Ocupação Antonio Nóbrega

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    27-Jul-2016
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Em sua 14ª edição, de abril a maio de 2013, o programa Ocupação homenageou o ator, dançarino, cantor e coreógrafo Antonio Nóbrega. O público teve contato com a capacidade do artista pernambucano de expressar a pluralidade da cultura popular brasileira, exaltando o lúdico e a síntese destas manifestações em sua obra.

Transcript of Ocupação Antonio Nóbrega

  • Sou um artista que, embora no pertena intrinsecamente a nenhuma famlia artstica especfica, se sente pertencente a todas elas.

    Do circo

    sinto-me parte de todos esses universos. No de uma forma superficial, mas tambm no de uma forma visceral. A minha nica visceralidade, na verdade, o Brasil, e digo que essa visceralidade descompromissada com qualquer ideia ufanista.

    Uma ausncia de ufanismo, todavia, que no prescinde da

    literatura,

    presena

    paixo. de Antonio Nbrega

  • Que comece a jornada! Pegue sua carroa e vamos bo-tando dentro tudo o que nos forma e nos transforma. A viagem pela msica, pela dana, pelo teatro e pela litera-tura no tem hora para terminar.

    A publicao que est em suas mos traz contedos in-ditos coletados com o artista, sua famlia e amigos. So ilustraes, depoimentos e fac-smiles dos cadernos de anotaes que narram trechos da vida e das criaes de Antonio Nbrega.

    A carroa que o acompanhar nas prximas pginas est cheia de influncias, paixes, histrias e referncias aos mo-mentos marcantes da vida de Nbrega. Sua trajetria refle-te no apenas a criatividade, a didtica ou a quantidade de informaes transmitidas em seus trabalhos, mas tambm a abrangncia da pesquisa que tem feito, por meio dos estu-dos, das vivncias e das trocas, ao longo de sua vida.

    Ita Cultural

  • Antonio Nbregapor Walt er Carvalho

    Quando era pequeno, minha me me levava para ver os folguedos po-pulares to comuns na minha poca. Assisti Nau Catarineta e ao Bum-ba Meu Boi, entre tantos outros.

    Um dia, ainda criana, andando nos canaviais, eu me deparei com o mara-catu; com os caboclos de lana; com o esplendor de cores e vestimentas brilhosas por todo corpo; com o som ao vento dos chocalhos de ferro nas costas e nas mos; com as lanas en-feitadas com fitas coloridas. O cu estava bem azulzinho e a luz reverbe-rava em meus culos. Tive a sensao de viver um delrio visual.

    Anos depois, j morando no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez Antonio Nbrega representar. Foi um alumbramento. Nbrega, da mesma origem que a minha, trazia para o espao sagrado do palco tudo aquilo que fervilhava numa das gavetas da minha memria. S que Nbrega transcendia em tudo o que estava na minha imaginao de menino em um espetculo universal.

    Fiquei a imaginar como ele podia recriar todo aquele universo popular do Nordeste e de outras regies do Brasil sem perder as caractersticas, elevando ainda o espetculo para a dimenso da arte contempornea.

    Pensei c comigo: Um dia vou tra-balhar com Antonio Nbrega. E o sonho se realizou. Hoje, depois de tan-tos projetos juntos, aprendi um pouco mais de mim, o que me faz lembrar dos versos de Murilo Mendes:

    [...] ainda no estamos habituados com o mundo, nascer muito comprido.

    Antonio ajudou-me a olhar para mim mesmo, na tentativa de com-preender a vida.

    Walter Carvalho nasceu em Joo Pessoa (PB) em 1947 e mora no Rio de Janeiro. fotgrafo e cineasta. Curador da Ocupa-o Antonio Nbrega, responsvel pela direo de Brincante, longa-metragem sobre a trajetria de Nbrega, que ser lanado ainda neste ano.

  • 1991

  • Foi meu pai quem descobriu em mim a vocao musical. Nas refeies, ele no-tava que eu ficava tamborilando com os dedos na mesa. Para ele, aquela ao era coisa de quem levava jeito para a msi-ca. Na poca, eu tinha 7 para 8 anos e ele era diretor de um centro de sade onde um dos funcionrios tinha uma irm vio-linista da Orquestra Sinfnica do Reci-fe. Foi ela, essa senhorinha pequenina, corcunda, de crecas nos cabelos, dona Belinha, quem me introduziu na msica, ensinando-me a tocar violino. Nunca en-tendi a ligao que meu pai havia feito entre o batuqueiro de mesa e o violinista.

    Dos 12 aos 16 anos, eu j demonstra-va interesse pela dana, pelo teatro e por instrumentos musicais. Tinha um conjunto com as minhas irms, no qual tocava, fazia arremedos de dan-a e cantava. Quem nos incentivava e promovia era o meu pai, que tinha um gosto muito grande pelo grupo.

    Nessa poca, eu me inscrevi nuns con-cursos de canto, declamao e orat-ria que aconteciam anualmente no colgio onde estudava. O diabo que em todos que eu me metia me saa bem. mole? Mas somente a partir do meu encontro com a cultura popular j em 1970 pude direcionar e poten-cializar melhor essa vocao de artista generalista, multidisciplinar ou multi-facetado, como alguns dizem. Ainda hoje eu no sei como me apresentar.

    Meu universo artstico circulava entre a msica erudita da Escola de Belas Artes (violino e teoria musical) e a que escutava nas rdios e nos programas de TV. Nessa ocasio, Ariano Suas-suna me viu tocando o Concerto em Mi maior, de J. S. Bach, em um recital numa igreja do Recife. E me convidou a integrar o Quinteto Armorial.

    texto elaborado a partir de entrevista exclu-siva e depoimentos enviados pelo artista

  • O convite era para que eu tocasse violi-no, tanto em sua verso tradicional quan-to em sua verso popular a rabeca. A partir desse momento, passei a tomar co-nhecimento da chamada cultura popular.

    Comecei a entrar em contato com esse universo pelas obras musicais que me eram apresentadas logo nos pri-meiros ensaios na casa de Suassuna. Na medida em que essas novidades chegavam, eu tentava descobrir de onde provinha tudo aquilo. E acabei batendo com o Bumba Meu Boi.

    O Boi Misterioso de Afogados era praticamente o nico do Recife. Afo-gados uma regio da periferia onde, em geral, aconteciam essas manifes-taes. Descobri o Capito Antnio Pereira cuja patente vem do Capito Boca Mole, figura que representava no festejo. Aos 18, passei a acompa-nhar suas apresentaes, realizadas na Casa da Cultura, no perodo do Natal at o Dia de Reis.

    Fui tomando intimidade com o mestre Antnio Pereira, almoava na casa dele, fazia anotaes e tudo ia fluindo. E en-to a figura do Mateus outro perso-nagem do Boi comeou a me seduzir com micagens, trejeitos, pequenos pas-sos, caretas e chistes, que eu passei a tentar reproduzir. Mateus est presente em quase todo teatro popular brasileiro e tem no cmico corporal a base de seu jogo de atuao. Eu o vi pela primeira vez como Mateus Guariba alcunha dada por causa das acrobacias que lem-bravam os movimentos de um macaco.

    Mateus um nome genrico. No tem o palhao Arrelia? Tem o Mateus Guari-ba, o Mateus Cravo da Noite, o Mateus Ful do Dia. E no comeo eu me cha-mava Mateus Tonheta. Depois comecei a aprender, tambm por imitao, o jogo das outras figuras dramticas do Boi de Antnio Pereira, como as danas da Burrinha, do Morto Carregando o Vivo, do Valento, do Babau e assim por dian-te. Assimilei os movimentos at decidir fazer meu prprio Bumba Meu Boi.

    Criei o Boi da Boa Hora e o Boi Cas-tanho do Reino do Meio-Dia, com os quais me apresentei em ruas e praas do Recife no Carnaval e no Natal. Es-ses Bois s existiam por causa da mi-nha vontade. Ningum estava muito impregnado e eu que gerava e geria uma necessidade que, at aquela altu-ra, no tinha conscincia de para onde me levaria. Aproveitava as ocasies para treinar o Mateus, que me interes-sava profissional e artisticamente. Para as outras pessoas era coisa passageira; para mim, uma necessidade vital.

    O Boi da Boa Hora foi criado quando eu fazia cursinho pr-vestibular. Na minha turma, havia um grupo de pessoas com um pensamento mais de esquerda. Hoje esse tipo de postura est mais dissolvi-do, mas naquela poca a gente vivia em meio ditadura militar. Eram pessoas da minha idade que tinham uma viso mais aguda da coisa e com as quais eu me en-contrava muito, por isso as convidei para fazer parte do Boi, apesar da ausncia de ideologia dessa manifestao popular.

  • Por outro lado, eu integrava o Quinteto Armorial, que era aparentemente des-politizado. A prpria palavra armorial sinnimo de herldica [arte ou cin-cia que estuda a origem, a evoluo e o significado dos emblemas, assim como a descrio e a criao de brases]. Co-mecei a conciliar minha viso de mun-do com a viso artstica que no tinha esse input poltico. O movimento ar-morial amplo, no sentido das artes, da recriao do universo popular por meio da assimilao de elementos da arte erudita, da procura de um casamento entre essas duas esferas culturais.

    Ariano Suassuna queria um grupo que trouxesse o universo popular para o pal-co e convidou o Boi da Boa Hora para participar de um bailado. Meus amigos do Boi achavam que eu era reacionrio por estar no movimento armorial sem-pre malvisto e mal compreendido. Ento o pessoal fez uma assembleia e decidiu no participar. Eu disse que no concor-

    dava e pedi para sair do Boi da Boa Hora. Quem quiser ir comigo vai, eu disse. E o povo rachou: metade foi e outra ficou. Pedi apenas que me dessem o desenho do Boi da Boa Hora para eu guardar de recorda-o [ver desenho na prxima pgina].

    Foi ento que decidi fundar outro Boi: o Boi Castanho do Reino do Meio-Dia, em outro bairro. Essa palavra foi retirada da Pedra do Reino [Romance dA Pedra do Reino e o Prncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna], e meio-dia uma antiga denominao dada aos povos do Hemisfrio Sul, abaixo da linha do Equador. O grupo durou uns dois anos, at acabar naturalmente.

    A primeira experincia com o Mateus To-nheta em palco foi com Bandeira do Divi-no (1976), uma releitura dessas folias ca-minheiras que chegam s casas pedindo permisso para comemorar o nascimento de Jesus e a chegada dos Reis Magos. S que no meu espetculo o dono da casa no dava essa permisso, ento, eu criava uma srie de situaes com o Mateus at que a folia fosse acolhida.

  • Reproduo da ilustrao do Boi da Boa Hora que Nbrega guardou de recordao. Autor desconhecido.

  • As danas brasileiras se agrupam em trs famlias principais. Os batuques, coreografi-camente, tm em comum a roda, o sapate-ado, as palmas e, sobretudo, a umbigada ou sua insinuao. Musicalmente, o canto e os tambores tocados com as mos. Alguns gru-pos usam o ganz, o reco-reco, o pandeiro, a alfaia e, por vezes, uma lata percutida com varetas. Essa famlia remonta s reunies festivas, s prticas e s celebraes religio-sas os ditos calundus realizadas pelos negros em seus ajuntamentos, senzalas e quilombos durante o nosso largo processo de colonizao. Com peculiaridades, esse gnero est presente em todo o pas. Coco de roda, praiano ou simplesmente coco em Pernambuco, em Alagoas e na Paraba; coco de zamb no Rio Grande do Norte; samba rural no interior baiano; tambor de crioula no Maranho; jongo no Rio de Janeiro; batu-que em So Paulo; carimb no Par etc. dessa famlia, ainda, o samba, derivado de semba, que quer dizer umbigada em banto.

    Os cortejos so diretamente descendentes do procedimento colonial de coroao dos reis de congo. A um rei negro, na maioria das vezes escravo, era dado o poder de gover-nar determinada comunidade denominada nao. Essas coroaes eram celebradas atravs de cortejos dramticos marcados por cantos animados por robustos tambores e caixas de guerra (taris). Coreograficamen-te, alm dos movimentos no deslocamento do cortejo e do jogo dos bastes, havia simulaes de combates (reminiscncias

    africanas). Nessa famlia esto, entre outras manifestaes, moambiques, maracatus, congadas, congos, cucumbis e taieiras. A mais vistosa das trs famlias a dos folguedos. Sua ascendncia ligada s janeiras e reisadas portuguesas: grupos que jornadeavam ao som de violas, rabecas, cavaquinhos e percusses cantando o nascimento do menino Jesus e a chegada dos Reis Magos na poca da natividade crist solstcio de vero europeu. No Brasil, incorporaram tipos e figuras do cancioneiro e do romanceiro, personagens populares, mitos etc. Esses grupos itinerantes ganham o nome de reisados, cada um intitulado a partir de suas figuras mais representativas (Joo do Vale, Pinica-Pau, Jaragu, Cavalo-Marinho). Da aglutinao de vrios reisados num s vo surgindo trupes de brincante que se fixam em determinada regio para apresentao de sua numerosa galeria de tipos e figuras. Paulatinamente, se firmam com os nomes de Bumba Meu Boi, Cavalo-Marinho, Boi Bumb, Boi de Mamo, Boi de Reis, Cordo de Bichos, Auto dos Guerreiros etc.

    A persistncia do nome boi devida provavelmente ao significado mgico-religioso do animal e por ser a figura de maior seduo e encantamento graas s suas estripulias, investidas e galhofarias. Esses folguedos so, portanto, espetculos hospedeiros totais, pois abrigam a dana, o canto, a msica instrumental, a comdia, o drama, o recitativo, a pantomima etc. (Adaptao de excerto de texto do espetcu-lo Naturalmente Teoria e Jogo de uma Dana Brasileira [2009].)

    Passo a passopor An ton i o Nbrega

  • Durante algum tempo pensei que a rabeca e o violino fossem instrumen-tos diferentes. Estudando a histria do desenvolvimento do violino des-cobri, entre outras inmeras coisas, que era pelo nome de rabeca que o instrumento, at pouco tempo atrs, era conhecido em Portugal. Isso no difcil de entender. A palavra rabe-ca uma espcie de latinizao de rebab, nome de instrumento rabe que chega Pennsula Ibrica junto com os rabes, como sabemos, por volta do sculo VIII.

    At esse momento ainda no havia na Europa, e consequentemente na Pennsula Ibrica, instrumentos de cordas tocados com arco. Foram os rabes que trouxeram essa novida-de. O que havia eram os primitivos instrumentos de cordas dedilhadas.

    A maioria fazia parte da famlia das violas (mas nada semelhante s atuais). do encontro dessa fa-mlia de instrumentos com o rebab que lentamente vai surgindo o que hoje conhecemos pelo nome violi-no. No nos esqueamos de que dentro desse mesmo percurso que se constituem tambm a viola de arco (viola da braccio) e o violoncelo (viola da gamba). O que ocorreu que, enquanto na maioria dos pases europeus esse pequeno instrumen-to tocado sobre o ombro ganhava o nome de violino (violon na Frana e violin na Inglaterra), em Portugal era chamado de rabeca e com esse nome chegou ao Brasil.

    Se fizermos uma pesquisa sobre esse nome vamos encontr-lo em vrias partituras de msica clssi-

    por An ton i o Nbrega

  • ca brasileira do sculo XIX. Seria natural, portanto, que o brasileiro em geral falasse em rabeca para se referir ao violino. A partir do come-o do sculo XX, no meio musical, todavia, o nome violino comea a substituir o termo rabeca. No meio rural, diferentemente, a designao rabeca continua a ser usada. a que ocorre um fenmeno sociocul-tural importante: como nem sempre o povo tinha acesso compra ou aquisio do instrumento, usava o expediente de constru-lo. E como constru-lo? Com a madeira mais acessvel. por essa via que, como consequncia, nasce uma espcie de luteria popular. Uma luteria pri-mitiva e artesanal cuja referncia de construo era um vagussimo conhecimento (via olhar, foto, tra-dio oral etc.) do violino.

    O fato que esse instrumento, chamado de rabeca ou de violino, composto de quatro cordas afina-das quase sempre em quintas sobre um cavalete curvo, excitadas atravs de um arco composto de crinas de cavalo, e tocado em cima do ombro ou peito esquerdos. O que ficou de interessante nessa histria toda que o povo imprimiu nesse violino rstico um modo, uma maneira de tocar identificada com os mesmos padres e procedimentos da msica popular brasileira (acentuaes, fra-seados, impulsos) que se encontram tanto no choro quanto no baio, no frevo e assim por diante.

  • Tonheta um possvel arqutipo de ar-tista de rua que comeou a ser lapidado por Antonio Nbrega muitos anos an-tes de ser reunida a equipe de criao da pea Brincante, formada pelo pr-prio Nbrega, Rosane Almeida, Rome-ro de Andrade Lima e eu. Entre 1990 e 1992 trabalhamos, em surtos eventuais de grande intensidade, na criao de versos, cenas, indumentrias, piadas, adereos, dilogos, cenrios e nmeros de malabarismo ou de habilidades c-nicas. O sucesso de Brincante, de 1992, e de Segundas Histrias, de 1994, deu ao personagem grande popularidade, que se ampliou quando Nbrega fez uma transio gradual da pea de tea-tro com nmeros musicais para o show musical ilustrado por pequenos entre-mezes cnicos. Tonheta est presente em praticamente todos os seus discos e espetculos mais importantes, como um brasileirinho galhofeiro que, na sua ingenuidade astuciosa, cristaliza um pouco dos milhes de brasileiros (e no s brasileiros) que o inspiraram.

    Os ancestrais de Tonheta so saltimban-cos de beira de estrada, prestidigitado-

    res de palet surrado desdobrando ba-ralhos de ouro para plateias sonolentas, rabequeiros roufenhos puxando cortejos em veredas batidas de sol, parelhas de palhaos virando bunda-canastra diante das cmaras, capoeiras empoeirados jo-gando rabos de arraia na praa da feira.

    Muitos venderiam a alma ao diabo para ser Tonheta. O problema que o diabo no negocia nesse ramo. Iludidos, ferveram poes mgicas, beberagens que incluam asa de morcego, rabo de lagartixa, solado de bota de soldado de polcia, pneu de carro fnebre, chave de cadeia, sapo barbudo, trevo-de-cinco-folhas, chifre de boi tungo, prepcio de gorila, dentadura postia de vampiro, lona de ringue de MMA, lenol de motel. Ferveram, coaram, beberam. No adiantou.

    Em suas andanas pela ciclovia perifrica que rodeia os sculos, Tonheta teve numerosos encontros com homens notveis. Com o escriba barroco Alcofribas Nasier ele destroou rega-bofes acompanhados de vinho tinto e forr de alade. Com o amanuense

    por Braul i o Tavares

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  • Albert Einstein tocou duetos ao violino e trocou ideias sobre a relatividade da escala diatnica. Com o grande Nijinski ele tomou um porre de caipirosca moscovita que os fez voltarem juntos para o hotel pulando de teto em teto. Com Lus Vaz de Cames ele exumou as estrofes censuradas da Ilha dos Amores e fez parceria em estrofes escarninhas contra a monarquia europeia. Ao lado de Villa-Lobos, coube-lhe inventar uma pianola musical automtica capaz de colocar melodia em qualquer texto recitado sua frente, e sua parceria com Santos Dumont produziu um para-raios que em vez de raios atraa chuva.

    Tonheta v com simpatia a prtica da arte pela arte, mas, para poder praticar sua arte nas horas vagas, ele j foi vendedor de picol, entregador de pizza, sapateiro, engraxate, porteiro de sinuca, cambista de senha bancria, flanelinha de engarrafamento, vigia de monumento em praa pblica, vendedor de amendoim torrado em avio de empresa decadente, cortador de rolete de cana, empinador de pipa em tarde sem vento, desbloqueador de celular achado no lixo de um show de rock, procurador de cachorro perdido, vendedor de bolo vencido da Mega-Sena, contador de filme para quem no tinha o dinheiro do ingresso, puxador de palma em comcio, garom de carroa de angu.

    Seu DNA histrico guarda cromosso-mos dos trues e das barregs que se alojavam no Ptio dos Milagres da corte francesa; dos degredados e convictos que vieram em gals e grilhes povoar o Brasil de pequeninos caboclos bastar-dos; dos pcaros nmades que mendi-gavam e furtavam na beira de todas as estradas entre Santiago de Compostela e Gibraltar; dos tangerinos e tropeiros que chicoteavam suas alimrias nos contrafortes das serras nordestinas; dos carregadores de fardos das misses cientficas europeias que se internaram nos cerrados insondveis do Brasil pro-fundo; dos violinistas ciganos que ras-quearam zngaras em volta das fogueiras do Oiapoque ao Chu; dos canibais pin-tados que pularam de marac em punho diante dos inimigos atados ao poste no centro da taba; dos amarelinhos, jecas--tatuzinhos, mulatinhos, cancozinhos, caboclinhos, sararazinhos, malazartinhos, pivetinhos e zs-povinhos espalhados pelo sistema circulatrio da nao, todos os filhos do lodo em cuja testa est escri-to: Eles herdaro a Terra.

    Braulio Tavares nasceu em Campina Gran-de (PB) em 1950 e mora no Rio de Janeiro. Escritor e compositor, ganhou o Prmio Ja-buti de Literatura Infantil com A Inveno do Mundo pelo Deus-Curumim (2008), em par-ceria com Fernando Vilela, e o Prmio Shell de Melhor Texto com Brincante (1992), em parceria com Antonio Nbrega.

  • Posso dizer que eu, Joo Sidurino, epo-pesta, mestre de cerimnias, rapsodo, coreografador, cantador, homem-ban-da e encenador, s decidi-me a revelar ao mundo as extraordinrias faanhas do industrioso Tonheta, o carroceiro andante, depois que conheci Rosalina de Jesus, ex-rumbeira e malabarista do famoso circo Alakazan, hoje minha nica, insupervel e inseparvel partner e companheira de toda a vida. S com a unio de nossas qualidades e exube-rantes habilidades artsticas que tal empresa seria possvel. Mas quem esse fabuloso Tonheta, cujas crnicas se acham dispersas em velhos alfar-rbios desaparecidos, cujas histrias a quintessncia dos meus sentidos mal pode escutar das longnquas vozes da-queles que h sculos foram conduzi-dos para o outro-lado, amm?

    Queridos amigos, Tonheta vive em mim como uma espcie de pedrinha-caroo (tais so as palavras que me ocorrem) que lateja sem parar no mago profundolgico da minha essncia abismal recndita! Ser Tonheta ento, por isso, um ser invisvel? Vejamos. Quando rodamos, eu e Rosalina, com nosso Circo-Teatro Brincante pelas estradas do pas, encontramos pelas feiras e praas velhos cantadores que contam as aventuras de Joo Grilo, Pedro Malazartes. Cano de Fogo, como se sabe, nomes menos usuais com que Tonheta alcunhado. Alis, um dia desses, ali perto do trevo que leva a guas de Totorob, encontramo-nos com Mestre Saba, um folgazo completo, assim como eu, que brincava (atuava, para quem no versado em nomenclatura tonhetnica) com o seu

    por J oo S idur ino 1

  • Benedito na sua tolda de mamulengos. Que nada! Aquele Benedito l no era nada mais nada menos que uma transfigurao de Tonheta.

    Mas, voltando minha pedrinha-caroo que lateja, afirmo que o que me faz ver-dadeiramente relatar as bravatas e fac-cias do admirvel Tonheta no nada mais, nada menos do que um imponde-rvel impulso que se transforma numa louca vontade de brincar com o mundo, de nele fazer ccegas, um desejo incon-trolvel de lambuzar-me na desordem primitiva: danando, pulando, cantando, piruetando, pinotando, mimicando, ber-rando, assobiando, gingando, mugan-

    gando, at atingir o meu gozo no xtase catico da paz celestial endiabrada.

    s vezes as pessoas me dizem: Tem-pos difceis esses em que vivemos. Concordo. S que, em sendo mestre de cerimnias, epopesta etc. e tal, eu, Joo Sidurino, tambm conhecido como Mestre Siduca, no posso calar--me. Mestre que mestre ensina, acon-selha, serve para alguma coisa. Por isso digo sempre: queridos amigos meus, tonhetai-vos uns aos outros! 21 Personagem de Antonio Nbrega que conta as aventuras de Tonheta.2 Texto publicado originalmente em COELHO, Marco Antnio; FALCO, Alusio. Antnio Nbrega: um artista multidisciplinar. Estud. av., So Paulo, v. 9, n. 23, abr. 1995, e revisto pelo autor para esta publicao.

  • Eles cantam, danam, versejam. Mas quem participa de folguedos populares Brasil afora, apesar de ensaiar, produzir figurino, conhecer coreografias, no se diz artista. brincante. O termo nasceu no Nordeste e se aplica a quem participa de cavalos-mari-nhos, reisados, maracatus e uma infinidade de brincadeiras. H muito tempo Antonio Nbrega e Rosane Almeida se encantaram por essa viso ldica do fazer artstico, os saberes atrelados a ela e a multiplicidade de linguagens utilizadas. Eles enxergam nesse universo uma possibilidade poderosa de melhorar as pessoas e a relao entre elas. Brin-cante o espao que criaram para dar luz a esse encantamento na tumultuada cidade de So Paulo, onde o brincar e a cultura popular parecem to esquecidos. Trecho publicado originalmente na revista Instituto Brincante (2009).

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  • Sempre sei, realmente. S o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma s coisa a inteira cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver e essa pauta cada um tem mas a gente mesmo, no comum, no sabe encontrar; como que, sozinho, por si, algum ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se no, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que . E que: para cada dia, e cada hora, s uma ao possvel da gente que consegue ser a certa. Aquilo est no encoberto; mas, fora dessa conseqncia, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e o errado. Ah, porque aquela outra a lei, escondida e vivvel mas no achvel, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuao, j foi projetada, como o que se pe, em teatro, para cada representador sua parte, que antes j foi inventada, num papel... Trecho retirado do livro Grande Serto: Veredas, de Joo Guimares Rosa, e utilizado no espetculo Mtria uma Outra Linha de Tempo Cultural (2011).

  • EXPOSIOOcupao Antonio Nbrega

    quinta 4 abril a domingo 19 maio 2013tera a sexta 9h s 20hsbado domingo feriado 11h s 20h

    Uma homenagem ao artista, que sabe reinventar a cultura de seu pas ao absorver as tradies de diversas regies e escolas do Brasil e do mundo. O visitante poder viver o universo de Nbrega passando por um tnel com objetos, figurinos e, no final, uma mostra de vdeos de seus espetculos.

    Os filmes sero exibidos na seguinte escala, repetidamente:

    teras e sextas Naturalmente

    quartas e sbados Nove de Frevereiro

    quintas e domingos Lunrio Perptuo

    piso trreo[indicado para todas as idades]

  • AULA ESPETCULOMtria, Uma Outra Linha de Tempo Cultural

    sexta 5 abril 20h

    Aula espetculo sobre a formao e o desenvolvimento da cultura popular brasileira e a sua relao com a linha do tempo cultural ocidental ou europeia.

    sala ita cultural 219 lugares[indicado para maiores de 14 anos][distribuio de ingressos 30 minutos antes do incio do evento]

    Concepo e atuao | Antonio NbregaIluminao | Marisa BentivegnaSom | Tuca Pradella

    ESPETCULOTonheta e Companhia

    sbado 6 abril 20h

    Com participao de Rosane Almeida, Maria Eugnia e Marina Abib, viagens pelos es-petculos teatrais e de dana de Nbrega com esquetes do personagem Tonheta em sua saga pico-bufnica em Brincante e Segundas Histrias e sua procura por uma dana brasileira em Figural e Naturalmente.

    sala ita cultural 219 lugares[indicado para todas as idades] [distribuio de ingressos 30 minutos antes do incio do evento]

    Roteiro e atuao | Antonio Nbrega eRosane AlmeidaElenco | Rosane Almeida, Maria Eugnia e Marina Abib

    Produo | Thereza FreitasAssistncia | Wanderley D. Lascko

    Iluminao | Marisa BentivegnaOperao de luz | Jean MarcelContrarregra | Domingos CarneiroConvidadas | Maria Eugnia e Marina Abib

  • SHOWMeu Cancioneiro

    domingo 7 abril 19h

    Show com maracatus, frevos, baies, cirandas e peas instrumentais compostas por Antonio Nbrega e em parceria com os poetas e letristas Braulio Tavares e Wilson Freire.

    sala ita cultural 219 lugares[indicado para todas as idades] [distribuio de ingressos 30 minutos antes do incio do evento]

    OFICINA PARA CRIANASBrincantinho Cultura da Infncia (Instituto Brincante)

    domingo 7 abril 11h30 s 13h30

    O Brincantinho um trabalho dedicado cultura da infncia com atividades que integram a msica, o canto e a dana, alm de proporcionarem o contato com jogos, brincadeiras e com o universo mtico da cultura popular brasileira. Todos esses elementos atuam como ferramentas para um desenvolvimento que permita ao indivduo tomar conscincia e se apropriar de todo o potencial criativo que possui.

    espao educativo20 vagas (crianas e pais)[indicado para crianas de 2 a 11 anos][inscries pelo telefone 11 2168 1876, a partir de 1 de abril]

    Criao e atuao | Antonio NbregaDireo musical, violo de sete cordas e cavaquinho | Edmilson CapelupiBateria | Clber AlmeidaFlauta e sax | Daniel AllainBaixo e violo | Jardel CaetanoPandeiro e percusso | Leo RodriguesAcordeom | Olvio Filho

    Sax e zabumba | Z PitocoIluminao | Marisa BentivegnaSonorizao | Andr Andrade e Tuca PradellaRoadie | Adilson Ramos SantosProduo | Thereza FreitasAssistncia de produo | Wanderley Santos da Silva

  • ENCONTROS COM ANToNIO NBREGAquartas 10, 17 e 24 abril, 1 e 8 maio 18h

    Encontros informais e interativos sobre temas presentes na obra de Antonio Nbrega ou relacionados ao seu trabalho.

    piso trreo20 vagas[durao aproximada 45 minutos][indicado para maiores de 14 anos] [distribuio de ingressos 30 minutos antes do incio do evento]

    10 abril | Teatro e dana17 abril | Msica e poesia24 abril | Leituras1 maio | Teatro e dana8 maio | Msica e poesia

    RODAS DE DANA sbado 27 domingo 28 abril 14h30

    Acompanhado por msicos e cantores, o artista convida o pblico a participar, tendo como inspirao a roda da ciranda. Nesse evento as pessoas podero danar, cantar, tocar e brincar artisticamente, passeando pela diversidade dos ritmos brasileiros.

    piso trreo25 vagas[indicado para todas as idades] [durao aproximada 45 minutos][distribuio de ingressos 30 minutos antes do incio do evento]

    Violo | Alencar MartinsSanfona e voz | Cristiano MeirellesPercusso e voz | Flora PoppovicPercusso | Leonardo Gorosito e Saulo BortolosoDireo musical | Leonardo Gorosito

  • ATENDIMENTO EDUCATIVOO pblico est convidado a conhecer a exposio Ocupao Antonio Nbrega na compa-nhia da equipe de educadores do instituto. As visitas buscam despertar o olhar do visitante no contato direto com as obras.

    Visitas educativas para pblico espontneo em portugus e em Libras (lngua brasileira de sinais)A equipe est disposio para uma conversa em portugus e em Libras nos seguintes horrios: portugustera e quinta 18hsbado, domingo e feriado 14h librasquinta 14h e 17hsbado 13 e 27 14hdomingo 14 e 28 14h 20 vagas[durao aproximada 40 minutos][informaes no balco de atendimento ao pblico piso trreo]

  • FANZINE OCUPAO ANTONIO NBREGA

    Concepo e coordenao editorialNcleo de Comunicao

    Coordenao de contedoNcleo de Educao Cultural

    Projeto editorial Gustavo Angimahtz (terceirizado)Maria Clara MatosRoberta Dezan

    EdioGustavo Angimahtz (terceirizado)Roberta Dezan

    Projeto grfico e designLiane Tiemi Iwahashi

    IlustraesFernando Vilela

    Reviso Cia Corra (terceirizada)Karina Hambra (terceirizada)Polyana Lima

    Produo editorial Cybele FernandesLvia G. Hazarabedian

    Assistncia administrativaIsabella Protta

    OCUPAO ANTONIO NBREGA

    CuradoriaWalter Carvalho

    Assistncia de curadoriaLeonardo Gudel

    Projeto expogrficoCassio AmaranteAssistncia e projeto arquitetnicoAvelino Ls ReisEquipeAnatole Mirsky Juliana Andreatta Marcelo LaurinoSachais CoutoWagner Olino

    ParceriaBrincante Produes Artsticas

    Instituto Ita Cultural

    PresidenteMil Villela

    Diretor superintendente Eduardo Saron

    Superintendente administrativo Sergio Miyazaki

    Idealizao e organizao

    Ncleo de Educao Cultural

    GernciaValria Toloi

    CoordenaoTatiana Prado

    Produo executivaAna Paula Drudi MirandaTayn Menezes

    Ncleo de Produo de Eventos

    Gerncia Henrique Iodeta Soares

    Produo executiva do espao expositivoCarmen FajardoProduoAline ArroyoEdvaldo Incio da Silvarica PedrosaVincius RamosWanderley BispoCoordenao de shows e espetculosJanaina BernardesProduoJanurio SantisMarcos MirandaPriscila Moraes (terceirizada)Rafael Desimone (terceirizado)Rbia Paio

    Ncleo de Comunicao e Relacionamento

    GernciaAna de Ftima Sousa

    Produo editorialCybele FernandesLvia G. Hazarabedian

    Projeto grficoLiane Tiemi Iwahashi

    Comunicao visualRichner Allan SantosYoshiharu Arakaki

    Edio Gustavo Angimahtz (terceirizado)Roberta Dezan

    Reviso Cia Corra (terceirizada)Karina Hambra (terceirizada)Polyana Lima

    Produo de contedo on-lineMaria Clara Matos

    Ncleo de Audiovisual e Literatura

    GernciaClaudiney Ferreira

    CoordenaoKety Fernandes

    Produo de imagensJahitza Balaniuk

    Edio de imagensKarina FogaaRodrigo Lorenzetti

    Atendimento educativoBianca Selofite Claudia MalacoDbora FernandesIsabela QuattrerJosiane CavalcantiJuliana RicchettiLusa SaavedraMaria MeskelisOtvio Bontempo Paula PedrosoRafael AnacletoRaphael GianniniSamara FerreiraSylvia Regina SatoThiago Borazanian

    AgradecimentosFernando Vilela, Maria Eugnia Nbrega, Thereza Freitas e Wanderley D. Lascko

  • /itaucultural itaucultural.org.br fone 11 2168 1777 [email protected] avenida paulista 149 so paulo sp 01311 000 [estao brigadeiro do metr]

    Realizao

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