O ativismo delicado O Ativismo Delicado - Instituto Ativismo Delicado... · PDF file to...

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O ativismo del

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se quer ver.

O ativismo delicado

verdadeiramente radical

por ser consciente

de si prprio,

e por compreender que

seu modo de enxergar

a mudana que

se quer ver.

O Ativismo Delicado

Uma Abordagem Radical para Mudanas

Allan Kaplan e Sue Davidoff da Proteus Initiative

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O Ativismo Delicado Uma abordagem radical para mudanas Voc deve mudar sua vida. RAINER MARIA RILKE

Nossa ecologia to frgil e nosso teci-do social est to esgarado que cada passo dado para gerar melhorias de vida torna-se um risco de se dar ainda mais ns nessa me-ada. Nossas pegadas j esto espalhadas por todos os lugares e mesmo assim parece que simplesmente continuamos a pisotear nossas melhores intenes. Ser que no estamos dei-xando algo nos escapar, j que nossas inmeras tentativas de trabalhar com mudanas pare-cem emperrar em suas prprias pressuposi-es? Como podemos abordar o mundo de maneira diferente?

Este livreto explora uma maneira, uma pr-tica, a que temos chamado de ativismo deli-cado. Essa prtica envereda por uma trilha que demanda uma reavaliao profunda do papel que temos realmente desempenhado nos processos de mudana social. Aparentemente,

um ativismo que enfatiza a ao em detrimen-to da reflexo; que recompensa os efeitos ex-ternos e ignora a conscincia interna; que foca no outro, mas obstrui o eu; que exalta resulta-dos (quase como se fossem commodities) sem suficiente preocupao pelo processo que os geram, um ativismo que no parece ter sido capaz de acompanhar as atuais complexidades das mudanas sociais. Ironicamente, esse tipo de ativismo tem nos colocado no lugar de es-pectadores ao invs de participantes e tem, na realidade, retardado as mudanas. O ativismo delicado verdadeiramente radical por ser consciente de si prprio, e por compreender que seu modo de enxergar a mudana que se quer ver. Ele anuncia uma alterao ssmica da qual surge uma forma mais social e ecol-gica de ativismo direcionado para um futuro que sustenta a vida.

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H um empirismo delicado que se torna absolu-tamente idntico ao objeto, transformando-se, desta maneira, em verdadeira teoria

Delicadeza

JW VON GOETHE

(Nota preliminar)

A frase ativismo delicado surgiu de uma parfrase intuitiva sobre o conceito de empirismo delicado.

A compreenso, a abordagem e os mtodos desen-volvidos por Goethe em sua busca por um caminho de conhecimento, por uma epistemologia que fosse uma ma-neira participativa e holstica de enxergar para dentro do mundo, vo muito alm do que nosso atual modo de pensar tecnolgico e instrumental capaz de alcanar. Esse modo de pensar nos levou a tentar praticarmos, ns mesmos, essa abordagem de Goethe ao buscarmos cami-nhos para se trabalhar efetivamente com processos de mudana social. Essa prtica hoje se traduz em uma abor-dagem especfica e fenomenolgica de mudana social.

Na citao usada acima, Goethe usou o termo empi-rismo delicado. A frase e a sentena qual ele pertence tm sido objeto de muitos tratados e conversas eruditas;

ele forma a base da abordagem fenomenolgica, para a qual retornaremos a seguir. No precisamos entrar em detalhes a respeito dessas discusses aqui. Mas h algo que imediatamente salta aos olhos.

Um empirismo que se torna absolutamente idnti-co ao objeto soa como se nossa costumeira separao entre sujeito e objeto, entre o sujeito que percebe e aqui-lo que percebido, entre o ator e a ao, fosse destruda, ou sobrepujada. Das duas, uma: ou esta uma assero indefensvel, insustentvel, uma fantasia, ou ela apon-ta para uma possibilidade muito diferente de se estar no mundo.

A frase reala a enormidade do desafio confrontado por um ativismo social verdadeiramente radical que toca o cerne da luta por justia e liberdade em um mundo de complexidade inaudita.

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Ele rpido, pensando em imagens claras;Eu sou lento, pensando em imagens quebradas.Ele se torna obtuso, confiando em imagens claras;Eu me torno afiado, desconfiando de minhas imagens quebradas,Confiando em suas imagens, ele presume sua relevncia;Desconfiando de minhas imagens, eu questiono sua relevncia.Presumindo sua relevncia, ele presume o fato,Questionando sua relevncia, eu questiono o fato.Quando o fato lhe falha, ele questiona seus sentidos;Quando o fato me falha, eu aprovo meus sentidos.Ele continua rpido e obtuso em suas imagens claras;Eu continuo lento e afiado em minhas imagens quebradas.Ele, em uma nova confuso de sua compreenso;Eu, em uma nova compreenso da minha confuso.

ROBERT GRAVES

Em Imagens Quebradas

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O Enigma do Ativismo arriscamos enxergar, e ainda assim enxergar sem ver as coisas. JW VON GOETHE

O cho que pisamos i Trabalhar no campo da mudana social e do ativis-mo nos coloca frente a frente com contradies. Elas no so anomalias, so o prprio cho que pisamos. Este cho onde est todo problema, toda questo, todo obstculo, toda injustia ou distoro, por outro lado, guarda a se-mente da qual nascer a interveno do ativista e a mu-dana. Esse lugar de onde se faz o chamado para despertar (o credo do ativista) o cho que com tanta frequencia vira, paradoxalmente, uma nova manifestao de um ve-lho padro: o mesmo padro contra o qual estvamos nos manifestando inicialmente.

No ativismo, a estridncia, a convico de se estar cer-to acompanhada pela determinao de mudar o que est errado so to comuns, que a determinao, ao ficar es-tridente, pode passar a mimetizar as mesmas foras que estvamos querendo mudar. A psicologia da Gestalt cha-ma isso de Teoria da Mudana Paradoxal: quanto mais se tenta mudar um comportamento, mais ele permanece o mesmo1. Rudolf Steiner apontou para a existncia de uma lei de necessidade frrea na esfera social, obser-vando que se os ativistas, ao lutarem pelo bem, no se mantiverem intencionalmente acordados, quase sempre acabaro por fortalecer os padres e comportamentos que

eles se comprometeram a mudar porque so pegos s ve-zes atravs de seu sucesso inicial por uma virada quase imperceptvel da situao social que os deposita no lado errado da mar2. Owen Barfield sinaliza o perigo da bus-ca por respostas estruturais para mudanas em questes sociais e ecolgicas e pede que mantenhamos uma qua-lidade de nervosismo em nossas iniciativas sociais, para que permaneamos conscientes o tempo todo, tentativos e atentos s nuances3.

O momento da virada pode ser tudo, menos imper-ceptvel. Ainda assim, se nos detivermos a olhar de perto e desinteressadamente para todas as aes e papis dos vrios ativistas e das organizaes ativistas que conhe-cemos, veremos que essas viradas povoam a paisagem do campo das mudanas sociais e ambientais com estranha e assdua insistncia, apesar de quase passar despercebi-da, graas sua penetrante sutileza. Assim, no uma grande surpresa afinal, que to pouco se transforme realmente no nosso modo de ser e estar no mundo. As normas vo se entrincheirando na medida em que per-manecemos no cativeiro de nossas prprias insistncias, de nossa prpria presuno de achar que podemos mudar o mundo agindo sobre ele.

Descobrimos, ao invs disso, que essa mesma pre-suno o arauto de uma virada irnica e paradoxal: descobrimos que h algo estranhamente conservador no cerne da maioria das abordagens usadas para se lidar com mudanas. Descobrimos que este o cho que estamos pisando hoje. A pergunta ento se torna: como andar de outro jeito sobre esse terreno?

Uma observaoVrias observaes feitas atravs dos anos em vrias si-tuaes diferentes provocaram perguntas suficientes para levantar a suspeita de que tudo parece emergir de um mesmo arqutipo subjacente de ativismo, o mesmo aspec-to que transforma uma inteno radical em algo inerente-mente conservador.

A primeira coisa que observamos que os ativistas tm dificuldades para criar um tempo e um espao de refle-xo continuada sobre sua prtica. Sempre h boas razes para justificar essa dificuldade h tanto a ser feito, e sempre com recursos to escassos; as pessoas e situaes e as ecologias para as quais trabalhamos tm direitos e ne-cessidades que precisam ser atendidos; no h um espao seguro e compreensivo para se refletir e a reflexo parece

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ser algo to voltado para dentro e, portanto, indulgente demais. Em suma, somos forados a agir incessantemente ou perdemos o momento certo, porque tudo est contra ns e o trabalho exaustivo, interminvel e urgente. Para muitos, a reflexo parece uma perda de tempo. E muitas vezes talvez at seja, j que a prtica da reflexo exige tem-po, pacincia e uma inteno clara para ganhar maestria e poder ser aprofundada a fim de melhorar a qualidade de nossas aes externas. Ao se trabalhar com ativistas, h uma sensao de que a reflexo sobre a nossa prtica a ltima coisa que qualquer um de ns quer fazer.

claro que possivelmente h outras razes pelas quais a reflexo no se deixa enraizar facilmente entre ativistas. Talvez porque realmente no queiramos reconhecer os efeitos questionveis de muitas de nossas aes, ou porque queremos que outros mudem, mas no achamos que isso seja necessrio para ns mesmos porque claramente es-tamos trabalhando pelo bem de todos.

As razes talvez sejam muitas e sutis, mas todas elas so coerentes com uma falta de reflexo. E essa falta de reflexo anuncia uma tendncia de manter, conservar, re-cusar riscos e impedir perdas.

Uma segunda observaoAtivistas so geralmente pessoas convencidas (