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PARECER PARA SOLICITAO DE TOMBAMENTO

DO EDIFCIO SEDE DO JQUEI CLUBE DE GOIS

Por solicitao do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, Regional Gois, segue

parecer tcnico sobre a relevncia arquitetnica do edifcio sede do Jquei Clube de

Gois. O documento apresentar o histrico do edifcio e de seu contexto urbano,

assim como argumentos em separado que apontam para o valor patrimonial do

referido edifcio.

Na planta de urbanizao de Goinia de 1938, o terreno onde se localiza o

Jquei Clube de Gois j consta relacionado ao primeiro Automvel Clube de Gois

(no confundir com a segunda instituio, implantada em terreno no bairro Jardim

Gois). Logo foi concebido um edifcio de feies neocoloniais para servir de sede

social, onde ocorreriam tanto as reunies do clube como as festividades e atividades

recreativas. A cidade de Goinia havia sido inaugurada pouco antes, em 1937, com a

efetiva transferncia da sede de governo, antes na Cidade de Gois. Logo, a

populao local justificava apenas um edifcio de dimenses modestas. O terreno era

extenso, mas possua um trecho alagadio, prximo Rua 11, pois o local fazia parte

do trajeto do Crrego Buritis. Por conta da presena da gua que aflorava em poca

de chuva, havia um pequeno bosque prximo referida rua, com rvores de grande

porte. A antiga sede foi implantada de modo a respeitar essas preexistncias

ambientais.

Fig. 01 Planta de Urbanizao de Goinia de 1938, com terreno do antigo Automvel Clube demarcado

em verde-claro.

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Fig. 02 Imagem area de 1957 (editada), apresentando o terreno do antigo Automvel Clube

demarcado. Notar trajeto do Crrego Buritis na linha pontilhada em laranja

A antiga Santa Casa de Misericrdia; B edifcio residencial 28 de Agosto; C antigo Hotel Presidente; D

Teatro Goinia; E antigo Automvel Clube; F antigo Grupo Escolar Modelo; G colgio Ateneu Dom

Bosco; H Bosque dos Buritis

Fig. 03 Extinta sede social do Automvel Clube de Gois

Pouco tempo depois a instituio mudou de nome, passando a se chamar

Jquei Clube de Gois. A cidade cresceu nas dcadas de 1940 e 1950 e os scios do

clube concluram que a sede no mais respondia adequadamente demanda

espacial. Alm disso, o edifcio fora construdo na poro central do terreno, o que

atrapalhava a construo de uma edificao complementar, anexa primeira.

Possivelmente, pode ter tambm pairado sobre a deciso a eterna busca pelo novo

que ronda as localidades jovens. Enquanto em cidades centenrias h a

preocupao com a manuteno da histria local atravs da arquitetura, nas

cidades mais jovens a pouca histria no consegue fazer frente seduo do novo. A

histria precisa passar por um perodo de resistncia de alguns sculos para ser

incorporada identidade local e ganhar o status familiar. A dcada de 1950 permitiu

a Goinia a presena de edifcios vinculados esteticamente ao Movimento Moderno

de arquitetura, com linguagem de geometria elementar e a tcnica do concreto

armado em suas estruturas. medida que o centro da capital se desenvolvia

A

D

E

F

G

B

C

H

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construtivamente, os scios do Jquei Clube se viam representados em uma instituio

que no refletia a antiguidade das cidades do litoral brasileiro, a exemplo do Rio de

Janeiro, Salvador ou Recife, mas tambm no traduzia a nova feio da

modernidade da dcada de 1950. A sensao de inferioridade resultante acabou

vencendo a pouca histria e decidiram pela demolio do edifcio, que deveria dar

lugar a uma referncia nacional em arquitetura de clubes recreativos.

Goinia dependia de arquitetos que ou eram forasteiros, ou eram goianos

formados em outras capitais, principalmente no Rio de Janeiro. O primeiro curso de

arquitetura do Estado foi aberto na ento Universidade Catlica de Gois apenas em

1968. Logo, para conceber uma estrutura de referncia, o melhor caminho era

implantar um concurso nacional de projetos de arquitetura, que atrasse profissionais

de outros Estados, vidos por alavancar ou incrementar a carreira. Em fins de 1962

instalou-se o concurso nacional de arquitetura para nova sede social do Jquei Clube

de Gois. O resultado do concurso foi divulgado j em 1963. Venceu um arquiteto

jovem, capixaba, residente em So Paulo, formado em arquitetura pela Universidade

Presbiteriana Mackenzie em 1954, Paulo Mendes da Rocha. Tambm assinou o projeto

o seu colega de turma na universidade, Joo Eduardo de Gennaro. Os dois arquitetos

haviam vencido outro concurso nacional apenas quatro anos antes, para um novo

ginsio esportivo para o Clube Atltico Paulistano, em So Paulo. Essas duas vitrias em

concursos nacionais tornaram a dupla prematuramente conhecida. Paulo Mendes da

Rocha, por sua ndole forte, discurso eloquente e, por isso, grande capacidade de

autoafirmao, terminou eclipsando a figura de seu companheiro de ofcio. A antiga

sede foi ento demolida para dar lugar ao novo projeto.

A proposta previa a implantao de uma rua transversal quadra, criando

uma escala intermediria entre os espaos mais pblicos da Av. Anhanguera e da Rua

3, e o espao privado do interior do clube. Alm disso, esse acesso, sem fechamentos

em relao s referias ruas, terminava por encurtar a dimenso da quadra, permitindo

que pedestres a utilizassem como atalho entre regies mais residenciais (prximas

Rua 3) e mais comerciais (prximas Av. Anhanguera). Os arquitetos perceberam que

a exagerada dimenso da quadra onde se localizaria o novo clube era negativa para

a cidade, pois se caracterizava como uma barreira. A soluo proposta antecipou a

preocupao dos arquitetos em relao s dinmicas urbanas modernas, que se

refletiria em outros projetos dos mesmos autores ao longo da segunda metade do

sculo 20.

A nova sede do Jquei Clube se organizaria em trs pavimentos, sendo o

trreo destinado cozinha do restaurante, salo de festas, sauna, quadra

poliesportiva, vestirios e acesso ao bosque preexistente; o segundo pavimento era

destinado s piscinas e a um restaurante com salo de jogos; e o mezanino (ltimo

pavimento), de dimenses reduzidas, seria destinado a um bar. Uma nica cobertura

de concreto abrigaria todos os ambientes que precisam de proteo contras as

intempries, deixando expostas as piscinas e o bosque. Como o pavimento das

piscinas seria elevado em relao ao nvel de acesso trreo e a piscina infantil teria

pouca profundidade, o acesso ao clube se daria por um largo corredor que passaria

por baixo da piscina infantil. Por causa desse artifcio, a altura (p-direito) desse

ambiente de acesso seria reduzida e pouco iluminada, assemelhando-se a um tnel.

Em contraste, aps cruzar esse percurso de entrada, o usurio se encontraria sob a

grande cobertura de concreto armado, a uma altura de trs andares, o que deveria

resultar em um efeito psicolgico de surpresa. A mesma estratgia fora utilizada pelo

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arquiteto Oscar Niemeyer ao conceber o percurso de entrada para a Catedral de

Braslia, em 1958.

Fig. 04 Corredor de entrada do Jquei Clube, sob a piscina infantil

O espao sob a cobertura recebe iluminao das laterais, com vista para as

piscinas, de um lado, e para o bosque, do outro, mas tambm iluminao

complementar por claraboias (aberturas para iluminao na laje de cobertura). Para

alm de sua funo pragmtica, as claraboias tm a funo de introduzir

verticalidade no ambiente, aumentando a sensao de distncia entre o piso e o

teto. O principal conjunto de claraboias encontra-se na justa posio do usurio ao

sair do corredor de acesso, criando um efeito simblico importante para o conjunto.

Prximo ao meio-dia possvel observar a luz atingir o cho. No restante do dia a luz

torna-se difusa.

Outro importante elemento presente no espao interno o conjunto de pilares

compostos por prismas de seco triangular entrecruzados. J em seu primeiro projeto

vencedor de concurso, o anteriormente citado Ginsio para o Clube Atltico

Paulistano, de 1958, os arquitetos recorreram expressividade plstica dos pilares

como recurso esttico. No caso do Jquei Clube de Gois, contudo, esse recurso

precisaria incorporar tambm a soluo de um problema estrutural diferente: como a

cobertura de concreto armado seria muito extensa, a dilatao decorrente do calor

do Sol poderia resultar em colapso do edifcio. O engenheiro Siguer Mitsutani elaborou

uma resposta engenhosa, embora simples: seccionar os pilares horizontalmente,

atravs de uma junta de dilatao, de maneira que todo o conjunto edificado acima

da junta pudesse se dilatar e deslocar livremente.

Completando o espao de entrada, uma rampa interliga os pavimentos

principais. O arquiteto Paulo Mendes da Rocha reutilizaria essa soluo em outros

projetos: ao invs de separar as distintas funes do edifcio com paredes e portas,

cria nveis de pisos diferentes para cada funo. Desse modo, o espao torna-se

visualmente fluido/interconectado e a vitalidade de uma funo, derivada dos rudos

das conversas, da msica e dos jogos, soma-se s demais, criando um conjunto de

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ambientes de carter mais f