O Romance da raposa Uma edição anotada para crianças...

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O Romance da raposa:

Uma edio anotada para crianas

Brbara Margarida Dias de Almeida Rodrigues Soares

Setembro, 2013

Trabalho de Projeto

do Mestrado em Edio de Texto

Trabalho de Projeto apresentado para cumprimento dos requisitos necessrios

obteno do grau de Mestre em Edio de Texto realizado sob a orientao cientfica

do Professor Doutor Fernando Cabral Martins.

AGRADECIMENTOS

Ao longo deste ano, muitos foram os que me ouviram, com infinita pacincia,

falar do Romance da raposa e me ajudaram a chegar ao produto final que aqui se

apresenta.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao meu orientador, o Professor

Doutor Fernando Cabral Martins, pela confiana que depositou em mim e pelo apoio

dado.

Agradeo tambm Fundao Aquilino Ribeiro, pelo acesso ao esplio do

autor, Biblioteca Nacional, onde o esplio se encontra, e Dra. Ftima Lopes pelas

valiosas orientaes.

Um grande e sincero obrigada:

Susana, pela ideia inicial, por todas as horas que perdeu comigo a olhar para

as minhas anotaes, pelo azul da maquete, pelas dicas valiosas que me deu e por me

fazer chorar de tanto rir.

Ao Rodrigo e Rita, pelas opinies, crticas e graolas com que animaram estas

ltimas semanas.

Ao Gonalo, Snia e ao Flix por terem contribudo para transformar os

jantares de sbado em momentos muito especiais.

Vania, ao Pedro, Ndia e Sancha, por nunca me terem deixado desistir.

s minhas avs, que todos os dias me perguntaram j terminaste?, nunca me

deixando esquecer de que no, ainda no tinha terminado.

Ao Joo, por me desafiar, por acreditar em mim, por ser o meu porto de abrigo

e por me lembrar de que h vida l fora.

E, por fim, minha famlia, em especial aos meus pais e ao meu irmo, por toda

a pacincia, apoio e carinho que me deram nestes meses e por me terem ajudado a ser

quem sou.

O ROMANCE DA RAPOSA:

UMA EDIO ANOTADA PARA CRIANAS

BRBARA MARGARIDA DIAS DE ALMEIDA RODRIGUES SOARES

RESUMO

O presente trabalho de projeto relata as fases de elaborao de uma edio anotada do Romance da raposa, de Aquilino Ribeiro (1885-1963), elaborada para crianas a partir dos 10 anos. Identificaram-se as cinco variantes existentes do texto, fixou-se a variante de 1961 como texto de trabalho, recorreu-se a software de OCR para gerar uma verso editvel e reviu-se adequadamente a mesma antes de se dar incio ao trabalho. Procedeu-se depois comparao de uma amostra de publicaes quanto ao contedo das anotaes e ao design grfico para fundamentar a definio dos critrios de anotao do presente projeto e elaborar uma maquete. O resultado uma edio para leitores a partir dos 10 anos de idade que pode tambm ser usada por adultos como instrumento de apoio leitura do livro a crianas mais novas. O texto encontra-se integralmente anotado, com documentao referente s anotaes realizadas, e elaborou-se uma maquete digital do volume que inclui uma introduo edio anotada e dois captulos anotados. PALAVRAS-CHAVE: Edio anotada, Romance da raposa, Aquilino Ribeiro, OCR ABSTRACT This report documents the stages of development of an annotated edition of the childrens classic Romance da raposa, by Aquilino Ribeiro (1885-1963), for children aged 10 or older. We identified five published text variants and adopted the 1961 variant as the critical text. We used OCR software to convert the digitalized text to an editable format and conducted the necessary proof-reading procedures in order to clean the text. We then analyzed and compared similar publications on the content of the annotations and graphic design to ground our choices about the annotation criteria and the appearance of the final mockup. The result is an annotated edition for readers aged 10 or older that can also be used by adults as an aid when reading to younger children. The text is integrally annotated, and a full list of references is given in the Bibliography section. The digital mockup features an introduction to the annotated edition and two annotated chapters. KEYWORDS: Annotated edition, Romance da raposa, Aquilino Ribeiro, OCR

NDICE

Introduo .................................................................................................................... 1

1. Aquilino Ribeiro e o Romance da raposa ................................................................. 5

1.1. Aquilino Ribeiro: Vida e obra............................................................................ 5

1.2. O Romance da raposa ...................................................................................... 8

2. As edies anotadas para crianas ......................................................................... 20

2.1. As edies anotadas ...................................................................................... 20

2.2. Estudo de mercado ........................................................................................ 25

2.3. Anlise e comparao das edies identificadas ............................................ 26

3. Anotar o Romance da raposa ................................................................................. 29

3.1. A fixao do texto .......................................................................................... 29

3.2. Optical Character Recognition (OCR) .............................................................. 30

3.3. O Acordo Ortogrfico de 1990 ....................................................................... 32

3.4. Os critrios de anotao ................................................................................ 33

3.5. A anotao do texto ....................................................................................... 35

4. A proposta grfica .................................................................................................. 37

4.1. Parmetros da composio grfica ................................................................ 37

4.2. A elaborao da maquete .............................................................................. 41

Concluso ................................................................................................................... 44

Bibliografia ................................................................................................................. 49

Apndice A ..................................................................................................................... i

Apndice B .................................................................................................................... v

apndice c.................................................................................................................... xi

Apndice D ............................................................................................................. cxxvi

1

INTRODUO

As edies anotadas1 para leigos so uma criao relativamente recente,

datando a primeira de 1960 (Cohen, 2001). Desde ento, estas edies ganharam

popularidade nos mercados norte-americano, britnico e francs, garantindo um lugar

seguro nos catlogos das principais editoras de clssicos. No entanto, no mercado

editorial portugus apesar de ser possvel encontrar edies escolares e guias de

leitura para as obras que fazem parte do currculo de Lngua Portuguesa, bem como

algumas edies crticas de obras conceituadas , o tipo de edio anotada sobre a

qual iremos trabalhar praticamente inexistente.

Devido a esta lacuna, escolhemos como trabalho de projeto para a concluso

do Mestrado em Edio de texto a elaborao de uma edio anotada de um clssico

da literatura infantil portuguesa, acolhendo a oportunidade de aplicar diferentes

competncias adquiridas durante este ciclo de estudos.

A escolha da obra a anotar recaiu sobre o Romance da raposa, da autoria de

Aquilino Ribeiro (publicado pela primeira vez em 1924), porque esta permanece uma

obra nica no panorama literrio portugus para crianas e jovens: pela riqueza do

vocabulrio empregue, pela variedade de recursos estilsticos usados, pela irreverncia

da protagonista e pelo animado dilogo que estabelece com a tradio literria

fabulstica e com os contos populares portugueses. Acresce a isso celebrar-se, em

2013, o centenrio da publicao do primeiro livro de Aquilino Ribeiro, bem como os

50 anos da sua morte. Assim, pareceu-nos pertinente contribuir com um projeto que

permite apresentar o autor a uma nova gerao de leitores a partir de um texto que

explora alguns dos temas centrais da sua obra (a ligao natureza, a luta pela

sobrevivncia, o retrato dos costumes e das gentes da Beira Alta) e no qual se

reconhecem os principais traos estilsticos da escrita aquiliniana.

1 No decorrer desta memria usaremos o termo edio anotada, do ingls annotated edition, para distinguir este tipo de edio das edies crticas e das edies escolares, que podem igualmente incidir sobre uma determinada obra literria. No Brasil estas edies tomam a designao de edies comentadas.

2

Muitos so os intelectuais que consideram o Romance da raposa um clssico da

literatura infantil portuguesa, entre eles Rui Veloso (s.d.), Antnio Garcia Barreto

(1998) e Ester de Lemos (1972), embora esta autora chame a ateno, na sua obra A

literatura infantil em Portugal, para a opulncia lexical do escritor. De facto, a

dificuldade de interpretao de algumas passagens inegvel, como a publicao de

um Glossrio sucinto para melhor compreenso de Aquilino Ribeiro2 veio sublinhar.

scar Lopes (1994) foi talvez quem melhor identificou os desafios inerentes leitura

de Aquilino por crianas e jovens. Referindo-se especificamente ao Romance da

raposa, afirmou:

Tudo isto, e ainda a profuso de referncias campestres, so coisas perfeitamente

naturais para as crianas aldes, para crianas urbanas muito novas, requer-se uma boa

leitura oral e algumas explicaes de passagem que esclaream uma frase desenvolta, por

vezes com aluses j datadas e em que, como em geral na frase aquiliniana, a expresso

clssica e precisa se entrosa com um lxico e uma fraseologia carregada de humor ou de

gria caricatural ().

(Lopes, 1994, pp. 185-186)

Pensamos que os desafios que o texto coloca, apesar de se acentuarem nos

leitores urbanos, no afetam apenas este grupo. Embora o encanto da Salta-Pocinhas

permanea intacto e as suas aventuras continuem to apelativas como h 89 anos,

quando pela primeira vez vieram divertir as crianas portuguesas, o tempo

encarregou-se de distanciar o texto das crianas que o leem nos dias que correm. As

alteraes de hbitos de leitura, de vocabulrio e de estilo de vida tornam este livro

desafiante para os mais novos, a maior parte dos quais nunca viu a lura de um coelho,

nunca ouviu um bufo noite nem entrou numa capoeira o mundo de hoje ,

evidentemente, muito diferente do Portugal de 1924.

Reconhecendo simultaneamente o valor e as dificuldades que este clssico da

literatura infantil apresentar ao pblico para o qual foi pensado, nosso objetivo com

este trabalho criar um instrumento que funcione como mediador da leitura autnoma

2 De Elviro Gomes (s.d.). Consultar a Bibliografia, seco Obras consultadas para a anotao do Romance da raposa (Apndice C) para a referncia completa.

3

e aproxime o texto dos leitores de hoje, apresentando a criana escrita de uma figura

literria portuguesa incontornvel do sculo XX. Assim, a nossa inteno elaborar

uma edio ldica (no crtica nem escolar), de carter eminentemente prtico,

direcionada a um pblico leigo.

O pblico-alvo desta edio anotada coincide com o da obra, isto , crianas a

partir dos 10 anos de idade3 (ver Imagem 1). A delimitao da idade, no pretendendo

ser critrio de excluso, permite circunscrever os contedos a incluir, definir a

linguagem a utilizar e o estilo a adotar, bem como fundamentar algumas das decises

relativas apresentao grfica da maquete neste ponto conveniente salientar

que, apesar das dificuldades reconhecidas ao texto, ele tem sido com frequncia

trabalhado nas escolas portuguesas do 3 ao 9 anos de escolaridade, quer em sala de

aula4, quer em eventos nacionais, como o Concurso Nacional de Leitura promovido

pelo Plano Nacional de Leitura (PNL) e pelo programa Ler+5. Decidimos manter a

linguagem e o design dinmicos, mas sbrios, para que a edio anotada pudesse

apelar tambm aos pais que desejassem us-la como um apoio leitura do texto a

crianas mais novas ou com maiores dificuldades de interpretao do mesmo.

Encontrando-se este trabalho de projeto na interseo de diferentes disciplinas

relacionadas com a edio de textos para a infncia, foram utilizadas diferentes

metodologias para a sua concretizao.

Numa primeira fase, procedemos a uma breve reviso de literatura sobre a vida

e obra de Aquilino Ribeiro, bem como a uma investigao mais aprofundada sobre as

interpretaes e anlises publicadas acerca do Romance da raposa, a gnese do texto

3 Opinio no consensual: Rita Taborda Duarte, na sua recenso do Romance da raposa para Rol de livros, recomenda-o dos 6 aos 12 anos (consultado a 12 de agosto de 2013 em http://www.leitura.gulbenkian.pt/). O prprio Aquilino declara, por sua vez, em Marginalia (1987b, p. 170), que o livro se destina a crianas acima de dez anos.

4 Consultar, por exemplo, o blog da BECRE do Agrupamento Vertical de Escolas do Viso, disponvel em http://biblioviso.blogspot.pt/2010/04/romance-da-raposa.html (consultado a 20 de agosto de 2013), ou os materiais recolhidos junto de diferentes professores por Manuela Ramos no seu stio dedicado ao Romance da raposa, disponvel em http://www.livebinders.com/play/play?id=906199 (consultado a 12 de agosto de 2013).

5 Edio 2011/2012, leitura obrigatria para os participantes do 2 ciclo. No stio do PNL: http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/pnltv/uploads/balancos/relatorio_pnl_1ano_2fase(1).pdf (consultado a 1 de setembro de 2013).

http://www.leitura.gulbenkian.pt/http://biblioviso.blogspot.pt/2010/04/romance-da-raposa.htmlhttp://www.livebinders.com/play/play?id=906199http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/pnltv/uploads/balancos/relatorio_pnl_1ano_2fase(1).pdf

4

Imagem 1: Boletim de recenso e pedido de aquisio do Romance da raposa, em nome de Branquinho da Fonseca. Fonte: Rol de livros, no stio [email protected] (www.leitura.gulbenkian.pt).

e a relevncia histrica e cultural do mesmo (captulo 1. Aquilino Ribeiro e o Romance

da raposa).

Numa segunda fase, realizmos um levantamento (no exaustivo) de edies

anotadas, com vista identificao de publicaes dirigidas a crianas e jovens.

Posteriormente, procedemos a uma anlise do design grfico e dos contedos das

anotaes (captulo 2. As edies anotadas para crianas).

A terceira fase consistiu numa leitura cuidada e aprofundada do Romance da

raposa, que permitiu a definio dos critrios de anotao e a identificao das

passagens que, segundo esses critrios, justificavam comentrio (captulo 3. Anotar o

Romance da raposa). Recorremos a fontes diversas para fundamentar as anotaes

realizadas. O texto completo (anotado) pode ser consultado no Apndice C.

Na quarta fase demos incio explorao de solues grficas equilibradas para

as anotaes, culminando na elaborao da maquete final (captulo 4. A proposta

grfica). Nesta maquete, que pode ser consultada em CD, inclumos uma introduo

edio anotada, a dedicatria, o captulo I da primeira parte e o captulo IV da segunda

(no Apndice D deste relatrio encontra-se apenas o captulo I). Como este trabalho

de projeto no , na sua essncia, um trabalho de design grfico, apresentamos a

maquete paginada apenas como exemplo do que poderia ser esta edio anotada e

aproveitmos para aplicar os conhecimentos tericos e tcnicos adquiridos durante a

frequncia do Mestrado. Por fim, refletimos sobre o trabalho realizado, os principais

desafios encontrados e o produto final (Concluso).

5

1. AQUILINO RIBEIRO E O ROMANCE DA RAPOSA

There are good books which are only for adults, because their comprehension presupposes adult

experiences, but there are no good books which are only for children.

W. H. Auden6

1.1. Aquilino Ribeiro: Vida e obra

Aquilino Gomes Ribeiro (1885-1963) uma das personagens mais controversas

da literatura portuguesa do sc. XX. A sua participao no movimento anarquista

antimonrquico na viragem do sculo, a suspeita de envolvimento no regicdio

(envolvimento este que o autor sempre negou) e a postura desafiante que sempre

manteve face ditadura instaurada em 1926 granjearam-lhe uma notoriedade que,

para alguns, o elevou a heri e, para outros, a assassino (Costa, 2007).

Nasceu em Carregal da Tabosa (Sernancelhe, Beira Alta) a 13 de Setembro de

1885 e alguns anos depois foi viver para a Soutosa (Moimenta da Beira), onde se

localiza hoje em dia a Fundao e Casa-Museu Aquilino Ribeiro.

O jovem Aquilino teve uma educao muito religiosa em casa, que prosseguiu

quando entrou para a escola: depois de concluir a instruo primria, frequentou o

Colgio da Senhora da Lapa e, aos quinze anos, ingressa no Colgio Roseira, em

Lamego, para realizar os exames preparatrios de acesso ao Seminrio. Apesar de ter

uma crise de vocao e regressar a casa por um ano, acaba por retomar os

preparatrios em Viseu. Em 1902 parte finalmente para o Seminrio de Beja (Vidigal,

1986).

O seu tempo no seminrio, enquanto estudava Teologia, foi um perodo de

sucessivas desiluses com as prticas eclesisticas que culminou numa nova crise de

vocao e de f, levando Aquilino a abandonar Beja e a partir para Lisboa. a que tem

o primeiro contacto com as ideias e movimentos republicanos e se envolve na poltica

6 Citado por Haughton (1998, p. xiii).

6

(Vidigal, 1986). Trabalhou como jornalista, nomeadamente no Jornal de Lisboa e no

Repblica (Vidigal, 1986; Infopedia, 2013).

A 17 de novembro de 1907, enquanto membro de um canteiro da Carbonria

de Luz de Almeida, v-se envolvido numa exploso acidental quando, com dois outros

membros do mesmo grupo clandestino, preparava bombas no seu apartamento da rua

do Carrio (Vidigal, 1986). preso como conspirador e interrogado, mas, algumas

semanas mais tarde, evade-se, permanecendo clandestinamente em Lisboa at

conseguir escapar para Paris, j depois do regicdio (Vidigal, 1986; CulturalKids, 2003;

Pitas, Milheiro, & Preto, 2003).

Em Paris ingressa na Sorbonne onde estuda Filosofia. l que conhece a

primeira mulher, Grete Tiedeman, com quem casa em 1913. O contacto com o meio

literrio e acadmico parisiense leva-o a afastar-se do sentimentalismo e moralismo

dos naturalistas portugueses, comeando a descobrir a sua voz literria (Lopes, 1987).

O seu primeiro livro, Jardim das Tormentas, publicado em Lisboa em 1913 e, em

1914, nasce Anbal Aquilino Fritz Tiedeman Ribeiro (m. 1999).

A ecloso da I Guerra Mundial tr-lo de volta a Portugal sem terminar o curso.

Aquilino emprega-se como professor no Liceu Cames e continua a escrever (Vidigal,

1986; Lopes, 1987).

De 1919 a 1927 trabalha como conservador na Biblioteca Nacional, junta-se ao

Grupo da Biblioteca e torna-se redator da Seara Nova. Em 1924 publica o Romance da

raposa, dedicado ao filho.

O golpe de estado de 28 de Maio de 1926 leva-o a aderir novamente a um

grupo clandestino de resistncia. Participa na revolta democrtica de 7 de Fevereiro de

1927, v-se forado a fugir para a Beira Alta para evitar a priso e demitido da

Biblioteca Nacional. Ainda nesse ano, Grete, a sua primeira mulher, falece. Em 1928,

participa na revolta do Regimento de Pinhel, preso pela segunda vez, evade-se

(novamente) de forma novelesca e foge para Paris. O seu segundo exlio dura at 1932

(Vidigal, 1986). Durante esse perodo, conhece Jernima Dantas Machado, que viria a

ser a sua segunda mulher, casa-se e nasce o seu segundo filho: Aquilino Ribeiro

Machado (1930-2012). Muda-se para Baione, depois Vigo e Tui.

7

Em 1932 Aquilino Ribeiro regressa semiclandestinamente a Portugal e fixa-se

em Viseu. No final desse ano vai viver para a Cruz Quebrada, sendo mais tarde

amnistiado (Pitas, Milheiro, & Preto, 2003). Em 1933 recebe o prmio literrio Ricardo

Malheiros pelo livro As trs mulheres de Sanso (1932).

Depois da II Guerra Mundial, junta-se ao Movimento de Unidade Democrtica

(MUD) e apoia a candidatura de Norton de Matos (1946). Em 1952 viaja at ao Brasil e

homenageado com a comenda Cruzeiro do Sul.

Aquilino Ribeiro foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores,

em 1956, e torna-se o seu primeiro presidente, sendo nomeado devido ao estatuto e

ao respeito literrio que a sua carreira lhe granjeara (Vidigal, 1986).

Em 1957 publica A casa grande de Romariges, considerado por muitos a sua

obra-prima. O ano de 1958 marcante: torna-se membro efetivo da Academia de

Cincias de Lisboa, apoia publicamente a candidatura de Humberto Delgado e -lhe

instaurado um processo pela publicao do livro Quando os lobos uivam. Este processo

gerar uma onda de indignao nacional e internacional que levar ao arquivamento

do caso (Caldeira & Adringa, 1994; Pitas, Milheiro, & Preto, 2003).

O respeito por Aquilino Ribeiro cresce de forma constante ao longo de todos

estes anos e, devido a uma produo literria regular, a publicao de um novo livro

na rentre de outono torna-se um acontecimento aguardado com expectativa. Em

1960, um conjunto de intelectuais e figuras literrias, encabeadas por Vieira de

Almeida, propem a candidatura de Aquilino Ribeiro ao prmio Nobel da Literatura.

Morre em Lisboa, a 27 de Maio de 1963, quando se celebravam os 50 anos

sobre a publicao da sua primeira obra, deixando por publicar um livro infantil

dedicado neta (O livro de Marianinha: Lengalengas e toadilhas em prosa rimada) e

um livro de memrias (Um escritor confessa-se) editados pela primeira vez em 1967

e 1974, respetivamente. Em 1988 sairia ainda Pginas do exlio: Cartas e crnicas de

Paris, uma recolha de textos realizada por Jorge Reis.

Apesar de no ter recebido o Nobel, uma vida dedicada s letras com mais

de 60 ttulos publicados garantiu-lhe lugar como um dos maiores escritores da

Lngua Portuguesa, o que, a par com o compromisso firme para com os valores

8

republicanos e democrticos, lhe conferiu o direito de, em 2007, ser inumado no

Panteo Nacional o dcimo portugus a merecer essa honra, e o quarto escritor

(acompanhando Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e Joo de Deus) (IGESPAR, 2013).

1.2. O Romance da raposa

Na seco anterior, apresentmos Aquilino como um homem fortemente

comprometido com os valores republicanos e com a democracia. Esta caracterstica do

escritor foi sempre muito saliente e, em parte, justifica o grande magnetismo da sua

personalidade e o fascnio que exercia sobre as pessoas que o rodeavam.

No caso especfico do Romance da raposa, o autor faz bem cedo uma

declarao de intenes que se revela em sintonia com as atitudes republicanas face

literatura infantil e com a transformao de mentalidades a que se assistia nesse

momento em Portugal relativamente literatura para os mais novos (Barreto, 1998).

Diz Aquilino ao filho na dedicatria do Romance da raposa:

E dei-lhes voz [aos bichos] para melhor manifestarem o que so, e nunca para

com les aprendermos a distinguir o bem e o mal, problemas que, pobres irracionais, nem

sequer podem sonhar.

Se ao fim de cada jornada, bateres as palmas, dar-me-ei por largamente

recompensado. Basta que te recreies, como no Jardim Zoolgico, para ambos no

perdermos o tempo.

(Ribeiro, 1924, pp. 5-6)7

Tambm os seus companheiros da Seara Nova Jaime Corteso e Antnio Srgio

publicavam nessa altura livros para crianas que se afastavam das preocupaes

moralizantes e didticas da literatura do sc. XIX e que encaravam o livro como um

objeto para a criana desfrutar.

7 A dedicatria foi ligeira mas constantemente reescrita at sua verso final de 1961 para a edio das Obras Completas (1961).

9

Na obra destes trs escritores Aquilino, Corteso e Antnio Srgio comea

a tornar-se saliente a preocupao de fazer acompanhar a boa escrita de uma boa

ilustrao e de um produto global de qualidade (uma verdadeira parceria

editor/escritor/ilustrador) (Barreto, 1998).

Ester de Lemos (1972, p. 25) faz notar que esse um momento histrico em

que se assiste ao dealbar de uma nova atitude relativamente literatura infantil por

parte de alguns escritores portugueses influenciada pelo movimento modernista. A

literatura infantil tenta ser menos idealista, mais ldica, derrubar tabus e apostar no

sentido de humor e na irreverncia, qualidades estas humor e irreverncia que a

escrita de Aquilino tem de sobra (Veloso, s.d.). Barreto (2002, p. 453) da mesma

opinio, acrescentando relativamente aos trs livros que Aquilino escreveu para

crianas que no usa estas obras para passar criana os habituais sermes

educativos e moralizantes. Toma outro caminho e faz literatura; numa outra obra

(Barreto, 1998, p. 37), afirma, em relao ao Romance da raposa: prosa da boa

(aqui e ali sublinhada pelo arrevesado vocabulrio do escritor). Literatura.

Outra caracterstica que interessante assinalar a de que o autor no pede

desculpa pela dificuldade do vocabulrio que utiliza dificuldade que, alis, no tenta

negar. Em resposta a um inqurito que foi includo na seco Marginalia do

Romance da raposa (1987b), Aquilino afirma:

Sim, tenho a preocupao da idade, e com isso das ideias, que expendo, e em

grau imediatamente inferior a preocupao do vocabulrio. Se escrevssemos apenas com

as palavras que a criana emprega e de que sabe o significado, medocre seria o nosso

modo de expresso. A leitura de uma pgina um aprendizado. () Uma palavra que

ignora, desde que pertena, bem entendido, ao nosso glossrio quotidiano, um obstculo

que vence penetrando-lhe o sentido por intuio natural.

(Ribeiro, 1987b, p. 170)

Esta afirmao encerra todo um programa educativo. No entanto, compete-nos

salientar que o autor faz a ressalva desde que pertena, bem entendido, ao nosso

glossrio quotidiano. E esse glossrio vem Aquilino a admitir, mais tarde, no

posfcio de Arca de No, III Classe (intitulado A quem se proponha ler Arca de No, III

10

Classe) depende no s da idade da criana, mas tambm das suas experincias,

do meio em que vive:

O leitor da cidade no o mesmo da aldeia. O da cidade mais sabido no que diz

respeito vida civilizada; o da aldeia no que diz respeito vida natural. Aquele nunca

viu uma giesta, ou se viu, no fez reparo. Provavelmente no sabe o que a lura de um

coelho. Este nunca viu um esquilo, a no ser pintado, e deve fazer uma ideia muito

imperfeita do que seja um rgo da S, um contador de gua para no irmos mais longe.

(Ribeiro, 1989, pp. 160-161)

Contrastando as declaraes do autor com a nossa realidade atual, torna-se

evidente que a poca em que vivemos e os anos que passaram se encarregaram de

distanciar ainda mais o texto das crianas de hoje. Quantos de ns vimos um esquilo

nos parques das nossas cidades? Quantas crianas hoje em dia no sabem o que um

contador de gua?

1.2.i. Gnese

Ao que tudo indica, o Romance da raposa foi um livro elaborado de forma

continuada ao longo de um perodo distendido de tempo. A novela ter surgido de

forma espontnea, das histrias contadas por Aquilino Ribeiro ao filho Anbal8. O pai,

entretecendo na sua histria episdios e pormenores de vrias fbulas clssicas de La

Fontaine e de contos populares portugueses9 em ambos os casos muito

influenciados pela tradio fabulstica oral que remonta Idade Mdia e vai beber s

fbulas de Esopo (Veloso, 1994; CulturalKids, 2003) constri uma verso pessoal e

muito portuguesa de uma personagem arquetpica: a raposa.

A Salta-Pocinhas, como personagem histrica que (Ribeiro, 1987a), encarna

as qualidades tpicas da raposa das fbulas (a manha e a inteligncia, o instinto de

sobrevivncia e a cautela), postas em evidncia pela burrice e bruteza dos seus

8 De acordo com as palavras do autor na dedicatria do Romance da raposa (Ribeiro, 1924, pp. 5-6).

9 Para um levantamento exaustivo das intertextualidades do Romance da raposa com as fbulas de La Fontaine e contos tradicionais portugueses consultar Metzeltin (1981) e Veloso (1994).

11

opositores na histria (principalmente o lobo Brutamontes, mas tambm o texugo

Salamurdo, o gato-bravo e o bufo).

Se Aquilino reescreve a tradio sempre em favor da sua herona, dotando-a

de um raciocnio mais arguto ainda do que lhe , por vezes, atribudo nas fbulas

tradicionais, tornando-a protagonista de estratagemas da autoria de outras

personagens ou fazendo-a resolver com sucesso desafios que a sua gmea da tradio

fabulstica no conseguira superar (Metzeltin, 1981) e natural que assim seja, uma

vez que, com os seus silncios, perguntas e interrupes, Anbal garantia que a

raposa sobrevivesse sempre s suas aventuras para que no dia seguinte houvesse mais

um episdio para relatar.

Apesar de a Salta-Pocinhas ser herdeira da tradio literria europeia,

tambm e ainda, marcadamente nacional. Veloso (s.d., p. 3) chamou-lhe um heri

pcaro do mundo animal e Fernandes (2008, p. 11) considera-a alma gmea de, por

exemplo, um Malhadinhas a Salta-Pocinhas era um arqutipo animal do cidado

portugus das classes baixas, obrigado a recorrer a estratagemas e subterfgios para

sobreviver ao dia a dia. So tambm portugueses de gema os dilogos, as aldeias, as

serras e os bichos, imagens de marca da literatura aquiliniana (Rodrigues, 1995).

Talvez devido ao carter espontneo e coloquial da primeira edio do

Romance da raposa, Aquilino Ribeiro continuou a reescrever e a aprimorar o texto nos

anos seguintes (sem, no entanto, nele intervir radicalmente), sempre que uma nova

tiragem dava azo a tal reviso. Assim, o texto sofreu vrias alteraes, originando

diferentes variantes, que sero discutidas de seguida.

1.2.ii. Edies e reimpresses

No decorrer da nossa investigao consultmos todas as edies disponveis do

Romance da raposa. A anlise comeou pela identificao de edies/reimpresses

nos catlogos da Biblioteca Nacional e das Bibliotecas Municipais de Lisboa, seguida da

sua consulta e comparao10.

10 No sendo objeto deste projeto a elaborao de uma edio crtica, muito menos gentica, da obra, compararam-se apenas pequenos fragmentos amostrados aleatoriamente. Para uma

12

Impunha-se, em primeiro lugar, definir de forma clara o que se entende por

edio e reimpresso. Partindo do Dicionrio tcnico de termos alfarrabsticos

(Ferreira, 1997, p. 63), uma edio seria o conjunto dos exemplares da obra,

impressos de uma s vez e com a mesma composio e paginao.

primeira vista, poderia parecer que edio e reimpresso seriam ento

sinnimos, no entanto o verbete reedio esclarece que o termo apenas aplicvel

quando apresenta qualquer alterao relativa edio anterior, caso contrrio deve

chamar-se reimpresso (Ferreira, 1997, p. 147).

Faria e Perico (1988, p. 105) so mais especficas: as autoras definem edio

como o conjunto de exemplares de uma publicao em srie, obtido de uma s

matriz; qualquer alterao, quer de textos, quer de aspecto grfico dessa matriz,

constitui uma nova edio ou o nmero de exemplares impressos ao mesmo tempo,

quando o texto sofreu alteraes, foi composto de novo total ou parcialmente ou se

mudou o formato; uma nova edio tem que ter por base um novo molde; no caso de

o molde ser o mesmo, no pode falar-se de nova edio, mas de nova tiragem ou

reimpresso ().

As mesmas autoras (Faria & Perico, 1999, p. 518) do ainda como definio de

reedio: edio nova de uma obra ou de qualquer outro trabalho impresso;

distingue-se das anteriores por terem sido introduzidas alteraes na apresentao ou

no contedo e clarificam que estas alteraes podem ser relativas ao texto ou

ilustraes, cdigo textual (lngua escrita, braille, etc.), suporte (tipo de papel,

dimenso da mancha, microforma), editor, processo de impresso, tipo de carateres,

etc..

Assim sendo, consideraremos estar em presena de uma nova edio do

Romance da raposa sempre que haja alteraes no texto e/ou na composio e

paginao do volume.

Com base nesta definio foram identificadas 7 edies do Romance da raposa

(1924, 1935, 1949, 1956, 1961, 2002 e 2011) e uma adaptao para BD (2009), as quais

comparao das passagens que, nessa amostragem, revelaram variao pode consultar-se o Apndice A, Quadro 1A.

13

passamos a apresentar (pode consultar-se o Apndice A, Imagem 1A, para uma viso

esquemtica destas edies).

PRIMEIRA EDIO:

A primeira edio sai em dezembro de 1924 (segundo indicao na dedicatria

laia de introduo que acompanha o Romance da raposa).

A documentao disponvel no esplio guarda da Biblioteca Nacional (BN)

inclui um manuscrito da primeira edio, datado de 1 de dezembro de 1923, com a

indicao Marcao de gravuras inscrito mo no I Tomo. Neste manuscrito

possvel ler, a lpis, pela mo do autor, indicaes relativas s gravuras desejadas e sua

localizao e, a caneta, correes ao texto (rasurando as palavras correspondentes) ou

alternativas frsicas (introduzidas entre linhas ou na margem, sem rasurar o texto).

Outro manuscrito, provavelmente posterior (catalogado como ca. 1924 pelos

servios da BN) e com a nota 2 cpia pela mo do autor (possivelmente), exibe

ainda numerosas correes, principalmente no II Tomo das aventuras da

Salta-Pocinhas, no qual pginas inteiras so reescritas.

Com base apenas nestes documentos, podemos dizer, numa estimativa

conservadora, que mediou pelo menos um ano desde a transposio do texto para o

papel e o seu surgimento nas bancas e que, durante esse perodo, as alteraes ao

texto so frequentes. Esta primeira edio foi publicada por Aillaud e Bertrand na

coleo Histrias e Historietas (Srie C 10 anos em diante) em dois volumes, de 18

cm, com 16 ilustraes de pgina inteira a cores e vrias ilustraes a preto e branco

que acompanham aqui e ali o texto.

Das ilustraes, encomendadas a Benjamim Rabier por Jlio Monteiro Aillaud,

diz Aquilino Ribeiro (1987b, p. 171) que custaram uma fortuna ao meu sempre

saudoso e querido editor. So elas a componente mais estvel da obra, tendo todas

as edies mantido a fidelidade a esta primeira encomenda, variando apenas o

nmero de ilustraes selecionadas e a sua apresentao a cores ou a preto e branco.

SEGUNDA EDIO:

A segunda edio, de 1935, combinava j os dois tomos no mesmo volume,

separando a histria em duas partes, a primeira subtitulada A Raposinha, e a segunda,

14

A Comadre. Esta edio apresenta alteraes substanciais de fraseamento em vrias

passagens da histria (e at da dedicatria), mas mantm a linha narrativa e a

sequncia de aventuras narradas, bem como as ilustraes a cores.

TERCEIRA EDIO:

Em 1949 sai uma nova edio, com a inscrio 3 edio definitiva. A

composio desta edio muito semelhante s anteriores, sendo as ilustraes ainda

a cores, mas o tamanho maior (a altura da lombada passa de 18 cm para 23 cm) e o

autor volta a retocar algumas passagens do texto, mantendo mais uma vez a estrutura

intacta (consultar Apndice A para alguns exemplos das alteraes introduzidas).

QUARTA EDIO:

A edio seguinte publicada em 1956 com a indicao ne varietur. No que

toca ao texto, no foram encontradas diferenas face 3 edio. No entanto, como

nesta edio que pela primeira vez as ilustraes surgem a preto e branco e porque o

nmero de ilustraes de pgina inteira bem menor do que nas trs anteriores (seis,

em vez de 16), considerou-se que esta tiragem era suficientemente diversa a nvel do

contedo e da composio para a classificar como uma reedio. Vem ainda com a

indicao: Desta edio fez-se uma tiragem de 100 exemplares em papel especial Alfa

numerados de 1 a 100 todos rubricados pelo autor. A lombada tem 20 cm de altura,

mais baixa do que na 3 edio.

QUINTA EDIO:

Em 1961 o Romance da raposa volta s bancas como parte da coleo Obras

Completas, que reimprime toda a obra do autor a preto e branco, com paratextos

inditos a acompanhar o texto e com uma dimenso de 20 cm em tudo semelhante

quarta edio exceto nas alteraes ao texto. A seleo das ilustraes conforma-se

com as escolhas de 1956 e mantm-se a impresso a preto e branco.

Desta edio fizeram-se tiragens sucessivas (reimpresses) at 199811.

11 Reimpresses catalogadas na BN (registos das Bibliotecas Municipais de Lisboa entre parntesis): (1975), 1979, 1981, 1982, 1984, (1986, 1987), 1992, (1996, 1997), 1998.

15

SEXTA EDIO:

A sexta edio, de 2002, recupera as ilustraes originais a cores que figuravam

nas trs primeiras edies e apresenta um contedo ao nvel do texto que, falta de

melhor termo, chamaremos de hbrido. Isto porque, se a nvel da histria o texto

reproduz a 3 edio definitiva, ao nvel das legendas das ilustraes possvel

encontrar variantes textuais da terceira e da quinta edies, sem que tenha sido

possvel localizar, at data de submisso deste projeto, um documento pela mo do

autor que autorize esta verso. Desta edio fizeram-se trs reimpresses em 2003,

2006 e 2012. A Bertrand Editora marcou as tiragens de 2006 e de 2012 como 3

edio e 4 edio, respetivamente.

curioso notar que, apesar de a cada passo o texto ter sido revisto, a

interveno dos revisores foi sempre muito pouco intrusiva nos acidentais. No

entanto, esta 6 edio apresenta uma tentativa de normalizao da utilizao dos

itlicos que, apesar de merecida, s nesta edio teve expresso. O resultado fica

aqum do necessrio, mas contribui para uma uniformizao do texto.

ADAPTAO PARA BD:

Em 2009 Artur Correia adaptou o texto para banda desenhada com ilustraes

do prprio. Curiosamente, Correia altera o ttulo para O romance da raposa e baseia

esta edio num anterior trabalho de adaptao da histria para televiso: a srie

animada de 13 episdios da qual foi co-realizador e que estreou em 1988 na RTP

(IMDB, 1990-2013).

STIMA EDIO:

Em 2011 a Bertrand relanou o Romance da raposa numa edio mais

econmica, retomando a variante textual das Obras Completas e voltando s seis

ilustraes selecionadas em 1956 (apresentadas a preto e branco). Apesar de esta

edio no alterar o texto e pouco mexer na paginao, a capa, o tipo de papel e o tipo

de letra so bem diferentes ( uma edio mais econmica, resistente, que parece ter

sido feita para poder ser manuseada sem acusar por demais o uso).

Acresce ainda o facto de serem introduzidos nesta edio alguns erros que no

se encontram em nenhuma das outras, possivelmente devido ao processo de fixao

16

do texto que a editora ter usado (supomos que foi utilizado um software de

reconhecimento de carateres, semelhante ao descrito em 3.2. Optical Character

Recognition (OCR)).

Seguindo a definio de reedio que enuncimos no incio desta seco,

contaremos esta tiragem como uma stima edio, apesar das diferenas que a

separam da sexta serem apenas estticas ou acidentais (erros introduzidos).

1.2.iii. Caratersticas do texto

A escrita aquiliniana tem um carter nico, muito pessoal, no qual sobressaem

determinadas marcas de estilo. Henrique Almeida (1993) destaca como caractersticas

centrais da escrita de Aquilino Ribeiro:

Os motivos campestres e o vocabulrio caraterstico da aldeia e do seu

modo e ritmos de vida;

A fala popular e os regionalismos, trazendo para a escrita expresses

coloquiais, provrbios, calo e aforismos regionais;

A influncia dos escritores do sculo XVII, dos escritores naturalistas, dos

clssicos greco-romanos, bem como da literatura espanhola e francesa;

As influncias da formao religiosa que se exprimem quer num

profundo conhecimento dos ritmos do calendrio cristo, quer na

representao da presena da religio no dia a dia das personagens.

A linguagem aquiliniana talvez o trao mais frequentemente comentado e

este destaque , sem dvida, meritrio Frazo e Boavida (1983), no seu Pequeno

dicionrio de autores de lngua portuguesa, afirmam taxativamente que a obra de

Aquilino permanece como a mais rica experincia artstica deste sculo [XX] atravs

da linguagem e scar Lopes (1994, p. 185) elogia a sua expresso clssica e precisa.

A linguagem aquiliniana mereceu igual destaque a Francisco Topa (1998) e Rui

Veloso (s.d.):

17

Para terminar esta reflexo sobre o Romance da Raposa, gostaramos ainda de

chamar rapidamente a ateno para uma das suas facetas mais justamente apreciadas: a

linguagem, convertida em autntico brinquedo potico.

(Topa, 1998, p. 29)

O primeiro [livro para crianas] foi publicado em 1924 e mantm ainda hoje a

frescura de uma narrativa animalista, servida por uma linguagem surpreendentemente

irrequieta, que cativa a criana.

(Veloso, s.d., p. 1)

Veloso (s.d., p. 4) sublinha ainda no mesmo texto que todos os investigadores

da obra aquiliniana tm insistido na originalidade da vertente lingustica como uma

mais-valia para o prazer do texto, mas Ester de Lemos (1972) parece desmenti-lo com

a advertncia que fica implcita na sua apreciao do Romance da raposa: para que a

literatura para crianas possa ser verdadeiramente desfrutada pelas prprias, as

questes estilsticas no podem sobrepor-se capacidade de cativao do leitor. Nas

suas palavras:

Aquilino Ribeiro, tentando, sem o conseguir de todo, acomodar a sua opulncia

lexical ao gosto das crianas, publicou, pela mesma poca, o Romance da Raposa (). Esse

livro, em cuja dedicatria Aquilino () se prope tout court divertir (coisa que talvez no

consiga, por lhe faltar verdadeira adeso ao mundo da infncia, e ficar ele mesmo, com a

sua ostentao estilstica, o seu sarcasmo encapotado, o seu detido e saboreado gosto

descritivo) esse livro tem um papel histrico.

(Lemos, 1972, pp. 24-25)

Vemos aqui duas posies que ilustram bem as atitudes mais comuns face

escrita aquiliniana: por um lado, aqueles que, como Rui Veloso (1994) e Natrcia Rocha

(1985) o exaltam e no reconhecem qualquer dificuldade na sua leitura e

interpretao; por outro aqueles que, no deixando de apreciar a qualidade da escrita

aquiliniana, admitem, contudo, alguns obstculos (que no so insuperveis) sua

fruio, grupo onde se alinham Ester de Lemos (1972) e, de uma forma mais comedida,

scar Lopes (1987, 1994). H ainda uma terceira posio, identificada por Veloso na

seguinte passagem:

18

Ouve-se com frequncia dizer que Aquilino Ribeiro um autor difcil para adultos,

quanto mais para crianas. Os argumentos convergem para um ncleo o vocabulrio

que se encontra nos seus textos. A opinio emitida por aqueles que, no apreciando o

estilo aquiliniano, fazem da componente lexical cavalo de batalha para afastar os

potenciais leitores jovens.

(Veloso, s.d., p. 126)

Torna-se ainda mais evidente, umas linhas mais frente, que Veloso (1994, p.

126) se ope cabalmente noo de que difcil ler Aquilino, quando cita David

Mouro-Ferreira: A pregoada dificuldade de algumas ou muitas das tais palavras

constitui um dos mais manhosos libis para a preguia de quantos no se aventuram a

ler Aquilino. Mas esta posio , em nosso entender, extremada, tanto que scar

Lopes, confesso admirador de Aquilino inclusive da sua produo literria para

crianas , reconhece que a linguagem desafiante, principalmente nos livros e

pginas em que o assunto no prende muito o autor e para crianas urbanas muito

novas, mas acentua o humor da escrita e a utilizao exmia da gria, intercalada com

vocabulrio mais clssico. Iramos talvez mais alm, recordando que, hoje em dia, a

maioria das crianas vive e estuda em ambientes urbanos, tendo pouco contacto com

a vida rural, os seus ritmos e tradies, o que aumentaria a dificuldade desta obra.

No queremos com isto demover ningum da sua leitura, pelo contrrio. Urge

salientar que, nos desafios que esta obra coloca, esto tambm as suas foras. A

escrita de Aquilino riqussima, de uma beleza singular, musical, cheia de um humor

inteligente e subtil (Lopes, 1994; Topa, 1998): o ritmo interno da linguagem, o

homeoteleuto frequente, as onomatopeias, as rimas e os trocadilhos so uma fonte de

fruio do texto, que s ganha com a leitura em voz alta12. lvaro Salema (1985) exalta

tambm as suas descries da natureza, precisas e poticas, e a subtileza da escrita.

Aquilino Ribeiro recorre com frequncia metfora e comparao (Lopes,

1994), alonga-se em descries dos espaos e do clima (Metzeltin, 1981), privilegia o

discurso coloquial e a gria nos dilogos entre as personagens (Lopes, 1994), joga com

12 O prprio autor recomendava que se fizesse a leitura em voz alta dos seus escritos (Castrim, cit. por Veloso, 1994).

19

a ambiguidade semntica e textual (Castro, 1991), incorpora e reescreve a tradio

literria e oral dos contos populares portugueses e das fbulas (Veloso, 1994;

Metzeltin, 1981) e entretece no texto referncias cultura popular, vida religiosa e

histria de Portugal, cujo conhecimento necessrio compreenso de algumas das

imagens que usa e dos gracejos do texto.

Algumas personagens do Romance merecem-lhe especial destaque ao longo da

narrativa, nomeadamente o lobo Brutamontes, o urso Mariana, o bufo, o gato-bravo e

o texugo Salamurdo, mas a Salta-Pocinhas a pea central da obra: em torno da sua

sobrevivncia, dos seus ardis e da sua manha que a obra se estrutura, numa sucesso

cumulativa de episdios que acompanham a raposa desde que sai de casa dos pais at

que j uma velha zorra, com penso vitalcia e rodeada de raposinhos que lhe

querem ouvir as histrias.

Um dos aspetos mais notveis desta personagem a sua ambiguidade moral:

como leitores, graas ao talento de Aquilino Ribeiro, damos por ns a torcer por uma

personagem trapaceira, ratoneira, velhaca e geralmente egosta mas a

Salta-Pocinhas todas estas coisas com a naturalidade dos bichos, deitando mo a

qualquer vantagem para assegurar a sua sobrevivncia e s se desviando deste curso

para se vingar daqueles que exercem sobre ela e sobre os outros animais uma injusta

medida de autoridade ou terror (como o caso de Brutamontes, do bicho-homem e

do texugo) (Lopes, 1994). Desta forma, Aquilino iguala a astcia da Salta-Pocinhas de

Ulisses, mas expe-na no que tem de admirvel, tanto quanto no que tem de

velhacaria13.

O autor no cai em morais fceis, nem embeleza o texto para proteger a

sensibilidade das crianas. Fiel ao retrato realista da natureza, Aquilino no distorce a

verdade, no se escusa violncia e morte que fazem parte da roda da vida (Lopes,

1994; Veloso, s.d.), no infantiliza a criana. Mas uma mensagem clara e perpassa

toda a histria: a inteligncia capaz de superar a fora bruta (Veloso, s.d.) e essa

uma mensagem com a qual as crianas conseguem e talvez precisem de se

identificar.

13 Romance da raposa, Marginalia (1987b, p. 170).

20

2. AS EDIES ANOTADAS PARA CRIANAS

Edio anotada: Edio acompanhada de notas explicativas, em geral na margem ou no p do texto;

essas notas so redigidas por uma pessoa diferente do autor e tm como finalidade explicar ou

actualizar a obra. Edio comentada.

Faria e Perico, 1999, p. 211

2.1. As edies anotadas

As anotaes nasceram margem dos livros, entre as linhas, nos espaos em

branco que a folha proporcionava (Wolfe, 2002) e esto connosco h seculos, com

especial destaque para as edies comentadas da Bblia (Cohen, 2001). Os primeiros

anotadores os copistas de mosteiros medievais tiravam apontamentos para si

prprios e para partilhar com outros copistas, chegando a ocupar todo o espao

disponvel da folha. Quando um cdice era copiado, era frequente transcreverem-se

tambm as anotaes, uma importante fonte de informao e aprendizagem, o que

punha as notas quase ao mesmo nvel do texto a que se referiam (Wolfe, 2002).

Na Idade Moderna, ler e anotar andavam de mos dadas: ler bem um livro era

apropriar-se dele, us-lo (e coment-lo) bem. A imprensa veio dar novo flego

prtica das anotaes: foi talvez nas universidades que se deram os primeiros passos

no sentido da popularizao dos textos anotados alguns professores partilhavam

com os alunos os seus comentrios aos textos fundamentais que lecionavam (Bermejo,

2012). Os sc. XVII e XVIII viram surgir as primeiras adaptaes escolares de obras

literrias e os primeiros manuais escolares: edies que coligiam excertos de

diferentes obras com uma biografia do autor e comentrios ao texto (DeJean, 2000),

outra possvel inspirao para as edies anotadas atuais. Importa tambm referir que,

ao mesmo tempo que estas edies escolares apareciam, o editor francs Roger

Chartier usou o mesmo esquema (incluir uma contextualizao histrica) na sua edio

de 1734 de Molire (Hbrard & Jouhaud, 2000).

21

A atitude face anotao nas margens comeou a mudar no sc. XIX. Hoje,

somos ensinados a no escrever nos livros (principalmente se so propriedade de uma

biblioteca) e a no deixar marcas, perdendo-se o aspeto humano de ler o texto em

relao com a interpretao que outrem fez dele antes de ns (Bermejo, 2012; Wolfe,

2002). No entanto, a prtica da anotao no se perdeu, apenas se transformou:

continuamos a anotar as nossas cpias pessoais de textos e temos facilmente ao nosso

alcance publicaes anotadas por peritos de diversas reas do saber.

De uma forma genrica, h quatro tipos de edio que comportam anotaes:

as crticas (as anotaes fazem parte do aparato crtico da obra), as tcnicas, as

acadmicas (nas quais se incluem, para este efeito, as escolares) e os textos

anotados/comentados, como temos vindo a chamar-lhes ao longo deste trabalho de

projeto. Atendendo epgrafe deste captulo, qualquer um destes formatos poderia

ser classificado de anotado (embora no o sejam), razo pela qual tentaremos

defini-los de forma menos ambgua.

As edies crticas afastam-se do objetivo do presente trabalho, porque uma

edio crtica oferece a transcrio, conservadora ou normalizada, de um texto, a

qual pode combinar lies de dois ou mais suportes e pode ainda incorporar emendas

conjeturadas pelo editor (texto crtico); em separado, apresenta os grupos de variantes

dentro dos quais o editor escolheu as formas que fixou no texto (aparato crtico)

(Castro, 1995, p. 606).

Os manuais tcnicos do frequentemente origem a edies anotadas, bem

como os cdigos legislativos. Neste caso, a anotao justifica-se devido dificuldade

dos assuntos tratados, bem como utilidade de acrescentar a um texto legislativo

entendimentos oficiais que tenham entretanto sido emitidos e sejam relevantes.

As edies acadmicas de clssicos da literatura distinguem-se da edio que

pretendemos realizar no objetivo que se propem e, por acrscimo, no contedo das

suas anotaes (ver Apndice B). Estas edies debruam-se sobre aspetos literrios,

estilsticos e formais do texto, visando preparar o leitor para o estudo da obra ou

gui-lo nesse empreendimento. Como tal, as anotaes glosam geralmente aspetos

complexos relacionados com crtica literria e teoria da literatura no caso de uma

edio mais erudita ou temas como a caracterizao do espao e do tempo da ao,

22

a caracterizao das personagens e os recursos expressivos usados ao nvel escolar.

Estas ltimas, em particular, assumem uma abordagem didtica e, por isso,

distinguem-se forosamente do estilo de edio anotada que pretendemos elaborar.

Por diferentes razes, quer as edies crticas, quer as acadmicas e as

tcnicas, podem ser consideradas edies eruditas, uma vez que no se destinam a

um pblico leigo, mas sim a um tipo especializado de leitor. O nosso objetivo com este

trabalho de projeto no passa por elaborar nenhum destes tipos de edies, mas sim

uma verso anotada no erudita do Romance da raposa.

O estudo de mercado que ser abordado brevemente na prxima seco (2.2.

Estudo de mercado) comeou por sugerir que a primeira destas publicaes teria sido

uma edio americana de Alice no Pas das Maravilhas, editada em 1960 por Martin

Gardner (um matemtico com uma paixo por ilusionismo e lgica), sob a chancela de

C. N. Potter, com o ttulo The annotated Alice.

Uma recenso crtica elaborada por Cohen (2001) para o peridico Victorian

Studies a propsito da edio anotada definitiva deste livro14 veio dar alguma

fundamentao a essa impresso. Cohen (2001) considera que Martin Gardner foi o

primeiro a elaborar uma edio anotada generalista de uma obra em lngua inglesa

e atribui-lhe a criao de um novo gnero literrio15, batizando-o de Annotator of

Annotators.

A caracterstica distintiva desta edio anotada, que a separou de todas as que

a precederam, foi o facto de as anotaes abrangerem diferentes disciplinas e temas

(Cohen, 2001) at ento, as edies anotadas sempre se tinham circunscrito a uma

rea especfica do saber, fosse ela a espiritual, psicanaltica, literria, entre outras.

Outra singularidade das anotaes de Gardner era no se limitarem a informar:

questionavam, instruam e divertiam. Estavam escritas num estilo acessvel e simples e

eram claramente destinadas a um pblico leigo a qualquer pessoa que desejasse

14 Lewis Carroll (2000). The annotated Alice: The definitive edition, Introduction and Notes by Martin Gardner. Nova Iorque e Londres: W. W. Norton & Company.

15 It is a remarkable accomplishment, for with the publication in 1960 of the first Annotated Alice, Gardner established a new genre of literature. () he deserves credit for establishing the "annotated text" as we know it today (Cohen, 2001).

23

perceber melhor tudo o que se escondia no texto crptico de Lewis Carroll. Mas

tambm esta edio era, assumidamente, dirigida a adultos:

It is only because adults scientists and mathematicians in particular continue

to relish the Alice books that they are assured of immortality. It is only to such adults that

the notes of this volume are addressed.

(Gardner, 2000, p. ix)

A nossa hiptese a de que, como defende Cohen (2001), a edio de Martin

Gardner ter sido a primeira edio anotada contempornea, incorporando a tradio

medieval, a tradio crtica e a tradio escolar, mas contrastando com elas em

inmeros pontos. Desta forma, as edies anotadas no crticas identificadas ao longo

deste projeto so todas, de algum modo, descendentes desta primeira edio de

(Cohen, 2001): dirigem-se a um pblico leigo, maioritariamente a adultos (quer

implcita, quer explicitamente), e abordam de forma mais ou menos sistemtica uma

multiplicidade de assuntos relacionados com os suscitados pela obra em questo

(desde factos biogrficos, apontamentos histricos, esclarecimentos de vocbulos

obscuros ou referncias culturais datadas, a anlise literria da obra, interpretao do

seu simbolismo e identificao de intertextualidades, passando tambm, em alguns

casos, por temas da crtica textual e pela anlise e comparao de variantes

textuais16).

Algumas obras geraram verdadeiros fenmenos de culto17 e fascinam de tal

modo os leitores que delas h inmeras edies anotadas venda.

As diferentes abordagens possveis de uma obra literria contriburam para a

variedade de edies anotadas que existem no mercado: da anotao mais erudita e

sistemtica a que a chancela Penguin Classics nos habituou, a experincias mais livres,

como a edio do clssico de Kenneth Grahame The annotated Wind in the willows for

16 Parece-nos que a caraterstica mais distintiva destas edies anotadas face s crticas no a de no inclurem reflexes do campo da Crtica Textual, mas sim o facto de no se limitarem a elas.

17 Por exemplo, a j referida Alice no pas das maravilhas, mas tambm Orgulho e preconceito (de Jane Austen) e Os cadernos de Pickwick (de Charles Dickens), para referir apenas trs situaes notveis.

24

adults and sensible children (or, possibly, children and sensible adults), coanotada por

G. M. W. Wemyss e Markham Shaw Pyle (2012) para a editora Bapton Books na qual

os dois editores encetam por vezes animadas discusses, no espao reservado s

anotaes, acerca de passagens do texto mais obscuras, comentam humoristicamente

interpretaes de outros autores, identificam paralelos entre o texto e a vida do autor,

gracejam, esclarecem dvidas lingusticas, etc., conseguindo frequentemente

transformar a leitura das anotaes num exerccio to prazeroso quanto o da leitura

do texto em si.

No pode deixar de se assinalar, no entanto, que este tipo de edio anotada

um fenmeno literrio (ou um gnero literrio, se dermos razo a Cohen) que apesar

de estar firmemente estabelecido na lngua inglesa e francesa, bem como no Brasil

(sob a denominao edies comentadas), no tem grande expresso em Portugal,

salvo no que toca a alguns casos notveis (como Os Lusadas e Mensagem, por

exemplo).

tambm curioso notar como as edies anotadas/comentadas em Frana e

no Brasil aderiram ao livro eletrnico (nomeadamente as editoras Arvensa e Zahar),

em contraste com o mercado editorial de lngua inglesa, onde a edio anotada em

papel continua a imperar, tendo inclusive a editora norte-americana W. W. Norton &

Company apostado numa edio de luxo dos seus maiores clssicos18.

A revoluo digital parece ter sido acolhida com tranquilidade pelas edies

anotadas, que no s se tornam menos dispendiosas como se libertam de

consideraes relacionadas com o peso, a onerosidade e a dificuldade de encontrar

uma configurao grfica que equilibre o espao reservado ao texto com o espao

reservado s anotaes (mantendo a legibilidade da obra). Aparentemente os editores

ter-se-o apercebido de que a publicao eletrnica permitiria um sem-nmero de

18 A Norton tem um extenso catlogo de edies crticas, bem como um catlogo intitulado Theory & Criticism, onde se encontra a coleo The Annotated. Torna-se evidente que, para esta casa editorial, as edies crticas e as anotadas pertencem a categorias diferentes, mas fica tambm em evidncia o carter acadmico das anotaes que comissionam.

25

potencialidades muito interessantes de explorar. Deixamos aqui como exemplo o

projeto Candide 2.019, um exemplo de networking aplicado s tecnologias de edio.

2.2. Estudo de mercado

Para identificarmos edies semelhantes que nos propusemos realizar,

comemos por executar um levantamento de mercado junto das bibliotecas

municipais de Lisboa, da Biblioteca Nacional, em stios de referncia20 e lojas on-line

portuguesas, inglesas e francesas.

No decorrer deste projeto conseguimos identificar inmeras edies crticas

portuguesas (com destaque para os catlogos da Imprensa NacionalCasa da Moeda),

algumas edies comentadas de clssicos portugueses e uma grande variedade de

edies escolares. No entanto, quer pelas caractersticas das anotaes, quer pelas

obras escolhidas, quer pela onerosidade das edies ou pelas trs razes , em

nenhum dos casos possvel argumentar que se encontra em Portugal uma adeso

edio anotada semelhante encontrada no mercado de lngua inglesa.

Das edies identificadas foram selecionados oito exemplares para uma anlise

mais aprofundada das suas anotaes e para utilizao como termo de comparao no

desenvolvimento da presente edio anotada. As caratersticas destas edies sero

discutidas na prxima seco (2.3. Anlise e comparao das edies identificadas) e

pode ser consultada uma tabela de sntese no Apndice B.

Encontrar edies anotadas para crianas difcil em qualquer dos mercados

explorados, o que compreensvel, se bem que desapontante. A literatura infantil

tem, hoje em dia, grande destaque e interessante notar esta lacuna no mercado

editorial global apesar de ser muito fcil encontrar edies anotadas de clssicos da

literatura infantil em lngua inglesa, extremamente difcil encontrar edies deste

tipo dirigidas a crianas. Na verdade, s conseguimos verificar a existncia de uma, a j

19 Disponvel em http://candide.nypl.org/text/ (uma iniciativa da New York Public Library). O projeto, curado por Alice Boone, teve duas fases: na primeira, um anotador convidado fazia comentrios ao captulo que lhe fora atribudo; na segunda, qualquer leitor podia adicionar comentrios. O desenvolvimento do projeto terminou a 25 de Abril de 2010.

20 The Horn Book, disponvel em http://www.hbook.com/horn-book-magazine-2/, e Books4Keeps, disponvel em http://booksforkeeps.co.uk/.

http://candide.nypl.org/text/http://www.hbook.com/horn-book-magazine-2/http://booksforkeeps.co.uk/

26

mencionada edio anotada de The wind in the willows, da Bapton Books (2012), na

qual a assero de que o livro se destina (tambm) a crianas feita de modo algo

tmido:

They can say for themselves only this: () That it may indeed be of interest to

adults and sensible children, and still more to children and sensible adults, to have, as from

the mouths of dinosaurs, some explanation, some context, of references which time has

otherwise effaced.

(Wemyss & Pyle, Introduction to the second edition, 2012)

E fazem a seguinte ressalva:

Annotations, also, are tricky things. It is their hope that there will be enough here

to amuse, to illuminate and to inspire curiosity and further reading, without creating

something that looks like an old-fashioned edition of Gibbons in twenty volumes ().

(Wemyss & Pyle, Introduction to the second edition, 2012)

tambm nosso desejo para esta edio que as anotaes venham apenas

acrescentar ao fruir do texto, que esclaream sem aborrecer e que auxiliem sem

distrair.

2.3. Anlise e comparao das edies identificadas

O Quadro 1B, que pode ser consultado no Apndice B, nasce da anlise

realizada aps a pesquisa inicial de edies anotadas para crianas e ajudou a nortear

algumas das decises que tommos no delineamento da nossa proposta grfica e na

execuo da maquete (ver captulo 4. A proposta grfica). Os exemplos sobre os quais

nos vamos debruar so uma seleo feita com base no resultado dessa pesquisa.

Como discutido em 2.2. Estudo de mercado, no conseguimos identificar

edies anotadas portuguesas para crianas durante o levantamento de obras

anotadas realizado na preparao deste trabalho de projeto. No entanto, foram

encontradas inmeras edies escolares/livros de apoio a clssicos da Lngua

Portuguesa que se mostraram teis na fase de desenvolvimento da proposta grfica

27

como exemplos de diferentes solues21. Selecionmos trs edies com objetivos e

pblicos diversos: A cidade e as serras, O potro vermelho e O auto da barca do inferno.

Identificmos e destacamos ainda duas edies anotadas de dois clssicos da

literatura infanto-juvenil em ingls que, todavia, so dirigidas a um pblico adulto: The

annotated Phantom tollbooth e Alices adventures in wonderland and through the

looking glass. Tambm estas obras permitiram a comparao e o contraste de solues

grficas muito diversas.

Optmos ainda por incluir a edio eletrnica anotada de The wind in the

willows de Wemyss e Pyle (j referida) por ser a nica edio que, no sendo

escolar, contemplava as crianas como potenciais recetoras da obra e uma outra

edio anotada do mesmo clssico, mas com uma vertente de crtica textual mais

saliente: The annotated Wind in the willows, das edies Norton (2009). Esta

coincidncia remete para a discusso em 2.1. As edies anotadas acerca das

categorias edio anotada vs. edio crtica.

Do mercado francs, escolhemos uma edio da Gallimard (2012) da coleo

Folioplus Classiques: Un fil la patte.

A principal concluso que se pode retirar dos dados do Quadro 1B a de que as

edies anotadas existentes no mercado no se dirigem a um pblico infantil, nem

sequer jovem. Das edies selecionadas, as que mais se aproximam do pblico-alvo

deste projeto no so edies anotadas, mas sim livros companheiros ou livros-guia de

obras pertencentes ao currculo de Lngua Portuguesa do ensino obrigatrio (3 ciclo e

Secundrio), que analisam as obras do ponto de vista escolar.

Quanto ao tipo de anotao, as duas categorias acima distinguidas (edies

anotadas vs. edies escolares) revelam concees diferentes. Enquanto em ambos os

modelos se torna necessrio introduzir esclarecimentos relacionados com o

vocabulrio, nas edies escolares estes tm tendncia a ganhar maior protagonismo.

Este tipo de edio glosa ainda temas como os recursos expressivos usados, inclui

resumos de contedos e atividades de interpretao e anlise do texto. Por seu lado,

21 A referncia bibliogrfica integral das obras analisadas pode ser consultada na Bibliografia, seco Edies comparadas no Apndice B.

28

as edies anotadas privilegiam as informaes biogrficas, a identificao de

intertextualidades, a gnese da obra e a clarificao de passagens do texto. Quando

incluem material suplementar, este diz respeito a fotografias e outros documentos

relacionados com o autor e a obra, por exemplo: correspondncia ou manuscritos (em

algumas, temos uma perspetiva quase voyeurstica da vida dos autores). No Apndice

B (Imagens 1B a 6B) podem consultar-se exemplos de algumas das edies analisadas.

29

3. ANOTAR O ROMANCE DA RAPOSA

Um livro muda pelo facto que ele no muda, enquanto o mundo muda.

Pierre Bourdieu22

3.1. A fixao do texto

Como j foi explanado na seco 1.2.ii, a nossa investigao permitiu-nos

identificar sete edies do Romance da raposa, que configuram cinco variantes

textuais da obra.

possvel identificar uma evoluo linear do texto atravs das seguintes

edies e reedies da obra: 1924 > 1935 > 1949 = 1956 > 1961 = 2011. As reedies

de 1949 e 1956 diferem apenas, tanto quanto nos foi possvel apurar, no nmero de

ilustraes includas (menor na tiragem de 1956) e nos aspetos de composio do livro

(ilustraes a preto e branco), sendo a ltima uma edio menos luxuosa do livro

publicado em 1949.

Em 2002 a Bertrand reedita o Romance da raposa numa tiragem que se

poderia considerar de luxo devido qualidade do papel e da composio , recupera

a totalidade das ilustraes de Benjamin Rabier e volta a devolver-lhes as cores

originais. Esta edio curiosa, porque nas legendas das ilustraes de pgina inteira

se encontram variantes de 1935 e de 1961, no tendo sido localizada documentao

que autorize esta variante textual (contabilizamo-la como a 5).

Atendendo ao facto de que est disponvel no mercado uma reedio recente

(2011) da edio de 1961 que respeita a ltima verso supervisionada por Aquilino

Ribeiro e que reproduz a variante mais conhecida do texto, optmos por usar a

reedio de 2011 para fixar o texto. A variante de 1961 (que a reedio de 2011

reproduz) tambm a adotada por todos os investigadores que, na reviso

bibliogrfica realizada, se debruaram sobre o estudo desta obra, estando de certa

forma consagrada pelo uso. Este foi o primeiro passo para a fixao do texto.

22 Citado por Hbrard e Jouhaud (2000, p. 287).

30

A edio que usmos reproduzia integralmente o contedo da edio Obras

Completas (1961), que inclua no final, sob o ttulo Marginalia, duas entrevistas a

Aquilino Ribeiro. Aps prolongada reflexo, decidimos no incluir esse material neste

trabalho de projeto, uma vez que o nosso compromisso para com o texto a anotar.

Caso este trabalho viesse um dia a ser publicado, seria de pensar voltar a incluir essa

seco, bem como enriquec-la com fotografias de famlia, fac-similes de algumas

cartas e de pginas dos manuscritos das edies citadas. Este assunto voltar a ser

tratado na Concluso.

Pondermos ainda a possibilidade de restituir a esta edio as dezasseis

ilustraes originais a cores (em detrimento das 6 ilustraes de pgina inteira a preto

e branco da edio Obras Completas). A nossa deciso neste ponto foi tambm

negativa por consideraes prticas: por um lado, tal interveno tornaria o produto

final mais luxuoso e, por outro, criaramos uma edio hbrida, em que fragmentos da

variante textual de 1949 (as legendas das 10 ilustraes suprimidas) conviveriam com

o texto fixado pela ltima vontade do autor em 1961 criaramos uma edio ecltica

que, pese embora o seu interesse e beleza, estaria fora dos objetivos e do mbito do

presente trabalho de projeto. Tal hiptese poder vir a ser considerada em futuros

trabalhos.

3.2. Optical Character Recognition (OCR)

A opo pela tiragem de 2011 em detrimento da de 1987, que seguimos para a

maioria das citaes da obra, foi ainda influenciada pelo software escolhido para

realizar a fixao do texto.

As reimpresses das Obras Completas (1961) usam a fonte tipogrfica da

edio de 1961, a ITC Cushing (uma fonte antiga23), o que dificulta a anlise pelo

programa de Optical Character Recognition (OCR), introduzindo um sem-nmero de

23 Segundo a MyFonts (http://www.myfonts.com/), J. Stearns Cushing desenhou a primeira verso desta letra em 1897 (chamou-lhe Cushing No. 2). Em 1904, a famlia de letras recebeu uma verso em itlico desenhada por Frederic W. Goudy e, por fim, em 1982 saiu uma reviso desta letra chamada ITC Cushing Std. A letra foi identificada com recurso aplicao What The Font (MyFonts) para iPhone.

http://www.myfonts.com/

31

erros. A edio de 2011 usa um tipo da famlia Garamond, uma fonte bastante popular

e, portanto, reconhecida pela grande maioria dos programas de OCR.

O software selecionado para realizar o reconhecimento de carateres foi o

ABBYY FineReader (verso 11), que se revelou de grande preciso. Aps a digitalizao

inicial da totalidade do texto, procedeu-se a uma reviso e limpeza do ficheiro digital,

seguindo os procedimentos definidos por Quintas (2010), com as necessrias

adaptaes, que abaixo se resumem:

i. Correo dos erros identificados pelo programa de OCR;

ii. Converso do ficheiro para o Microsoft Word;

iii. Ativao da apresentao de todos os carateres do ficheiro e eliminao

de todos os carateres ocultos indevidamente acrescentados pelo OCR

(como quebras manuais de linha, por exemplo);

iv. Execuo do corretor ortogrfico da aplicao de edio de texto usada;

v. Verificao da integridade dos pargrafos, para evitar quebras errneas

ou juno de pargrafos;

vi. Verificao de itlicos em palavras e pontuao;

vii. Segunda verificao ortogrfica, incluindo normalizao tipogrfica, por

exemplo: pesquisa por duplas hifenizaes (ex.: arranja--te) e trs

pontos em vez de reticncias;

viii. Reviso integral da obra para corrigir as instncias de confuso lexical

no detetadas pelo corretor ortogrfico.

Verificou-se um nmero reduzido de falsos reconhecimentos, sendo a confuso

lexical mais frequente a perda de acentuao em maisculas em incio de frase, como

ou .

Durante este processo foram detetados erros na reimpresso de 2011 (o nosso

original para o OCR), que foram resolvidos por confronto com um exemplar de 1987.

Tambm durante esta fase, apercebemo-nos de uma grande inconsistncia ao nvel

dos critrios de utilizao de itlicos (ocorrem por vezes em versos, noutras no;

surgem a assinalar pensamentos, mas so depois preteridos em favor das aspas

32

portuguesas) e reparmos que foi feito um esforo na sexta edio (2002-2012) para

uniformizar o texto a este nvel. Uma anlise mais aprofundada desta edio veio,

porm, revelar que a utilizao dos itlicos, apesar de mais extensa, permanecia um

tanto inconsistente (ao nvel das vozes dos animais e dos pensamentos das

personagens). Assim sendo, decidimos no intervir no texto a nenhum nvel salvo o de

corrigir os erros por ns inseridos no processo de fixao do mesmo, respeitando a

ltima verso revista pelo autor, e corrigindo os detetados na edio de 2011.

O tipo de erros encontrados no exemplar de 2011 sugere que esse texto talvez

tivesse passado por um processo de OCR semelhante ao desta edio (introduo de

pargrafos no meio de uma frase, eliminao do espao entre duas palavras, perda de

aspas, entre outros), o que evidencia a necessidade de uma reviso adequada dos

textos digitalizados por OCR.

3.3. O Acordo Ortogrfico de 1990

Optmos por atualizar o texto em conformidade com o Acordo Ortogrfico de

1990 (AO90) algo nunca feito pela Bertrand por respeito para com o esforo

desenvolvido nas escolas para ensinar a nova ortografia. Uma vez que as aulas, os

manuais e os livros que so lanados atualmente se conformam, na sua generalidade,

ao AO90, pareceu-nos natural sujeitar o Romance da raposa a esta operao, opo

que foi reforada aquando da anlise das primeiras edies as normas ortogrficas

seguidas pelo autor mudam da edio de 1924 para a de 1935 (2) e de novo em 1949

(3)24.

Tomamos este facto como indicao de que o autor j se mostrou, no passado,

flexvel no que toca aplicao das normas ortogrficas, pelo que optmos, neste

caso, por nos afastar da opo da editora.

24 A ttulo de exemplo, a palavra me grafada me em 1924, mi na 2 edio (1935) e me na 3 (1949).

33

3.4. Os critrios de anotao

Um dos passos essenciais para a elaborao deste projeto e o mais

desafiante foi refletir sobre (e eleger) as anotaes que seriam includas na edio

anotada, bem como o estilo da sua redao. As edies comparadas em 2.3. Anlise e

comparao das edies identificadas e sistematizadas no Quadro 1B (Apndice B)

ajudaram a orientar estas decises.

A nossa investigao preliminar incidiu sobre os seguintes aspetos:

Vida e obra de Aquilino Ribeiro, com vista a fundamentar as notas

biogrficas ou literrias que se julgasse pertinente incluir na verso final

anotada;

Literatura especializada que analisa ou comenta a obra Romance da raposa;

Gnese da obra;

Identificao dos principais personagens e elementos da ao;

Identificao dos vocbulos e passagens que requeriam definio ou

explicao;

Possibilidade de incluso de outros elementos (por exemplo, atividades ou

imagens) que enriquecessem a edio anotada.

No era nossa inteno analisar ou interpretar literariamente o texto, em

contraste com as edies mais profusamente anotadas ou comentadas que

identificmos em 2.3. Anlise e comparao das edies identificadas, mas sim

anot-lo tendo em vista o pblico-alvo (crianas a partir dos 10 anos). Assim,

rejeitmos, partida, a anotao de dimenses de conotao escolar ou acadmica,

nomeadamente a identificao de figuras de estilo, recursos expressivos e outras

instncias identificadas, bem como a anlise simblica e histrica da obra, por

considerarmos que essas dimenses seriam muito interessantes noutro contexto, mas

no teriam lugar numa edio que visa ser um companheiro ldico de um texto que se

tornou, por fora das circunstncias, menos acessvel agora do que em 1924.

Numa primeira fase, todas as passagens ou palavras do texto que se considerou

que poderiam suscitar dvidas foram anotadas. Desta operao resultou um nmero

34

muito elevado de anotaes (acima de 300), que se distribuam de forma desigual pelo

texto.

Na segunda fase, com base nas opinies expressas por Aquilino Ribeiro sobre a

obra (cf. Marginalia) e aps reviso das consideraes de alguns investigadores que

se debruaram sobre este texto (ver 1.2. O Romance da raposa), procedemos a uma

definio mais restrita dos critrios de anotao, que passamos a enumerar:

i. Nas passagens do texto de difcil interpretao (geralmente pela dificuldade

dos vocbulos ou por estes se encontrarem em desuso), optmos por

seguir as sugestes do autor em A quem se proponha ler Arca de No, III

Classe (1989), escolhendo, consoante os casos:

a. Parafrasear a passagem;

b. Substituir no corpo da nota a(s) palavra(s) difceis por palavra(s)

de mais fcil compreenso;

c. Oferecer uma definio da(s) palavra(s) em questo.

ii. Definimos palavras relacionadas com atividades especficas (caa, pesca,

etc.);

iii. Explicmos expresses populares cujo sentido no fosse claro;

iv. Identificmos as intertextualidades mais evidentes do Romance da raposa,

com vista a promover a leitura comparada com a tradio literria

precedente e subsequente;

v. Fornecemos informao biogrfica e histrica pertinente quando suscitada

pelo texto.

Anotmos com o seguinte mote em mente: se uma criana se sentasse a ler

esta histria, recorrendo diligentemente a um dicionrio escolar para consultar as

palavras que no conhecesse, precisaria ainda assim das anotaes para esclarecer

lemas que j no figuram nos dicionrios correntes ou que, figurando, no fossem

fceis de entender luz do texto. Para tornar mais eficiente a aplicao dos critrios,

no se anotaram lemas repetidos, exceto se usados com acees diferentes, nem

to-pouco se anotaram vocbulos cujo significado fosse facilmente retirado do

contexto. Esta regra foi flexibilizada em situaes pontuais quando uma passagem

mais rebuscada dificultava a compreenso da palavra atravs do contexto.

35

Aps considerao do mbito e objetivos do projeto, decidimos no incluir na

edio atividades relacionadas com o texto (o que a aproximaria de uma edio

escolar), limitando as intervenes a anotaes que facilitassem ou enriquecessem a

leitura da obra. Optmos por usar fotografias25 em alguns pontos da maquete quando

a situao o justificava: (1) se a imagem esclarecia um ponto significativamente melhor

do que a definio correspondente e (2) se a imagem evitava a insero de uma

anotao muito longa.

3.5. A anotao do texto

Depois de definidas as passagens a anotar e o tipo de anotao que seria

realizado, passmos anotao do manuscrito.

No documento integral (que pode ser consultado no Apndice C) escolhemos

numerar as anotaes de forma contnua, apesar de no ter sido essa a frmula

escolhida para a maquete (ver captulo 4. A proposta grfica).

As caractersticas do texto a que aludimos em 1.2.iii levaram a que se

consultassem diferentes fontes para fundamentar a maioria das anotaes dadas

exceo feita a determinadas passagens em que a interveno requerida ia no sentido

da clarificao de uma referncia de cultura geral ou esclarecimento de uma expresso

mais coloquial que no justificava consulta de dicionrios e afins (por exemplo, a

anotao 229 refere: Que lhe tinha mais medo da ronha que de um bacamarte: O

lobo tinha mais medo das maquinaes da Salta-Pocinhas do que das pistolas do

bicho-homem).

Para elaborar as definies de termos em desuso ou especficos de

determinada atividade o tipo de anotao mais frequente neste projeto

elegeu-se a edio de 1954 do Grande dicionrio da Lngua Portuguesa de Antnio de

Morais e Silva (Editorial Confluncia), vulgarmente conhecido por Morais. Esta

edio especfica foi escolhida por ser suficientemente antiga para incluir a grande

maioria dos lemas a consultar (em dicionrios mais recentes algumas das entradas

25 A nossa opo pela fotografia deveu-se indisponibilidade de outros recursos. Preferiramos, caso esta edio (ou uma semelhante) fosse para o prelo, usar ilustraes em vez de fotografias.

36

haviam sido eliminadas), porque contemplava vrias acees destes lemas (inclusive

algumas que j caram em desuso) e porque os autores (Augusto Moreno, Cardoso

Jnior e Jos Pedro Machado) escolheram ilustrar a utilizao dos vocbulos com

excertos de obras literrias de grandes autores portugueses e brasileiros (entre estes

autores, encontrava-se frequentemente Aquilino Ribeiro).

Outra obra de referncia de primeira linha foi o Glossrio sucinto para melhor

compreenso de Aquilino Ribeiro (Gomes, s.d.), que lista muitos vocbulos tipicamente

aquilinianos.

Nos casos raros em que um lema no figurava no Morais nem do Glossrio,

usaram-se os dicionrios on-line PRIBERAM e Porto Editora26 e a Grande enciclopdia

portuguesa e brasileira (Editorial Enciclopdia, s.d.). Recorreu-se ainda a estes volumes

quando as duas obras-base no forneciam sinnimos de uso corrente hoje em dia

(atualizao do vocabulrio). Duas outras fontes consultadas frequentemente foram o

Dicionrio de expresses correntes de Orlando Neves (Editorial Notcias, 2000) e o

Dicionrio de expresses populares portuguesas de Simes (Dom Quixote, 1993)27.

Escrevemos ainda uma introduo edio anotada para apresentar os leitores

ao tipo de edio e explicar o seu funcionamento. Porque queramos que esta

introduo fosse breve, no tecemos consideraes sobre o texto nem o seu autor,

como costume acontecer nas introdues s edies anotadas dirigidas a adultos. A

introduo edio anotada pode ser consultada no Apndice C, juntamente com as

anotaes.

Concluda a anotao do texto, passou-se elaborao da maquete, assunto

que ser abordado no prximo captulo.

26 Disponveis em http://www.priberam.pt/dlpo/ e http://www.infopedia.pt/, respetivamente. 27 Para uma lista completa das fontes consultadas, ver Bibliografia, seco Obras consultadas

para a anotao do Romance da raposa (Apndice C).

http://www.priberam.pt/dlpo/http://www.infopedia.pt/

37

4. A PROPOSTA GRFICA

What does the fox say?

Ylvis, The Fox

4.1. Parmetros da composio grfica

Para desenharmos a proposta grfica deste projeto definimos como critrios

norteadores o conforto de leitura e a legibilidade das anotaes: o conforto de leitura

afetado pela dimenso do livro que pode dificultar o seu manuseamento e pela

localizao das anotaes; a legibilidade das anotaes diz respeito clareza com que

so marcadas e tambm sua localizao, mas influenciada pela experincia prvia

do leitor com formatos semelhantes.

Por regra, as edies crticas privilegiam a anotao no p da pgina (Wolfe,

2002; Faria & Perico, 1988), mas existem outros formatos para a incluso de

comentrios ao texto. As mais frequentes, depois das notas de rodap, so as notas

em fim de captulo ou no fim do livro. Alguns projetos optam por anotar na margem da

pgina, uma organizao grfica mais comum em edies no crticas ou em edies

escolares, mas que nem sempre bem-sucedida (para exemplos de edies bem e

malsucedidas, consultar imagens 6B e 4B, respetivamente, no Apndice B).

Como o pblico-alvo desta edio so crianas muito novas (a partir dos 10

anos), que tero tido pouco ou nenhum contacto com notas de p de pgina ou outro

tipo de anotaes, a facilidade de utilizao das mesmas essencial para uma

maquete eficaz.

O design teria de se submeter a duas condies: (1) ser simples e intuitivo; e (2)

no obrigar necessariamente leitura das anotaes, isto , no ser demasiado

intrusivo para que o leitor possa ignorar as anotaes, se assim o decidir. Se para

cumprir a condio (2) a nota de p de pgina ou no final da obra pareceria a soluo

mais simples, j para (1) a resposta no to evidente.

38

Havia ainda uma preocupao com o formato e a dimenso da pgina, o que

condiciona o peso do livro, o seu tamanho quando aberto e o seu manuseamento

(tudo fatores importantes para uma criana).

Com notas de p de pgina, o espao reservado ao comentrio esgota-se

depressa e, se uma nota ficar numa pgina diferente da passagem que a suscitou, no

se cumpre a condio (1) enunciada anteriormente, criando-se alguma confuso. O

espao disponvel no p da pgina condiciona o tipo de anotao que se pode fazer, a

sua extenso e a sua uniformidade: caso optssemos por colocar as notas em rodap,

teramos necessariamente de limitar o nmero de palavras em cada nota e restringir

as anotaes apenas a contedos verbais, para no desequilibrar a distribuio da

mancha grfica nem dar demasiado protagonismo s anotaes. Conclumos, assim,

que a nota de rodap obrigaria a limitar demasiado as nossas opes quanto ao tipo

de anotao a fazer e ao formato da maquete, o que no era desejvel. Um outro

problema da anotao em p de pgina a sua conotao com o contexto

escolar/acadmico, identificao que no queramos trazer para esta maquete, que

pretende demarcar-se claramente dessas edies.

A segunda alternativa que tnhamos era agrupar as notas no final de um

captulo ou no final do livro, mas esse formato dificultaria a utilizao da edio, a

localizao da anotao certa e a leitura da obra como um todo (este cenrio agrava-se

se estivermos a projetar para leitores que no tm experincia prvia com formatos

anotados e cujas competncias de leitura ainda so incipientes).

Pelas razes acima enumeradas, depois de testadas, as anotaes em p de

pgina e em fim de captulo foram abandonadas ainda durante a fase inicial de

desenho da maquete.

Para que um design seja bom, no pode adaptar-se apenas s caractersticas do

leitor: deve ainda tomar em linha de conta as caratersticas do texto (Haslam, 2006).

Em 1.2.iii referimo-nos s caratersticas do Romance da raposa que fundamentam o

interesse de uma edio anotada; de seguida, discutiremos os aspetos que

condicionaram as escolhas feitas ao nvel grfico para a ma