O hábito alimentar enquanto um comportamento culturalmente ...books. · PDF filee...

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SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros FREITAS, MCS., FONTES, GAV., and OLIVEIRA, N., orgs. Escritas e narrativas sobre alimentao e cultura [online]. Salvador: EDUFBA, 2008. 422 p. ISBN 978-85-232-0543-0. Available from SciELO Books .

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Todo o contedo deste captulo, exceto quando houver ressalva, publicado sob a licena Creative Commons Atribuio - Uso No Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 No adaptada.

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O hbito alimentar enquanto um comportamento culturalmente produzido

Sandra Simone Morais Pacheco

O hbito alimentar enquanto umcomportamento culturalmente produzido

Sandra Simone Morais Pacheco

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Introduo

A discusso entre o estreito elo que une alimentao e culturabusca integrar-se concepo corrente da cincia nutricional biomdica,onde a alimentao parece reduzir-se ao nvel biolgico, elementos dascincias sociais que ampliem a compreenso do papel polivalente doalimento na vida cotidiana das pessoas, das famlias e da sociedade. Almde nutriente, o alimento prazer sensorial, ritual, linguagem simblico-religiosa, veicula significados.

Na discusso que procuraremos empreender neste artigo, oshbitos alimentares so aes individuais, construdas e reproduzidassocialmente, portanto, historicamente produzidas, ecologicamentepossveis, socialmente desejadas e aprovadas e biologicamente necessrias.(MURRIETA, 2001).

Neste sentido, as preferncias e as variadas prticas associadas produo e ao consumo dos alimentos vo alm da escolha do indivduoe extrapolam sua subjetividade individual. Para Luce Giard,

O alimento escolhido, permitido e preferido o lugar do empilha-mento silencioso de toda uma estratificao de ordens e contra-ordensque dependem de uma etno-histria, de uma biologia, de umaclimatologia e de uma economia regional, de uma inveno culturale de uma experincia pessoal. (GIARD, 2005, p. 251- 252)

O ato alimentar, tomado em sentido restrito, um comportamentobiolgico-nutricional, j que o ser humano necessita de uma alimentaoque contenha os nutrientes necessrios manuteno dos seus processosvitais. Indo-se um pouco mais alm, pode-se dizer que ele , tambm, umprocesso adaptativo, empregado pelos seres humanos em funo de suascondies particulares de existncia, que variam no tempo e no espao.Distintamente das outras necessidades bsicas, como inalar oxignio,necessidade de excretar, necessidade de manter a acidez sangunea etc.,a necessidade de alimentar-se exige que saiamos para o mundo elocalizemos o alimento, e para isso ela requer comportamento (ROZIN,1998).

Cada indivduo tem uma trajetria alimentar que comea com umalimento, o leite, e se expande para um nmero muito grande de alimentose preparaes, atitudes e rituais relacionados alimentao. Os requeri-

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mentos nutricionais so pequenos em relao variedade de alimentosque podem satisfaz-los. Podemos dizer que a alimentao evolui de umafonte de nutrio e prazer sensorial para um marcador social, umaexperincia esttica, uma fonte de significao e metfora, e freqente-mente, uma entidade moral (ROZIN, 1998).

A alimentao , certamente, um tema complexo e que guardamuitos desafios, j que um objeto com mltiplos acessos. [...] O homembiolgico e o homem social, a fisiologia e o imaginrio, esto estreita emisteriosamente mesclados no ato alimentar (FISCHLER, 1995, p.14-15). Entretanto, a partir das contribuies de variadas cincias para oestudo da relao entre o homem e o alimento, notadamente aantropologia, podemos dizer que se conhecendo o modo de obtenodos alimentos, quando e por quem eles so preparados, podemos obteruma quantidade considervel de informaes sobre o funcionamento deuma sociedade (CONTRERAS, 1993). Para os seres humanos, alimentar-se nunca uma atividade puramente biolgica, vez que, ela tem relaocom o passado, com as diversas tcnicas empregadas para encontrar,processar, preparar, servir e consumir os alimentos, atividades essas,que variam culturalmente e tm histrias prprias, condicionadas pelosignificado que a coletividade lhes atribui (MINTZ, 1996).

Considerando os hbitos alimentares como um repertrio deprticas alimentares que tendem a se repetir ao longo do tempo, e quetm geralmente sua base formada na infncia, as questes que se colocampara discusso so: Como se adquirem estes hbitos? Quais os elementosque contribuem para a sua formao? Como se sustentam ao longo dotempo? Como so definidos, em cada grupo social os alimentoscomestveis e no comestveis? Enfim, porque comemos o que comemos?

A palavra hbito vem do latim habitus e significa uma disposioconstante ou relativamente constante para ser ou agir de certo modo(ABBAGNANO, 1999, p. 495).

Pode-se confundir hbito com costume, por isso importantedistinguir os diferentes sentidos desta palavra. Como costume o hbitoaponta para uma [...] ao originalmente espontnea ou livre que depoisse fixa com o exerccio, de tal forma que pode ser repetida sem ainterveno do raciocnio e da conscincia, portanto mecanicamente(ABBAGNANO, 1999, p. 495). Entretanto mais que resultado de uma

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sedimentao, o hbito tambm disposio para ao, e como diz Dewey,citado por Abbagnano (1999), hbito :

A espcie de atividade humana que influenciada pela atividadeprecedente e, neste sentido, adquirida; que contm em si certaordem ou certa sistematizao dos menores elementos da ao; que projetante, dinmica em qualidade, pronta para a manifestaoaberta; e que atuante em qualquer forma subordinada e oculta,mesmo quando no atividade obviamente dominante (DEWEYapud ABBAGNANO, 1999, p. 496).

Assim, ao falarmos de hbito alimentar estamos falando no deuma ao mecnica ou automatizada, mas sim uma atitude significativa,contextualizada e fruto de uma disposio adquirida.

Debruo-me sobre o tema porque considero que o objeto de estudoe de trabalho do que podemos chamar de cincia da Nutrio, ao enfocarprioritariamente os aspectos nutricionais-sanitrios dos alimentos e osprocessos metablicos corporais nos nveis fisiolgico e patolgico, reduza compreenso sobre o papel que a alimentao exerce na satisfao dedeterminadas necessidades da sociedade.

Em funo disso, procuro inicialmente identificar a abordagemencontrada na rea de nutrio em relao formao de hbitos alimentares,para em um segundo momento caminhar no sentido de construir umaconcepo de hbito que abarque elementos no contemplados no modelobiomdico.

Entre os profissionais e estudantes de nutrio, as dimenses scio-culturais no so ignoradas na discusso sobre hbito alimentar. Ostrabalhos nesta rea enfocam temas que abrangem o processo de formaoe modificao dos hbitos via veculos socializadores como a famlia, asdeterminaes scio-econmicas geradas pela desigualdade no acesso epossibilidade de consumo dos alimentos e as barreiras impostas pelatradio na modificao de hbitos arraigados.

Os estudos nessa rea comungam da idia de que os hbitosalimentares se adquirem na infncia (BOEHMER, 1994; BOOG, 1985).Pode-se falar que h uma autntica pedagogia do gosto no contextofamiliar, fazendo com que a criana, desde o seu nascimento, passe areceber os alimentos considerados adequados sua idade, ainda queestes alimentos variem segundo as diferentes culturas e classes sociais. A

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criana cresce em um ambiente familiar que tem um comportamentoalimentar definido, que se repete dia aps dia e ao qual ela se adapta.Este processo no se reduz simples repetio de determinadasexperincias gustativas, pois o papel que os outros membros da famliaexercem, ao elogiarem ou censurarem alguns alimentos e preparaes,contribui para a aquisio de hbitos (BOEHMER, 1994).

Ao sair do convvio basicamente familiar e penetrar no contextoescolar, o indivduo experimentar outros alimentos e preparaes e teroportunidade de promover alteraes nos seus hbitos alimentares apartir das influncias do grupo social e dos estmulos presentes no sistemaeducacional. A famlia e a escola so preponderantes na formulao deum padro alimentar.

Na adolescncia, perodo caracterizado por atitudes de rebeldiae tentativa de independncia, geralmente h uma modificao dos hbitosalimentares a partir das experincias vivenciadas fora do mbito familiare escolar, tomando o alimento novos significados, geralmente relacionado formao de uma identidade grupal, to cara aos adolescentes do mundoglobalizado.

No transcurso de sua vida, o indivduo ter novas ocasies paramudar seus hbitos alimentares, como por exemplo, mudana profissional,situao familiar, disponibilidade de tempo para preparar e ingerir osalimentos, deficincias orgnicas ou enfermidades crnicas que aparecemna velhice (BOEHMER, 1994).

Tambm entre os estudiosos da Nutrio, principalmente a partirdo final da dcada de 70, encontra-se uma preocupao em abordar asdiferenas nos padres alimentares das classes sociais como historicamentedeterminadas, dentro das condies postas pela estrutura social para asdiferentes classes que a compem (VALENTE, 1986).

Nesta abordagem, os fatores essenciais na determinao doshbitos alimentares so: a disponibilidade objetiva de certos produtosalimentares em condies especficas de clima