O Problema do Ser - ebookespirita.org · Espiritismo – Filosofia 2. Ontologia I. Título. II....

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  • LON DENIS

  • O Problema do SerCopyright by Petit Editora e Distribuidora Ltda. 2000

    1a- edio: maio/00 - 15.000 exemplares

    Direo editorial: Flvio MachadoCoordenao editorial: Slvia Sampaio RibeiroTraduo: Renata Barboza da Silva Simone T. Nakamura Bele da SilvaTextos doutrinrios conferidos e anotados por: Mrio Rasteiro da FonsecaCapa (criao): Flvio MachadoDiagramao: Marcio da Silva BarretoReviso: Sheila T. Fabre Leticia Castello Branco BraunFotolito da capa: DiarteImpresso: Cromosete Grfica e Editora Ltda

    ndices para catlogo sistemtico:

    1. Ser: Espiritismo: Filosofia 133.901

    Direitos autorais reservados. proibida a reproduo total ou parcial, de qualquer formaou por qualquer meio, salvo com autorizao da editora. Ao reproduzir este ou qualquerlivro pelo sistema de fotocopiadora ou outro meio, voc estar prejudicando a editora,o autor e voc mesmo. Existem outras alternativas, caso voc no tenha recursos paraadquirir a obra. Informe-se, melhor do que assumir dbitos.

    Impresso no Brasil, no outono de 2000.

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Denis, Lon, 1846 - 1927.O problema do ser: 1 parte / Lon Denis;

    [traduo Renata Barboza da Silva, Simone T. NakamuraBele da Silva]. So Paulo : Petit, 2000. (Coleo oproblema do ser, do destino e da dor)

    Ttulo original: Le probleme de ltre.ISBN 85-7253-064-9

    1. Espiritismo Filosofia 2. Ontologia I. Ttulo.II. Srie.

    00-1422 CDD133.901

  • Rua Atua, 383 - Vila Esperana/PenhaCEP 03646-000 - So Paulo - SP

    Fone: (0XX11) 6684-6000Endereo para correspondncia:

    Caixa Postal 67545 - Ag. Almeida Lima03102-970 - So Paulo - SP

    [email protected]

    LON DENIS

    Estudos Experimentais sobre os AspectosIgnorados do Ser Humano As Personalidades

    Duplas A Conscincia Profunda A Renovaoda Memria As Vidas Anteriores e Sucessivas, etc.

    Nova EdioConforme edio de 1922

    da Unio Esprita Francesa e Francfila

  • Um dos mais extraordinrios espritas de todos os tempos.Sucessor e propagador da obra de Allan Kardec, a qual am-

    pliou em termos filosficos.Seus elevados conceitos doutrinrios, alicerados na mais

    pura moral crist e nos ensinamentos dos espritos, lanaramnovas luzes sobre a Doutrina Esprita, que enfrentava, na poca,a contestao e o desprezo de grupos religiosos e cientfico-materialistas. Lon Denis a todos respondia com a sua mais puranaturalidade, baseando-se nos ensinamentos do Cristo e na maisalta inspirao dos seus mentores, que, como ele prprio confes-sava, nessas horas nunca o abandonaram.

    Era tambm um orador excepcional que sempre atraa multi-des. Sua vida era regrada pelos exemplos do Divino Mestre,tendo para todos e a qualquer momento sempre uma palavra denimo, quando no a prpria ajuda material que para ele mesmoj era escassa.

    Atrs de si deixou o exemplo da caridade, da renncia e dotrabalho.

    Sua obra doutrinria bsica e enfoca os problemas daangstia e da dor, a destinao do homem e a maneira de com-preender e equacionar os obstculos da vida terrena.

    Destacamos as seguintes obras de sua autoria: Depois damorte, Cristianismo e Espiritismo, Joana DArc mdium, O porquda vida e No invisvel. Desencarnou trabalhando, aos 81 anos.

    LON DENIS (1846/1927)

  • Introduo .............................................................................. 7

    1 A evoluo do pensamento ............................................. 19

    2 O critrio da doutrina dos espritos .................................. 27

    3 O problema do ser ........................................................... 49

    4 A personalidade integral ................................................... 56

    5 A alma e os diferentes estados do sono.......................... 66

    6 Desprendimento e exteriorizao. Projees telepticas .... 79

    7 Manifestaes depois da morte ....................................... 87

    8 Estados vibratrios da alma. A memria ......................... 96

    9 Evoluo e finalidade da alma..........................................101

    10 A morte...........................................................................111

    11 A vida no alm ...............................................................126

    12 As misses, a vida superior ...........................................136

    SUMRIO

  • INTRODUO

    Uma observao dolorosa surpreende opensador na velhice. Ela se torna ainda maislastimvel em conseqncia das impressesexperimentadas em seu giro pelo mundo es-piritual, e ele ento reconhece que o ensina-mento ministrado pelas instituies humanasem geral religies, escolas, universidades ,se nos ensinam muitas coisas suprfluas, emcompensao no nos ensinam quase nada do que mais temosnecessidade de conhecer para a nossa conduta: a direo daexistncia terrestre e a preparao para o alm.

    Aqueles a quem cabe a alta misso de esclarecer e guiar aalma humana parecem ignorar sua natureza e seus verdadeirosdestinos.

    Nos meios universitrios, uma completa incerteza ainda reinasobre a soluo do problema mais importante com que o homem sedefronta no decorrer de sua passagem pela Terra. Essa incertezase reflete em todo o ensino. Uma boa parte dos professores epedagogos afasta sistematicamente de suas lies tudo o que serefere ao problema da vida, s questes de seu objetivo e finalidade.

    Encontramos a mesma dificuldade nos lderes religiosos. Porsuas afirmaes desprovidas de provas, conseguem comunicars almas sobre as quais tm responsabilidade apenas uma cren-a que no responde mais lgica de uma crtica s nem sexigncias da razo.

    A rigor, na universidade, assim como na Igreja, modernamentea alma encontra somente obscuridade e contradio em tudo quediz respeito ao problema de sua natureza e de seu futuro. a esseestado de coisas que preciso atribuir, em grande parte, os males

    Apesar de ter sido escrito em1908, o leitor notar ao longodeste e dos demais livrosdesta coleo que o autorestava to bem assessoradopela espiritualidade que estaobra to atual quanto se ti-vesse sido escrita nos dias dehoje.

    Esta introduo amesma para os trsvolumes da ColeoLon Denis (O pro-blema do ser, O pro-blema do destino eO problema da dor).

  • de nosso tempo: a incoerncia das idias, a desordem daconscincia, a anarquia moral e social.

    A educao dispensada s geraes complicada: no lhesesclarece o caminho da vida e no as estimula para as lutas daexistncia. O ensino clssico habilita a cultivar, a ornar a intelign-cia, mas no ensina a agir, a amar, a se dedicar nem a alcanaruma concepo do destino que desenvolva as energias profun-das do eu e oriente nossos impulsos, nossos esforos, para umobjetivo elevado. No entanto, essa concepo indispensvel atodo ser, a toda sociedade, porque o sustentculo, a consolaosuprema nas horas difceis, a fonte das virtudes atuantes e dasaltas inspiraes.

    Carl du Prel* relata o seguinte fato1:Um dos meus amigos, professor da universidade, sentiu a

    dor de perder sua filha, o que reavivou nele o problema da imorta-lidade. Ele se dirigiu aos seus colegas, professores de filosofia,esperando encontrar consolao em suas respostas. Teve umaamarga decepo: havia pedido po e lhe ofereciam pedra; pro-curava uma afirmao e respondiam-lhe com um talvez.

    Francisque Sarcey, modelo completo do professor da uni-versidade, escreveu2: Estou na Terra. Ignoro absolutamente comovim e como fui lanado aqui. Ignoro ainda mais como sairei daquie o que acontecer quando sair.

    No se pode confessar mais francamente: a filosofia da es-cola, aps tantos sculos de estudo e trabalho, ainda apenasuma doutrina sem luz, sem calor, sem vida3. A alma de nossosfilhos, sacudida entre sistemas diversos e contraditrios opositivismo de Augusto Comte, o naturalismo de Hegel, o materia-lismo de Stuart Mill, o ecletismo de Cousin**, etc. , flutua incerta,sem ideal, sem um objetivo preciso.

    * Carl du Prel (1839-1899): destacado filsofo alemo e um dos importantes pensadoresmodernos, grande defensor das idias espritas no seu tempo contra os materialistas.Deixou muitas obras publicadas (Nota do Editor).1 - Carl du Prel. La mort et lau-del (A morte e o alm).2 - Petit Journal, Crnica, 7 de maro de 1894.3 - A propsito dos exames universitrios, M. Ducros, sub-reitor da Faculdade de Aix,escreveu no Journal des Dbats (Jornal dos Debates), em 3 de maio de 1912: Pareceque existe entre o discpulo e as coisas como que um anteparo, no sei que nuvem depalavras aprendidas, fatos dispersos e opacos. sobretudo na filosofia que se provaesta triste impresso.** Augusto Comte (francs), J.G. Friedrich Hegel (alemo), J. Stuart Mill (ingls) e VictorCousin (francs): filsofos de grande influncia. Positivismo, naturalismo e materialismoso doutrinas filosficas; ecletismo um mtodo que consiste em reunir teses de dou-trinas diversas (N.E.).

  • Da o desnimo precoce e o pessimismodesanimador, doenas das sociedades deca-dentes, ameaas terrveis para o futuro, squais se acrescenta o ceticismo amargo e zom-beteiro de tantos jovens que acreditam ape-nas no dinheiro e honram apenas o sucesso.

    O ilustre professor Raoul Pictet assinala esse estado de esp-rito na introduo de sua ltima obra sobre as cincias psquicas4.Ele fala do efeito desastroso produzido pelas teorias materialistassobre a mentalidade de seus alunos e conclui assim:

    Esses pobres jovens admitem que tudo o que se passa nomundo efeito necessrio e fatal de condies primrias, emque a vontade no intervm. Consideram que sua prpria exis-tncia , forosamente, joguete da fatalidade inevitvel, qualesto ligados, de ps e mos atados. Esses jovens param delutar logo que encontram as primeiras dificuldades. No acreditammais em si mesmos. Tornam-se tmulos vivos, onde guardam,confusamente, suas esperanas, seus esforos, seus desejos,fossa comum de tudo o que lhes fez bater o corao at o dia doenvenenamento. Tenho visto esses cadveres diante de suascarteiras e no laboratrio, e tm-me causado pena.

    Tudo isso no somente aplicvel a uma parte de nossajuventude, mas tambm a muitos homens de nosso tempo e denossa gerao, nos quais podemos constatar um sintoma de can-sao moral e de abatimento.

    F. Myers* tambm o reconhece: H como que uma inquietude,um descontentamento, uma falta de confiana no verdadeiro va-lor da vida. O pessimismo a doena moral de nosso tempo 5.

    As teorias de alm-Reno**, as doutrinas de Nietzsche, deSchopenhauer, Haeckel***, dentre outros, muito contriburam paradesenvolver esse estado de coisas. Sua influncia se espalhapor toda parte. Deve-se atribuir a eles, em grande parte, esse

    4 - tude critique du matrialisme et du spiritualisme, pour la physique exprimentale(Estudo crtico do materialismo e do espiritualismo pela fsica experimental).* Friedrich Myers (1834-1901): professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra).Seus estudos contriburam para o entrelaamento da cincia com a idia de um Criador.No meio cientfico defendeu postulados espritas, como as vidas sucessivas e a reencar-nao. Ferrenho opositor do materialismo, considerado uma das inteligncias brilhan-tes de sua poca (N.E.).5 - F. Myers. Human personality (Personalidade humana).** O autor, ao usar o termo alm-Reno, refere-se Alemanha (N.E.).*** Nietzsche, Schopenhauer, Haeckel: os dois primeiros filsofos e o ltimo bilogoalemes (N.E.).

    Note que, apesar de estelivro ter sido escrito noincio do sculo 20 (a 1edio de 1908), o assuntoainda bastante atual nosdias de hoje.

  • lento trabalho, obra obscura de ceticismo e desencorajamentoque se desenvolve na alma contempornea.

    tempo de reagir com vigor contra essas doutrinas funestase de procurar, fora da rbita oficial e das velhas crenas, novosmtodos de ensino que respondam s imperiosas necessidadesdo momento presente. preciso preparar os espritos para asnecessidades, os combates da vida atual e das vidas futuras; preciso, sobretudo, ensinar o ser humano a se conhecer, a de-senvolver, em vista de seus objetivos, as foras latentes quenele dormem.

    At aqui, o pensamento esteve limitado a crculos estreitos:religies, escolas ou sistemas que se digladiam e se combatemreciprocamente. Da essa diviso profunda das idias, essascorrentes violentas e contrrias que perturbam e transtornam omeio social.

    Aprendamos a sair desses crculos rgidos e a dar livreexpanso ao pensamento. Cada sistema contm uma parte deverdade; nenhum contm a realidade por completo. O universo e avida possuem aspectos bastante variados, bastante numerosospara que algum sistema possa abarcar todos. Dentre essasconcepes absurdas, preciso recolher os fragmentos deverdade que elas contm, aproxim-los e coloc-los de acordo.Depois, unindo-os aos novos e mltiplos aspectos da verdadeque descobrimos a cada dia, caminharmos rumo unidademajestosa e harmonia do pensamento.

    A crise moral e a decadncia de nossa poca provm, emgrande parte, do fato de o esprito humano ter se imobilizadodurante muito tempo. preciso tir-lo da inrcia, das rotinas se-culares, lev-lo s mais elevadas altitudes, sem perder de vistaas bases slidas que vm oferecer-lhe uma cincia engrandecidae renovada. essa cincia do amanh que trabalhamos para queseja constituda. Ela nos fornecer o critrio indispensvel, osmeios de verificao e de comparao sem os quais o pensamen-to, entregue a si mesmo, sempre correr o risco de se perder.

    *A perturbao e a incerteza que verificamos no ensino reper-

    cutem e se encontram, como dissemos, em toda ordem social.Por toda parte, h um estado de crise inquietante. Sob a

    superfcie brilhante de uma civilizao refinada, esconde-se ummal-estar profundo. A irritao cresce nas classes sociais. O con-flito de interesses, a luta pela vida tornam-se, dia a dia, maissperos. O sentimento do dever tem-se enfraquecido na cons-cincia popular a tal ponto que muitos homens nem mesmo

  • sabem onde est o dever. A lei do nmero, ou seja, da fora cega,domina mais do que nunca. Retricos* mentirosos dedicam-se adesencadear as paixes, os maus instintos da multido, a espa-lhar teorias nocivas, s vezes criminosas. Depois, quando a marsobe e o vento sopra em tempestade, eles se escondem e afas-tam de si toda responsabilidade.

    Onde est, ento, a explicao desse mistrio, dessa con-tradio notvel entre as aspiraes generosas de nosso tempoe a realidade brutal dos fatos? Por que um regime que havia des-pertado tantas esperanas ameaa chegar anarquia, rupturade todo o equilbrio social?

    A implacvel lgica vai nos responder: a democracia, radicalou socialista, nas massas profundas e em seu esprito dirigente,inspirando-se nas doutrinas negativistas, podia chegar somentea um resultado negativo para a felicidade e a elevao da huma-nidade. Tal o ideal, tal o homem; tal a nao, tal o pas!

    As doutrinas negativistas, em suas conseqncias extremas,levam fatalmente anarquia, ou seja, ao vcuo, ao nada social.A histria humana j teve, diversas vezes, essa dolorosa ex-perincia.

    Enquanto se tratou de destruir os restos do passado, de daro ltimo golpe nos privilgios que restavam, a democracia ser-viu-se habilmente de seus meios de ao. Porm, hoje, o queimporta construir a cidade do futuro, o vasto edifcio que deveabrigar o pensamento das geraes. E, diante dessas tarefas,as doutrinas mostram sua insuficincia e revelam sua fragilidade;vemos os melhores operrios se debaterem em uma espcie deimpotncia material e moral.

    Nenhuma obra humana pode ser grande e durvel se no seinspirar, na teoria e na prtica, em seus princpios e em suasaplicaes, nas leis eternas do universo. Tudo o que concebidoe edificado fora das leis superiores se constri na areia e afunda.

    Acontece que as doutrinas do socialismo atual tm um erroessencial. Elas querem impor uma regra em contradio com anatureza da verdadeira lei da humanidade: o nvel igualitrio.

    A evoluo gradual e progressiva a lei fundamental da natu-reza e da vida. a razo de ser do homem, a norma do universo.Posicionar-se contra ela, substituir-lhe por outro fim, seria toinsensato quanto querer parar o movimento da Terra ou o fluxo erefluxo das mars.

    * Retrico: nesse caso, orador que faz discurso pomposo e sem contedo (N.E.).

  • O lado mais fraco da doutrina socialista a ignorncia abso-luta do homem, de seu princpio essencial, das leis que dirigem oseu destino. E quando se ignora o homem individual, como sepoderia governar o homem social?

    A origem de todos os nossos males est em nossa falta desaber e em nossa inferioridade moral. Toda sociedade permane-cer fraca e dividida enquanto a desconfiana, a dvida, o egos-mo, a inveja e o dio a dominarem. No se transforma uma so-ciedade por meio das leis. As leis e as instituies no seriamnada sem os costumes, sem as crenas elevadas. Quaisquerque sejam a forma poltica e a legislao de um povo, se ele pos-sui bons costumes e convices firmes, ser sempre mais felize mais poderoso do que um outro povo de moralidade inferior.

    Para melhorar a forma de uma sociedade, sendo ela o resul-tado das foras individuais, boas ou ms, preciso agir inicial-mente sobre a inteligncia e a conscincia dos indivduos.

    Porm, para a democracia socialista, o homem interior, ohomem da conscincia individual, no existe; a coletividade oabsorve por completo. Os princpios que adota no passam deuma negao de toda filosofia elevada e de toda causa superior.No se procura outra coisa a no ser conquistar direitos. Entre-tanto, o gozo dos direitos no pode ser obtido sem a prtica dosdeveres. O direito sem o dever, que o limita e o corrige, produzapenas novas aflies, novos sofrimentos.

    Eis por que o impulso formidvel do socialismo no faz nadamais do que deslocar os apetites, as ambies, as causas dasdoenas e substituir as opresses do passado por um despotis-mo* novo, ainda mais intolervel. Vemos isso no exemplo da Rssia.

    J podemos medir a extenso dos desastres causados pelasdoutrinas negativistas. O determinismo, o materialismo, ao negara liberdade humana e a responsabilidade, minam as prpriasbases da tica universal. O mundo moral no passa de um anexoda fisiologia, ou seja, o reinado, a manifestao da fora cega eirresponsvel. Os espritos de elite professam o niilismometafsico**, e a massa humana, o povo, sem crenas, sem prin-cpios determinados com exatido, fica entregue a homens queexploram suas paixes e especulam com suas ambies.

    * Despotismo: sistema de governo que se funda no poder de dominao sem freios (N.E.).** Niilismo metafsico: doutrina materialista segundo a qual s haver progresso e avanopara o homem aps a destruio social dos conhecimentos ligados crena, que sebaseiam em um poder criador de onde derivam a vida e todas as coisas (N.E.).

  • O positivismo*, apesar de ser menos absoluto, no menosprejudicial em suas conseqncias. Por sua teoria do desconhe-cido, suprime as noes de objetivo e de larga evoluo. Ele pegao homem na fase atual de sua vida, simples fragmento de seudestino, e o impede de ver para diante e para trs de si; mtodoestril e perigoso, feito, parece, para cegos de esprito e que setem proclamado, muito falsamente, como a mais bela conquistado esprito moderno.

    Esse o estado atual da sociedade. O perigo imenso e sealguma grande renovao espiritualista e cientfica no se pro-duzisse, o mundo acabaria na incoerncia e na confuso.

    Nossos homens de governo j sentem o que lhes custa vivernuma sociedade em que as bases essenciais da moral esto aba-ladas, em que as leis so brandas, frgeis ou superficiais, em quetudo se confunde, at mesmo a noo elementar do bem e do mal.

    verdade que as Igrejas, apesar de suas frmulas antiqua-das e de seu esprito contrrio ao progresso, ainda agrupam aoredor de si muitas almas sensveis; porm, tornaram-se incapa-zes de afastar o perigo pela impossibilidade em que se colocaramde fornecer uma definio precisa do destino humano e do alm,apoiada em fatos comprovados.

    A humanidade, cansada de dogmas** e de especulaes semprovas, mergulhou no materialismo ou na indiferena. No h sal-vao para o pensamento, seno por uma doutrina baseada naexperincia e no testemunho dos fatos.

    De onde vir essa doutrina? Que poder nos livrar do abismoem que nos arrastamos? Que ideal novo vir dar ao homem aconfiana no futuro e o fervor pelo bem? Nas horas trgicas daHistria, quando todos pareciam desesperados, o socorro nuncafaltou. A alma humana no pode afundar inteiramente e morrer.No momento em que as crenas do passado se esgotam, umaconcepo nova da vida e do destino, baseada na cincia dosfatos, reaparece. A grande tradio revive sob formas engran-decidas, mais jovens e mais belas. Ela mostra a todos um futuro

    * Positivismo: doutrina filosfica do francs Augusto Comte (17981875) baseada nainvestigao cientfica. Ensina que pelo conhecimento cientfico (aplicao da cin-cia) que se resolvem os problemas sociais. Essa filosofia teve, de incio, grande influnciasobre os militares, polticos e intelectuais brasileiros no sculo 18. A divisa Ordem eProgresso, da bandeira brasileira, um conceito da filosofia positivista. Do positivismoderiva o que conhecemos hoje como sociologia (N.E.).** Dogma: ensinamento, conceito ou regra formulada por dirigente religioso ou associa-o religiosa por meio do qual se impem aos seus seguidores de forma autoritria eindiscutvel as regras de conduta e sua maneira de interpretar os textos sagrados (N.E.).

  • cheio de esperana e de promessas. Saudemos o novo reinoda idia vitoriosa da matria e trabalhemos para preparar seuscaminhos!

    A tarefa a cumprir grande, e a educao do homem deveser totalmente refeita. Essa educao, como vimos, nem a uni-versidade nem a Igreja esto em condies de fornecer, umavez que no possuem mais as snteses necessrias para escla-recer a marcha das novas geraes. Apenas uma doutrina podeoferecer essa sntese: a do Espiritismo; ela j sobe no horizontedo mundo intelectual e parece iluminar o futuro.

    A essa filosofia, a essa cincia livre, independente, desprovidade toda presso oficial, de todo compromisso poltico, as desco-bertas contemporneas trazem a cada dia novas e preciosas con-tribuies. Os fenmenos do magnetismo, da radioatividade, datelepatia so aplicaes de um mesmo princpio, manifestaesde uma mesma lei que rege, ao mesmo tempo, o ser e o universo.

    Mais alguns anos de trabalho paciente, de experimentaoconscienciosa, de pesquisas contnuas e a nova educao terencontrado sua frmula cientfica, sua base essencial. Esse acon-tecimento ser o maior fato da Histria desde o aparecimento doCristianismo.

    A educao, sabemos, o fator mais poderoso do progres-so; ela contm a origem do futuro. Mas, para ser completa, devese inspirar no estudo da vida sob suas duas formas alternantes,visvel e invisvel, em sua plenitude*, em sua evoluo crescenteem direo aos cimos da natureza e do pensamento.

    Os mestres dirigentes da humanidade tm um dever imediatoa cumprir. o de recolocar o espiritualismo na base da educa-o, de trabalhar para refazer o homem interior e a sade moral. preciso despertar a alma humana, adormecida por uma teoriadestrutiva, mostrar-lhe seus poderes ocultos, faz-la ter conscin-cia de si mesma, para realizar seu glorioso destino.

    A cincia moderna analisou o mundo exterior; suas des-cobertas no universo objetivo so profundas: isso ser suahonra e sua glria; mas ainda no sabe nada sobre o universoinvisvel e o mundo interior. esse o imprio ilimitado que lheresta conquistar. Saber por quais laos o homem se liga aoconjunto, descer s sinuosidades** misteriosas do ser, onde a

    * Plenitude: qualidade daquilo que completo, inteiro (N.E.).** Sinuosidade: que apresenta curvas irregulares. Nesse caso, que no se manifestacom franqueza (N.E.).

  • sombra e a luz se misturam como na caverna de Plato*, percor-rer seus labirintos, os redutos secretos, procurar conhecer o eumoral e o eu profundo, a conscincia e a subconscincia: noh estudo mais necessrio que esse.Enquanto as escolas e as academiasno o tiverem introduzido em seus pro-gramas, nada tero feito pela educaodefinitiva da humanidade.

    Porm, j vemos surgir e constituir-seuma psicologia totalmente maravilhosa eimprevista, da qual vo derivar uma novaconcepo do ser e a noo de uma leisuperior, que engloba e resolve todos osproblemas da evoluo e do futuro.

    *Um tempo se acaba; novos tempos se anunciam. A hora em

    que estamos de crise, de parto doloroso. As formas esgotadasdo passado empalidecem e se desfazem para dar lugar a outras,de incio vagas e confusas, mas que se definem cada vez mais.Nelas se esboa o pensamento crescente da humanidade.

    O esprito humano est em trabalho, por toda parte, sob aaparente decomposio das idias e dos princpios. Em tudo, nacincia, na arte, na filosofia e at mesmo no seio das religies, oobservador atento pode constatar que uma lenta e trabalhosagestao se faz. A cincia, especialmente, lana em abundnciasementes de ricas promessas. O sculo que comea ser o depoderosas descobertas.

    As formas e as concepes do passado, dizamos, no sosuficientes. Por mais respeitvel que parea essa herana, ape-sar do sentimento piedoso com que se podem considerar osensinamentos legados por nossos pais, sente-se, geralmente,compreende-se, que eles no foram suficientes para desfazer omistrio sufocante do porqu da vida.

    Entretanto, atualmente, pode-se viver e agir com mais inten-sidade do que nunca. Mas possvel viver e agir plenamentesem ter conscincia do objetivo a ser atingido? O estado da almacontempornea pede, reclama, uma cincia, uma arte, uma reli-

    Quando Lon Denis escreveu estelivro, ele se referia ao sculoque se iniciava. Realmente, houvea expanso de vrios setores,principalmente da cincia e datecnologia. O Espiritismo, por suavez, encontrou no Brasil terrenopropcio para se desenvolver.Estamos para iniciar um novosculo, que ser o sculo dadescoberta da espiritualidade.

    * No seu livro A Repblica, Plato desenvolve a idia de O mito da caverna, na qual umespectador, apreciando as imagens refletidas no fundo da caverna onde est, julga vero que real, quando o que de fato v so imagens que vm de um mundo exterior, queele no v. A vida na Terra seria, assim, a imagem refletida na parede do fundo dacaverna, onde ns estamos vivendo; ilusria. E a vida real a do Esprito, que ns novemos, mas que existe (N.E.).

  • gio de luz e liberdade que venham dissipar-lhe as dvidas,libert-la das velhas servides e das misrias do pensamento,gui-la para os horizontes radiosos aonde se sente levada porsua prpria natureza e pelo impulso de foras irresistveis.

    Muito se fala sobre progresso, mas o que se entende porprogresso? uma palavra vazia e sonora na boca dos oradores,para a maior parte dos materialistas, ou possui um sentido deter-minado? Vinte civilizaes passaram sobre a Terra, iluminandocom suas luzes a marcha da humanidade. Seus grandes focosbrilharam na noite dos sculos e depois se apagaram. E ohomem ainda no distingue, atrs dos horizontes limitados deseu pensamento, o alm sem limites para onde o destino o leva;sem condies de solucionar o mistrio que o rodeia, usa suafora nas obras da Terra e foge aos esplendores de sua tarefaespiritual, que far sua verdadeira grandeza.

    A f no progresso no caminha sem a f no futuro, no futurode cada um e de todos. Os homens s progridem e s avanamse acreditarem nesse futuro e se marcharem com confiana, comcerteza, para o ideal entrevisto.

    O progresso no consiste somente nas obras materiais, nacriao de mquinas poderosas e de todo equipamento indus-trial; no consiste, igualmente, em descobrir processos novosde arte, de literatura ou de formas de eloqncia. Seu objetivomais alto agarrar, atingir a idia primordial, a idia-me quefecundar toda a vida humana, a fonte elevada e pura de ondederivaro, ao mesmo tempo, as verdades, os princpios, os sen-timentos que inspiraro as obras importantes e as nobres aes.

    tempo de compreend-lo: a civilizao s poder engran-decer-se, a sociedade s poder subir se um pensamento sempremais elevado, se uma luz mais viva vierem inspirar, esclareceros espritos e tocar os coraes, renovando-os. Somente a idiae o pensamento levam ao. Somente a vontade de realizar aplenitude do ser, cada vez melhor, cada vez maior, pode nosconduzir aos cimos longnquos em que a cincia, a arte e todaobra humana, em uma palavra, encontraro sua expanso, suaregenerao.

    Tudo nos diz isso: o universo regido pela lei de evoluo; isso o que entendemos pela palavra progresso. E ns mesmos,em nosso princpio de vida, em nossa alma e nossa conscincia,estamos sempre submetidos a essa lei. No se pode desconhe-cer hoje essa fora soberana que conduz a alma e suas obrasatravs do infinito do tempo e do espao, rumo a um objetivo

  • sempre mais elevado; mas uma lei assim s pode concretizar-sepor nossos esforos.

    Para fazer obra til, para cooperar com a evoluo geral erecolher dela todos os frutos, preciso antes aprender a distin-guir, a reconhecer a razo, a causa e o objetivo dessa evoluo,saber aonde ela conduz, a fim de participar, na plenitude dasforas e das faculdades que dormem em ns, dessa ascensograndiosa.

    Nosso dever o de traar o caminho humanidade futura daqual ainda faremos parte integrante, como nos ensina a comu-nho das almas, a revelao dos grandes instrutores invisveis,do mesmo modo que a natureza ensina, por suas milhares devozes e pela renovao eterna de todas as coisas, queles quesabem estud-la e compreend-la.

    Vamos rumo ao futuro, rumo vida sempre renascente, pelocaminho imenso que nos abre o Espiritismo!

    Tradies, cincias, filosofias, religies, iluminai-vos com umachama nova; sacudi vossos velhos sudrios* e as cinzas queos cobrem. Escutai as vozes reveladoras do tmulo, elas nostrazem uma renovao do pensamento com os segredos do alm,que o homem tem necessidade de conhecer para melhor viver,melhor agir e melhor morrer!

    * Sudrio: espcie de lenol com o qual antigamente se envolviam os corpos dos mortospara o sepultamento. Mortalha (N.E.).

  • 1 A EVOLUO DO PENSAMENTO

    O PROBLEMA DO SERO PROBLEMA DO SER

    Uma lei, j o dissemos, rege a evoluo do pensamento,assim como a evoluo fsica dos seres e dos mundos; a compreen-so do universo se desenvolve com o progresso do esprito humano.

    Essa concepo geral do universo e da vida foi expressa demil maneiras, sob mil formas diferentes no passado. Ela o hoje,em termos mais amplos, e o ser sempre, com mais amplitude, medida que a humanidade escalar os degraus de sua ascenso.

    A cincia v alargar-se sem cessar o seu campo de explora-o. Todos os dias, com a ajuda de seus poderosos instrumen-tos de observao e de anlise, ela descobre novos aspectosda matria, da fora e da vida, mas o que ela constata o espritoj havia percebido h muito tempo, pois o vo do pensamentoest sempre adiante e supera os meios de ao da cincia posi-tiva. Os instrumentos no seriam nada sem a inteligncia, sem avontade que os dirige.

    A cincia incerta e mutvel, renova-se sem cessar. Seusmtodos, suas teorias e seus clculos, edificados com bastantedificuldade, desabam diante de uma observao mais atenta ouuma induo mais profunda, para dar lugar a outras teorias quepor sua vez no sero definitivas6. A cincia nuclear, por exemplo,

    6 - O professor Charles Richet assim o reconhece: A cincia nunca deixou de ser umasrie de erros e aproximaes, constantemente evoluindo para constantemente caircom rapidez tanto maior quanto mais elevado o seu grau de adiantamento (Annales desSciences Psychiques Anais das Cincias Psquicas, janeiro de 1905).

    Nota do editor: o autor citou, na nota acima, Charles Richet (1850-1935), que foi umnotvel mdico fisiologista francs (prmio Nobel de 1913), que com sua intelignciaprestou grande servio cincia.

  • derrubou a teoria do tomo indivisvel que, h dois mil anos, serviade base fsica e qumica. Quantas descobertas semelhantesdemonstraram no passado a fraqueza do esprito cientfico! Estes chegar realidade quando se elevar acima da miragem dosfatos materiais, rumo regio das causas e das leis.

    Foi dessa maneira que a cincia pde determinar os princpiosimutveis da lgica e da matemtica. No acontece o mesmocom os outros campos de pesquisa. O sbio, na maior parte dasvezes, para ela leva os seus preconceitos, tendncias e rotinase todos os elementos de uma personalidade pouco desenvolvida,como podemos constatar no domnio dos estudos psquicos,sobretudo na Frana, onde at agora foram encontrados poucossbios corajosos e verdadeiramente esclarecidos para seguiruma estrada j amplamente trilhada pelas mais belas intelignciasde outras naes.

    Apesar de tudo, o esprito humano avana passo a passo noconhecimento do ser e do universo. Nossas informaes sobrea fora e a matria se modificam a cada dia; a personalidadehumana se revela sob aspectos inesperados. Em presena detantos fenmenos experimentalmente constatados, em presenade testemunhos que se acumulam de todas as partes7, nenhumesprito inteligente e perspicaz pode continuar a negar a realidadeda sobrevivncia do esprito; nada mais pode escapar s conse-qncias morais e s responsabilidades que ela acarreta.

    O que dizemos da cincia, poderamos igualmente dizer dafilosofia e das religies que surgiram no decurso dos sculos.Elas constituem outras tantas etapas ou trechos percorridos pelahumanidade, ainda criana, elevando-se a planos espirituais cadavez mais vastos e ligados entre si. Em seu encadeamento, es-sas crenas diversas nos aparecem como o desenvolvimentogradual do ideal divino, refletido no pensamento, com tanto maisbrilho e pureza quanto melhor e mais puro vai se tornando.

    essa a razo pela qual as crenas e o conhecimento deum tempo ou de um meio parecem ser, para o tempo ou o meioem que reinam, a representao da verdade como os homensdessa poca podem alcan-la e compreend-la, at que o de-senvolvimento de suas faculdades e de sua conscincia os tor-ne aptos a perceber uma forma mais elevada, uma radiao maisintensa dessa verdade.

    7 - Ver a minha obra No invisvel, Ed. FEB.

  • Sob esse ponto de vista, o prprio fetichismo* se explica,apesar de seus ritos sangrentos. So as primeiras palavras daalma infantil, tentando soletrar a linguagem divina e fixando, emtraos grosseiros, sob as formas apropriadas ao seu estadomental, sua concepo vaga, confusa, rudimentar, de um mundosuperior.

    O paganismo representa um conceito mais elevado, emborabastante antropomrfico**. Nele, os deuses so semelhantes aoshomens; possuem todas as paixes, todas as fraquezas. Mas,agora, a noo do ideal se purifica com a do bem. Um raio daeterna beleza vem fecundar as civilizaes no bero.

    Mais acima vem a idia crist, repleta de sacrifcio, de re-nncia em sua essncia. O paganismo grego era a religio danatureza radiosa; o Cristianismo a da humanidade sofredora,religio das catacumbas, das criptas*** e dos tmulos, que teveseu incio na perseguio e na dor, e guarda a marca de suaorigem. Reao necessria contra a sensualidade pag, setornar, por seu prprio exagero, impotente para venc-la,porque com o ceticismo**** a sensualidade renascer.

    O Cristianismo, em sua origem, deve ser considerado comoo maior esforo tentado pelo mundo invisvel para se comunicarostensivamente com a nossa humanidade. , segundo a expres-so de F. Myers, a primeira mensagem autntica do alm. Jas religies pags eram ricas em fenmenos ocultos de todosos gneros e de adivinhaes. Mas a ressurreio, ou seja, asaparies do Cristo materializado aps sua morte, constitui amanifestao mais poderosa de que os homens tm sido teste-munhas. Ela foi o sinal da entrada em cena do mundo dos espritos,que se produziu de mil maneiras nos primeiros tempos cristos.Dissemos, alis, em outra obra8, como e por que, pouco a pouco,o vu do alm foi se abaixando e o silncio se fez, salvo paraalguns privilegiados: videntes, extticos***** e profetas.

    * Fetichismo: culto de objetos materiais, considerados como a encarnao de um esp-rito, ou em ligao com ele, e possuidores de poderes sobrenaturais (N.E.).** Antropomrfico: que tem forma semelhante do homem (N.E.).*** Cripta: nesse caso, galeria subterrnea na qual se encontravam os cristos persegui-dos na poca em que o Cristianismo era proibido (N.E.).**** Ceticismo: descrena, estado de quem duvida de tudo (N.E.).8 - Ver Cristianismo e Espiritismo, captulo 5, Ed. FEB.***** Exttico: que entra em transe. quando o esprito do mdium alcana estados deextraordinria independncia em relao ao corpo fsico e penetra mundos desconhe-cidos, enquanto nos sonhos e no sonambulismo o esprito percorre o mundo terrestre. Ver O Livro dos Espritos, questo 455 (N.E.).

  • Assistimos hoje a um novo impulso domundo invisvel na Histria. As manifesta-es do alm, de passageiras e isoladas,tendem a tornar-se permanentes e univer-sais. Um caminho se estabelece entre osdois mundos, a princpio simples pista, ata-lho estreito, mas que se alarga, melhorapouco a pouco at se tornar uma estradalarga e segura. O Cristianismo teve comoponto de partida fenmenos de naturezasemelhante queles constatados em nossosdias no domnio das cincias psquicas. por meio desses fatos que se revelam a in-fluncia e a ao de um mundo espiritual,verdadeira morada e eterna ptria das almas.Por eles, um imenso azul se abre sobre avida infinita; a esperana vai renascer noscoraes angustiados, e a humanidade irse reconciliar com a morte.

    *As religies tm contribudo de forma

    determinante para a educao humana; tmcolocado um freio s paixes violentas, barbrie das idades do ferro e gravado forte-mente a noo moral no fundo da conscin-

    cia. A esttica religiosa criou obras-primas em todos os domnios;participou de forma ativa na revelao da arte e da beleza quese manifestaram no decorrer dos sculos. A arte grega crioumaravilhas. A arte crist atingiu o sublime nas catedrais gticas,que se erguem, bblias de pedra sob o cu, com suas notveistorres esculpidas, suas naves imponentes, cheias de vibraoda msica dos rgos e dos cnticos sagrados, suas altas ogivas,de onde a luz desce em ondas e se derrama pelos afrescos eesttuas; mas seu papel est se acabando, porque hoje ela repetea si mesma, ou descansa, exausta.

    O erro religioso, principalmente o catlico, no pertence ordem esttica, que no se engana: ele de ordem lgica. Con-siste em encerrar a religio em dogmas estreitos, em formasrgidas. Uma vez que o movimento constitui a prpria lei da vida,o Catolicismo imobilizou o pensamento, em vez de provocarsua expanso.

    Est na natureza do homem esgotar todas as formas de umaidia, de ir at os extremos antes de retomar o curso inicial de

    Catedral de Chartres, Frana.

    Gtico: estilo caracterizadoprincipalmente pelo uso deogivas, ou seja, figuras formadaspor dois arcos iguais que secortam, formando um nguloagudo, e que possibilitavama construo de estruturaselevadas.

    Catedral de Notre-Dame, Frana.

  • sua evoluo. Cada verdade religiosa, afirmada por um inovador,se enfraquece e se altera com o tempo, por serem os discpulosquase sempre incapazes de se manter altura a que o Mestreos atrara. A doutrina torna-se, desde esse momento, uma fontede abusos e provoca, pouco a pouco, um movimento contrrio,no sentido do ceticismo e da negao. Depois da f cega vem aincredulidade; o materialismo faz sua obra, e somente quandoele mostra toda a sua impotncia na ordem social que umarenovao idealista se torna possvel.

    Desde os primeiros tempos do Cristianismo, correntes diver-sas judaica, helnica*, gnstica** se misturam e se chocamno leito da religio nascente. Cismas vm luz; as rupturas eos conflitos se sucedem, no meio dos quais o pensamento doCristo vai pouco a pouco se encobrindo e se obscurecendo.Mostramos de quais alteraes, de quais modificaes sucessi-vas a doutrina crist foi objeto no decorrer dos tempos9. O verda-deiro Cristianismo foi uma lei de amor e liberdade; as Igrejas fize-ram dele uma lei de temor e escravido. Da os pensadores seafastarem gradualmente da Igreja; da o enfraquecimento do es-prito religioso.

    Por causa da perturbao que invadiu os espritos e asconscincias, o materialismo ganhou terreno. Sua moral, ditacientfica, que proclama a necessidade da luta pela vida, odesaparecimento dos fracos e a seleo dos fortes, reina hojesoberanamente na vida pblica e na individual. Todas as ativida-des se voltam para a conquista do bem-estar e dos prazeresfsicos. Por falta de preparao moral e de disciplina, a alma perdesua fora; o mal-estar e a discrdia se espalham por toda parte,nas famlias, nas naes. , dizamos, um perodo de crise. Nadamorre, apesar das aparncias; tudo se transforma e se renova. Advida que persegue as almas em nossa poca prepara o cami-nho para as convices de amanh, para a f inteligente eesclarecida que reinar sobre o futuro e se estender a todos ospovos, a todas as raas.

    Embora ainda jovem e dividida pelas necessidades de terri-trio, de distncia e de clima, a humanidade comeou a tomarconscincia de si mesma. Acima e fora das incompatibilidades

    * Helnico: relativo ou pertencente Grcia antiga (N.E.).** Gnstico: que segue os ensinamentos da gnose (busca interior ou autoconhecimento),cujas origens esto nas antigas religies orientais e nos filsofos gregos, especialmenteem Scrates e Plato (N.E.).9 - Cristianismo e Espiritismo, primeira parte, Ed. FEB.

  • polticas e religiosas, agrupamentos de inteligncias se consti-tuem. Homens preocupados com os mesmos problemas, ins-tigados pelos mesmos cuidados, inspirados pelo invisvel,trabalham numa obra comum e perseguem as mesmas solues.Pouco a pouco os elementos de uma cincia psicolgica e deuma crena universal aparecem, fortificam-se e aumentam. Umgrande nmero de testemunhas imparciais v nisso o incio deum movimento do pensamento que tende a abranger todas associedades da Terra10.

    A idia religiosa acaba de percorrer seu ciclo inferior, e osplanos de uma espiritualidade mais alta vo se esboando. Pode-se dizer que a religio o esforo da humanidade para se comu-nicar com a essncia eterna e divina. Eis por que sempre haverreligies e cultos cada vez maiores e de acordo com as leissuperiores da esttica, que so a expresso da harmonia uni-versal. O belo, em suas regras mais elevadas, uma lei divina, esuas manifestaes, ligadas idia de Deus, revestiro foro-samente um carter religioso.

    medida que o pensamento evolui, missionrios de todasas ordens vm provocar a renovao religiosa no seio da huma-nidade. Assistimos ao comeo de uma dessas renovaes, bemmaior e bem mais profunda que as anteriores. J no temsomente homens por representantes e intrpretes, o que tornariaessa revelao to precria quanto as outras. So os espritosinspiradores, os gnios do espao, que exercem ao mesmotempo sua ao sobre toda a superfcie do globo e em todos osdomnios do pensamento. Sobre todos os pontos, aparece o Espi-ritismo. E logo surge a pergunta: O que voc? Cincia ou reli-gio? Espritos de pouco alcance, vocs julgam que o pensamen-to deve seguir eternamente os caminhos abertos pelo passado?

    At aqui, todos os domnios intelectuais tm sido separadosuns dos outros, cercados de barreiras, de muralhas, a cincia deum lado, a religio de outro; a filosofia e a metafsica* esto eria-das de espinhos impenetrveis. Quando tudo simples, vasto eprofundo no domnio da alma como no do universo, o esprito desistema tudo complica, diminui, divide. A religio foi emparedada

    10 - Sir O. Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, membro da Academia Real, vnos estudos psquicos o prximo advento de uma nova e mais livre religio (Anais dasCincias Psquicas, dezembro de 1905). Ver tambm Maxwell, procurador-geral na Cor-te de Apelao de Paris (Les phenomnes psychiques Os fenmenos psquicos).* Metafsica: segundo Aristteles, estudo do ser como ser e sobre os princpios e causasprimeiras do ser (N.E.).

  • no sombrio crcere dos dogmas e dos mistrios; a cincia,aprisionada nas mais baixas camadas da matria. Essa no averdadeira religio, nem a verdadeira cincia. Bastar elevar-seacima dessas classificaes arbitrrias* para compreender quetudo se concilia e se reconcilia em uma viso mais alta.

    Nos dias de hoje, nossa cincia, ainda que elementar, quan-do estuda o espao e os mundos, no provoca imediatamenteum sentimento de entusiasmo, de admirao quase religiosa?Lede as obras dos grandes astrnomos, dos matemticos degnio. Eles vos diro que o universo um prodgio de sabedoria,de harmonia, de beleza e que, no conjunto dessas leis supe-riores, se realiza a unio da cincia, da arte e da religio pelaviso de Deus em sua obra. Chegado a essas alturas, o estudotorna-se uma meditao profunda e o pensamento se transformaem prece!

    O Espiritismo vai acentuar, desenvolver essa tendncia, dar-lhe um sentido mais claro e mais preciso. Pelo lado experimental, apenas uma cincia; pelo objetivo de suas pesquisas, penetranas regies invisveis e se eleva at as fontes eternas, de ondesaem toda a fora e vida. Dessa forma, une o homem ao poderdivino e torna-se uma doutrina, uma filosofia religiosa. , almdisso, o lao que rene duas humanidades. Por meio dele, os es-pritos prisioneiros na carne e os que esto livres comunicam-se,estabelecendo uma verdadeira comunho entre si.

    No se deve, portanto, ver nele uma religio no sentido restri-to, no sentido atual dessa palavra. As religies de nosso tempoquerem dogma, padres e rituais, e a nova doutrina no os compor-ta. Ela est aberta a todos os investigadores; o esprito de livrecrtica, de exame e de verificao preside s suas investigaes.

    Os dogmas, os sacerdotes e os pastores so necessrios,e ainda o sero por muito tempo s almas jovens e tmidas quepenetram a cada dia no crculo da vida terrestre e no se podemreger no caminho do conhecimento nem analisar suas necessi-dades e sensaes.

    O Espiritismo dirige-se sobretudo s almas evoludas, aosespritos livres e emancipados, que querem encontrar por simesmos a soluo dos grandes problemas e a frmula de seucredo. Ele lhes oferece uma concepo, uma interpretao dasverdades e das leis universais, baseada na experimentao,na razo e no ensinamento dos espritos. Acrescentai a isso a

    * Arbitrrio: que resultou do desejo de algum; que no respeita regras (N.E.).

  • revelao dos deveres e das responsabilidades que, por si ss,do uma base slida ao nosso instinto de justia. Depois, coma fora moral, as satisfaes do corao, a alegria de se reen-contrar, pelo menos em pensamento, algumas vezes at coma forma11, os seres amados que julgvamos perdidos. provade sua sobrevivncia junta-se a certeza de reencontr-los e dereviver com eles vidas inumerveis, vidas de ascenso, de feli-cidade ou de progresso.

    Assim, gradualmente, os problemas mais obscuros se escla-recem; o alm se entreabre; o lado divino dos seres e das coisasse revela. Pela fora desses ensinamentos, cedo ou tarde, a almahumana subir e, nas alturas que atingir, ver que tudo se liga,que as diferentes teorias, contraditrias e hostis em aparncia,so apenas aspectos diversos de um mesmo todo. As leis dosmajestosos universos se resumiro, para ela, numa lei nica, foraao mesmo tempo inteligente e consciente, modo de pensamentoe de ao. E, por ela, todos os mundos, todos os seres se acharoligados numa mesma unidade poderosa, associados numa mes-ma harmonia, arrastados para um mesmo objetivo.

    Chegar o dia em que todos os pequenos sistemas, limitadose ultrapassados, se fundiro em uma vasta sntese, abrangendotodos os reinos da idia. Cincia, filosofia, religio, hoje divididas,se reuniro na luz, e ser ento a vida, o esplendor do esprito, oreino do conhecimento.

    Nesse acordo magnfico, as cincias fornecero a precisoe o mtodo na ordem dos fatos; as filosofias, o rigor de suasdedues lgicas; a poesia, a irradiao de suas luzes e a magiade suas cores. A religio acrescentar a tudo isso as qualidadesdo sentimento e a noo da esttica elevada. Assim se realizara beleza na fora e na unidade do pensamento. A alma se orien-tar para os mais altos cimos, mantendo sempre o equilbrio derelao necessrio que deve regular a marcha paralela e ritmadada inteligncia e da conscincia, em sua ascenso conquistado bem e da verdade.

    11 - Ver No invisvel, Aparies e materializaes dos espritos, captulo 20, Ed. FEB.

  • O CRITRIO DA DOUTRINA DOS ESPRITOS

    2

    O Espiritismo baseia-se num completo conjunto de fatos: unssimplesmente fsicos nos tm revelado a existncia e o modo deao de foras h muito tempo desconhecidas; outros tm umcarter inteligente. So eles: a escrita direta ou automtica, atiptologia*, os discursos pronunciados em transe ou por incorpo-rao. Todas essas manifestaes, j as passamos em revista ej as analisamos em outras publicaes12. Vimos que elas sofreqentemente acompanhadas de sinais, de provas que esta-belecem a identidade e a interveno das almas humanas queviveram na Terra e que foram libertadas pela morte.

    Foi por meio desses fenmenos que os espritos13 espalharamseus ensinamentos no mundo, e esses ensinamentos foram, comoveremos, confirmados experimentalmente em muitos lugares.

    O Espiritismo se dirige, portanto, ao mesmo tempo aos senti-dos e inteligncia. Experimental, quando estuda os fenmenosque lhe servem de base; racional, quando verifica os ensinamen-tos que deles derivam. Constitui um instrumento poderoso para abusca da verdade, uma vez que pode servir simultaneamenteem todos os domnios do conhecimento.

    As revelaes dos espritos, dizamos, so confirmadaspela experincia. Sob o nome de fluidos, os espritos nos tm

    * Tiptologia: manifestao dos espritos por meio de toques, pancadas ou arranhes. Foiassim que em Rochester (Estados Unidos) se iniciou, com as irms Fox, a fase atual doespiritualismo, que com Allan Kardec (na Frana) viria a resultar na codificao daDoutrina Esprita (N.E.).12 Ver No invisvel, segunda parte. Falamos aqui somente dos fatos espritas e no dosfatos de animismo ou manifestaes dos vivos a distncia.13 - Chamamos esprito a alma revestida apenas de seu corpo sutil sem o corpo carnal.

  • ensinado teoricamente e demonstrado na prtica, desde 185014, aexistncia das foras incalculveis que a cincia rejeitava a priori*.Sir W. Crookes, entre os sbios que tinham grande autoridade, foio primeiro que constatou depois a realidade dessas foras, e acincia atual reconhece nelas, a cada dia, a importncia e a varie-dade, graas s descobertas clebres de Roentgen, Hertz,Becquerel, Curie, G. Le Bon**, etc.

    Os espritos afirmavam e demonstravam a ao possvel daalma sobre a alma, em todas as distncias, sem o auxlio dosrgos, e essa ordem de fatos gerou oposio e incredulidade.

    Acontece que os fenmenos da telepatia, da sugesto mental,da transmisso dos pensamentos, observados e provocados hoje

    em todos os meios, vieram, aos milhares,confirmar essas revelaes.

    Os espritos ensinavam a preexis-tncia, a sobrevivncia, as vidas suces-sivas da alma.

    14 - Ver O Livro dos Espritos e O Livro dos Mdiuns, deAllan Kardec.Pode-se ler na Revista Esprita de 1860 uma mensagemdo esprito do doutor Vignal, declarando que os corposirradiam luz obscura. No est a a radioatividade cons-tatada pela cincia atual, mas que era ignorada pelacincia da poca?Eis o que foi escrito em 1867 por Allan Kardec, naGnese (os fluidos):Quem conhece a constituio ntima da matria pal-pvel? Talvez ela s seja compacta em relao aossentidos e o que disso poderia ser prova a facilidadecom a qual atravessada pelos fluidos espirituais e osespritos, aos quais no ope mais obstculo que oscorpos transparentes aos raios de luz.A matria tangvel, tendo por elemento primitivo o fluidocsmico etreo, deve poder, ao se desagregar, retornarao estado gasoso, como o diamante, o mais duro doscorpos, pode se transformar em gs impalpvel. Asolidificao da matria na realidade apenas um estado

    transitrio do fluido universal, que pode retornar ao seu estado primitivo quando as condiesde unio param de existir.* A priori: diz-se de afimao anterior experincia (N.E.).** Conrad Roentgen: fsico alemo, descobriu os raios X, de largo emprego nas atividadesindustriais e particularmente na medicina. Prmio Nobel de Fsica de 1901.Gustav Hertz: engenheiro eletricista alemo. Descobriu as ondas hertzianas da radio-transmisso e da telegrafia.H. Becquerel: fsico francs, prmio Nobel de Fsica.Pierre Curie: fsico e qumico francs. Junto com sua mulher Marie Curie descobriu oselementos qumicos rdio e polnio. Ambos receberam o prmio Nobel de Fsica em 1903.Gustav Le Bon: mdico e socilogo francs (N.E.).

    William Crookes (1832-1919):cientista ingls considerado o paida fsica. Contribuiu muito para acincia moderna como descobridor dosraios catdicos e do estado radianteda matria. Incumbido pela RealAcademia Britnica de pesquisar osfatos espritas (na verdade a Aca-demia desejava v-los desmentidospor um nome respeitvel), aps trsanos de pesquisa, apresentou umrelatrio com fotos do espritomaterializado de Katie King, queconviveu com Crookes em casa enos laboratrios, comprovando todosos fatos espritas a que ele, seuscolaboradores e amigos cientistasassistiram. (Veja pgs. 84 e 88.)

  • E eis que as experincias de F. Colavida, E. Marata*, as docoronel De Rochas, as minhas, etc. estabeleceram que noapenas as lembranas dos menores detalhes da vida atual ata mais tenra infncia e mais ainda as das vidas anteriores estogravadas nas profundezas da conscincia. Um passado inteiro,ocultado no estado de viglia, reaparece, revive no estado detranse. De fato, essas lembranas puderam ser reconstitudasnum certo nmero de pacientes adormecidos, como mais tardeo estabeleceremos, quando abordarmos mais especificamenteessa questo15.

    V-se que o Espiritismo no poder, a exemplo da antigasdoutrinas espiritualistas, ser considerado um puro conceitometafsico. Ele se apresenta com um carter muito diverso eresponde s exigncias de uma gerao educada na escolado criticismo e do racionalismo, que se tornou desconfiada dosexageros de um misticismo mrbido e agonizante.

    Hoje, j no basta crer; quer-se saber. Nenhuma concepofilosfica ou moral tem a chance de ter sucesso se no se apoiarsobre uma demonstrao ao mesmo tempo lgica, matemticae positiva e se, alm disso, no a coroar uma sano que satis-faa a todos os nossos instintos de justia.

    Pode-se observar que essas condies foram perfeitamentepreenchidas por Allan Kardec na magistral exposio feita porele em O Livro dos Espritos.

    Esse livro o resultado de um imenso trabalho de classifi-cao, coordenao e seleo que teve por base inmerasmensagens, vindas de fontes diversas, desconhecidas umas dasoutras, obtidas em todas as partes do mundo e que o importantecompilador reuniu, aps ter se certificado de sua autenticidade.Ele teve o cuidado de afastar as opinies isoladas, os testemu-nhos duvidosos, para conservar apenas os pontos sobre os quaisas afirmaes estavam de acordo.

    Falta muito tempo para que esse trabalho fique terminado.Ele tem continuidade todos os dias, desde a morte do grandeiniciador. J possumos uma sntese poderosa, da qual Kardectraou as grandes linhas, e que os herdeiros de seu pensamentose esforam por desenvolver com o concurso do mundo invisvel.Cada um deles traz seu gro de areia ao edifcio comum, a esse

    * F. Colavida, E. Marata (espanhis) e coronel De Rochas (francs): pesquisadoresespritas (N.E.).15 - Ver Compte rendu du congrs espirite (Relatrio do Congresso Esprita) de 1900. Vertambm A. de Rochas, Les vies successives (As vidas sucessivas). Chacornac, 1911.

  • edifcio cujas bases se fortificam a cada dia pela experimenta-o cientfica, mas cujo remate se elevar cada vez mais alto.

    Eu mesmo, posso dizer, fui privilegiado com os ensinamentosde guias espirituais, cuja assistncia e conselhos nunca mefaltaram nestes 30 anos. Suas revelaes tomaram um carterparticularmente didtico no decorrer de sesses que se sucede-ram durante oito anos e das quais falei freqentemente numaobra anterior16.

    Na obra de Allan Kardec, o ensinamento dos espritos acompanhado, para cada questo, de consideraes, coment-rios e esclarecimentos que fazem sobressair, com mais nitidez,a beleza dos princpios e a harmonia do conjunto. a que semostram as qualidades do autor. Ele se preocupou em, antes detudo, dar um sentido claro e preciso s expresses que habitual-mente emprega em seu raciocnio filosfico; depois, em definirbem os termos que poderiam ser interpretados em sentidos dife-rentes. Ele sabia que a confuso reinante na maior parte dossistemas provm da falta de clareza das expresses emprega-das pelos seus autores.

    Uma outra regra, no menos essencial em toda exposiometdica e que Allan Kardec observou cuidadosamente, a queconsiste em descrever as idias e apresent-las em condiesque as tornem compreensveis para qualquer leitor. Enfim, apster desenvolvido essas idias numa ordem e num encadeamentoque as ligavam entre si, soube deduzir concluses, que j cons-tituem, na ordem racional e na medida dos conceitos humanos,uma realidade, uma certeza.

    por essa razo que nos propusemos a adotar aqui os ter-mos, as vises, os mtodos utilizados por Allan Kardec comosendo os mais certos, reservando-nos a acrescentar ao nossotrabalho todos os desenvolvimentos resultantes de 50 anos depesquisas e de experimentao que aconteceram desde a apa-rio de suas obras.

    Por tudo isso, vemos que a doutrina dos espritos, da qualKardec foi o intrprete e o compilador sensato, rene, do mesmomodo que os sistemas filosficos mais apreciados, as qualida-des essenciais de clareza, lgica e rigor.

    Mas o que nenhum outro sistema podia oferecer era o impor-tante conjunto de manifestaes com a ajuda das quais essadoutrina a princpio se afirmou no mundo, e em seguida pde ser

    16 - Ver No invisvel, Ed. FEB.

  • verificada, a cada dia, em todos os lugares. Ela se dirige aoshomens de todas as classes, de todas as condies, e no ape-nas aos seus sentidos, sua inteligncia, mas tambm ao queh de melhor neles, sua razo, sua conscincia.

    No constituem essas potncias, ntimas em sua unio, umcritrio do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, mais ou menosclaro ou velado, sem dvida, segundo o adiantamento das al-mas, mas que se encontra em cada uma delas como um reflexoda razo eterna, da qual elas emanam?

    *H duas coisas na doutrina dos espritos: uma revelao do

    mundo espiritual e uma descoberta humana; ou seja: de uma parte,um ensinamento universal, extraterrestre, idntico a si mesmoem suas partes essenciais e seu sentido geral; de outra, umaconfirmao pessoal e humana, que continua a ser feita segun-do as regras da lgica, da experincia e da razo. A convicoque da deriva se fortifica e fica cada vez mais definida, medidaque as comunicaes tornam-se mais numerosas e medidaque, por isso mesmo, os meios de verificao se multiplicam ese ampliam.

    At agora tnhamos conhecido apenas sistemas pessoais,revelaes particulares. Hoje so milhares de vozes, as vozesdos desencarnados, que se fazem ouvir. O mundo invisvel entraem ao e, no nmero dos seus agentes, espritos elevados sedeixam reconhecer pela fora e pela beleza de seusensinamentos. Os grandes gnios do mundo dos espritos, mo-vidos por um impulso divino, vm guiar o pensamento para cu-mes radiosos17.

    No h a uma manifestao vasta e grandiosa diferente dasdo passado? A diferena dos meios s encontra outra igual nadiferena dos resultados. Comparemos:

    A revelao pessoal falvel. Todos os sistemas filosficoshumanos, todas as teorias individuais, como as de Aristteles,Toms de Aquino, Kant, Descartes, Spinoza*, como as de nossos

    17 - Ver as comunicaes publicadas por Allan Kardec em O Livro dos Espritos e em OCu e o Inferno; Ensinos espiritualistas, obtidos por Stainton Moses. Indicamos tambmLe problme de lau-del Conseils des invisibles (O problema do alm Conselhos dosinvisveis), coleo de mensagens publicadas pelo general Amade. Paris, Leymarie, 1902.Sur le chemin... (No caminho...), de Albert Pauchard, e La vie continue de lame (A vidacontnua da alma), de A. Naschitz-Rousseau, colees de mensagens de grande interes-se (Paris, Edies Jean Meyer, 1922).* Aristteles, Toms de Aquino, Kant, Descartes, Spinoza: filsofos de grande destaque (N.E.).

  • contemporneos, so necessariamente influenciadas pelasopinies, tendncias, preconceitos e sentimentos do revelador.O mesmo acontece com as condies de tempo e de lugar emque elas se produzem. O mesmo poderia ser dito das doutrinasreligiosas.

    A revelao dos espritos, impessoal e universal, escapa maior parte dessas influncias e ao mesmo tempo rene a maiorquantidade de probabilidades, seno de certezas. No pode sernem abafada, nem desnaturalizada. Nenhum homem, nenhumanao, nenhuma Igreja tem o privilgio dela. Ela desafia todas asinquisies e acontece onde menos se espera encontr-la. Tm-se visto homens que lhe eram os mais hostis, convertidos ssuas idias pelo poder das manifestaes, comovidos at ofundo da alma pelos desafios e exortaes de seus parentesfalecidos, tornando-se voluntariamente instrumentos de umapropaganda ativa.

    No Espiritismo, muitos foram avisados, como no caso de SoPaulo, e so fenmenos semelhantes ao do caminho de Damascoque provocaram a mudana de opinio deles.

    Os espritos tm provocado o surgimento de numerosos m-diuns em todos os lugares, no seio de todas as classes e dosmais diversos grupos sociais, e at mesmo no ntimo dos santu-rios. Padres e pastores tm recebido suas instrues e as tmpropagado abertamente ou, ento, sob o vu do anonimato18. Seusparentes, seus amigos falecidos, desempenhavam junto delesas funes de mestres e de reveladores, acrescentando a seusensinamentos provas formais e irrecusveis de sua identidade.

    Foi assim, dessa forma, que o Espiritismo pde tomar contado mundo e derramar sobre ele suas luzes. Existe um majestoso

    18 - Ver Rafael. Le doute (A dvida); P. Marchal. O esprito consolador. Paris: Didier et.Cie. 1878.) Reverendo Stainton Moses, Ensinos espiritualistas.O padre Didon escrevia (4 de agosto de 1876), nas suas Lettres a Mlle. Th. V. (Plon-Nourrit, Ed. Paris, 1902): Acredito na influncia que os mortos e os santos exercemmisteriosamente sobre ns. Vivo em profunda comunho com esses invisveis e sintoagradavelmente os benefcios de sua secreta convivncia.M. Alfred Benzech, importante pastor da Igreja reformada da Frana, escrevia-nos respeito desses fenmenos observados por ele mesmo: Pressinto que o Espiritismopoderia vir realmente a se tornar uma religio positiva, no maneira das religiesreveladas, mas na qualidade de religio estabelecida sobre fatos de experincia eplenamente de acordo com o racionalismo e a cincia. Coisa estranha! Na nossa pocade materialismo, em que as Igrejas parecem estar a ponto de se desorganizar e sedissolver, o pensamento religioso volta a ns por sbios, acompanhado do maravilhosodos tempos antigos. Mas esse maravilhoso, que distingo do milagre, uma vez que apenas um fato natural superior e raro, no estar mais a servio de uma Igreja particu-larmente honrada com os favores da divindade; ser propriedade da humanidade, semdistino de cultos. Quanto maior grandeza e moral!

  • acordo em todas essas vozes que se tm elevado simultanea-mente para que nossa sociedade descrente e aptica oua a boanova da sobrevivncia, e fornea a explicao dos problemas damorte e da dor. A revelao tem chegado por via medinica nocorao das famlias at o fundo dos antros e infernos sociais. Oscondenados da priso de Tarragona no foram vistos dirigirao Congresso Esprita Internacional de Barcelona, em 1888,uma adeso tocante em favor de uma doutrina que, diziam eles,tinha-os convertido ao bem e os reconciliado com o dever19?!

    No Espiritismo, a multiplicidade das fontes de ensinamento ede difuso constitui um controle permanente que frustra e tornaestreis todas as oposies e as intrigas. Por sua prpria natu-reza, a revelao dos espritos furta-se a todas as tentativasde monoplio ou de falsificao. Perante ela, o esprito de dissi-dncia ou de dominao permanece impotente, porque seconseguissem extingui-la ou desnatur-la num ponto, ela imedia-tamente reviveria em cem pontos diferentes, frustrando assimambies nocivas e traioeiras.

    Nesse imenso movimento revelador, as almas obedecem aordens vindas do alto; elas prprias o declaram. Sua ao regulada de acordo com um plano traado anteriormente e quese desenrola com majestosa amplido. Um conselho invisvelpreside sua execuo, do seio dos espaos. composto degrandes espritos de todas as raas, de todas as religies, dealmas da mais elevada origem que viveram neste mundo seguin-do a lei de amor e de sacrifcio. Essas potncias benfazejaspairam entre o cu e a Terra, unindo-os num trao de luz pelo qualas preces sobem sem cessar e por onde descem as inspiraes.

    No que diz respeito aos ensinamentos espritas, h, entre-tanto, um fato, uma exceo que impressionou certos observa-dores e do qual se serviram como de um argumento fundamentalcontra o Espiritismo: por que os espritos que, no conjunto dospases latinos, ensinam a lei das vidas sucessivas e as reencar-naes da alma na Terra negam-na ou deixam-na passar em bran-co nos pases anglo-saxes? Como explicar uma contradioto flagrante? No h a um fundo capaz de destruir a unidade dedoutrina que caracteriza a revelao nova?

    Notemos que no h nenhuma contradio, mas simplesmenteuma graduao originada dos preconceitos de casta, de raa ede religio profundamente enraizados em certos pases.

    19 - Ver Compte rendu du Congrs Spirite de Barcelona (Relatrio do Congresso Espritade Barcelona), 1888. Paris, 42, rua Saint-Jacques, Livraria das Cincias Psquicas.

  • O ensinamento dos espritos, mais completo, mais extensodesde o princpio nos meios latinos, foi, em sua origem, restringidoe graduado em outras regies por motivos de oportunidade. Pode-se constatar que o nmero de comunicaes espritas que afir-mam o princpio das reencarnaes sucessivas aumenta todosos dias na Inglaterra, nos Estados Unidos e nos demais pases.Muitas delas fornecem at mesmo argumentos preciosos na dis-cusso aberta entre espiritualistas de diferentes escolas. A idiareencarnacionista tem adquirido tanto terreno alm do Atlnticoque um dos principais rgos espiritualistas americanos lhe inteiramente favorvel. O Light, de Londres, aps ter afastadopor muito tempo essa questo, discute-a hoje abertamente.

    Portanto, se a princpio houve sombras e contradies, elaseram apenas aparentes e no oferecem nenhuma resistncia aum exame srio.

    *Como todas as novas doutrinas, a revelao esprita levan-

    tou muitas objees e crticas. Consideremos algumas.Antes de mais nada, acusam-nos de querer logo filosofar;

    de ter edificado sobre a base dos fenmenos um sistema anteci-pado, uma doutrina prematura, e de ter comprometido assim ocarter positivo do Espiritismo.

    Um renomado escritor, fazendo-se intrprete de um certogrupo de psiquistas*, resumia suas crticas nestes termos: Umaobjeo sria contra a hiptese esprita a que se refere filoso-fia que certos homens muito apressados atriburam ao Espiritismo.O Espiritismo, que deveria ser uma cincia no seu incio, agorauma filosofia imensa, para a qual o universo no tem segredos.

    Poderamos lembrar a esse autor que os homens de quemele fala representaram em tudo isso apenas papel de intermedi-rios, limitando-se a coordenar e a publicar os ensinamentos queos espritos transmitiam por via medinica.

    Por outro lado, devemos notar, sempre haver indiferentes,descrentes, espritos contrrios ao progresso, prontos a acharque ns andamos com muita pressa. Nenhum progresso seriapossvel caso se tivesse que esperar pelos retardatrios. real-mente engraado ver pessoas que comearam h pouco tempoa se interessar pelas questes espritas pretender ditar regras a

    * Psiquistas: eram assim designados os adeptos da teoria metapsquica desenvolvidapor Charles Richet (1850-1935), da qual deriva o que hoje conhecemos como psicologiae parapsicologia (N.E.).

  • homens como Allan Kardec, por exemplo. Este s se atreveu apublicar seus trabalhos aps anos de laboriosas pesquisas e demaduras reflexes, obedecendo a ordens formais e bebendo emfontes de informao das quais nossos excelentes crticos nemsequer parecem ter idia.

    Todos os que seguem com ateno o desenvolvimento dosestudos psquicos podem constatar que os resultados adquiri-dos vieram confirmar em todos os pontos e fortalecer cada vezmais a obra de Kardec.

    Friedrich Myers, o importante professor de Cambridge, quefoi durante 20 anos, no dizer de Charles Richet, a alma da Socie-dade de Pesquisa de Londres, e que o Congresso Oficial Inter-nacional de Psicologia de Paris elevou, em 1900, dignidade depresidente honorrio, declarou, nas ltimas pginas de sua obramagistral La personnalit humaine; sa survivance (A personali-dade humana; sua sobrevivncia), cuja publicao produziu nomeio dos sbios uma sensao profunda: Para todo pesquisadoresclarecido e consciencioso, essas pesquisas resultam, lgicae necessariamente, em uma vasta sntese filosfica e religiosa.Partindo desses dados, ele consagra seu dcimo captulo a umageneralizao ou concluso que estabelece uma relao maisclara entre as novas descobertas e os esquemas j existentesdo pensamento e das crenas dos homens civilizados 20.

    Termina assim a exposio de seu trabalho:...Bacon havia previsto a vitria progressiva da observao

    e da experincia em todos os domnios dos estudos humanos;em todos, salvo um: o domnio das coisas divinas. Devo mostrarque essa grande exceo no se justifica. Afirmo que existe ummtodo para atingir o conhecimento dessas coisas divinas coma mesma certeza, a mesma segurana com que temos alcanadoo progresso no conhecimento das coisas terrestres. A autoridadedas Igrejas ser assim substituda pela da observao e da ex-perincia. Os impulsos da f se transformaro em convicesracionais e firmes que faro nascer um ideal superior a todosaqueles que a humanidade houver conhecido at esse momento.

    Assim, o que certos crticos com a viso limitada conside-ram uma tentativa prematura, aparece a F. Myers como umaevoluo necessria e inevitvel. A sntese filosfica que con-clui sua obra recebeu as mais altas aprovaes. Para Sir Oliver

    20 - F. Myers. La personnalit humaine; sa survivance, ses manifestations supranormales.(A personalidade humana; sua sobrevivncia, suas manifestaes sobrenaturais). Paris:Ed. Flix Alcan, 1905.

  • Lodge, o acadmico ingls, ela constitui verdadeiramente um dosesquemas mais vastos, mais compreensveis e bem fundadosda existncia jamais vistos 21.

    O professor Flournoy, de Genebra, fez a isso o maior elogioem seus Archives de Psychologie de la Suisse Romande Arquivos de Psicologia da Sua (junho de 1903).

    Na Frana, outros homens de cincia, sem serem espritas,chegaram a concluses idnticas.

    M. Maxwell, doutor em medicina, procurador-geral junto corte de apelao de Bordeaux, exprimia-se assim22:

    O Espiritismo vem a seu tempo e responde a uma necessi-dade geral... A extenso que essa doutrina est tomando umdos mais curiosos fenmenos da poca atual. Assistimos ao queme parece ser o nascimento de uma verdadeira religio, semcerimnias rituais e sem clero, mas tendo assemblias e prticas.Pelo que me diz respeito, tenho um extremo interesse nessasreunies e tenho a impresso de assistir ao nascimento de ummovimento religioso predestinado a um grande futuro.

    Perante tais testemunhos, as recriminaes de nossos oposi-tores caem por si mesmas. A que devemos atribuir sua averso doutrina dos espritos? Ser pelo fato de que o ensinamentoesprita, com sua lei de responsabilidades, com o encadeamentode causas e efeitos que ele nos mostra no domnio moral e comos exemplos de penalidades e recompensas que nos traz, ter setornado um terrvel embarao para a quantidade de pessoas quedo pouca importncia filosofia?

    *Falando dos fatos psquicos, F. Myers disse: Essas obser-

    vaes, experincias e indues abrem a porta a uma revela-o 23. evidente que o dia em que as relaes com o mundodos espritos se estabeleceram, pela prpria fora das coisas, oproblema do ser e do destino levantou-se imediatamente comtodas as suas conseqncias e sob novos aspectos.

    De qualquer forma, no era possvel nos comunicarmos comnossos parentes e amigos falecidos, fosse qual fosse o seu modode existncia, sem nos interessar por sua situao, forosamen-te ampliada e diferente do que era na Terra, pelo menos para asalmas j evoludas.

    21 - A sntese de F. Myers pode se resumir assim: evoluo gradual e infinita, emnumerosas etapas, da alma humana, na sabedoria e no amor. A alma humana tira a suafora e graa de um universo espiritual. Esse universo animado e dirigido pelo espritodivino, o qual acessvel alma e est em comunicao com ela.22 - J. Maxwell, Les phnomnes psychiques. Paris, F. Alcan, 1903.23 - F. Myers. La personnalit humaine.

  • Em nenhuma poca da Histria o homem pde subtrair-seaos grandes problemas da vida, da morte e da dor. Apesar desua impotncia para resolv-los, eles o tm preocupado inces-santemente, voltando sempre com mais fora, a cada vez quetenta afast-los, insinuando-se em todos os acontecimentos davida, em todas as partes de seu entendimento, batendo, por as-sim dizer, s portas de sua conscincia. E quando uma fontenova de ensinamentos, de consolao, de fora moral, quandovastos horizontes se abrem ao pensamento, como pode ele ficarindiferente? No ocorrer exatamente conosco a mesma coisaque esto passando os nossos parentes? No , portanto, nos-sa sorte futura, nossa sorte de amanh que est em jogo?

    Eis a questo! Esse tormento, essa angstia do desconheci-do que persegue a alma atravs dos tempos, essa intuio con-fusa de um mundo melhor, pressentido, desejado, essa procurade Deus e de sua justia podem ser, em uma nova e mais largacompreenso, acalmados, esclarecidos, satisfeitos, e devemosento desprezar os meios de o conseguir? No h, nesse desejo,nessa necessidade do pensamento de sondar o grande mistrio,um dos mais belos privilgios do ser humano? No isso queconstitui a dignidade, a beleza, a razo de ser da sua vida?

    E a cada vez que desconhecemos esse direito, esse privil-gio, a cada vez que renunciamos por algum tempo a voltar a vistapara o alm, a dirigir o pensamento a uma vida mais elevada, acada vez que o homem quis restringir seu horizonte vidapresente, no vimos, ao mesmo tempo, as misrias morais seagravarem, o fardo da existncia cair com mais peso sobre osombros dos desventurados, o desespero e o suicdio multiplica-rem a rea de sua devastao e a sociedade se encaminhar paraa decadncia e a anarquia?

    *H ainda uma outra objeo: a filosofia esprita, dizem os

    nossos crticos, no tem consistncia. As comunicaes sobreas quais se funda provm, o mais freqentemente, do prpriomdium, de seu inconsciente ou ento dos assistentes. O m-dium em transe l no esprito dos consulentes as doutrinas quea se acham acumuladas, doutrinas eclticas, tomadas de todasas filosofias do mundo e, especialmente, do hindusmo.

    O autor dessas linhas ter refletido bem nas dificuldades queuma experincia dessas deve apresentar? Ele seria capaz denos explicar os processos para se poder ler, primeira vista,no crebro das outras pessoas, as doutrinas que nele esto

  • acumuladas? Se o pode, que o faa, seno deveremos tomarsuas alegaes como palavras, nada mais do que palavras, em-pregadas levianamente, fruto de uma crtica apaixonada. Aqueleque no quer parecer ser enganado pelos sentimentos , muitasvezes, enganado pelas palavras. A incredulidade sistemtica numponto torna-se credulidade ingnua em outro24.

    Lembremo-nos inicialmente de que a maior parte dos m-diuns, no incio das manifestaes, era inteiramente contrria sopinies expressas nas mensagens. Quase todos haviam rece-bido educao religiosa e estavam impregnados de idias deparaso e de inferno. Suas idias sobre a vida futura, quando astinham, eram muito diferentes daquelas expostas pelos espritos,o que, ainda hoje, o caso mais freqente. Era o que aconteciacom trs mdiuns de nosso grupo, damas catlicas e praticantesque, apesar dos ensinamentos filosficos que recebiam e trans-mitiam, jamais renunciaram completamente sua religio.

    Quanto aos assistentes, aos ouvintes, s pessoas designa-das pelo nome de consulentes, tampouco nos esqueamos deque, ao alvorecer do Espiritismo na Frana, ou seja, na poca deAllan Kardec, os homens que possuam noes de filosofia, fosseoriental, fosse drudica*, que aceitavam a idia da transmigrao**ou vidas sucessivas da alma, constituam reduzidssimo nmero,e era preciso ir procur-los no seio das academias ou em algunsmeios cientficos bastante restritos.

    Perguntaremos aos nossos opositores como que mdiunsinumerveis, espalhados por todos os pontos da Terra, desco-nhecidos uns dos outros, conseguiram constituir por si mesmosas bases de uma doutrina slida o suficiente para resistir a todosos ataques, a todos os assaltos; exata o suficiente para que seusprincpios tenham sido confirmados e tenham recebido a cadadia a confirmao da experincia, como estabelecemos no inciodeste captulo.

    Em relao sinceridade das comunicaes medinicas eao seu alcance filosfico, lembremos as palavras de um orador,

    24 - notrio que a sugesto e a transmisso do pensamento s podem exercer aosobre pessoas preparadas h muito tempo e por pessoas que, sobre eles, tomaram certoascendente. At agora, essas experincias trazem apenas palavras ou sries de palavras,e nunca um conjunto de doutrinas. Um mdium ledor de pensamentos que se inspiranas opinies dos assistentes tiraria da, se isso fosse possvel, no noes precisas sobreum princpio qualquer de filosofia, mas os dados mais confusos e mais contraditrios.* Drudico: relativo aos druidas, ou seja, aos antigos sacerdotes entre os gauleses ebretes (N.E.).** Transmigrao: passagem da alma de um corpo para outro (N.E.).

  • cujas opinies no parecero suspeitas aos olhos de todos osque conhecem a averso que a maior parte dos dirigentes dasIgrejas tem pelo Espiritismo.

    Num sermo pronunciado a 7 de abril de 1899, em Nova York,o reverendo J. Savage, pregador de renome, dizia:

    As supostas bobagens que, dizem, vm do alm, formamlegio. E, ao mesmo tempo, existe toda uma literatura moral dasmais puras e ensinamentos espiritualistas incomparveis. Sei deum livro, por exemplo, cujo autor era graduado em Oxford, pastorda igreja inglesa, e que se tornou esprita e mdium 25. Seu livrofoi escrito automaticamente*. s vezes, para desviar o pensa-mento do trabalho que a mo realizava, ele lia Plato em grego. Eseu livro, contrariamente ao que se admite, em geral, para obrasdesse gnero, expe idias e princpios em oposio absolutas suas prprias crenas religiosas, ainda que tivesse se con-vertido antes de o ter concludo. Essa obra contm ensinamentosmorais e espirituais dignos de qualquer bblia do mundo.

    As primeiras idades do Cristianismo, vs vos lembrais dissoe lestes So Paulo, eram compostas de gente com quem as pes-soas de considerao no queriam ter nada em comum. O espi-ritualismo dos ltimos tempos estreou por uma forma semelhante.Mas, nos dias de hoje, muitos nomes famosos se enfileiram sobessa bandeira, e encontram-se os melhores e mais inteligenteshomens. Lembrai-vos que , em geral, um grande movimentobastante sincero 26.

    Em seu discurso, o reverendo Savage soube colocar cadacoisa em seu lugar. verdade que as comunicaes medinicasno oferecem todas o mesmo interesse. Muitas so um conjuntode banalidades, de repeties, de lugares-comuns. Nem todos osespritos esto aptos a nos dar ensinamentos teis e profundos**.Assim como na Terra, e mais ainda, a escala dos seres no almcomporta graus infinitos. Ali se encontram as mais nobres inteli-gncias, assim como as almas mais vulgares. Mas, s vezes,os prprios espritos inferiores, ao nos descreverem sua situaomoral, suas impresses em relao morte e ao alm, inician-

    25 - Trata-se do livro de Stainton Moses, Ensinos espiritualistas.* O livro foi escrito automaticamente, ou seja, por via medinica. Veja O Livro dosMdiuns, 2 parte, captulo 15 (N.E.).26 - Reproduzido pela Revue du Spiritualisme Moderne (Revista do Espiritualismo Moder-no), 25 de outubro de 1901. Devemos fazer notar que em casos como o de StaintonMoses, como em alguns outros, as mensagens no so somente obtidas pela escritaautomtica, mas ainda pela escrita direta, sem o intermdio de nenhuma mo humana.** Veja O Livro dos Espritos, questo 100 (N.E.).

  • do-nos nas particularidades de sua nova existncia, nos forne-cem materiais preciosos para determinar as condies de sobrevi-vncia, de acordo com as diversas categorias de espritos. H,portanto, elementos de instruo a serem considerados emnossas relaes com eles, porm nem tudo deve ser aproveitado.Cabe ao experimentador prudente e observador inteligente saberseparar o ouro da ganga*. A verdade nem sempre nos chega pura,e a ao do alto deixa s faculdades e razo do homem o camponecessrio para se exercitarem e desenvolverem.

    Em tudo isso, srias precaues devem ser tomadas, umcontnuo e atento exame deve ser exercido. preciso se pr emguarda contra as fraudes, conscientes ou inconscientes, e verse no h nas mensagens escritas um simples caso deanimismo**. Com esse objetivo, convm certificar-se de que ascomunicaes so, pela forma e pelo fundo, superiores capa-cidade do mdium. preciso exigir provas de identidade daparte dos manifestantes e no abrir mo de todo rigor, a no sernos casos em que os ensinamentos, por sua superioridade emajestosa amplitude, se impem por si mesmos e esto muitoacima da capacidade do mdium.

    Mesmo quando a autenticidade das comunicaes reco-nhecida, ainda assim preciso compar-las e submeter a exa-mes severos os princpios cientficos e filosficos que expem,e aceitar apenas os pontos em que h unanimidade.

    Alm das fraudes de origem humana, h tambm as mistifi-caes de origem oculta. Todos os experimentadores sriossabem que podemos considerar duas espcies de Espiritismo:um, praticado a torto e a direito, sem mtodo, sem elevao depensamento, e que atrai para ns os tolos do espao, os espri-tos levianos e zombeteiros, que so numerosos na atmosferaterrestre; o outro, considervel, praticado com seriedade, comum sentimento de respeito, nos pe em relao com os espritosadiantados, desejosos de socorrer e esclarecer aqueles que oschamam com fervor no corao. esse Espiritismo que as reli-gies tm conhecido e designado em todos os tempos sob o nomede comunicao dos santos.

    Pergunta-se tambm: como, nesse vasto conjunto de comu-nicaes, cujos autores so invisveis, podemos distinguir o que

    * Ganga: resduo ou sobra imprestvel do minrio de onde se extraiu ouro, prata, mine-rais raros ou pedras preciosas (N.E.).** Animismo: comunicao proveniente do prprio mdium (seja consciente ou incons-cientemente) e que tida como sendo de um esprito (N.E.).

  • provm de entidades superiores e deve ser conservado? Paraessa pergunta, h apenas uma resposta: como distinguimos osbons dos maus livros dos autores falecidos h muito tempo? Notemos ns um julgamento, uma regra para medir a qualidade dospensamentos, mesmo que venham de outro mundo ou do nos-so? Podemos julgar as mensagens medinicas principalmentepor seus efeitos moralizadores, que inmeras vezes tm melho-rado muito o carter e purificado a conscincia das pessoas. Esse o critrio mais seguro de todo ensinamento filosfico.

    Em nossas relaes com os espritos, existem tambmsinais de reconhecimento para distinguir os bons dos atrasados.Os sensitivos reconhecem facilmente a natureza dos fluidos: sutise agradveis nos bons; violentos, glaciais e difceis de suportarnos espritos maus. Um de nossos mdiuns sempre anunciavacom antecipao a chegada do esprito azul, que se revelavapor vibraes harmoniosas e de radiaes brilhantes. H algunsque se distinguem pelo odor, o que percebido por alguns m-diuns. Delicados e suaves em alguns, esses odores so repug-nantes em outros27. A elevao de um esprito se mede pela pure-za de seus fluidos, pela beleza de sua forma e de sua linguagem.

    Algumas vezes o que mais impressiona, persuade e con-vence so as conversas estabelecidas com nossos parentes eamigos que nos precederam na vida espiritual. Quando provasincontestveis de identidade nos do a certeza de sua presena,quando a intimidade de outrora, a confiana e a abnegao rei-nam novamente entre eles e ns, as revelaes, obtidas nessascondies, assumem um carter dos mais sugestivos. Diantedelas, as ltimas hesitaes da descrena desaparecem forosa-mente para dar lugar aos impulsos do corao.

    possvel resistir, na realidade, s vozes, aos chamadosdaqueles que compartilharam nossa vida, cercaram nossosprimeiros passos de terna solicitude, aos chamamentos dos com-panheiros de nossa infncia, de nossa juventude, de nossa vidaadulta, que, um por um, sumiram na morte, deixando nosso cami-nho, a cada partida, mais solitrio e mais desolado? Eles voltam notranse, com atitudes, inflexes de voz, evocaes de lembrana,com milhares e milhares de provas de identidade, banais em seusdetalhes para os estranhos, mas to comovedoras para os inte-ressados! Eles nos do instrues em relao aos problemasdo alm, exortam-nos e consolam-nos. Os homens mais frios,

    27 - Ver Maxwell. Les phnomnes psychiques.

  • os mais sbios experimentadores, como oprofessor Hyslop, no puderam resistir a essasinfluncias do alm-tmulo28. Isso demonstraque, no Espiritismo, como alguns o pretendem,no h apenas prticas frvolas e abusivas,mas que nele se encontra um mvel nobre egeneroso, ou seja, a afeio pelos nossosmortos, o interesse que temos por sua me-mria. No esse um dos lados mais respei-tveis da natureza humana, um dos sentimen-tos, uma das foras que elevam o homem aci-ma da matria e o diferencia dos irracionais?

    Depois, ao lado disso, e acima dos con-selhos comovidos de nossos parentes, de-

    vemos assinalar as aparies poderosas dos espritos de gnio,as pginas escritas febrilmente, na meia obscuridade, por m-diuns comprovadamente incapazes de compreender-lhes ovalor e a beleza, mas nas quais o esplendor do estilo se alia profundidade das idias, ou ento os discursos impressionantes,como muitas vezes ouvimos em nosso grupo de estudos, pronun-ciados por um mdium bastante modesto de saber, e por inter-mdio de um esprito nos falava sobre o eterno enigma do mundoe das leis que regem a vida espiritual. Aqueles que tiveram ahonra de assistir a essas reunies sabem que influncia pene-trante exerciam sobre todos ns. Apesar das tendncias dvidae do esprito zombador dos homens de nossa gerao, h modos,formas de linguagem, impulsos de eloqncia aos quais eles nopoderiam resistir. Os mais prevenidos seriam obrigados a reco-nhecer neles a caracterstica, a marca incontestvel de uma grandesuperioridade moral, a marca da verdade. Na presena dessesespritos, que por alguns momentos desceram ao nosso mundoobscuro e atrasado para nele fazerem brilhar um claro de seugnio, o criticismo mais exigente se inquieta, hesita e se cala.

    Durante 20 anos recebemos, em Tours, comunicaes dessaordem. Elas diziam respeito a todos os grandes problemas, atodas as questes importantes de filosofia e de moral, e com-punham diversos volumes manuscritos. Foi o resumo dessetrabalho, bastante extenso, muito grande para ser publicado inte-gralmente, que quis apresentar aqui. Jernimo de Praga, meuamigo, meu guia do presente e do passado, o esprito magnnimo

    28 - Ver No invisvel, captulo 19, as conversaes do professor Hyslop, da Universidadede Columbia, com seu pai, irmos e tios falecidos.

    Jernimo de Praga (1360 1416): reformador tcheco,discpulo e seguidor deJoo Huss e igualmentecontestador dos dogmas daIgreja Romana. A exemplode seu mestre, foi perseguidoe condenado fogueira daInquisio pelo Vaticano Conclio de Constana.

  • que dirigiu os primeiros vos de minha inteligncia infantil em ida-des remotas, seu autor. Quantos outros espritos elevados noespalharam assim seus ensinamentos pelo mundo, na intimidadede alguns grupos! Quase todos annimos, revelam-se apenas peloalto valor de suas concepes! Foi-me dado erguer alguns dosvus que encobriam sua verdadeira personalidade. Mas devoguardar seu segredo, pois os espritos mais elevados so reco-nhecidos precisamente por essa particularidade, que a de seesconder sob designaes emprestadas e a de querer ficar igno-rados. Os nomes clebres que encontramos assinando certascomunicaes, ocas e vazias, no passam, na maioria dasvezes, de um enganador esperto.

    A partir de todos esses detalhes, quis demonstrar uma coisa:esta obra no exclusivamente minha, e sim o reflexo de umpensamento mais alto que procuro interpretar. Ela est de acordo,em todos os pontos essenciais, com os princpios expressospelos instrutores de Allan Kardec; entretanto, foram abordadosnela alguns pontos que eles haviam deixado obscuros. Levei tam-bm em considerao o movimento dos pensamentos e da cin-cia humana, de suas descobertas, e o cuidado de assinal-losnesta obra. Em certos casos, acrescentei-lhe minhas impressespessoais e meus comentrios; porque, no Espiritismo, nunca demais diz-lo, no h dogmas, e cada um de seus princpiospode e deve ser discutido, julgado e submetido ao exame da razo.

    Considerei um dever conseguir que meus irmos da Terratirassem proveito desses ensinamentos. Uma obra vale pelo que. O que quer que se pense e se diga da revelao dos espritos,no posso admitir que, quando em todas as universidades seensinam sistemas metafsicos feitos pelo pensamento dos ho-mens, se possa negligenciar e rejeitar os princpios divulgadospelas nobres inteligncias do espao.

    Se damos valor aos mestres