POR TRÁS DO TRANSE

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    01-Dec-2015
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Esse artigo tem como finalidade referenciar uma coleção composta por seis looks, unissex e com propósitos sustentáveis. As peças atendem a um público-alvo próprio, colhido a partir de pesquisas de campo previamente metodizadas e executadas. A versatilidade é característica marcante desse público e está atrelada à adaptabilidade das peças, ajustáveis às silhuetas masculina e feminina. O presente projeto aprofunda-se no elo sincrético entre jesuítas e indígenas, emergente da colonização brasileira, que culmina na formação do povo caboclo e suas crenças religiosas únicas. O culto ao Santo Daime, aqui aprofundado é, também, fruto dessa miscigenação. Todas essas religiões têm como característica comum a busca por um estado psíquico alterado, que serve de impulso para o desenvolvimento do conceito de criação Por Trás Do Transe.Obs.: O vídeo a que se refere a separata citada no Estudo de Formas pode ser contemplado ao clicar no link http://youtu.be/-RL8IHVs_zI.Obs2.: Me perdoem pela fonte exorbitante, no arquivo original é Arial (tentei repostar algumas vezes e não resolveu). Aconselho que faça o download para ler com maior exatidão.

Transcript of POR TRÁS DO TRANSE

  • POR TRS DO TRANSE

    BEHIND THE TRANCE

    Beatriz Mariza, Jennyfer Fiorilo, Luana Wouters, Nadine Campos e Vincius Prado Orientadora Professora Mestre Regina Golden Barbosa

    RESUMO

    Esse artigo tem como finalidade referenciar uma coleo composta por seis looks, unissex e com propsitos sustentveis. As peas atendem a um pblico-alvo prprio, colhido a partir de pesquisas de campo previamente metodizadas e executadas. A versatilidade caracterstica marcante desse pblico e est atrelada adaptabilidade das peas, ajustveis s silhuetas masculina e feminina. O presente projeto aprofunda-se no elo sincrtico entre jesutas e indgenas, emergente da colonizao brasileira, que culmina na formao do povo caboclo e suas crenas religiosas nicas. O culto ao Santo Daime, aqui aprofundado , tambm, fruto dessa miscigenao. Todas essas religies tm como caracterstica comum a busca por um estado psquico alterado, que serve de impulso para o desenvolvimento do conceito de criao Por Trs Do Transe.

    Palavras-Chave: Design de Moda, Cultura Brasileira, Caboclo, Santo Daime, Transe, Sustentabilidade, Unissex.

    ABSTRACT

    This article has the goal to reference a collection composed of six unisex looks with sustainable purposes. The pieces attend to their own target audience, gathered from previously arranged and attained researches. Versatility is a major feature of this audience and its coupled up with the adaptability of the pieces, adjustable to the male and female silhouettes. The present project deepens in the syncretic link between the Jesuits and the natives, emergent from the brazilian colonization, which culminates the formation of the Caboclo people and their unique religious beliefs. The cult to Saint Daime, here deepened is too a product of such miscegenation. All of those religions have as a common characteristic the search of an altered psychic state, that suits as an impulse toward the development of the concept of the creation Behind The Trance.

    Keywords: Fashion Design, Brazilian Culture, Caboclo, Santo Daime, Trance, Sustentability, Unisex.

    Alunos do quarto semestre do curso de graduao Design de Moda, da Universidade Anhembi Morumbi. Endereos eletrnicos: [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected]

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    Introduo O ponto inicial para a elaborao deste projeto foi a abordagem do Design de

    Moda e a Cultura Brasileira atrelados ao tema do artigo. Tomou-se como referncia

    principal, para adentrar cultura brasileira, a obra O Povo Brasileiro, de Darcy

    Ribeiro e, assim, situar o leitor aos propsitos do trabalho. A formao do povo

    Caboclo, tal como a de suas religies, tem a colonizao brasileira como marco

    zero. A incorporao do catolicismo s religies indgenas culminou em uma ampla

    riqueza ritualstica em torno da natureza deificada, como o culto ao Santo Daime. O

    artigo aborda a relao entre essas religies, que apresentam uma busca por um

    estado elevado que se conjuga alm do corpreo. Assim, o conceito de criao Por

    Trs do Transe apresenta um paralelo atemporal que transcende o ponto de vista

    religioso. A pesquisa tem a inteno de implicar inquietaes, tornando o que seria

    talhada como concluso, apenas o estalo introdutrio a uma perspectiva prpria.

    Com base no conceito de criao, desenvolvemos uma coleo unissex composta

    por seis looks (com as respectivas fichas tcnicas), um ensaio fotogrfico e uma

    edio grfica em forma de livreto, que comporta os processos em torno no

    desenvolvimento das peas.

    1. Design de Moda e Cultura Brasileira

    Uma das mais conhecidas definies de cultura foi articulada pelo antroplogo

    britnico Edward Burnett Tylor, no sculo XIX. Segundo ele (apud Silva e Silva,

    2006), a cultura tudo que o homem emprega socialmente como habilidade, sendo

    um modo de adaptao ao meio. Logo, cultura um conjunto em que o homem

    intersecciona-se entre realizaes materiais e aspectos imateriais. Isso observado

    em tradies repetidas geracionalmente, que renem o homem em idealismos e

    feitos. A figura 1 sintetiza essa descrio:

    Figura 1: O Conjunto Cultura. (Fonte: os autores)

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    Moreira [s.d.], ainda seguindo o pensamento de Tylor, afirma que para toda e

    qualquer pesquisa de mbito antropolgico devemos analisar agentes primordiais

    que compe a cultura, como arte, moral, costumes, mitos, comidas, roupas, entre

    outros. A moda um espelho do cotidiano de onde est inscrita, assegura Moura

    (2008). Por meio dessas afirmaes, podemos convir que, a partir de uma

    linguagem prpria, a moda reflete e dissemina essas referncias sociais. Portanto, a

    moda comunica a carga cultural de um indivduo, funcionando como forma de

    compor e expressar o estilo de vida dentro de sua cultura.

    Figura 2: Painel que retrata a Moda como representante de estilo de vida.

    (Fontes: http://www.iplay.com.br/, http://upload.wikimedia.org,http://3.bp.blogspot.com/, http://cdn4.lbstatic.nu)

    Ribeiro (1995) aponta que o povo brasileiro se diferencia do portugus a partir

    de caractersticas provindas da imigrao, que introduziu no Brasil, principalmente,

    italianos, rabes e japoneses, de matrizes indgenas e africanas, da reunio de

    paisagens humanas em condies ambientais diferentes e de diferentes formas de

    produo. A fuso de matrizes raciais mpares, com diferentes tradies culturais

    agora entrelaadas, deu origem a uma nao com um povo novo, em um novo

    modelo estrutural societrio.

    A confluncia de tantas e to variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multitnica, dilacerada pela oposio de componentes diferenciados e imiscveis. Ocorreu justamente o contrrio, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somtica e no esprito dos brasileiros os signos de sua mltipla ancestralidade, no se diferenciaram em antagnicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades tnicas prprias e disputantes de autonomia frente nao. (RIBEIRO, 1995, p. 19)

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    Figura 3: Obra Operrios, de Tarsila do Amaral, que ilustra a diversidade do povo brasileiro. (Fonte: http://galeriadefotos.universia.com.br)

    Dentro dessa nova identidade brasileira, considera Ribeiro (1995), emergem

    novos grupos, como: os sertanejos, cultivadores de gados no nordeste; os caboclos,

    da Amaznia e seus seringais; os crioulos, dos engenhos de acar no nordeste; os

    caipiras, das mineraes e plantaes de caf; os sulinos, do pastoreio, e

    compostos por alemes, italianos, e seus descendentes; entre outras

    miscigenaes.

    2. Caboclo

    Dentre as classificaes relatadas, a pesquisa ser aprofundada no povo

    caboclo. Foi no sculo XVII, segundo Rezende (2006) aps terem notcias de

    incurses inglesas e holandesas na regio do rio Amazonas, que a Coroa

    Portuguesa enviou um regimento para expuls-los e posteriormente colonizar e

    firmar-se em Belm. Desde o incio da colonizao houve intensos conflitos entre

    colonos e indgenas, tendo como resultado a tomada das tribos e a escravizao da

    maioria. Ribeiro (1995) conta que aldeias inteiras eram escravizadas e quase todos

    os que fugiam eram mortos no processo de busca.

    Rezende (2006) articula que desde a fundao de Belm, as misses jesutas,

    carmelitas e franciscanas foram presentes, catequizando e aculturando a populao

    indgena. V-se a preferncia dos nativos pelo caminho oferecido pelos

    missionrios, j que, mesmo tendo que seguir um modo de vida contrrio ao que

    viviam, sua segunda opo seria a de serem escravizados.

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    Para os ndios condenados a uma escravido ainda mais dura em mos dos colonizadores, o regime das misses, se no representava uma amenidade, era todavia, mais suportvel. Permitia-lhes sobreviver, por vezes conservar certa vida familiar, quando suas mulheres no eram cobiadas por algum portugus ou mestio [...]. (RIBEIRO, 1995, p. 310)

    Figura 4: A presena do ndio, desentendido, na primeira missa de So Paulo de Piratininga.

    (Fonte: http:// cdcc.usp.br)

    Os caboclos herdaram dos ndios a tradio tribal e a capacidade de

    subsistncia atravs do roado de culturas tropicais, dentre outras adaptaes

    extremamente necessrias para a permanncia na mata. Nenhum colonizador

    sobreviveria na mata amaznica sem esses ndios que eram seus olhos, suas mos

    e seus ps. (RIBEIRO, 1995, p. 313) O caboclo, esclarecem Brondizio e Siqueira

    (1992), tambm descende dos nordestinos de origem africana, porm, essa

    miscigenao ocorreu de maneira intensiva por volta do sculo XIX, quando foram

    levados para trabalhar nas lavouras de algodo, arroz e cacau.

    Deste modo, ao lado da vida tribal que fenecia em todo o vale, alava-se uma sociedade nova de mestios que constituiria uma variante cultural diferenciada da sociedade brasileira: a dos caboclos da Amaznia. (RIBEIRO, 1995, p. 314)

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    Figuras 5, 6 e 7: O contato entre o caboclo e a floresta. (Fonte: http://montorilaraujo.blogspot.com.br e http://terranauas.blogspot.com.br)

    Desta miscigenao tnica e cultural, apesar de impactante e impositiva quanto

    s crenas catlicas, surgem novos ramos religiosos, aponta Silva (2007), repletos

    de concepes vindas do antepassado amerndio. Esta fuso foi de extremo valor

    para a formao do caboclo em sua cultura e sociedade.

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    3. Religiosidade cabocla: O Culto do Santo Daime

    3.1 Contextualizao da Religiosidade Cabocla

    As misses jesuticas visavam converter os ndios f catlica dos

    colonizadores, explica Gonalves (1994). Mesmo com