcio Seligmann-Silva, Esttica e poltica, memria e esquecimento: novos desafios na era do Mal de Arquivo. Remate de Males no. 29, jul-dez 2009. 42 Hubertus von Amelunxen, Photography After Photography, The terror of the body in digital space. Disponvel em http://hyperart.com/lib/ph_after_ph.html (traduo dos autores).43 Gilles Deleuze e Felix Guattari, O que a filosofia? Traduo de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.44 Joan Fontcuberta, A Cmara de Pandora: fotografia depois da fotografia. Editorial Gustavo Gili, 2014.45 Geoffrey Batchen, Each Wild Idea: Writing photography history. Cambridge: The MIT Press, 2000. (traduo dos autores).46 Yayza Hernndez, op. cit. 47 Mrcio Seligmann-Silva, Fotografia como arte do trauma e imagem-ao: jogo de espectros na fotografia de desaparecidos das ditaduras na Amrica Latina. In Temas em Psicologia, Vol. 17. So Paulo: Sociedade Brasileira de Psicologia, 2009.48 Joan Fontcuberta, Por um manifesto ps-fotogrfico. In Revista Studium no. 36. Campinas: Instituto de Artes da Unicamp, 2014. Disponvel em http://www.studium.iar.unicamp.br/36/7/index.html49 Jean-Franois Matti, op. cit.50 Albert Camus apud Jean-Franois Matti, op. cit.

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    Este ensaio complementa o projeto Postais para Charles

    Lynch, realizado pelo Coletivo Garapa como resultado da Bolsa

    ZUM/IMS de Fotografia, recebida em 2014.

    Postais para Charles Lynch

    Concepo e realizao: Coletivo Garapa

    Design: Milena Galli

    Impresso: Meli-Melo Press

    Trabalho em ao: Galpo Base

    Silkscreen: Efeito Visual

    Montagem: Sidnei Perego

    Agradecimentos: Instituto Moreira Salles, Thyago Nogueira,

    Cdio Martins Neto, Ariadne Natal (NEV-USP), Stima Arte.

    Saiba mais: https://vimeo.com/140832075

    http://garapa.org

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