“O Horror de Dunwich” – H · PDF filetemporada de horror, todas as placas...

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    O Horror de Dunwich H.P. Lovecraft

    Traduo: Lara DOnofrio Longo

    Quem Lara DOnofrio Longo? Lara DOnofrio Longo natural de So Jos do Rio Preto-SP, bacharel em Letras com Habilitao de Tradutor pela Universidade Estadual Paulista. Esta presente traduo foi aqui reproduzida com autorizao e faz parte originalmente de The Dunwich horror, de H. P. Lovecraft: Literatura e Traduo. So Jos do Rio Preto, 1999. 207p. Dissertao (Mestrado em Letras) Instituto de Biocincias, Letras e Cincias Exatas, Cmpus de So Jos do Rio Preto, UNESP. Atualmente Lara atua como Tradutora Pblica e Intrprete Comercial do Idioma Espanhol e mantem seu site na internet www.tradutora.org. Contatos: [email protected]

    O HORROR DE DUNWICH

    Grgonas, Hidras e Quimeras horrendas histrias de Celain e das Hrpias podem-se reproduzir no mago das supersties mas j estavam l antes. So transcries, tipos os arqutipos esto dentro de ns, eternos. Do contrrio, como poderia afetar-nos a narrao daquilo que sabemos ser falso quando lcidos? Ser que naturalmente concebemos o terror a partir de tais objetos, considerados em sua capacidade de nos causar danos fsicos? Ora, no se trata disso! Esses terrores so de tempos mais antigos. Datam do alm-corpo ou, sem o corpo, teriam sido os mesmos... Que o tipo de medo aqui tratado puramente espiritual que forte em proporo a sua falta de objetivo na Terra, que predomina no perodo de nossa infncia inocente so dificuldades cuja soluo pode proporcionar alguma provvel introviso de nossa condio ante-mundana e, pelo menos, um vislumbre da zona de sombras da pr-existncia.

    CHARLES LAMB: Witches and other night-fears (Bruxas e outros temores-noturnos)

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    UANDO ALGUM QUE viaja pelo centro-norte de Massachussets pega o caminho errado no cruzamento da rodovia de Aylesbury logo aps passar por Deans Corners, depara-se com uma

    regio isolada e curiosa. O relevo torna-se mais montanhoso e os paredes de pedras cobertos por roseiras-bravas estreitam cada vez mais a estrada sinuosa e poeirenta. As rvores das numerosas matas parecem grandes demais, e as ervas daninhas, as amoreiras silvestres e o capim atingem uma exuberncia raramente encontrada em regies povoadas. Ao mesmo tempo, h poucos e improdutivos campos cultivados e somente algumas casas esparsas, que se revestem de um surpreendente aspecto uniforme de antigidade, imundcie e runa. Sem saber por que, hesitamos em pedir informaes s enrugadas e solitrias figuras entrevistas, uma vez ou outra, nas soleiras das portas caindo aos pedaos ou nas campinas em declive cobertas de pedras. Essas figuras so to silenciosas e furtivas que temos uma certa sensao de estarmos confrontando-nos com coisas proibidas, com as quais seria melhor no termos a menor ligao. Quando um aclive na estrada traz vista as montanhas por sobre a mata densa, aumenta a sensao de estranha inquietude. Os cumes so arredondados e simtricos demais para suscitar conforto e naturalidade, e, s vezes, o cu delineia com especial clareza os bizarros crculos de altos pilares de pedra com os quais a maioria deles coroada.

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    Desfiladeiros e ravinas de uma profundidade extraordinria interceptam o caminho, e as grosseiras pontes de madeira no inspiram muita segurana. Na prxima descida da estrada, h trechos pantanosos que, instintivamente, causam repulsa e at certo medo quando, ao entardecer, chilram curiangos escondidos e os vaga-lumes surgem numa profuso anormal para danar ao ritmo insistente do coaxo roufenho, horripilante e estridente das rs-touros-gigantes. O curso estreito e brilhante das reas mais altas do rio Miskatonic sugere uma estranha semelhana com uma serpente ao enredar-se prximo s bases das colinas arredondadas entre as quais nasce.

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    Conforme as colinas vo ficando mais prximas, prestamos mais ateno s suas encostas arborizadas que aos topos coroados de pedras. Essas encostas assomam-se to obscuras e ngremes que desejaramos que se mantivessem afastadas, mas no h outra estrada por onde possamos evit-las. Do outro lado de uma ponte coberta, vemos um pequeno povoado comprimido entre o riacho e a ladeira vertical da Montanha Redonda e imaginamos que o conjunto de apodrecidos telhados holandesa revelam um perodo arquitetnico mais antigo que o da regio vizinha. No nada animador, observando mais atentamente, que a maioria das casas esto abandonadas e caindo aos pedaos e que a igreja, com o campanrio quebrado, abriga agora o nico e desmazelado estabelecimento comercial da aldeia. Apavoramo-nos ao ter que passar pelo tenebroso tnel da ponte, contudo no h como evit-lo. Uma vez transposto, no raro sentirmos um leve e maligno odor na rua do povoado, que acumula o mofo e a decadncia de sculos. sempre um alvio sair desse lugar e seguir pela estrada estreita que circunda a base das colinas e cruza a plancie at se unir novamente rodovia de Aylesbury. Depois de algum tempo, s vezes nos damos conta de que passamos por Dunwich.

    Pessoas de fora visitam Dunwich com muito pouca freqncia, e, desde uma certa temporada de horror, todas as placas que indicavam sua direo foram retiradas. O cenrio, julgado por qualquer cnon esttico comum, excede em beleza, e, no entanto, no h afluncia de artistas nem de turistas de vero. H dois sculos, quando ningum ria ao se falar de bruxaria, adorao de Satans e presenas estranhas nas florestas, era de costume explicar a razo de se estar evitando a localidade. Em nossa era racional desde que o horror de Dunwich de 1928 foi silenciado por aqueles que se sensibilizaram pelo bem-estar da cidade e do mundo as pessoas afastam-se dela sem saber exatamente por qu. Talvez isso se deva ao fato embora no possa ser aplicado a estranhos desavisados de que os habitantes locais estejam agora numa fase de decadncia repugnante e muito superior aquele nvel de atraso to comum nos confins da Nova Inglaterra. Eles acabaram por formar uma raa prpria, com caractersticas mentais e fsicas bem definidas de degenerao e endogamia. Sua inteligncia mdia lamentavelmente baixa, ao mesmo tempo que seus anais exalam a podrido de uma imoralidade patente e de assassinatos, incestos e atos de quase inominvel violncia e perversidade mais ou menos encobertos. A velha aristocracia, representada pelas duas ou trs famlias nobres que vieram de Salem em 1692, mantiveram-se um pouco acima do nvel geral de decadncia; embora muitos ramos misturaram-se to profundamente massa srdida que somente seus nomes permanecem como um indicativo da origem que desonram. Alguns dos Whateley e Bishop ainda mandam seus filhos mais velhos para Harvard e Miskatonic, embora estes raramente retornem aos arruinados telhados holandesa sob os quais eles e seus ancestrais nasceram.

    Ningum, nem mesmo aqueles que conhecem os fatos relacionados ao recente horror, podem dizer com clareza o que h de errado com Dunwich, embora velhas lendas falem de ritos profanos e conclaves de ndios, nos quais eram invocadas formas proibidas de sombra que saam das grandes colinas arredondadas, e eram feitas preces orgisticas respondidas por altas crepitaes e estrondos provenientes do solo abaixo. Em 1747, o Reverendo Abijah Hoadley, recm-chegado Igreja Congregacional do Povoado de Dunwich, pregou um sermo memorvel sobre a presena prxima de Satans e seus diabretes, no qual disse:

    No se pode negar que essas Blasfmias de um infernal Cortejo de Demnios so assuntos de

    Conhecimento muito comum para serem negadas; as vozes amaldioadas de Azazel e Buzrael, de Belzebu e Belial que provem do subsolo, foram ouvidas por mais de Vinte Testemunhas confiveis e que ainda esto vivas. Eu mesmo, menos de Duas Semanas atrs, ouvi um Discurso muito claro de Foras malignas na Colina atrs da minha casa; onde havia uma Algazarra e Agitao, uns Gemidos, Berros e Silvos, que nenhuma Coisa desta Terra poderia provocar e que, com certeza, vinham daquelas Cavernas, que somente a Magia Negra pode descobrir e somente o Diabo revelar.

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    O Sr. Hoadley desapareceu logo aps proferir esse sermo, mas o texto, impresso em

    Springfield, ainda existe. Rudos nas colinas continuaram a ser relatados ano a ano e ainda formam um quebra-cabeas para gelogos e fisigrafos.

    Outras tradies falam de ftidos odores perto dos crculos de pilares de pedras que coroam as colinas e de presenas etreas impetuosas, que so ouvidas debilmente a certas horas e em pontos fixos na base das grandes ravinas, enquanto ainda outras tentam explicar o Campo do Demo uma encosta rida e amaldioada onde no cresce nenhuma rvore, arbusto ou capim. Alm disso, os habitantes locais tm um medo mortal dos numerosos curiangos que cantam mais alto nas noites quentes. Juram que os pssaros so psicopompos espera das almas dos moribundos e que emitem seus gritos sinistros em unssono com a respirao ofegante do sofredor. Se conseguem agarrar a alma fugitiva quando deixa o corpo, eles rapidamente se alvoroam chilreando numa risada demonaca, mas, se falham, caem pouco a pouco num silncio desapontado.

    claro que essas histrias so obsoletas e ridculas, pois so transmitidas desde tempos muito antigos. Dunwich , de fato, um povoado absurdamente velho bem mais velho do que qualquer uma das comunidades num raio de 50 quilmetros. Ao sul, podemos avistar as paredes do poro e a chamin da antiga casa dos Bishop, que foi construda antes de 1700, ao passo que as runas do moinho da cachoeira, construdo em 1806, constituem-se na pea arquitetnica mais moderna visvel. A indstria no floreceu em Dunwich, e o movimento