POESIA: LUGAR DE DOAÇÃO Sobre a obra poética de ler. · PDF...

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    Revista da Faculdade de Letras Lnguas e Literaturas,II Srie, vol. XXII, Porto, 2005, pp. 431-481

    POESIA: LUGAR DE DOAO

    Sobre a obra potica de Fernando Guimares*

    MARIA JOO [email protected]

    Prembulo

    1. A dificuldade do ensino da poesia no coisa nova: bastapensarmos no famoso ABC of Reading (1934), de Ezra Pound (que surgena sequncia de How to Read, publicado em 1931), e na eficcia dassuas propostas metodolgicas como, por exemplo, a distino entretrs modalidades de poesia (Melopia, Fanopia, Logopia) , paraadmitirmos que a mais condensada forma de expresso verbal1 talvezaquela que, actualmente, suscita maior resistncia no leitor.

    No momento que atravessamos, caracterizado por uma crise genera-lizada de valores culturais, sociais, ticos, polticos , natural que aquesto do ensino da poesia (e, correlativamente, a da sua utilidadenos diversos nveis de aprendizagem) se levante, exigindo constncia dereflexo e ajustamentos correctores na sua prtica. Da a inteira oportuni-dade do inqurito lanado pela Revista Relmpago, em 2002, sobre otema A Poesia no Ensino. Das muitas respostas interessantes, gostariade destacar a de Vtor de Aguiar e Silva, pelo modo como sublinha, coma clarividncia que prpria do seu pensamento, a necessidade de

    * Lio apresentada no mbito das Provas de Agregao, realizadas em 21 e 22 deOutubro de 2004, e que aqui se reproduz na verso integral, com o corpo de citaescompleto.

    1 Ezra Pound, ABC da Literatura, Traduo de Augusto de Campos e Jos PauloPaes, So Paulo, Editora Cultrix, 1977. Vd. As Antenas de Ezra Pound, por Augusto deCampos, pp. 11-14. Cf. tambm Captulo VIII, p. 63.

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    flexibilizar os mtodos de abordagem poetolgica: Terica e metodolo-gicamente, as vias de acesso poesia moderna e contempornea soplurais. No deixa porm de dar nfase s dimenses antropolgicas,hermenuticas e cognitivas da leitura2.

    2. A escolha da obra potica de Fernando Guimares como temadesta lio deve-se, fundamentalmente, a trs razes: a primeira e a maisbvia a sua elevada qualidade; a segunda decorre do facto de oconhecimento da sua obra ensastica se ter sobreposto ao da obra potica,discretamente produzida ao longo de cerca de cinquenta anos, noobstante ter sido distinguida com os mais prestigiados prmios de poesia;a terceira e ltima razo a de os livros mais recentes convocarem, demodo insistente, a figura do leitor, o que faz com que esta poesia seapresente na minha perspectiva como um lugar de doao.

    3. A abordagem desta obra ser mais profcua se a colocarmos emdilogo com o seu pensamento crtico, cuja coerncia se torna patente apartir da publicao de O Problema da Expresso Potica (1959), emborao Autor nunca se tenha referido directamente s condies de elaboraoda sua prpria poesia. No incipit deste ensaio pode ler-se: Fala-se muitasvezes na dificuldade da poesia. Mas cada poema um limiar que seabre para a soluo de todos os seus problemas, um caminho que nosconduz a essa cidade que muitos julgam ser inexpugnvel3. O nossoobjectivo seguir o caminho proposto, mesmo que saibamos de antemoque este se ir desdobrar em mltiplos desvios e sendas ou seja: nolabirinto da escrita onde o(s) sentido(s) se dispersa(m) indefinidamente,tornando essa cidade inexpugnvel na caleidoscpica miragem daprpria poesia.

    A deciso de privilegiarmos nesta leitura o ltimo decnio deproduo potica de Fernando Guimares (1992-2002), concentrando anossa ateno nos livros que lhe correspondem O Anel Dbil (1992),Limites para uma rvore (2000) e Lies de Trevas (2002) no nos dispensade dar uma imagem global da obra. A tarefa est de certo modo facilitadapelo facto de o poeta ter reunido os seus livros anteriores num volumede Poesias Completas (1952-1988)4, publicado em 1994, o qual porm

    2 Vd. Relmpago, Revista de Poesia, n. 10, 4/2000, Fundao Lus Miguel Nava,pp. 91-93. Cf. p. 92.

    3 Cf. Fernando Guimares, O Problema da Expresso Potica, Edies Eros, 1959,p. 7.

    4 A Face Junto ao Vento (1952-1956); Os Habitantes do Amor (1957-1959); As MosInteiras (1971); Como Lavrar a Terra (1960-1975); Nome (1976-1981); Casa: o seu desenho(1982-1985); Tratado de Harmonia (1986-1988).

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    no inclui A Analogia das Folhas (1990), breve conjunto de poemas queinaugura a ltima dcada do sculo XX. Deixaremos igualmente de lado AsQuatro Idades, um texto que se anuncia como narrativo, apesar de ofragmentarismo discursivo fazer ressaltar a incerteza do gnero5. Aqui, ocdigo potico que opera no espao textual derroga por completo a normaimplcita, o que justifica a integrao, neste volume, de alguns poemas emprosa vindos de livros anteriores, que a passam a figurar como fragmentos. o caso de Aporia, Encontro final, ou Livro, de Casa: O seu Desenho(1985) e dos seis Recitaitvos de Tratado de Harmonia (1988). Por ltimo,deixaremos igualmente de lado Diotima e as Outras Vozes6, um conjunto detextos assumidamente dramticos e publicados, em 1999, como teatro.

    Nos trs livros mais recentes reverberam os temas maiores da suapoesia, tornando-se patentes as linhas de fora que a percorrem e nosconduzem at quele limiar cuja anterioridade a fundura insondveldo poema (segundo Antnio Ramos Rosa, o fundo ilimitado que antecedea viso e a projecta7), ou seja: ao ponto de luz que torna o movimentoda linguagem perceptvel, fazendo dela o dizer projectante a que aludeHeidegger: E O dizer projectante nas suas palavras aquele que, napreparao do dizvel, faz ao mesmo tempo advir, enquanto tal, o indizveldo mundo8.

    A nossa exposio divide-se em trs partes que correspondem atrs momentos de reflexo complementares, precedidos de uma breveIntroduo:

    1. Narciso ou outro nome da poesia (A poesia como horizonte dereflexo metapotica);2. Figurao potica e dialogismo (O Outro originrio da Poesia);3. A poesia como lugar de doao (A inscrio da figura do Leitor).

    Introduo

    A obra potica de Fernando Guimares, uma das mais slidas eincontornveis da poesia portuguesa contempornea, obriga-nos a retrocederat s encruzilhadas da poesia dos anos cinquenta, a qual, segundo o

    5 Fernando Guimares, As Quatro Idades, Lisboa, Editorial Presena, 1996.6 Fernando Guimares, Diotima e as Outras Vozes, Porto, Campo das Letras, 1999.7 Cf. Antnio Ramos Rosa, A Impossibilidade da Construo [Sobre A Analogia

    das Folhas] in JL, 07.05.91.8 Cf. Heidegger, A Origem da Obra de Arte, Lisboa, Edies 70, 1991, p. 59.

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    prprio, se preocupou com um certo envolvimento reflexivo, sobretudoreferido ao existencialismo e aos problemas relativos a uma dimensoque se diria filosfica do homem9. Contudo, a sua escrita depressa adquireum timbre prprio, acrescentando s caractersticas que partilha com apoesia da gerao emergente (a valorizao da imaginao e do espaode realizao verbal que o poema10) um modo peculiar de trazer aoprimeiro plano a questo da especificidade da comunicao potica ede transfundir a reflexo metapotica na substncia do prprio poema.

    Quando se fala desta poesia, quase sempre acentuada a suadimenso reflexiva e destacada uma referncia filosfica de cariz heideg-geriano. No entanto, nas prprias palavras do poeta, a poesia tem umespao de realizao verbal que de maneira nenhuma pode coincidircom o da especulao metafsica. O que parece significar que s nointerior do dizer potico se torna possvel perseguir o segredo da relaoentre a palavra e o ser. Perspectiva que no diverge da lio fundamentalde Heidegger, para quem a poesia instaurao do ser11. Poder-se-ento falar de uma meditao potica que, vinda dos primeiros textoseditados, atravessa toda a obra, atingindo uma culminncia quase dolorosano volume de poemas mais recente, Lies de Trevas, publicado em 2002.

    O livro de estreia de Fernando Guimares, A Face Junto ao Vento(Edies Eros, Lisboa), editado em 1956, surge cinco anos depois dapublicao dos seus primeiros textos, poticos e metapoticos, na revistaliterria Eros (1951-1958)12, que tinha como divisa Do sensvel ao inteligvel

    9 Cf. A Phala Um Sculo de Poesia (1888-1988), Lisboa, Assrio & Alvim, 1988,p. 178.

    10 Id., ibid.11 Martin Heidegger, Hlderlin y la esencia de la Poesia in Arte y Poesa, Mexico-

    -Buenos Aires, Fondo de Cultura Economico, 1958, p. 109.12 Cf. Poesias in Eros 2, Outubro MCMLI [1 Dia; 2 Noite; Dentre dedos

    penderam flores breves; Rei de Thule; Cansados como deuses recolhamos; Por entrebruma de recordar ainda; Ode].

    Na edio princeps de A Face junto ao Vento, so recolhidos alguns poemaspublicados na revista: 1 Dia; 2 Noite; Cansados como deuses, recolhamos (n. 2,Out. 1951); Bzio (n. 3-4, Dez. 1952); Somos como deuses esquecidos (n. 8, Fev.1955); Vem pelo caminho dos dias (n. 8, Fev. 1955); Nascente (n. 9, Fev. 1956). A 2.edio, refundida, aparece includa em Trs Poemas, juntamente com Os Habitantes doAmor e o indito Como Lavrar a Terra, e de 1975 (Porto, Iniciativas Editoriais).

    Em Poesia [1952-1980], Porto, Oiro do Dia, 1981, onde so reunidos os livrosanteriores, recuperado um texto publicado na revista Eros, em Dezembro de 1952, non. 3-4: Narciso e o Encontro da morte. Alguns dos poemas publicados posteriormenteem Eros foram recuperados em Os Habitantes do Amor (1959), livro reeditado, comoatrs se disse, em Trs Poemas (1975): Procuramos o amor e a morte em cada rio

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    e de que o poeta foi um dos mais constantes dinamizadores, colaborandotambm com desenhos que lembram Matisse nos nmeros duplos 3-4 e 10--11. A maior parte desses poemas j deixa transparecer a qualidadeexcepcional de um percurso que tem sido marcado por uma invulgarcoerncia e cujo significado esttico s poder ser devidamente avaliado noquadro mais amplo das tendncias poticas da segunda metade do nossosculo XX. O poema de abertura, intitulado Inscrio, poderia servir deepgrafe a tod