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O Manifesto Comunista e a dialtica da globalizao

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AS TRANSFORMAES DO CAPITALISMO: ELEMENTOS TERICOS PARA A COMPOSIO DE UMA DIALTICA DA GLOBALIZAO

Paulo Balanco

RESUMO

Neste trabalho estuda-se teoricamente a problemtica da globalizao centrada em uma determinada perspectiva metodolgica, aqui chamada de dialtica da globalizao. A referncia terica para a elaborao da discusso proposta a obra de Marx, destacando-se, neste sentido, ainda em face de uma certa opo metodolgica, O Manifesto Comunista e O Capital. Assim, vinculando a noo de globalizao s transformaes operadas no seio do capitalismo, tanto a utilizao da dicotomia economia capitalista/sociedades precedentes, assim como a apreenso das leis de movimento e reproduo do capital, permitem o estabelecimento de parmetros preliminares de conceituao da globalizao. Ao mesmo tempo, procura-se, embrionariamente, empreender uma interpretao do capitalismo contemporneo.

1 Introduo

A chamada globalizao dos mercados apresentada teoricamente pelo pensamento burgus como uma evidncia correspondente a fenmenos profcuos e completamente inditos que a humanidade estaria a conhecer. Revelando uma matriz doutrinria de contedo positivista, este ponto de vista afiana tratar-se de um fundamento inelutvel, equivalente a um determinado sentido do desenvolvimento humano, ao qual nenhum pas ou sociedade deveria se opor. Assim, a integrao econmica dos tempos atuais nada mais seria que a recuperao do espao para a atuao plena de manifestaes que expressam verdadeiras leis naturais.

Seguindo uma linha oposta, o propsito deste artigo o de, com base em Marx, empreender uma discusso introdutria direcionada para o discernimento da noo de globalizao; procura-se com isso contribuir para o debate sugerindo elementos para que sua conceituao encontre amparo terico de acordo com uma determinada perspectiva. Perseguindo este objetivo, e considerando o grau de complexidade que cerca esta problemtica, metodologicamente, aloca-se o objeto aqui destacado em uma dialtica da globalizao. Ento, aceitando-se a tese que associa a globalizao s transformaes do capitalismo, procurar-se- localizar, acredita-se, os primeiros parmetros dessa dialtica. Coerente com isso, aceita-se determinada adaptao do conceito de globalizao visando equipar-lo a uma categoria de anlise do capitalismo em padres minimamente aceitveis.

Outro procedimento metodolgico aqui adotado resulta na escolha de uma determinada linha condutora da anlise. Parte-se, ento, da formulao inicial do objeto contida no Manifesto Comunista, e continua-se conjugando-a aos aprofundamentos elaborados por Marx em termos da reproduo do capital, questo que remete obrigatoriamente s leis de movimento desenvolvidas em O Capital. Por fim, de posse de um mecanismo explicativo da globalizao procurar-se- entender, preliminarmente, as transformaes pelas quais passou o capitalismo, principalmente no sculo XX, visando destacar as mudanas ocorridas recentemente.

Assim, alm desta introduo, discute-se na segunda seo deste artigo o conceito de dialtica da globalizao. Tendo em vista este arcabouo terico, o propsito da terceira seo est centrado na tentativa de interpretao do estado atual da globalizao, para o que estuda-se a evoluo precedente do capitalismo. E, por ltimo, na quarta seo, procura-se alinhavar algumas idias a ttulo de concluso.

2 A dialtica da globalizao: mercado mundial, leis de movimento do capital e desigualdade

A aplicao particular das categorias do materialismo histrico ao estudo da sociedade capitalista nas pginas do Manifesto Comunista fez deste um documento precursor. Ele antecipa as descobertas que seriam desenvolvidas a posteriori por meio do aprofundamento da investigao da economia capitalista, sobretudo no que concerne s suas leis econmicas de funcionamento e reproduo. Por essa razo, considerando que a interpretao marxista do capitalismo, como um resultado, foi tecida enquanto um processo cumulativo, seria coerente deduzir que sua formao exigiu um penoso e sofisticado trabalho intelectual que atravessaria algumas dcadas. Presume-se, ento, tomando-se o Manifesto como ponto de partida, que as diversas obras de Marx e Engels que se seguiram, como trabalhos em co-autoria ou individuais, perfazem uma unidade terica de identificao e caracterizao do capitalismo relativamente ao movimento histrico. Destaca-se, neste sentido, O Capital, a obra fundamental de Marx.

guisa de sntese, portanto, no seria incorreto afirmar que o materialismo histrico pode ser empregado em dois planos abstratos no sentido do estudo e desvendamento do capitalismo. Por um lado, apresenta-se como teoria til para o entendimento do longo processo que desaguou na sociedade burguesa. De outro lado, com base em seus desdobramentos econmicos particularizados para o mundo burgus, orienta-nos para a apreenso do mecanismo reprodutivo desse modo de produo em s mesmo, revelando sua prpria endogeneidade.

2.1 Materialismo histrico, mercado mundial e globalizao

Como que confirmando seus prognsticos tantas vezes contestados, em meio a inslitas turbulncias globalizadas, comemorou-se em 1998 o 150o aniversrio da primeira edio do Manifesto Comunista. Escrito por Marx e Engels tornar-se-ia, entre vrios motivos, uma das mais importantes obras de referncia para aqueles que procuram um mtodo de interpretao do capitalismo. Esta extraordinria inovao histrica sob a qual passariam a viver os seres humanos, j em seu incio aparecia revestida de um grau de complexidade jamais presenciada pela humanidade em suas sociedades pretritas.

Isto posto, pode-se procurar entender a globalizao enquadrando-a dentro de um primeiro procedimento metodolgico, qual seja, aquele cujos contornos destaca o capitalismo como o resultado de um longo processo histrico de mudana. Sobressai nesta orientao o interesse principal em analisar seus resultados vis-a-vis a(s) sociedade(s) precedente(s). Acredita-se, ento, que o Manifesto apresenta-se de forma relevante como guia na operacionalizao desta linha metodolgica.

De sorte que, mesmo que se reconhea no Manifesto um texto precrio enquanto documento analtico, pois seus autores objetivavam, em termos prticos, principalmente, veicular pontos programticos estimuladores da organizao poltica operria, impossvel deixar de apontar nesta obra um mrito decisivo: ela continha predies dando conta que o capitalismo abarcaria toda a humanidade em seu desenvolvimento. Quer dizer, em vez de sociedades particulares distintas e espacialmente restritas, conformando uma certa atomizao, a humanidade estava destinada a conhecer a universalizao de relaes de produo especficas e historicamente determinadas.

H no Manifesto Comunista a incisiva constatao do capitalismo como portador de uma dialtica da globalizao, podendo-se da vincul-la a um locus necessrio vigncia de seu mecanismo reprodutivo, definindo assim uma tendncia endgena do capital mundializao. Esta questo to candente nos dias de hoje foi apresentada de maneira afirmativa pela primeira vez nesta obra de importncia decisiva; esta concluso suficientemente segura para se extrair dela a tese que identifica a globalizao a um fenmeno presente no capitalismo desde seus primrdios.

Nas primeiras linhas do Manifesto, depois de introduzirem o princpio histrico expresso pela regra geral segundo a qual as sociedades humanas so organizaes estruturadas, no plano poltico-social, em classes distintas e oponentes, Marx e Engels tratam de descrever o movimento passado, presente e futuro da sociedade burguesa. Consoante com os propsitos deste estudo, faz-se necessrio assinalar que as linhas a seguir citadas expressam uma chave decisiva para o desvendamento de uma primeira noo de desenvolvimento do capitalismo, particularidade que distinguiria notavelmente este modo de produo das sociedades precedentes. identificado o fundamento distintivo da globalizao, caracterstica econmica orgnica desta sociedade, a qual deve ser entendida como uma lei, e, portanto, apresentada pioneiramente no Manifesto em 1848:

A forma tradicional, feudal ou corporativa, de funcionamento da indstria no permitia atender s necessidades crescentes, decorrentes do surgimento de novos mercados. Em seu lugar aparece a manufatura. (...).

No entanto, os mercados continuaram crescendo e as necessidades aumentando. (...) No lugar da manufatura surgiu a grande indstria moderna. (...).

A grande indstria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da Amrica. O mercado mundial promoveu um desenvolvimento incomensurvel do comrcio, da navegao e das comunicaes. Esse desenvolvimento, por sua vez, voltou a impulsionar a expanso da indstria. E na mesma medida em que a indstria, comrcio, navegao e estradas de ferro se expandiam, desenvolvia-se a burguesia, os capitais se multiplicavam e, com isso, todas as classes oriundas da Idade Mdia passavam a um segundo plano. (...).

A burguesia no pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produo, portanto as relaes de produo, e por conseguinte todas as relaes sociais. (...).

A necessidade de mercados sempre crescentes para seus produtos impele a burguesia a conquistar todo o globo terrestre. Ela precisa estabelecer-se, explorar e criar vnculos em todos os lugares.

Pela explorao do mercado mundial, a burguesia imprime um carter cosmopolita produo e ao consumo em todos os pases. (...) As indstrias nacionais tradicionais foram, e ainda so, a cada dia destrudas. So substitudas por novas indstrias, cuja introduo se tornou essencial para todas as naes civilizadas. Essas indstrias no utilizam mais matrias-primas locais, mas matrias primas provenientes das regies mais distantes, e seus produtos no se destinam apenas ao mercado nacional, mas tambm a todos os cantos da terra. (...).

Nestas passagens evidencia-se intrinsica