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    06-Jun-2015
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Série de textos para serem discutidos nas aulas de filosofia, sociologia, história, geografia e artes.

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  • 1. Donizete Soares pra discutir e gerar boas conversas em sala de aula abordagens

2. Este texto integra a srie abordagens, que tem como objetivo contribuir para a compreenso e o debate de e sobre os temas educao, comunicao, educomunicao e filosofia linhas de pesquisa e ao do INSTITUTO GENS, desde 1988. Reviso: Isis Lima Soares. So Paulo, abril de 2014 [edio digital] pela constituio de sujeitos autnomos! portalgens.com.br [11] 37148158 | 995 691 000 igens@portalgens.com.br Donizete Soares professor de filosofia e co-responsvel pelo INSTITUTO GENS 3. donizete soares pra discutir Ol, cara leitora e caro leitor! Os textos a seguir pretendem ser exerccios de leitura, com- preenso e interpretao do que temos feito de ns mesmos. So observaes, exclamaes, interrogaes, reticncias so- bre temas relevantes, que tm a ver com a nossa vida indivi- dual e coletiva e, por isso mesmo, pouco [ou nunca] lembra- dos, pensados e comentados na famlia, na escola e nas mdi- as... Interessa, ento, abordar alguns deles e contribuir para que sejam conhecidos e debatidos. Tomara que sirvam para dar incio a boas conversas, especial- mente entre os que ainda no tiveram oportunidade de ouvir e discutir ideias e prticas que influenciam diretamente seus modos de pensar, de sentir e de se posicionar no mundo. Espero, sinceramente, co-laborar com voc! 1 4. donizete soares pra discutir No somos nada disso ilusria, deturpada e falsa a ideia largamente difundida de que somos americanos, europeus, asiticos, africanos ou ocenicos. enganosa mais que isso, danosa a srie de divises e subdivises geogrficas e polticas imposta a todos ns. No somos brasileiros, mexicanos, bolivianos, canaden- ses, guatemaltecos... No somos paulistas, cariocas, baianos, riograndenses, goianos, mineiros, catarinenses... No somos nada disso. Amrica, sia, Europa, frica e Oceania assim como brasi- leiros, mexicanos, bolivianos... e paulistas, cariocas, baianos, catarinenses... so termos convencionalmente criados para denominar milhares de gentes diferentes e nicas. So mais uma tentativa vitoriosa de acabar com a diversidade que nos caracteriza e de nos fazer aceitar ideias e prticas que no dizem respeito a ns. Mais que isso: so uma forma de investimento seguro no sen- tido de apagar nossas origens mais antigas. Mesmo assim mesmo no dizendo nada que tenha a ver com essas milhares de gentes diferentes e nicas essas denominaes esto a h sculos fazendo o maior estrago. No somos nem o que aprendemos na escola e nem o que os chamados 'meios de comunicao social' fazem tanta questo de enfatizar. 2 5. donizete soares pra discutir Em geral, a educao escolar e os meios de comunicao ofi- cial divulgam [ensinam] apenas o tipo de cincia ou saber fi- nanciados e bancados por interesses especficos, no raro di- ferentes, distantes e at mesmo contrrios nossa histria mais profunda. Escola e Mdia, quase sempre, espalham saberes que tm a ver, isto sim, com o suposto direito de alguns de definir e deli- mitar espaos, de escolher quem pode ou no pode habitar esse ou aquele territrio, de impor uma lngua e um jeito de fa- lar, de definir qual deve ser sua principal caracterstica cultu- ral... Ora, os milhares de grupos humanos espalhados pela terra so essencialmente marcados por particularidades e especifi- cidades que nada tm em comum com divises e subdivises arbitrrias. Cada um desses grupos, por conta da lngua e de alguns costumes comuns, tem histrias, trajetrias, objetivos e interesses igualmente diferentes e nicos. So diferentes e ponto final! No se parecem por que teriam que se parecer? Muitos no querem contatos com outros povos por que teri- am que querer? Nem todos se interessam pelas mesmas coi- sas que os outros por que teriam que se interessar? Por ou- tro lado, por que h tanto interesse em junt-los, nome-los, defini-los e classific-los? Por qu? A ideia de que somos isso ou aquilo mais uma das tantas mentiras que, desde crianas, ouvimos e somos levados a acreditar. Infelizmente e sem pensar a maioria de ns ape- nas repete o que aprendeu. 3 6. donizete soares pra discutir E assim, de tanto ouvir e falar, o que foi e insistentemente dito e repetido fica parecendo verdade. Os mapas polticos, por exemplo, descrevem pouco ou nada do que realmente tem a ver com as origens dos povos. So apenas e to somente a expresso de vontades e, sobretudo, de interesses que no so nem as vontades e nem os interes- ses dos que efetivamente ali nasceram e vivem. Procure investigar como cada um dos continentes, inclusive a Antrtida, recebeu o nome que tem. 4 7. donizete soares pra discutir Quando falta apoio mtuo H sempre algum que realmente precisa do outro. E, pelos mais diferentes motivos, aceitveis ou no, h quem dele ne- cessite at morrer. Veja mes cujos filhos so portadores de grave deficincia fsica e/ou mental e/ou emocional: quantas delas, vrias com idade avanada, no carregam no colo ou nas costas seus filhos adultos em busca de atendimento mdi- co! Como so fortes essas mulheres! De onde tiram tanta energia? Como lutam pela vida dos filhos! Seriam mes e fi- lhos, conforme pretendem certos 'darwinistas', perdedores na competio pela vida? Seriam os indivduos mais fracos da espcie? H pessoas que no precisam dos outros por tanto tempo. Mas necessitam por algum tempo. No so dependentes de assistncia, mas carecem de cuidado e ateno, ao menos durante um perodo. Caso no sejam atendidas, caso falte so- lidariedade, apoio mtuo, tudo fica muito difcil... Restam-lhes, ento, no raro, pouqussimas sadas, dentre elas, a agresso, o sofrimento e a morte. Utilizar-se de toda e qualquer forma de agresso ao outro muito comum a quem se v e realmente se encontra sozinho no mundo. Poderia ele dizer: 'por que no intimidar, roubar, machucar e at acabar com a vida do outro [qualquer outro], j que nin- gum liga pra mim?' Ou ento: 'por que respeitar quem quer que seja se absolutamente ningum me respeita?' 5 8. donizete soares pra discutir Pode haver maior tristeza e solido do que viver sem ser aguardado e querido por algum? De que tanto faz existir ou no? De ser tratado como coisa qualquer? Qual o tamanho do sofrimento para quem o sentir-se humano coisa rara ou at mesmo inexistente? Quanto suporta o corpo e a mente de algum que se v como um ser que no percebido? Sofrimento misria, penria, padecimento. dor que parali- sa e impede qualquer reao. H pior dor dor fsica e/ou emocional que a provocada pelo to- tal esquecimento? Morrer, ento, a ltima e nica sada. despedir-se de um lugar para o qual nunca foi bem recebido. dizer adeus a quem jamais percebeu sua existncia. descansar num tempo em que viver no o tempo da convi- vncia humana. Quando falta o apoio mtuo, morrer , sobre- tudo, um ato de denncia! 6 9. donizete soares pra discutir No fosse a solidariedade... Quem de ns j no passou por momentos difceis na vida? Quantas vezes vivenciamos situaes que pareciam no dei- xar nenhuma sada? Felizmente, a maioria de ns consegue, de alguma forma, se livrar dessas encruzilhadas, se equilibrar e seguir adiante. Nem todos, contudo, podem dizer o mesmo. H os que chegam ao fundo do poo [ou da fossa j que o primeiro, geralmente, limpo], e por muito pouco no sucum- bem... - Muito embora os 'meios de comunicao social' prefiram fazer shows com a misria humana, explorando o que h de mais baixo, tacanho e enfadonho que pode chegar um ser humano, felizmente h pessoas que no medem esforos para ameni- zar o sofrimento de muita gente. Conseguindo olhar alm de si mesmas, dos seus prprios umbigos, essas pessoas verda- deiramente salvam [nada a ver com o discurso igrejeiro] a vida de seus iguais. No falo, evidentemente, dos que exploram o trabalho de seus funcionrios e no pagam impostos sobre suas riquezas, por exemplo, e depois, para aliviar a conscincia, praticam a tal 'caridade' crist. Tambm no me refiro aos que, para se mos- trarem bonzinhos, fazem doaes [vultuosas ou no] para ins- tituies de caridade ou ONG's que 'acalmam' as possveis re- aes dos que vivem em situaes miserveis, quase sempre provocadas justamente por eles. 7 10. donizete soares pra discutir Seguramente, a misria social e econmica a que milhares de seres humanos esto submetidos no menor que o nvel de misria humana almejado e sustentado por quem consegue pegar para si prprio a riqueza que produzida pela grande maioria... Mas, voltando aos solidrios, o que os mobiliza? Que senti- mento esse que faz com que algum deixe de lado os pr- prios interesses para se interessar pelos outros, no importan- do, sobretudo, quem so esses outros? O que o leva a deixar de ganhar dinheiro com suas habilidades e seu profissiona- lismo, e dedicar parte do seu tempo ao outro sem pensar e querer nada em troca? A resposta uma s e tem a ver com o sentimento mais anti- go que o homem desenvolveu: o apoio mtuo. O apoio mtuo o que h de verdadeiramente nobre na histria da humani- dade, a razo pela qual o ser humano conseguiu sobreviver durante tanto tempo na terra. Se desde o princpio tivssemos que enfrentar o tipo de sociedade que hoje mantemos, muito provavelmente a espcie humana no existiria h muito tem- po. Enganam-se, pois, os que afirmam que a competio a mola mestra da sociedade. So, no mnimo, falaciosas as afirmaes de que a vida em sociedade uma contnua competio, que somente os me- lhores vencem, que o mercado o campo ideal pra vencer na vida... Enganados, destratados, destroados e j to dilacera- dos por dentro, no so poucos os que repetem, sem pensar, afirmaes como estas. 8 11. donizete soares pra discutir Faz sentido, isto sim, o que disse o gegrafo russo Kropotkin: nenhuma espcie sobreviveria a humana, inclusive se, a princpio, os iguais no se juntassem e, assim, se fortaleces- sem. No fosse o sentimento de estar junto, de uns apoiarem os outros, a necessidade de ser gregrio, isto , de viver em grupo e coletivamente enfrentar as adversidades naturais e os animais muito mais fortes e maiores que os humanos, certa-