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Abílio Wolney Aires Neto O DURO E A INTERVENÇÃO FEDERAL Relatório ao Ministro da Guerra

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  • Ablio Wolney Aires Neto

    O DURO E A INTERVENO FEDERAL

    Relatrio ao Ministro da Guerra

  • O Duro e a Interveno Federal Ablio Wolney Aires Neto ______________________________________________________________

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    Copyright 2006 by Ablio Wolney Aires Neto

    Diagramao: Carlos Augusto Tavares

    (Capa, Digitao e reviso pelo autor) Na capa reproduz-se em montagem, fotografias. Coordenao Grfica: Editora Kelps Rua 19 n 100 - St. Marechal Rondon CEP 74.560-460 - Goinia - GO Fone: (62) 3211-1616 Fax: (62) 3211-1075 E-mail: [email protected] homepage: www.kelps.com.br

    Edio do autor na Biblioteca Virtual AW Editor, no site www.abiliowolney.com e em outras pginas da Internet.

    homepage: www.kelps.com.br Edio do autor na Biblioteca Virtual AW Editor, no site www.abiliowolney.com e em outras pginas da Internet.

    IP. Brasil. Catalogao na Fonte BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO

    A255d Aires Neto, Ablio Wolney. O Duro e a interveno federal: relatrio ao ministro da guerra / Ablio Wolney Aires Neto -- Goinia: Kelps, 2006. p. 308 ISBN: 85-7692-086-7 1. O Duro e a Interveno Federal (cidade) - histria. 2. Dianpolis (TO)- histria. I. Ttulo.

    2006 - 011 CDU: 94(811.7) DIREITOS RESERVADOS

    proibida a reproduo total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio, sem a autorizao prvia e por escrito do autor. A violao dos Direitos Autorais (Lei n 9610/98) crime estabelecido pelo artigo 48 do Cdigo Penal.

    Impresso no Brasil Printed in Brazil

    2006

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    Diagramao: Capa: Reproduo em montagem de fotografias da

    Base de Operaes em Monte Santo com Tropas do Governo em Canudos-BA como amostra comparativa.

    AGRADECIMENTOS

    Agradeo ao Dr. Wilton Rodrigues de Cerqueira1

    pela espontaneidade altrusta, pela maneira gratuita como me cedeu a fotocpia do Relatrio lvaro Mariante, do qual se tinha apenas alguns trechos inseridos no livro Quinta-Feira Sangrenta2 e na clebre obra Ablio Wolney, Suas Glrias, Suas Dores, de Voltaire Wolney Aires, esta adotada em vestibulares da UNITINS.

    Graas remisso constante da fotocpia,

    localizamos a fonte do Relatrio. Em seguida, procuramos contato com a estimada prima Iara Arajo Alencar3, a quem tambm 11 O Dr. Wilton Rodrigues de Cerqueira destacou-se na vida pblica no Estado de Gois. Ainda jovem, foi eleito vereador por Natividade, hoje TO (na poca, mais votado que o prprio prefeito eleito), em cujo mandato foi Presidente da Cmara. Bacharel em Direito, tornou-se advogado e em seguida foi aprovado no concurso para o cargo de Juiz de Direito, exercendo a magistratura por 06 meses, quando os amigos do MDB - Movimento Democrtico Brasileiro (sic) o convidaram a ser candidato a Deputado Estadual. Como o seu anelo era a vida pblica, resolveu deixar o Poder Judicirio para assumir a tribuna do Poder Legislativo, tendo por duas vezes exercido o mandato de Deputado Estadual em Gois. Depois foi Presidente do Tribunal de Contas, Secretrio de Obras da Prefeitura de Goinia, superintendente do IPLAN Instituto de Planajamento de Goinia, presidente da PAVICAP Empresa de Pavimentamentao de Goinia, Assessor Jurdico da Assemblia Legislativa do Estado de Gois, presidente da Gois Vermiculita Empresa de Explorao do Minrio Vermiculita (Associao da EUCATEX com a METAGO-Metais de Gois S.A., tendo sido Diretor Administrativo desta ltima). Foi tambm Secretrio de Minas e Energia do Estado, Chefe de Gabinete da Cmara Municipal de Goinia, ex-funcionrio concursado do Consrcio Rodovirio Intermunicipal S.A. de Goinia e outras coisas mais. Em entrevista concedida ao autor, disse que uma coisa sempre foi e ser Advogado. 2 Quinta-Feira Sangrenta, 4. ed., do prof. e acadmico Osvaldo Rodrigues Pvoa. 3 A jornalista Iara Arajo Alencar uma pessoa notvel da nossa regio. Do seu extenso currculo, destacamos apenas a sua atividade jornalstica e o seu alto cargo de Chefe de

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    tributamos nossa gratido, pois foi a pessoa que nos enviou a cpia dos prprios originais do Relatrio ao Ministro da Guerra.

    Foi assim que pudemos constatar que, salvo

    Bernardo lis, pelo menos dois grandes escritores acerca do Barulho do Duro beberam previamente, direta ou indiretamente, nas fontes do referido Relatrio, para escreverem seus livros.

    Desse modo, surge pela primeira vez o docu-mentrio em livro, cujo propsito nico levar a pblico a ntegra dessa verdadeira matriz de dados para os dias atuais ainda indita haurida de fontes oficiais to importantes como base de pesquisa para a histria de Dianpolis.

    Gabinete e Assessora de Imprensa da 2 Secretaria da Cmara dos Deputados em Braslia-DF. Acabou de publicar o livro Hagahs Arajo Uma Lio de Cidadania, por ocasio da comemorao dos 50 anos do Instituto de Menores de Dianpolis-TO (Braslia : Ideal. 2003, 287 p.) A obra inicia com aspectos histricos de Dianpolis para em seguida biografar a vida pblica do protagonista, que alm da construir o Instituto de Menores no Municpio, foi Prefeito em Dianpolis. No parlamento exerceu duas legislaturas de Deputado Estadual eleito e em 1991 assumiu o mandato de Deputado Federal, tambm pelo voto direto, tendo exercido outros importantes cargos pblicos.

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    SUMRIO Agradecimentos.............................................................................03 Dedicatria.....................................................................................11 Prefcio..........................................................................................13 Introduo......................................................................................17 I A Matana do Tronco nas Manchetes Nacionais.....................25 II A Interveno Federal no Estado de Gois.............................37 III O Perfil do Inimigo..................................................................47 IV Preparativos da Campanha A geografia e os Incidentes Previstos Para o Trajeto................................................................71 V Cogitaes de Caserna O Provvel que no Ocorreu.......107 VI Um Obstculo Campanha A Cheia do Rio So Francisco. Surge o Deputado Francisco Rocha............................................125 VII a Campanha Desdobrada: A Comitiva e a Sindicncia....141 VIII Prembulo do Relatrio......................................................159 IX Sucesso de So Jos do Duro I A Famlia Wolney As Origens Remotas da Questo ....................................................167 X A Comisso Celso Calmon II ..........................................181 XI III O Juiz Celso Calmon no Duro A Famlia Wolney e Seus Inimigos O Processo Os Primeiros Assassinatos A fuga do Juiz...............................................................................................185 XII IV Preparativos Para a Luta. O Combate. A Matana dos Prisioneiros. A Atitude de Ablio Wolney......................................195 XIII V Excurso Pelo Nordeste Goiano. As localidades Visitadas. As Disposies de Ablio. Os Perigos da Interveno Estadual. A Confiana nas Autoridades Federais. Conclu-so...............................................................................................201 XIV A Imprensa Continua. A Cmara dos Deputados Requisita o Relatrio do

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    Exrcito........................................................................................213 XV (Em 10 Fragmentos) Comentrios e Anotaes do Relatrio ao Ministro da Guerra..................................................................221 XVI. Anexo Cpia dos Originais do Relatrio ao Ministro da Guerra, 1919................................................................................281 Bibliografia ..................................................................................293 Sntese Biogrfica do Autor.........................................................297

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    Sinto agora que o vento traz coisas de longe de

    Casa libertando a voz. So lugares perdidos, imagens confusas de tempos que no voltam mais...

    E pessoas com quem no convivi, mas que vou

    tomando conhecimento de suas palavras, seus sonhos, seus atos, seus modos de ver a vida.

    Olhe o que o vento traz, antes da chuva che-

    gar!... Pela rua deserta e forrada de folhas cadas que

    voam ao lu / corre o meu pensamento no rastro das nuvens pesadas que habitam o cu.

    Vejo a casa na qual me criei, vejo o Colgio, os

    jardins das praas, vejo a cara de cada um dos meus companheiros e parentes sem sobrenome da grande famlia de minha Terra.

    Olhe o que o vento traz, antes da chuva che-

    gar!...4

    A psicologia nos recomenda pesquisar a nossa

    origem para celebr-la. Todos pertencemos a um grupo ou a uma

    4 Poema-cano de Guilherme Arantes, 1976, com adaptao do autor (Msica que conheci atravs da sensibilidade potica do meu irmo Zilmar Wolney Aires Filho (Zil).

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    famlia que tem sua histria, seus valores, sua cultura, que passou por muitas experincias e desafios at chegar a ns. Isso traz um enorme reforo nossa identidade no meio de um mundo vasto e complexo. Conhecemos nosso crculo familiar mais prximo, ouvimos remotamente falar de nossos ancestrais, mas s vezes no temos idia precisa do que viveram e representaram. De onde vim e como cheguei a este lugar? uma pergunta que raramente nos ocorre, apesar de sua resposta ser importante para nossa identidade.5

    Demais, a histria no pode ser sufocada. O livro que ora apresentamos consta de uma

    Introduo seguida de um cotejo da fase preparatria da Campanha de Canudos em 1897, descrita na obra os Sertes, de Euclides da Cunha, com a Campanha do Exrcito para So Jos do Duro em 1919, dada a similitude, pelo menos em alguns pontos preliminares, das Expedies de l e daqui, acrescidos de situaes imaginadas pelo autor mngua desses dados prefaciais no Relatrio, objeto maior deste modesto opsculo.

    crtica que venhamos a sofrer pelas transcri-

    es da obra mxima da literatura brasileira oferecemos o silncio, ante o bvio que denuncia a grande distncia que nos separa da categoria literria de um Euclides da Cunha da nos louvarmos nele, em alguns pontos, para que diga por ns o que soubemos sentir, mas no soubemos expressar.

    Naturalmente o fato de sermos neto homnimo

    do protagonista ser motivo de preconceito, como j anotei alhures. Por certo seremos acusados de escrever como algum que defende. Adianto em responder que no. No por mim mesmo, visto como h quem busca e julga os fatos no Relatrio ao

    5 (Do livro Os 100 Segredos das Pessoas Felizes, de David Niven, Ph.D.,pg. 28, Sextante).

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    Ministro da Guerra com um testemunho, como se ver na segunda parte deste trabalho, onde est propriamente o inteiro teor do documentrio com atualizao ortogrfica e algumas divises de pargrafos, para melhor exposio do texto, cabendo a observa-o de que os subttulos do Relatrio so do prprio original, da lavra do Major Adjunto de Estado-Maior, lvaro Guilherme Marian-te.

    No ltimo Captulo anotamos e comentamos 10

    (Dez) Fragmentos do mesmo Documentrio, para uma com-preenso mais acurada dos acontecimentos e ao final, reproduzi-dos no Anexo o seu texto original de 1919, a sim, com a ortografia da poca.

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    Dedico este modesto trabalho memria dos meus avs paternos, Manoel Aires Cavalcante Jnior e Joaquina Pvoa Aires6, protagonistas de outras pginas da histria da nossa famlia como genitores devotados, que deixaram uma prole segura.

    Ao meu pai Zilmar Pvoa Aires, meu amparo e minha proteo, presena fsica e moral na aurora e no declinar do meio-dia da minha existncia. A ele, corretivo nos meus erros da infncia e da adolescncia; um silncio eloqente nos meus deslizes dos primeiros dias da maturidade.

    Ao meu pai, que me deu o primeiro emprego no seu Cartrio, despertando-me para o mundo do Direito, educando-me e entregando-me s carreiras jurdicas que assumi.

    A ele, que sempre foi o meu maior amigo e um homem de poucas palavras, sempre certas e suficientes.

    A ele, o eterno comandante do nosso grupo familiar e a quem devotamos profundo respeito e ateno, o meu amor de filho eternamente grato...

    6 Manoel Aires Cavalcante Jnior e Joaquina Pvoa Aires eram primos de Ablio Wolney.

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    PREFCIO Em tempos imemoriais, a sudeste do Tocantins,

    erigia-se o rstico arraial de So Jos do Duro, oriundo das lavras do ouro, cravado nos contrafortes da Serra Geral.

    Nos interstcios dessas serranias, por entre feras

    e silvcolas, o Duro teve sua origem a partir da dcada de 1750, quando a regio era dominada pelas tribos dos Guegus, Assus, Acros, Xacriabs e Xerentes.

    Com a chegada dos jesutas foram fundados os

    aldeamentos de Formiga e Misses. Nesses aldeamentos, quando os suprimentos alimentcios da comunidade estavam minguados, partiam periodicamente grandes grupos de aborgenes para caar e pescar na Mata Grande expresso indgena.

    Certa feita, quando um grupo de exploradores

    partia do aldeamento de Misses, uma ndia se separou do grupo para atender premncia de necessidades fisiolgicas. Numa grota a poucos metros, uma estranha pedra de beleza rara atraiu-lhe a ateno, era uma belssima pedra incrustada de ouro.

    O achado da ndia tapuia culminou na descoberta

    de uma grande mina de ouro. Atrados pela fabulosa mina, aventureiros e caadores de fortunas aproximaram-se do aldea-

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    mento de Misses, distante cerca de 10 quilmetros, erguendo casas, abrindo roas e criando animais, local onde mais tarde surgiria o arraial de So Jos do Duro.

    Irritados com a penetrao do homem branco,

    deflagrou-se um levante no aldeamento, evadindo-se todos os ndios para regies ignotas7. Tempos depois, os jesutas passaram a receber recados dos amerndios, que prometiam retornar para levar a imagem de So Jos8 entronizada na capela de Misses, imagem que os jesutas os ensinaram a venerar.

    Distante dali, na Grande Mata, nas cercanias da

    mina de ouro dos tapuias, ao longo dos anos, o arraial de So Jos do Duro prosperava sob a administrao de seu fundador, o Major Joo Nepomuceno de Souza.

    Com sua morte, o comando da comunidade

    passou para o Coronel Joaquim Ayres Cavalcante Wolney riqussimo fazendeiro, homem empreendedor e de viso progres-sista.

    A 2 de fevereiro de 1881, o arraial foi assaltado

    por 25 bundes (jagunos) liderados pelo ourives do lugar, Flix Serafim de Belm, que saqueou todas as casas, levando todo o ouro e pratarias, inclusive da Coletoria, como medida de retaliao pelo defloramento de sua irm, cujo ato dizia ter impingido de desonra a famlia. Flix fugiu para a fronteira da Bahia, saindo escapo fora da Justia.

    7 H quem diga estarem os descendentes daqueles indgenas em algum ponto s margens do Rio do Sono (Nota do autor). Veja o livro A Histria da Minerao em Gois, do festejado Escritor Ubirajara Galli pela Editora da UCG, Contato Comunicaes, conforme nota remissiva na Bibliografia. 8 Havia tambm uma imagem de um certo So Lalau adorado pelos ndios, cuja escultura em madeira, com quase um metro de altura, teria sido vendida por um padre a um colecionador de outro Estado (Nota do autor).

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    Segregado nas vastides ermas do setentrio goiano, o Coronel Joaquim Ayres Cavalcante Wolney, em 1890, construiu, frente de muitos ex-escravos e ao talho de foice, 300 Km. de estrada carrovel, ligando o arraial do Duro cidade de Barreiras, no Estado da Bahia. Era a redeno do nortista que via na obra pioneira o incremento do comrcio, at ento realizado pelos tropeiros, e, agora, ampliado pelos carros-de-bois, cruzando a fronteira baiana. Era o sopro pico das grandes epopias sertanejas, fazendo a histria.

    No dia 26 de agosto de 1884 o arraial

    emancipou-se elevando-se categoria de Vila e posteriormente de Cidade. Em 1938 passou a se chamar Dianpolis, em homenagem hegemonia das quatro Custodianas matriarcas das famlias do lugar, que carinhosamente eram conhecidas como Dianas.

    A Chacina dos Nove Em 1918, o Duro despertava assombrado com o

    troar de fuzis e carabinas estiolando vidas inocentes e maculando com sangue uma pgina de sua histria.

    O Vilarejo tingiu-se de prpura e a cidade vestiu-

    se de crepe. A ento oligarquia Caiado, instalada no Governo de Gois, decidira fazer da Vila um holocausto deusa Politica.

    Uma horda de milicianos embriagados dominou

    as famlias da pequena urbe. No campo, o gado foi saqueado, casas invadidas, torturas hediondas, espancamentos, mortes horr-veis perpetradas pela polcia.

    Do outro lado da revolta estavam os jagunos

    contratados por Ablio Wolney para vingar a morte do pai visto como a desforra era motivo de honra para a poca e salvar os nove refns no tronco, no o fosse tambm para defender o seu lugar, seus parentes e amigos, ou para o exerccio do direito de

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    palavra, de protesto na imprensa, de oposio ao Governo, como ele prprio dizia.

    A Vila foi sacudida por trs dias e trs noites consecutivas de combate, de modo que no havia escapatria: o povo que restou praticamente todo encarcerado no Casaro estava entre a cruz e a espada.

    A guerrilha culminou no aniquilamento de vidas e

    famlias tradicionais, j que os homens dos caudilhos Roberto Dorado e Ablio Batata no chegaram a tempo de salvar os refns.

    O fatdico ecoou nas portas do Governo da

    Repblica. Do Rio de Janeiro, antiga Capital Federal, veio a ordem de interveno em Gois. disso que cuidar este livro, bem denominado O Duro e a Interveno Federal Relatrio ao Ministro da Guerra, onde o nosso Ablio Wolney Aires Neto se incumbiu de trazer colao a ntegra do documentrio que trata do assunto, merecendo aplausos pelo trabalho com suas comparaes e anotaes remissivas ao final, sendo a obra, no mais, sobremaneira importante para o julgamento da histria de So Jos do Duro, naqueles tempos revolucionrios de 1919.

    Palmas-TO, 20 de maio de 2003.

    Voltaire Wolney Aires9

    9 Voltaire Wolney Aires escritor e membro da Academia Tocantinense de Letras (ATL). membro fundador da Academia Palmense de Letras (APL) e membro correspondente da Academia Gurupiense de Letras (AGL). Foi vereador em Dianpolis-TO e atualmente bacharelando em Direito pela UNITINS. funcionrio do Banco do Brasil S.A. e tem as seguintes obras literrias publicadas: Mensagens e Poemas do Alm (esprita); As Origens e os Pincipais Eventos Que Deram Origem a Dianpolis (histrico): Serto Hostil (regionalista): Ablio Wolney, Suas Glrias, Suas Dores (histrico-romanesco, adotado nos vestibulares da UNITINS) alm do livro Colgio Joo dAbreu Amor Histria Educao. Tem alguns livros inditos.

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    INTRODUO

    No incio do sculo XX, o sectarismo das autoridades de Gois, subservientes ao mais cruel sistema poltico situacionista, fez descer impiedosamente sobre um povo o seu cutelo afiado e implacvel. Os golpes dos sabres empolgadas por soldados e agregados, comissionados por um certo magistrado, encomendado para a misso que na poca assombrou o Estado e o Pas, deixaram o serto estarrecido, tal a selvageria como ceifaram vidas de homens feitos refns num seqestro a preo de vida, no madeiro do tronco, justamente por quem tinha o mister de aplicar a lei em busca do que fosse justo.

    Em Palmas, estampando as fotografias de Ablio

    Wolney e dos Mrtires, o Museu Histrico do Estado do Tocantins, conhecido como O Palacinho, registra com grande destaque em uma de suas paredes internas, esse grave e herico captulo da histria de Dianpolis, cuja inscrio segue transcrita ipsis litteris:

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    No desamparado nordeste goia-no, hoje sudeste do Tocantins, mais precisamente em So Jos do Duro, surge no comeo do sculo a liderana de Ablio Wolney, jovem deputado que fez tremer o cho de Vila Boa com seus discursos em defesa do povo dessa regio. Temendo o poder poltico dos nortenses, os velhos coronis de Vila Boa apelaram para a violncia, en-viando a So Jos do Duro uma tropa fortemente armada para subjugar as famlias Aires, P-voa, Rodrigues, Costa e Leal, culminando com uma chacina oficial de nove nortenses, filhos dessas ilustres famlias que apoiavam Ablio Wolney.10

    10 Alm da figura acima de Ablio Wolney, constam do Museu Histrico do Tocantins acima tambm as fotografias dos mrtires Joaquim Ayres Cavalcante Wolney Filho (O Wolneyzinho), Joo Batista Leal, Joo Pinto Pvoa (Joca), Joo

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    No conhecido caso da chacina de So Jos do Duro, Ablio Wolney no chegou a tempo, depois dos longos dias de recontro, que pareceram anos de ansiedade.

    A empresa de vingana da morte do pai falhara

    de todo, e com ela a tentativa de resgatar os refns num assalto surpreendente e tempestivo ao Sobrado.

    Ao ganhar o ltimo Quartel General da fora pblica o Sobrado nada mais havia a fazer. Ali, no tronco, um quadro dantesco, macabro. Esticados na presilha, estavam sete mortos, alm de outros dois num quarto contguo, todos expostos num sacrifcio singular: faces horrendas, empastadas de escaras e de snie; braos inteiriados repontando desnudos, num retesamento de angstia; mos espalmadas e rgidas, mos contorcidas em crispaduras de garras, apodrecendo, sinistras, em gestos tremendos de apelos excruciantes11. Os cadveres j disformes pela inchao estavam empretecidos, irreconhecveis, estrebuchados e endurecidos na posio em que morreram.

    Ali estavam, no relevo de barbaridades to ex-

    pressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura... No cmodo de uma casa ao lado, encontraram

    ainda um sobrevivente j nos braos do seu genro, o prof. Joo Correia de Melo. Era o menor Oscar Leal, que depois de uma luta corporal travada com o oficial que entrou para execut-lo, ainda folguejava, apesar do rombo causado por um tiro na regio do fgado. Nos estertores da morte, o filho de Ana Custdia Wolney e Joo Batista Leal ainda pde dizer a Ablio Wolney e outros presentes que foi o Alferes Catulino Antnio Viegas que o feriu no Rodrigues de Santana e Nilo Rodrigues de Santana, tendo abaixo, na mesma parede e em destaque, uma breve crnica sob o ttulo Os Nove, alm das fotografias do velho Sobrado (demolido em 1951) e da Capelinha (sepulcro dos mrtires). 11 Texto emprestado de Euclides da Cunha em Os Sertes.

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    momento da fuga dos ltimos soldados dos quartis improvisados nas casas grandes do largo da Vila, cujo oficial afirmou que as mulheres que estavam confinadas no Casaro tambm seriam mortas.

    De volta ao Sobrado, Ablio Wolney destrava as

    cadeias arrebentando os cadeados. A presilha de madeira vai levantada trazendo a pele dos tornozelos dos presos, de modo que a carne viva lhes ficava exposta no local, onde se retorceram vivos na tentativa de se desviarem dos golpes. Os seus olhos vtreos, esbugalhados, apresentavam pupilas dilatadas e apagadas.

    Alguns tinham os crnios estourados, miolos

    derramados em pedaos escurecidos. Outros tinham as vsceras expostas, ptrefas, ou a barriga muito inchada, drenando nas fissuras apunhaladas no pescoo e pelo trax abaixo.

    Fezes e urina completavam o mal odor. Os

    refns, nos ltimos dias, faziam as necessidades ali mesmo, presos ao tronco. O incmodo do olfato era de embrulhar o estmago. As paredes do Sobrado estavam esguichadas de sangue, que no cho faziam poas podres e coaguladas.

    Como aqueles entes queridos se transformaram

    exatamente naquilo!... Seguiu-se a remoo dos mortos, com cuidado,

    de modo que a epiderme no se lhes soltasse ao serem manejados, como si acontecer nos estados iniciais de decomposio.

    L fora, o tempo se fechava. O cu carregado de

    nuvens plmbeas como que se abaixava encobrindo o largo pardacento, tristonho e despejando uma chuva constante e fina que h dias marcava a estao com alguns intervalos a seco.

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    Ablio, aterrado e apavorado, foi ajudado e pegou um a um com as prprias mos para em seguida enrolar cada qual numa rede, afligido com aquela percepo traumtica, tendo os pensamentos numa girndola de sensaes confusas.

    O choque nefasto dilacerava os sobreviventes

    que na madrugada tatearam nas trevas at chegarem ali sob a luz da candeia. O ato arbitrrio e contraproducente se agigantava, mergulhando-os em sombras e mgoas dilacerantes...

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    O homem de personalidade grantica em verda-

    de sempre foi muito sentimental e chorou compungidamente ante esse quadro de dor! Primeiro o pai, agora o irmo, o cunhado, o sobrinho menor, os conterrneos e os amigos. Os parentes ao seu redor se acabando em pranto flbil e lamuriento. Sua irm Anna Custdia, que perdeu o filho, o marido, se destacava: a misria

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    escavara-lhe a face, sem destruir-lhe a mocidade. Uma beleza ainda ressurgia na moldura firme do seu perfil, perturbados embora os traos impecveis pelo abatimento no rosto emagrecido e plido, aclarado de olhos vivos e castanhos, cheios de tristeza soberana e profunda. Sua me Maria Jovita, sem o esposo, sem o filho, sem o neto... Por qu?

    E todos reclamavam: porque o ataque! Por que

    matarem os refns se o ataque j tinha se dado, ou anunciava se dar?

    Pode-se imaginar Ablio Wolney, justamente

    quem o Governo mais queria e precisamente o que se salvou da Chacina, debaixo do olhar interrogativo das vivas e parentes das vtimas tentando explicar a todos, ou um a um, num soluo que lhe entrecortava a voz magoada e emocionante:

    Vocs perguntam qual a minha poltica. Por

    que a minha poltica causou tudo isso! Eu lhes digo: minha poltica combater, lutar, usando os mtodos do serto, com os homens que contratei, bem ou mal; com as armas que empunhei e com toda a fora que Deus possa me dar. combater uma tirania monstruosa, jamais superada no sombrio e lamentvel catlogo dos crimes pelo nosso Estado. a nossa poltica agora. Vocs perguntam: qual o meu objetivo? Posso responder com uma palavra: vitria. Mesmo que um dia, hei de vencer, a despeito de todo o terror e por mais longa e rdua que seja a estrada, pois, sem a vitria, no conseguirei sobreviver minha sentena de morte.

    Embargado, prosseguia como uma esttua viva

    de dor e aflio: A vitria mesmo que tardia, mesmo que para a

    histria, pois a nossa Vila hoje um reduto de poucos parentes e amigos, que conseguiram escapar sanha desses malvados.

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    No confio no Governo do Estado de Gois, cuja ao prosseguir como uma constante ameaa nossa gente to fundamente apunhalada. Sinto o mesmo que vocs sentem, mas digo-lhes com toda franqueza:

    s autoridades de Gois eu no me entrego.

    Fujo ou brigo. Prefiro abandonar tudo quanto possuo ou morrer lutando a entregar-me polcia do meu Estado e morrer com o p no tronco.12

    Justia e garantia espero da Unio, porquanto

    garantias e justia no podem nos dar os autores do grande crime e os que por ele so responsveis. S o Governo Federal nos inspira confiana. Aguardemos confiantes a chegada da fora federal que vir com o pedido de Interveno feito pelos mesmos que fizeram tudo isto aqui.

    Estacando por um instante, finalizou num tom

    herico a sua perorao dorida: Queremos justia e liberdade. Queremos a

    queda dessa oligarquia infame um imprio de sangue e impunidade!

    Os primos Confcio Ayres e Manoel Ayres

    Cavalcante, auxiliados pelo Prof. Joo Correia de Melo, a pedido de Ablio providenciam a abertura de uma cova retangular, depois de terem tambm enfrentado os quartos horrendos do Sobrado.

    E num cortejo de quase ningum, Ablio Wolney

    tomou a frente das vivas e parentes, buscando um caminheiro a oeste do largo da Vila, no rumo da Cruz das Almas fincada a leste. Passos silenciosos, l iam os homens, dois a dois, alando os

    12 Palavras do prprio Ablio Wolney constantes do Relatrio ao Ministro da Guerra.

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    punhos das redes em varapaus. No limpo de uma capo de mata, afastado uns quinhentos metros do largo, deitaram os cadveres na grande vala comum, debaixo de um grande p de candeal.

    Logo que se fechou a cova, regada com o pranto

    das vivas, crianas e outros parentes, as mulheres lanaram flores por sobre o barreiro da sepultura coletiva em lamentos arquejantes e profundamente melanclicos.

    A noite daquele dia caiu pesada e angustiosa,

    sem qualquer esperana no amanh, com aquelas criaturas inconformadas, sem consolo e sem quer-lo.

    Hoje o local uma praa pblica, onde o

    mausolu dos mrtires uma igrejinha, erguida sobre os despojos de seus prceres inocentes13. Coberta por um bosque, a capela adormece ao sussurro das frondes, balouadas pelo vento, como que oferecendo a paz, ante a dor que s se esquece no perdo...14.

    13 Frase em itlico de Voltaire Wolney Aires. 14 O fecho das aspas encerra a transcrio do nosoo livro indito A Chacina Oficial..

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    Painel cermico na entrada do Tribunal de Justia do Tocantins. Nele se vem os ps dos mrtires na presilha de madeira do tronco, outros ajoelhados em splica e a investida cavalaria da milcia goiana.

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    I

    A MATANA DO TRONCO NAS MANCHETES NACIONAIS15

    A matana do Tronco ganharia dimenso nacio-

    nal.

    O Presidente do Estado de Gois, Desembarga-dor Joo Alves de Castro, face ao dramtico desfecho na terra do seu compadre Ablio Wolney, mas j ento adversrio poltico, viajou propositalmente para o Rio em gozo de licena. O Vice em exerccio, coronel Joaquim Rufino Ramos Jub, tempestivamente, expediu um longo telegrama ao Presidente da Repblica, pugnando pela interveno federal no Estado.

    O Duro, annimo, saltaria do seu esquecimento para as manchetes dos jornais do Rio de Janeiro e de outros locais do Pas. Os crimes brutais ali ocorridos, embora suavizados pela distncia, seriam convertidos em matrias de grande destaque, apesar da precariedade dos meios de comunicao.

    15 Ttulo e Captulo transcrito do livro O Barulho e os Mrtires. Veja o livro Ablio Wolney, Um Coronel da Serra Geral, de Nertan Macedo, onde o mesmo ttulo utilizado.

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    O jornal A Poltica, de 31 de janeiro de 1919, lanava a manchete Gois Trgico - O extermnio da famlia Wolney como epgrafe da seguinte matria:

    Os dirios cariocas j noticiaram as cenas de vandalismo desenroladas em S. Jos do Duro em Gois, onde o Coronel Joaquim Wolney e mais sete pessoas de sua famlia, caram vitimadas pelas balas da polcia do Estado. O fato, em sua nudez, to significativo de tirania, de selvageria, de barbarismo, que no h para ele nenhum disfarce, por mais que para isso se esforcem os responsveis pela ordem do Estado. De tudo isso o que se verifica infelizmente, que Gois, longe da capital da Repblica, esquecido quase, arrastando o atraso que convm aos que o exploram, continua a ser uma sarapia onde se praticam todas as violncias escarnecendo-se de todos os direitos. Em entrevista concedida a um vespertino carioca, o Sr.Alves de Castro, Presidente Itinerante do Estado infeliz declarou que o assassinato de Wolney no passou de um caso policial. Para esse senhor, a vtima pagou com a vida uma suposta resistncia priso, por fatos de violncia contra a autoridade. Nada mais. Lendo-se a declarao tem-se a impresso do homem falando calmo, indiferente, muito bem com a prpria conscincia. E tem razo para ficar descansado. Em Gois a lei a vontade da situao dominante que para isso dispe dos janizares precisos Diz o Sr. Alves de Castro que o seu primeiro ato a assumir o governo do Estado ser a escolha de um novo juiz em comisso para sindicar do procedimento do Juiz Calmon e da fora policial. E termina.

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    Se houve violncia, se crimes foram praticados, por ela respondero os seus autores. O Presidente de Gois tem conscincia de que ningum acredita na sinceridade de sua declarao, to gasta est a comdia da Justia no longnquo Estado que hoje governa. O que, porm ningum poder apagar, essa grande mancha de sangue, que h de ficar na histria do Estado, assinalando um de seus perodos mais tristes, mais deprimentes e angustiosos. E pode o Presidente Alves de Castro continuar a ser irnico tratando de casos to revoltantes...16

    Somente em 1. de fevereiro de 1919 a imprensa carioca tomava conhecimento dos fatos, que foram contemplados com lon-gos noticirios de primeira pgina, em todos os jornais e, principalmente, na Gazeta de Noticias que em sua primeira pgina publicou sob esta manchete:

    OS GRAVES SUCESSOS DE GOIS.

    Um telegrama do Presidente do Estado ao (Presidente da Repblica) Sr. Delfim Moreira. O GOVERNO FEDERAL TOMA PROVIDN-CIAS E o texto, ilustrado com fotografia do Presidente Alves de Castro: "O Dr. Delfim Moreira, Presidente da Repblica, recebeu ontem o seguinte telegrama do Sr. Coronel Joaquim Rufino Ramos Jub, Vice-Presidente do Estado em exerccio: Gois, 30 - Exmo. Sr. Delfim Moreira - Presidente da Repblica - Rio - As graves e delituosas ocorrncias que se tem desenrolado em uma parte da zona do Estado que eu tenho a honra de administrar, obrigam-me a

    16 Matria reeditada no jornal Goyaz, Ano XXXIV, N. 1570, p. 1 e 2 de 15/03/1919

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    vir solicitar de V. Ex., de acordo com o pargrafo 3., do artigo 5., da Constituio da Repblica, a Interveno Federal para ser restabelecida a ordem e a tranqilidade to fundamente alteradas naquela regio do Estado de Gois. A perturbao da ordem foi devido ao fato de haver o Governo desse Estado procurado fazer respeitar as leis, no permitindo que as autoridades em exerccio de suas funes fossem coagidas por atos alarmantes praticados pelo Delegado da Justia, conforme passo a expor a V. Ex.: Em 25 de maio de 1918, o Coronel Ablio Wolney e seu pai Cavalcante Wolney, capitaneando jagunos, invadiram casas de autoridades, entre outras a do Juiz Municipal de So Jos do Duro, pretendendo por meio de agresso ao Juiz, obrig-lo a concluir o inventrio do casal Belm sem formalidade alguma; continuando nos desmandos, maltrataram tambm o Coletor estadual e agente do Correio e mais autoridades. Logo que o Governo deste Estado teve comunicao destas ocorrncias, de acordo com o artigo 115 da Constituio Estadual, designou, em 12 de julho, o Dr. Celso Calmon, Juiz de Direito da Comarca de Pouso Alto, para, em Comisso, ir proceder contra os culpados. Acompanhando o Dr. Juiz de Direito, seguiram um Promotor Pblico e uma fora policial composta de 60 praas, sob o comando de um 1. Tenente. (...) (...)O Dr. Celso Calmon partiu desta capital em princpios de agosto e pela longitude em que fica a Vila de So Jos do Duro e pela irregularidade do Correio, poucas eram as comunicaes que o Juiz havia recebido do Governo. Em 24 de dezembro, porm, o Governo recebeu este telegrama: Barreiras, Bahia, 24 de dezembro de 1918. Fao sumrio. Espero regressar no comeo de janeiro. Avisarei partida. Estado sanitrio aqui bom. Respeitosas Saudaes - Celso Calmon. vista deste telegrama parecia que a Comisso do Dr. Celso Calmon terminaria em breve e em paz, quando o Governo foi surpreendido com o seguinte telegrama: Barreiras, Bahia, 13 de janeiro de 1919 Presidente Estado - Foram pronunciados pelo Dr. Calmon os responsveis pelo atentado de 13 de maio de 1918. No ato de serem presos, Joaquim Ayres Cavalcante e o jaguno Antnio Coelho resistiram, sendo mortos. Ablio Wolney fugiu

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    para o Estado da Bahia aguardando o auxilio de Ablio Arajo, alm fronteira do Estado, para carem em massa sobre a fora policial e saquearem a populao. O Juiz Calmon seguiu viagem no dia 1. Telegrafando a V. Ex. e pedindo a interveno da fora federal pela Bahia, acaba de chegar um portador voltando do caminho, tendo a correspondncia sido tomada por Ablio Wolney. Pedimos urgncia nestas mesmas providncias pois seremos atacados a qualquer momento por enorme onda de bandidos. Respeitosas saudaes (aa) Manoel Jos de Almeida, Juiz Municipal; Sebastio Brito, Coletor Estadual; 2. Tenente Antnio Seixas de Brito: 2. Tenente Antnio Catulino Viegas; 2 Tenente Ulysses de Souza Almeida e Jos Herminio, Escrivo da Coletoria. (sic) Logo telegrafei para diversos postos para saber de informes mais minuciosos e at hoje no obtive resposta, o que faz acreditar que os criminosos continuam a interceptar a correspondncia. H dois dias, um dos Jornais desta capital publicou o seguinte telegrama: Geraldo Rocha publicou telegramas de Barreiras noticiando que depois de terem sido postos em tronco 9 (nove) membros da famlia Wolney, foram sangrados e fuzilados. Ablio, exasperado, atacou So Jos do Duro. Sebastio Brito, Coletor Estadual, e Manoel Almeida, Juiz Municipal, fugiram. J v V. Ex., Sr. Presidente da Repblica, a gravidade de fatos que se esto dando no municpio de S. Jos do Duro.

    (...) O Presidente licenciado, Des. Joo Alves de

    Castro, diria no mesmo Jornal, no dia 5 de fevereiro, uma quarta-feira, ainda na pgina de frente, colunas 7 e 8:

    OS GRAVES SUCESSOS EM GOIS O SR.

    ALVES DE CASTRO DEFENDE-SE "Estiveram ontem no Palcio do Catete, em

    conferncia com o Sr. Delfim Moreira, Vice-Presidente da Repblica em exerccio, os Srs. Desembargador Alves de Castro, Governador do Estado de Gois, e o Deputado Olegrio Pinto, da

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    representao daquele Estado no Congresso Federal, para falar sobre os ltimos acontecimentos que tm convulsionado So Jos do Duro, em Gois.

    "Quando os dois polticos goianos se retiravam,

    procuramos ouvi-los quanto situao atual de Gois e quais as ltimas notcias que SS. EExs. haviam recebido dali.

    "O Desembargador Alves de Castro, responden-

    do, disse que a situao do seu Estado a mesma de outrora, havendo prenncios de se desenrolarem, ainda, fatos gravssimos, o que atesta o seguinte telegrama alarmante recebido de Boa Vista do Tocantins17, com data ainda de 30 de setembro de 1918 - que S. Ex. recebeu do Sr. Ramos Jub, Vice-Presidente do Estado em exerccio, e que mostrou ao Sr. Presidente Delfim Moreira:

    Chegam notcias de que Ablio Arajo e Roberto

    Dorado marcham contra o Duro, com duzentos homens armados, para auxiliarem o ataque daquela Vila. Tomando passagem no Jalapo (...). Parece envolver-se o norte de Gois em nova fase de roubalheiras e morticnios a exemplo do que aconteceu em Pedro Afonso, desta vez alcanando diversos municpios. H muito vem prometendo isso os facnoras, graas poltica de imunidade em que tem ficado os crimes anteriores. Solicitamos a ateno e providncias de V. Ex. - Saudaes. Ayres da Silva - Deputado Federal - Sds. - Joaquim Rufino Ramos Jub - Vice-Presidente em exerccio.(sic)

    Continuemos com a Gazeta de Notcias em sua matria sobre o Duro:

    "Prosseguindo, diz o Sr. Desembargador Alves

    de Castro:

    17 Hoje Tocantinpolis.

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    J se v, a, provado, num despacho deste, que no o Governo que tem nos ombros a responsabilidade dos crimes, que neste curto espao de tempo tem sido praticados em So Jos do Duro, no o reduto para a chacina dos meus adversrios mas o campo de concentrao daqueles, para desrespeitarem as autoridades constitudas. (sic)

    Querem os adversrios que o Governo nomeie

    um Interventor continua o Sr. Alves de Castro. Mas eu posso afirmar que no precisamos de

    Interventor, porquanto o Estado est organizado, estando todas as autoridades em pleno gozo de seus direitos. O que precisamos de ordem que, ali, esta alteradssima".

    "Finalizando disse o Desembargador Alves de

    Castro: Tenho a conscincia tranqila, pois os fatos tristes con-sumados em So Jos do Duro no so o fruto de minha politicagem... Saberei punir os culpados dentro da lei e do direito.

    O PRESIDENTE ALVES DE CASTRO NO MINISTRIO DO INTERIOR

    "Sobre os sangrentos sucessos desenrolados no

    norte de Gois, esteve ontem no Ministrio do Interior, em confe-rncia com o Dr. Urbano Santos, o Sr. Desembargador Alves de Castro, Presidente daquele Estado. O Dr. Alves de Castro mostrou ao Ministro o telegrama do Sr. Jub, que acima ficou transcrito e que tambm foi mostrado ao Sr. Vice-Presidente da Repblica.

    O Duro no estava mais no esquecimento. Es-tava, agora, sob a luz dos refletores da opinio nacional. Era notcia. Notcia provocada por sangue.

    Procedente de Barreiras, e datado de 1. de

    fevereiro de 1919, o Dr. Geraldo Rocha recebeu o seguinte

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    telegrama que relata minuciosamente os horrorosos crimes praticados em So Jos do Duro:

    Ablio Wolney Repelindo o ataque, marchou

    sempre em direo Vila de So Jos do Duro, que tomou depois de tiroteio, encontrando os cadveres com os ps no Tronco e sangrados. Oscar foi encontrado amarrado, ainda vivo, mas gravemente ferido.

    Barreiras, Bahia - 1. de fevereiro - Podeis

    asseverar que os fatos se passaram da seguinte forma: Chegando notcia Vila do Duro de que o coronel Ablio Wolney seguira com pessoal seu para retirar sua famlia dos sofrimentos impostos pela polcia s ordens do Dr. Calmon, mandaram o Dr. Ablio Faria e Francelino Telles encontrar-se com ele no caminho para intervirem junto do mesmo, a fim de acordarem sobre a situao. Ao partirem estes, imediatamente colocaram Joo Leal; Joo Rodrigues, alm de outros que j l estavam, no Tronco. A fora policial comeou, ento, numa imediata matana, sendo levado presena do coronel Joo Leal, seu filho Oscar para ser morto. O coronel pediu que o matassem primeiro, para no ver matar o filho. Retiraram ento Oscar, atirando sobre a cabea do coronel Joo Leal, j posto no Tronco; depois dele, mataram Joo Rodrigues, Wolneyzinho, que foram todos encontrados mortos no Tronco, junto da viva do coronel Joo Leal, me de Oscar.

    A filha do coronel Wolney, (Ana Custdia)18, es-

    pavorida, horrorizada, correu para a fazenda denominada Buraco, onde levou estes fatos ao conhecimento de Ablio. Este, como louco, partiu frente do seu pessoal em defesa da me. irms, filhos e do resto da famlia, sendo no caminho da Fazenda Buraco atacado pela Fora Pblica, secundada por jagunos, em nmero superior a 200 homens.

    18 Parnteses inserido pelo autor.

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    Repelindo o ataque, marchou sempre em direo Vila de So Jos do Duro, que tomou depois de tiroteio, encontrando os cadveres com os ps no Tronco e sangrados. Oscar foi encontrado amarrado, ainda vivo, mas gravemente ferido. Pde ainda relatar os fatos e dizer terem sido eles alvejados pelo Alferes Catulino. Os demais foram mortos pelos outros oficiais em pessoa. Nesse momento, o cabo Gerson, frente de seis soldados armados, estava a arrombar a porta do quarto, onde estavam a viva Wolney19 e filhos, netos e parentes do coronel Ablio, que entrava pelos fundos da casa, repelindo os assassinos e salvando ainda indefesas as mulheres e sua me. Roubaram todo o dinheiro, deixando apenas 1$200.

    Prenderam os vaqueiros das fazendas que

    traziam gados para a matana. A me e sua famlia sofreram toda sorte de insultos. Foram mortas oito20 pessoas, no Tronco, pela polcia. Ablio, depois de saber disso, tornou ao Duro, derrotando a fora completamente, a qual correu para Natividade da Conceio.

    O Dr. Celso espalhou trazer ordem do Juiz

    Castro21 para eliminar a famlia Wolney. Abilio continua no Duro, para onde corre numeroso pessoal sua procura. Ignoro as pessoas que pereceram na luta depois do ataque. Garantem que Ablio s atacou depois de mortos no Tronco, Janjo e os demais j noticiados pela imprensa.

    Ablio no pode nem deve confiar a soluo a

    autoridades estranhas, visto o procedimento do Dr. Celso. Quer punio da Justia por meio mais convincente, acerca dos morticnios de sua famlia. (a) - Francisco Rocha. 22

    19 Maria Jovita da Purificao Leal Wolney(D. Mariazinha). 20 Em verdade foram Nove, fora o menor Oscar Leal. 21 Referncia ao Des. Joo Alves de Castro, Presidente do Estado. 22 Transcries e telegramas trazidos do livro de Nertan Macedo, antes citado. Reala essa verso a tradio oral do lugar que relata o fato de que no dia 16 de

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    O Correio a Manh, do Rio, em 1 de fevereiro de 1919 divulgava:23

    Recebemos uma longa carta do desembargador Alves de Castro, presidente de Gois procurando defender-se das graves acusaes que lhe tem sido feitas, a propsito dos massacres ocorridos no municpio do Duro, naquele estado. O Sr. Alves de Castro, respondendo na sua carta nossa argio de que ele deixava passar em julgado aquele terrvel libelo, diz que pela Notcia de 2 do corrente e pelo Rio Jornal de 25 j exps a sua atitude perante os acontecimentos. Mas S. Exa. nega que houvesse nomeado o Juiz Celso Calmon a quem forneceu grande fora policial, para restabelecer a ordem no citado municpio; assevera, em vista de informaes que recebeu, ter o coronel Joaquim Wolney sucumbido, quando, depois de pronunciado em processo regular, resistiu priso; e histria providenciais que, aps, a sua chegada aqui, aconselhou ao vice presidente do Estado em exerccio, a fim de apurar a responsabilidade do Juiz e da fora naquele caso. Nada refere, porm, quanto ao massacre de quase toda a famlia Wolney num tronco, fato que no se justifica, pelo seu carter de fria crueldade, com a ao legal da polcia em face da resistncia armada a um mandado de priso. E dessa selvageria responsvel, conforme todos os depoimentos at aqui conhecidos, o Juiz Calmon, nomeado pelo Sr. Alves de Castro, que lhe forneceu a fora autora das cenas brbaras.

    janeiro de 1919, pela manh se ouviu um tiroteio no Sobrado, antes mesmo do ataque vindo dos homens do Buraco. 23 Acervo da Biblioteca L.A.R. da Prof. Nancy Ribeiro de Arajo e Silva, a quem agradecemos e consignamos a gentileza do importante material de pesquisa que nos foi cedido.

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    Jornais como A Pacotilha, de S. Luiz do Mara-nho, bem como O Rio-Jornal, do Rio de Janeiro, ento Capital da Repblica e Distrito Federal, denunciavam a gravidade dos fatos. Ainda no Rio, o Presidente do Estado, Joo Alves de Castro, fez publicar na edio de 10.02.1919, do Jornal O Comrcio, a seguinte explicao, verbum ad verbum:

    Diante das acusaes feitas ao governo de Gois pelos lamentveis acontecimentos de S. Jos do Duro, cumpro o dever de declarar s pessoas que me conhecem o seguinte: no sou e no posso ser culpado por esses tristes acontecimentos. Agi como Governador, na defesa da lei e das autoridades constitudas, quando comissionei o Juiz Celso Calmon para sindicar da responsabilidade dos que, no dia 16 de maio do ano passado, alm de outros desmandos, invadiram a casa das audincias, prendendo o Juiz e o Escrivo, e obrigando aquele a concluir um Inventrio sem as formalidades legais. Se o Dr. Celso Calmon exorbitou de suas atribuies e se a fora policial praticou crimes, garanto que sero severamente punidos em processo regular. No protejo criminosos, sejam quais forem as suas ligaes com os chefes polticos e sejam quais forem os cargos que ocuparem. A verdade, porm, h de aparecer e as responsabilidades ho de ser definidas e apuradas. Para o Governo uma questo de honra.

    Em meio a essa retrica, polticos situacionistas e

    Governo recrudesciam nos nimos pela badalada Interveno da Unio no Estado de Gois, visando exatamente a ignota Vila de So Jos do Duro, agora com menos de 40 casas abandonadas naqueles cafunds, supondo poderem manejar foras para de uma vez por todas dizimar o que sobrou no lugarejo.

    Em Gois, os jornais O Democrata, Correio

    Official e A Imprensa traziam sempre uma verso oficial dos acontecimentos, inocentando o Partido Democrata, situacionista, e o Governo.

    Na verdade, o pedido de Interveno era um modo do Governo se justificar perante a opinio pblica, pois de fundo no se interessava que a Unio viesse a saber da realidade dos fatos. A rigor, a interveno viria, mas em razo do alarma que

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    escandalizou o Pas pela imprensa. No dia 03 de fevereiro de 1919, o Jornal do

    Comrcio, Edio da Tarde, publicava:

    Os lamentveis acontecimentos que tem sido teatro uma parte da zona do norte goiano tornaram-se, afinal, to graves que j foi pedida e resolvida a interveno federal em Gois. Implantara-se ali um regime incrvel de assassinatos, cometidos com inauditos requintes de ferocidade. Aponta-se como responsvel por essas sangrentas exploses de dio partidrio o prprio Juiz de Direito na comarca de Pouso Alto, ali mandado em comisso pelo governo goiano(...), gozando de uma impunidade que nada explica ou pode justificar. Num dia, tombaram varados pelas balas dos prprio policiais goianos o Coronel Wolney, fazendeiro na localidade, e mais duas pessoas. Dias depois nada menos de nove membros da famlia Wolney foram postos em tronco, sangrados e fuzilados, sumamente, em pleno dia, como se aquele rinco central fosse um trecho do interior da frica ou habitado por uma tribo de Tupinambs... Um dos vrios governadores de Gois presentemente em exerccio, o Sr. Jub, resolveu, ento, solicitar a interveno federal, confessando-se, assim, impotente para restabelecer a ordem pblica to profundamente alterada e para fazer respeitar a propriedade e a vida dos cidados. Esse pedido no podia deixar de ser atendido, pois, como os telegramas tem relatado, as prprias autoridades estaduais encarregadas de manter a ordem e distribuir a justia, se encontram, diretamente envolvidas naquelas lgubres tragdias do serto. Andou, assim, acertadamente, do Governo da Unio, atendendo com presteza ao de Gois e decidindo-se a intervir militarmente naquela unidade da federao. Mas preciso que essa interveno produza todos os efeitos esperados, em desagravo da sociedade e da famlia brasileira e para honra dos nossos foros de nao policiada. O interventor no pode assim ser posto, com as suas foras, a disposio da autoridade judiciria implicada em tantos assassinatos. A interveno precisa ser feita com a mxima imparcialidade e os fatos apurados com o maior escrpulo, afim de que os verdadeiros culpados no escapem a punio exemplar merecida. O Governo Federal, naturalmente, deu, nesse sentido, as suas instrues, de modo que a interveno possa operar-se livremente dentro da lei e do direito, como convm, no ficando de maneira alguma, sujeitas a injunes de um

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    magistrado, de modo que a interveno possa operar-se livremente dentro da lei e do direito, como convm, no ficando de maneira alguma, sujeitas a injunes de um magistrado energmeno e sanguinrio as foras do nosso glorioso exrcito que para l vo seguir, na defesa da ordem constitucional e dos sentimento de humanidade. Cumpre agir no caso com pulso firme e seguro, de modo que no se reproduzam no norte goiano cenas de tamanho vandalismo, pelo encadeamento de homicdios impunes, moda das vinganas corsas ou dos despenhadeiros calabrazes... O espetculo horrvel de nove pessoas chumbadas ao tronco ignominioso, que lembra os tempos da escravaria, e, depois, cruelmente sangradas como animais e fuziladas luz do dia, de modo a no deixar a menor sombra de dvida sobre a situao de inauditas tropelias a que chegou aquela afastada regio goiana, distante 159 lguas da capital do Estado, por estradas difceis, cortadas de rios sem pontas. Esse espetculo, deprimente, vergonhoso e brbaro, ofende em cheio o Brasil inteiro e seus autores, como os mandantes dos homicdios anteriores, precisam ser, repetimos, enrgica e exemplarmente punidos.

    O Correio da Manh de 04 de fevereiro de 1919 dava a seguinte notcia no Rio:

    Depois que o Dirio Oficial, no dia 1. noticiou solenemente a deliberao do governo de pr s ordens do Coronel Jub, de Gois, as foras do Exercito da 3. Regio, nenhuma outra nota autorizada apareceu esclarecendo esse caso imprevisto. Pois o Presidente da Repblica procederia bem se mandasse explicar pelo mesmo dirio, que nunca teve a infeliz idia de colocar batalhes federais ao servio de criminosos, cujas ltimas faanhas de banditismo foram de molde de afastar do governo goiano, que as inspirou, determinou, animou qualquer apoio dos poderes constitudos da nao. Em verdade, consta de jornais ter dito que nunca se pensou em prestigiar de forma to aparatosa quele velho tocador de viola, a quem h trinta anos, mais ou menos, cabe a fortuna de governar Gois internamente, com uma ou outra folga. Tem-se dito que as foras mandadas estacionar na fronteira do Estado obedecero s ordens de inspetor militar e s devero agir para acautelar a ordem pblica. Mas o que h de oficial e autntico at ao presente a notcia do disparate de se querer dar mo aos assassinos de Duro contra as vtimas que eles massacraram num tronco e j enterraram. E isso se pretende em nome do art. 6. da Constituio.

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    O Sr. Delfim Moreira ordene que se desminta essa histria de modo positivo.

    Em 08 de fevereiro de 1919, o jornal Goyas noticiava:

    O CRIME DO DURO(1)

    H muito que esta poltica que desgoverna o Estado pensava e concebia um plano para liquidar a influncia da famlia Wolney em Duro, no norte do Estado, procurando um momento asado e um pretexto ftil qualquer, e para enviar grande fora para aquela vila sob a direo de um juiz, escolhido a dedo, capaz de todos os crimes e farsas, que fosse fiel ao executor do plano macabro engendrado pelos mandes desta infeliz unidade da Federao.

    Inventou-se, conforme informaes fidedignas vindas daquele ponto do Estado, um desacato uma autoridade sob a forma de deportamento, praticado pela famlia Wolney e o governo de posse deste pretexto, (ilegvel) uma grande expedio, composta de um juiz, promotor publico, escrives, diversos oficias de policia e uma fora de 60 praas e manda seguir com todo o aparato para a vila do Duro.

    O governo, na sua nica preocupao de dar um ensino aos Wolney e liquidar a sua influencia no norte do Estado, andou em busca de um juiz em condies de seu um fantoche em suas mos, encontrando-o na pessoa do Dr. Celso Calmon, juiz de direito da comarca do Rio Piracanjuba.

    Nomeou-o em comisso para apurar a responsabilidade da famlia Wolney, dando-lhe para promotor o agrimensor Mandacaru Arajo e despachou-o para o Duro, com gordas e escandalosas ajudas de custo, retribuindo deste modo, desde o inicio da comisso, a nulidade do juiz perante a sua vontade.

    Parte a expedio e depois de muitas semanas de marcha entra na via do Duro ao som de cornetas marciais, provocando a curiosidade de uns velhos e velhas que permaneciam na vila, porque seus habitantes tinham se (ilegvel).

    A famlia Wolney estava em sua fazenda, retirada 4 lguas da vila, cercada de inmeros amigos e contando com o apoio decidido de todos os habitantes da regio.

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    O Dr. Calmon, ao chegar em Duro, engrossou a sua comitiva com o Sr. Manoel de Almeida a tal autoridade desacatada que andava perambulando pelas proximidades da vila a fim de justificar o seu deportamento, embora estivesse estado mais de uma vez dentro da provao sem ser incomodado pelos Wolney.

    Sabendo e vendo o juiz o prestigio dos Wolney na vasta e rica zona, tendo conhecimentos dos elementos que podiam dispor, procurou ganhar a sua confiana por uma premeditada imparcialidade, maltratando os inimigos dos Wolney e mostrando uma certa m vontade contra a autoridade que se dizia desacatada e sempre a declarar que faria justia.

    Na presena destes fatos, os Wolney, que s esperavam justia, para provar a farsa de que eram vitimas, farsa criada pela imaginao frtil do trfego Jos Hermano, inimigo acrrimo seu, mandaram visitar o Dr. Calmon e comitiva e, pouco a pouco, pelo modo por que eram tratados pela hipcrita beca, foram dispensando os seus amigos, confiados na ao da justia e, que no poderia deixar, em presena dos fatos e documentos, de reconhecer a falsidade da acusao, solicitando mesmo todas devassas possveis para que a verdade surgisse clara e desmascarada fossem os seus pequeninos acusadores.

    Os Wolney, porm, no podiam adivinhar a trama preparada contra eles (ilegvel) e que devia cumpri-las, levando em sua companhia um oficial de policia recm-nomeado para tal empreitada e por seu inimigo rancoroso e que, sedento de vingana e dio, tudo faria para extermnio de sua famlia.24

    O CRIME DO DURO(2)

    Em nosso nmero passado vnhamos publicando, guisa de um pequeno histrico, os antecedentes do crime, a sua concepo por parte dos mandantes e o incio da execuo pelos mandatrios, abordando, hoje, o crime.

    O juiz Calmon, no mais tendo para promotor pblico o agrimensor Mandacaru, com quem brigara antes (ilegvel) entrar em Duro, exigindo do governo a sua exonerao, indicou para substitu-lo o senador

    24 Fonte: jornal Goyas, Ano XXXIV, N. 1565, p. 1 de 8/2/1919. Acervo da Biblioteca L.A.R. da Prof. Nancy Ribeiro de Arajo e Silva.

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    estadual Deocleciano Nunes, residente em Natividade e inimigo declarado dos Wolney.

    Para juiz adrede escolhido s um defensor da justia pblica inimigo dos pretensos rus, digno comparsa na farsa que se ia representar na longnqua vila nortense na presena de um claque paga para aplaudir e composta de representantes da fora pblica do Estado.

    Os Wolney, confiados na ao da justia sob o manto protetor da beca de um magistrado, constituram advogados e compareceram s audincias prestando todos os esclarecimentos.

    No decorrer do processo, que foi longo para captar a confiana das vitimas e no falhar o bote, o Dr. Calmon desmanchava-se em atenes para com os Wolney.

    Terminado o processo, as vtimas foram para a fazenda do Buraco esperar a sentena do juiz, tranqilas e convencidas da ao reta do magistrado que presidira o processo, desprevenidos em uma regio em que contavam com valiosos elementos de segurana, no lhes passando pelo esprito que sob a beca da justia existisse um magistrado que fosse capaz de esposar alheias paixes polticas, levando sua conduta at o crime de sacrificar vidas e propriedades de adversrios dos situacionistas. Condenadas as vtimas, resolvido o seu desaparecimento, o juiz ainda foi fazenda ver de perto se obstculos no surgiriam contra a boa execuo da empresa, prometendo, mais uma vez, justia s suas vtimas. Na noite desta visita mandou cercar a fazenda pela fora da polcia e pelos jagunos arvorados em mantedores da ordem, e pela madrugada, quando Wolney pai partia para uma caada, acompanhado de alguns camaradas, foi alvejado do mato pela fora emboscada, tombando com ele um dos camaradas. Dado princpio matana, a fora policial apertou o cerco fazenda, a assaltou e prendeu todas as pessoas que encontrou, entre elas crianas, e as trouxe para a vila. Conseguiu, ento, escondendo-se numa tulha, escapar das mos da polcia facnora o cel. Wolney filho que, retirada a fora, seguiu rumo a Barreiras, na Bahia, de onde nos telegrafou, a amigos, ao Presidente do Estado, responsabilizando este pelo assassinato, e imprensa do Rio.

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    Reunindo elementos em Barreiras, voltou o cel. Ablio Wolney sua fazenda para defender a vida de sua velha me, de seus irmos pequenos e a sua propriedade. Enquanto o cel. Wolney preparava elementos para tomar a defesa dos seus, o magistrado criminoso, receando uma justa reao contra o banditismo praticado, abandona os seus companheiros no crime e pelas caladas da noite, tomando trilhos, trmulo de medo e apavorado com o castigo merecido, corta rumo em direo a Boa Vista e ao Estado do Maranho, quando, segundo nos informaram, comunicara ao governo que se recolhia Capital. O Dr. Alves de Castro, presidente do Estado, juntamente como seu Secretrio do interior e futuro genro, Dr. Americano, tendo conhecimento dos fatos que estavam se desenrolando naquela vila, abandonam, da noite para o dia, esta capital e seguem para o Rio amedrontados com a responsabilidade do crime cometido pela sua polcia. O CRIME DO DURO(3) Presos os membros da famlia Wolney e conduzidos para a vila do Duro pela polcia, foram eles metidos na cadeia e amarrados ao tronco como criminosos, simples refns nas mos (ilegvel) escudo com o qual (ilegvel) para evitar a justa represlia do Coronel Wolney Filho. Este, dispondo de amizades e influncia na vasta zona nortista e contando com amigos dedicados no interior da Bahia, conseguiu em poucos dias reunir elementos e retornar sua fazenda do Buraco, ali chegando no momento em que a polcia, no satisfeita ainda com a srie de crimes praticados, a esta propriedade voltara, depois de ter, na vila, fuzilado e sangrado no tronco nove membros da famlia Wolney que se achavam presos, com o fim de, liquidando a Senhora de Wolney pai e crianas que se achavam na fazenda, completar pelo assassinato e extermnio de toda a famlia. Ao defrontar, porm, a fazenda, encontrou o Coronel Ablio e sua gente, que, reagindo, conseguiram por em fuga os representantes da fora pblica do Estado, transformados em quadrilheiros, e a salvo da chacina que escapara da sanha e do dio dos exterminadores de sua famlia. O coronel Ablio Wolney, de posse de sua fazenda do Buraco e sabedor das atrocidades de que foram vtimas os membros de sua famlia, a organizou a reao para se apodera da vila do Duro, onde se acham os seus haveres e muitas propriedades entregues discrio de seus

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    inimigos. Segundo nos consta, frente de 500 homens, marchou contra a vila, cercou-a, depois de cerrado tiroteio, tomou-a de assalto, destroando a fora que a defendia. O governo do Estado, impotente para reprimir justa reao provocada pela sua polcia, apelou para o governo federal, solicitando interveno para por fim ao banditismo no norte do Estado. O governo federal, prontamente acedeu, decretando a interveno e pondo a fora federal disposio do Governo do Estado. Mais tarde, porm, melhor informado quanto aos atos vandlicos cometidos em Duro e sabendo do papel representado pela polcia e das acusaes que pesavam sobre as autoridades do Estado, o Governo Federal resolveu mandar a fora sob as ordens de um interventor a fim de apurar as responsabilidades dos horrveis crimes. O Exmo. Sr. Vice- Presidente da Repblica, em exerccio da presidncia, ponderando bem as responsabilidades que lhes pesam e no desejando praticar injustias, com acerto gio em (ilegvel) parciais e coniventes nesses crimes. O coronel Ablio Wolney, com tantos elementos de defesa ao seu lado e senhor de uma causa justa e simptica, no pode temer a ao da justia, principalmente quando a justia est depositada nas mos de distintos oficiais de nosso exrcito. O CRIME DO DURO(4) Pouco a pouco vai se fazendo alguma luz sobre os lgubres acontecimentos, que tornaram a florescente Vila do Duro tristemente clebre nos anais do banditismo. Em toda parte onde chegam os ecos do que ali se passou, levanta a imprensa enrgico protesto contra to hediondos crimes, no encontrando termos bastante precisos para verberar o procedimento das autoridades que organizaram to brbara matana. Notcias mais e mais minuciosas sobre os prdromos da terrvel tragdia nos esto chegando daquela malfadada vila. O Juiz em comisso, Dr. Calmon, que para l fora mandado pelo Dr.

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    Alves de Castro para apurar responsabilidades e sindicar de terrveis assassinatos de agentes do Governo estadual, encontrando todos em boa sade, descobriu, em inqurito feito em segredo de justia, que toda a famlia Wolney, inclusive dois menores, estava implicada num crime de desacato a autoridade do Juiz municipal. Ordenou logo ao promotor que denunciasse a todos no s nesse crime como em alguns outros que mandou incluir na denncia para, tornando o crime inafianvel, poder com maior segurana bem desempenhar sua empreitada. Tendo os Wolney constitudo advogado a havendo falta de certides das intimaes de dois dos acusados, foi o incio do sumrio da culpa, marcado para 21 de dezembro na denncia, adiado para o dia 24 ao meio dia. Inesperadamente na madrugada de 23 foi toda a famlia Wolney cercada em sua fazenda e morto Wolney pai quando saa de casa para uma caada. O Dr. Secretrio do Interior, em entrevista imprensa do Rio, declarou que o Cel. Wolney pai fora morto quando resistia priso, e que estava pronunciado em crime inafianvel! At agora esta a nica defesa publicada pelo Governo. Alguns dos comparsas da brbara tragdia j aqui se acham e se apresentaram ao governo que, como sempre acontece, est abrindo um de seus rigorosos inquritos para certamente apurar, como em Catalo, a culpabilidade das vtimas do incorrido dio poltico dos nossos mandes. Felizmente o desenlace desta tragdia no ser o mesmo do das outras, pois alguma coisa esperamos da imparcialidade do inqurito que o governo federal mandou l proceder por um auditor da guerra.25

    A Denncia que serviu de pretexto para o extermnio da

    famlia e amigos dos Wolney em 1919 estava desaparecida, pois no consta dos autos do processo Celso Calmon Nogueira da Gama, porquanto teria sido desentranhada para inaugurar o 25 Fonte: jornal Goyas, ano XXIV, N. 1569, p. 1 e 2 de 08/03/1919. Acervo da Prof. Nancy Ribeiro de Arajo e Silva.

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    processo criminal contra o referido Juiz e Comissionados, cujos autos ao que se tem notcia, com vrios e maudos volumes esto desaparecidos do arquivo do Tribunal de Justia do Estado de Gois, ante as frustradas tentativas do autor em localiz-los nas diversas buscas ao longo destes ltimos 05 anos. Entretanto encontramos a famigerada Denncia em outra fonte, na qual o Dr. Juiz em comisso, no contente em atribuir aos acusados um rosrio de crimes inventados para a justia estadual, acrescentou alguns da competncia da justia federal (arts. 112 e 112 do CP) e aqui que todos deveriam ter sido julgados, como depois o foram com a extino da punibilidade por prescrio penal.

    Ei-la, ipsis litteris:

    Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito em Comisso neste termo. O Promotor Pblico da comarca da Posse, em comisso neste termo, em cumprimento dos deveres de seu cargo vem, perante V. Ex. de acordo com a lei, denunciar os Srs. Ablio Wolney, Joaquim Ayres Cavalcante Wolney, Santos Belm, Olympio Belm, Joo Correia de Mello, Oscar Ayres Leal, Jos Ansio, Domingos Alves dos Santos, Hygino de Tal e D.Rosa Ribeiro Belm, pelo seguinte fato criminoso que passo a expor: No dia 16 de maio do corrente ano, s 9 horas da manh aproximadamente os Srs. Ablio Wolney, Joaquim Ayres Cavalcante Wolney, Santos Belm, Olympio Belm, Joo Correia de Mello, Oscar Ayres Leal, Jos Ansio, Domingos Alves dos Santos, Hygino de Tal, armados de rifles e pistola Mauser, nesta vila, cercaram e invadiram a casa onde funciona o Cartrio de rfos no qual encontrava-se o Juiz Municipal deste termo Manoel Jos de Almeida em audincia e aps desacatarem o referido Juiz, o obrigaram juntamente com o Coletor Estadual Sebastio de Britto que ali fora em socorro do aludido Juiz, com violncias e ameaas a terminar o inventrio em que era inventariado Vicente Belm, inventrio esse cuja alada excedia de dois contos de ris e que aps assim haver sido terminado em esse inventrio, dele se apoderou, levando-o consigo o Sr. Ablio Wolney que, por sua vez, o entregou oito dias depois viva do inventariado, D. Rosa Ribeiro Belm que, ilicitamente, recebeu e conservou esse inventrio em seu poder at o dia em que foi apreendido. Os denunciados, alm do exposto ainda, detiveram o encarregado da agncia do correio Thom Celestino de Abreu preso, com guarda armada vista, exposto ao sol, desde o incio da audincia at termin-la, audincia que durou oito horas mais ou

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    menos, por ter o mesmo procurado saber o que se passava com as autoridades referidas na casa acima mencionada onde tambm funciona a agncia do Correio, tudo de acordo com o inqurito que instri a presente. Como assim procedendo incorressem os denunciados, Ablio Wolney, Joaquim Ayres Cavalcante Wolney, Santos Belm, Olympio Belm, Joo Correia de Mello, Oscar Ayres Leal, Jos Ansio, Domingos Alves dos Santos, Hygino de Tal nas penas do art. 134, combinado com os arts.112,113,181 e 333 pargrafo nico, com as circunstncias, com as circunstncias agravantes do art. 39, pargrafos 2., 13 e 14 e Rosa Ribeiro Belm no art. 333 pargrafo nico, com referncia ao art. 21 pargrafo 3, tudo de acordo com o art. 66 pargrafo 1. do nosso Cdigo Penal e para que sejam processados e julgados, requer-se seja instaurado o competente sumrio de culpa, inquirindo-se as testemunhas abaixo arroladas, todas residentes neste termo; tudo na forma e sob as penas da lei. Vila de So Jos do Duro 12 de dezembro de 1918. Deocleciano Nunes da Silva, Promotor Pblico em Comisso. Rol da testemunhas Jos Cosme Mascarenhas, Felismina Jos Leal, Francisco Pereira da Silva, Aristteles Leal, Marcos Gonalves da Silva, Joaquim Francisco de Carvalho, Joaquim Amaro de Souza. A. recebo denncia, designo o dia 21 deste, s 12 horas na sala do Conselho Municipal desta Vila, para se iniciar este sumrio. O Sr. Escrivo faa as diligncias necessrias para a formao da culpa, ciente o Promotor, Sr. Jos do Duro, 12 de dezembro de 1918. Celso Calmon Nogueira da Gama. Era o que se continha na referida denncia, a qual me reporto e dou f. Eu, Guilherme Ferreira Coelho, escrivo ad hoc, a escrevi.

    O jornal O Imparcial de 08 de fevereiro de 1919

    divulgava:

    O CRIME DO DURO ALM PARANABA. GOIS ESPANTOSO

    O que se sabe na Bahia relativamente aos acontecimentos. S. SALVADOR, 5 (A.A). Os jornais desta capital publicam inquietamente notcias sobre os acontecimentos de Gois, tanto mais quanto sabido que foi o governador daquele Estado quem concertou o plano contra o Coronel Wolney. O Coronel Wolney, mantinha uma questo judiciria com o Coronel

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    Manoel Palmeira, a quem o governador de Gois prestigia. Tornando-se inimigo do Coronel Wolney, o governador mandou para a vila de Duro, o Juiz de Direito de Pouso Alto, Dr. Celso Calmon, indo como promotor o engenheiro Mandacar, acompanhado tambm, o Juiz, 60 praas de polcia e 6 oficiais. Chegando cidade de Arraias foi oferecido um banquete a essas autoridades. Durante o banquete, houve uma fortssima discusso entre o Juiz Celso Calmon e o promotor Mandacar, por questes de bairrismo. Seguindo viagem, depois, chegaram vila de Conceio de Monte, onde houve uma nova desinteligncia entre o Juiz Calmon e o promotor Mandacar. Incompatibilizados, o Dr. Mandacar demitiu-se da comisso, escrevendo antes, uma carta ao Coronel Woney, na qual denunciava os planos que estavam sendo concertados contra sua vida. Apesar de inimigo poltico do promotor Mandacar, o Coronel Wolney no acreditou, entretanto, nesta denncia e retirou-se acompanhado de sua famlia de So Jos do Duro para sua fazenda de Buraco, deixando como seu advogado na vila de Duro o Coronel Luiz Leite, que desempenhou junto ao Juiz Calmon a melhor defesa de seu constituinte. O Juiz Calmon, no se conformando, marchou para a fazenda do Coronel Wolney, onde foi fidalgamente recebido, mantendo a melhor harmonia com a famlia Wolney. No dia 23 de dezembro, Wolney, perfidamente enganado saiu para caar antas, voltando gravemente a bala. Repentinamente, um contingente policial irrompe das circunvizinhanas, invadindo a residncia da famlia Wolney, prendendo a todos e levando-os para a Vila do Duro, onde, depois de inacreditveis martrios, foram passados pelas armas, somente escapando Ablio Wolney, que ficou escondido no poro da casa, fugindo depois para a cidade de Barreiras, de onde telegrafou ao governador de Gois, responsabilizando-o pelo massacre de sua famlia. A famlia Wolney aparentada e relacionada com poderosas famlias goianas e baianas, acreditando-se que seus parentes e seus amigos

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    tenham pegado em armas para a vingana. As ltimas notcias dizem que uma poderosa famlia baiana, aparentada com a famlia Wolney, j pegou em armas, tendo invadido Gois. Os jornais receiam que os acontecimentos de Gois sejam mais graves que os de Canudos e do Contestado.26

    Em edio de 08 de fevereiro de 1919, o Correio da Manh, no Rio, voltava ao assunto:

    Os telegramas da Bahia, recebidos ontem, um dos quais da Americana, sobre os terrveis acontecimentos da Vila do Duro, em Gois, mostram que esses fatos so ainda mais graves do que se supunha. Os despachos afirmam que uma poderosa famlia baiana fortemente armada, j invadiu aquele Estado, para vingar o massacre da famlia Wolney. Est apurado que o Coronel Wolney no resistiu a mandado de priso, mas foi assassinado de modo mais cruel e covarde, quando vinha de uma caada, e isto depois de haver acolhido na sua fazenda o juiz Celso Calmon, concertador da emboscada hedionda. Aps esse crime, como houvesse clamor contra ele e receio de represlias, a fora pblica meteu no tronco, sangrou e matou em requintes imprevistos de tortura filhos e parentes daquele rico fazendeiro. Tudo isso resultou de ordens expedidas pelo Desembargador Alves de Castro, presidente de Gois, por motivos de evidente politicagem. Que vo haver ali, onde se encontram os assassinos, e para onde acorrem vingadores das vtimas? Estamos em vsperas de uma conflagrao, que cumpre ao Governo Federal impedir. Urge a interveno, mas completa. preciso no s manter a ordem, como tambm fazer justia, punir o banditismo que criou to grave situao. Este encargo no pode caber aos criminosos, e aquele, s o governo da Unio tem fora e autoridade para o executar convenientemente.

    26 Do jornal O Imparcial, de 08.02.1919.

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    Pondo colao matria do jornal Lavoura e Comrcio, de Uberaba-MG, o jornal Goyas publicava em 08 de fevereiro de 1919 o seguinte:

    A politiquice desenfreada, ambiciosa, sem moralidade e sem princpios, no h negar, principal fator de progresso de Gois. Desde a proclamao de Repblica, o visinho Estado de alm-Paranaba empacou na sua marcha para o futuro, tornando-se uma estrela apagada da Federao. Sua histria em tudo se parece com a de Pedro Cem, que teve galera, que teve fragatas, que teve e no tem. Hoje, a sua existncia toda hipottica e a gente tem necessidade de recorrer carta geogrfica do pas sempre que ouve falar nas coisas goianas. No entanto, pela riqueza natural de seu solo, pela inteligncias viva de seus filhos, Gois poderia ser um dos Estados mais prsperos da Unio se, por l, a politicagem no campasse vergonhosamente, oferecendo aos olhos da nao esse triste espetculo, essa chaga calorosa e constritadora que os destinos e interesses de quatrocentos mil habitantes estorcendo-se nas mos de meia dzia de indivduos irresponsveis e medocres, que, como os tentculos de um polvo, no trepidam em cometer as maiores arbitrariedades, , desde que o faa no interesse criminoso de garantir a sua oligarquia e de satisfazer aos seus desejos torpes de vingana. Os ltimos acontecimentos desenrolados em S. Jos do Duro, em que caiu vtima do dio dos governantes o Cel. Joaquim Wolney, assassinato traioeiramente por ordem do Juiz de Direito Dr. Celso Calmon, do uma idia exata do que tem sido em Gois a arbitrria administrao Caiado-Castro-Jardim27, a trindade aambarcadora do poder, trs inimigos da ordem, do progresso e da paz, a trilogia temida pelos que no lhe rendem vassalagem. Os goianos precisam reagir contra essa situao humilhante para os seus brios. Que eles no mais se iludam com a apregoada administrao Alves de Castro, que, a estas horas, na confortabilidade da terra carioca, deve estar rindo da ingenuidade de seus patrcios.28

    27 A trilogia diz respeito a Tot Caiado e aos cunhados Joo Alves de Castro(ento Presidente do Estado) e Eugnio Jardim, este, chefe supremo do Partido Democrata em Gois. 28 Fonte: Jornal Goyas, Ano XXXIV, N. 1565, p. 2 8/2/1919. Acervo da Biblioteca L.A.R. da Prof. Nancy Ribeiro de Arajo e Silva.

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    Em 13 de fevereiro de 1919 o jornal Lavoura e Comrcio, de Uberaba-MG, publicava:

    O BANDITISMO DE GOIS

    A situao de terror em que se encontra o norte de Gois, criada pela inconscincia de um presidente vingativo e atrabilirio, no est ainda normalizada, esperando-se de um momento para outro que se dem graves acontecimentos naquela infeliz regio do solo goiano. Telegramas da Bahia para o Rio anunciam, narra o Correio da Manh, que uma poderosa famlia baiana, a frente de um grande nmero de jagunos, marcha em direo Vila do Duro, a fim de vingar o brbaro massacre da famlia do Coronel Wolney, o qual, contrrio ao que afirmou o apodrecido situacionismo goiano, no resistiu priso, mas foi, fria e covardemente, assassinado pela polcia do Dr. Celso Calmon, o bandido togado que serviu de instrumento aos instintos sanguinrios do Sr. Alves de Castro. Ainda bem que o Governo Federal, tomando em considerao a gravidade do momento naquela longnqua localidade de Gois, resolveu agir energicamente por meio de interveno. Esta, porm, como diz o Correio da Manh, s no basta. A ao do Governo Federal deve estender-se at a punio dos culpados. A brutalidade injustificvel do fuzilamento e degolamento das pessoas inocentes e indefesas, velhos, mulheres e crianas, requer que se faa justia completa. Aos goianos, que tm amor a sua terra e as suas famlias e prezam seus compatriotas, cumpre repelir a enormidade da afronta que se lhes atirou o governo de Gois. preciso uma reao enrgica e coletiva contra os assassinos que se assentam no poder e, em nome da lei massacram e saqueiam. uma prova de civismo. Desejamos t-la.

    No terminaram a as notcias sobre a Chacina do Duro. No dia 14 de fevereiro de 1919, a Gazeta de Notcias do Rio (1 pgina, coluna cinco), dizia:

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