Publicado na Revista AEC-Versão final para publicação (reduzida)

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Obs: versão atualizada e ampliada está disponível em VASCONCELLOS, Celso dos S. Coordenação do Trabalho Pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula , 4 a ed. São Paulo, Libertad, 2003. Publicado na Revista AEC out/dez de 2000 (n. 117) (Des)Alienação do Cotidiano Escolar Sobre as relações um tanto obscuras e tenebrosas entre o Vestibular e os Cavaleiros do Apocalipse Pedagógico (o conteúdo preestabelecido sem sentido, o professor falando o tempo todo e a avaliação classificatória) Celso dos S. Vasconcellos * O cotidiano, por ele mesmo, enquanto apreensão imediata, não nos leva a lugar algum; inserido que está num circuito alienado, reificado, de morte, tende a ser reposto. Por outro lado, o mesmo vale para a reflexão pedagógica: de nada adianta, quando isolada, protegida pelos muros da academia. A emergência do cotidiano enquanto categoria de abordagem da prática educacional, perpassada, portanto, pela reflexão crítica e coletiva, tem se mostrado como um caminho extremamente fértil no enfrentamento dos desafios da sala de aula e da escola. I—Algumas (eternas) queixas É profundamente angustiante a observação da insondável inércia do cotidiano escolar: há tantos séculos algumas críticas são feitas e certas práticas escolares continuam a reinar solenemente... É claro que existem mudanças, e é isto inclusive que nos anima a continuar na luta. Mas se * Doutor em Didática pela USP, Mestre em História e Filosofia da Educação PUC/SP, filósofo e pedagogo; responsável pelo Libertad -Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica. ee: [email protected]
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Publicado na Revista AEC-Verso final para publicao (reduzida)

Obs: verso atualizada e ampliada est disponvel em

VASCONCELLOS, Celso dos S. Coordenao do Trabalho Pedaggico: do projeto poltico-pedaggico ao cotidiano da sala de aula, 4a ed. So Paulo, Libertad, 2003.

Publicado na Revista AEC out/dez de 2000 (n. 117)

(Des)Alienao do Cotidiano Escolar

Sobre as relaes um tanto obscuras e tenebrosas entre o Vestibular e os Cavaleiros do Apocalipse Pedaggico (o contedo preestabelecido sem sentido, o professor falando o tempo todo e a avaliao classificatria)

Celso dos S. Vasconcellos*O cotidiano, por ele mesmo, enquanto apreenso imediata, no nos leva a lugar algum; inserido que est num circuito alienado, reificado, de morte, tende a ser reposto. Por outro lado, o mesmo vale para a reflexo pedaggica: de nada adianta, quando isolada, protegida pelos muros da academia. A emergncia do cotidiano enquanto categoria de abordagem da prtica educacional, perpassada, portanto, pela reflexo crtica e coletiva, tem se mostrado como um caminho extremamente frtil no enfrentamento dos desafios da sala de aula e da escola.

IAlgumas (eternas) queixas

profundamente angustiante a observao da insondvel inrcia do cotidiano escolar: h tantos sculos algumas crticas so feitas e certas prticas escolares continuam a reinar solenemente... claro que existem mudanas, e isto inclusive que nos anima a continuar na luta. Mas se considerarmos os esforos feitos e o tamanho dos resultados obtidos...

muito comum a queixa dos alunos em relao falta de sentido daquilo que esto estudando. Todavia, extremamente desconcertante ouvir semelhante queixa dos prprios professores! O que ocorre em alguns contextos escolares alienao pura.

Podemos incluir ainda os clssicos problemas de metodologia passiva (o professor falando, falando, falando e o aluno ouvindo, ouvindo, ouvindo...) e dos estragos da avaliao (a necessidade de quantificar, de dar nota, os altssimos ndices de reprovao e evaso escolar).

Esto, pois, apresentados os trs cavaleiros do apocalipse pedaggico (como os tenho chamado junto com o prof. Danilo Gandin): o contedo preestabelecido sem sentido, o professor falando o tempo todo e a avaliao classificatria. Se voc deseja acabar com qualquer processo educativo significativo, emancipatrio, libertador, chame um dos trs...

Antes de prosseguir na anlise, cabe fazer um destaque: existe um quarto cavaleiro que pode ser acionado para afundar de vez, no caso de ter ainda sobrado alguma em p: as condies precrias de trabalho!

Se algo vem acontecendo porque, de alguma forma (a ser investigada), corresponde a uma condio de possibilidade e a alguma necessidade. O que faz com que seja possvel que a prtica tradicional (com t minsculo) permanea presente na escola? A que interesse responde?. Por qu certas prticas persistem (apesar da crtica e das sugestes)? Poderamos levantar uma srie de fatores: desde as condies de trabalho at o descompromisso dos educadores, passando por sua formao, pelas formas de organizao da escola, do sistema educacional e suas polticas, etc. Neste artigo, vamos analisar uma dessas possveis causas: a presso externa a que o professor est submetido no seu cotidiano em relao aos exames. O problema de fundo a ser encarado o seguinte: at que ponto podemos avanar efetivamente nas prticas cotidianas sem termos em conta criticamente a lgica classificatria e seletiva em geral e, em particular, os vestibulares? Esta problematizao pode provocar estranheza ao leitor, mas esperamos poder fundament-la adequadamente, bem como buscar algumas alternativas de enfrentamento .

Equvoco x Farsa

No de hoje que vrios estudos apontam os exames (expresso mais concreta da avaliao classificatria e excludente) como grande fator de distoro da prtica educativa. Diante deste fato, a nosso ver, ou estamos diante de um equvoco analtico ou de uma farsa educacional. O equvoco se daria por conta de que, na verdade, os exames (em particular os vestibulares) seriam apenas a bola da vez, a justificativa encontrada no momento para se fazer o que sempre se fez na escola, qual seja, a nfase dada na escola bsica aos contedos alienados, passividade e seleo continuariam mesmo que o vestibular fosse extinto. A farsa viria do fato de que os exames, em sendo um dos grandes entraves, no vm sendo denunciados e enfrentados como tal.

Consideramos que frgil a sustentao da hiptese de equvoco, tendo em vista todo o avano que houve na teoria pedaggica, na epistemologia em geral (crtica disciplinaridade rgida, p. ex.) e na educacional (melhor compreenso dos processos de construo do conhecimento por parte do aluno), na teoria crtica do currculo, etc. Do ponto de vista da prtica, temos tambm evidncias fortssimas da influncia do vestibular na educao; seria muito difcil negar a interveno do vestibular nas expectativas dos pais e dos alunos, no imaginrio e no discurso dos educadores e da mdia, alm de todo um mercado de produtos e servios voltado para os concursos. De qualquer forma, mesmo que o vestibular hoje fosse apenas um grande libi para se fazer o que se faz na escola bsica, cremos que valeria a pena desmontar tal libi, para que, no mnimo, a contradio pudesse se manifestar de forma mais clara e como tal ser denunciada e superada.

Como se pode depreender pela colocao anterior, nossa posio de que estamos diante de uma grande farsa educacional, onde, por ingenuidade ou medo, no temos enfrentado o problema na sua raiz. Esperamos que as reflexes que seguem possam ajudar nesta direo.

IIRelaes inconfessas

Cremos que nossa tarefa hoje, mais do que trazer novas propostas, refletir sobre os entraves na sua concretizao, uma vez que, insistimos, j existem disponibilizadas muitas perspectivas de ao. Poderamos ficar anos a criticar tal situao... relativamente fcil, tem um efeito catrtico, porm no nos leva muito longe! Cabe investigar: por que continua acontecendo? Como explicar tais fatos?

A hiptese que temos trabalhado que dos trs cavaleiros, o mais decisivo o relativo avaliao. Vamos procurar justificar tal hiptese.

Se h tanto tempo se faz a crtica educao tradicional, se j existe um rol enorme de propostas novas, como entender a presena de prticas arcaicas? Como explicar a ao do professor nesta direo? O que podemos constatar com muita freqncia que o professor fica inquieto com o julgamento que ser feito da sua pessoa, seja por parte dos dirigentes, dos colegas, dos pais ou dos prprios alunos, ainda que de maneira informal. Vai ser submetido a uma avaliao classificatria, onde no quer ser reprovado. Ora, socialmente a tarefa educativa do professor est muito associada (imagem psicolgica coletiva) ao transmitir os contedos. Assim, ele comea a se empenhar no cumprimento do programa, seja para no ser julgado fraco, para no mandar aluno sem base para a srie seguinte, para preparar para o vestibular ou mesmo para no prejudicar o aluno no caso da transferncia para outra escola. Vejam bem, estamos aqui diante de uma das grandes chagas da educao escolar: a preocupao formal com o programa. E por que importante cumprir o programa?

No fundo, para que o aluno no v mal em futuras avaliaes...Portanto, por detrs desta preocupao doentia com o contedo est a avaliao seletiva. A nsia do professor passa a ser ento, na prtica, dar conta do programa, pois desta maneira ter feito sua parte. Se a meta esta, a melhor estratgia de trabalho em sala a meramente expositiva, o aluno quieto e professor falando, j que assim as aulas rendem mais. Cumprir o programa com os alunos ou apesar dos alunos.

medida que usa uma metodologia passiva, o interesse do aluno tende a cair, uma vez que no v significado naquilo que est sendo proposto e, como no h um clima de participao ativa, no tem como entrar na aula. Caindo o envolvimento, comeam a aparecer os problemas de disciplina. Neste momento, bastante comum o professor usar a nota como arma para controle de comportamento; ao agir assim, de um lado, est distorcendo o sentido da avaliao, portanto, reforando seu vis tradicional, e, de outro, leva a um distanciamento entre ele, o aluno e o objeto de conhecimento, reforando a alienao pedaggica, o que, por sua vez, acaba reforando o desinteresse, realimentando o ciclo vicioso. Alm disto, a questo essencialmente pedaggica fica camuflada, j que, pelo menos num primeiro momento, o incmodo se resolve, ou melhor, sufocado pela presso da nota. A prpria questo da indisciplina, por sua vez, demandar tempo para ser administrada, o que significar menos tempo para dar os contedos, levando a aumentar a angstia em cumprir o programa, reforando a prtica passiva em sala, realimentando mais uma vez o ciclo.

A avaliao tradicional vai influenciar tambm a organizao da coletividade de sala de aula no sentido dos relacionamentos entre os alunos, marcados por preconceitos alimentados pelos resultados obtidos nas provas.

Como vemos, por detrs de grandes problemas pedaggicos (contedos formais, desinteresse, distncia na relao professor-aluno, metodologia passiva, etc.), est a avaliao classificatria, contaminando todas as prticas e relaes na escola. Por aqui podemos constatar esta dimenso deseducativa da avaliao, na medida em que nega a prpria relao pedaggica, vindo a constituir-se como funo estruturante da prtica educativa na perspectiva de regulao autoritria da mesma.

s vezes, a prpria introduo da avaliao seletiva que vai gerar o no-conhecimento, na medida em que o aluno fica to preocupado com ela, que acaba se bloqueando para a aula. E pensar que a avaliao teria como finalidade ajudar a aprendizagem...

De certa forma, o professor acaba utilizando uma didtica do atalho, o que significa dizer que d logo o contedo pronto, faz a mera transmisso, ao invs de propiciar o movimento de construo conceitual. Por sua vez, o aluno tambm desenvolve seu atalho: os mecanismos de obter nota, a cola na sua verso material ou mental (decoreba: pouco tempo depois da prova, esqueceu tudo).

A avaliao classificatria, portanto, alm de levar excluso, no permite descobrir as falhas do prprio processo de ensino-aprendizagem (por focar apenas o aluno), impedindo uma renovao mais radical da prtica pedaggica.

IIIO efeito do Vestibular (ou a mo invisvel que determina o cotidiano)

Neste contexto da classificao, h um desdobramento especfico que se traduz numa lgica estpida, muito perversa no conjunto do sistema educacional brasileiro: a grande preocupao da escola de ensino fundamental e mdio com a preparao para o vestibular. Tal nfase vem servindo de forte libi para a no-mudana da prtica pedaggica tradicional, conteudista, repetitiva.

1-Tema-Tabu

Constatamos, todavia, que esta questo no enfrentada e aprofundada, ficando como uma espcie de verdade maior, implcita e inquestionvel. O vestibular um tema-tabu: uma espcie de entidade metafsica que paira para alm do bem e do mal... Simplesmente no se fala abertamente sobre ele tanto na academia quanto na escola. H uma espcie de legitimao a priori (cf. Passos, 1999: 22), algo que no se pode por em questo, que assim mesmo, etc.

Estamos aqui num campo delicado, que vai, muitas das vezes, para alm das intenes imediatas ou conscientes. Assim, por exemplo, analisando projetos poltico-pedaggicos de muitas instituies, no vemos mencionada uma vez sequer a palavra vestibular ou concurso. Ora, o que concluir? Se o projeto a expresso da identidade da escola e se o vestibular no mencionado, decorreria que este no teria importncia para tal instituio. No entanto, no cotidiano de muitas escolas, o vestibular o grande paradigma de organizao do ensino! s vezes, aquilo de que menos se fala o que mais influencia, domina...

Parece que, como diz Gandin, fica-se a brincar de fazer comidinha (deixa os idealistas de planto, os incuos sonhadores falarem de projeto educativo, formao de professor, avaliao, currculo, humanizao, infncia, alegria, crescimento, conscincia crtica, cidadania, sensibilidade, criatividade, felicidade), enquanto que as decises srias (o saber que conta na hora do vamos ver, o nmero de vagas, os recursos, as leis da educao) so tomadas em outro lugar e por outros agentes... Tudo indica haver um pacto mesmo neste sentido: Ns deixamos vocs falarem sobre estas coisas, e vocs no mexem com a gente. incrvel o silncio da intelectualidade em relao ao vestibular! Foi denunciado, por exemplo, por Marx (ao apontar o exame como mediao da cultura com o Estado), por Weber (como parte da lgica da burocracia), por Foucault (ao tratar da origem das disciplinas na sociedade moderna), por Passeron (ao analisar concretamente o sistema de educao francs), Perrenoud (ao tratar da produo do fracasso escolar), e, entre ns, por Margot Ott, Luckesi, Luis Carlos Freitas, Vasconcellos, dentre outros. Mas parece adormecido. Temas at mais antigos, como a metodologia de trabalho em sala de aula (basta lembrar de Comnius, sculo XVII...), esto constantemente sendo estudados e debatidos. J com os vestibulares, que obra trata deles? (talvez lembremos apenas de algum oportunista que descobriu o filo e escreveu um livro de auto-ajuda, do tipo como passar no vestibular, tudo o que voc precisa saber para se dar bem no vestibular, faa vestibular com seu filho). Que revista especializada em educao tem tratado o tema? So tantas as publicaes hoje na rea de educao, mas praticamente nada que o aborde. Repare bem, um tema vergonhosamente proscrito da reflexo crtica educacional: h um gradiente, um vazio, entre toda uma produo sobre a educao bsica, de um lado, e a produo relativa ao ensino superior, do outro. A idia de um pacto de silncio no de se descartar.

Ser, no entanto, tema de conversa animada fora dos crculos escolares: na famlia, nos cursinhos, entre os amigos e at na mdia... Alm disto, estar fortemente presente no discurso dos professores na sala de aula, no currculo oculto, naquilo que no est planejado ou registrado, mas que acontece na escola, servindo de grande fator motivador: Professor, para qu aprender isto?, matria de vestibular; Professor, eu no vejo o menor sentido nisto..., Pode ser que no tenha mesmo muito sentido, mas faz parte do programa do vestibular; Gente, isto importante, pois costuma cair no vestibular.

No mbito da crtica pedaggica, vai-se fundo na questo da falta de verbas, de condies de trabalho, de legislao educacional, da defasagem na formao dos educadores, da falta de participao dos pais, da qualidade do material didtico, etc.; critica-se, ao mesmo tempo a lgica social maior, desumana e seletiva. Porm, pouco se avana na compreenso da mediao entre a esfera social e a educacional, que passa exatamente pelo exame vestibular. Pode-se argumentar que isto bvio, mas como dizia Paulo Freire, temos que dizer o bvio! Por esta coisa de ficar implcito, pode ganhar ainda mais fora, j que no se toma conscincia, nem se discute.

Terra de Ningum

A quem cabe a responsabilidade pelo vestibular? Os professores de educao infantil dizem que se submetem a certas exigncias formais em funo da cobrana dos de 1a a 4a srie, que por seu turno dizem o mesmo em relao aos de 5a a 8a, que apontam as demandas dos professores do ensino mdio, que finalmente acusam o programa do vestibular. Resumindo, parece escapar pelos dedos a possibilidade da educao bsica interferir no concurso. A UNE (Unio Nacional dos Estudantes), com o perdo da ironia (sabemos que os tempos so difceis, de gelia geral), parece to preocupada com as carteirinhas para pagar meia entrada no cinema, que nem tem tempo para se preocupar com o vestibular... O governo, por seu lado, diz que, em funo da autonomia universitria, a definio do vestibular atribuio de cada instituio.

No Guia do Vestibulando da UNESP (vestibular 91), depois de apresentar o processo como seleo justa, a pgina seguinte traz uma matria com o ttulo As opinies de quem conhece, onde a palavra dada sabe a quem? Nada mais, nada menos que aos professores dos grandes cursinhos (sic)... No guia do ano seguinte, a mesma seqncia: apresentao do exame como sistema ideal e a opinio dos (mesmos) mestres no assunto. Se no fosse maldade, dava vontade de se pensar isto tudo como uma verdadeira mfia!

Caixa-Preta

No interior das universidades o vestibular tambm no tematizado abertamente. As prprias faculdades de educao, freqentemente, so alijadas de qualquer interferncia na elaborao dos exames, naturalmente, em nome do sigilo (uma produo com requintes dignos de um filme de espionagem Guia do Vestibulando da Unesp), da segurana e da lisura do processo seletivo.

Os membros das comisses de vestibular, por sua vez, tm como tarefa selecionar, no estando, muitas vezes, preocupados com as questes educacionais ou com a repercusso dos exames na organizao do ensino bsico. Pouqussimas so as universidades que chamam a comunidade para discutir seus critrios de seleo.

Adianta entender, se no se pode mudar?

Este parece ser um posicionamento subliminar aceitao passiva da lgica excludente do vestibular: Se nada podemos fazer para alterar, de que adianta ficar gastando fosfato refletindo sobre ele?. E, mais uma vez, camos no conformismo...

No podemos perder de vista que esta lgica /vem sendo uma construo humana; portanto, pode ser refeita, reinventada. No podemos perder de vista uma questo fulcral: o homem que faz a histria! certo que no nas condies que escolheu (cf. Marx), mas ele (pessoal e, sobretudo, coletivamente) que faz a histria. Abrir mo disto deixar de acreditar na possibilidade de mudana e, conseqentemente, no princpio-fundamento mesmo da ao educativa: se no acreditamos na possibilidade de mudana do outro, nossa, da realidade, o que estamos fazendo em sala de aula???

Podemos (ainda) no resolver de vez, mas j avanar: embora o pas continue um dos campees mundiais de concentrao de renda, j conseguimos colocar a grande maioria dos meninos e meninas na escola; pelo menos a contradio se coloca em outro patamar. No prprio mbito dos exames, j h algumas dcadas conseguimos superar os Exames de Admisso, que eram prestados pelos alunos que terminavam o Primrio e tinham pretenso de ingressar no Ginsio. Mesmo em relao ao vestibular, se compararmos desde o tempo da colnia, podemos dizer que houve um avano: seleo entre muito poucos, entre poucos, entre muitos (estgio atual), e entre todos (perspectiva) (cf. Santos, 1998: 251).

A compreenso ajuda a no moralizar a luta: o fato de sabermos onde est o problema evita a atitude destrutiva e imobilizadora de ficar acusando o outro (ou a ns mesmos) como se fosse o responsvel por as coisas no acontecerem; ter clareza de como as estruturas interferem.

2-Distores

Esta lgica do vestibular tem duas grandes repercusses no cotidiano escolar: uma de ordem pedaggica, outra tico-poltica.

a)Pedaggica

Um dos argumentos mais ingnuos (ou safado, se houver conscincia) de que o rigor do vestibular fator de aprimoramento para nosso ensino, que anda debilitado. Ora, isto confundir causa com conseqncia: podemos dizer que, com certeza, um dos fatores que leva o ensino bsico estar capenga justamente as exigncias esdrxulas dos exames! Por paradoxal que possa parecer, em nome da preparao para os exames so feitas verdadeiras aberraes pedaggicas e educacionais. H um formalismo pedaggico em cima de contedos de significao bastante duvidosa: prova disto que se os prprios professores se submetessem novamente ao vestibular, provavelmente muitos no conseguiriam passar, e nem por isto deixariam de ser bons profissionais... muito comum, por exemplo, vermos o ensino (e a cobrana enftica nas provas) na 2a srie do ensino fundamental de Dgrafos. Perguntamos: que importncia tem isto para a formao do sujeito-cidado leitor e produtor de texto? Como o aluno pode desenvolver o gosto pela leitura, fala e escrita se vai ser avaliado em cima disto? Quando questionados, os professores respondem de imediato: para preparar para as sries seguintes e para os exames. E o pior que, com freqncia, tm razo. H algum tempo atrs, em Campo Grande, refletindo com os professores da rede municipal sobre a necessidade de mudana da avaliao, foi trazido tona um fato muito concreto e recente: no concurso promovido pela prefeitura (e organizado por uma determinada fundao) para motorista de nibus, tinham cado nada menos do que trs questes sobre dgrafo...

Nas sries maiores, tcnicas mnemnicas (para informaes e frmulas), macetes, solues tpicas (dicas), fazem parte do dia-a-dia desta preparao, onde perguntar o porqu atrapalha, dado que o que importa saber que assim que deve ser respondido. Passa a haver uma presso dos prprios alunos: No, professor, no precisa demonstrar; d logo a frmula!. Nesta mesma direo, laboratrio, estudo do meio, aulas prticas, projetos, so desdenhados em nome de mais contedo preparatrio.

Todo este condicionamento do ensino fundamental e mdio acaba bitolando o aluno a fazer exames, de tal forma que a Universidade se for sria ter que fazer o que a escola bsica deveria ter feito, qual seja, ensinar o aluno a pensar, ler, interpretar, pesquisar, falar, redigir, trabalhar em grupo, ser criativo, crtico.

Podemos apontar ainda outras distores:

(Existem vrias pesquisas demonstrando que tal sistema sequer cumpre aquilo a que se prope, qual seja, selecionar os melhores. Pessoas mais criativas, mais sensveis e inteligentes com freqncia so vtimas destes exames e acabam ficando fora da universidade. No deixa de ter um gostinho de desforra pessoas que foram barradas no acesso e depois se do muito bem na vida;

(Alunos entram na universidade, mas no saem... A evaso nas universidades pblicas brasileiras de 40%. Isto um absurdo tanto do ponto de vista social quanto individual. certo que a evaso se deve a vrios fatores, mas um deles, com certeza, a falta de projeto: o aluno fica to envolvido com a competio que tem de enfrentar, que se esquece de se preocupar com a sua real opo; o fato da escola ficar to preocupada em prepar-lo para passar, faz com que no desenvolva um projeto de vida;

(A lgica seletiva se manifesta tambm no interior da universidade; nos meus idos tempos de engenharia, assistamos, assustados, a ndices de mais de 50% de reprovao em Clculo (que para os professores era normal); e vejam que se tratava de alunos da Escola Politcnica da USP, um dos redutos com maior grau de disputa para entrada...(Concluem o curso, mas sem projeto de vida, frustrados com a profisso que assumiram...

Grandes Redes de Ensino

Um movimento perigoso vem se configurando: a cursinhonizao da escola bsica. Trata-se da adoo de apostilas padronizadas de grandes redes de ensino que visam o adestramento para o vestibular, que muitas escolas adotam para terem uma grife educacional e assim no perderem alunos. Quando questionadas, dizem que s adotam o material, no percebendo que junto com ele vem toda uma concepo de sociedade, pessoa e educao, e que atravs dele acaba se interferindo em todo o modus operandi da escola (alis, eles mesmos se apresentam como sistemas de ensino). Na crise de identidade, algumas escolas, ao invs de retomarem suas razes, aprofundarem e atualizarem suas inspiraes, acabam importando a identidade de outros atravs de convnios e do material didtico; a sim que vo afundar de vez, dado que perderam seus referenciais mais autnticos e passam a ficar merc de um terceiro.

Para o professor que no quer muito trabalho, timo trabalhar com apostilas, visto que j vem tudo pronto (assunto mastigado, exerccios, propostas de atividades, diviso de aulas no tempo e, em alguns casos, at as avaliaes). Para o professor que tem um posicionamento ativo e crtico, terrvel, pois se sente amarrado, desrespeitado em sua funo de mestre. Tal padronizao vai justamente no sentido contrrio ao movimento histrico de conquista por parte do magistrio de competncia, liberdade, responsabilidade, autonomia, qual seja, da condio de sujeito, negando tambm a mesma possibilidade ao aluno (j que vem tudo pronto e decidido, restringindo incrivelmente o espao de negociao em aula). Ah, mas se o professor quiser pode ir alm da apostila algum poderia dizer; fato, mas justamente este melhor professor sente-se limitado na escolha do material (embora muitos livros didticos conservem a caracterstica apostilar de onde tiveram origem, preciso reconhecer que hoje j existem livros de qualidade bastante razovel) e na organizao do currculo (muitas vezes, o professor tem que cumprir aquele contedo naquele intervalo de tempo, pois chegar outra apostila e os alunos no podem ficar carregando muitas apostilas). Que sistema este que cerceia o bom profissional e serve de libi para o relapso?

Se a escola adotasse as tais apostilas no final do ensino mdio, como ltimo recurso, ainda v l; todavia, em no poucos casos, temos visto o uso das apostilas padronizadas desde as sries inicias. muito preocupante!

O fato que acaba se criando um crculo de cumplicidade entre escola (que alm da grife, ganha alguns trocados com a venda do material), famlia (que tem a sensao de que o filho est numa boa escola), alunos (que gostam por ter menos matria para decorar e saber o que vai cair na prova) e professores acomodados.

b)tico-Poltica

Tal prtica classificatria tem uma sria repercusso em termos de seletividade social. H tanto empenho em preparar para o vestibular, que reprova-se energicamente na 5a, 6a sries, fazendo com que grande contingente de alunos sequer conclua o ensino fundamental (reprovaes sucessivas seguidas de evaso, sobretudo na escola pblica). um enorme contra-senso!

Algum poderia lembrar que no foi a escola quem inventou tal lgica seletiva; e estar correto. Ocorre que cabe tambm lembrar o papel da escola: s reproduzir o que est dado ou tambm lutar para transformar?

Acaba se instalando, pois, com a melhor das boas intenes (preparar para vida) uma profunda confuso entre o papel do vestibular e da escola. O vestibular , com efeito, o reflexo e a concretizao da lgica seletiva social no sistema educacional. A escola (deve ser) outra coisa: encontro de geraes, direito fundamental do cidado ao conhecimento, espao de formao da pessoa.

IVEnfrentando Criticamente

Considerando que, na prtica, o vestibular vem se constituindo como o verdadeiro parmetro do currculo escolar, trazemos, na seqncia, alguns pontos para reflexo tendo em vista a abertura para novas possibilidades no seu enfrentamento:

Sinais de Esperana

(Tomada de conscincia por parte dos educadores: muitos educadores j esto se dando conta da lgica subjacente prtica pedaggica e como esto, involuntariamente, servindo a ela. Percebem tambm as mudanas que esto se dando em vrias esferas e que pedem um novo posicionamento

(Mudana de expectativas dos pais: abertura a novos paradigmas, at como decorrncia das mudanas que esto vivendo nas empresas onde trabalham.

(Os prprios exames esto mudando: foroso estarmos atento, pois h indicadores de mudana nas exigncias do mercado de trabalho e nos prprios vestibulares: questes mais reflexivas, provas dissertativas que exigem raciocnio e no memorizao mecnica, questes envolvendo interpretao de fatos do cotidiano, valorizao da redao, etc. Comeam a aparecer sinais de vida inteligente... Ainda que de forma um tanto controversa, o Enem j vem apontando bem claramente para outros tipos de exigncias (reflexo, interpretao, aplicao, interdisciplinaridade) e tem servido como questionamento para os exames tradicionais.

(Nova percepo dos alunos em relao realidade: os alunos comeam a se dar conta de que o simples canudo na mo j no garantia de muita coisa no mundo atual. Estando antenados, comeam a perceber as mudanas que esto se dando nos vrios campos (mundo do trabalho, universidades, sistemas seletivos, at na prpria famlia).

(Novas exigncias do mercado de trabalho: a sociedade do conhecimento est a exigir novas competncias, um novo perfil profissional, que no corresponde mais quele de ordem mecanicista da escola tradicional.

1-Na Linha da Continuidade Crtica

Considerando que o vestibular faz parte da realidade atual, como podemos nos posicionar diante dele?

Entendemos que importante procurar superar a postura dicotmica que muitas vezes se instala entre os educadores: ou se esquece o vestibular, ou (exclusivo) se curva ingenuamente a ele. Como, na prtica, no d para esquecer, o que acaba acontecendo a submisso sua lgica imbecilizante, em nome de um pragmatismo de cunho determinista: assim mesmo, Fazer o qu?, No tem jeito, A presso muito forte, etc. Algumas (poucas) escolas que conseguem esquecer acabam por cair num clima de frouxido: tudo se passa como se os alunos que quisessem de fato se preparar para o vestibular deveriam ir para a escola concorrente; os que ficassem, seriam poupados do ambiente desumano, mas tambm abririam mo de qualquer expectativa de serem aprovados no concurso... O clima de exigncia na escola muito positivo: o aluno sente-se desafiado, tem uma meta; s que se trata de um novo tipo de exigncia. Insistimos que a no-nfase na competio no pode ser confundida com frouxido, liberou geral.

Posio anloga podemos encontrar entre os pais: ou o meu filho vai ser o melhor (competio), ou vai ser um Z-ningum (inanio). Ora, preciso que compreendam que existe uma alternativa superadora: ser competente e solidrio! (vocao ontolgica do homem: ser mais, que diferente de ser o melhor).

O que preciso para ser aprovado no Vestibular?

O senso comum responde a esta pergunta fugindo dela ( sorte) ou de maneira simplista: para ser aprovado, o aluno precisa saber/conhecer. Isto verdade, mas apenas parte da verdade... preciso um preparo integral: cognitivo (conceitos, habilidades, competncias), scio-afetivo (emoo, motivao, projeto) e psicomotor (autoconhecimento, domnio, condies fsicas).

importante, portanto, um posicionamento crtico diante do vestibular:

(Trazer o tema para o debate aberto; fortalecer o posicionamento democrtico frente a ele; explicitar a posio da escola no projeto poltico-pedaggico;

(Ajudar a construir um outro sentido para a vida: no de competio desenfreada para garantir o seu lugar, mas de cooperao na necessria transformao;

(No emburrecer o ensino desde a educao infantil em nome de preparar (adestrar) para o vestibular;

(Investir numa nova concepo de aprendizagem e de avaliao em todo o processo formativo;

(Apenas no final do ensino mdio, se necessrio, fazer o treinamento para o exame;

(Dar nfase ao essencial: trabalhar com conceitos alfabetizadores, contedos estruturantes;

(Ajudar o aluno a aprender a pensar, a estabelecer relaes;

(Recusar-se a dar em sala de aula contedos sem significado relevante;

(A escola deve criar condies para que o professor seja autor/produtor do material didtico (aos poucos pode-se comear este processo);

(Trabalhar abertamente com os alunos o significado do vestibular, seus mecanismos, sua lgica, para que a eventual reprovao no leve aluno a sentir culpando, afetando sua auto-imagem;

(Desmistificar o exame, colocando questes de vestibulares nas atividades para perceberem que no so do outro mundo;

(Propiciar aulas/encontros de projeto de vida, onde o aluno tem de apresentar um projeto para os seus prximos anos; uma atividade construda e partilhada com os colegas (com cdigo de tica de sigilo, etc.). O 2o ano do ensino mdio tem mostrado ser um bom momento para isto (no 1o pode no ter despertado para algumas questes, e no 3o j est envolvido com a presso dos exames). Investir na orientao vocacional;

(A escola deve garantir um bom esquema de comunicao com pais e alunos; perder aluno em funo de uma opo clara por outra linha de trabalho, tudo bem, mas perder aluno por falta de informao, inadmissvel;

(A escola deve ter competncia e unidade para enfrentar as eventuais presses equivocadas dos pais, calcadas na ansiedade de preparar desde cedo os filhos para os exames. No discutimos a boa inteno dos pais, mas no podemos nos omitir frente ao seu encaminhamento equivocado.

J dizia Santo Toms de Aquino: quem pode o mais, pode o menos (a recproca no verdadeira!). Caso se depare com um vestibular burro, emburrece e faz. Trabalhando numa nova concepo de educao e de avaliao, onde o aluno tem uma formao integral, aprende a pensar, domina os conceitos bsicos, sabe resolver problemas, estabelecer relaes , transferir conhecimentos (dimenso cognitiva), onde desenvolve um autoconceito positivo, a auto-estima, sabe o que quer, tem um projeto de vida, tem confiana no seu potencial (dimenso scio-afetiva), e onde tem tambm um bom preparo fsico (dimenso psicomotora), estar muito melhor preparado para qualquer situao que tenha que enfrentar na vida (vestibular, concurso, trabalho, relacionamentos, etc.), sendo que ainda estar capacitado para ajudar a reverter a lgica to excludente de nossa sociedade.

Cabe sociedade, no seu conjunto, decidir sobre um quadro de valores, competncias e habilidades desejvel para orientar a educao bsica e superior, enquadrando, portanto, o vestibular. Ao mesmo tempo, lutar pela preservao das universidades pblicas, contra o seu sucateamento. Ao Estado cabe disponibilizar recursos para o efetivo aumento das vagas na educao superior, numa fase de transio providenciar bolsas de estudo (para alunos que realmente necessitam e para instituies privadas mas que prestam servio de interesse pblico), controlar qualidade dos cursos oferecidos, e assumir polticas pblicas de gerao de empregos.

No concebvel tambm que a universidade fique fora deste embate; h uma contradio enorme: muita gente da academia se pe a criticar com toda a ira as mazelas da escola bsica, mas esta mesma gente se faz de desentendida ou de cordeiro e no enfrenta a luta no interior da prpria casa... Cabe denunciar, pressionar; no possvel continuar este esquema equivocado do vestibular. A prpria LDB diz, no seu artigo 51, que as instituies de ensino superior devem atentar para os efeitos do vestibular sobre o ensino mdio, devendo haver articulao e no imposio. A possibilidade de um aproveitamento mais significativo dos resultados do Enem, por exemplo, algo muito simples de ser feito e que poderia contribuir de imediato para a mudana. Alm disto, cremos que deveria ser retomada a idia do ciclo bsico no incio da universidade, para os alunos amadurecerem, conhecerem melhor as alternativas e poderem fazer uma opo de curso de forma mais consciente. A educao superior tem tambm um papel importante em termos da formao dos futuros professores do ensino bsico, devendo investir numa nova direo.

2-Na Linha da Ruptura

Todavia, se queremos alar vos mais altos, precisamos ter coragem de subverter a lgica atual do vestibular. A perspectiva mais radical, naturalmente, aquela que simplesmente faz caducar qualquer tipo de seleo, qual seja, a garantia de vagas para todos os concluintes do ensino mdio que desejassem dar prosseguimento nos estudos. Sabemos que se trata de uma utopia, tambm corresponde a um direito, portanto, no podemos abrir mo desta luta.

Enquanto lutamos por este horizonte mais radical, podemos buscar algumas alternativas radicais para o momento, ou seja, tornar o acesso o mais democrtico possvel. J vem sendo discutida pela sociedade a possibilidade de reservas de vagas nas universidades pblicas para alunos oriundos tambm da rede pblica. Nesta direo, a proposta do professor Rubem Alves (1984: 74 e ss, 1995, 1996) tambm deveria ser levada a srio: j que existem menos vagas do que candidatos, j que no atual esquema entram os filhos dos ricos e os pobres ficam com o resto (faculdades particulares ou cursos menos procurados) ou ficam de fora mesmo, ento que as vagas nas universidades pblicas sejam sorteadas! Os recursos que as classes mdia e alta despendem com cursinhos e coisas do tipo poderiam ser canalizados para a abertura de novas universidades privadas que atenderiam estes alunos. Sabemos que a idia assusta inicialmente, mas vale a pena ser considerada se pensarmos no benefcio da equalizao das oportunidades, e na libertao que isto significaria para as escolas, no precisando imbecilizar desde cedo as crianas em nome da preparao para o concurso: j que iria haver sorteio, as escolas poderiam fazer o que de fato acreditam que deveria ser feito para a melhor formao dos educandos.

Ficam aqui estas provocaes. Se num ou noutro momento o texto foi um pouco duro, o objetivo no agredir ningum, mas, fundamentalmente, fazer pensar!

Questes para Reflexo:

1)Quais as representaes sobre o vestibular presentes na escola? Como os diferentes agentes o entendem?

2)Concretamente, em nosso cotidiano, quais so os sinais (explcitos ou camuflados) da influncia do vestibular?

3)At que ponto temos clareza dos princpios de nosso trabalho, de forma a que possamos ter uma relao crtica (e no de desprezo idealista ou, no plo oposto, de subservincia) com os sistemas seletivos sociais (dos quais o vestibular apenas uma faceta)?

4)Que trabalho podemos fazer junto aos alunos e pais para re-significar o vestibular?

Sugestes de Leitura

ALVES, Rubem. O Pas dos Dedos Gordos (1-5). Estrias de quem gosta de ensinar. So Paulo, Cortez, 1984.

ALVES, Rubem. O fim dos Vestibulares. Folha de So Paulo, 6.2.1995, p. 1-3.

ALVES, Rubem. O fim dos Vestibulares. Folha de So Paulo, 12.9.1996, p. 1-3.

BIANCHETTI, Lucdio. Angstia no Vestibular: indicaes para pais e professores. Passo Fundo, EDIUPF, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessrios prtica educativa. So Paulo, Paz e Terra, 1996.

GANDIN, Danilo. Contedo preestabelecido, um cncer calado e devastador. Revista de Educao AEC, Braslia, 102: 6576, jan/mar. 1997.

GANDIN, Danilo. E o vestibular? Este crime tem sada? Revista de Educao AEC, Braslia, 107: 71-80, abr/jun. 1998.

GAUCHE, R. e TUNES, E. O professor, a indstria dos cursinhos, a universidade e as perspectivas de inovao no processo educacional. Revista de Educao AEC, Braslia, 113: 26-34, out/dez. 1999.

GUIMARES, Snia. Como se faz a Indstria do Vestibular. Petrpolis, Vozes, 1984.

HELLER, gnes. Sociologa de la Vida Cotidiana, 3 ed. Barcelona, Ediciones Pennsula, 1991.

PASSOS, Luiz A. e NEDER, Maria Lcia C. O no-resgate do soldado Silva ou a arte de morrer na praia. Revista de Educao AEC, Braslia, 111: 9-28, abr/jun. 1999.

SANTOS, Cssio M. O Acesso ao Ensino Superior no Brasil: A Questo da Elitizao. ENSAIO: avaliao e polticas pblicas em Educao. Rio de Janeiro, Fundao CESGRANRIO v. 6 n. 19: 237-257, abr./jun. 1998.

VASCONCELLOS, Celso dos S. O fetiche do Vestibular. In Avaliao: Concepo Dialtica-Libertadora do Processo de Avaliao Escolar, 11a ed. So Paulo, Libertad, 2000.

VASCONCELLOS, Celso dos S. Como enfrentar a questo do Vestibular. In Superao da Lgica Classificatria e Excludente da Avaliao: do proibido reprovar ao preciso garantir a aprendizagem, 2a ed. So Paulo, Libertad, 1999.

VASCONCELLOS, Celso dos S. Avaliao da Aprendizagem: Prticas de Mudana - por uma prxis transformadora, 2a ed. So Paulo, Libertad, 1999.

*Doutor em Didtica pela USP, Mestre em Histria e Filosofia da Educao PUC/SP, filsofo e pedagogo; responsvel pelo Libertad -Centro de Pesquisa, Formao e Assessoria Pedaggica. ee: [email protected]

.Gostaramos de deixar claro que este comportamento do professor conseqncia de uma presso muito forte exercida sobre ele em relao ao programa.

.Uma das poucas excees a Revista de Educao AEC; veja as referncias no final.

.Pesquisas recentes na UFRJ e na Unesp revelaram que a maioria dos alunos no consegue organizar idias, comete erros primrios de concordncia e pontuao, etc. (Washington Novaes, Tudo ou Nada, jornal O Estado de So Paulo, 6 de maro de 1998).

.Agora tambm na verso de grandes portais educacionais na internet.

.Num concurso vestibular de uma universidade particular em Braslia, em 1997, no dia do exame de Matemtica, os alunos ganharam uma calculadora, com a inscrio: Pense! A mquina calcula por voc.

.Quando exigidos por determinados concursos, encontramos professores que preparavam um roteiro de estudos extraclasse para os alunos.

.Levantamento do perfil de alunos aprovados feito pela UFRGS e pela PUC de Porto Alegre, demonstram que alunos oriundos de escolas mais crticas e participativas so os que, proporcionalmente, tm os maiores ndices de aprovao.

.A secretria de Estado da Educao de So Paulo, profa. Rose Neubauer, j sinalizou posio neste sentido (Rose sugere sorteio para vaga universitria, in Folha de So Paulo, 19 de janeiro de 1998).