Obra de Arte e Filosofia

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Texto Marilena Chaui

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  • 1' \ i men t i ' . ihaiho de fotografo. compondo :i I L I X n u n i espayo ob.scuroconex'bido como \ > iume . son au.sciente d;t scparacao do mundo do ver-bo daqucle da irn;tgem que eu qucro rcconciliar, ficando fiel ao iconofiloexterior cjuc eu era. e ao iconofilo interior cm que me transformer

    Po.sso dix.er que nunca pegitei nada em fotografia. Pegar em foto euma constatacao valida para os outros, que me veem como fotografo. Narealidade eu tentei sobretudo fazer valcr uma imagem mental convertendo-se em pelfcula. Isto que eu fotografo, os outros nao podem faze-lo, e reci-procamente.

    Situando-me no ponto zero da fotografia eu devo refletir novamentesobre uma significance apropriada da camera obscura, da qual eu tenhoa experiencia material em absolute. Se as minhas imagens existem paramini atraves da descricao dos outros, isto nao me impede em nada a pos-sibilidade de vive-las pela atividade mental. Elas existem mais para mimquanto mais elas possam se comunicar tambem com os outros.

    Talvez Filostrato tenha visto a galeria de Napoles; todavia, pelo seutexto podemos imagina-la. As pessoas que olham diretamente as minhasfotos me dao a possibilidade de me assegurar da realidade materializadados meus atos mentais. For esta razao, eu me considero um artista concei-tual sempre obrigado a pre-imaginar a imagem sobre a pelfcula. O apare-Iho fotografico nao pode pensar por mim.

    Traduqao de Rubens Machado

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    MERLEAU-PONTYObra de arte e filosofia

    Marilena Cbaui

    DESFAZENDO AS AMARRAS DA TRADIfAO

    Merleau-Pomy busca o Esgfrito Selvagem e o_Ser,Bruto. Sua imerro-gacao vem exprimir-se numa espanfosa nota de trabalho de seu livro pos-tumo e inacabado, O.viswel e o invisivel: "O Ser e o que exige de noscriacjo para que dele tenhamos experiencia". Frase cujo prosseguimentoretine emblematicameme arte e filosofia, pois a nota continua.- "filosofiae arte, juntas, nao sao fabricacoes arbitrarias no universe da cultura, mascontatp com o ser justamente enquanto criacoes".

    Por que criafdo? Porque entre a realidade dada como um fato, institui- [-da, e a essencia secreta que a sustenta por dentro ha o momento instituinteno qual o Ser vem a ser: para que o ser do visfvel venha a visibilidade,'solicita o trabalho do pintor: para que o ser da linguagem venha a expres-sao, pede o trabalho do escritor; para que o ser do pensamento venha ainteligibilidade, exige o trabalho do filosofo. Se esses trabalhos sao cria-dores e justamente porque tateiam ao redor. de uma intencao de exprimiralguma coisa para a qual nao possuem um modelo que Ihes garanta o acessoao Ser, pois e sua acao que se abre e abre a via de acesso para o contatopelo qual pode haver experiencia do Ser. Por isso, em A linguagem indi-reta e as voZes do silencio, opondo-se a teoria de Malraux sobre o artistacomo "genio e monstroincomparavel", Merleau-Ponty assinala que o pro-blema da arte moderna nao e o surgimento do indivfduo, mas o da coniu-nica^ao com o Ser sem ojigoio numa J^atureza^preestabelecida e fonte

    (*) Serao citadas as seguintes obras de MerJeau-Pomy: Le visible et I'hirisible, Paris.Gallimard, 1964 (trad, brasileira, O lisirel e o invisivel, Sao Paulo, Perspectiva. 1971); "Lcdoiite de Cezanne", em Sens et non-sens, Genebra, Nagel, 1965: / 'oeit et /'esprit, Paris.Gallimard, 1964; "Le langage indirect et les voix du silence", em Signes. Paris, Gallimard, 1960:"L'algorithme et le mystere du langage", em La prose du motide, Paris, Gallimard, 19"!,

  • paradigmas. dc unia saida-oa incrcncia e da rruicao dc si para acederao univer.satatravc.s do particular, enconirando na particularidadc (o cstiio)o meio para dar a ver c a tonitccer a universalidade (a obraj. I:i.s por queMcrleau-Ponty, naquela mesma nota dc trabalho, accntua que . sc trata dacriacao em sentido radical, oferccendo-a com as expressoes contatd)coio Ser, reiniegrafdp no Ser, inscri^ao no Ser,, r, eenja^dfpj^tgniaru).

    Que laco amarra num tecido unico experiencia, criacao, origcm e Ser?Aquele que prende Espfrito Selvagem e Ser Bruto.

    Que e Espfrito Selvagem? E o espfrito de. praxi|'que quer e pode algu-ma coisa, o sujeito que nao diz "eu penso", elsirh "eu quero", "eu pos-so", mas que "nao saberia como concretizar isto que quer e pode senaoquerendo e podendo, isto e, agindo. O que torna possivel a experienciae a existencia de uma fgjta ou de uma lacuna a serem preenchidas, sentT-das pelo sujeito como intencao de significar alguma coisa precisa e deter-minada, fazendo do trabalho para realizar a intencao significative o pr6-prio caminho para preencher seu vazio e determinar sua indeterminacao,levando a expressao o que ainda e nunca havia sido expresso. Ha umaintencao significativa que e, simultarieamente, um vazio a ser preenchidoe um vazio determinado que soiicita o querer-poder do espfrito, suscitan-do sua a^ao significadora a partir do que se encontra disponfvel na cultu-ra como falta. e^excessp, que exige p surgimento de um sentido.novoi Ocriador, lemos em Senso e ndo-senso, nao se contenta em ser um ' 'animalculto", mas vai a origem da cultura para funda-ia^novamente. O EspfritoSelvagem e atividade :_nascida_de uma fpr^a "eu quero", "eu posso" e de uma carencia ou lacuna que exigem; preenchimento significative).;O sentimento do querer-poder e da falta suscitam a acao significadora quee, assim, ejcperienda atiyajje deterrninacao dpiindeterrninado; o pintordesvenda p irivisiver, o_.escritor quebra or Realizam um trabalho no quafverh exprimir-se o co-perten-cimeritede uma, intencao e de urn gesto inseparaveis, de um sujeito queso se efetua como tal porque^arde^para ex-por sua interioridade praticacomo obra. E isso^ criac^o, fazendo vir ao Ser aquilo que sem ela nosprivaria de experimenta-lo.

    Mas, por que Ser Bruto?O Set Bruto i o sgr_djridivisjiQ., descnnhpreridn^geparacap entre

    sujeito eopieto^jlma e corpo^ eonsciencia e mundo. Indiviso, no entan-to, epura diferenQi interna e nap positividade idnti_ea a si mesma: e pordiferenca.queTTao vermelho ou o verde entre as cores, o alto e o baixoou o proximo e o distante, fazendo existir espaco como_gualida_de ou pu-ra^ifje^ejTcJacaade^lugaces. Ser de indivisao, o Ser Bruto e o iHvisivel quefaz ver porque sustema gor_dentro o visivel, o indizivel que faz dizer por-que sustenta por dentro 'o dizfvel, o irnpens^velvque faz pensar porquesustenta por dentro o pensavel. Nao sendo urri positive, tambem nao e

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    um ncgativo, ma.s aqui lo que,/^or dentro. permitc a positividade de um'visfvel, dc um dizfvel, de um p?nsavel, "como a nervura secreta que sus-tenta e conserva unidas as partes de uma folha, dando-lhe a estrutura quemantem diferenciados e inseparaveis o dircito e o ayesso. O Ser Bruto ea dist3ncia interna entre um visfvel e outro que c seu invisivel. entre umdizfvel e outro que e seu indizivel, entre um pensavel e outro que e seuimpensavel. E um ''sistema de equivalencias'' diferenciado e diferencia-dor pelo qual ha mundp) Eis por que Renoir podia pintar a agua do riachodas Lavandieres olhando para o mar: pedia-lhe o acesso ao elemento If-quido como pura diferenca entre elementos e como sistema de equiva-lencias da substancia Ifquida. Desatando os liames costumeirbs entre ascoisas, o Ser Bruto abre o acesso a uma relacao originaria entre elas comodifereng|s qualitati vas que sp^xiJ2ej^e_seJmejprtarriajimesrrjas enquantpf^rrfflijs3acoresr9as texturas, dos sons, dos pdpresjque reenviam a subs-tancialidade impalpaverdo que as faz vir_a ser. Se o Ser exige de nos cria-

    ..; . . cao para que dele tenhamos experiencia, entretanto, nao deposita todaa iniciativa do vir-a-ser na atividade do Espfrito Selvagem. mas. como SerBruto, compartilha daquele o trabalho criativo, dando-lhe o fundo do quale no qual a criacao emerge.

    Ser Bruto e Espfrito Selvagem estao entrelacados, abracados e enlaca-dos.- pjnvisfyel permite o trabalho de criacao do visfvel, o indizfvel. o dodjziyd, ojmpensaveJ'," pi do]pensave). Merleau-Ponty fala numa visao, nu-ma fala e num perisanjnstituinjeljque empregam o institufdp a cultura para fazer surgrngJarnlffi^sjEp} jasiais_ditp>)arriais pensadd a pbra.O Ser Bruto era o que Cezanne desejava pintar quando dizia dirigir-se" "afonte impalpavel da sensacao" porque "a Natureza esta no interior". Eo origina"rio, nao como aJgo passado que se desejaria repetir, mas comoo aqui e agora que sustenta, pelo avesso, toda forma de expressao.

    Abracados e enlacados, Espfrito Selvagem e Ser Bruto sao a polpa car-nal dp mundo, carne de nosso corpo e carne das coisas. Carne.- habitadaspor significacoes, as coisas do mundo possuem interior, sao fulguracoesde sentido, como as estrelas de Van Gogh; como elas, nosso corpo tam-b6m possui interior, e e faz sentido. Se elas e nos nos comunicamos naoe porque elas agiriam sobre nossos 6rgaos dos sentidos e sobre nosso sis-tema nervoso, nem porque nosso entendimento as transformaria em ideiase conceitos, mas porque elas c nos paftjciBarnos da mesma Carne. A Carnedo Mundo e o que e visfvel por si mesmo, dizfvel por si mesmo, pensavelpor si mesmo, sem, contudo, ser um gleno macifp, mas, paradoxalmen-te, unipjeno^orosp, habitado por um'oco pelo qual um posjtjvp^comemnele mesmo o negative que aspirajjpr ser, uma falta nopToprio Ser, fissu-

    j^"queWpreencheaocavar-see que se cava aopreencher-se. Nao e, pois,uma presenca plena, masgrejenca habitada por uma ausencja que nao cessade aspirar pelo preenchimento e que, a cada plenitude, remete a um vazio

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  • J-'seni o qual nao poderia vir :i ser. H "^J^iasma do visivel e do invdo dizfvel e do indixivel. do pensavel e do impensavel. cuja rcversibilida-de e diferenciacao se fazem por si mesmas.

    Merleau-Ponty fala em deiscencia da Cctnic, vocabulo vindo da bo-tanica para referir-se a abertura cspontanea dos orgaos dos vegetais quan-do alcanc.am a maturidade, dispostos a fecundar e a ser fecundados. A Camee p orig