Psicologia empirica em kant

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  • O LUGAR DA PSICOLOGIA EMPRICA NO SISTEMA DE KANT

    LEOPOLDO FULGENCIO PUCSP

    leopoldo@centrowinnicott.com.br

    Resumo: Este artigo pretende mostrar que, para Kant, a psicologia emprica deve ocupar um lugar anlogo ao da fsica emprica. Isso pode ser explicado levando-se em considerao a distino entre uma cincia da natureza ge-nuna (cincia a priori), que no seria possvel para a psicologia, e uma cincia natural no-genuna (uma histria natural que fornece apenas leis empricas para seus objetos) a qual caracterizaria a psicologia como uma cincia emprica. Defende-se que Kant deixou um fio condutor para a construo dessa psicologia emprica, seja indicando um quadro transcendental no no que se refere formulao de uma psicologia racional, mas caracterizvel pela aplicabilidade dos princpios do entendimento terico a seus objetos, seja oferecendo um quadro heurstico para a pesquisa emprica dos objetos dados ao sentido interno. Ao final, demonstra-se que grande parte das propostas de uma psicologia cientfica ps-Kant est construda sob influncia desse quadro kantiano, ainda que existam concep-es de psicologia emprica elaboradas fora desse quadro. Palavras-chave: Metafsica da natureza. Cincia a priori. Cincia emprica. Psicologia. Heurstica. Abstract: The article intends to show that Kant considers that empirical psychology should occupy a place analo-gous to empirical physics. This can be explained taking into consideration the distinction between a genuine natural science, an a priori science, which would not be possible for psychology, and a non-genuine natural science, a natu-ral history that furnishes only empirical laws regarding its objects, which would categorize psychology as an empiri-cal science. It is defended that Kant provided a guideline for the construction of such an empirical psychology, indicating a transcendental framework, not in that which refers to the formulation of a rational psychology, but char-acterized by the applicability of principles of theoretical understanding of its objects, offering a heuristic framework for the empirical research of the given data based on their internal meaning. Finally, it is indicated that a great part of the proposals of scientific psychology post Kant are constructed under the influence of this Kantian framework, even though there exist concepts of empirical psychology that are elaborated beyond this framework. Key-words: Metaphysics of nature. A prior science. Empirical science. Psychology. Heuristic.

    1. INTRODUO

    Pode-se considerar um fato a psicologia ainda no ter se estabelecido como uma cincia

    com a mesma maturidade e unidade que a fsica moderna. Em nossa poca, ela ainda vive (se-

    gundo a opinio de Thomas Kuhn, que se diz um ps-kantiano1) num perodo pr-

    paradigmtico,2 com indcios de um amadurecimento.3 A questo sobre a possibilidade ou a im-

    1 Agora pode estar claro que a posio que eu estou desenvolvendo um tipo de kantismo ps-darwiniano. Como as categorias kantianas, o lxico fornece precondies da experincia possvel. Mas as categorias lexicais, ao contr-rio de seus antecessores kantianos, podem e de fato mudam, tanto com a passagem do tempo como com a passagem de uma comunidade a outra (Kuhn 1990, p. 104). 2 Considero o leitor familiarizado com as propostas de Kuhn apresentadas em A estrutura das revolues cientficas (1975 [1970]). 3 No que se refere possibilidade de a psicologia vir a ter um paradigma, estabelecendo-se como uma cincia, Kuhn afirma estou ciente de que nenhum princpio barra a possibilidade de uma ou parte de uma cincia humana de en-contrar um paradigma capaz de suportar [a pesquisa] normal, como a pesquisa de soluo para quebra-cabeas. E a probabilidade da ocorrncia dessa transio , para mim, incrementada de forte sentimento de dj-vu. Muito do que normalmente dito para defender a impossibilidade de pesquisa para soluo de quebra-cabeas nas cincias hu-manas foi dito h dois sculos atrs para barrar a possibilidade da qumica [de ser uma cincia] e repetido um sculo

    Kant e-prints. Campinas, Srie 2, v. 1, n.1, p. 89-118, jan.-jun. 2006.

    mailto:leopoldo@centrowinnicott.com.br

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    possibilidade da constituio da psicologia como uma cincia permanece um problema no re-

    solvido. Parece, pois, que a anlise das posies de Kant que estabeleceu um programa de pes-

    quisa a priori para as cincias da natureza4 sobre o lugar epistemolgico a ser ocupado pela

    psicologiapode contribuir para o desenvolvimento desse problema.

    Para Kant, a fsica de sua poca, instituda com as obras de Kepler e Newton, podia ser

    considerada uma cincia, com os fundamentos filosficos explicitados numa fsica racional ou

    transcendental.5 No entanto, a situao da psicologia era muito diferente. Sobre ela, Kant afir-

    mou tanto a impossibilidade de constituir-se como uma cincia genuna6 quanto que a psicologia

    emprica deveria ocupar um lugar anlogo ao da fsica emprica.7

    Trata-se, aqui, de explicitar o significado dessas afirmaes de Kant para entender o lugar

    reservado para a psicologia emprica no seu sistema. Para isso, proponho o seguinte desenvolvi-

    mento: primeiro, esclarecer o que significa o programa kantiano de pesquisa a priori para as ci-

    ncias da natureza, no que se refere metafsica da natureza presente e necessria a essas cin-

    cias e no que diz respeito a alguns aspectos metodolgicos desse programa, que ofereceriam gui-

    as para a pesquisa emprica; depois, no quadro desse programa, indicar a opinio de Kant sobre o

    lugar a ser dado psicologia emprica, considerando a distino que ele faz entre uma cincia

    natural no seu sentido genuno (uma cincia racional ou transcendental) e uma cincia natural no

    sentido no-genuno (que melhor caracterizvel como uma teoria emprica da natureza ou his-

    tria natural); e, por fim, tendo especificado um quadro transcendental e heurstico deixado por

    Kant para a construo da psicologia como uma cincia emprica, fazer algumas referncias s

    propostas de construo de psicologias cientficas ps-Kant quanto pertena ou no delas a

    esse quadro.

    2. CARACTERSTICAS GERAIS DO PROGRAMA KANTIANO A PRIORI PARA AS CINCIAS DA

    NATUREZA

    Antes de fazer um esboo do que o sistema de Kant para a compreenso do seu progra-

    ma de pesquisa a priori para as cincias da natureza, convm retomar qual o sentido especfico

    do termo metafsica na sua filosofia. At Kant, a metafsica dogmtica era a parte do conheci-

    mento filosfico que se ocupava de conhecer os primeiros princpios e as primeiras causas. Esse

    tipo de conhecimento estava dividido em duas partes: a metafsica geral ou ontologia e a metaf- mais tarde para mostrar a impossibilidade de uma cincia sobre as coisas vivas. Muito provavelmente a transio que estou sugerindo est j a caminho em algumas especialidades atuais dentro das cincias humanas. Minha im-presso que, em partes da economia e da psicologia, o caso j pode ter ocorrido (Kuhn 1989, p. 222). 4 Conforme explicitado por Loparic em A semntica transcendental de Kant (Loparic 2000). 5 Exposto no livro Princpios metafsicos da cincia da natureza (Kant 1786). 6 Cf. Kant 1786, pp. 16-17; A 10. 7 Cf. Kant 1787, B 877.

    Kant e-prints. Campinas, Srie 2, v. 1, n.1, p. 89-118, jan.-jun. 2006.

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    sica especial; esta ltima, por sua vez, seria subdividida em trs partes, tratando, respectivamen-

    te, da alma, do mundo e de Deus. Com a Crtica da razo pura, a metafsica dogmtica substi-

    tuda por uma metafsica crtica que visa conhecer no mais o ser ou os seres neles mesmos, mas

    estabelecer princpios racionais de exposio dos fenmenos para a formulao de suas leis.

    Como diz Loparic:

    Em Kant, a metafsica tradicional chega ao seu fim no somente como teoria dogmtica, mas co-mo teoria, como saber racional do que as coisas so, sendo substituda por uma metafsica da natu-reza que diz como preciso pensar que as coisas so, a fim de que os problemas de sua determi-nao emprica possam ser solucionados. (Loparic 2003a, p. 6)

    O sistema de Kant redefine, pois, o sentido e o papel do que se entende por metafsica,

    explicitando, para cada ramo especfico do conhecimento possvel (o homem e a natureza), um

    conjunto de princpios a priori que serviro como guias de exposio dos fenmenos naturais e

    como programas de pesquisa a priori. nesse sentido que poderamos considerar que h em

    Kant duas metafsicas: uma fornecendo os princpios a priori necessrios para conhecer a natu-

    reza, a metafsica da natureza, e outra os princpios a priori para conhecer a ao do homem, a

    metafsica dos costumes.8

    2.1. Cincia da natureza e metafsica da natureza9

    Por natureza, Kant entende no o sentido formal do termo (a natureza disso ou daquilo,

    como algo que inerente existncia de uma coisa), mas seu sentido material, como o complexo

    de todas as coisas que podem ser dadas como objetos dos nossos sentidos: entendendo, pois, por

    essa palavra a totalidade de todos os fenmenos, ou seja, o mundo dos sentidos, com excluso de

    todos os objetos no sensveis (Kant 1786, p. 13). Ainda que, para ele, exista uma nica nature-

    za, enquanto totalidade dos fenmenos, esta pode ter dois tipos de objetos, segundo a diferena

    fundamental dos nossos sentidos: os objetos dados aos sentidos exteriores e os objetos dados ao

    sentido interno. Assim, teramos uma dupla teoria da natureza, uma que se ocuparia da natureza

    extensa, a doutrina dos corpos, e outra que considera a natureza pensante, a doutrina da alma.

    Por cincia, Kant consider