Para Lizzie, Jack, Alice e Bea, - topseller.pt · ver que era empunhada por um velhote. O homem...

Click here to load reader

  • date post

    10-Dec-2018
  • Category

    Documents

  • view

    213
  • download

    0

Embed Size (px)

Transcript of Para Lizzie, Jack, Alice e Bea, - topseller.pt · ver que era empunhada por um velhote. O homem...

Para Lizzie, Jack, Alice e Bea,

os mesmos marinheiros adorveis,

a mesma peneira furada.

9

De incio, o rapaz no se apercebeu do que fizera, pois o comboio estava onde o ltimo comboio deveria estar um pequeno comboio

a diesel de duas carruagens, ao fundo da plata

forma , e correra o mais rapidamente possvel

para o apanhar.

Sentou se, pousando os ps no assento em frente

ao seu e tentando recuperar o flego. Olhou para a

longa fila de janelas escuras que se estendia sua

frente, com faixas de luzes refletidas no vidro, e, nem

a, caiu a ficha. Normalmente, havia pelo menos

meia dzia de pessoas no ltimo comboio, mas

a carruagem encontrava se vazia. S l estava ele.

O telemvel ainda tinha bateria suficiente para

ligar ao pai e dizer lhe que apanhara o comboio,

10

para que o fosse buscar estao. Contudo, quando

tentou fazer a chamada, desligou se. No tinha im

portncia, pois o pai estaria sua espera, e s falta

vam trs estaes.

Aos poucos, porm, comeou a aperceber se

de que havia algo de errado a ideia de que j

deveria ter chegado estao seguinte por aquela

altura comeou a formar se na sua cabea, como

uma criana a puxar lhe a manga para chamar a

ateno. Sentou se direito. Com as mos em con

cha junto aos olhos, para ocultar as luzes da car

ruagem, espreitou pela janela. L fora, imperava a

escurido, e era isso que estava errado. A respira

o dele condensava se contra o vidro frio, emba

ciando o. Limpou o e voltou a olhar, mas no havia

nada para ver. Apenas escurido.

O que comeara por ser uma suspeita tornou

se, ento, uma certeza quando o comboio conti

nuou a rolar e nenhuma luz familiar passou pela

janela nem o viaduto que atravessava a estrada,

nem os projetores da estao de servio.

No seguia no comboio certo.

Encostou o rosto ao vidro e olhou para o exte

rior, tentando perceber onde se encontrava, mas

no havia qualquer pista, nem uma nenhuma

estao, nenhuma tabuleta, nada. Queria deses

peradamente que o comboio parasse, para que

11

pudesse sair, mas as carruagens limitaram se a se

guir viagem. Uns 15 minutos ou 20? Permane

ceu sentado, a olhar, impotente, para a carruagem

vazia e para os espelhos escuros das janelas, en

quanto o som da locomotiva a diesel continuava a

zumbir, levando o sabe se l para onde.

Por fim, o comboio comeou a abrandar.

Ao longo de vrios minutos, arrastou se pela linha

como se estivesse prestes a parar, mas nunca o che

gando a fazer, e, de cada vez que o rapaz pensava que

pararia, voltava a ganhar velocidade. Finalmente,

parou de repente, no escuro. O rapaz nem sequer

conseguia perceber se estava numa estao, pois,

ao espreitar pela janela, com as mos em concha,

via apenas umas quantas luzes e um muro baixo

de cimento. A luz do boto da porta acendeu se,

e sair do comboio pareceulhe uma melhor opo

do que permanecer ali dentro. Assim, levantou

se e desceu para a plataforma escura e fria, antes

sequer de ponderar se seria, realmente, uma boa

ideia.

Ao ouvir as portas do comboio a fecharem

se atrs de si, e o motor a acelerar e a afastar se,

deixando o ali no escuro e ao frio, o rapaz perce

beu que, afinal, talvez no tivesse sido uma boa

ideia. A plataforma estava deserta, mas j nada

havia a fazer. Ficou a observar as luzes do comboio

12

a desaparecer. Quando o rudo do comboio deixou

de se ouvir, no restou som algum.

Apenas o silncio.

Nem parecia estar numa estao a srio. A placa

de cimento na parede estendia se at s traseiras

e havia um pequeno abrigo com um banco, mas

nada mais nem uma bilheteira, nem uma m

quina. Nem sequer uma tabuleta a indicar onde es

tava. Conseguia ver a ponta da plataforma a descer

para os carris, e havia trs postes de iluminao,

mas a luz que emitiam era estreita e fraca. No

havia casas, nem candeeiros de rua. Tanto quanto

podia vislumbrar, nem sequer havia uma rua, nem

mesmo degraus que levassem a uma rua. Tratava

se apenas de uma plataforma, escura e sossegada,

no meio de nenhures.

Puxou o casaco, aconchegando se, e tentou rir

se da estupidez do que fizera, mas, no silncio frio,

o seu riso caiu lhe dos lbios como um pssaro

atingido a tiro, fazendo o sentir se ainda mais s.

Sentou se no banco, levantando a gola para se prote

ger do frio, e perguntou se o que raio iria fazer.

Permaneceu assim bastante tempo at reparar

na luz.

De incio, era to pequena que o rapaz no

tinha a certeza do que se tratava apenas um pe

queno pontinho a baloiar para a frente e para trs.

13

Porm, medida que se aproximava lentamente

e aumentava, percebeu que era uma lanterna.

No, no era uma lanterna.

Era uma candeia.

Uma candeia de vidro.

Algum caminhava pelos carris, em direo

a ele, vindo da escurido, a empunhar uma candeia.

O rapaz endireitou se no banco, sem saber o

que pensar. Contudo, medida que a luz se aproxi

mava, subindo lentamente a rampa da plataforma,

quaisquer receios que pudesse ter desfizeram se ao

ver que era empunhada por um velhote. O homem

segurava a candeia numa mo e, na outra, um saco

de compras e uma trela amarrada a um pequeno

cozinho. Caminhava sem pressa e, ao passar pelo

banco, parou para observar o rapaz, devolvendo

depois o olhar plataforma naquela forma vaga

e indecisa tpica das crianas e das pessoas mais

velhas. O cozinho cheirou os sapatos do rapaz.

O rapaz permaneceu sentado a olhar para o

homem para a gola puda e a gravata engordu

rada, a gabardina fina, a ala em pele sinttica barata

e rasgada do saco de compras, os sapatos gastos e o

cozinho cinzento com um ar desgrenhado. Umas

quantas folhas mortas e flores murchas espreitavam

da boca do saco, o que lhe pareceu um pouco estranho.

O rapaz sorriu, apologtico.

14

Desculpe disse ele , mas ser que me

sabe dizer quando passa o prximo comboio?

Entrei no comboio errado e preciso de apanhar

outro na direo contrria.

O velhote olhou para ele de relance, mas no

respondeu. O rapaz no percebeu se ele o tinha

ouvido, pelo que voltou a perguntar e, desta vez,

o homem virou a cabea e olhou para ele.

Isto no uma estao respondeu, com

um sorriso. um Posto Ferrovirio. Ests num

Posto Ferrovirio.

O homem tinha uma voz estranha, entre o me

lodioso e uma cana rachada. Se no lhe tivesse visto

o rosto, tanto poderia ser de um homem como de

uma mulher.

Desculpe, mas no compreendo disse

o rapaz.

O homem olhou para trs, para a linha do com

boio, e, levantando a mo que segurava a trela e o

saco, apontou para os carris.

o que os trabalhadores dos caminhos de

ferro usam quando fazem reparaes na via ex

plicou. No uma estao.

Mas o comboio parou aqui contestou

o rapaz. E eu sa.

Bom, no devias ter sado respondeu o

homem, rindo se. No devias ter feito isso de

15

todo. Eu no teria aparecido se no o tivesses

feito.

O rapaz tambm no compreendeu o que o

homem queria dizer com aquilo, mas o velhote

sentou se ao seu lado no banco, mostrando lhe

um sorriso tranquilizador, e o rapaz retribuiu lhe o

sorriso. De perto, as roupas do homem cheiravam

a detergente da roupa e a tecido velho; era um

aroma acolhedor, como uma chvena de ch ou

um quiosque. O homem pousou a candeia no cho,

entre os ps, iluminando lhe as meias e os sapatos

e o pelo cinzento e encardido do cozinho. O rapaz

conseguia, agora, ver lhe os olhos, que lacrimeja

vam com o ar gelado da noite. O homem voltou a

sorrir.

Se estiveres preso aqui disse ele , me

lhor que eu e o Toby te faamos companhia. Pelo

menos, at o teu comboio chegar. Temos muito

tempo, o Toby e eu.

O cozinho olhou para cima e abanou a cauda.

O rapaz aconchegou ainda mais o casaco ao

pescoo, expulsando as bolsas de ar gelado, e cru

zou os braos em volta do corpo para manter o

calor l dentro.

No vale a pena disse o rapaz. A srio,

eu estou bem desde que eu tenha a certeza de

que vem a outro comboio.

16

Porm, ao proferir aquelas palavras, olhou

para a plataforma vazia e, para ser sincero consigo

mesmo, pensou que apreciaria a companhia.

No me passaria pela cabea deixar te sozi

nho disse o velhote. No agora que saste do

comboio. No seria correto deixar te aqui sozinho,

pois no? O homem sorriu e, dobrando se para

a frente, afagou as orelhas do cozinho.

O rapaz franziu o sobrolho.

Vai parar, no vai? perguntou ele, olhando

para a plataforma deserta.

Claro que sim respondeu o homem.

Basta que faas sinal para ele parar e no haver

problema.

Ficaram ali sentados, em silncio, por algum

tempo. O homem no disse nada; ficou a olhar para

a escurido, ao fundo da plataforma, batendo com

os sapatos no cho gelado, um e depois o outro,

como se o fizesse ao ritmo de uma msica inte

rior, enquanto esperava que as luzes do comboio

aparecessem. O rapaz comeou a pensar que as

coisas no tinham corrido assim to mal. S tinha

de esperar pelo comboio. Se pelo menos tivesse

podido ligar ao pai, no se importaria nada com

a situao.

Expirou, formando nuvens com a respirao,

tentando empilh las umas em cima das outras.

17

A novidade dessa experincia comeava j a

desgastar se quando o homem se virou e olhou

para ele.

Vamos fazer o seguinte disse. Eu conto

te uma histria enquanto esperamos pelo teu

comboio Uma bela histria vai ajudar a passar o

tempo. J faz algum tempo que no conto uma das

minhas histrias a algum.

No preciso disse o rapaz. A srio, eu

estou bem.

O homem sorriu, embora desta vez parecesse

que sorria mais para si do que para o rapaz.

Tens um irmo mais novo? perguntou.

Havia algo to penetrante nos olhos que o fita

vam, naquele rosto velho, que o rapaz no precisou

de responder.

Bem me parecia continuou o homem.

Conheo uma histria sobre uma rapariga e o

seu irmo mais novo. Conto te essa se quiseres.

Vai ajudar a passar o tempo.

O rapaz assentiu com a cabea, resignado.

OK, pode ser disse.

Perfeito respondeu o homem num tom

alegre e, voltando a encostar se no banco, respirou

fundo e comeou.

Aconteceu tudo de forma to natural, me

dida que o homem falava, que o rapaz no sabia

18

dizer quando que a plataforma desapareceu e a

pequena casa surgiu. Porm, quando aconteceu, j

no havia plataforma alguma sua volta havia

apenas a sensao de um cu de um dia de vero,

e folhas verdes, e uma rapariga num trilho de terra

batida que levava a uma pequena casa.

21

A ideia da mudana fora da sua me. Beb novo, casa nova dissera. Contudo, o beb no era do pai de Cassie, e Cassie

j no tinha pai, no desde que ele o descobrira. Por

isso, agora eram s Cassie, a me e o beb.

Vai ser maravilhoso insistia a me. Tudo

o que no tinhas na cidade, tudo o que sempre qui

seste um grande jardim, rvores para trepar. Podes

descer o trilho e apanhar o autocarro para a escola

nova quando comear o ano letivo, no outono. Vai ser

tudo muito simples.

Porm, agora Cassie tinha 13 anos. Desejara

a rvore e o jardim aos 8 anos, no agora. A me

parecia no conseguir perceber isso. Nem sequer

iria para a sua antiga escola. Tudo tinha de ser novo

22

o novo sorriso da me, os novos planos da me,

o novo beb da me tudo.

Tudo, exceto o bangal ao fundo do trilho. No

havia nada de novo naquela casa. Datava da dcada

de 1930 um pequeno jardim, um pequeno pomar,

tudo num estado praticamente selvagem. Quando a

senhora idosa que ali morava morreu, a casa per

manecera tal como ela a havia deixado. Nem sequer

tinham tirado as coisas dela. Passado um ano, tinha

sido posta a arrendar com uma grande tabuleta

vermelha ao fundo do trilho , e fora assim que

a me de Cassie a descobrira.

Estava a cair aos pedaos, mas era barata.

Quando se mudaram para l, a moblia da senhora

idosa ainda l estava no as camas e os lenis,

esses tinham sido levados, mas tudo o resto: cadeiras,

mesas, uma barra de sabo rachada no parapeito da

janela, pginas velhas da revista Womens Weekly

coladas na parede com fita cola. A licena de tele

viso presa a um dos lados do espelho da cozinha.

Havia at um calendrio com as consultas dela no

hospital marcadas a caneta.

Cheirava a humidade. Sentia se a humidade.

Vai desaparecer a humidade quando limparmos

a casa e a arejarmos dissera a me de Cassie, co

meando a danar pela casa, a cantarolar uma cano

alegre de limpezas, como se fosse uma princesa num

23

filme, enquanto abria as janelas, cujos vidros estavam

todos sujos da chuva e do p. Escuta, Cassie dis

sera ela, junto a uma das janelas, e Cassie escutara.

No se ouvia nada, apenas os pssaros a cantar e os

insetos no pomar. Nenhum burburinho de rua, de car

ros, nenhum rudo. Nada da sua antiga vida. Ests a

ver, querida? dissera a me, a sorrir. Ests a ver?

A cozinha era minscula, com um par de pra

teleiras pintadas, um fogo a gs com duas bocas

e azulejos de linleo no cho. Uma pequena chave

enferrujada que no pertencia a fechadura alguma

pendia amarrada a um fio na despensa, como se es

tivesse ali desde sempre.

O quarto de Cassie ficava nas traseiras. Da ja

nela, conseguia ver o cho do pomar repleto de

urtigas e de ervas. Havia 13 macieiras e, para l delas,

na fronteira com os campos abertos, uma tina para

recolher a gua da chuva e um velho anexo de tijolo

e argamassa cujo teto cara.

Havia tanto trabalho a fazer, tanto a limpar. No en

tanto, por vezes faltava a gua e a eletricidade, e, quando

tal acontecia, a me ligava do telemvel para a agncia

de arrendamento, mas a rede era to fraca que ela mal

se conseguia fazer ouvir, acabando a gritar com eles.

s vezes, Cassie, depois de se ir deitar, ouvia

a me ligar a Michael, fosse l ele quem fosse,

e tambm acabava a gritar com ele.

24

E ainda havia o beb.

Todas aquelas vezes que a me lhes dissera, a ela

e ao pai, que estivera a trabalhar at tarde, bom, nem

sempre fora a trabalhar, pois no?

A me chamara Niall ao beb, que soava como o

rio Nilo em ingls. Cassie chamavalhe apenas o beb.

O nome dele Niall dizia a me. Ela no de

sistia de tentar fazer com que Cassie dissesse o nome

dele, mas Cassie no queria. Se ele no existisse, as

coisas no teriam mudado, pois no? Estaria na sua

antiga casa com a me e o pai, e seriam apenas eles

os trs, como sempre havia sido.

Mas no era.

Ela nem sequer queria pegar no beb. S de pen

sar na me a pegar nele, sentia se doente.

V l, experimenta dizia a me, mas

Cassie no pegava nele. A me roava o rosto no ca

belo negro e suave do beb e dizia: Cheira a bola

chas e a baunilha. V l, quando pegares nele, vais

adorar. Mas Cassie no queria, e a me acabava

por virar costas, permanecendo porta das traseiras,

com o beb ao colo, a olhar para o tapete espesso

de urtigas e de ervas do pomar. Cassie quase no se

importava se ela estava a chorar ou no, pois o beb

chorava o suficiente pelos dois.

Praticamente no parava de chorar, pelo menos

era o que Cassie achava.

25

No que o que ela achasse parecesse importar

a quem quer que fosse. Nem sequer podia falar com

os seus antigos amigos sobre o assunto porque a

rede de telemvel era pssima.

Assim, Cassie fez o melhor que pde, dadas as

circunstncias; deitada na cama a ouvir msica, ou o

choro de Niall, ou a me a fingir que estava tudo ma

ravilhosamente bem, como se vivessem num mundo

de princesas.

Foi ento que Cassie encontrou a caixinha de

madeira.

Estava no anexo. Cassie foi at l, atravessando

o pomar, abrindo caminho pelas urtigas altas

com um pau. O estuque das paredes estava man

chado de ferrugem e repleto de bolor amarelado,

e havia um grande pote de metal com uma mis

tura de folhas molhadas que libertaram um fedor

quando ela as remexeu. O cho estava coberto

de telhas partidas, galhos e fezes de pombo.

A um canto, viu uma caixa de madeira pouco maior

do que uma caixa de sapatos. A madeira estava de

formada e manchada pelas intempries, e, frente,

tinha uma pequena fechadura em lato. Estava

bem fechada. Chocalhava quando Cassie a aba

nava, pelo que deveria ter qualquer coisa l dentro.

Cassie levou a consigo, atravessando novamente as

urtigas.

26

No deve haver nada de valor a dentro disse

a me, enquanto Cassie vasculhava as gavetas da

cozinha procura de um saca rolhas para forar

a fechadura. provvel que sejam s ferramentas

velhas.

Mas Cassie no se importava.

S que no conseguia encontrar um saca rolhas.

Como se algum lhe tivesse sussurrado a ideia ao

ouvido, lembrou se subitamente da pequena chave

enferrujada pendurada num fio, na despensa.

Parecia ter o tamanho certo. Arrancou a do fio e

experimentou a na fechadura.

Bingo!

Com um pouco de esforo e cuidado, a chave

girou.

Cassie mal conseguia acreditar na sua desiluso.

Havia quatro velas velhas na caixa, nada mais. Esta

vam embrulhadas em papel de cera amarelado, trs

brancas e uma negra. A negra estava suja e engor

durada. Cassie teve de limpar os dedos camisola

por lhe ter tocado.

Eu disse te que no devia ter nada de valor

disse a me, ali especada com Niall apoiado na anca.

Acho que esto boas disse Cassie, sem

saber bem porqu, pois no estavam nada boas.

Ainda conseguia sentir a gordura da vela negra na

ponta dos dedos. A me disse lhe para voltar a pr

27

as velas onde as encontrara, mas Cassie no quis.

Agora eram dela. Colocou as no toucador da velhota,

que ficara no seu quarto.

Continuavam l quando se foi deitar.

Cassie no tencionara acend las, e, se a sua lan

terna no tivesse as pilhas gastas quando foi para a

cama, no o teria feito. Porm, quando a eletricidade

falhou naquela noite aps o jantar, aquelas eram as

nicas velas de que dispunham. Em vez de ir para

a cama s escuras, Cassie colocou as velas num prato

com gua no toucador e acendeu as com um fsforo.

Primeiro as brancas e depois, com o resto do fsforo

quase a queimar lhe os dedos, acendeu a negra.

Deitou se na cama a observar as sombras tre

meluzentes que subiam e avanavam pela parede.

A me de Cassie j se tinha ido deitar. Conseguia ouvir

o som do choro de Niall atravs das paredes finas e a

me a sosseg lo e a cantar lhe canes de embalar,

como costumava fazer a Cassie quando ela chorava.

Mas a me j no lhe cantava canes.

Cassie socou a almofada para a alisar e, com as

velas ainda a arder e as sombras a aproximarem

se pelas paredes, ps os auscultadores nos ouvidos,

aumentou o volume para abafar o som do beb e

fechou os olhos.

Deixou que as palavras e a msica a inundassem.

Os lenis estavam frescos e sentia o corpo estendido

28

e quieto. Ficou ali deitada, imvel, com a msica na

cabea. Havia, porm, o sussurro de uma frase, numa

das canes, em que nunca reparara antes. Algum

falava ao som da msica, mas destoava da cano. Era

uma voz esganiada, como a de uma mulher idosa.

O n da forca apagou a minha luz, arde, ve

linha, arde bem e vivaz

Uma e outra vez.

Ouviu a novamente na cano seguinte e, por

fim, lentamente, como se chegasse a si atraves

sando um lquido viscoso, Cassie apercebeu se de

que nenhuma das msicas era assim, e que estava a

sonhar.

Abriu os olhos, mas percebeu que o sonho ainda

decorria porque o quarto que viu no era o seu. Era

uma cozinha fria e vazia, e, no lugar do toucador, es

tava um fogo de ferro com uma prateleira por cima.

Havia uma manta de retalhos suja estendida sobre o

cho de pedra. Havia uma cadeira e uma mesa com

alguns tijolos, vermelhos e castanhos. Cassie sabia

que a diviso estava bastante escura porque era de

noite, mas, como num sonho, no questionou por

um instante o facto de ser capaz de ver tudo o que

ali estava com perfeita clareza, at o pormenor da

cor dos tijolos. Na prateleira por cima do fogo, havia

uma vela negra, cuja chama ardia com um fumo sujo

e gorduroso, como se a vela fosse feita de gordura

29

e de pele, e no de cera. A chama desviava se pregui

osamente com a corrente de ar, mas no projetava

luz alguma, nem sombras. Quanto muito, tornava a

diviso ainda mais escura.

Cassie permaneceu ali deitada, observando a co

zinha e a vela.

Entretanto, o trinco da porta levantou se e en

trou uma mulher idosa. Vestia se como j mais

ningum se vestia uma saia comprida e grossa,

uma touca preta e um xaile e trazia uma saca de

couro. Pousou a sobre a mesa. Havia algo dentro da

saca, mas Cassie no conseguia ver o que era. Ouviu

Niall a chorar at nos seus sonhos tinha de o ouvir.

Parecia que a mulher tambm o conseguia ouvir,

pois lanou um olhar irritado saca, como se o choro

viesse de l. Mas no fez mais nada. Virou o porta

moedas sobre a mesa e comeou a contar uma

mo cheia de moedas. Depois, recolheu as para

a mo e, atravessando a diviso, deitou as para dentro

de um frasco, na prateleira ao lado da vela. A chama

tremeluziu, escura.

S ento a mulher se virou e olhou para a saca.

Tinha, agora, uma expresso diferente no rosto ma

lfica e determinada. Levantou o olhar, dirigindo o

diretamente para Cassie. Esta limitou se a observar,

calada, enquanto a mulher retirou um pano da prate

leira e comeou a dobr lo num pequeno quadrado.

30

Quando terminou, voltou mesa e abriu a saca.

O som do choro tornou se subitamente mais alto

e Cassie apercebeu se de que vinha de dentro da

saca, e no de Niall. Com uma mo, a mulher man

teve a saca aberta e, com a outra, introduziu o pano

dobrado e, pressionando, permaneceu assim at o

choro cessar por completo.

Quando j no se ouvia barulho algum, levantou

o olhar da saca e sorriu para Cassie. Era um sorriso

cruel. Pegou nos tijolos e colocou os na saca, fe

chando a bem.

No momento seguinte, Cassie j no se encon

trava na cozinha. Estava na margem de um rio, junto

a uma piscina natural profunda, e estava escuro

e frio. Viu uma saca de couro a afundar se lenta

mente, para fora de vista.

Assustada, abriu bem os olhos. A ondulao da pis

cina escura e a margem do rio tinham desaparecido.

Via se a luz do sol refletida na almofada, ao lado

do seu rosto. Sentou se na cama, com um salto,

e olhou em volta pelo quarto, com a respirao presa

no peito. No se via nada, nem fogo, nem tapete,

nem mesa. Por um segundo, poderia dizer exata

mente onde eles tinham estado, mas, medida que

olhava em redor, a imagem ia se desvanecendo at

desaparecer por completo. Era apenas o seu quarto,

com a luz do sol a entrar. Cassie tremia.

31

No toucador, as velas tinham derretido e a cera

escorria pelo prato numa confuso suja. O quarto

cheirava a queimado e a gordura ranosa. Cassie

saiu da cama, sentindo o linleo hmido e frio nos

ps. Abriu a janela, com vontade de vomitar, inspi

rando grandes golfadas de ar fresco.

Sentia se enjoada.

Devem ter sido as velas, pensou. Tinham dado o

dixido de carbono na escola talvez tivesse sido

isso? Podia ter sufocado e ningum se teria aperce

bido. Parecia ter sido envenenada.

Ficou ali, de p, a respirar o ar fresco e limpo. Con

seguia ouvir a me a andar de um lado para o outro

na cozinha, o rdio ligado, o som do beb a chorar.

Como o choro vindo da saca.

Sentia a lngua inchada e suja dentro da boca.

A cabea doa lhe. Sentou se na beira da cama e

tentou no se lembrar do sonho.

Mas no o conseguia esquecer.

Ainda no se sentia bem quando chegou a hora

de a me ir s compras vila loja maior, ainda

para mais. Porm, a me no acreditou nela quando

Cassie lhe disse que se sentia demasiado doente para

ir j tinha usado aquela desculpa antes para se es

capar s compras. S que desta vez sentia se mesmo

doente, e a me no acreditou. Tentou dizer lhe que

32

fora por causa do cheiro das velas, tentou contar

lhe o sonho, sobre o beb na saca. Mas quando lhe

contou sobre o beb na saca de couro , o rosto da

me empalideceu como s acontecia quando estava

realmente zangada, e no havia nada que Cassie

pudesse dizer ou fazer para melhorar a situao.

A me chamou lhe m, egosta e mimada e muito

mais do que isso, coisas relacionadas com o pai

dela, e no com ela. Depois, ps Niall, o carrinho de

beb e o resto das coisas dele no carro e saiu sem

Cassie.

Era sempre assim que tudo acabava agora com

Cassie sozinha e a me com o beb. Dantes, no cos

tumava ser assim.

Dantes, nunca era assim.

A me travou a fundo no fim do carreiro. Con

duzia assim quando se sentia zangada. O carro

derrapou para a estrada e o barulho do motor

tornou se cada vez menor, at no restar mais nada

a no ser o silncio, e um gosto a cera suja na boca

de Cassie.

Durante algum tempo, Cassie ficou sentada nos

degraus de madeira com os auscultadores nos ouvi

dos, limitando se a olhar para o pomar e desejando

ter ido com a me. Desejando que a me voltasse

para lhe pedir desculpa.

Mas a me no voltou.

33

Com o passar do tempo, Cassie comeou

a sentir se cada vez mais desconfortvel ali sentada.

Era uma sensao desagradvel, que crescia a cada

instante. Sabia que estava sozinha, mas parecia que

estava ali algum. Tirou um dos auscultadores do

ouvido e olhou em volta do pomar, para o trilho que

levava estrada mas no estava ali ningum.

Muito claramente, vindo do interior do bangal

atrs de si, Cassie ouviu um som.

Um beb a chorar.

Por um instante apenas, pensou que Niall e a

me tivessem regressado, mas no tinha visto carro

algum, por isso no podiam ser eles.

Mam?

No obteve resposta, apenas o som de um beb

a chorar. No era, contudo, o barulho infernal que

Niall fazia era um som fraco e adoentado, como

o miado de um gatinho.

Cassie levantou se, vacilante. Apoiou se na om

breira da porta e entrou na cozinha. Tirando o outro

auscultador, inclinou a cabea para o lado e ps se

novamente escuta. O som vinha do corredor.

Vinha do seu quarto.

Mais intrigada do que receosa, pois parecia

lhe um gato, Cassie percorreu o corredor estreito

e, parando porta para escutar, girou a maaneta e

abriu a.

34

Estava novamente a olhar para a cozinha com o

cho de pedra e o fogo em ferro, mas agora era de

dia. A mulher estava l com o seu xaile, a saia e as

botas com botes. No pareceu reparar em Cassie.

Vertia leite quente de uma panela para um bibero

em grs estava um beb dentro de um cesto, no

cho, aos ps da mulher , mas o leite estava dema

siado quente. Via se o vapor a subir da panela. No

se pode dar leite a escaldar a um beb.

A mulher virou se, olhou fixamente para Cassie

e sorriu. Cassie no sabia se aquilo era real, pois o

fogo em ferro e o bibero, a mulher e o beb, no

estavam ali. Era apenas o quarto dela, a cama dela

e os raios de sol. Acontecera to rapidamente, como

quando pensamos ter visto um pssaro e, ao torna

mos a olhar, percebemos que apenas uma velha

folha castanha, e no sabemos sequer se vimos efe

tivamente um pssaro.

Foi assim que se passou.

A mulher estava ali.

E depois j no estava.

Cassie permaneceu porta, a olhar para o quarto

vazio, para o edredo puxado para trs, para as suas

roupas no cho. A cabea doa lhe e no se sentia

bem. Agora s lhe apetecia chorar no queria es

perar sozinha pela me.

No ali.

35

Tirou a chave da porta das traseiras do suporte

preso ao frigorfico, trancou a porta e dirigiu se ao

carreiro que levava estrada, mais abaixo. Havia

uma loja na aldeia. A igreja ficava mais perto do que

a loja. Havia um banco logo a seguir ao porto. Podia

sentar se ali ao sol e esperar pela me.

Andava um homem a cortar a relva. Cassie

sentou se no banco a ouvir o som do corta relva e a

olhar para a estrada, mas aquilo no a fez sentir se

melhor. Deve ter adormecido, pois o relgio da igreja

acordou a.

O sol tinha avanado no cu. Quando abriu

os olhos, a primeira coisa que viu entre as lpi

des foi uma pequena esttua em mrmore branco

de uma menina a segurar uma pomba. No repa

rara nela antes, mas agora o sol incidia precisa

mente ali. Cassie espreguiou se e levantou se.

Dirigiu se at ao local e leu a inscrio em letras de

chumbo:

EM MEMRIA DAS CRIANAS DE WEIR* POND.

JUNHO DE 1888.

Havia um aude no rio, do outro lado da igreja.

Cassie vira o ao longe uma espcie de piscina com

salgueiros nas margens.

* Aude.

36

De repente, Cassie reconheceu o lugar

Uma piscina escura com salgueiros nas margens

E uma saca de couro a afundar se, para fora de

vista.

Algo gelado tocara nela.

Voltou a olhar para a data e para o tipo de roupa

que a menina vestia para as botas com botes e

o xaile.

Conseguia sentir o gosto a cera negra suja na

boca.

No havia nomes no mrmore. Dizia apenas

crianas.

Olhou em volta. O homem que estivera a cortar a

relva terminara. Guardara o corta relva e subia o ca

minho em direo ao porto. Era um homem idoso,

de boina na mo. A aldeia estava repleta deles.

Cassie tentou par lo.

Desculpe? chamou ela, bem alto.

Cheirava a suor, a tabaco e a casaco de tweed,

ao passar por ela.

O que isto? perguntou Cassie, apontando

para a esttua de mrmore. Esta esttua.

Mas o homem continuou a andar. Cassie sentiu se

estpida e zangada por ter sido deixada ali especada.

Do outro lado do muro da igreja, viu passar o te

jadilho do carro da me. O carro virou para subir

o trilho.

37

* * *

A me dela tinha uma maneira de falar especfica

quando se zangavam curta, como uma srie de afir

maes, sem esperar resposta , e tambm no parava

o que estava a fazer. No olhava para Cassie. J estava

a desempacotar as compras quando Cassie regressou

ao bangal, e foi assim que a conversa se desenrolou.

Dei boleia a uma senhora de idade disse

a me, tirando artigos dos sacos que colocara sobre

a mesa, arrumando os nas prateleiras. Vinha pela

estrada que vem da vila. Tinha uma grande saca de

couro, e eu pensei: Ela no pode com aquilo. Ento

dei lhe boleia. Temos de conhecer os habitantes lo

cais, no temos, Cassie, agora que vivemos aqui?

Olhou de relance para Cassie ao dizer aquilo.

Foi to simptica com o Niall. Adora crianas

pequenas, especialmente os bebs. E sabia tudo

sobre o velho chal que costumava existir aqui antes

desta casa. da que vem o anexo, diz ela. A senhora

um verdadeiro poo de informao. Na verdade

A me de Cassie hesitou, enquanto deitava os res

tos do po no lixo. Convidei a para vir c tomar

ch amanh. Se gostar dela, e for assim to boa com

bebs, podia passar por c de vez em quando para

tomar conta do Niall quando eu tivesse de sair. Afi

nal, tu nunca ests muito disposta a isso, pois no?

38

Desta vez olhou diretamente para Cassie, com a

inteno de a fazer sentir se culpada.

Porm, no era isso que Cassie sentia. Sentia um

vazio, uma escurido, tudo iluminado por uma vela

negra e gordurosa.

Como que ela se chamava? perguntou

Cassie, baixinho.

Pois j vira uma velha com uma saca de couro.

Disse me apenas para lhe chamar Ama da Vela

respondeu a me. No amoroso?

Antes de ir para a cama, Cassie atirou o prato com a

mixrdia de cera suja para as urtigas, o mais longe

da casa que conseguiu. Ouviu o prato a aterrar. De

pois, esfregou as mos o melhor que pde sob a tor

neira e deitou se na sua cama, com a luz acesa, mas

no conseguia dormir. S conseguia pensar na ve

lhota. Pelas paredes, conseguia ouvir Niall a chorar,

mas, se escutasse com ateno, ouvia outro choro

tambm fraco e distante. Um choro que parava,

depois recomeava, mas nunca era o mesmo choro.

Era sempre um choro diferente.

No conseguia deixar de pensar na cozinha com o

cho de pedra e o fogo em ferro quase conseguia

ver as suas formas emergirem no quarto iluminado

pela lmpada eltrica. Por fim, vestiu uma camisola

e calcorreou, descala, o corredor escuro que levava

39

ao quarto da me. Sentia se mais segura ali. Havia

um pequeno candeeiro ao lado da cama, de uma luz

suave e amarelada. A me tinha Niall ao colo. O beb

dormia. Cassie subiu para a cama, para junto dela.

Por favor, no deixes aquela mulher vir c a

casa disse ela. Eu sonhei com uma velhota.

A me mudou ligeiramente de posio para poder

colocar um brao em volta de Cassie.

O toque era to quente, to confortvel.

No sejas tola disse a me. Tu no a viste.

Era simptica. Era apenas uma velhota simptica.

Ela no simptica, mam disse Cassie.

Olhou para o rosto da me. Podemos mudar de

casa? pediu, em voz baixa. No gosto de morar

aqui. E comeou a chorar.

A expresso no rosto da me endureceu e retirou

o brao que envolvia Cassie. Mas continuava a segu

rar o beb.

Bom, vais ter de aprender a gostar disse a

me, com firmeza. Porque tudo o que temos,

e no se fala mais nisso.

Cassie sentiu lgrimas enormes e molhadas nos

olhos, que escorreram pelo seu rosto at almofada.

Mas a me no voltou a pr o brao em volta dela.

Passava pouco das 15 horas do dia seguinte quando

a mulher chegou.

40

Cassie tentara tudo para evitar que tal aconte

cesse, para que a me mudasse de ideias, mas nada

funcionara. No havia nada a fazer, a no ser fugir,

e Cassie no podia fazer isso. Ento, esperou, e agora

a mulher estava ali, sentada pequena mesa, que a

me pusera.

Seria a mesma mulher que vira no sonho? Cassie

no sabia. Olhava constantemente de relance para

ela, tentando chegar a alguma concluso, mas no

tinha a certeza.

Por fim, a me disse:

Para de olhar, Cassie! E depois, para a mu

lher: Desculpe, Ama. Hoje, a Cassie deixou as boas

maneiras noutro stio.

A me no costumava dizer aquelas coisas

e no dissera Ama uma vez, dissera o uma

dzia de vezes. Ama, quer mais ch?, Ama, quer

um pedao de bolo? Soava to falso a Cassie, mas

a mulher limitava se a sorrir, a cada vez, e aceitou o

ch e aceitou o bolo, e olhou para Cassie, voltando

a sorrir.

Tens um irmozinho muito lindo comentou.

O nome dele Niall respondeu Cassie, num

tom seco.

Oh, eu sei disso, querida, a tua me disse me.

E aposto que o adoras at no poderes mais, no

verdade? Virou se para a me de Cassie. Minha

41

querida, se alguma vez quiser que eu passe por c

e tome conta dele por um bocado, no me importo

nada. Seria uma ddiva para mim, um rapazinho to

adorvel quanto ele. E inclinou se para a frente

para beliscar a bochecha de Niall.

A me de Cassie sorriu. Pegou no bule vazio e

dirigiu se pequena cozinha.

Vou s buscar mais ch e depois talvez possa

mos falar sobre o assunto.

Eu vou disse Cassie, rapidamente, mas a me

j tinha ido, deixando a a ss com a mulher.

A mulher bebericou um pouco de ch, pousou de

licadamente a chvena no pires e olhou para Cassie.

Mas no era a mulher que estivera ali sentada h um

instante.

Era algum completamente diferente.

Era como um pesadelo a desenrolar se lenta

mente frente de Cassie. A velhota do sonho e esta

outra mulher estavam ambas ali ao mesmo tempo,

sentadas na mesma cadeira um rosto sobre o outro

, ambas a falar com ela.

Ento, acendeste a disse a mulher do sonho.

Cassie ficou a olhar para ela, boquiaberta.

Sentia se tonta e enjoada. Conseguia sentir o gosto

de cera suja na lngua. Conseguia cheir la no ar,

misturada com o ch e o bolo, completamente res

sessa e gordurosa.

42

A mulher sorriu lhe. Cassie j vira aquele sorriso

antes.

A Ama deixa sempre uma velinha para alumiar

o seu regresso disse a mulher.

Levou um dedo ossudo garganta e Cassie viu

uma contuso azulada e negra no branco da pele

enrugada da mulher, ali, por baixo da gola do ves

tido. Formava uma linha oblqua volta do pescoo

dela.

Foi o carrasco quem me fez isto, minha querida

explicou. No foi nada justo, quando tudo o que

fao livrar me das preocupaezinhas daquelas ra

parigas. Dos seus pequenos erros.

Olhando sorrateiramente para Cassie, a mulher

pegou na chvena e bebericou mais um pouco de

ch. Mas, subitamente, era de novo a mulher que

viera lanchar que estava a olhar para si.

Est tudo bem, bonequinha? Ests to plida

disse ela.

De repente, j no era ela outra vez, era o outro

rosto. Frio e cruel.

Como o pequeno erro da tua mam disse.

Cassie olhou de relance para Niall, sentado na

sua cadeirinha.

Tambm posso lev lo se quiseres. Ponho o na

minha saca de tijolos e acabou se. A Ama torna tudo

melhor. Vais ver.

43

Cassie tapou os ouvidos para abafar aquelas pa

lavras. No sabia dizer o que realmente acontecera

a seguir, mas a me dela estava ali, e a mesa vi

rada ao contrrio, e a velhota que viera tomar ch

encontrava se de p, plida, encostada parede,

agitando as mos em frente a Cassie, tentando

afast la.

Depois, Cassie ficou sozinha na pequena sala,

entre as chvenas partidas e o bolo cado no cho,

a ouvir o choro de Niall no corredor e a me a acom

panhar a senhora at porta, pedindo desculpas,

uma e outra vez, dizendo lhe o quanto lamentava

tudo aquilo. Quando a mulher se foi, a me voltou

para junto de Cassie, com o rosto lvido de raiva

Cassie nunca a vira to zangada. Niall berrava sem

parar nos braos dela, e Cassie no conseguia

explicar lhe o que se passara, porque a me no

a ouvia disse que ela fizera aquilo de propsito s

para a magoar. Nem a ouviu quando Cassie tentou

dizer lhe que a Ama da Vela vinha buscar Niall. Isso

s piorou as coisas.

Cassie estava com tanto medo.

A me no falou com ela, nem sequer olhou para

ela, durante o resto do dia nem um beijo de boa

noite lhe deu , e Cassie foi deitar se sem amor

e sozinha.

Ento, a eletricidade voltou a falhar.

44

Cassie ficou deitada, sozinha, no escuro, a ouvir

a me a andar de um lado para o outro luz da

lanterna, a cantar para Niall, para o sossegar. De

pois, quando a me se deitou, ficou tudo em silncio

e s escuras. Cassie tambm deve ter adormecido,

pois, quando abriu os olhos, a lua tinha mudado de

stio, e o luar entrava pela janela at chegar sua

almofada. Mas no era o quarto que iluminava. Bri

lhava numa cozinha com um fogo em ferro e cho

de pedra, onde uma vela tremeluzia na escurido de

uma prateleira. Cassie conseguia sentir o cheiro

da cera.

Havia uma saca e dois tijolos em cima da mesa

e, pelos auscultadores, soltos e emaranhados sobre

a almofada, Cassie conseguia ouvir o murmrio de

uma voz.

A Ama torna tudo melhor

Cassie viu o trinco da porta da cozinha a levantar

se lentamente.

Tinha de ir acordar a me. Mas sabia que a me

no iria acreditar nela.

medida que a porta se comeou a abrir, Cassie

saiu da cama e apressou se pelo corredor. Atrs

de si, no escuro, conseguia ouvir o som das botas

com botes da Ama da Vela no cho de pedra.

O som da Ama da Vela a pegar na sacola e nos tijolos.

Sem fazer barulho, Cassie entrou no quarto da me.

45

Se conseguisse esconder Niall, a Ama da Vela no

seria capaz de o encontrar. Assim, poderia mant lo

seguro.

O beb dormia no bero. No se mexeu nem

um pouco quando ela o tirou de l. Cheirava a calor

e a leite, a bolachas e a baunilha, e o cabelo era

muito macio. Conseguia senti lo encostado ao seu

rosto. Por que razo nunca havia feito aquilo antes?

Embrulhou o cobertor em volta do beb e levou o at

porta das traseiras. Havia ali um stio onde se po

diam esconder, debaixo dos degraus das traseiras.

A Ama da Vela nunca os iria encontrar l.

Cassie levou o l para fora, para o frio e para

o escuro, e acocorou se com ele debaixo dos de

graus. Segurou o bem contra si. Mas ele comeou

a contorcer se.

Chiu disse ela, de pronto. Assim ela vai

ouvir te

Porm, o beb comeou a fazer pequenos rudos

ao acordar.

No, no, no disse ela, rapidamente. O p

nico crescia lhe na voz. No, no, no chores. No

chores, ou ela encontra te.

Cassie ouviu a Ama da Vela a aproximar se.

Quando Niall comeou a chorar, Cassie dobrou a

ponta do cobertor sobre a boca dele e manteve a ali,

fazendo presso.

46

Chiu Chiu sussurrou Cassie, uma e outra

vez, embalando o nos seus braos at, finalmente,

ele no fazer rudo algum.