O peregrino

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O Peregrino John Bunyan Um dos autores mais influentes do Século 17, John Bunyan (1628 - 1688) foi um fenômeno cultural singular cuja aparição na historia das idéias cristãs possui um caráter surpreendente se levarmos em conta quem Bunyan era e sua historia de vida, o contexto histórico em que vivia e o ambiente cultural e teológico ao qual pertencia. Apesar de todas estas forças adversas e contra qualquer expectativa, Bunyan produziu uma obra literária, não só de grande repercussão e influęncia no mundo protestante como também de reconhecido valor literário. Sua obra - prima, O Peregrino, só perde para a Bíblia em numero de exemplares vendidos e influęncia nos círculos cristãos mais conservadores. Todas as obras alegóricas de Bunyan, incluindo esta, já foram livros muitos populares nos países de língua inglesa, notadamente na Escócia e nos Estados Unidos. Os tempos mudaram, os gostos mudaram, as idéias mudaram, e os livros de Bunyan caíram no esquecimento. Vale a pena, entretanto, ler estas antigas alegorias não só pela sua beleza literária, reconhecida pelos críticos desde o movimento romântico, mas também pela natureza edificante das idéias aqui presentes. Bunyan emociona e motiva, provoca a reflexão e eleva o espírito humano é contemplação dos mistérios da fé cristã.

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  • O Peregrino John Bunyan Um dos autores mais influentes do Sculo 17, John Bunyan (1628 - 1688) foi um fenmeno cultural singular cuja apario na historia das idias crists possui um carter surpreendente se levarmos em conta quem Bunyan era e sua historia de vida, o contexto histrico em que vivia e o ambiente cultural e teolgico ao qual pertencia. Apesar de todas estas foras adversas e contra qualquer expectativa, Bunyan produziu uma obra literria, no s de grande repercusso e influncia no mundo protestante como tambm de reconhecido valor literrio. Sua obra - prima, O Peregrino, s perde para a Bblia em numero de exemplares vendidos e

    influncia nos crculos cristos mais conservadores. Todas as obras alegricas de Bunyan, incluindo esta, j foram livros muitos populares nos pases de lngua inglesa, notadamente na Esccia e nos Estados Unidos. Os tempos mudaram, os gostos mudaram, as idias mudaram, e os livros de Bunyan caram no esquecimento. Vale a pena, entretanto, ler estas antigas alegorias no s pela sua beleza literria, reconhecida pelos crticos desde o movimento romntico, mas tambm pela natureza edificante das idias aqui presentes. Bunyan emociona e motiva, provoca a reflexo e eleva o esprito humano contemplao dos mistrios da f crist.

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    Captulo 1 Comea o sonho do autor Cristo, convencido do pecado, foge ira vindoura e Evangelista o dirige a Cristo. Caminhando pelo deserto deste mundo, parei num stio onde havia uma caverna; ali deitei-me para descansar. Em breve adormeci e tive um sonho. Vi um homem coberto de andrajos, de p, e com as costas voltadas para a sua habitao, tendo sobre os ombros uma pesada carga e nas mos um livro (Isaas 64:6; Lucas 14:33; Salmo 38:4; Habacuque 2:2). Olhei para ele com ateno e vi que abria o livro e o lia; e, proporo que o ia lendo, chorava e estremecia, at que, no podendo conter-se por mais tempo, soltou um doloroso gemido e exclamou: Que hei de fazer? (Atos 2:37 e 16:30; Habacuque 1:2-3). Neste estado voltou para sua casa, diligenciando reprimir-se o mais possvel, a fim de que sua mulher e seus filhos no percebessem sua aflio. Como, porm, o seu mal recrudecesse, no pde por mais tempo dissimul-lo, e, abrindo-se com os seus, disse por esta forma: Querida esposa, filhos do corao, no posso resistir por mais tempo ao peso deste fardo que me esmaga. Sei com certeza que a cidade em que habitamos vai ser consumida pelo fogo do cu, e todos pereceremos em to horrvel catstrofe se no encontrarmos um meio de escapar. O meu temor aumenta com a idia de que no encontre esse meio. Ao ouvir estas palavras, grande foi o susto que se apoderou daquela famlia, no porque julgasse que o vaticnio viesse a realizar-se, mas por se persuadir de que o seu chefe no tinha em pleno vigor as suas faculdades mentais. E, como a noite se avizinhava, fizeram todos com que ele fosse para a cama, na esperana de que o sono e o repouso lhe sossegariam o crebro. As plpebras, no entanto, no se lhe cerraram durante toda a noite, que passou em lgrimas e suspiros. Pela manh, quando lhe perguntaram se estava melhor, respondeu negativamente, e que a molstia cada vez mais o afligia. Continuou a lastimar-se, e a famlia, em lugar de se compadecer de tanto sofrimento, tratava-o com aspereza. Esperava, sem dvida, alcanar por este modo o que a doura no pudera conseguir at ali: algumas vezes zombavam dele; outras repreendiam-no;e quase sempre o desprezavam. S lhe restava o recurso de se fechar no seu quarto para orar e chorar a sua desgraa, ou o de sair para o campo, procurando na orao e na leitura lenitivo a to indescritvel dor.

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    Certo dia, em que ele andava passeando pelos campos, notei que se achava muito abatido de esprito, lendo, como de costume, e ouvindo-o exclamar novamente: Que hei de fazer para ser salvo? O seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para fugir; mas, no o encontrando de pronto, permanecia imvel, sem saber para onde se dirigir. Vi, ento, aproximar-se dele um homem chamado Evangelista (Atos 16:30-31; J 33:23) que lhe dirigiu a palavra, travando-se entre ambos o seguinte dilogo: Evangelista Por que choras? Cristo (Assim se chamava ele). Porque este livro me diz que eu estou condenado morte, e que depois de morrer, serei julgado (Hebreus 9:27), e eu no quero morrer (J 16:21-22), nem estou preparado para comparecer em juzo! (Ezeq. 22:14). Evangelista E por que no queres morrer, se a tua vida cheia de tantos males? Cristo Porque temo que este pesado fardo que tenho sobre os ombros, me faa enterrar ainda mais do que o sepulcro, e eu venha a cair em Tofete (Isaas 30:33). E, se no estou disposto a ir para este tremendo crcere, muito menos para comparecer em juzo ou para esse suplcio. Eis a razo do meu pranto. Evangelista Ento, por que esperas, agora que chegaste a esse estado? Cristo Nem sei para onde me dirigir. Evangelista Toma e l. (E apresentou-lhe um pergaminho no qual estavam escritas estas palavras: Fugi da ira vindoura). (Mateus 3:7). Cristo (Depois de ter lido). E para onde hei de fugir? Evangelista (Indicando-lhe um campo muito vasto). Vs aquela porta estreita? (Mateus 7:13-14). Cristo No vejo. Evangelista No avistas alm brilhar uma luz? (Salmo 119:105; II Pedro 1:19). Cristo Parece-me avist-la. Evangelista Pois no a percas de vista; vai direito a ela, e encontrars uma porta; bate, e l te diro o que hs de fazer.

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    Captulo 2 Vendo-se abandonado por Obstinado e Flexvel, prossegue Cristo a sua viagem. O Pntano da Desconfiana. Cristo deitou a correr na direo que lhe havia sido indicada; mas a mulher e os filhos, ao verem-no fugir, seguiram atrs dele, suplicando que voltasse para casa. Cristo no lhes deu ouvidos, e, continuando a carreira com mais velocidade, gritava em altas vozes: Vida, vida, vida eterna! (Lucas 14:26). E, sem olhar para trs (Gn. 19:17; II Corntios 4:18), continuou at ao meio da plancie. Acudiram tambm os seus vizinhos (Jeremias 20:10). Uns zombavam dele, outros ameaavam-no, e outros ainda gritavam-lhe que voltasse. Entre estes ltimos havia dois que estavam resolvidos a ir agarr-lo e traz-lo fora para casa. Chamavam-se Obstinado e Flexvel. Apesar da considervel distncia a que se achava o fugitivo, os dois vizinhos, redobrando esforos, conseguiram alcan-lo. Que pretendeis de mim? Perguntou-lhes Cristo. Queremos que voltes conosco. impossvel, respondeu Cristo. A cidade em que habitais, e onde eu tambm nasci, a cidade da Destruio. Se l morrerdes, sereis enterrados num lugar mais fundo do que o sepulcro, onde arde fogo e enxofre. Eia, pois, vizinhos, tomai bom nimo e vinde comigo. Obstinado Que dizes? Havemos de deixar os nossos amigos e as nossas comodidades? Cristo Certamente, amigo: porque tudo isso nada , em comparao com a mais diminuta parte do que eu procuro gozar (Romanos 8:18). Se me acompanhardes, gozareis de tudo isto juntamente comigo, porque no lugar para onde me dirijo h muito, e para todos (Lucas 15:17). Vinde, e tereis a prova. Obstinado Mas que coisas so essas que procuras, em troca das quais abandonas tudo o que h no mundo? Cristo Procuro uma herana incorruptvel, que no pode contaminar-se nem murchar (I Pedro 1:4), reservada com segurana no cu (Hebreus 11:16), para ser dada, no devido tempo, aos que a buscam diligentemente. Assim o declara o meu livro; lede, se quereis, e convencer-vos da verdade. Obstinado Ora, deixa-te l dessa questo de livro; queres voltar para a tua casa, ou no? Cristo Isso nunca; porque j pus a mo no arado. (Luc 9:62).

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    Obstinado Nesse caso, vizinho Flexvel, deixemo-lo partir, e vamos ns para casa. H muita gente a quem falta o juzo, em cuja cabea, encasquetando-se algo, bastante para que se julgue mais atilado do que os sete sbios da Grcia reunidos. Flexvel Nada de injrias. Se o que ele diz verdade, no pode haver dvida de que as coisas que busca alcanar so incomparavelmente superiores s que possumos. Diz-me o corao que ele est muitssimo certo no que afirma, e eu me sinto inclinado a acompanh-lo. Obstinado Ento, enlouqueceste tambm? Ora, toma o meu conselho, e vem para casa comigo. Sabes l onde esse doido seria capaz de te levar? Anda da. Cristo Deixa-o falar, amigo Flexvel; acompanha-me e ters no s a prova do que j te disse, mas ainda muito mais. Se duvidas da minha palavra, l este livro; daquele que seu Autor (Hebreus 9:17-21). Flexvel Amigo Obstinado, a minha resoluo est tomada; vou acompanhar este homem e unir a minha sorte sua. Mas sabes tu (dirigindo-se a Cristo) qual o caminho que conduz ao lugar que buscamos? Cristo Quem me indicou o caminho foi um homem chamado Evangelista. Segundo o que me disse ele, havemos de encontrar uma porta estreita, l, mais adiante, e a nos diro o caminho que havemos de seguir. Flexvel Ento, marchemos! E ambos se puseram a caminho. Obstinado voltou sozinho para a cidade, censurando os erros e as fantasias dos dois vizinhos. Estes continuaram a caminhar pela plancie afora e conversavam nestes termos: Cristo Amigo Flexvel, ainda no tive ocasio de me informar da tua sade. No imaginas quanta satisfao me causa a tua companhia. Se o pobre Obstinado sentisse, como eu, o poder e os terrores do invisvel, e a grandeza das coisas que nos esperam, por certo no se teria apartado de ns to levianamente. Flexvel Agora que estamos ss, explica-me o que so essas coisas de que me falas, como havemos de as gozar e para onde que nos dirigimos. Cristo Tenho mais facilidade em compreend-las com o entendimento do que em express-las por palavras. Todavia, se tens grande desejo de saber o que penso a respeito delas, ler-te-ei o meu livro. Flexvel E tens certeza de que as palavras do livro so verdadeiras?

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    Cristo Tenho sim; porque o seu Autor Aquele que no pode mentir (Tito 1:2). Flexvel Ento, l-mo. Cristo Entraremos na posse dum reino que no ter fim, e seremos dotados de vida eterna, para podermos possu-lo para sempre (Isaas 65:17; Joo 10:27-29). Ser-nos-o dadas coroas de glria, e vestidos to resplandecentes como o sol no firmamento (II Tim.4:8; Apocalipse 22:5; Mateus 13:43). No haver ali pranto nem dor (Isaas 25:8; Apocalipse 7:16-17, e 21:4), porque o Senhor daquele reino limpar todas as nossas lgrimas. Flexvel Quadro belo e magnfico! E a quem teremos por companheiros? Cristo Estaremos com os querubins e serafins (Isaas 6:2; I Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 5:11), criaturas cujo brilho nos deslumbrar; tambm encontraremos milhares e milhares que para ali foram antes de ns, todos inocentes, amveis e santos, que vivem na presena de Deus para sempre. Veremos os ancios com suas coroas de ouro (Apocalipse 4:4), as santas virgens entoando suaves cnticos ao som das suas harpas de ouro (Apocalipse 14:1-5), homens a quem o mundo esquartejou, outros que foram queimados em autos de f ou devorados pelas feras, ou lanados nas profundezas dos mares, por amor do prncipe daquele reino; vivendo todos felizes, revestidos da imortalidade (Joo 12:25; II Corntios 5:2, 3, 5). Flexvel A simples descrio arrebata-me de entusiasmo. E havemos de gozar esses bens? Que faremos para conseguir partilhar deles? Cristo O Senhor do reino declara neste livro (Isaas 55:1-2; Joo 4:37; e 7:37; Apocalipse 16:6; 22:17) quais so os requisitos; eles se resumem nestas palavras: Se verdadeiramente os desejamos, Ele no-los conceder de graa. Flexvel Muito bem, amigo. O meu corao exulta de alegria; continuemos o nosso caminho e apressemos o passo. Cristo Infelizmente no posso andar to depressa como desejo, porque este fardo que tenho s costas pesadssimo. Conversavam ambos nestes termos, quando os vi chegar beira dum lodoso pntano, que havia no meio da plancie, onde ambos caram por no o terem visto, entretidos como iam na conversa. Era o pntano da Desconfiana. Coitados! Atolaram-se no lodo, e Cristo atolava-se cada vez mais por causa do seu pesado fardo. Onde que ns estamos metidos? Exclamou Flexvel. Ignoro, respondeu Cristo.

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    Ento, replicou Flexvel, esta a felicidade de que tens estado a falar? Se assim comearmos a viagem, no posso agourar-lhe bom fim. Mas eu prometo que, se me vejo livre desta, dispensarei de bom grado a parte que poderia pertencer-me do tal decantado pas. E fazendo um pequeno esforo, conseguiu alcanar a margem do pntano que ficava para o lado de sua casa. Logo que se viu fora do perigo, deitou a correr na direo de sua casa, e Cristo no mais tornou a v-lo. Entretanto, debatia-se Cristo no meio do lodo, diligenciando por chegar margem oposta; mas o pesado fardo, que transportava, embaraava-o sobremaneira e ele teria irremediavelmente perecido, se no tivesse chegado ali, muito a propsito, um sujeito chamado Auxlio, que lhe perguntou o que fazia naquele lodaal. Cristo Senhor, um homem chamado Evangelista ensinou-me esta estrada para eu chegar porta estreita, dizendo que l me livrariam da ira vindoura. E, quando vinha caminhando, aqui ca inesperadamente. Auxlio Bem. Mas por que no seguiste pelas alpendras, aquelas pedras que ali esto colocadas para se atravessar o pntano com mais facilidade? Cristo Foi tal o receio que de mim se apoderou que, sem reparar em coisa alguma, segui pelo caminho mais curto e ca no lodaal. Auxlio Vamos. D-me, pois, a tua mo. Cristo viu os cus abertos. Apoderou-se da mo de Auxlio, saiu daquele terrvel lugar, e, uma vez em terreno firme, continuou o seu caminho, conforme o seu libertador lhe havia indicado. Acerquei-me, ento, de Auxlio, e perguntei-lhe: Ora, sendo este caminho direito entre a cidade da Destruio e essa porta, por que no mandam arranjar este lugar com mais decncia para comodidade dos pobres caminhantes? impossvel, respondeu ele; este o lodaal para onde afluem todas as fezes e imundcies dos que se dirigem para a convico do pecado, por isso se chama o Pntano da Desconfiana. Quando o pecador desperta no conhecimento das suas culpas e do seu estado de perdio, surgem em sua alma dvidas, temores, apreenses desconsoladoras que se ajuntam e se condensam neste lugar. Eis a razo por que ele to esquecido e to impossvel de ser melhorado. Por certo que no foi da vontade de el-rei que ele ficou em to mau estado (Isaas 35:3-4). Muitos operrios tm, por ordem de Sua Majestade, e sob a direo dos seus superintendentes, durante muitos sculos, envidado todos os seus esforos para o melhorarem. incalculvel o nmero de carro e os milhes de saudveis lies que para aqui tm sido enviados de todas as partes e domnios de Sua Majestade. Mas, apesar

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    da opinio dos entendidos que asseveram ser estes os melhores materiais para a obra do almejado saneamento moral, ainda no foi possvel realiz-lo, nem o ser para o futuro. O Pntano existe e continuar a existir! Fez-se quanto se podia fazer. Por ordem do Legislador, foram colocadas no meio do pntano umas pedras fortes e slidas, por onde se possa passar mais facilmente; mas, quando o lodaal se agita, o que sempre acontece nas mudanas de tempo, exala miasmas que sufocam os viandantes, e estes, no vendo as pedras, caem no atoleiro. O que lhes vale que, quando conseguem alcanar a porta, j encontram terreno bom e firme. Depois vi que Flexvel chegava sua casa e que os seus vizinhos acudiam, em tropel, para o verem. Uns chamavam-no sbio, porque abandonara a tempo a empresa; censuravam-no outros por se haver deixado iludir por Cristo, e alguns chamavam-no de covarde porque, uma vez no caminho, no deveria ter retrocedido pelo fato apenas de lhes haverem levantado umas pequenas dificuldades. Flexvel sentiu-se abatido e envergonhado, mas pouco depois, achava-se senhor de si, e, ento, todos em coro escarneciam de Cristo, na sua ausncia. E assim sendo, creio que no tornarei a falar mais de Flexvel.

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    Captulo 3 Cristo abandona o caminho enganado por Sbio-Segundo-o-Mundo; mas Evangelista sai-lhe ao encontro, e indica-lhe de novo o caminho a seguir Cristo, apesar de se achar s, empreendeu a sua marcha resolutamente, e viu caminhar para ele, no meio da plancie, um sujeito com quem pouco depois se encontrou no ponto em que se cruzavam as diferentes direes em que marchavam. Este novo interlocutor chamava-se Sbio-Segundo-o Mundo, e habitava numa cidade conhecida por Prudncia-Carnal, situada a pouca distncia da cidade da Destruio. Tinha ele ouvido falar de Cristo, pois a sua partida da terra natal tinha sido muito falada, e vendo-o agora caminhar to fatigado devido ao fardo que conduzia, e ouvindo-lhe os gemidos e os suspiros, dirigiu-se-lhe nos seguintes termos: Sbio Bem-vindo sejas, amigo! Aonde vais com este fardo to pesado? Cristo Dizes bem. to pesado que nunca pessoa alguma carregou um peso assim. Dirijo-me para a porta estreita, que vs alm, porque, segundo me disseram, l onde me comunicaro o modo de ver-me livre deste fardo. Sbio Tens mulher e filhos? Cristo Tenho, sim; mas este fardo preocupa-me e aflige-me tanto que j no sinto por eles o prazer que possua outrora, e apenas tenho conscincia de os possuir. (I Corntios 7:29). Sbio Vamos; escuta-me, que posso dar-te muitos bons conselhos. Cristo Receb-los-ei com o maior gosto, pois preciso muito de bons conselhos. Sbio Em primeiro lugar, sou de parecer que te desfaas, quanto antes, desse peso. Enquanto assim no fizeres, a tua alma no estar tranqila, nem poders gozar, como deves, as bnos que o Senhor derramou sobre ti. Cristo Disso mesmo que eu vou em busca, visto ser-me impossvel faz-lo por mim mesmo, e no haver no pas quem seja capaz de o conseguir. Foi s com esse fim que eu empreendi esta viagem. Sbio Quem te aconselhou a empreend-la? Cristo Um cavalheiro que me parece muito digno de respeito e de considerao. Lembro-me de que se chamava Evangelista.

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    Sbio Maldito seja quem tais conselhos d! Este caminho exatamente o mais difcil e perigoso que h no mundo. No comeaste j a experiment-lo? Bem te vejo cheio de lodo do Pntano da Desconfiana. E olha que esse no seno o primeiro elo da cadeia de males que por esse caminho te esperam. Sou mais velho do que tu, e tenho ouvido muitas pessoas darem testemunho prprio de que por a afora s h fadigas, penas, fome, perigos, nudez, lees, drages, trevas, em suma a morte com todos os seus horrores. Dize-me francamente, para que se h de perder um homem por dar ouvidos a estranhos? Cristo Da melhor boa vontade sofreria todos os males que acabas de enumerar, em troca de me ver livre deste fardo que para mim mais pesado e mais terrvel do que todos eles. Sbio E como veio esse fardo para cima de ti? Cristo Lendo eu este livro que tenho na mo. Sbio Logo me quis parecer. s um desses imbecis que se metem em coisas elevadas demais para eles, e que por fim encontram tantas dificuldades e perdem o juzo e so arrastados a desesperadas aventuras para alcanarem um coisa que nem mesmo sabem o que . Cristo Quanto a mim, sei perfeitamente o que quero: ver-me livre deste pesado fardo. Sbio Compreendo isto. Mas para que hs de ir por um caminho to perigoso, se eu posso indicar-te outro em que no h nenhuma dessas dificuldades? Tem um pouco de pacincia, e ouve-me: o meu remdio est mo, e em vez de perigos, achars segurana, amigos, e satisfao. Cristo Ento fala; peo-te com muita insistncia; descobre-me esse segredo. Sbio Olha: nessa aldeia prxima, que se chama Moralidade, vive um homem de muito juzo e grande reputao, cujo nome Legalidade, o qual muito hbil em tratar pessoas como tu, o que tem sido provado com numerosos exemplos; alm disso, tambm sabe curar os indivduos que padecem do crebro. A casa dele fica daqui a um quarto de lgua, quando muito, e, se ele no estiver em casa, seu filho, Urbanidade, que um mancebo de grande talento, poder servir-te to bem como seu pai. No deixes de l ir. E se no ests disposto, como no deves estar, a voltar tua cidade, manda buscar tua mulher e teus filhos, porque na aldeia de que te falo h muitas casas devolutas, e podes arranjar uma por preo muito mdico. Outra coisa boa a encontrars: vizinhos honrados, de fino trato e bons costumes. A vida ali muito barata e cmoda. Ao ouvir estas palavras, Cristo ficou indeciso durante alguns momentos, mas logo lhe acudiu este pensamento: - Se verdade o que ele diz, a prudncia manda-me seguir as suas palavras. Cristo Por onde que se vai casa desse honrado homem?

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    Sbio Depois de passares aquela alta montanha, a primeira casa que encontrares a dele. Cristo mudou imediatamente de resoluo, para dirigir-se casa do Sr. Legalidade, em busca do remdio apetecido. Quando chegou s abas da montanha, pareceu-lhe esta to elevada, e tanto a prumo no stio por onde tinha de passar, que teve medo de prosseguir, temendo que ela se despenhasse sobre sua cabea. Parou sem saber que partido toMarcos Sentiu, ento, mais do que nunca, o peso do seu fardo, vendo sair da montanha relmpagos e chamas que ameaavam devor-lo (xodo 19:16-18). Assaltaram-no grandes temores e estremeceu de terror (Hebreus 12:21). Ai de mim! Exclamava ele, para que havia eu de fazer caso dos conselhos de Sbio-Segundo-o-Mundo? E, quando estava possudo destes temores e remorsos, viu Evangelista que se aproximava. Que vergonha! Que estremecimentos senti ao encontrar o olhar severo de Evangelista! Evangelista Que fazes por aqui? Cristo no achou palavras para responder. A vergonha paralisara-lhe a lngua. Evangelista No foi a ti que eu encontrei a chorar fora dos muros da cidade da Destruio? Cristo Foi a mim, sim, senhor. Evangelista Ento, como te perdeste to depressa do caminho que te ensinei? Cristo Assim que passei o Pntano da Desconfiana, encontrei um homem que me persuadiu de que na aldeia vizinha encontraria um sujeito que me livraria do meu fardo. Pareceu-me excelente pessoa, e tantas coisas me disse que eu cedi e vim at este lugar; mas quando me aproximei do sop da montanha, e a vi to alta e to a prumo sobre a estrada, parei subitamente, temendo que ela desabasse sobre mim.Este sujeito perguntou-me para onde eu ia, ao que lhe respondi com a maior sinceridade. Quis tambm saber se eu tinha famlia, e eu o afirmei, acrescentando, porm, que este fardo pesado me impedia de encontrar nela a satisfao que outrora me proporcionava. Pois disse-me ele preciso que, quanto antes, te livres desse tormento, e, em vez de te dirigires a essa porta estreita onde esperas que te indiquem a maneira de conseguires esse rduo desejo, seguirs por uma estrada mais direita e melhor, onde no encontrars tropeos, a cada passo, com menos dificuldades que no outro caminho se encontram, como o sabes por experincia. Se marchares nesta direo, chegars em pouco tempo casa de um homem que muito entendido em tirar pesados fardos. Acreditei. E, de pronto, abandonei a estrada que tu me havias indicado, e segui por esta, mas quando cheguei a este lugar em que nos achamos, tive medo, estou indeciso e sem saber o que hei de fazer. Evangelista Espera um momento e ouve as palavras do Senhor (Cristo escutava-o, de p, e tremendo): Olhai, no desprezeis ao que fala; porque se no escaparam aqueles que desprezavam ao que lhes falava sobre a Terra, muito menos ns outros, se desprezarmos ao

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    que nos fala do cu. (Hebreus 12:25). O justo viver da f; mas se ele se apartar, no agradar minha alma. (Hebreus 10:38). E aplicando estas palavras a Cristo, disse: Esse homem que se ia precipitando na runa eras tu. Comeaste a pr parte o conselho do Altssimo, e a retirar o teu p do caminho da paz, a ponto de te expores a perder-te. Cristo caiu-lhe aos ps, quase desfalecido, exclamando: Ai de mim, que estou morto! A estas palavras Evangelista estendeu-lhe a mo, dizendo-lhe: Todo o pecado e blasfmias sero perdoados aos homens. (Mateus 12:31). No sejas incrdulo, mas crente. (Joo 20:27). Algum tanto mais animado, Cristo levantou-se, mas sempre envergonhado e trmulo. Evangelista prosseguiu: Presta ateno ao que vou dizer-te: vais saber quem foi que te enganou, e para quem te ias dirigindo. O primeiro era Sbio-Segundo-o-Mundo, nome que muito apropriadamente usa: antes de tudo, porque s gosta das doutrinas deste mundo (I Joo 4:5), pelo que vai sempre igreja da cidade da Moralidade, e gosta dessa doutrina, porque ela o livra da cruz (Glatas 6:2); em segundo lugar, porque sendo carnal o seu temperamento, procura perverter os meus retos desgnios. Por isso h trs coisas nos conselhos que esse homem te deu, as quais devem ser execrandas para ti: 1. Haver-te desviado do caminho; 2. Haver-te tentado fazer com que aborreas a cruz; 3. Haver-te encaminhado por essa vereda que conduz morte. Deves, portanto: 1. Repudiar a quem te desviou do caminho, erro em que caste, e que equivale a desprezar o conselho de Deus para seguir o do homem. O Senhor disse: Porfiai em entrar pela porta estreita. (Lucas 13:24). Para essa porta que te dirigias. Porque estreita porta que conduz vida, e poucos so os que acertam com ela. (Mateus 7:13-14). Esse malvado desviou-te daquela porta, e do caminho que a ela vai ter, para lanar-te na perdio. Odeia, pois, o seu procedimento, odianto-te tambm a ti mesmo por lhe haveres prestado ouvidos. 2. Detestar aquele que diligenciou que a Cruz te repugnasse, porque deves preferi-la a todos os tesouros do Egito (Hebreus 11:25-26). Alm do que, o Rei da Glria disse-te que aquele que salvar a sua vida perd-la- e se algum vem aps mim e no aborrece seu pai e sua me, filhos, irmos e mulher e irms, e a sua prpria vida, no pode ser meu discpulo (Marcos 8:35; Lucas 14:26-27; Joo 12:25; Mateus 10:37-39). Por isso te digo que uma doutrina que busca persuadir-te de que morte aquilo que a Verdade disse que indispensvel para se obter a vida eterna, uma doutrina abominvel e que deves detestar.

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    3. Aborrecer aquele que te encaminhou para a senda que conduz ao mistrio da morte. Agora podes calcular se a pessoa a quem te dirigias, seria capaz de te livrar do teu fardo. Essa pessoa chama-se Legalidade, e um dos filhos da escrava, que ainda est na escravido, assim como seus filhos (Glatas 4:21-27), misteriosamente representada pelo monte Sinai, que tu receaste iria cair sobre ti. Ora, se ele e seus filhos esto na escravido, como poderias tu esperar que te dessem a liberdade? Oh! Nunca! No seria capaz Legalidade de te libertar, de livrar-te do fardo. Nunca livrou pessoa alguma, nem poder jamais faz-lo. No podes ser justificado pelas obras da lei, porque por elas nenhum vivente pode ser aliviado da sua carga. Fica, pois, sabendo que Sbio-Segundo-o-Mundo um embusteiro e Legalidade, apesar do seu sorriso afetado, no passa de um hipcrita, sem prstimo para coisa alguma. Cr que tudo quanto ouviste a esses insensatos no foi mais do que uma tentativa para te afastar da salvao, desviando-te do caminho que te havia indicado. Assim falou Evangelista, e, erguendo a voz, pediu aos cus que confirmassem quanto havia dito. No mesmo instante saram palavras de fogo da montanha de que se aproximara Cristo, cujos cabelos se eriaram.As palavras que ele ouviu eram estas: Porque todos quantos so das obras da lei esto debaixo da maldio; porque est escrito: Maldito todo o que no permanecer em todas as coisas que esto escritas no livro da lei, para faz-las. (Glatas 3:10). Ao ver e ouvir isto, Cristo no esperava seno a morte. Comeou a lamentar-se em altos gritos, e a maldizer a hora em que encontrara Sbio-Segundo-o-Mundo, chamando-se mesmo de nscio por ter dado ouvido aos seus conselhos destruidores e perversos. Era imensa a sua vergonha ao lembrar-se que os conselhos daquele insensato, sendo nascidos da carne, tinham podido prevalecer sobre o seu modo de pensar, a ponto de se ter resolvido a abandonar o caminho do Bem. Voltando ento para Evangelista, falou-lhe nos seguintes termos: Cristo Senhor, haver alguma esperana para mim? No poderei voltar para trs e tomar de novo o caminho da porta estreita? No serei abandonado e expulso dali com infmia? Pesa-me, sobretudo, haver escutado as palavras desse homem. Poderei, todavia, obter perdo para o meu pecado? Evangelista Na verdade que o teu pecado bem grande. Levou-te a praticar duas aes ms: apartaste-te do caminho do bem, e entraste nas veredas proibidas. No obstante, o homem que est porta, receber-te-, porque h nele boa vontade para com os homens. Uma s coisa advirto: toma cuidado em no te extraviares outra vez, para que no suceda pereceres no meio do caminho (Salmo 2:12). Cristo disps-se a partir e, tendo beijado Evangelista, despediu-se dele com um sorriso de felicidade, dizendo: Deus seja contigo.

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    E comeou a andar apressadamente, no falando com pessoa alguma no caminho, nem ainda mesmo respondendo s perguntas que lhe dirigiam. Parecia que pisava terreno inimigo, e s se considerou a salvo quando tornou a entrar no caminho que havia abandonado por conselho do enfatuado Sbio-Segundo-o-Mundo.

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    Captulo 4 Cristo chega porta estreita; pede o cumprimento da promessa evanglica, bate e recebido com afabilidade Pouco depois chegava Cristo, felizmente, ao p da suspirada porta estreita, sobre a qual estava escrito o seguinte dstico: Bata que eu abro. (Mateus 7:7). Bateu repetidas vezes, dizendo: Ser-me- permitido entrar agora? Aquele que est dentro ter vontade de receber-me, a mim, miservel pecador? Apesar de eu ter sido rebelde, cantarei eternamente os seus louvores nas alturas. Por fim veio porta uma pessoa chamada Boa-Vontade, e perguntou: Quem s? Donde vens? Que pretendes? Cristo Senhor, sou um pecador, cansado e carregado. Venho da cidade da Destruio, e dirijo-me ao Monte Sio para escapar ira vindoura. Disseram-me, honrado homem, que para seguir o meu caminho devia entrar por esta porta; e desejo saber se ds licena que entre. Boa-Vontade Ora essa! Com todo o gosto. - E, dizendo isto, abriu-lhe a porta. Quando Cristo ia entrando, Boa-Vontade puxou-o com fora para dentro. Cristo Que significa isto? Boa-Vontade H aqui perto um castelo, cujo governador belzebu, que juntamente com os seus soldados, est continuamente despedindo setas contra aqueles que se aproximam desta porta, a fim de os matar antes que entrem. Cristo Alegro-me tanto quanto tremo em saber que estive em tamanho risco. Boa-Vontade Agora que j ests livre e sossegado, responde ao que te pergunto:Quem te mandou para aqui? Cristo O senhor Evangelista, que me disse: Vai ali, e bate porta; l ensinar-te-o o que te convm fazer. Boa-Vontade Tens aberta uma porta que ningum poder fechar-te. Cristo Quo venturoso sou! Comeo a colher o fruto da minha ousadia. Boa-Vontade Ento, vieste s?

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    Cristo Vim; porque nenhum dos meus vizinhos conheceu, como eu, o perigo em que se achava. Boa-Vontade Mas souberam alguns da tua vinda? Cristo Primeiro dela souberam minha mulher e meus filhos, que no queriam deixar-me partir; e s vozes destes acudiram vrios vizinhos que tambm em altos gritos me chamavam; mas eu tapei os ouvidos e segui o meu caminho. Boa-Vontade E ningum te seguiu para te aconselhar a voltares para casa? Cristo Seguiram-me Obstinado e Flexvel, mas quando se convenceram da inutilidade dos seus esforos, deixaram-me o primeiro, cobrindo-me de improprios e o segundo pouco depois. Boa-Vontade E por que no veio esse contigo? Cristo Quando chegamos ao Pntano da Desconfiana, camos ambos no lodo, e foi tal o susto do meu vizinho que no se atreveu a expor-se a outros perigos. Saiu da lagoa pela banda que ficava mais prxima de sua casa, dizendo-me que me deixava a posse plena do bendito pas. Depois seguiu nas pisadas de Obstinado e eu continuei o meu caminho na direo desta porta. Boa-Vontade Quo desgraado este teu vizinho! A glria celestial tem para ele to diminuto valor que lhe parece no valer a pena arriscar-se a alguns perigos para a alcanar. Cristo Senhor, verdade quanto eu disse de Flexvel; mas se compararmos o seu procedimento com o meu... no sei qual deles ser o pior. Eu tambm me apartei deste caminho para seguir o da morte, porque dei ouvidos aos argumentos carnais dum sujeito chamado Sbio-Segundo-o-Mundo. Cristo Segui-o, enquanto tive foras. Ia em busca do tal senhor Legalidade; mas quando cheguei ao p da montanha que fica prxima de sua casa, tive medo de que ela desabasse sobre mim e detive-me. Boa-Vontade Ah! incalculvel o nmero de mortes que essa montanha tem sua conta! E quantas causar ela ainda! Feliz s tu, que escapaste de ser esmagado por ela. Cristo Verdade, verdade, quem sabe o que teria sido de mim, se naquele momento de incerteza e receio, no me tivesse aparecido Evangelista. Se no fora ele, nunca aqui eu teria chegado. Mas, por felicidade, aqui me acho tal qual sou, e certamente mais digno de ter sido esmagado pela montanha do que estar falando contigo. Grande favor me fizeste em abrir a porta, depois de tudo quanto te hei contado.

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    Boa-Vontade A ningum levantamos dificuldades, qualquer que tenha sido a sua vida anterior. A ningum lanamos fora (Joo 6:37). Vou dar-te alguns esclarecimentos acerca do caminho que hs de seguir. Olha l para diante. Vs um caminho estreito? por ali que deves ir. Por ele passaram os Patriarcas, os Profetas, Cristo e os Apstolos: um caminho to direito como uma linha reta. Cristo Ento no tem voltas e desvios por onde se perca um forasteiro? Boa-Vontade Sim, tem muitas encruzilhadas, e muitos atalhos bastante largos; mas a regra para distinguir o verdadeiro caminho esta: sempre reto e estreito (Mateus 7:14). Segundo observei no meu sonho, perguntou-lhe depois: Cristo No poderei ser aliviado do peso deste fardo que trago s costas? Se algum no me ajuda, no me ser possvel ir adiante. Boa-Vontade No desanimes. Continua a levar o teu fardo alegremente, at chegares ao lugar em que hs de ver-te livre dele, pois que por si mesmo te cair dos ombros. Cristo comeou a cingir-se, preparando-se para a marcha. Boa-Vontade avisou-lhe de que brevemente encontraria a casa de Intrprete, onde devia bater e ouvir coisas muito teis e excelentes; e despediu-se carinhosamente de Cristo, desejando-lhe prspera viagem e a companhia do Senhor.

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    Captulo 5 Cristo em casa de Intrprete. Coisas que l viu; um bom ministro do Evangelho; regenerado pela f dum corao por natureza corrompido; a melhor escolha; a vida espiritual sustentada pela graa; a perseverana; a apostasia; o juzo final. Ps-se Cristo a caminho com muito nimo, e dentro de pouco tempo, chegava casa de Intrprete. Bateu porta repetidas vezes, at que lhe perguntaram quem era. Cristo Sou um viajante enviado por um conhecido do dono desta casa, a fim de saber coisas proveitosas. Desejava, portanto, falar ao dono da casa. Este apareceu imediatamente, e dirigindo-se ao viajante, perguntou-lhe: Intrprete Que pretendes? Cristo Senhor, eu venho da cidade da Destruio e dirijo-me para o monte Sio. O homem que est porta da entrada do caminho disse-me que eu devia passar por esta casa, e que me ias mostrar muitas coisas excelentes e proveitosas para a minha viagem. Intrprete Podes entrar. Sero cumpridos os teus desejos. Em seguida ordenou a um de seus criados que acendesse uma luz, e tomando pela mo o viajante, introduziu-o numa sala. Abriu depois uma porta, e Cristo viu, pregado na parede, o retrato duma personagem grave e majestosa dos livros na mo e a lei da verdade escrita nos seus lbios; voltava as costas ao mundo, e estava na atitude de instar com os homens; uma coroa de ouro estava pendente sobre a sua cabea. Dirigindo-se a Cristo, que no percebia o que significava aquele quadro, disse-lhe: Intrprete Este um entre mil. Este pode tomar para si aquelas palavras do Apstolo: Porque, ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, no tereis, todavia, muitos pais; pois eu sou o que vos gerou em Cristo pelo Evangelho. Filhinhos meus, por quem eu de novo sinto as dores de parto. (I Corntios 4:15; Glatas 4:19). E o apresentar-se com os olhos levantados para o cu, o melhor dos livros na mo, e lei da verdade escrita em seus lbios, para te mostrar que se ocupa em conhecer e explicar coisas obscuras para os pecadores; e por isso est de p, na atitude de quem trata de convenc-los. Tem o mundo atrs das costas, e uma coroa de ouro pendente sobre sua cabea para te significar que, desprezando e fazendo pouco caso das coisas deste mundo, por causa do servio do seu Senhor, ter como recompensa, no sculo futuro, uma coroa de glria. Principiei por te mostrar este quadro, porque a personagem aqui representada a nica autorizada pelo Senhor do lugar para onde te diriges, para te guiar em todos os passos difceis que hs de encontrar no teu caminho. No te esqueas do que te ensinei nem do que viste, porque talvez encontres na tua viagem algum que, inculcando-se guia, te queira encaminhar para a morte.

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    Depois pegou-lhe na mo e conduziu-o a uma sala cheia de poeira, porque nunca fora varrida, e, tendo ordenado a um dos criados que a varresse, levantou-se tal nuvem de poeira que Cristo ia ficando sufocado. Disse Intrprete ento a uma jovem, que os acompanhava, que borrifasse a casa com gua, e assim pde varrer-se a casa sem dificuldade. Cristo Que significa isto? Intrprete A sala representa um corao que nunca foi santificado pela doce graa do Evangelho; a poeira o pecado original e a corrupo interior, que contamina todos os homens; o que principiou a varrer a lei, e a jovem que trouxe a gua e borrifou a sala o Evangelho. Certamente notaste, quando o primeiro comeou a varrer, que se levantou tanto p que foi absolutamente impossvel continuar, e estiveste quase a ser asfixiado: isto significa que a lei, em lugar de limpar os coraes do pecado, f-lo reviver cada vez mais (Romanos 7:9), d-lhe fora (I Corntios 15:16), e f-lo medrar na alma (Romanos 5:20), ao mesmo tempo que o denuncia e o prescreve, sem dar a fora necessria para o vencer. O fato de ter sido possvel varr-lo e limp-lo depois de o ter a jovem regado, significa que, quando o Evangelho entra no corao, vence e subjuga o pecado com a sua doce e preciosa influncia. Limpa a alma que nele cr e torna-a digna de ser habitada pelo Rei da Glria (Joo 15:3; Romanos 3:25-26; Efsios 5:26; Atos 15:29). Vi mais em meu sonho, que o Intrprete tomou, em seguida, a mo do Peregrino e conduziu-o a um pequeno quarto onde estavam dois meninos sentados; o mais velho chamava-se Paixo e o mais novo Pacincia; o primeiro estava muito inquieto, e o segundo muito sossegado. Aquele, disse Intrprete, no se resigna a esperar, at ao princpio do ano futuro, pela posse das coisas que mais estima, como lhe aconselha o seu preceptor; queria possu-las j, e como no pode consegui-lo, est inquieto. Pacincia, porm, resigna-se e espera. Naquele momento vi entrar um homem com um saco de dinheiro, que colocou aos ps de Paixo. Este recebeu-o com grande interesse e alegria, dirigindo a Pacincia um sorriso de escrnio, mas a sua alegria foi pouco duradoura, porque o dinheiro depressa se gastou; nada mais restou a Paixo do que uns miserveis andrajos. Intrprete Paixo a imagem dos homens deste mundo, e Pacincia a dos homens do sculo futuro. Paixo quer possuir e gozar tudo agora, neste mesmo ano, isto , neste mundo, semelhana dos homens que querem gozar tudo quanto se lhes afigura melhor, e nada desejam para o mundo futuro, ou para a outra vida. O conhecido provrbio mais vale um pssaro na mo que dois voando, para eles de muito mais valor do que todos os testemunhos divinos acerca da felicidade futura. E que lhes acontece? Assim como a Paixo s ficaram uns andrajos depois de gasto o dinheiro, assim a eles suceder. Cristo Compreendo perfeitamente que Pacincia muito mais sensato: 1. Porque aspira as coisas mais excelentes, e 2 porque h de goz-las e ter nelas a sua glria, quando aos outros s restarem andrajos.

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    Intrprete E, ao que disseste, deves acrescentar que a glria do sculo futuro ser eterna, enquanto que os bens deste sculo se dissipam como fumo. Quem tem incontestvel direito para se rir de Paixo Pacincia: porque ter finalmente a sua felicidade, ao passo que Paixo a tem agora. O primeiro h de ceder necessariamente o campo ao ltimo, enquanto que este a ningum ter que ceder, porque ningum se lhe segue. O que recebe o seu quinho do presente gasta-o no tempo, at que nada lhe reste, e o que o recebe no final conserva-lo- para sempre, porque no h haver mais tempo em que possa gast-lo. Assim como dito ao rico avarento: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e que Lzaro no teve seno males; mas por isso est ele agora consolado e tu em tormentos. (Lucas 16:25). Cristo - Visto isso, percebo que melhor no cobiarmos as coisas presentes, e ter esperana nas futuras. Intrprete - Assim : As coisas que se vem so temporais, mas as que se no vem so eternas (II Corntios 4:18). Acontece, porm, que, havendo grande afinidade entre as coisas presentes e os nossos apetites carnais, prontamente se tornam amigos; o que no sucede com ais coisas futuras, que to longe esto do sentido da carne (Romanos 7:15-25).

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    Captulo 6 Cristo chega cruz. Cai-lhe o fardo dos ombros, justificado, e recebe um vesturio e um diploma de adoo na famlia de Deus. O meu sonho continuava. Vi Cristo marchando por uma estrada que, de ambos os lados, era protegida por duas muralhas, chamadas Salvao (Isaas 26.1). certo que ia caminhando com muita dificuldade, por causa do fardo que levava s costas, mas o seu passo era rpido e seguro; vi-o chegar a um pequeno monte onde se erguia uma cruz, junto qual, e um pouco mais abaixo, estava uma sepultura. Ao chegar cruz, soltou-se-lhe o fardo, instantaneamente, de sobre os ombros, e, rolando, foi cair na sepultura, donde no tornar jamais a sair. Quo aliviado e jubiloso ficou Cristo! Bendito seja Aquele que, com os seus sofrimentos, me deu descanso, e com a sua morte me deu a vida! Exclamou ele, e ficou por alguns momentos como exttico, ao ver o grande benefcio que a cruz acabava de fazer-lhe; olhava para um e para outro lado, cheio de assombro, at que o seu corao se expandiu em abundantes lgrimas (Zacarias 12.10). Chorava, quando diante dele apareceram trs seres resplandecentes, que o saudaram com: a Paz seja contigo! E logo o primeiro dos trs lhe disse: Perdoados te so os teus pecados (Marcos 2.5). O segundo, despojando-o dos vestidos imundos que trazia, vestiu-lhe um traje de gala (Zacarias 3.4), e o terceiro, pondo-lhe um sinal na fronte (Efsios 1.13), entregou-lhe um diploma selado, sobre o qual deveria pensar pelo caminho, e entreg-lo quando chegasse Cidade Celestial. Ao ver todas estas coisas, Cristo experimentou imensa alegria, e continuou o seu caminho cantando, pouco mais ou menos, estas palavras: Oprimido andei sempre sob o peso de meus pecados, sem encontrar lenitivo ao meu sofrimento, at que cheguei a este lugar. Onde estou eu? Oh! Aqui por certo o princpio da minha bem-aventurana, visto que aqui se quebraram os laos que me prendiam aos ombros o fardo que me oprimia. Eu te sado, cruz bendita! Bendito sejas, santo sepulcro! Bendito seja para sempre Aquele que em ti foi sepultado pelos meus pecados.

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    Captulo 7 Cristo encontra Simples, Preguia e Presuno, entregues a profundo sono; desprezado por Formalista e por Hipocrisia; sobe o Desfiladeiro da Dificuldade; perde o diploma e torna a ach-lo. Terminada esta cena, Cristo continuou o seu caminho, e, ao descer a encosta do monte em cujo cimo tiveram lugar os acontecimentos que deixou relatados, viu, a pequena distncia da estrada, trs indivduos chamados Simples, Preguia e Presuno, entregues a profundo sono e com os ps ligados por cadeias de ferro. Dirigiu-se a eles para os acordar, e bradou-lhes: Despertai, que sois como os que dormem no topo dum mastro (Provrbios 23.24), tendo aos ps o mar morto, que um abismo sem fundo. Erguei-vos e vinde comigo, que vos ajudo a livrar-vos dessas cadeias, porque, se passa por aqui o leo rugidor, caireis por certo nas suas terrveis garras (I Pedro 5.8). Todos os trs acordaram; olharam para Cristo, mas nenhum caso fizeram do que ele dizia. No vejo que haja perigo algum, disse Simples. Deixe-me dormir um bocado, acrescentou Preguia, e Presuno disse-lhe que no se metesse com a sua vida e deixasse estar quem estava sossegado. E continuaram a dormir, deixando Cristo seguir estrada em fora. Este continuou a andar, posto que triste e pesaroso por ver aqueles homens, em perigo to iminente, recusaram-se, com tal pertincia, a aceitar o generoso oferecimento que lhes fizera, de os ajudar a livrar-se das cadeias, depois de os haver acordado do seu funesto sono e de lhes dar conselhos salutares. Entregue a estes pensamentos, caminhava Cristo: eis seno quando, com grande surpresa sua, viu saltar do muro que protegia o caminho estreito, dois homens que, aparentemente, se dirigiam para ele; chamavam-se Formalista e Hipocrisia. Chegados que foram ao p de Cristo, travou-se entre eles o seguinte dilogo: Cristo - Donde vindes, senhores, e para onde ides? Formalista e Hipocrisia - Somos naturais da terra da Vanglria, e vamos em busca de louvores ao monte Sio. Cristo - Mas como no entrastes pela porta que est no princpio da estrada? Ignorais que est escrito: O que no entra pela porta, no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse ladro e salteador? (Joo 10.1). Formalista e Hipocrisia - O povo do nosso pas considera, e com razo, que preciso fazer um grande rodeio para chegar porta, e sabe que mais fcil saltar o muro. verdade que, procedendo deste modo, transgridem a vontade revelada do Senhor, mas esto nesse costume h mais de mil anos, e bem sabeis que o costume faz a lei. No pode haver dvida de que se esta questo fosse levada perante um tribunal, um juiz imparcial seria a nosso favor. Demais, do que se trata de entrar no caminho; por onde se entra o de menos. Vs

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    entrastes pela porta, ns saltamos o muro: mas o certo que todos estamos no caminho, e no compreendemos que haja vantagem do vosso lado. Cristo - No posso concordar convosco. Eu sigo a regra estabelecida pelo Amo, e vos deixais guiar pelo impulso dos vossos caprichos, sendo considerados, com toda a razo, pelo Senhor do caminho, como uns salteadores. Estou certssimo de que no fim da vossa viagem no sereis tidos na conta de homens de f e de verdade. Entrastes sem a anuncia do Senhor, saireis sem a sua misericrdia. Formalista e Hipocrisia - Pode ser muito verdade tudo quanto dizeis, mas o melhor cada um tratar de si e deixar os outros em paz. Ficai sabendo que guardamos as leis e os mandamentos, to escrupulosamente como vs, e a nica diferena que entre ns existe apenas esse vestido que trazeis, provavelmente porque algum vo-lo deu, para cobrir a vergonha da vossa nudez. Cristo - Enganai-vos redondamente, se supondes que vos salvaro as leis e os mandamentos, e no entrastes pela porta estreita (Glatas 2.16). Este vestido, que chamou a vossa ateno, deu-mo o Senhor, para com ele cobrir a minha nudez, e tenho-o por uma grande prova da sua bondade, pois dantes no possua seno andrajos. Quando chegar porta da cidade, Ele h de reconhecer-me como bom e merecedor de l entrar, por este vestido de que me fez presente no dia em que me limpou da minha misria. Alm disso, trago na fronte um sinal, que talvez ainda no notastes, o qual me foi imposto por um dos amigos mais ntimos do Senhor, no dia em que dos meus ombros caiu o fardo que to oprimido me trazia. E tambm tenho um diploma selado, que igualmente me deram, com o duplo fim de me consolar a sua leitura durante a jornada e de me servir de apresentao para ser admitido na Cidade Celestial. Desconfio que todas estas coisas vos ho de fazer falta, e no as tendes porque no entrastes pela porta. Eles no responderam a estas observaes de Cristo; to somente olharam um para o outro e sorriram. Depois que todos os trs seguiram pelo caminho, Cristo ia na frente, falando consigo mesmo, ora triste, ora consolado e satisfeito, e lendo de vez em quando o diploma que recebera e que tanto vigor lhe proporcionava. Assim chegaram ao p dum desfiladeiro onde havia uma fonte e, alm do caminho que comea na porta, mais duas veredas, chamadas Perigo e Morte Eterna. O caminho que atravessava o desfiladeiro chamava-se Dificuldade. Cristo chegou-se fonte (Isaas 55.1), bebeu e refrigerou-se. Comeou depois a subir o desfiladeiro pelo caminho Dificuldade, dizendo: O caminho ngreme e spero, mas vai direto vida: preciso envidar nesta empresa todo o esforo e deciso. nimo, corao meu, no te assustes nem vaciles; melhor seguir pelo caminho verdadeiro, apesar de escabroso, do que tomar pelo mais fcil, que conduz eterna desgraa! Os outros caminhantes chegaram tambm ao princpio do desfiladeiro, mas quando contemplaram aqueles penhascos e alcantis, e viram que havia mais dois caminhos muito mais fceis, que provavelmente iam terminar ao mesmo stio em que acabava aquele por

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    onde Cristo seguia, resolveram tomar cada um pelo seu. Assim, foi um pelo caminho Perigo, indo enterrar-se num tenebroso bosque; o outro foi por Morte Eterna, que o conduziu a um extenso campo, cheio de negras montanhas, onde tropeou e caiu para no mais se erguer. Volvi o meu olhar para Cristo, a fim de o contemplar na sua perigosa ascenso. Que trabalhos! Que fadiga a sua! No podia correr, e ocasies havia em que at o andar lhe era difcil, tendo de ajudar-se com as mos. Por felicidade, havia, meia-encosta, um lugar de descanso, preparado pelo Senhor do caminho para o conforto e refrigrio dos viajantes fatigados. Chegando ali, Cristo sentou-se a descansar. Tirou do bolso o seu diploma, para se recrear e consolar com a sua leitura, e para examinar o vestido que lhe tinham dado ao p da cruz. Mas, enquanto descansava, sobreveio-lhe o sono, durante o qual o diploma lhe caiu das mos, e s acordou perto da noite. Ainda estava adormecido, quando algum se aproximou e lhe disse: Vai ter, preguioso, com a formiga, e considera os seus caminhos, e aprende dela a sabedoria! (Provrbios 6.6). A esta advertncia acordou e levantou-se imediatamente, continuando a sua marcha, com maior pressa, at chegar ao cume do monte. Quando l ia chegando, saram-lhe ao encontro Timorato e Desconfiana, que retrocediam, correndo. Por que voltais para trs? Perguntou-lhes Cristo. Timorato Ns amos para a cidade de Sio, tendo j vencido as dificuldades deste desfiladeiro; mas, medida que avanvamos, amos encontrando as maiores dificuldades, a ponto de nos parecer mais prudente retroceder e abandonar a empresa. Desconfiana a pura verdade. A pequena distncia daqui encontramos dois lees na estrada; se dormiam ou velavam no sabemos, mas tememos aproximar-nos, porque poderiam fazer-nos em pedaos. Cristo As vossas palavras atemorizam-me; mas para onde irei fugir, com segurana? Se volto para o meu pas, certa a minha desgraa, porque aquela terra est condenada ao fogo e ao enxofre; mas, se consigo alcanar a Cidade Celestial, ficarei seguro para sempre. Avante, pois, tenhamos confiana! Retroceder ir ao encontro da morte certa; avanar apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois! E continuou seu caminho, ao tempo que Timorato e Desconfiana iam j monte abaixo. As palavras, porm, daqueles dois indivduos preocupavam-no, e, para se animar e consolar, procurou no peito o diploma, mas no o encontrou! Grande foi a sua aflio e embarao, por lhe faltar aquele diploma que tanto o consolava e era o seu salvo-conduto para entrar na Cidade Celestial. Recordou-se, ento, de ter dormido no caminho e, caindo de joelhos, pediu perdo ao Senhor, e voltou atrs, em busca do documento que perdera. Pobre Cristo! Quem poder exprimir a amargura que ia na alma? Suspirava, derramava abundantes lgrimas, e a si mesmo se exprobava por haver cometido a loucura de se ter

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    deixado vencer pelo sono num lugar unicamente destinado a descanso e refrigrio. Olhava cuidadosamente para um e outro lado do caminho, procurando o seu diploma, e assim chegou ao stio onde adormecera. Ali, a sua dor tornou-se mais intensa, e agravou-se a chaga do seu pesar, contemplar o local que lhe recordava uma desgraa to sensvel (Apocalipse 2.4-5; I Tessalonicenses 5.6). Prorrompeu nos seguintes lamentos: Miservel e desgraado que sou! Deixar-me adormecer durante o dia! Adormecer no meio de tantas dificuldades! Condescender assim como a carne, e dar-lhe descanso num lugar unicamente destinado para o repouso momentneo dos viajantes! Assim aconteceu aos israelitas, que, pelos seus pecados foram obrigados a voltar pelo caminho do Mar Vermelho! Infeliz de mim! Que me vejo na necessidade de dar estes passos com tanto sofrimento, o que no aconteceria se no tivesse cedido a esse sono do pecado! Como eu iria a esta hora adiantado no meu caminho! Ver-me obrigado a percorrer trs vezes o espao que s uma vez devia ter andado; e, o que pior ainda, ser provavelmente surpreendido pela noite, porque o dia est quase a findar! Quanto mais til me teria sido haver resistido ao peso do sono! Absorto nestes pensamentos, ei-lo chegado ao lar de descanso. Sentou-se por alguns momentos, para dar mais livre curso ao seu pranto, at que, por fim, permitiu a Providncia que, volvendo o olhar em torno do banco em que estava sentado, se lhe deparasse o diploma: apanhou-o pressurosamente e tornou a guard-lo junto ao peito. Ser-me-ia impossvel descrever o jbilo que se apoderou deste homem, ao ver-se de novo na posse daquele precioso documento, garantia da sua vida e salvo-conduto para o porto que anelava. Guardou-o no peito, repetimos, deu graas a Deus por haver permitido que o encontrasse, e, chorando de alegria, tornou a pr-se a caminho, j risonho e ligeiro, mas no tanto que o ocaso do sol no viesse surpreend-lo antes de chegar ao cume do monte. Funesto sono, dizia Cristo, no meio de sua dor, tu foste a causa de eu ter agora de fazer a minha jornada de noite. O sol deixou-me de alumiar-me. Os ps no sabero que caminho pisam, e aos meus ouvidos s chegaro os rugidos dos animais noturnos. Ai de mim! de noite que os lees que Timorato e Desconfiana encontraram no caminho vo em busca da sua presa. Se os encontro no meio das trevas, quem me salvar das suas garras? (Apocalipse 3.2; I Tessalonicenses 5.7-8). Tais eram os pensamentos de Cristo. Levantando, porm, a vista, deparou com um magnfico palcio, situado na frente da estrada, o qual se chamava o Palcio Belo.

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    Captulo 8 Cristo passa inclume por entre os lees, e chega ao Palcio Belo, onde acolhido afavelmente e tratado com a maior ateno e carinho. Vi, em meu sonho, que ao avistar o palcio, Cristo apressou o passo, na esperana de encontrar ali pousada. Mas antes de chegar encontrou uma passagem muito estreita, a uns cem passos do palcio, e viu, de cada lado da estrada, um terrvel leo. Eis aqui o perigo, disse Cristo consigo mesmo, que obrigou Timorato e Desconfiana a retroceder. (Os lees estavam amarrados com grossas correntes, mas Cristo no deu por isso). E eu tambm devo retroceder, porque vejo que aqui s a morte me espera. Mas o porteiro do palcio, cujo nome era Vigilante, tendo percebido a indeciso de Cristo, bradou-lhe: To poucas foras tens? (Marcos 4.40). No temas os lees, porque esto acorrentados, e s a esto para provar a f ou a incredulidade; passa pelo meio da estrada, e nenhum mal te sobrevir. Cristo resolveu, ento, a passar. Ainda que transido de medo, cumpriu risca as instrues de Vigilante, e, conquanto ouvisse os rugidos das feras, nenhum dano recebeu delas. Bateu as palmas de alegria, e, em quatro pulos, chegou portaria do palcio, e assim interrogou a Vigilante: Cristo A quem pertence este palcio? Dar-me-o licena para pernoitar aqui? Vigilante Este palcio pertence ao Senhor do Desfiladeiro, e foi construdo expressamente para servir de descanso e asilo aos viandantes. E tu, donde vens, e para onde vais? Cristo Venho da Cidade da Destruio e dirijo-me para o monte Sio; fui surpreendido pela noite, e desejava pass-la aqui, caso no houvesse inconveniente. Vigilante Como te chamas Cristo Chamo-me agora Cristo; outrora chamei-me Privado-da-Graa. Sou da linhagem de Jaf, a qual Deus persuadiu a habitar nos tabernculos de Sem (Gnesis 9.27). Vigilante Muito tarde chegas. H muito que o sol chegou ao seu ocaso. Cristo Aconteceram-me grandes infortnios. Em primeiro lugar, deixei-me vencer pelo sono no lugar do descanso, que est na encosta do desfiladeiro. Apesar disso, poderia ter chegado aqui mais cedo se, enquanto dormia, no tivesse deixado cair das mos o meu diploma, de que s dei pela falta quando cheguei ao alto do monte. Tive de voltar atrs, e

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    graas dou a Deus por haver permitido que eu encontrasse o precioso documento. Eis as causas da minha demora. Vigilante - Bem est. Agora vou chamar uma das virgens que habitam o palcio, para falar contigo e para te apresentar ao resto da famlia, segundo o costume da casa, se a tua conversao lhe agradar. Tocou uma campainha, ao som da qual apareceu uma donzela, grave e formosa, que se chamava Discrio, e que tratou de perguntar para que a chamavam. Vigilante Este homem um viandante que, da cidade da Destruio, se dirige para o monte Sio. A noite surpreendeu-o no caminho, e est muito fatigado; deseja saber se lhe podero dar agasalho aqui esta noite. Discrio interrogou-o acerca da sua jornada e dos acontecimentos que se haviam dado durante ela, e como recebesse respostas satisfatrias a tudo quanto desejara saber, perguntou-lhe: Discrio Diga-me o seu nome. Cristo Chamo-me Cristo. E, como me disseram que este edifcio foi construdo expressamente para segurana e abrigo dos viandantes, desejava que me permitsseis passar aqui a noite. Discrio sorriu, o mesmo tempo que algumas lgrimas deslizavam pelas suas faces, e acrescentou: Deixe-me chamar algumas pessoas da minha famlia. E chamou Prudncia, Piedade e Caridade, que depois de terem falado com ele durante alguns momentos, o introduziram no palcio. Muitos dos seus habitantes saram a receber Cristo, cantando: Entra, bendito do Senhor, que para viandantes como tu que este palcio foi edificado. Cristo fez-lhe uma reverncia, e seguiu-as para o interior da casa. Assentou-se, e serviram-lhe uma ligeira refeio, enquanto se aprontava a ceia. E, para aproveitar o tempo, entraram no seguinte dilogo: Piedade Bom Cristo, presenciaste o nosso carinho e a benevolncia com que te temos tratado: conta-nos pois, para nossa edificao, algumas aventuras da tua viagem. Cristo Com muito gosto. E folgo em vos ver em to boa disposio para comigo. Piedade Conta-me qual foi a causa que te moveu a empreender esta peregrinao. Cristo O que me obrigou a deixar a minha ptria foi uma voz tremenda aque me bradava aos ouvidos: Se no sares daqui, infalivelmente perecers. Piedade Por que escolheste este caminho?

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    Cristo Porque Deus assim o quis. Eu estava trmulo e chorando, sem saber para onde fugir, quando me saiu ao encontro um homem, chamado Evangelista, que me encaminhou para a porta estreita, que eu sozinho, nunca teria encontrado, e me indicou a estrada que diretamente me trouxe a este lugar. Piedade E passaste pela casa de Intrprete? Cristo Passei, e por muito que eu viva jamais esquecerei as coisas que l aprendi, principalmente trs: 1) Como Cristo mantm no corao a obra da graa, a despeito dos esforos de Satans; 2) Como o homem, pelo excesso dos seus pecados, chega a desesperar da misericrdia de Deus; 3) A viso do que, sonhando, presenciava o julgamento universal. Piedade Ouviste-lhe contar este sonho? Cristo - Ouvi, e era, na verdade, terrvel. Agora, porm, muito folgo de o ter ouvido contar. Piedade - E nada mais viste em casa de Intrprete? Cristo Vi um magnfico palcio, cujos habitantes estavam vestidos de ouro. entrada do palcio vi um homem ousado que, abrindo caminho por entre a gente armada que se lhe opunha, conseguiu entrar, ao mesmo tempo que ouvia as vozes dos habitantes, que o animavam a conquistar a glria eterna. De bom grado teria ficado um ano inteiro naquela casa, mas ainda tinha muito que andar, e por isso parti dali e continuei o meu caminho. Piedade E depois, que viste? Cristo Pouco tinha andado, quando vi um homem pregado numa cruz, todo cheio de feridas e de sangue. Ao avist-lo, caiu dos meus ombros um peso muito incmodo, sob o qual eu ia gemendo. Foi grande a minha surpresa, porque nunca tinha visto coisa semelhante. E, enquanto eu, admirado, olhava para aquele homem, acercaram-me de mim trs personagens resplandecentes; um disse-me que os meus pecados ficavam perdoados; outro tirou-me os andrajos que me cobriam, e deu-me este esplndido vestido que vs, e, finalmente, o terceiro selou-me na fronte e me deu este diploma. Piedade Continua. Mais alguma coisa hs de ter visto. Cristo J vos referi o principal e o melhor. Tambm encontrei trs indivduos, Simples, Preguia e Presuno, adormecidos fora da estrada, com cadeias aos ps e a quem debalde tentei acordar. Encontrei depois Hipocrisia e Formalista, que saltaram por cima do muro,

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    pretendendo ir para Sio; mas perderam-se pouco depois, por no quererem dar-me ouvidos. Tambm achei muito penosa a subida do desfiladeiro, e ainda mais terrvel a passagem por entre as bocas dos lees. Se no fosse o porteiro que me animou com as suas palavras, talvez tivesse voltado para trs. Mas, graas a Deus, eis-me felizmente aqui e agradeo-vos a bela hospedagem que me dispensais. Prudncia, tomando ento a palavra, perguntou-lhe: Prudncia No pensas algumas vezes no pas que deixaste? Cristo Sim, senhora, posto que com muita repugnncia e vergonha. Se eu o tivesse desejado poderia ter voltado para trs, porque bastante tempo e bastante ocasio tive para o fazer; aspiro todavia, a uma ptria melhor, a ptria celestial (Hebreus 11:15-16). Prudncia No trazes contigo algumas das coisas com que estavas familiarizado antes de partir? Cristo Trago, sim, senhora; mas bem contra a minha vontade, especialmente os meus pensamentos carnais, que tanto me agradavam e aos meus patrcios. Agora, porm, estas coisas me pesam tanto que, se apenas dependesse da minha vontade nunca mais pensaria nelas. No entanto, quanto mais quero fazer o que melhor, tanto mais pratico o pior (Romanos 7:15-21). Prudncia E no sentes, algumas vezes quase vencidas as coisas que em outras ocasies, te enchiam de confuso? Cristo Sinto, mas poucas vezes; apesar disso, quando tal me sucede, parece-me que as horas so para mim de ouro. Prudncia E te recordas dos meios pelos quais vences esses males em tais ocasies? Cristo Se me recordo? Quando medito no que vi, e no que se passou junto Cruz; quando contemplo este vestido bordado; quando me alegro em olhar para este diploma, e quando penso no que me espera, se tiver a felicidade de chegar ao lugar para onde me dirijo, oh! Ento parece-me que esses males que tanto me afligem, todos desaparecero para mim. Prudncia E por que motivos tanto anelas por chegar ao monte Sio? Cristo Oh! Porque espero encontrar, vivo, Aquele que h pouco vi pregado na cruz; espero, quando l chegar, ver-me livre do que tanto me oprime agora, porque ali no entra a morte, e porque terei nesse lugar a companhia, que mais me agrada (Isaas 25.8; Apocalipse 21.3-4). Amo muito Aquele que, com sua morte, me livrou do fardo que me sobrecarregava. As minhas enfermidades interiores tm-me afligido muito. Desejo chegar

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    ao pas onde no haver mais morte, e anseio ter por companheiros aos que esto cantando sem cessar: Santo, Santo, Santo! Caridade tomou ento a palavra: Caridade Tens famlia? s casado? Cristo Tenho mulher e quatro filhos. Caridade Ento por que no os trouxeste contigo? Cristo (chorando). Da melhor boa vontade os teria trazido; mas, infelizmente, todos cinco eram contrrios minha viagem, e opuseram-se a ela com todas as suas foras. Caridade Mas tu devias ter-lhes falado, e te esforado por convenc-los do perigo que corriam. Cristo Fiz, patenteando-lhes tambm o que Deus me havia declarado acerca da runa da nossa cidade. Mas julgaram-me louco, e no me prestaram ouvidos (Gnesis 19.14); advertindo que juntei a este conselho uma fervorosa orao ao Senhor, porque eu queria muito minha mulher e a meus filhos. Caridade Suponho que lhes falarias com bastante energia da tua dor e do medo que tinhas da destruio, porque creio que verias bem claramente quo iminente estava a tua runa. Cristo E, na verdade, assim o fiz, no uma mas muitas vezes, e, alm disso, o meu temor era bem patente no meu semblante, nas minhas lgrimas e no receio que me infundia a idia do julgamento que pesava sobre nossas cabeas. Mas nada foi bastante para os persuadir a que me seguissem. Caridade E que alegaram para no te seguirem? Cristo Minha mulher temia perder este mundo, e meus filhos estavam inteiramente entregues aos prazeres da juventude; eis o motivo por que, tanto aquele como estes, me deixaram empreender, sozinho, a minha viagem. Caridade E no serias tu quem, pela tua vida v, inutilizastes os conselhos que lhes davas, de te seguirem? Cristo Verdade que nada posso dizer em defesa da minha vida, porque conheo quanto ela tem sido imperfeita, e tambm sei que qualquer homem pode anular, pela sua conduta, o que procura persuadir a outrem pela palavra, para seu bem. Mas o que eu posso garantir que evitava cuidadosamente dar-lhes ocasio, com qualquer ao menos conveniente, para que eles se esquivassem a acompanhar-me na minha peregrinao; e tanto assim que me acusavam de exagerado e de privar-me, por causa deles, de coisas em que, a seu ver, no

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    havia mal algum; e posso ainda acrescentar que, se o viam em mim os ofendia, era a minha delicadeza em no pecar contra Deus e em no causar prejuzo ao meu prximo. Caridade certo que Caim aborreceu seu irmo (I Joo 3:12), porque as obras de Abel eram boas, e as dele eram ms; e foi essa a causa porque tua mulher e teus filhos se indispuseram contigo; mostraram-se, por esse procedimento, implacveis para com o bem, e tu livraste a tua alma do sangue deles (Ezequiel 3:19). Observei mais, em meu sonho, que assim continuaram a conversar, at que a ceia se aprontou, depois do que se assentaram mesa, que estava provida de substanciosos manjares e excelentes vinhos. A conversao, durante a ceia, versou sobre o Senhor do Desfiladeiro, sobre o que Ele tinha feito e as razes que o haviam determinado a edificar aquela casa. Pelo que ouvi, pude compreender que tinha sido um grande guerreiro, e que combatera e vencera aquele que tinha o poder da morte (Hebreus 2:14-15), mas no sem correr grande perigo, o que lhe dava jus a ser tanto mais amado. Porque, segundo disseram, e eu julgo ter ouvido dizer a Cristo, o Senhor conseguiu esta vitria a custa de muito sangue; mas o que tornou esta graa mais gloriosa foi ter Ele feito s pelo amor que consagra a este pas. E a alguns da famlia ouvi mesmo dizer que o tinham visto e lhe haviam falado depois de Ele ter morrido na cruz e tambm afirmaram ter Ele dito que no era possvel encontrar outro igual, do oriente ao ocidente; e tanto assim se despojara da sua glria para levar a efeito o que praticou, e que o seu desejo era ter muitos que, com Ele, habitassem no monte Sio, para o que fizera prncipes aqueles que, por natureza, eram mendigos nascidos na lama (I Samuel 2:8; Salmo 113:8). Nesta conversao to agradvel, se entretiveram at alta noite, e se retiraram aos seus aposentos, depois de se haverem encomendado proteo do Senhor. O quarto destinado a Cristo era situado no andar superior do palcio; chamava-se Sala da Paz, e tinha uma janela que olhava para o nascente. Ali dormiu o nosso Peregrino, tranqilamente, at ao alvorecer, e, tendo acordado, entoou um cntico que, em maviosos versos, dizia: Oh! Quo agradveis so estas moradas! Na verdade, esta a casa do Senhor, e esta porta do cu! Bendito sejas, Jesus, que assim provs s necessidades dos pobres peregrinos, perdoando-lhes os seus pecados, e permitindo que repousem nas alturas Depois de todos levantados, e de haverem trocado entre si as saudaes da manh, Cristo dispunha-se a partir, o que somente lhe permitiram depois de lhe haverem mostrado algumas coisas extraordinrias que havia no palcio. Levaram-no, em primeiro lugar, no Arquivo, onde lhe apresentaram a rvore genealgica do Senhor, e segundo a qual Ele descendia nada menos do que do Ancio de Dias, tendo sido concebido entre resplendores eternos, antes que existisse o luzeiro da manh. Tambm ali viu escritas, em caracteres de luz, todas as suas aes e toda a sua vida, assim como os nomes de muitos centenas de servos que tinham conquistado reinos, praticado justia, alcanado promessas, vencido lees, extinguido terrveis incndios, evitado o fio da espada,

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    escapado a perigosas doenas, combatido valentemente nas guerras, e desbaratado os campos do inimigo (Hebreus 11:33-34). Mostraram-lhe depois, noutro lugar do Arquivo, a boa disposio, em que o Senhor estava de admitir ao seu favor qualquer pessoa que, em outros tempos, o tivesse combatido, ou aos seus desgnios. Igualmente lhe mostraram vrias resenhas de feitos ilustres tanto da antigidade como dos tempos modernos, e bem assim predies e profecias que, nas devidas pocas, se tm cumprido; tudo para o terror e confuso dos inimigos, e para satisfao e jbilo dos amigos. No dia seguinte, conduziram-no ao arsenal, onde lhe exibiram armaduras de toda espcie, que o Senhor tinha destinado aos peregrinos: espadas, escudos, elmos, couraas roda-orao e borzeguins que duram infinitamente. Era tal a profuso de apetrechos de guerra que seriam bastante para armar tantos homens no servio do seu Senhor como estrelas h no cu. Mostraram-lhe tambm os objetos com que alguns dos servos tinham feito prodigiosas maravilhas: a vara de Moiss, o prego e o martelo com que Jael matou Ssera; os cntaros, as buzinas e as lmpadas com que Gideo derrotou os exrcitos de Midi; a relha do arado com que Sangar matou seiscentos homens; a queixada com que Sanso fez grandes faanhas; a funda e a pedra com que Davi matou Golias de Gate, e a espada com que o Senhor matar o homem do pecado no dia em que este se levantar contra a presa; mostraram-lhe, em suma, muitas outras coisas excelentes, vista das quais Cristo se possuiu de inefvel alegria. E, como o dia tivesse declinado, de novo se entregaram ao repouso. No dia imediato, Cristo queria partir, mas pediram-lhe que se deixasse ficar mais um dia, para lhe mostrarem, se a atmosfera estivesse limpa, as montanhas das Delcias, a vista das quais muito contribura para o consolar, por se acharem aquelas montanhas mais prximas do porto aonde se dirigia do que do local em que atualmente se encontrava. Cristo acedeu ao pedido. Subiram, pois, de manh, ao terrao do palcio do lado que olha para o sul, e, grande distncia, pde Cristo descobrir um pas montanhoso e agradabilssimo, bordado de bosques, vinhas, pomares, e jardins de toda espcie, alternados com ribeiros e lagos de singular beleza (Isaas 33:16-17). Esse pas, lhe disseram, o pas de Emanuel, e to livre, como este lugar, para todos os peregrinos. Davi avistars a porta da Cidade Celestial. Os pastores daquelas montanhas te ensinaro o caminho.

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    Captulo 9 Cristo chega ao vale da Humilhao, onde assaltado pelo feroz Apolio, mas vence-o com a espada do Esprito e com a f na palavra de Deus. Resolveu-se, ento, a partida do nosso peregrino, com o consentimento dos habitantes do palcio; antes, porm, de partir, levaram-no outra vez ao arsenal, onde o armaram com armas de finssima tmpera, para se defender no caminho, caso fosse atacado. Em seguida, acompanharam-no at porta, onde ele perguntou ao porteiro se, durante a sua estada no palcio, tinha passado algum viajante. O porteiro respondeu-lhe afirmativamente. Cristo Acaso o conheces? Porteiro No, mas perguntei-lhe o seu nome e disse-me que se chamava Fiel. Cristo Ah! J sei quem ! Conheo-o perfeitamente; meu patrcio e vizinho, e vem da minha terra. Ir j muito distante? Porteiro Deve ir l para o fim da encosta. Cristo Obrigado, bom homem! Que o Senhor seja contigo e te aumente as suas bnos pelo bem com que me trataste. E partiu. Discrio, Piedade, Caridade e Prudncia quiseram acompanh-lo at o fim do desfiladeiro, e foram todos conversando nos assuntos de que j tinham tratado. Chegados encosta, disse: Cristo A subida pareceu-me difcil, mas a descida no h de ser menos perigosa. Prudncia Assim . H sempre perigo em escorregar para o homem que desce ao vale da Humilhao, para onde te diriges; Por isso viemos acompanhar-te. Cristo ia descendo com muita cautela, mas no sem tropear mais de uma vez. Quando chegaram ao fim da ladeira, as personagens que o acompanhavam despediram-se dele, deram-lhe um po, uma garrafa de vinho e um cacho de uvas. Assim que entrou no vale, comeou Cristo a ver-se em apuros. Apenas dera alguns passos, saiu-lhe ao encontro um abominvel demnio, chamado Apolio. Cristo teve medo, e comeou a refletir se seria melhor fugir ou conservar-se firme no seu posto. Mas lembrou-se de que a armadura no lhe protegia as costas e que, portanto, volt-las ao inimigo seria dar-lhe grande vantagem, porque poderia feri-lo com as suas setas.

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    Decidiu-se, pois, ter valor e a manter-se firme, nico recurso que lhe restava para manter a vida. Deu mais alguns passos, e achou-se frente a frente com o inimigo. Era horrvel o aspecto do monstro; estava coberto de escamas, semelhantes s dos peixes; tinha asas como de drago, e patas de urso; do ventre saa-lhe fumo e fogo, e a sua boca era semelhante boca do leo. Ao aproximar-se de Cristo, lanou-lhe um olhar de desprezo e falou-lhe nestes termos: Donde vens, e para onde vais? Venho da Cidade da Destruio, albergue de todo o mal, e vou para a Cidade de Sio. Queres dizer com isso que eras meu sdito, porque todo aquele pas me pertence, e nele domino como prncipe e deus. E te atreveste a revoltar-te contra o domnio do teu rei? Ah! Se no fora esperar que ainda me servirs de muito, esmagar-te-ia dum s golpe! certo que nasci nos teus domnios; mas o teu servio era to pesado, e a paga to miservel, que nem sempre chegava para viver, porque o estipndio do pecado a morte (Romanos 6:23). De modo que, quando cheguei a ter uso da razo, fiz como a gente de juzo: tratei de melhorar a minha sorte. Nenhum prncipe gostar de perder os seus sditos por to pouca coisa; e eu, por minha parte, no te quero perder. Ora, como te queixas do servio e da paga, volta de boa vontade para a tua terra, que eu prometo dar-te tudo quanto se pode dar nos meus domnios. Estou agora a servio do Rei dos reis, de modo que no posso ir outra vez contigo sem faltar ao que justo. Andaste de mal a pior, como diz o refro; mas, ordinariamente, os que tm professado serem servos de tal rei, emancipam-se depressa do seu jugo, e, tomando melhor conselho, voltam outra vez para mim. Faze tu como eles, e tudo te correr bem. Dei-lhe a minha palavra e jurei-lhe fidelidade; se desistisse agora, no mereceria ser enforcado por traidor? Assim te portaste para comigo, e, apesar disso, estou disposto a esquecer tudo, se quiseres voltar. As promessas que fiz foram feitas antes de eu chegar adolescncia, e no tm valor algum por isso mesmo. Ademais, espero que o Prncipe, sob cujas bandeiras agora sirvo, me absolvir e me perdoar tudo quanto fiz para te agradar. E, sobretudo, quero falar-te francamente: o seu servio, a sua paga, os seus servos, o seu governo, a sua companhia e o seu pas agradam-me muitssimo mais do que os teus. Perdes o teu tempo se intentas persuadir-me do contrrio; sou seu servo, e estou resolvido a segui-lo.

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    J que ainda conservas serenidade e sangue frio, pensa bem no que provavelmente encontrars nesse caminho. Tu sabes que a maior parte dos seus servos tem um fim desgraado, por haverem transgredido contra mim e contra as minhas intenes. Quantos no tm sido vtimas duma morte vergonhosa! Alm disso, se o seu servio melhor do que o meu, por que motivo no saiu ainda do lugar onde est para livrar os que o servem? Eu sou o contrrio: quantas vezes, como pode atestar o mundo inteiro, ou por fora ou por astcia, no tenho eu livrado os que me servem fielmente das mos dele e dos seus, apesar de os terem debaixo do seu poder? Prometo-te que farei o mesmo por ti. Se Ele demora em livr-los, segundo parece, na verdade, para mais evidentemente provar o seu amor e ver se lhe permanecem fiis at o final. Quanto ao fim desgraado que dizes, muitos tiveram, foi esse seguramente, o fim mais glorioso que podiam ter. Porque, salvao presente no esperam eles, que sabem que preciso tempo para chegar glria, e esta t-la-o quando o seu Prncipe vier na Sua glria, e na dos anjos. Como podes tu pensar em receber salrio, se j foste infiel no teu servio? Em que fui infiel? Ora essa! Logo que saste de casa desfaleceste, quando te viste em risco de te afogares no Pntano da Desconfiana; depois tentaste, por diversos modos, desfazer-te do fardo que te pesava, em lugar de esperares, como devias, que o teu Prncipe te livrasse dele. Em seguida, adormeceste culpavelmente, perdendo nessa ocasio o objeto mais precioso que possuas. O medo dos lees quase te fez voltar, e, sobretudo, quando falas da tua viagem e do que tens visto e ouvido, domina-te o esprito da vanglria. Tens muita razo nisso que dizes, e muito mais podias ainda dizer, mas o Prncipe a quem sirvo e venero misericordioso e perdoador! Alm disso, esqueces, sem dvida, que essas fraquezas se apoderaram de mim enquanto eu estava no teu pas; ali fui vencido por elas, e custaram-me muitos pesares e muitos gemidos, mas arrependi-me de tudo, e o meu Prncipe perdoou-me! Apolio, que j no podia conter a raiva de que j estava possudo, rompeu nestes improprios: Sou inimigo desse Prncipe, aborreo a sua pessoa, as suas leis, e o seu povo, e venho no firme propsito de te impedir o passo. Cristo - V bem o que fazes, Apolio, porque eu estou na estrada real, no caminho da santidade, e, por conseguinte, muito superior a ti. Ao ouvir isto, Apolio estendeu as pernas at tomar toda a largura do caminho, e disse: No julgues que tenho medo de ti; prepara-te para morrer, pois, juro-te, pelo abismo infernal em que habito, que no passars daqui. Vou arrancar-te a alma. E, ao mesmo tempo, despediu com grande fria um dardo de fogo contra o peito de Cristo. Este, que tinha o escudo no brao, apanhou nele o golpe e escapou ao perigo.

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    Cristo desembainhou logo a espada, reconhecendo que era tempo de acometer, e Apolio lanou-se sobre ele, despedindo raios to bastos como granizo, a ponto de ferir Cristo na cabea, nas mos e nos ps, apesar dos esforos que empregava para se defender. Estas feridas fizeram-no recuar um pouco, circunstncia que Apolio aproveitou para voltar ao assalto com maior energia; mas Cristo, reanimando-se, resistiu com maior denodo. Esta furiosa luta prolongou-se at perto do meio-dia, hora em que se esgotaram as foras de Cristo, que por causa das feridas, ia enfraquecendo cada vez mais. Apolio no deixou de aproveitar esta vantagem, e, abandonando os dardos, acometeu-o corpo a corpo. O choque foi to rude que Cristo deixou cair a espada. Agora s meu! Exclamou Apolio, estreitando-o com tanta fora que por pouco no o abafou. Cristo sups que ia morrer; mas quis Deus que, no momento em que Apolio ia descarregar o ltimo golpe, Cristo lanasse rapidamente mo da espada, que estava no cho, e exclamasse: No te alegres, inimigo meu, porque, se caio, tambm me levanto (Miquias 7:8). E atirou-lhe uma estocada mortal, que o obrigou a se retirar, como quem recebe o ltimo golpe. Ao ver isto, Cristo redobra a energia, e ataca-o de novo, dizendo: Em todas estas coisas samos mais que vencedores por Aquele que nos amou (Romanos 8:37). Apolio abriu as suas asas de drago, fugiu apressadamente, e Cristo no o viu mais (Tiago 4:7). S quem, como eu, presenciou este combate pode fazer idia dos espantosos e horriveis gritos e bramidos que Apolio soltou durante a luta. A sua voz era semelhante do drago, e se contrastava com os suspiros e gemidos lastimosos que saam do corao de Peregrino. Longa foi a peleja, e durante ela s brilhou nos olhos de Cristo um olhar de alegria quando feriu Apolio com a sua espada de dois gumes. Olhou ento para o cu e sorriu. Nunca presenciei uma luta to encarniada! Terminado o combate, pensou Cristo em dar graas quele que o livrara da boca do leo, quele que o auxiliara contra Apolio. E, ajoelhando-se, exclamou: Belzebu tinha resolvido perder-me, enviando armado contra mim esse sequaz: longo foi o combate, terrvel foi a luta; mas o Bendito, o Santo, veio em meu auxlio, obrigou-o a fugir pela fora da minha espada: louvado seja o Senhor eternamente, graas e bnos mil sejam dadas ao Seu nome santssimo. Ento, uma mo misteriosa lhe ministrou algumas folhas da rvore da vida (Apocalipse 22:2). Cristo aplicou-as sobre as feridas que recebera na peleja, e ficou de todo curado. Depois assentou-se naquele lugar, para comer do po e beber do vinho que pouco antes lhe tinham dado. Assim fortalecido, seguu seu caminho, levando na mo a espada desembainhada, com receio de que algum outro inimigo lhe sasse ao encontro. Nada mais, porm, se lhe ops em todo o vale.

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    Passado o Vale da Humilhao, entrou no Vale da Sombra da Morte, que atravessado pelo caminho que conduz Cidade Celestial. Este vale muito solitrio, como n-lo descreve o profeta Jeremias. Um deserto, uma terra despovoada e sem caminho, terra de sede, imagem da morte, terra na qual no andou varo sem ser cristo, nem habitou homem (Jeremias 2:6). Se lhe fora terrvel a luta entre Cristo e Apolio, no o foi menos a que ele teve de sustentar neste vale.

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    Captulo 10 Cristo sofre muitas aflies no Vale da Sombra da Morte; mas, tendo aprendido pela experincia, quanto convm andar vigilante, recorre espada e orao, passando, assim, com toda a segurana e sem o menor dano. Apenas transpusera o limite que separa o Vale da Humilhao do da Sombra da Morte, encontrou dois homens que voltavam a toda pressa e eram filhos daqueles que inflamaram o pas que tinham visto (Nmeros 13:33). Cristo perguntou-lhes para onde iam. Homens Para trs, para trs; se tens em alguma conta a tua vida e o teu sossego, aconselhamos-te a que faas outro tanto. Cristo Ento, por que? Homens Ns amos caminhando na direo em que tu vais, e avanvamos at onde a audcia nos ajudou, mas nem sabemos como pudemos voltar, pois se tivssemos dado mais alguns passos, no estaramos decerto aqui para te avisar. Cristo Mas o que foi que encontrastes? Homens O que encontramos? Estivemos quase no meio do Vale da Sombra da Morte; mas, felizmente, olhamos para a frente e descobrimos o perigo antes de nos aproximarmos dele. (Salmos 44:19). Cristo Qual perigo? Homens Qual perigo? O prprio vale, que negro como pez. Vimos l fantasmas, lobisomens e drages do abismo. Depois, um contnuo gemer e gritar, como de pessoas que se acham na mais afrontosa situao e que sofrem as maiores aflies e torturas. Sobre o vale pairam as horrorosas nuvens da confuso, e a morte estende constantemente por cima deles as suas negras asas. Numa s palavra, ali tudo horror, tudo espantosa desordem (J 3:5-10, 22). Cristo Pelo que dizeis, cada vez me persuado mais de que este caminho que devo seguir, para chegar ao porto desejado (Salmos 44:18). Homens Se o achas bom, vai andando; c, para ns no serve.

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    E separaram-se de Cristo, que continuou o seu caminho, conservando a espada desembainhada, com receio de ser atacado. E, no meu sonho, alonguei a vista por toda a extenso do vale. Vi, direita da estrada, o fosso profundssimo para onde uns cegos tm guiado outros cegos, durante o correr dos tempos, tendo todos perecido miseravelmente. esquerda, vi um atoleiro perigosssimo, onde todo aquele que ali cai, por melhor que seja, no pode encontrar p; nele caiu o rei Davi uma vez, e sem dvida se teria afogado se o no tivesse livrado Aquele que tem poder para isso (Salmos 69:14). O caminho era to apertado que Cristo andava com grandes dificuldades, porque, como estava em trevas, se tentava afastar-se do fosso, arriscava-se a cair no atoleiro, e, quando queria fugir deste, estava a ponto de se precipitar naquele. Assim caminhou, dando amargos suspiros, porque, alm dos perigos j citados, o caminho era to escuro que, se levantava um p para dar um passo, no sabia onde depois ia assent-lo. Pouco mais ou menos a meio deste vale, abria-se a boca do inferno, junto estrada. Ao chegar ali, foi horrvel a situao de Cristo; no sabia o que havia de fazer; via sair chamas e fumo, em tanta quantidade, envolta em fascas e rugidos infernais, que, reconhecendo que a espada com que vencera Apolio para nada lhe serviria, resolveu embainh-la e lanar mo doutra arma, isto , a arma da orao (Efsios 6:18), e assim exclamou: Livra, Senhor, a minha alma (Salmos 116:4). E seguiu avante, envolto, de vez em quando, por terrveis chamas. Outras vezes, ouvia tristes lamentos, correndo dum para outro lado, de modo que julgava que ia ser desfeito ou calcado como a lama das ruas. Este espetculo horroroso e estes rudos terrveis acompanharam-no durante lguas de caminho. Chegou, finalmente, a um lugar onde julgou ouvir aproximar-se uma legio de inimigos. Por isso, deteve-se e ps-se a pensar seriamente no que conviria fazer. Por um lado parecia-lhe melhor voltar para trs, mas por outro, logo se lembrava de que j ia talvez em mais da metade do vale. Tambm se recordou de que j tinha vencido muitos perigos, e de que o risco de se retirar poderia ser maior do que o de avanar; resolveu, portanto, a prosseguir. Mas, como os inimigos pareciam aproximar-se cada vez mais, e quase a tocar-lhe, exclamou com toda a fora da sua voz: Caminharei na fora do Senhor. A estas palavras, os inimigos puseram-se em fuga, e no tornaram a persegui-lo. A minha ateno fixou-se ento sobre um fato que no posso deixar de referir. Notei que o pobre Cristo estava to assustado que no conhecia a sua prpria voz, e notei-o pelas circunstncias que passo a relatar. Quando Cristo chegou beira do abismo incandescente, um dos demnios aproximou-se dele, sem ser pressentido, e segredou-lhe ao ouvido muitas e mui terrveis blasfmias, e o pobre Cristo julgava ser a sua prpria alma que as proferia. Este fato afligiu Cristo mais do que tudo quanto at ali havia sucedido: pensar que blasfermara daquele a quem tanto amara antes! No teve, porm a lembrana de tapar os ouvidos, nem de averiguar de onde vinham aquelas blasfmias.

  • John Bunyan _____________________

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    Havia bastante tempo que se achava nesta triste situao, quando julgou ouvir a voz de um homem, que caminhava na sua frente, exclamando: Ainda quando andar no meio do vale da sombra da morte, no temerei males, porquanto tu ests comigo (Salmos 23:4). Estas palavras alegraram-no, por muitos motivos: 1- Porque elas lhe provavam que mais algum que temia a Deus se achava igualmente neste vale; 2- Porque percebia que Deus estava com esse algum, apesar da obscuridade e tristeza que os rodeavam. E por que no h de estar tambm comigo? Pensou Cristo consigo mesmo, ainda que o no perceba, visto o lugar em que estou? (J 9:11). 3- Porque desejava gozar da companhia daquele ou daqueles cuja voz ouvira, se lograsse alcan-los. Cobrou nimo, e resolveu continuar a sua marcha, chamando por aquele que o precedia, mas este, que tambm se julgava s, nunca respondeu. Comeava, ento, a raiar a aurora, e Cristo exclamou: Ele troca em manh as trevas (Ams 5:8). Em seguida apareceu o dia, e Cristo continuou: E muda a noite em dia. Sendo j claro, olhou para trs, no porque desejasse retroceder, mas para ver, claridade do sol, os perigos por que tinha passado durante a noite. Viu, ento, perfeitamente, o abismo dum lado e o pntano do outro lado, e considerou quo estreita era a vereda que passava por entre ambos; igualmente viu os fantasmas, os lobisomens, je os drages do abismo, mas todos mui distantes, jporque no se atreviam a aproximar-se da luz do di