Produção de sementes em pequena escala

of 109 /109
Série Agrodok No. 37 Agrodok 37 - Produção de sementes em pequena escala Produção de sementes em pequena escala com melhoramento das variedades de cereais e de leguminosas

Embed Size (px)

description

Produção de sementes em pequena escala

Transcript of Produção de sementes em pequena escala

  • Agrodok compreende uma srie de manuais de baixo custo sobre agricultura de pequena escala e de subsistncia nas regies tropicais. As publicaes da AGRODOK encontram-se disponveis em ingls (I), francs (F), portugus (P) e espanhol (E). Os livros da AGRODOK podem ser encomendados na Agromisa ou CTA.

    1. Criao de porcos nas regies tropicais P, I, F 2. Maneio da fertilidade do solo E, P, I, F 3. Conservao de frutos e legumes P, I, F 4. A criao de galinhas em pequena escala E, P, I, F 5. A fruticultura nas regies tropicais P, I, F 6. Levantamentostopogrficossimplesaplicadossreasrurais P,I,F 7. Criao de cabras nas regies tropicais P, I, F 8. Preparao e utilizao de composto E, P, I, F 9. A horta de quintal nas regies tropicais E, P, I, F 10. A cultura da soja e de outras leguminosas P, I, F 11. Luta anti-erosiva nas regies tropicais E, P, I, F 12. Conservao de peixe e carne P, I, F 13. Recolha de gua e reteno da humidade do solo P, I, F 14. Criao de gado leiteiro P, I, F 15. Piscicultura de gua doce em pequena escala P, I, F 16. Agrossilvicultura P, I, F 17. A cultura do tomate P, I, F 18. Proteco dos gros () armazenados P, I, F 19. Propagao e plantio de rvores P, I, F 20. Criao de coelhos em quintais, nas regies tropicais P, I, F 21. A piscicultura dentro de um sistema de produo integrado P, I, F 22. Produo de alimentos de desmame em pequena escala P, I, F 23. Culturas protegidas P, I, F 24. Agricultura urbana P, I, F 25. Celeiros P, I, F 26. Comercializao destinada a pequenos produtores P, I, F 27. Criao e maneio de pontos de gua para o gado da aldeia P, I, F 28. Identificaodedanosnasculturas P,I,F 29. Pesticidas: compostos, usos e perigos P, I, F 30. Proteco no qumica das culturas P, I, F 31. O armazenamento de produtos agrcolas tropicais E, P, I, F 32. A apicultura nas regies tropicais P, I, F 33. Criao de patos nas regies tropicais P, I, F 34. A incubao de ovos por galinhas e na incubadora E, P, I, F 35. A utilizao de burros para transporte e lavoura P, I, F 36. A preparao de lacticnios P, I, F 37. Produo de sementes em pequena escala P, I, F 38. Iniciar uma cooperativa E, P, I, F 39. Produtosflorestaisno-madeireiros P,I,F 40. O cultivo de cogumelos em pequena escala P, I, F

    Srie Agrodok No. 37

    Agrodok 37 - Produo de sem

    entes em pequena escala

    Produo de sementesem pequena escala

    com melhoramento das variedades de cereaise de leguminosas

    2005 Fundao AgromisaISBN: 90-8573-026-0

  • Agrodok 37

    Produo de sementes em pequena escala

    com melhoramento das variedades de cereais e de leguminosas

    Harry van den Burg

  • Esta publicao patrocinada por: KERKINACTIE A organizao KERKINACTIE prioriza no seu trabalho a rea de desenvolvimento rural e apoia organizaes que se encontram activas neste campo. A agricultura e a produo alimentar so actividades de importncia vital nas reas rurais. A KERKINACTIE apoia este tipo de trabalho directa e tambm indirectamente, providenciando apoio visando a recolha, compilao e divulgao de informao e conhecimento.

    Fundao Agromisa, Wageningen, 2005. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicao pode ser reproduzida qual-quer que seja a forma, impressa, fotogrfica ou em microfilme, ou por quaisquer outros meios, sem autorizao prvia e escrita do editor. Primeira edio em portugus: 2005 Autor: Harry van den Burg Editor: Edwin Nuijten Ilustraes: Barbera Oranje Design grfico: Eva Kok Traduo: Lli de Arajo Impresso por: Digigrafi, Wageningen, Pases Baixos ISBN: 90-8573-026-0

    NUGI: 835

  • Prefcio 3

    Prefcio

    A produo de sementes e a manuteno das cultivares da cultura le-vadas a cabo por pequenos produtores um assunto que atraiu o au-mento da ateno durante a dcada passada. O incremento da domi-nncia de grandes companhias multinacionais no que respeita ao co-mrcio de sementes, a controvrsia sobre a manipulao gentica e o reconhecimento dos direitos dos agricultores sobre as cultivares, por eles desenvolvidas durante o decorrer de muitos anos, tudo isto real-ou a importncia da manuteno da capacidade e da aptido dos agri-cultores no que concerne produo de sementes.

    Esperamos com este Agrodok poder dar uma contribuio para as ap-tides e referncias disposio dos agricultores. Esta publicao foi escrita com pessoal extensionista da linha da frente e tendo em mente pequenos agricultores habilitados/experientes. Nele se tratam dos princpios gerais e prticas da produo de sementes e da manuteno de cultivares, fazendo-se referncia a assuntos especficos respeitantes a sementes de cereais e de leguminosas. Esperamos que continuem a produzir-se publicaes que se ocupem das necessidades especficas de outros importantes grupos de culturas. O autor gostaria de expres-sar os seus agradecimentos a Niels Louwaars pelos seus comentrios construtivos e a Conny Almekinders e Roy Keijzer pela sua ajuda com as referncias e lista de endereos e todo o apoio prestado durante a elaborao deste Agrodok. Pela ilustrao agradecemos a Barbera Oranje.

    E por ltimo, ainda que muito importante, a Agromisa gostaria de agradecer a KERKINAKTIE pela assistncia financeira que possibili-tou a realizao desta publicao.

    Harry van den Burg

  • Produo de sementes em pequena escala 4

    ndice

    1 Introduo 6 1.1 Razes para produzir a prpria semente 6 1.2 Produo de sementes e desenvolvimento de cultivares 7 1.3 Cultivares de polinizao aberta em contraposio a

    cultivares hbridas 9

    2 O que necessrio saber sobre a herana gentica 10 2.1 Auto- polinizao em contraposio a polinizao cruzada

    10 2.2 Variao gentica nas cultivares 13 2.3 Critrios de seleco 19 2.4 Mtodos de seleco 20 2.5 Aumentando a variao gentica 26

    3 Componentes da qualidade da semente 31 3.1 Humidade 31 3.2 Limpeza 33 3.4 Vigor 36 3.5 Sanidade da semente 37

    4 Produo de sementes de cereais e leguminosas 40 4.1 Escolha da parcela 40 4.2 Produo de culturas com vista produo de semente 44 4.3 Seleco no campo de culturas com auto-polinizao 54 4.4 Seleco no campo de culturas com polinizao cruzada

    57 4.5 Seleco de culturas intermdias 59 4.6 Exemplos de produo de sementes 59

    5 A colheita da produo de sementes 68 5.1 poca apropriada 68 5.2 Debulha, limpeza, seleco 71

  • ndice 5

    5.3 Evitar as misturas 75

    6 Cuidados ps-colheita e armazenamento da semente 77

    6.2 Proteco qumica e produtos desinfectantes da semente 80

    6.3 Casos problemticos 83 6.4 Boa manuteno do local de armazenamento 84

    7 Venda de sementes como actividade de pequeno comrcio 86

    7.1 Potencial de comrcio 86 7.2 Regulamentos e assuntos afins 96

    Lista de culturas segundo o tipo de polinizao 99

    Leitura recomendada 101

    Endereos teis 103

    Glossrio 104

  • Produo de sementes em pequena escala 6

    1 Introduo

    1.1 Razes para produzir a prpria semente Durante quase toda a histria da agricultura sempre houve a prtica generalizada de se guardar as sementes para com elas se produzir. A troca ou a entrega de novos tipos de sementes deve ter constitudo uma prtica comum entre os agricultores, mas apenas no caso de uma m colheita ou de outros desastres que os agricultores obtiveram todas as suas sementes de outros agricultores. Ocasionalmente pode ser que algum tenha encontrado um tipo de planta que era melhor que o normalmente cultivado e alguns agricultores podem ter sido melho-res a produzir uma semente de qualidade que outros. Foi a partir de estas diferenas que, desde muito cedo e paulatinamente, a indstria moderna de sementes se desenvolveu.

    Actualmente, os agricultores mais avanados tecnologicamente com-pram a sua semente todos os anos, pois reconhecem que as empresas de sementes especializadas oferecem uma semente de melhor qualida-de de novas cultivares, continuamente melhorada, de qualidade supe-rior que pode ser produzida por eles mesmos. O custo de longe compensado pelos benefcios que eles obtm.

    No obstante, em muitos pases no existe uma indstria de sementes moderna ou, caso exista, encontra-se concentrada apenas em determi-nadas reas no pas ou em certos grupos de agricultores, principalmen-te os mais abastados. Tambm comum que as empresas modernas de sementes se centrem, apenas, em determinadas culturas, para as quais existe um mercado extenso e slido e ignorem as culturas de menores dimenses, cujos mercados apresentam flutuaes. As cultivares (va-riedades) que essas companhias produzem, muitas das vezes apenas so apropriadas para certos grupos de agricultores. A semente pode ser cara, pode ser hbrida (duas caractersticas que, muitas das vezes, an-dam a par) ou as cultivares podem no possuir as caractersticas que os pequenos agricultores procuram.

  • Introduo 7

    Tudo isto constitui boas razes pelas quais os agricultores podem que-rer guardar as suas sementes. Este nmero da srie Agrodok tem como objectivo apoiar os agricultores e os agentes extensionistas no que res-peita aplicao dos mtodos correctos, de modo a obter uma semente da melhor qualidade possvel e indica mtodos que podem ser usados por agricultores com poucos recursos.

    Devido histria da produo de sementes dentro do estabelecimento agrcola, pode bem ser que haja agricultores individuais que tenham desenvolvido os seus prprios mtodos, diferentes, de produo de sementes. Tal pode ser de grande valor quando se desenvolvem mto-dos adaptados s circunstncias locais. Ao se comparar esses mtodos em relao aos princpios gerais que explicamos aqui, torna-se claro se (e como) produzem o mesmo resultado: uma semente de boa qualida-de da variedade correcta.

    Do mesmo modo, os produtos da indstria moderna de sementes, o sector formal, nem sempre so inadequados para os pequenos agricul-tores. A qualidade fsica da semente muitas das vezes excelente, em muitos dos casos acompanhada por programas de certificao oficial. As cultivares so concebidas mais para satisfazer as necessidades dos compradores do que as dos pequenos agricultores, mas, por vezes, bastante casual ou acidentalmente, estas cultivares tm caractersticas que tambm so do interesse dos pequenos agricultores. Portanto, tor-na-se sempre sensato manter-se informado sobre o que o sector formal oferece e experimentar o que pode parecer promissor.

    1.2 Produo de sementes e desenvolvimento de cultivares

    A produo de sementes dever sempre caminhar lado a lado com a seleco, procedendo-se escolha das melhores e eliminando as pio-res. Tal pode ter, muito facilmente, um impacto nas caractersticas das cultivares, quanto ao seu aspecto e ao seu desempenho ao longo dos anos. A identidade das cultivares pode variar, lentamente, com o de-correr do tempo. Esta a razo pela qual as nossas cultivares, e at

  • Produo de sementes em pequena escala 8

    mesmo as nossas culturas, apresentam o aspecto actual, que se iniciou h milhares de anos com plantas que originalmente eram selvagens. O agricultor que quer ficar com a sua prpria semente tem que ter isto em mente. Uma coisa querer manter uma cultivar da maneira que ela se apresenta e outra melhor-la ou desenvolver novas cultivares.

    O sector formal da indstria de sementes muito importante para se manter a identidade de uma cultivar e os programas de certificao de sementes so estritamente aplicados para este propsito. Isto porque os compradores das sementes e do produto final querem saber, exac-tamente, o que eles esto a obter. Caso o comprador seja, por exemplo, algum que se dedica transformao de batatas, essencial que as caractersticas de processamento da cultivar permanea a mesma, pois de outra forma as suas batatas fritas ou farinha de batata no tero a mesma aparncia nem o mesmo gosto. Tambm importante na me-dida em que outras empresas de sementes podem ter uma cultivar mui-to similar. Ao se permitir que haja mudanas na cultivar, pode-se transform-la em algo diferente e pode-se infringir as regras de pro-priedade.

    O pequeno produtor que produz sementes apenas para o seu prprio uso, no tem que se preocupar com todos estes aspectos. De facto, o mais provvel que ele esteja activamente, todo o tempo, a procurar melhorar a sua cultivar. No entanto, a situao muda quando opta por vender parte da semente. Um progresso para um agricultor pode signi-ficar uma desvantagem para um comprador que produz numa outra regio ou para um outro objectivo. importante estar, sempre, consci-ente de qual o objectivo da pessoa que vai utilizar a semente. Em tais casos, muitas das vezes melhor ter-se parcelas separadas, para a manuteno da cultivar e parcelas experimentais para melhoria da es-pcie. Trataremos, separadamente, os mtodos de produo de semen-tes e dos mtodos de melhoramento das cultivares.

  • Introduo 9

    1.3 Cultivares de polinizao aberta em contraposio a cultivares hbridas

    Actualmente para determinadas culturas, as empresas modernas de sementes comercializam, principalmente, sementes hbridas. Entre as culturas que so tratadas nesta publicao, esta prtica aplica-se, prin-cipalmente ao milho e ao sorgo (mapira, Moc.). As cultivares hbridas so produzidas plantando-se duas cultivares no mesmo campo, permi-tindo apenas a um progenitor de produzir plen (o progenitor masculi-no) e colhendo-se a semente apenas do outro progenitor (o progenitor feminino). Caso os progenitores forem escolhidos correctamente, a descendncia (a cultivar hbrida) ter um desempenho muito melhor que a mdia dos progenitores ou at ainda melhor que cada um dos progenitores. A isto se chama heterose, ou vigor hbrido.

    muito difcil e consome muito tempo desenvolver e escolher apenas os progenitores adequados que, em conjunto, produziro o vigor h-brido mximo. Esta a razo pela qual a semente cara. Tambm muito difcil copiar um hbrido. No caso do agricultor guardar e plan-tar as sementes que colheu de um hbrido, os tipos parentais (o pior desempenho) reaparecero entre a cultura da campanha agrcola se-guinte e perder-se- a maior parte do vigor hbrido. A produo de se-mente hbrida um trabalho para profissionais e excede o mbito des-ta publicao.

    Os agricultores que utilizam a semente por eles produzida, normal-mente trabalham com semente no-hbrida ou cultivares de poliniza-o aberta. As plantas podem polinizar-se livremente e pode-se obter sementes de todas as plantas. A nica excepo a esta regra envolve certos mtodos de seleco usados no melhoramento das cultivares, que sero descritos mais adiante.

  • Produo de sementes em pequena escala 10

    2 O que necessrio saber sobre a herana gentica

    2.1 Auto- polinizao em contraposio a polinizao cruzada

    A descendncia de um par de progenitores, quer sejam pessoas, plan-tas ou animais, apresenta, frequentemente, muitas parecenas e tem sempre algumas coisas em comum com os seus progenitores. Diz-se que os indivduos herdam estas coisas (traos ou caractersticas) dos seus progenitores.

    Enquanto que em relao aos animais e s pessoas existem sempre progenitores masculinos e femininos separados, no que se refere s plantas nem sempre este o caso. O poln (o p fino amarelo produ-zido pelas flores que tem a mesma funo que o esperma nos animais) que fertiliza uma flor pode ser produzido por uma flor numa outra planta. Neste caso estas duas plantas so, obviamente, os dois progeni-tores. Mas tambm pode ser produzido por uma flor na mesma planta ou at mesmo por essa mesma flor! A figura 1 mostra os trs tipos de flores existentes.

    Figura 1: Representao esquemtica de uma flor. a: Flor comple-ta (impresso), b: Flor completa (esquemtica), c: Flor masculina, d: Flor feminina

    Caso a planta possa polinizar as suas prprias flores e tal se verifique durante a maior parte do tempo, trata-se de um processo de auto-polinizao. Se houver uma razo qualquer para que tal no acontea,

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 11

    denomina-se polinizao cruzada (porque o plen tem que vir de uma outra planta). A figura 2 evidencia alguns exemplos de como se do estes dois casos de polinizao auto-polinizao e polinizao cru-zada.

    Figura 2: Auto-polinizao e polinizao cruzada entre diferentes tipos de flores. a: Flor completa, auto-polinizadora, b: Diica, poli-nizadora cruzada, c: Monica, polinizadora cruzada, d: Flor com-pleta, polinizadora cruzada

  • Produo de sementes em pequena escala 12

    Como exemplos de plantas auto-polinizadoras podemos mencionar a maior parte das plantas da famlia dos feijes, assim como o trigo, o arroz, a cevada e a mexoeira-de-dedo.

    Tambm existem plantas que normalmente no se propagam atravs de uma semente verdadeira, quer dizer, semente produzida por flores. Diz-se que estas plantas se propagam vegetativamente. Exemplos dis-so so a cana de acar, a mandioca, a batata e a batata doce. Este tema ser tratado num outro nmero da srie Agrodok.

    Podem existir muitas razes porque uma planta auto-polinizadora. Algumas espcies tm plantas que produzem apenas ou flores mascu-linas, ou flores femininas, de modo que a auto-polinizao se torna, fisicamente, impossvel. Estas espcies so chamadas diicas (prove-niente da palavra grega que significa duas casas). So disso exemplo as palmeiras de tmaras (tamareiras) e muitas cultivares de papaia. Em outros casos, a mesma planta possui tanto flores masculinas como flores femininas, mas estas encontram-se em partes diferentes da plan-ta e no tende a polinizar as flores na mesma planta. Tais plantas cha-mam-se monicas (uma casa), sendo disso exemplo o milho, o adlay e a palmeira de leo. No entanto, em muitos desses casos, a auto-polinizao, de facto, possvel e ocorre em certa medida. No que se refere ainda a outras plantas existem mecanismos genticos complica-dos que impedem que o plen de uma planta fertilize a suas prprias flores mesmo que v parar nelas, tal como no caso das couves. A este mecanismo chama-se auto-incompatibilidade e resulta sempre numa polinizao cruzada.

    Caso sob condies normais ocorra menos de 5% de polinizao cru-zada, chama-se a esta cultura auto-polinizadora. A lista que apresen-tada no Apndice 1 mostra quais as culturas de cereais e leguminosas que so auto-polinizadoras ou as que tm uma polinizao cruzada. Tambm apresenta as culturas que utilizam ambos os mtodos em cer-ta medida, isto , entre 5% e 20% de polinizao cruzada. A estas diz-se que tm uma polinizao intermdia. Qualquer planta na qual se d

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 13

    um processo de polinizao cruzada superior a 20%, considerada como sendo completamente polinizadora cruzada.

    Quando se produzem sementes muito importante saber como que se efectua a polinizao da cultura. De uma forma geral mais difcil manusear as plantas com polinizao cruzada, caso se pretenda manter as cultivares separadas e se se quiser melhorar as cultivares atravs de seleco. Tem que prestar ateno ao plen que pode entrar nos seus campos, vindo de fora. Tambm leva mais tempo para livrar-se de traos que no quer na sua cultivar. Por vezes com auto-polinizadoras difcil de combinar caractersticas diferentes numa nica cultivar. Ao longo desta publicao trata-se, separadamente, na maioria dos casos, as culturas com auto-polinizao das com poliniza-o cruzada.

    2.2 Variao gentica nas cultivares Os agricultores utilizam diversas palavras para os tipos de variedades de sementes que eles querem distinguir. Eles podem falar acerca de raas, tipos, ascendncia/linhagem, linhas ou muitas outras palavras nas lnguas locais. O que eles querem expressar que so capazes de reconhecer os diferentes tipos ou variedades de sementes atravs da sua aparncia externa ou pela maneira que agem sob deter-minadas condies. Estas diferenas, muitas das vezes, so suficien-temente grandes para os agricultores identificarem as variedades com um nome, tal como se passa no sector comercial de sementes. Ao lon-go desta publicao para essas variedades utiliza-se a palavra culti-var, que provm de variedade cultivada (em ingls cultivated va-riety). Uma cultivar um grupo de plantas dentro de uma cultura que retm as suas caractersticas especficas quando multiplicada da ma-neira que normal para essa cultura.

    Embora uma cultivar, na sua globalidade se mantenha, aproximada-mente, a mesma de ano para ano sempre que cultivada/produzida sob as mesmas condies, ou condies similares, isso nem sempre significa que todas as plantas nela sejam iguais. O grau de variao

  • Produo de sementes em pequena escala 14

    gentica dentro de cada cultivar, quer dizer, as diferenas entre as plantas que so causadas pelas caractersticas herdadas dos seus pro-genitores, podem ser bastante grandes. Isto constitui um aspecto im-portante, tanto no que concerne produo da semente como melho-ria da cultivar.

    Muitas vezes (ainda que nem sempre seja o caso) o xito do bom de-sempenho de uma cultivar, sob condies amplamente divergentes, deve-se variao gentica que nela se encontra presente. Para expli-car este tema de forma simples, independentemente das condies presentes, existem sempre alguns tipos de plantas dentro da cultivar que podem ter um bom desempenho, enquanto o de outras inferior e apenas melhora quando as condies mudam.

    Esta estabilidade de desempenho tem, muita das vezes, um valor mui-to maior para os pequenos agricultores que a capacidade para ter um desempenho excepcionalmente bom, sob condies muito especficas e constantes. Mas preciso notar que a estabilidade quanto ao desem-penho tambm pode, na maior parte das culturas, ser fixada nas plan-tas individuais, atravs dos genes que fazem com que o portador seja ecologicamente estvel. De maneira que nem sempre necessria uma variao gentica para alcanar estabilidade de desempenho.

    Por outro lado, quando um agricultor capaz de se orientar, proposi-tadamente, para o melhoramento das suas operaes culturais como, por exemplo, melhoramento da lavoura, utilizao de fertilizantes ou calagem, talvez mesmo utilizando produtos qumicos ou irrigao, ento uma tal variao gentica talvez resista ao seu progresso. Podem existir demasiadas plantas na cultivar que no respondem suficiente-mente aos insumos de forma a se justificar o custo da sua aplicao.

    Contudo, se se tiver uma cultivar com uma grande variao gentica como material de incio, tal oferece muitas oportunidades para o de-senvolvimento da cultivar. Ao se seleccionar determinados tipos den-tro de uma tal cultivar, podem criar-se novas cultivares que podem

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 15

    ser adequadas a condies ou objectivos especficos e terem um me-lhor desempenho em alguns aspectos. Estas cultivares variveis en-contram-se, frequentemente, onde os agricultores tm multiplicado a sua prpria semente durante muitas geraes sem aplicar-se muito quanto maneira de seleco ou onde encorajaram activamente a di-versidade. A combinao especfica de solos, clima, outros factores ambientais e factores impostos pelo agricultor, determinam, ento, qual a planta que prospera e produz sementes e qual no. Uma tal cul-tivar chamada uma variedade tradicional ou raa rstica ou no me-lhorada (land race). As cultivares de variedades tradicionais normal-mente esto muito bem adaptadas aos solos, clima e sistema agrcola duma certa regio, apresentando em si um lote de variao gentica.

    Como regra geral, a variao gentica dentro de uma cultivar duma cultura com polinizao cruzada, normalmente maior que quando se trata de auto-polinizao. Para alm do mais, no caso de auto-polinizao podem-se identificar e isolar mais facilmente os compo-nentes desta variao. Isto devido a que cada planta individual herda todas as suas caractersticas, numa combinao fixa, de um dos seus progenitores. No caso em que todos os progenitores produzam, apro-ximadamente, a mesma quantidade de semente, isto significa que se repetem, de gerao em gerao, as mesmas combinaes, inalteradas, de traos genticos.

    No caso da polinizao cruzada as combinaes de traos alteram-se constantemente, na medida em que as plantas individuais herdam tra-os diferentes de progenitores separados. Ainda que na sua totalidade dentro da cultivar, os traos ocorram segundo as mesmas taxas, de gerao em gerao. O que se passa que realmente mais difcil apanh-las dentro de uma planta. Na caixa 1, sobre as experincias de Mendel com ervilhas, aparece evidenciada a diferena entre plantas de auto-polinizao e plantas de polinizao cruzada.

  • Produo de sementes em pequena escala 16

    Caixa 1: Experincias de Mendel com ervilhas

    Mendel realizou a maior parte do seu trabalho com ervilhas (Pisum sativum L.), que so auto-polinizadoras. Ele efectuou manualmente polinizao cru-zada (= cruzamento) de vrias variedades que diferiam em muitos dos seus traos. Traos so caractersticas que ocorrem em duas ou mais das suas formas. No caso das ervilhas de Mendel, a forma da semente era redonda ou rugosa. Quando Mendel fez o cruzamento de duas variedades que diferiam quanto forma da semente, obteve como resultado que toda a descendncia se as-semelhava ao progenitor com a semente redonda e nenhuma se parecia com o outro, com a semente rugosa. Por esta razo, Mendel apelidou a forma re-donda de forma dominante e a rugosa, que no se encontrava presente na descendncia, de forma recessiva. Qual a forma que dominante difere para cada trao e tambm pode ser diferente em relao a diversas culturas. Alguns traos no tm uma forma dominante, como no caso do rendimento ou tamanho da semente. As plantas parentais so chamadas de gerao P (parental) ou gerao F0 . A sua descendncia hbrida chamada a gerao F1 (primeira filial) . des-cendncia da gerao F1 chama-se gerao F2, a descendncia da gerao F2 chamada gerao F3, e assim por diante. Quando Mendel produziu umas tais geraes F2 , tanto as formas redondas como as rugosas encon-travam-se de novo presentes. A semente rugosa que parecia ter desapareci-do em F1, reapareceu na gerao F2. Mendel repetiu esta experincia com muitos outros traos que tinham uma forma dominante e recessiva e sempre obteve como resultado que uma das formas desaparecia na gerao F1, mas reaparecia na gerao F2 sendo a razo dominante/recessiva de 3:1 (ou mui-to aproximada). Mais tarde descobriu que cada planta de ervilhas tem duas cpias do gene responsvel pela forma da semente, mas que os gros de plen e os vulos apenas possuem uma destas duas cpias. Depois da fertilizao (fecunda-o) a cpia do gro de plen e a de um vulo juntam-se, outra vez, e a se-mente resultante tem duas cpias, uma proveniente do progenitor plen e outra proveniente do progenitor vulo. A forma da semente regulada por um gene. Tambm a cor da semente, muitas das vezes, regulada por um gene, mas ainda no se sabe ao certo quanto genes regulam o rendimento.

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 17

    s diferentes formas de um gene tambm se chama alelo. O alelo dominante indicado com uma letra maiscula, enquanto que o alelo recessivo indica-do com uma letra minscula. No exemplo da forma da semente, a forma re-donda indicada com um R enquanto a forma rugosa indicada com um r. Caso ambos os alelos de um genes responsvel pela forma da semente se-jam a mesma (ou bem RR ou rr), chama-se planta homozigtica no que res-peita forma da semente. Caso na planta estejam presentes tanto o alelo dominante como o recessivo (Rr), chama-se heterozigtica no que respeita forma da semente, ainda que apenas tenha sementes redondas, a forma do-minante. Se uma planta homozigtica de ervilhas se auto fecunda pode ou produzir sementes redondas ou sementes rugosas. Se uma planta heterozigtica de ervilha se auto fecunda, produz sementes redondas e rugosas numa razo de 3:1. Se a auto fecundao prossegue o nmero de plantas heterozigticas declina, e depois de 5-6 geraes ser muito pequeno. Se as ervilhas fossem uma cultura de polinizao cruzada (que no so), as razes/taxas seriam diferentes. Nesse caso a razo de plantas de ervilhas homozigticas e heterozigticas permaneceria estvel ao longo de todas as geraes. Tambm a razo de sementes redondas e de sementes rugosas permaneceria 3:1 em todas as geraes Enquanto que uma planta homozi-gtica que se auto fecunda produz sempre o mesmo tipo de semente, uma planta homozigtica de polinizao cruzada pode produzir todos os tipos de sementes caso as plantas que se encontram na sua vizinhana tenham dife-rentes alelos.

    As figuras seguintes apresentam ilustraes esquemticas da herana gentica dos alelos dominantes e recessivos do trao da forma da se-mente numa auto-polinizao (0 que mostra que depois de vrias ge-raes a forma heterozigtica decresce e que a razo das sementes redondas e rugosas se aproxima 50:50) e uma polinizao cruzada (0, que mostra que aps vrias geraes a forma heterozigtica no de-cresce e que a razo das sementes redondas sementes rugosas se mantm 75:25).

  • Produo de sementes em pequena escala 18

    Figura 3: Herana gentica numa auto-polinizao

    Figura 4: Herana gentica numa polinizao cruzada

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 19

    2.3 Critrios de seleco Quer esteja produzindo sementes e mantendo a cultivar, tal como ela , melhorando activamente a sua cultivar ou desenvolvendo novas es-pcies, o mais importante ter sempre presente o que, realmente, est procura. Qual o seu critrio de seleco? Coloque a si mesmo a questo de quais so os traos que so essenciais, quais so importan-tes e os que so, meramente, desejveis, e anote-os, colocando-os por ordem de importncia. Tente, sempre que possvel, quantific-los, por exemplo pelo menos quarto rebentos por planta em vez de boa re-bentao. Considere todos os aspectos da cultura: ? plntulas fortes ? crescimento inicial rpido ? rebentao ? reaco a doenas ? reaco a temperaturas extremas ? reaco a seca ? reaco a um solo pobre ? reaco a fertilizantes ? poca de florescncia ? quantidade de invlucros de sementes (nmero de va-

    gens/espigas/maarocas) ? poca de maturao ? resistncia acama ? secagem ? facilidade de colheita ? rendimento (ter em conta os produtos secundrios, p.ex palha!) ? caractersticas de armazenamento (danos provocados por insectos) ? qualidade de processamento e de consumo ? preferncias dos consumidores (tamanho, cor, sabor, etc.)

    Tambm se reveste de importncia, especialmente no que concerne s plantas com polinizao cruzada, distinguir entre os traos que se po-dem avaliar antes ou s depois da florescncia.

    Quando se mantm uma cultivar j existente a ateno principal deve-r centrar-se em fazer uma listagem e manter os seus pontos fortes e as

  • Produo de sementes em pequena escala 20

    caractersticas mais importantes. Muitas das vezes possvel melho-rar um pouco os pontos fracos, fazendo uma seleco contra estes (i.e. eliminar as plantas que evidenciam estes pontos fracos), especialmente se ainda existe muita variao gentica na cultivar, mas deve-se estar prevenido contra a perda das caractersticas tpicas que definem a cul-tivar.

    Tenha em mente que no existe uma cultivar perfeita, e que se tiver uma atitude extremamente crtica quando proceder seleco, isso no o leva a parte nenhuma. Centre-se no essencial e nos traos mais importantes e considere o resto como um bnus. medida que v re-gistando progressos e haja um melhoramento das suas cultivares, no que respeita aos seus aspectos essenciais, ento, nessa altura, pode prestar mais ateno a traos que apresentam uma menor prioridade.

    2.4 Mtodos de seleco At aqui fizemos crer que tudo o que tem a ver com o desempenho de uma planta herdado. Claro que isso no verdade. Quando duas plantas num campo apresentam diferenas quanto ao rendimento, a causa pode ser gentica (o rendimento potencial herdado dos progeni-tores da planta), mas tal tambm pode ser, por exemplo, o resultado de uma diferena de fertilidade do solo. Diz-se, ento, que a variao ambiental. Em especial os traos como sejam a qualidade de consumo e o rendimento so, muitas das vezes, fortemente influenciados pelo meio ambiente e no muito pela gentica. Diz-se que tm a heriditabi-lidade baixa. Mesmo se se proceder a uma seleco rgida em relao a um trao com uma heriditabilidade baixa tal no adianta muito, a menos que seja realizada em grande escala e com mtodos cientficos. Repetimos, mais uma vez, que em tais casos melhor no ser demasi-ado crtico. No captulo 4 trataremos de mtodos de seleco que mi-nimizam a interferncia da variao ambiental.

    Os traos das plantas que so herdados dos seus progenitores so guardados nos genes, dezenas de milhares deles. At mesmo o mai-or programa de seleco apenas se centrar numa fraco destes. Os

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 21

    olhos so herdados bastante ao acaso, mesmo aqueles com os quais ficamos muito satisfeitos. Isto abre o risco de derivao aleatria, i.e. a possibilidade estatstica de se perder um gene porque o grupo de plantas que foi seleccionado para se continuar com elas, por acaso no contm esse gene. Para se precaver contra esta perda causada por de-rivao aleatria essencial manter-se num nmero mnimo de plantas seleccionadas, particularmente no caso das plantas com polinizao cruzada. Sempre que seja apropriado, mencionaremos para cada um dos mtodos especficos de seleco, qual o nmero mnimo de plantas necessrias para uma derivao aleatria.

    O mtodo mais simples de manter uma cultivar existente , meramen-te, remover qualquer coisa que seja indesejvel e colher o resto da cul-tura de uma s vez. A este processo chama-se seleco massal negati-va. O termo indesejvel pode referir-se a plantas que pertencem cul-tivar mas que evidenciam caractersticas que no so as que se preten-de, ou podem ser plantas resultantes de uma polinizao cruzada, do exterior, mistura acidental de sementes, ou mutao (a mudana es-pontnea de informao gentica). At mesmo agricultores que no tm uma formao nesse sentido mas que guardaram as suas sementes durante muitos anos, praticam este mtodo instintivamente. Caso ape-nas uma parte da colheita seja usada como semente (como , frequen-temente, o caso), isso pode ser feito aleatoriamente, da cultura colhida. Caso isso no acontea e se proceda a outras escolhas (por exemplo, escolhendo-se as maarocas de milho com um bom aspecto), este m-todo torna-se no que se chama seleco massal positiva (que mais adi-ante se descreve). Tal no , necessariamente, uma coisa m, mas o objectivo e o mtodo devem ser definidos claramente com antecipa-o. A seleco massal negativa pode ser adequada para manter as cultivares com auto-polinizao, mas no caso da polinizao cruzada no muito eficaz, especialmente quando se trata de traos que apenas so visveis depois da florescncia. No se trata de um mtodo ade-quado para melhorar uma cultivar ou a desenvolver uma nova cultivar, apenas para manter uma j existente. Com a seleco massal negativa no existe o risco de derivao aleatria.

  • Produo de sementes em pequena escala 22

    Com a seleco massal positiva, avana-se mais. Seleccionam-se e marcam-se plantas individuais que se encontram o mais prximo pos-svel da descrio tpica da cultivar que se est a manter ou do ideal que se pretende obter. Na poca da colheita, a produo de todas as plantas seleccionadas mantida separada do restante e utilizada como semente. Depois da colheita, muitas vezes continua-se a proceder a uma seleco, por exemplo, segundo o tamanho e a forma das maa-rocas de milho. Nesta altura surge o perigo da derivao aleatria. muito importante nunca usar menos de 50 plantas de uma polinizao cruzada ou 30 de uma auto-polinizao para a gerao seguinte. ne-cessrio seleccionar, pelo menos, duas vezes esse nmero no campo, enquanto a cultura est na sua fase de crescimento, de modo a tomar em considerao as plantas que se perdem ou que, por vrias razes, so postas de parte, posteriormente. Caso depois de tudo isto, a se-mente que restou para o ano seguinte ainda for demasiada, ento asse-gure-se que apanha o que necessita de forma aleatria, sem continuar a proceder a uma seleco. A seleco massal positiva constitui o m-todo padro para manter as cultivares tanto das plantas auto-polinizadoras como das com polinizao cruzada, sempre que os re-sultados obtidos com as cultivares e a sua manuteno sejam satisfat-rios e no se registem problemas de maior monta.

    Chegar um tempo em que se pretende corrigir imperfeies que se introduziram na nossa cultivar, quer seja atravs de polinizao cruza-da, mistura ou mutao ou por qualquer outra razo. Nessa altura tor-na-se importante conhecer o progenitor (ou progenitores) das plantas que seleccionmos. A maior parte do tempo apenas se pode fazer isto olhando para a sua descendncia. Ento seleccionam-se plantas, tal como descrevemos anteriormente, utilizando o mtodo de seleco massal positiva, mas mantendo as sementes de cada planta separada-mente aquando da colheita. Na campanha agrcola seguinte plantam-se as sementes de cada planta numa linha separada, como uma famlia. Na descendncia pode-se ver, agora, onde se encontram os traos in-desejveis. Ento aparta-se toda a linha de plantas (a famlia completa) sempre que se encontrem os traos indesejveis, mesmo que apaream apenas numa nica planta na linha. Efectua-se isto pois bem possvel

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 23

    que as outras tambm possuam esse trao, mesmo que no o evidenci-em. No final preciso que reste o nmero mnimo de famlias (50 ou 30, tal como j foi dito) para misturar para o novo plantio, sendo, pois, necessrio certificar-se que existe o bastante para se iniciar o plantio. Ento, procede-se colheita de todas as famlias remanescentes, e mistura-se a semente destinada ao plantio da campanha seguinte. No prossiga com a seleco, mesmo que possua semente em demasia! No caso de plantas de auto-polinizao este mtodo chama-se seleco em linha, com as plantas de polinizao cruzada, chama-se, seleco fa-miliar de semi-irmandade (SI) (figura 5).

    Figura 5: Exemplo esquemtico de seleco em linha ou seleco familiar SI

  • Produo de sementes em pequena escala 24

    No caso das plantas com polinizao cruzada, nunca utilize este mto-do por um perodo superior a dois anos consecutivos, utilizando o mesmo material; depois de isso volte a usar o mtodo de seleco massal. De qualquer maneira, tal implica muito trabalho, de modo que no querer realiz-lo muito frequentemente e um perodo de um ano ser, normalmente, suficiente.

    As seleces em linha e familiar de semi-irmandade tambm so m-todos para se utilizar caso note uma planta diferente no seu campo que parece poder ser uma nova cultivar de boa qualidade. Colha-a separa-damente e plante a sua semente numa pequena linha, s para esta plan-ta, podendo, desse modo observ-la bem e ver se exibe, de novo, os bons traos. Poder, caso queira, seleccionar de novo plantas indivi-duais a partir da famlia.

    Caso esteja a tentar seleccionar um trao, tanto no caso de querer man-t-lo ou elimin-lo, que apenas possa ser visto depois da florescncia, manifesta-se um problema suplementar com as plantas de polinizao cruzada. Quando tiver identificado onde esto os culpados, estes j polinizaram o resto e propagaram os seus traos indesejveis. Ou as plantas com as boas caractersticas que se pretende manter foram poli-nizadas pelas plantas com as caractersticas ms. Pode-se usar, nessa altura, o mtodo da semente remanescente. (Ver figura 6.)

    Este mtodo o mesmo da seleco familiar de semi-irmandade, ex-cepto que se apenas se planta metade da semente de cada planta colhi-da separadamente e coloca-se a outra metade em embalagens para se-rem guardadas. Quando chegar concluso de quais so as famlias que possuem boas caractersticas, voltar s sementes que guardou em embalagens e mistura-as para o plantio do ano seguinte. O campo ex-perimental em que se produzem as linhas de famlias ento no ser utilizado para semente. Utilizando-se este mtodo deve-se ter um bom sistema de registo (os pacotes com sementes e as linhas corresponden-tes devem ter o mesmo nome) na medida em que tem que se poder ligar cada pequena famlia que se encontra na linha do campo com o pacote adequado de semente que ainda se encontra armazenado! E

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 25

    evidente que tambm se tem que ter um bom sistema de armazena-mento guarda-se a semente remanescente para uma segunda campa-nha agrcola. Caso faa um uso correcto, apenas necessitar de usar o mtodo da semente remanescente uma vez, antes de voltar de novo a usar o mtodo de seleco massal. O mtodo da semente remanescente apenas deve ser usado em face de problemas srios. Uma vez mais, depois de se ter identificado e apartado as famlias indesejveis, ainda dever poder continuar at obter, pelo menos, 50 pacotes da semente remanescente, existente no seu armazm . Continuaremos a debruar-nos sobre este assunto dos diversos mto-dos de seleco e de como os utilizar, nas seces 4.3 e 4.4.

    Figura 6: Exemplo esquemtico de seleco da semente rema-nescente

  • Produo de sementes em pequena escala 26

    2.5 Aumentando a variao gentica Todos os mtodos que expusemos anteriormente resultaro, eventual-mente, numa reduo da variao gentica dentro da cultivar. Os m-todos de seleco da linha/familiar de semi irmandade e da semente remanescente tm um efeito mais rpido mas mantm uma menor va-riao que os mtodos de seleco massal.

    Pode chegar uma ocasio em que se pretende uma maior variao ge-ntica, quer seja para que haja uma maior escolha das caractersticas de modo a se desenvolverem novas cultivares ou para se obter uma maior variao dentro da cultivar, de modo a que adquira uma resis-tncia mais ampla a diferentes condies. Ou pode ser que se manifes-te uma doena nova e se pretenda que a cultivar seja mais resistente a ela (ainda que sem o aparecimento dessa doena tudo estivesse bem com essa cultivar). Ou ainda, o caso dos seus clientes pedirem traos adicionais no produto. Nessa altura ser necessrio introduzir novas caractersticas.

    O primeiro passo procurar fontes de variao gentica: sementes de outras plantas ou da mesma planta que possuem os traos pretendidos. Normalmente outros agricultores que se encontram distantes da sua rea, mas que a rea em que se encontram tem condies semelhantes sua, constituem uma boa fonte. Poder tentar contactar estaes ex-perimentais, tanto nacionais como internacionais, algumas ONG ou organizaes de ajuda ou empresas comerciais de sementes. Caso o que se pretende sejam fontes de resistncia a uma nova doena, poder ter que procurar formas selvagens da sua cultura, caso existam. No Apndice 3 est includa uma lista de algumas instituies pblicas.

    Quando possuir sementes de novos e promissores tipos, tem que in-corporar os novos traos na sua(s) cultivar(es). Isto pode ser realizado atravs de mistura ou de cruzamento.

    Mistura A mistura , sem dvida, o modo mais fcil: basicamente deixa-se que a cultura faa o trabalho! No entanto, antes de proceder mistura de

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 27

    novas sementes de cultivares com as que j tem, aconselhvel expe-rimentar, pelo menos, um pouco da nova semente para uma campanha agrcola, separada da sua cultura mas, simultaneamente, fazendo parte dela. Dessa maneira poder verificar se os perodos de crescimento, de uma forma geral, coincidem. No caso de que partes da cultura estejam maduras muito mais cedo ou mais tarde, tal pode ocasionar problemas durante a colheita e no caso de plantas com polinizao cruzada, a poca de florescncia tambm muito importante se se quiser que os dois tipos se misturem/combinem.

    Depois de se proceder mistura das sementes de diversas origens, a polinizao cruzada assegurar que os novos genes sejam espalhados por toda a populao. Tudo o que necessrio fazer procurar indi-vduos que combinem o melhor de ambos os tipos originais. Uma eta-pa/ronda de seleco familiar SI normalmente suficiente para que estes sejam conhecidos e para eliminar a maior parte das combinaes que no so to bem sucedidas. A velocidade segundo a qual a mistura se realiza depende da percentagem de polinizao cruzada na cultura.

    Com uma auto-polinizao completa, ou quase completa, tal no se passar. Continuar-se a ter plantas de diferentes origens que crescem lado a lado no campo, ano aps ano. Se tal tem ou no uma grande importncia, depende, em grande medida, do seu objectivo. Caso o seu objectivo seja, por exemplo, fazer com que a cultivar se torne mais tolerante a flutuaes climticas, tal funciona muito bem. Num ano seco as espcies tolerantes seca produzem melhor, enquanto que num ano hmido sero as espcies tolerantes a cheias que tero um melhor desempenho. At mesmo a presso de doenas em plantas sus-ceptveis se reduzir quando h plantas resistentes no campo, e a cul-tura, na sua globalidade, pode ser suficientemente tolerante para o seu propsito. Contudo, caso seja essencial que as caractersticas proveni-entes de diversas fontes estejam combinadas na mesma planta, no existe outra alternativa seno o cruzamento artificial.

  • Produo de sementes em pequena escala 28

    Cruzamento O cruzamento nas plantas de polinizao cruzada, tal como foi dito no pargrafo anterior, basicamente automtico. Existem, contudo, ex-cepes, nas quais certos factores genticos impedem alguns indiv-duos de se cruzarem com outros. Nos cereais e nas leguminosas isso raro, mas poder emergir quando se tenta efectuar uma polinizao cruzada com formas selvagens destas culturas Estas barreiras de cru-zamento so difceis de ultrapassar sem que resultem em mtodos em que se tem que recorrer a uma tecnologia bastante elevada e, se por acaso esbarrar com uma destas barreiras, no poder fazer mais nada.

    Pode parecer surpreendente, mas a maioria das plantas com auto-polinizao cruza-se bastante facilmente quando se aplicam as tcni-cas manuais correctas. Tal envolve, normalmente, a abertura de um boto antes do seu tempo normal, a remoo das anteras (rgo mas-culino) e a aplicao de plen no estigma (rgo feminino) provenien-te do progenitor por si escolhido. A explicao de todas estas tcnicas excede o mbito desta publicao, mas na bibliografia apresentada encontrar algumas referncias para aprofundar o assunto, caso dese-jar. De modo geral, quanto maior for a flor, mais simples ser a tcni-ca. Na categoria dos gros, ser bastante difcil em relao aos gros de soja enquanto que ser fcil para a maior parte das espcies de fei-jes (Phaseolus).

    Ser necessrio etiquetar individualmente as flores que foram polini-zadas mo, de modo a mostrar qual delas foi usada como progenitor masculino. O ideal usar-se pequenas etiquetas pendentes, de papel, as quais se prendem com fios de algodo (cordel), tais como os que so muitas vezes utilizados como etiquetas de preos em vesturio ou joalharia. As sementes provenientes de cruzamentos devem, ento, ser plantadas de acordo com o mtodo de seleco em linhas. Todas as sementes que envolvem plantas que tm os dois mesmos progenitores cruzados na mesma direco (i.e. com a mesma planta como me) po-dem ser plantadas numa nica linha, mesmo que as flores sejam dife-rentes. Nessa altura poder avaliar os resultados e decidir com quais

  • O que necessrio saber sobre a herana gentica 29

    pretende continuar. Tambm poder ver que, por vezes, o cruzamento no foi bem sucedido e a sua descendncia uma cpia da planta me.

    O milho constitui um caso especial (ver figura 7 e figura 8). Na medi-da em que esta cultura monica e as partes masculina e feminina se encontram bem separadas, bastante fcil fazer cruzamentos directos. Tal significa que melhor escolher individualmente os progenitores masculino e feminino e cruz-los mo do que depender do cruza-mento natural que se pode dar em campo aberto. Voltamos a dizer que proceda, cuidadosamente, marcao dos seus cruzamentos.

    Figura 7: Auto-fertilizao do milho (adaptado de Almekinders e Louwaars, 1999)

  • Produo de sementes em pequena escala 30

    No obstante, na medida em que as plantas individuais com poliniza-o cruzada contm uma grande variao gentica, a sua descendncia apresentar uma maior variao que os progenitores. No adianta mui-to separar as plantas descendentes, uma por uma. melhor plant-las em bloco e fazer um giro de seleco familiar SI, seguida por uma seleco massal positiva na gerao seguinte. Nessa altura obter a base de uma nova cultivar, melhorada.

    Figura 8: Fertilizao cruzada de milho (adaptada de Almekinders e Louwaars, 1999)

  • Componentes da qualidade da semente 31

    3 Componentes da qualidade da semente

    3.1 Humidade atravs das suas sementes que as plantas so capazes de sobreviver de campanha agrcola para campanha agrcola. Por isso que uma das funes mais essenciais da semente a armazenabilidade, que de-terminada pelo seu teor de humidade. Como regra geral, a maior parte das sementes pode ser armazenada durante um perodo mais longo quando esto mais secas. As excepes a esta regra podem ser encon-tradas, principalmente, no que respeita s sementes de determinadas rvores, que englobam rvores frutferas como sejam a mangueira e o abacateiro, mas tambm os cafezeiros, cacaueiros, rvores de cachu e as palmeiras de leo, que morrem muito rapidamente, independente-mente do tratamento que se lhes d. Devido a que tais sementes pare-cem resistir ao armazenamento, muitas vezes so referidas como se-mentes recalcitrantes. Mas tambm h sementes no recalcitrantes ou sementes ortodoxas que no se conservam muito bem. As mais rele-vantes das que so tratadas nesta publicao so os gros de soja e os amendoins, incluindo as espcies Bambara (feijo jugo em Moam-bique) e Kersting.

    No que se refere maior parte dos cereais, o teor seguro mximo de humidade para serem armazenados cerca de 12 a 13 por cento, e em relao s leguminosas pode ir at cerca de 2 por cento mais, mas nunca deve ser mais elevada. Quanto mais seca est a semente, tanto durante mais tempo a mesma se pode conservar. No entanto, as se-mentes de leguminosas muito secas colocam outros problemas, pois estas quando manuseadas tornam-se muito frgeis (quebradias) e so muito susceptveis a danos. Por isso o teor prtico de humidade das leguminosas situa-se entre 11 e 14 por cento. A avaliao do teor de humidade constitui, muitas das vezes, um dos maiores problemas com o qual os pequenos agricultores, produtores de sementes, se encontram encarados. No existe nenhum mtodo preciso para avaliar o teor de

  • Produo de sementes em pequena escala 32

    humidade a no ser com pequenos higrmetros electrnicos e estes so, normalmente, bastante caros. Contudo, caso estiver dentro das suas posses, vale a pena, realmente, investir num. Alguns agricultores experientes e comerciantes de sementes podem avaliar o teor de hu-midade ao morder a semente. Se ela se partir mais do que fender, est suficientemente seca para ser guardada (armazenada).

    Caso a semente no se encontre suficientemente seca para ser armaze-nada, as primeiras baixas so o potencial e energia germinativa. Quanto mais seca estiver a semente, tanto durante mais tempo poder manter um bom potencial de germinao e um slido crescimento das plntulas. Podemos dizer que, aproximadamente, para cada 1 por cen-to de reduo do teor de humidade, a semente pode conservar-se duas vezes mais.

    Se a semente se encontrar muito hmida quando armazenada, ela proporciona uma fonte de alimentao ideal para fungos e insectos. A actividade destas pragas de armazenamento aumenta a temperatura nas pilhas de armazenamento ou nos sacos e, dentro de um perodo de tempo muito curto, a semente estar completamente estragada, quer pelo efeito directo dos danos (podrido ou servindo de alimento) quer pela destruio da capacidade de germinao, por intermdio de tem-peraturas elevadas. Estar seguro que a sua semente se encontra seca constitui, pois, a primeira, e a mais importante, medida para se alcan-ar qualidade.

    A maioria das culturas secar o suficiente quando deixadas no campo, caso o clima seja favorvel. Contudo, se permanecerem a secar no campo durante longos perodos, tal pode expor a semente a outros pe-rigos, tais como acama das culturas, chuvas fora da estao o que po-der resultar em grelos na planta, ataque por insectos ou outros ani-mais ou at mesmo roubo. Muitas das vezes melhor proceder co-lheita um pouco antes e usar alguma forma de secagem no estabeleci-mento agrcola.

  • Componentes da qualidade da semente 33

    Para mais informao sobre o teor de humidade, secagem e armaze-namento seguro das sementes, consultar o Captulo 6 e o Agrodok 31: O armazenamento de produtos agrcolas tropicais.

    3.2 Limpeza Uma vantagem importante de sementes boas e limpas que reduzem a disperso das ervas daninhas. A semente da cultura no deve conter quaisquer sementes de ervas daninhas, terra, pedras, palha ou outros pedaos de plantas ou pedacinhos de sementes partidas. Se o agricul-tor produz a semente para seu prprio uso pode no se importar se esta est um pouco suja mas ningum que compra semente quer pagar algo que apresenta sujidade. No caso de algumas culturas com plantas altas, com sementes (p. ex. milho) muito fcil de mant-las limpas, mas no que se refere a plantas mais baixas e a sementes dos gros de cereais e leguminosas mais pequenos, as sementes de ervas selvagens e de hortcolas podem causar problemas, assim como os torres de terra e as pedras. Algumas doenas que, normalmente, apenas sobre-vivem no solo tambm se podem espalhar para outros terre-nos/campos, caso o solo que seja portador da doena ou restos de plantas se encontre misturado com a semente.

    Nos programas oficiais de certificao de sementes, o mnimo de pu-reza (limpeza) da semente requerido quase sempre 99%. Isto signifi-ca que no deve haver mais de 1 por cento de todas as impurezas mencionadas anteriormente, no seu peso, misturadas com a semente. De acrescentar que, muitas vezes, se encontram listadas as sementes de algumas ervas daninhas problemticas, exigindo-se que no exista qualquer resqucio das mesmas. Mesmo para os pequenos agricultores bom que trabalhem a fim de alcanarem este tipo de exigncia pa-dro. Isso traduzir-se- em grandes benefcios para o utilizador da se-mente.

    Um campo liberto de ervas daninhas constitui a melhor garantia para uma cultura com sementes isentas de ervas daninhas. Tal reveste-se especialmente de importncia no caso de cereais como sejam a mapira

  • Produo de sementes em pequena escala 34

    (sorgo), trigo, cevada, centeio e aveia, na medida em que ervas dani-nhas que se encontram muito relacionadas com estas culturas, como sejam o sorgo bravo (shattercane) e aveia brava podem causar pro-blemas srios. Mesmo as ervas daninhas que no se encontram relaci-onadas com estas culturas, como o caso de ipomea purpurea e carrio-la, podem originar problemas em culturas com sementes muito peque-nas, como sejam o feijo frade/nhemba, os gros de soja e outras cul-turas em que os seus gros so praticamente redondos. Um manusea-mento cuidadoso durante a colheita, a debulha e o joio minimizaro a percentagem de sementes partidas, assim como a quantidade de terra e de pedras que ficam misturadas com a semente.

    Na seco 4.2 continuaremos a debruar-nos sobre este assunto de como obter uma limpeza da semente no terreno/campo e nos captulos 5 e 6 trataremos de mtodos para melhorar a limpeza da semente, du-rante e depois da colheita.

    3.3 Germinao O desempenho mais importante da semente , obviamente, germinar! Uma semente de boa qualidade apresenta uma percentagem elevada de sementes que podem germinar. Em relao aos cereais isto deveria ser, no mnimo, de 85 ou 90 por cento, dependendo da cultura. Em relao s leguminosas, o mnimo situa-se, normalmente, em 80 por cento. Voltamos a insistir que se trata de padres oficiais de certificao de sementes e que para o pequeno agricultor seria bom que os pudesse alcanar.

    Um pequeno produtor de sementes pode facilmente testar a germina-o da sua semente. Para isso poder usar qualquer tipo de recipiente de plstico, ao ou esmalte com uma tampa que veda completamente. (a figura 9 mostra um exemplo) Deve-se evitar materiais como sejam o alumnio, ferro fundido ou qualquer outro que pode ter sinais de fer-rugem, ou que no se pode limpar muito bem, tal como cermica no vidrada ou cabaas. Lave um ou mais recipientes, dependendo do seu tamanho, com gua a ferver e sabo. Forre o recipiente com algumas camadas de papel de cozinha, (de preferncia sem qualquer desenho)

  • Componentes da qualidade da semente 35

    ou mesmo de papel higinico. Humedea o papel e coloque nele, pelo menos, 100 sementes, bem espaadas. Caso necessrio, utilize mais que um recipiente. Cubra-as, em seguida, com outra camada de papel. Humedea, mais uma vez, tape o recipiente e coloque-o num local fresco, fora da luz directa do sol. No ponha gua em demasia, pois a semente tem que poder respirar. Se se tratar de sementes muito peque-nas no necessrio utilizar a ltima camada de papel. Controle todos os dias e acrescente um pouco de gua, caso necessrio. Depois de uma semana, conte quantas sementes deram origem a uma plntula completa, com uma aparncia normal, quer dizer, que no mostre sin-tomas de doena. Diz-se, ento, que estas sementes germinaram. Qual-quer sinal de algo que estranho, que parece apresentar sintomas de doena, que lhe falte alguma parte ou cujo desenvolvimento est mui-to aqum do resto, no deve ser considerado. Nessa altura pode calcu-lar a percentagem de germinao. Em vez de papel da cozinha ou pa-pel higinico, tambm se pode usar areia do rio, mas esta tem que ser crivada antes e esterilizada, pondo-a a ferver numa panela com gua. Deixe a areia arrefecer antes de us-la e plante a semente at profun-didade da espessura da (duma) semente.

    Figura 9: Exemplo de um teste de germinao das sementes so-bre papel de cozinha ou papel higinico

    Uma maneira menos exacta consiste em plantar, pelo menos, 100 se-mentes num pedao de terreno, perto da casa, adequadamente lavrado e com proviso de gua por perto. Contudo, no poder controlar certos factores que podem interferir, entre os quais, chuva excessiva, doenas, insectos ou animais. E o solo

  • Produo de sementes em pequena escala 36

    tambm tem que ser apropriado, isto , no muito pesado e isento de pedras ou que tenha muito adubo.

    3.4 Vigor Quando se fala sobre germinao mnima, referimo-nos, normalmente, percentagem de germinao sob um determinado nmero de condi-es favorveis (tipo adequado de solo solo leve -, a quantidade de gua adequada, temperatura ptima). No campo as condies nem sempre so as ideais e at mesmo as sementes de boa qualidade po-dem denotar uma menor germinao. capacidade das sementes para germinarem e formarem uma plntula forte, mesmo quando as condi-es em que se encontram esto longe de ser ideais, chamada o vigor da semente. As sementes frescas, ss, que ostentam um bom cresci-mento tm, quase sempre, um vigor elevado. At mesmo se as semen-tes se encontram infectadas com doenas, caso estas tenham sido pro-duzidas em plantas com progenitores fracos ou estiveram guardadas durante muito tempo, podem, mesmo assim, ter uma boa germinao se as condies forem as ideais. Contudo, assim que a situao se tor-na mais desfavorvel, a falta de vigor manifestar-se-, claramente, numa emergncia muito reduzida. A melhor maneira para se assegurar que se produz semente vigorosa a utilizao de mtodos slidos de produo. Se deixar matar as suas plantas fome no pode esperar produzir uma semente forte.

    A manuteno de uma boa percentagem de germinao e de vigor constitui a funo mais importante do armazenamento das sementes. Para tal necessrio um ambiente seco e fresco, que no apanhe luz solar directa e que onde no haja insectos, ratos ou qualquer outra pra-ga de armazenamento. Mais informao sobre este assunto pode ser encontrada no Captulo 6 do Agrodok no. 31: O armazenamento de produtos agrcolas tropicais.

  • Componentes da qualidade da semente 37

    3.5 Sanidade da semente Comparativamente aos mtodos vegetativos de propagao (estacas, rebentos, tubrculos, etc.), o cultivo que feito a partir de sementes constitui um bom modo de produzir plantas ss na medida em que a maior parte das doenas das plantas no so transportadas pelas se-mentes.

    No obstante, existe um nmero de doenas que so transmitidas atra-vs das sementes e um produtor de semente dever precaver-se contra elas. Se quiser produzir uma cultura s, o primeiro requisito ter se-mente s, e se o agricultor utiliza semente contaminada, a batalha esta-r meio perdida.

    As doenas podem ser transmitidas, quer dentro da semente, quer ex-ternamente, atravs do contacto com esta. Tal como j mencionmos em 3.2, o solo que se encontra misturado com a semente tambm pode ser portador de doenas, mas nessa altura a doena no considerada com sendo transmitida pela semente. Se a doena se encontra no exte-rior da semente poder, normalmente, ser eliminada atravs de prepa-rados qumicos (desinfectantes) para tratamento da semente. O Captu-lo 6 tratar deste assunto mais pormenorizadamente. No entanto, deve estar consciente que a semente tratada no poder ser utilizada para consumo, no caso da percentagem de germinao ser baixa ou no caso de haver um excesso de produo de sementes. No caso das legumi-nosas que so produzidas para consumo dos seus gros secos, muitas das vezes no se utiliza semente tratada por esta razo. Em muitas das leguminosas a germinao pode baixar de forma rpida, caso as con-dies em que se encontra armazenada no sejam as adequadas. O tratamento, mesmo antes do seu plantio, pode constituir, por vezes, uma soluo.

    As doenas mais problemticas so as que se desenvolvem no enterior da semente, onde os produtos qumicos normais no as podem atingir. So, na sua maior parte, transmitidas por fungos mas, por vezes, tam-bm por bactrias ou vrus. Alguns casos de fungos e bactrias podem ser controlados por produtos qumicos sistmicos, que so produtos

  • Produo de sementes em pequena escala 38

    qumicos que so aplicados na semente da cultura e que so absorvi-dos pela planta e o seu efeito manifesta-se dentro da semente. Nor-malmente trata-se de produtos bastante caros. A nica maneira de con-trolar os vrus e a melhor maneira de controlar fungos e bactrias sem se utilizar produtos qumicos, atravs de um controlo rigoroso de doenas e de prticas sanitrias no campo. Na Seco 4.2 aprofunda-remos os mtodos de cultivo para ajudar a controlar as doenas

    O Quadro 1 apresenta uma lista que inclui doenas que so transmiti-das pela semente e que so propagadas ou causam muitos danos ape-nas em certas reas. No se encontram includas doenas locais cujo impacto relativamente baixo.

    Esta lista bastante assustadora! Tenha em mente, contudo, que cobre importantes doenas transmitidas, em todo o mundo, pelas sementes. Felizmente no existe nenhum pas (ainda?) onde estas doenas ocor-ram todas ao mesmo tempo e embora algumas podem ter-se propaga-do muito, o nvel de danos causados no muito elevado. Um exem-plo a enconchamento das espigas do trigo (que tambm uma doen-a dos nemtodos). E em grandes extenses de zonas com elevada produo de milho na frica Austral no se encontra mldio do milho.

    O que a lista mostra, contudo, que muito importante que produto-res de sementes prospectivos aprendam o mximo que possam sobre estas importantes doenas transmitidas pela semente que podem afec-tar as suas culturas com sementes, na sua rea. Est fora do mbito desta publicao descrever todas as doenas possveis. Na rubrica Leitura recomendada aconselhada uma srie de livros teis que o ajudaro com essa identificao. Tente obter mais informao de agen-tes extensionistas e de outras pessoas experientes/idneas com a cultu-ra com a qual est a tratar.

  • Componentes da qualidade da semente 39

    Quadro 1: Doenas importantes transmitidas pela semente Cultura Externas Internas Cevada ferrugem ferrugem solta *)

    mldio listrado da cevada

    Milho mido/ meixoeira italiano

    espiga verde

    Milho Diplodia podrido da espiga Diversas murchides e dege-nerescncias das plntulas

    mldio *) murchido de Stewart

    Mexoeira cravagem ferrugem dos cereais

    Espiga verde *)

    Arroz mancha castanha podrido-do-p

    mldio bacteriano pstula bacteriana

    Sorgo (Mapira)

    risca bacteriana listrado bacteriano mancha concntrica ferrugem coberta ferrugem solta

    mldio antracnose

    Trigo gorgulho comum enconchamento da espiga ferrugem flag sarna vulgar fusarium (podrido)

    ferrugem solta *) pstula mancha-castanha

    Fava Ascochita Fusarium Grao de bico mldio Ascochita ) Feijo fra-de/nhemba

    antracnose ascochita

    mosaico do feijo nhemba degenesrescncia bacteriana pstula bacteriana mancha-castanha mosaico-dos-afdeos de feijo nhemba marmoramento do feijo nhemba mosaico severo do feijo nhemba mosaico do pepino mosaico austral do feijo

    Amendoins podrido da coroa bolor amarelo

    Fusarium (degenerescncia da semen-te)

    Lentilhas Ascochyta Fusarium vrus de murchido vrus

    Ervilha Ascochita Feijo co-mum

    Ascochita mancha-angular antracnose podrido carvoeira mldio aureolar

    vosaico-comum de feijo vulgar degenerescncia do feijo vulgar

    Feijo bo-er/Congo

    antracnose

    Gro de soja antracnose mldio podrido do caule esclerotinia

    mosaico-comum-da soja risipela pstula bacteriana mldio bacteriano

    *) = Doenas internas que podem ser tratadas com fungicidas sistmicos

  • Produo de sementes em pequena escala 40

    4 Produo de sementes de cereais e leguminosas

    4.1 Escolha da parcela

    Uniformidade A coisa mais importante a considerar quando se escolhe um campo para a produo de sementes a uniformidade. Isso porque assim se seleccionar plantas individuais para as diferentes fases do processo de multiplicao. Ao seleccionar (ou rejeitar) uma planta, preciso estar seguro que tal feito com base nas suas caractersticas herdadas e no porque esta se encontra num lugar muito melhor (ou pior) do campo. Poder ser que seja seleccionada uma planta fraca que se en-contra num lugar frtil sem que consiga not-lo! Tal reveste-se de es-pecial importncia no caso de plantas com polinizao cruzada que tendem a adaptar-se mais rapidamente ao ambiente que as plantas com auto-polinizao. Um campo uniforme deve ser o mais plano e nivela-do possvel (os lugares mais baixos tendem a ser mais hmidos e os mais elevados sero mais secos), no se localiza numa encosta, apre-senta o mesmo tipo de solo, em todo o terreno e no tem rvores altas perto dele. Ainda que um campo perfeitamente uniforme quase im-possvel de encontrar, tente evitar qualquer caso extremo do que foi mencionado.

    Como se pode ver no mencionmos que tem que ser uma boa parcela de terreno! Lembre-se que a seleco das sementes far com que a sua cultivar seja mais apropriada para ser colocada no lugar em que foi seleccionada. Caso se trate da melhor parcela de terreno da aldeia, a cultivar, estar, eventualmente, menos apropriada para condies mais pobres. Uma parcela com caractersticas mdias, no demasiado fr-til, no muito pobre, no muito seca nem muito hmida, ser o melhor. Isto tambm se aplica quando est a produzir semente exclusivamente para o seu estabelecimento agrcola: no utilize a sua parcela mais fr-til, a menos que esta tambm seja a mais uniforme. evidente que um

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 41

    campo muito pobre tambm no apropriado: campos pobres e cultu-ras fracas produzem sementes fracas.

    Caso produza sementes como parte de uma cultura normal e no lhe interesse dedicar-se seleco com vista a um melhoramento genti-co, poder escolher um canto do campo onde as plantas tm uma apa-rncia forte e saudveis, para produzir a semente. Esta constitui uma prtica melhor que ter que escolher, depois, a partir de toda a colheita. Dessa maneira, as sementes tm uma maior probabilidade de ser mais fortes e saudveis que quando tiradas de outros lugares do campo.

    Rotao das culturas A produo duma cultura sempre na mesma parcela de terreno, ano aps ano, no constitui uma boa prtica agrcola. No caso de algumas culturas (p.ex. arroz) por vezes tal pode ser efectuado durante alguns anos, sem dificuldades aparentes. Mas na maior parte das culturas sur-gir problemas com doenas que se acumulam no solo, assim como a exausto da fertilidade do solo. Algumas doenas podem ser origina-das na semente e reduzir a qualidade da mesma. No caso das culturas que manifestam estas doenas a prtica de rotao cultural essencial.

    Um outro problema com o qual se depara quando se produz semente constitudo pelas plantas que brotam da semente que caiu no cho no ano anterior. Caso esteja a tentar manter a pureza da cultivar, tal pode constituir um problema, especialmente se esteve a produzir uma culti-var diferente ou uma cultura aparentada com esta no ano anterior. Se estiver a utilizar a semente por si produzida isto reveste-se de menos importncia mas ainda pode anular em parte o rduo trabalho efectua-do aquando da seleco! Recomenda-se que a rotao da sua cultura de semente se faa com uma outra cultura, totalmente diferente (que no tem qualquer ligao com essa). Uma combinao normal fazer a rotao de culturas de cereais com leguminosas. Caso no se possa fazer uma rotao, tente usar outra parcela de terreno para a mesma cultivar.

  • Produo de sementes em pequena escala 42

    Se houver um problema com ervas daninhas indesejveis que se en-contram aparentadas com a sua cultura e se assemelham muito a ela, a prtica de rotao dar-lhe- a oportunidade de as erradicar. Exemplos disso so a Johnson grass (tambm chamada shattercane ou sorgo/ (mapira) bravo) nas culturas de sorgo/mapira, aveias bravas e arroz vermelho. Tais ervas daninhas tambm devem ser controladas em re-dor dos campos.

    Isolamento No caso das plantas com polinizao cruzada ainda se torna mais complicado (ver apndice) na medida em que o vento e os insectos podem carregar o plen para distncias considerveis e a sua semente pode ser polinizada por uma cultura de um vizinho ou por uma outra cultivar na sua explorao agrcola.

    Caso pretenda que a sua cultivar se conserve pura, ou caso esteja a proceder a uma seleco com vista ao seu melhoramento, querer evi-tar esta polinizao cruzada. Para isso necessrio estar seguro que a sua parcela se encontra isolada de outras parcelas com a mesma cultu-ra. Isto pode ser feito atravs da distncia (isolamento espacial, ver figura 10) ou atravs de uma poca diferente de plantio (isolamento temporal).

    As distncias seguras de isolamento, quer de espao, quer de tempo, diferem de cultura para cultura. O Quadro 2 fornece uma indicao de algumas dessas distncias, que no so absolutas e so influenciadas por muitos factores no campo que faz com que seja necessrio manter distncias maiores. Estas distncias de isolamento tambm se aplicam s plantas selvagens que se encontram na sua vizinhana e que so aparentadas com a sua cultura e se podem cruzar com ela. Tenha em mente que at mesmo s algumas poucas plantas j podem constituir um perigo! Com algumas destas distncias tambm se toma em consi-derao a reduo de transmisso de doenas e o risco de, acidental-mente, se misturar a colheita (ver, tambm, 4.2).

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 43

    Figura 10: Isolamento da produo de sementes

    Com o isolamento em termos de tempo tenta-se evitar uma situao na qual um outro campo est a produzir plen enquanto que as partes fe-mininas da planta no campo em que est a produzir a semente so re-ceptivas ao plen. Esta situao encontra-se muito dependente do cli-ma e da cultura e necessrio fazer-se uma estimativa com base na prpria experincia na sua regio. No esquea de considerar margens de segurana adequadas no caso de mudanas climticas, e mantenha presente que os rebentos e os renovos laterais florescem mais tarde. Quanto menor for a uniformidade da planta ou da cultivar, tanto mais longo tem que ser o perodo de segurana.

    Se o isolamento quer em espao, quer em tempo no funcionar, por qualquer que seja a razo, pode suspeitar que h alguma contaminao e ainda se pode reduzi-la caso se colher apenas as sementes que se encontram no centro do campo ou colhendo apenas a parte que se en-contra mais afastada da fonte do plen proveniente do exterior.

  • Produo de sementes em pequena escala 44

    Quadro 2: Distncias de isolamento

    Polinizao cruzada

    Distncia Intermdia Distncia Autopolinizao Distncia

    Milho 300 m Fava 100 m Gro de bico 5 m Milho mido africano/ -mexoeira

    300 m Feijo fra-de/nhemba

    100 m Mexoeira-de-dedo

    5 m

    Feijo 400 m Feijo boer (Moc.)/Feijo congo (Ang.)

    100 m Amendoins 5 m

    Sorgo/ mapira 100 m Lentillas 5 m Arroz 5 m Gros de soja 5 m Trigo 5 m Cevada 25 m Feijo vul-

    gar(Phaseolus) 25 m

    Amendoim Bam-bara (Feijo jugo, Moc.)

    50 m

    Para alm da polinizao cruzada, quando se planta campos destina-dos a semente demasiado cerca de outros campos com a mesma cultu-ra, tal tambm pode introduzir o perigo de se misturarem ou de, aci-dentalmente, se misturar semente proveniente de origens diferentes. Isto aplica-se tanto no caso da auto-polinizao como da polinizao cruzada. por isso que sempre necessrio manter uma distncia m-nima, mesmo com uma auto-polinizao rgida e at mesmo com cul-turas que se propagam vegetativamente!

    4.2 Produo de culturas com vista produo de semente

    Uma boa cultura de sementes requer todos os mesmos cuidados que uma cultura normal. As culturas vulgares de cereais e de leguminosas, produzidas para serem consumidas como alimento, desenvolvem-se a partir dos mesmos produtos que as culturas de sementes destinadas a serem semeadas apresentando, por isso, muitas semelhanas. Uma cultura s e forte dar uma semente da melhor qualidade, uma cultura

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 45

    fraca produzir semente de qualidade tambm fraca. Contudo, existem certos aspectos que necessitam de uma maior ateno quando se pro-duz semente e nesta seco centrar-nos-emos nesses aspectos.

    Plantio O fundamento de uma boa cultura assenta num plantio correcto. Para alm do mais, muitos dos erros cometidos com o plantio no podem ser corrigidos. Por isso muito importante que esse seja bem feito.

    Utilize semente s e forte. Provavelmente j foi feita uma seleco contra m qualidade da semente, por ocasio da colheita, mas ainda poder remover qualquer semente que tenha apodrecido enquanto es-tava guardada ou apresente danos causados por insectos ou qualquer semente que apresente defeitos, mas que numa primeira seleco no foi detectada. Na Caixa 4 e no Captulo 5 encontra mais informao sobre seleco de sementes. Caso compre semente para iniciar o seu prprio programa de sementes, compre a melhor que possa obter, que deve ser, pelo menos, certificada pelo governo ou vendida por uma empresa ou um agricultor com muito boa reputao.

    Tambm no que se refere ao plantio deve fazer os possveis para con-seguir uma uniformidade, pelas mesmas razes que foram apresenta-das na seco 4.1.1. Lavre o seu solo da maneira mais regular poss-vel, de modo a assegurar que as sementes germinaro fcil e unifor-memente. Plante as sementes a profundidades e distncias uniformes, de modo a assegurar que cada planta possua a mesma quantidade de espao disponvel. O melhor plantar em linhas: de modo a se pro-mover a uniformidade, para facilitar a extirpao de ervas daninhas (monda), para abrandar a disseminao de doenas entre as filas e ser-se mais capaz de reconhecer as plantas espontneas.

    Plantar a uma densidade menor que a normal pode ajudar a reduzir a disseminao de doenas, especialmente nas leguminosas. Tambm pode resultar em sementes maiores e mais vigorosas, embora a produ-o total possa ser menor. No entanto a reduo da densidade das plantas nem sempre constitui uma opo: um espaamento mais am-

  • Produo de sementes em pequena escala 46

    plo resulta, em quase todas as culturas de cereais, numa maior reben-tao ou mltipla produo de espigas. Isto pode causar problemas aquando da colheita, quando as espigas dos rebentos laterais podem ainda no estar suficientemente maduras enquanto as que se encon-tram no caule principal esto quase estragadas. No caso dos amen-doins um espaamento maior pode aumentar a ocorrncia do vrus da roseta. A deciso que tomar tem que ser feita em base das condies existentes.

    No caso de pragas do solo, como sejam os agrtis, constiturem um problema frequente, uma boa ideia utilizar um insecticida para os controlar. Existem iscos granulares simples e baratos para o controlo dos agrtis, que se podem obter em muitos lugares.

    Se, por qualquer razo, a germinao no foi a que se esperava, existe a tentao de preencher as lacunas. Tal no recomendvel, a me-nos que se trate de um problema grave. Normalmente leva ao menos uma semana antes de se poder constatar que existe um problema com a germinao. Em primeiro lugar, o que dever evitar ter no campo plantas com idades diferentes. Plantas que preenchem os buracos tendem a ser suplantadas e dominadas pelas suas vizinhas, mais velhas e que raramente atingem todo o seu potencial. Mesmo no caso de crescerem bem, existe a probabilidade de contrarem mais facilmente doenas que as plantas que foram plantadas primeiro. Caso existam grandes seces/extenses aonde se necessite de preencher os bura-cos, estes pontos podem ser marcados com varas, para lembrar que necessrio estar alerta quando proceder seleco. Mas em tais casos deve-se considerar se no ser melhor arar ou gradar e comear e novo.

    Fertilizao As culturas de sementes requerem, de uma maneira geral, as mesmas quantidades de fertilizao que as culturas para cereais, de modo que poder usar as taxas de fertilizao recomendadas normalmente nas suas condies, caso existam. , no entanto, importante precaver-se quanto a um uso excessivo de azoto (N). Tal resulta num crescimento

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 47

    vegetativo excessivo (caules/talose folhas) custa da florescncia e produz, em geral, uma planta mais fraca, com sementes menos vigoro-sas. Especialmente se se utiliza estrume animal fresco ou outro mate-rial orgnico que no se encontra completamente compostado, pode-se esperar problemas. O melhor mtodo consiste na aplicao de azoto pelo menos em duas aplicaes, uma quando do plantio ou quase a seguir a este e outra entre o plantio e a florescncia (no meio).

    Por outro lado, o fsforo (P) e o potssio (K) so mais importantes que no caso das culturas normais, porque estimulam a florescncia e a produo de um maior nmero de sementes de maior dureza. Tome ateno com o K quando os seus solos so cidos, pois tambm pode ultrapassar o normal e perturbar o equilbrio do solo em cl-cio/potssio. O fsforo (P) muito importante no caso das legumino-sas e ajuda-as a fixar o seu prprio azoto a partir do ar.

    Controlo das ervas daninhas Todos os agricultores esto conscientes dos perigos que as ervas dani-nhas constituem paras as culturas. Elas roubam gua e alimentos das culturas, crescem mais rapidamente, criam sombra e podem asfixiar completamente a cultura.

    Quando se trata de produo de sementes as ervas daninhas ainda so maiores viles. Quando a cultura de sementes debilitada pelas ervas daninhas, tambm produz sementes mais fracas. Durante a colheita as sementes das ervas daninhas podem misturar-se com a semente da cultura o que representar muito trabalho (fazer-se uma limpeza) ou resultar num grande problema na campanha agrcola seguinte, caso uma semente da erva daninha seja plantada conjuntamente com a cul-tura. Algumas ervas daninhas, ou as suas sementes, at se asseme-lham muito cultura e pode ser muito difcil fazer uma distino. Um exemplo disto o arroz vermelho.

    Pode-se utilizar os mtodos normais de controlo das ervas daninhas nas culturas de sementes. O que muito mais importante assegurar que a sua cultura se encontra o mais limpa possvel.

  • Produo de sementes em pequena escala 48

    Por ltimo, algumas ervas daninhas so aparentadas com as culturas e podem, por vezes, cruzar-se com elas. No notar que tal aconteceu at campanha agrcola seguinte, em que algumas das plantas da sua cultura tm um aspecto muito diferente e, normalmente, tm um de-sempenho muito inferior ao resto. Tal constitui em especial um pro-blema nos casos do milho e da meixoeira. Pode ser difcil estabelecer se existem ou no ervas daninhas problemticas ou culturas selvagens aparentadas, na sua regio. Se no poder encontrar um botnico (um especialista em espcies de plantas selvagens) a quem pedir conselho, poder guiar-se pelo Quadro 3 e ver se existe um problema semelhan-te. Esse quadro apresenta uma lista dos centros de origem das culturas. Referimo-nos a lugares no mundo onde os cientistas pensam que os agricultores comearam, pela primeira vez, a tirar determinadas plan-tas da sua forma selvagem e comearam a produzi-las de uma forma organizada, nos seus estabelecimentos agrcolas, processo a que se chama domesticao. Nessas regies ainda existem, normalmente, muitas plantas selvagens que so aparentadas com a cultura, que tm a mesma aparncia e que se podem cruzar com ela. Infelizmente isso no significa que em qualquer outro lugar exista uma segurana abso-luta, mas dar-lhe-, pelo menos, uma ideia sobre o perigo.

    Felizmente tambm existem vantagens da existncia nas redondezas de culturas selvagens aparentadas, pois estas constituem uma valiosa fonte de variao gentica no caso de que surjam novos problemas, como sejam doenas. Caso j se encontre num estdio bastante avan-ado do seu programa de sementes que possa iniciar o melhoramento dos seus cultivares com traos introduzidos, as culturas aparentadas so um dos lugares aonde deve comear procura. Contudo, trata-se dum processo a longo prazo, na medida em que os cruzamentos com as plantas selvagens no s trazem esses traos desejados, mas tam-bm muitos que no so desejados. Uma constante seleco entre os produtos do cruzamento lev-lo-, lentamente, de volta para o tipo original, agora enriquecido com o novo trao. Ver, tambm a propsito a seco 2.5.

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 49

    Quadro 3: Regies da suposta origem de vrias culturas

    Cultura Regio de origem Adlay frica Oriental e de Sudeste, frica tropical Amaranto Andes, Mxico central, Sudoeste das Montanhas Rochosas Amendoim Bambara (feijo jugo)

    frica Ocidental

    Amendoins Amrica do Sul Arroz Do Paquisto at ao Norte da Austrlia Aveias Europa Central e do Sudoeste, Mesopotmia (parte do actual

    Iraque), Etipia Black gram ndia (no conhecido no estado selvagem) Centeio Da frica do Norte at ao Afeganisto Cevada Da Lbia at ao Afeganisto Ervilhas Da Europa sia Central e Ocidental, Etipia (no conhe-

    cida no estado selvagem) Fava Mediterrneo e sia do Sudeste Feijo Amrica Central Feijo /nhemba frica e sia Feijo boer(Moc.)/Feijo congo (Ang.)

    frica, Madagscar, ndia

    Feijo Adzuki Japo, China Feijo lima Amrica Central e do Sul Feijo mungo ndia, Burma (no conhecido no estado selvagem) Feijo vulgar Amrica Central e do Sul Gro de bico sia Ocidental e do Sul (no conhecido no estado selva-

    gem) Gro de soja sia Oriental, principalmente China Lentilhas Europa do sul, sia Ocidental e ndia Meixoeira-de-dedo Africa Milho Do Mxico at aos Andes centrais (no conhecido no

    estado selvagem) Milho mido africano /mexoeira

    frica Central e Ocidental

    Milho mido vulgar Da sia Central Oriental (no conhecido no estado sel-vagem)

    Milho mido italiano Origem na China? Naturalizada como erva daninha em qua-se todas as regies quentes

    Quinoa Andes Central, Mxico Central Sorgo/mapira frica Central e Oriental Teff Etipia Trigo Balco do Sul at Afeganisto, Etipia Trigo mourisco Da ndia do Norte at Sibria

  • Produo de sementes em pequena escala 50

    Irrigao No caso de poder dispor de irrigao para a sua cultura, h uma srie de novas opes que se tornam possveis. Isso faz com que para alm de melhorar a sua produo/rendimentos, na medida em que ajuda a cultura a ultrapassar perodos de seca e assegurando, de forma geral, que no se verifique stress motivado pela seca, tambm poder plantar em estaes diferentes. Desta maneira, reduzir-e- ou eliminar-se- o perigo de polinizao cruzada proveniente de outros campos, assim como se evita os perodos do ano em que existe uma maior presso de doenas. No entanto, caso a semente se destine a ser utilizada em con-dies em que no existe irrigao, no deve usar o seu campo irriga-do para proceder a seleco.

    No obstante, se a produo de sementes se efectuar em grandes reas irrigadas, pode perder-se esta vantagem em relao s pragas e doen-as. Isto porque uma cultura plantada fora da estao pode oferecer praga de insectos ou ao organismo de doena uma maneira de ultra-passar os constrangimentos da estao desfavorvel (que podem ser suficientemente severos para aniquilar a praga ou a doena) e permitir que esta ataque a cultura principal ainda de maneira mais severa. Te-nha, portanto, cuidado.

    Para alm disso, deve assegurar-se que a gua que utiliza para irriga-o no veicula doenas. Verifique de onde vem e assegure-se que no entre em contacto com culturas do mesmo tipo que se encontram num plano mais elevado.

    Os mesmos mtodos de irrigao que so usados na produo normal das culturas tambm podem ser utilizados na produo de sementes. O regadio (rega por escorrimento superficial) apresenta uma vantagem importante na medida que mantm as plantas secas e, por isso, reduz as possibilidades de disseminao de doenas. Esta a razo por que se prefere sistemas de regadio a sistemas de asperso no caso de produ-o de sementes. A micro-irrigao (sistema de rega gota a gota e es-corrimento/drenagem sub-superficial) tambm preferido pela mesma razo, a acrescentar o facto de ser muito melhor no que respeita sua

  • Produo de sementes de cereais e leguminosas 51

    eficincia quanto ao uso de gua. Os sistemas de rega gota a gota cos-tumavam ser muito dispendiosos, mas as verses mais simples esto, pouco a pouco, a tornar-se mais acessveis.

    Controlo de pragas e doenas A importncia de sementes ss j foi mencionada na seco 3.5. Com o objectivo de controlar as doenas o primeiro e mais importante pas-so que o produtor de sementes se familiarize com os sintomas das doenas mais importantes na sua regio e quais so as que so trans-mitidas atravs da semente. No se pode descurar nem mesmo as do-enas que no tm a sua origem nas sementes, na medida que elas po-dem provocar uma reduo drstica dos rendimentos e podem ocultar os sintomas das doenas transmitidas atravs das sementes. Pea con-selho a pessoas idneas neste campo, tais como sejam agentes exten-sionistas trabalhando para instituies governamentais, professores em Escolas Superiores ou Universidades ou at mesmo pessoal com for-mao tcnica, ao servio de companhias de produtos qumicos. Con-sulte, tambm, os livros aconselhados na rubrica Leitura Recomenda-da.

    As pragas por vezes so importantes portadores e transmissores de doenas das culturas, causando, desta maneira, danos. Tais danos po-dem reduzir os rendimentos, mas no constituem, normalmente, um perigo para o estado sanitrio da semente. A maioria dos insectos su-gadores, como sejam os afdeos e as cicadas ou cigarrinhas (ver figura 11), que propagam doenas virais em muitas culturas de cereais e de leguminosas, constituem um exemplo de portadores de doenas.

    Como no caso de qualquer doena, a preveno melhor que a cura. Para tal necessrio que haja uma higiene da cultura. Comece com semente s, tal como j mencionmos na seco 3.5. Tenha em mente que, mesmo que a semente parea estar s e limpa, h a possibilidade de haver esporos ou outros organismos de propagao de doenas que podem ser transportados em materiais, aparentemente inofensivos, como o caso de palha ou de terra. Faa tudo o que estiver ao seu alcance para que a situao no terreno seja o menos atraente possvel

  • Produo de sementes em pequena escala 52

    para a propagao de doenas. Para tal necessrio que se inicie a cultura num terreno limpo, arado, para que no haja resduos das cul-turas (muitas das vezes as doenas sobrevivem nos restos das cultu-ras), limpeza das ervas daninhas/monda (as ervas daninhas muitas das vezes abrigam as mesmas doenas que as culturas), mtodos de irriga-o que mantm as folhas secas e controlo do todos os movimentos de pessoas e de maquinaria na cultura. As doenas virais, em particular, podem ser facilmente transmitidas atravs das botas, enxadas, rodas ou at mesmo mos. No entre, nunca, em campos cultivados com sementes durante a manh, quando as plantas ainda esto molhadas. Caso tenha mais que um campo com a mesma cultura assegure-se que os trabalhadores comeam o trabalho sempre nos campos mais saud-veis e, ento, mude para os menos saudveis e nunca ao contrrio.

    Figura 11: Afdeo, preto ou verde, B: Cicada ou ciga