Publico Virtual

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Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Escola de Comunicação - ECO Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação Convênio CNPq/IBICT - UFRJ/ECO Doutorado em Ciência da Informação As transformações da relação museu e público: a influência das tecnologias da informação e comunicação no desenvolvimento de um público virtual Rosane Maria Rocha de Carvalho Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Ciência da Informação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Ciência da Informação. Orientadora: Prof. Lena Vania Ribeiro Pinheiro Rio de Janeiro março 2005

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  • Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Escola de Comunicao - ECO

    Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia - IBICT Programa de Ps Graduao em Cincia da Informao

    Convnio CNPq/IBICT - UFRJ/ECO

    Doutorado em Cincia da Informao

    As transformaes da relao museu e pblico: a influncia das tecnologias da informao e comunicao no

    desenvolvimento de um pblico virtual

    Rosane Maria Rocha de Carvalho

    Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Cincia da Informao da Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia como requisito parcial para obteno do grau de Doutor em Cincia da Informao.

    Orientadora: Prof. Lena Vania Ribeiro Pinheiro

    Rio de Janeiro maro 2005

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    BANCA EXAMINADORA

    _________________________________________

    Profa. Tereza Cristina Moletta Scheiner UNI-RIO Dra. em Comunicao e Cultura UFRJ/ECO

    _________________________________________

    Profa. Diana Farjalla Correia Lima UNI-RIO Dra. em Cincia da Informao IBICT-UFRJ/ECO

    _________________________________________

    Profa. Maria Nlida Gonzlez de Gmez IBICT Dra. em Comunicao e Cultura UFRJ/ECO

    _________________________________________

    Prof. Geraldo Moreira Prado IBICT PhD. Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade UFRRJ

    _________________________________________

    Profa. Lena Vania Ribeiro Pinheiro IBICT (orientadora) Dra. em Comunicao e Cultura UFRJ/ECO

    SUPLENTES

    _________________________________________

    Profa. Isa Freire IBICT Dra. em Cincia da Informao IBICT UFRJ/ECO

    _________________________________________

    Prof. Manoel Marcondes Machado Neto - UERJ Dr. em Cincias da Comunicao ECA/USP

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    Dedico esta tese queles que me ensinaram a dar valor ao estudo e ao trabalho, ferramentas que me forjaram: meu pai (in memoriam), exemplo destes valores, minha me, alegre e guerreira e minha irm, Mrcia (in memoriam), exemplo de inteligncia e sensibilidade. Minha mais profunda gratido, admirao e amor.

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    AGRADECIMENTOS

    O processo de construo desta tese se realizou graas ao incentivo e apoio de muitos durante todo o curso de doutorado.

    A todos o meu sincero agradecimento.

    professora Lena Vania, mestre, amiga e orientadora, que, com sua sabedoria deixou aflorar em mim este tema estimulante e que soube me guiar com rigor, sem usar de rigidez, e cuja inteligncia, alegria e flexibilidade me inspiram. Agradeo todo o apoio e dedicao minha pesquisa.

    Ao meu colega Leandro Linzmeier, jovem muselogo que, pela afinidade de interesses pelo tema da pesquisa, me assistiu e dividiu comigo o trabalho de tabulao e digitao dos dados da pesquisa emprica e construo das tabelas. O meu carinho.

    Aos profissionais, amigos e colegas do Museu Histrico Nacional pelo incentivo pesquisa e fornecimento de dados, e, principalmente Angela Guedes, amiga e colega de muitos anos, por abrir os arquivos de mensagens eletrnicas do museu. O meu reconhecimento e gratido.

    Aos professores e funcionrios do programa de Ps-Graduao em Cincia da Informao, pelos ensinamentos, a boa acolhida e boa vontade, especialmente, Selma Santiago, Abeneser e Seu Tio. Muito obrigada.

    querida amiga, museloga e doutora em Cincia da Informao, Diana Farjalla Correia Lima, pelo estmulo a fazer o curso de doutorado e a perseguir meus objetivos.

    Ao meu querido amigo e companheiro, Antonio Carlos Alves de Moraes, pelo incentivo que tornou, em muitos momentos, este estudo mais leve e suave.

    Aos meus irmos e amigos, pela pacincia e motivao.

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    Carvalho, Rosane Maria Rocha de

    As transformaes da relao museu e pblico: a influncia das tecnologias da informao e comunicao no desenvolvimento de um pblico virtual / Rosane Maria Rocha de Carvalho. Rio de Janeiro, 2005.

    xi, 288 f. il.

    Tese (Doutorado em Cincia da Informao) Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Escola de Comunicao ECO, Ministrio da Cincia e Tecnologia MCT, Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia IBICT, 2005.

    Orientadora: Lena Vania Ribeiro Pinheiro

    1. Museu e pblico. 2. Tecnologias de Informao e Comunicao . 3. Pblico Virtual Museu. 4. Cincia da Informao Teses. I. Pinheiro, Lena Vania Ribeiro (orient.). II. UFRJ/ECO-MCT/IBICT. III. Ttulo.

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    Resumo

    Anlise das transformaes na relao museu e pblico, a partir dos questionamentos relativos evoluo dos museus, s novas tecnologias e, considerando os museus como sistemas de informao. Estudo das redes eletrnicas de comunicao e informao e o quanto a Internet/Web contribui para a formao de um pblico virtual, para expandir a visitao in loco s exposies e aos demais setores de informao do museu, de forma integrada. A metodologia compreende o Museu Histrico Nacional como ambiente de estudo, o quadro terico com autores da Cincia da Informao, da Museologia e da Comunicao e a pesquisa emprica, desenvolvida em duas etapas: anlise das mensagens do correio eletrnico de visitantes virtuais do Museu Histrico Nacional para caracterizar o seu perfil e principais demandas de informao; verificao, com base em entrevistas via Internet, do comportamento e da relao entre pblico presencial e virtual de museu. Como subproduto desta pesquisa e com base nos resultados, esboada uma proposta de Portal de Museologia e Museus a ser implementado no pas.

    Abstract

    Analysis of the transformations in the museum and visitors relation, considering the issues related to museums evolution, the new information and communication technologies and museums as information systems. Studies of the electronic communication and information networks, measuring how much the Internet/Web contributes to the formation of a virtual public and to the expansion of museum attendance in loco to exhibitions and to other museum,information sectors, in an integrated manner. The methodology comprises the Museu Histrico Nacional in Rio de Janeiro as study setting, the theoretical frame is based on Information Science, Museology and Communication authors; and the empirical research is developed in two sections: the analysis of the electronic messages of Museu Histrico Nacional virtual visitors in order to design visitors profile and main demands for information; knowledge of visitors behavior and the relation between physical and virtual museum attendances, based on interviews through the Internet. As a product of this research and based on its results, is designed a proposal of Museology and Museums Portal (Website) to be implemented in the country.

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    Sumrio

    1. Introduo 1 2. A informao e o pblico: Museologia e Cincia da Informao 13 2.1 A Museologia e os estudos de pblico em museus 13 2.2 A Cincia da Informao e os estudos de usurios 21 3. Caminhos convergentes da informao: Cincia da Informao e Museologia 34 3.1 O museu no apenas do ponto de vista do objeto museolgico 34 3.2 A transferncia da informao na Cincia da Informao e o museu como sistema de informao 36 3.3 A institucionalizao da convergncia da CI e Museologia 47 4. Ciberespao e virtualidade 58 4.1 Comunicao e informao de museus na Internet e o visitante virtual 67 5. Objetivos 80 6. Metodologia 81 6.1 Ambiente de estudos: Museu Histrico Nacional 81 6.2 Quadro terico 87 6.3 Pesquisa emprica 88 6.3.1 Anlise do arquivo de mensagens eletrnicas 88 6.3.1.1 Procedimentos metodolgicos 88 6.3.2 Pesquisa com o pblico virtual 94 6.3.2.1 Procedimentos metodolgicos 95 6.4 Material da pesquisa 96

    A) O site do MHN 96 B) O arquivo de mensagens 101

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    7. Comunicao e informao eletrnica no MHN 104 7.1 Anlise da evoluo cronolgica e de contedo das mensagens eletrnicas 105 7.2 Anlise cronolgica das mensagens eletrnicas 107 7.3 Anlise das mensagens dos usurios virtuais do MHN, por origem Brasil e exterior 131 7.4 Categorizao de mensagens, segundo tema/assunto 144 7.4.1 Mensagens sobre o Museu Histrico Nacional 145 7.4.2 Anlise do tema Histria 153 7.4.3 Anlise do tema Cultura 156 7.4.4 Anlise dos temas de menor freqncia 158 7.5 Distribuio interna e externa das mensagens eletrnicas 164 8. Usurios virtuais do MHN 174 8.1 Evoluo do site do Museu 188 9. Proposta de portal de Museologia e museus 192 10. Consideraes Gerais 202 11. Bibliografia 209

    Anexos 224

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    Lista de Anexos:

    Anexo 1: Planilhas de Preenchimento 1.1- Planilha de Procedncia Exterior 1.2- Planilha de Procedncia Brasil - Estados 1.3- Planilha de Tema principal, Secundrio e Distribuio 1.4- Planilha de Distribuio Externa das Mensagens

    Anexo 2: Pesquisa Emprica 1 Parte 2.1- Tabela de e-mails por ano 2.2- Tabela de procedncia geogrfica Brasil / Estados 2.3- Tabela de museus com e sem site Estados / Brasil por regio 2.4- Tabela de procedncia geogrfica - Exterior por continentes 2.5- Tabela de sites de museus no mundo 2.6- Tabela de temas dos e-mails 2.7- Tabela de distribuio interna de mensagens 2.8- Tabela de distribuio externa de mensagens

    Anexo 3: Pesquisa Emprica 2 Parte 3.1- Carta

    3.2- Questionrio 3.3- Carta em ingls 3.4- Questionrio em ingls

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    Lista de Quadros:

    Quadro 1 Acervo do MHN X acervo automatizado 85 Quadro 2 Representao do acervo no site do MHN 100 Quadro 3- Museus com site por Estados do Brasil 104 Quadro 4 - Museus com e sem site por regies do Brasil 105 Quadro 5 Mensagens eletrnicas da pesquisa 105 Quadro 6 Mensagens eletrnicas por ano 106 Quadro 7 Crescimento da Internet 125 Quadro 8 - Museus por Estado com site e sem site 128 Quadro 9- Mensagens por origem Brasil e exterior 131 Quadro 10 Visitas ao site portugus e ingls 132 Quadro 11 -Maior demanda de e-mails do Brasil e Estados 132 Quadro 12 Menor demanda de e-mails do Brasil e Estados 137 Quadro 13 - Maior demanda de mensagens do exterior 139 Quadro 14 - Museus no exterior com site 141 Quadro 15 Menor demanda de mensagens do exterior 143 Quadro 16 - Temas das mensagens eletrnicas 144 Quadro 17 Quadro sinttico de informaes sobre o MHN 145 Quadro 18 - Mensagens recebidas X matriz de anlise 146 Quadro 19- Informao sobre Histria 154 Quadro 20 - Informao sobre Smbolos Nacionais 155 Quadro 21 Informao sobre Cultura 156 Quadro 22 Informao sobre Museu Nacional da UFRJ 158 Quadro 23 Informao sobre Artes Plsticas 159 Quadro 24 Informao sobre Museus 161 Quadro 25 Informao sobre Instituies 162

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    Quadro 26 Distribuio interna e externa de mensagens 164 Quadro 27 Distribuio interna de mensagens 165 Quadro 28 Distribuio externa de mensagens 167 Quadro 29 Distribuio dos usurios por gnero 174 Quadro 30 Distribuio dos usurios por faixa etria 175 Quadro 31 Distribuio dos usurios por escolaridade 176 Quadro 32 Distribuio dos usurios por tipo de visita 177 Quadro 33 Incio da visita ao Museu 178 Quadro 34 Tipo de visitante 178 Quadro 35 Setores visitados no MHN 180 Quadro 36 Usurio da Internet 181 Quadro 37 Motivo de acesso Internet 182 Quadro 38 Pontos de acesso preferidos no site do MHN 183 Quadro 39 Influncia da visita virtual na visita in loco do MHN 184 Quadro 40 Visitao presencial X visita ao site 185

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    Lista de Figuras:

    Figura 1- Ciclo de Vickery 45 Figura 2- Mapa do backbone RNP2 133 Figura 3- Distribuio de usurios por gnero 174 Figura 4- Faixa etria de usurios 175 Figura 5- Escolaridade de usurios 176 Figura 6- Tipo de visitante 178 Figura 7- Setores visitados 180 Figura 8- Usurio da Internet 181 Figura 9- Motivo de acesso Internet 182 Figura 10- Acesso ao website influenciando visita in loco 183

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    1. Introduo:

    A relao Museu e Pblico vem sendo objeto de nossos estudos tanto academicamente no curso de mestrado (Carvalho, 1998) e no de doutorado em Cincia da Informao do Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia - IBICT e Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, quanto, sistematicamente, em nossa atividade profissional em museus. Desde 1988 desenvolvemos na Fundao Nacional Pr-Memria metodologia de pesquisa de pblico para ser aplicada em 30 museus federais administrados por aquela instituio (Pszczol, 1990). Em 1996 realizamos levantamento para a Pesquisa do Perfil do Visitante do Museu da Repblica (Carvalho, 1998) e, recentemente, em 1999 e 2001 mais trs pesquisas qualitativas com o pblico de exposies temporrias do Museu Histrico Nacional (Carvalho, 2002, p.395).

    Tanto a reflexo terica da relao Museu e Pblico quanto a pesquisa aplicada nesta rea as chamadas pesquisas de pblico - so recorrentes em nossa vivncia profissional pela nossa formao em Museologia e Comunicao Social. Na rea da Comunicao, pesquisas de opinio e de cunho mercadolgico auxiliam as reas de Comunicao, Marketing e Publicidade das empresas a orientar o planejamento estratgico de seus produtos ou servios satisfao das necessidades do consumidor. Na rea da Museologia, na medida em que uma das funes do museu a educao e a comunicao de mensagens relacionadas s colees, para o pblico, torna-se necessrio conhecer o quanto os diferentes segmentos de visitantes percebem as mensagens museolgicas emitidas. E, neste contexto, as pesquisas de pblico so importantes para avaliar a transferncia da informao aos visitantes.

    Outra importante experincia foi num programa de treinamento em diversos museus nos Estados Unidos e, em particular, no Institutional Studies Office do Smithsonian Institution em Washington D.C., sob a coordenao de Zahava Doering, expert em pesquisas culturais. Durante dois meses realizamos estgio para desenvolver pesquisas de pblico em dois grandes museus nacionais do Smithsonian (Carvalho, 1995).

    Alm das experincias profissional e acadmica relatadas, por outro lado, o cenrio mundial sofreu significativas transformaes na dcada de 80, envolvendo aspectos e dimenses tecnolgicas, geopolticas, informacionais e sociais, que se relacionam de maneira dinmica, e o museu no esteve imune ao novo contexto. O papel crescentemente importante do conhecimento e da informao uma caracterstica dos novos sistemas econmicos avanados, transcendendo as caractersticas de outros modos de produo. (Castells, 1993). Um novo tipo de economia, a economia informacional se articula em consonncia com uma

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    importante revoluo tecnolgica: a das tecnologias da informao. Estas geram um novo paradigma tecno-econmico, que afeta toda a economia, baseado em um conjunto interligado de inovaes em computao eletrnica, engenharia de software, sistemas de controle, circuitos integrados e telecomunicaes, que reduziram drasticamente os custos de armazenagem, processamento, comunicao e disseminao da informao. (Freeman, C., Soete, L., 1994, p.42).

    As transformaes por que vem passando o mundo contemporneo, afirma Pinheiro (2003, p.1) fizeram emergir uma nova era, da sociedade de informao, impulsionada pela globalizao e as tecnologias da informao, principalmente os computadores, inicialmente de grande porte e posteriormente os micros e, mais recentemente, a Internet e a Web.

    O micro-computador, vale lembrar, foi colocado em escala industrial na primeira metade dos anos 80. Segundo Lima (2003, p.170), o antigo sistema dos pesados computadores, a rigidez nos formatos dos programas, a pouca flexibilidade nos modelos propostos para os acervos museolgicos, no logrou xito no cenrio dos museus em razo das incompatibilidades encontradas entre o recurso tecnolgico e as dificuldades referentes ao modus operandi museolgico. O micro-computador, conjugando aplicativos de interface amigvel, revolucionou a histria da comunicao em museus, auxiliando o processo que permitiu desenvolver redes e sistemas de informao mais aperfeioados, integrados com modelos para catalogao satisfatrios, tanto para os produtores quanto para os usurios da informao museolgica. Mais tarde esse processo comunicacional, por intermdio da rede internacional de computadores, Internet, ampliou as possibilidades de uso permitindo que os museus disseminem a informao dos seus acervos clientela to diversificada que navega na rede.

    Assim, o ponto alto na transformao da interao comunicativa e de informao aconteceu com o crescimento da Internet. Atravs dessa nova ferramenta, o usurio experimenta uma nova autonomia frente a um mar de informaes, pelo acesso rede das redes. Segundo Castells (1999, p.364), devido multiplicidade de mensagens e fontes, a prpria audincia torna-se mais seletiva; tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentao, intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor.

    Nesta pesquisa pretendemos analisar como vem se dando a transformao da relao Museu e Pblico a partir da existncia das redes eletrnicas, levando-se em conta que os museus atualmente vm utilizando largamente os Websites para sua divulgao institucional e processos de comunicao e informao eletrnica.

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    Na anlise entre a visita presencial ao museu e o uso que o pblico faz do seu Website, o site de museu seria no somente um estimulador de uma visita fsica s exposies como possibilitaria a busca de informao especializada, contida em outros setores do museu? Acreditamos que as pesquisas de pblico podero contribuir para espelhar o atual quadro de uso da Internet pelo pblico de museu.

    Dentro deste contexto virtual, importante mencionarmos a nfase que Pinheiro (2003) d em sua pesquisa Impactos das redes eletrnicas na comunicao cientfica e novos territrios cognitivos para prticas coletivas, interativas e interdisciplinares, diferena entre os recursos eletrnicos de comunicao e de informao, conceitos que vamos utilizar neste trabalho, estabelecidos no captulo 3, mais adiante.

    Destes processos iremos trabalhar nesta tese especialmente o correio eletrnico ou e-mail. Segundo Zoss (1998:18), em sua dissertao de mestrado em Cincia da Informao intitulada Uma viso da Internet para o profissional da informao no sculo XXI, o correio eletrnico foi o primeiro servio da rede, e ainda o mais utilizado. O e-mail ou correio eletrnico um conjunto de protocolos e programas que permitem a transmisso de mensagens de texto (que podem conter qualquer tipo de arquivos digitais como imagens ou som) entre os usurios conectados a uma rede de computadores. Com a disseminao da Internet, o e-mail tornou-se uma forma prtica e rpida de comunicao. (Zoss, 1998: 18)

    Os museus utilizam os recursos eletrnicos de comunicao e informao de forma variada e apresentam, no somente atravs de correio eletrnico, sua programao de exposies, de servios e se comunicam com o seu pblico, formando um crescente mailing list ou cadastro de pblico interessado em receber por e-mail a divulgao de sua programao cultural.

    Neste sentido, estaremos verificando uma dupla transformao: no apenas a da relao Museu e Pblico, como ao mesmo tempo a transformao da relao Informao e Comunicao. Seria oportuno definir transferncia da informao. Segundo Belkin e Robertson (1976, p.198) informao tudo que for capaz de transformar estruturas, isto , a informao uma unidade de significado e de representao que, na sua transferncia, produz conhecimento porque altera o mapa cognitivo do receptor, seja ele um indivduo ou um grupo social.

    Segundo a documentalista Helena Dodd Ferrez (1994, p.65), mestre em Cincia da Informao pelo IBICT-UFRJ, ao enfocar os museus a partir das suas funes, constata-se que so instituies estreitamente ligadas informao de que so portadores os objetos e espcimes de suas colees. Estes, como veculos de informao, tm na conservao e na

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    documentao as bases para se transformar em fontes para a pesquisa cientfica e para a comunicao que, por sua vez, geram e disseminam novas informaes.

    A museloga Diana Farjalla C. Lima (2003, p.18) em sua tese de doutorado Cincia da Informao, Museologia e Fertilizao Interdisciplinar afirma que o museu, instituio de funo social , por definio, centro cultural produtor de conhecimento (casa / centro de pesquisa). Assim, o processo de elaborar e transmitir informao na instituio museolgica operado tomando-se como fundamentos os acervos de base museolgica e os de base bibliogrfica que so identificados, de modo pertinente, s colees das obras e aos seus diversificados referentes tcnicos para o estudo.

    Os museus tem sido objeto, cada vez mais freqente, de demanda de informao especializada, contida nas pesquisas internas realizadas sobre os objetos e colees museolgicas, assim como nos arquivos histricos de documentos e materiais iconogrficos - gravuras, desenhos, mapas e fotografias - e nas colees de suas bibliotecas, tambm especializadas. (Carvalho, 1998)

    Uma questo que foi se consolidando nos anos 80: o Museu como um sistema de comunicao e informao, visto no apenas do ponto de vista do objeto museolgico como nos seus aspectos de informao coletada e organizada para a pesquisa. Esta informao geradora de conhecimento, na sua transferncia ao indivduo.

    A Cincia da Informao vem estudando primordialmente a informao nas reas de Cincia e Tecnologia, porm, recentemente vem desenvolvendo uma linha de pesquisa sobre Informao em Arte, abrangendo o ambiente de museus, a informao na arte e atravs da imagem, inclusive no Brasil. Nesta linha de Informao em Arte foi produzida uma coletnea em 2000 editada pelo IBICT, com artigos oriundos de dissertaes de mestrado e teses de doutorado de alunos do Programa de Ps-Graduao em Cincia da Informao, artigos estes que refletem o desenvolvimento desta linha de pesquisa (Pinheiro, 2000, p.13).

    Nesta tese levantamos algumas consideraes e pressupostos que sero discutidos ao longo desse trabalho.

    Na Europa e principalmente nos Estados Unidos, h uma grande quantidade de estudos sobre a utilizao das novas tecnologias nos museus, no entanto, o mesmo no se observa no Brasil. Rose Miranda (2001, p.44), em sua dissertao de mestrado em Cincia da Informao, Informao e sites de museus de arte brasileiros: representao no ciberespao, j havia apontado este problema. H carncia de estudos at mesmo sobre o nmero de museus e sites de museus brasileiros na WWW, sobre o histrico de uso desta ferramenta, a anlise de contedos veiculados, alm da recepo e utilizao pelos usurios.

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    Considerando que a concretizao do processo informacional entre o museu e seus usurios, permitindo o acesso e o uso de informaes registradas, depende diretamente da implantao de programas que garantam o fluxo da informao e da existncia de polticas pblicas e de investimento nesta atividade, acreditamos que esta pesquisa seja oportuna e atual.

    Uma questo importante num sistema de comunicao e informao o conceito de relevncia. Para Tefko Saracevic (1975, p.322) , importante autor da Cincia da Informao, podemos considerar relevncia como uma medida da efetividade do contato entre um fonte e seu destinatrio num processo de comunicao. A relevncia a medida das mudanas no receptor, e traduz ainda a utilidade da informao, a sua expanso.

    Esse conceito aponta para aspectos da transferncia da informao de uma exposio em um museu para o pblico: a possibilidade de que s seja transferida para o pblico aquela informao que seja relevante. Ou melhor, a informao no museu deveria ser relevante para o pblico. Isto faz emergir uma outra questo: como podemos aferir se h um "match" entre a necessidade e demanda de informao do usurio de museu e a resposta do sistema museu? Considerando a relevncia na perspectiva do pblico, o museu deveria ter seus prprios meios de aferio.

    Como trabalhar a recuperao da informao num museu? Como aliar os conhecimentos do campo da Cincia da Informao, cincia interdisciplinar, com a Museologia? Segundo Ivo Maroevic (2000, p.5), professor de Museologia na Universidade de Zagreb na Crocia, A Museologia ao longo dos anos tornou-se uma disciplina inteira parte. Ela tem sua prpria histria, sua prpria teoria e sua prpria prtica que lhe valem o

    estatuto de cincia contempornea no interior das cincias da informao e das cincias sociais. A Museologia est igualmente estreitamente ligada s disciplinas fundamentais de pesquisa das quais ela se serve para compreender a linguagem dos objetos.1

    Ferrez e Bianchini (1987, p.XVI), ao justificarem porque elaboraram um thesaurus para museus, afirmam que na medida em que os acervos museolgicos no so vistos como fontes de informao, os museus brasileiros encontram muitas dificuldades em se organizar

    1 Ivo Maroevic faz parte de uma das correntes da Museologia que a v como parte integrante das Cincias da

    Informao, junto com a Biblioteconomia e a Arquivologia, entre outras reas do conhecimento, cujo objeto a informao. importante no confundir a categoria Cincias da Informao com a disciplina Cincia da Informao, rea com seu prprio estatuto cientfico, constituda por diferentes disciplinas tais como Bibliometria, Sistemas de Informao, Polticas de Infomao, Organizao do Conhecimento, etc.

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    como sistemas que devem ser, de informao, isto , intermedirios entre documentos/objetos e usurios. Tambm no chegam a ser um espao onde, com freqncia, aflorem preocupaes com o desenvolvimento de metodologias e instrumentos que visem a permitir uma recuperao da informao mais eficiente. Da a Museologia ter ido buscar um recurso utilizado na Biblioteconomia e na Cincia da Informao, o thesaurus, demonstrando, neste esforo, a necessidade de aproximao entre museus, bibliotecas e arquivos, na direo de sofisticados sistemas de informao.

    O modelo de transferncia da informao hoje adotado na maioria das instituies acadmicas de ensino e pesquisa e culturais no atende s exigncias atuais de socializao da informao. A socializao da informao, segundo Christovo e Braga (1994, p.14), autoras da Cincia da Informao, concebida [...]como a construo, tratamento e divulgao da informao de diferentes tipos em parceria, ou seja, a partir da definio conjunta por parte de produtores e usurios, que aqui se con-fundiriam, de suas necessidades, e de quais seriam os caminhos (metodologias) mais adequados para atend-los.

    As metodologias de sistema de informao, segundo Leite (1996, p.58), privilegiam a implementao de sistemas de informao especializados, desenvolvidos quase exclusivamente para pesquisadores e canais formais de comunicao. Em geral, estes sistemas ignoram tanto os imprevisveis caminhos da gerao e busca da informao, como os interesses da comunidade no especializada, contribuindo, assim, para a desinformao e excluso cultural de vastas camadas da sociedade. Para a autora, surge a necessidade de dispor de mecanismos e metodologias eficientes, capazes de alargar os objetivos dos sistemas ou unidades de informao. Estes devem ampliar sua ao quantitativa e qualitativamente, para atender multiplicidade de pblicos e especificidade das necessidades informacionais, criando condies para que as informaes sejam adequadamente distribudas, de forma a produzir conhecimento e alcanar a sua finalidade, que promover o desenvolvimento.

    A disponibilidade da informao no representa possibilidade de acesso ou condio nica de uso. O canal de transferncia desta informao deve ser confivel e a estrutura, onde a informao est disponvel, no deve ser limitada por barreiras de carter econmico, social ou psicolgico. No caso das Webpages de museu, h algum destes problemas ou problema de linguagem?

    Como vimos anteriormente em nossa dissertao de mestrado (Carvalho,1998), o conceito de museu como sistema de comunicao e informao se apia num quadro terico, levando em conta autores da Museologia, da Comunicao e da Cincia da Informao.

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    Segundo Peter Van Mensch (1992, p.IX), muselogo e professor de comunicao na Academia Reinwardt da Holanda, as trs funes bsicas do museu so: preservao (que inclui a coleo, conservao, restaurao e documentao), a investigao [correspondendo pesquisa] e a comunicao (abrangendo a exposio e a educao). A comunicao compreende todos os mtodos possveis para transferir a informao a uma audincia: publicaes, exposies e atividades educativas adicionais (Mensch, 1992, p.X). Este conceito vem sendo adotado desde os anos 50 pelo ICOM-Conselho Internacional de Museus, rgo da UNESCO muito conceituado que realiza congressos e produz publicaes especializadas, e que congrega muselogos de todos os pases interessados nos estudos mais avanados de Museologia, para aplicar nos museus onde trabalham.

    Outros autores reforam esta idia do museu como sistema. Duncan Cameron (1968, p.35), muselogo canadense, citado anteriormente, conhecido por trabalhar na luta pela democratizao das instituies culturais, e Knez, nos anos 60 e 70, desenvolveram o conceito de que os museus funcionam como um sistema de comunicao, no qual o acervo seria a fonte, as exposies seriam o meio e o pblico o receptor. Neste sistema - no qual a comunicao flui em uma nica direo - no existiria feedback (Knez e Wright, 1970, p.205). Assim as pesquisas de pblico deveriam funcionar como um canal de retorno destinado a oxigenar este processo. Cameron e Knez se inspiraram na teoria da informao de Shannon e Weaver e a adaptaram para a Museologia.

    Shannon e Weaver (1949, p.9), autores da teoria matemtica da comunicao ou teoria da informao, afirmam que um sistema de comunicao constitudo de fonte de informao, mensagem, transmissor, sinal, sinal recebido, receptor, destinatrio e, entre o sinal emitido e o recebido, pode interferir a fonte de rudos. Na teoria da informao so trabalhados os conceitos de "quantidade de informao" e "reduo da incerteza", alm dos conceitos de entropia, rudo e redundncia. (Shannon e Weaver, 1949, p.19). importante fazer uma ressalva: os autores, ao elaborar a sua teoria trabalham com as questes tcnicas, e no com as semnticas, enquanto na Cincia da Informao importa o significado. Screven (1991, p.16), autor de artigos sobre avaliao de exposies, alerta para os impactos cognitivos (fatos, conceitos, princpios, habilidade de resolver problemas) e afetivos (excitao, amolao, disposio para entender outros pontos de vista) de uma exposio sobre o visitante. Sugere que muselogos e os profissionais que participam da pesquisa, planejamento e montagem das exposies levem em conta estes aspectos para ajudar o visitante a encontrar significados na difcil linguagem dos objetos de museu.

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    Para Vron, autor da Comunicao que trouxe um novo aporte Museologia nos anos 90, as exposies e, por conseguinte, os museus, so um meio de comunicao de massa. (Vron, E. e Levasseur, M., 1989, p. 21). Para ele, neste ato de comunicao os comportamentos de visita atuam como modalidades de apropriao: se ex-por propor um discurso, visitar uma exposio com-por, se apropriar. Parece importante investigar no s a exposio e a produo de suas mensagens como a forma como so apropriados pelo visitante. Segundo Vron, o modo de fazer a visita gera uma absoro diferenciada do contedo da exposio (Vron,E.,Levasseur, M.,1989, p.67).

    Tanto para Vron quanto para Horta2, na exposio os museus enunciam o seu

    discurso, ao selecionarem objetos do acervo que, junto a recursos adicionais (como textos, imagens, cores, etc.), transmitem mensagens ao pblico. O processo de construo destas mensagens implica o uso de diferentes cdigos e sistemas semiticos, que vo atuar simultaneamente sobre os receptores. A linguagem dos museus uma linguagem especfica. (Horta, 1994, p.10)

    Todo este processo de comunicao museolgica nos mostra a necessidade de pesquisas com o pblico para avaliar se as mensagens veiculadas nas exposies que chegam ao visitante so relevantes.

    Na Cincia da Informao so aspectos tericos da informao que fundamentam esta pesquisa, na sua relao com o conhecimento, a cultura, processos cognitivos e a noo de relevncia. Como mencionado anteriormente neste captulo, entendemos relevncia como um parmetro da concretude do contato entre uma fonte e seu destinatrio num processo de comunicao.

    Nesta relao museu/visitante apontamos tambm as contribuies de outro estudioso da Cincia da Informao, Michel Menou, autor de pesquisas sobre o impacto da informao, que traz os conceitos de externalidades e internalidades que se consolidam na base interna do conhecimento - que influenciada por fatores como personalidade, cultura, emoo, lgica e inteligncia - e deve ser combinada com os recursos interiores do indivduo (Menou Apud

    2 Horta, museloga com doutorado em Comunicao na Inglaterra, atual Diretora do Museu Imperial de

    Petrpolis, diferencia a Semiologia criada por Ferdinand de Saussure em 1916 da Semitica preconizada por Charles Sanders Peirce em 1931. Enquanto Saussure se preocupava em explicar a estrutura dos signos tendo como fundamento os estudos da linguagem verbal, focalizando principalmente os processos de significao, Peirce procurou explicar os mecanismos dos signos, o processo das trocas mentais de idias abstratas atravs de sinais concretos, que ele denomina o processo infinito da semiose, ou da gerao de sentido, no processo de comunicao entre os indivduos, ou entre indivduos e a realidade concreta. A Semitica de Peirce amplia assim o enfoque e o alcance dessa nova doutrina e possibilita uma fundamentao mais cientfica para uma teoria da comunicao. Semiologia e Semitica, segundo a autora, vem a constituir, afinal, o mesmo campo de estudos.

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    Pinheiro,1997, p.480). Verifica-se, a, como os fatores psicolgicos, culturais e a disposio para interao tambm influem para que a informao seja compreendida e assimilada.

    A visita a museus no um hbito espontneo. Segundo Dimaggio o hbito de freqncia a museus e atividades culturais vai se formando na escola, junto famlia e amigos. (Dimaggio,P. et al. 1978, p.90)3

    Dois socilogos que estudam as relaes entre o pblico, museus e as instituies de arte: Pierre Bourdieu, na Frana, e Paul Dimaggio nos Estados Unidos, afirmam que apreciar uma obra de arte ou um outro objeto museolgico requer conhecimento prvio sobre histria da arte, movimentos artsticos, sobre o posicionamento do artista em relao a movimento artstico, ou ter referncias anteriores ligadas ao assunto da exposio. Este conhecimento depende da ida a museus, a galerias de arte, a freqentar instituies artsticas, o que vai lhe permitir acumular uma bagagem de referncias e o modo abstrato de articular a linguagem artstica. (Bourdieu,P.,Darbel,A., 1990, p.37-38)

    Outro autor que realiza pesquisas com o pblico de museus no Mxico Canclini (1989: 138) que achamos oportuno recordar: A alta proporo de pblico com formao universitria indica que o interesse pelos museus de arte moderna cresce na medida em que aumenta o nvel econmico, o educativo e a familiarizao prolongada com a cultura de elite. Todos estes autores foram levados em conta em nossos estudos sobre o pblico de museus, tornando possvel o exame da transferncia de informao.

    Pretendemos aliar os conhecimentos do campo da Cincia da Informao, cincia interdisciplinar, com a Museologia e a Comunicao. Segundo Maroevic (2000, p.5), a incluso da Museologia dentro das Cincias da Informao abre novos campos conceituais. A convergncia destas reas nos auxiliar a analisar as transformaes na relao museu e pblico, a partir das redes eletrnicas de comunicao e informao.

    Referncias bibliogrficas:

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    3 Estudos de pblico para artes cnicas e museus um relatrio baseado em 270 estudos, alguns publicados

    outros no, realizado com instituies norte-americanas em 1978. DIMAGGIO, Paul et al. "Audience studies for the performing arts and museums". Research report. National Endowment for the Arts. Washington, October 1978. xerox. 102 p.

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    2. A informao e o pblico: Museologia e Cincia da Informao

    Neste captulo vamos abordar os estudos de pblico, que so desenvolvidos de duas maneiras: uma abordagem da Museologia os estudos de pblico de museus e outra da Cincia da Informao que so os estudos de usurios, antecessores dos estudos de pblico museus, relacionando metodologias e tcnicas empregadas, seus diferentes enfoques, tambm denominados hoje como Estudos de necessidades, demandas e usos de informao.

    Abordaremos especialmente a transferncia da informao segundo a Cincia da Informao para a qual, conhecer os usurios de um servio de informao, proporciona uma melhor recuperao da informao. Procuraremos apresentar tambm, as convergncias dos dois campos, Museologia e Cincia da Informao, no que tange o museu.

    2.1 A Museologia e os estudos de pblico em museus

    Neste tpico abordaremos as razes de se fazer pesquisa de pblico, os tipos de pesquisas, a literatura na rea, a situao das pesquisas realizadas no exterior e no Brasil, de forma a descrever um panorama geral sobre este tema.

    As pesquisas de pblico vm sendo utilizadas largamente nos museus do exterior, notadamente nos do Hemisfrio Norte, para averiguar diversos tipos de questes: o perfil do visitante, seus gostos, suas preferncias culturais, sua opinio sobre a sua experincia vivida no museu, o impacto cognitivo no visitante, acrescentando-lhe conhecimento, alm do impacto econmico das grandes exposies nas cidades, por atrarem muitos visitantes de outras regies. Servem tambm para os museus planejarem melhor sua programao e direcionarem sua divulgao, ou para definir o melhor dia de cobrana de ingresso gratuito, j que a receita de ingressos tem grande participao no oramento dos museus.

    Segundo artigo de Studart, Almeida e Valente (2003, p.129) os estudos de pblico vm atraindo o interesse crescente de profissionais que atuam nos museus e se constituem, hoje, em aspecto cada vez mais relevante para o planejamento da instituio, refinamento de seus programas e atendimento ao pblico.

    Os museus descobriram que podem planejar melhor sua programao e direcionar adequadamente sua divulgao se conhecerem mais a fundo o seu visitante. Desta forma, podero criar estratgias para atrair o pblico que ainda no os visita. E este no apenas o nico motivo. Os administradores de museus j descobriram que h relao entre o hbito de ida a museus e o hbito de freqentar outras atividades culturais como teatro, cinema,

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    concertos, e leitura de livros (Bourdieu, 1986, p.122). Seriam estas atividades culturais um bom lugar para se divulgar a programao dos museus para um pblico-alvo desejado?

    Outro motivo que os museus, nos Estados Unidos, desejam aumentar o nmero de visitantes porque o impacto da receita dos ingressos e dos produtos vendidos nas suas lojinhas (cartes-postais, catlogos, livros, cartazes, reprodues e objetos) significa algo em torno de 35% do oramento anual de museus de mdio porte (Kreidler,1994). Da ser fundamental que as exposies sejam sucesso de pblico. E que os servios tambm atraiam e faam o visitante ficar mais tempo nas suas dependncias se educando, se divertindo, consumindo e gerando receita, mas este apenas um dos aspectos da questo

    Estas e outras questes vm sendo discutidas por diversos museus do mundo a seus visitantes atravs das pesquisas de pblico que so formas de aferio dos comportamentos, hbitos e opinies dos visitantes de museus (Sousa e Silva, 1989, p.15).

    De maneira geral, existem hoje trs diferentes tipos de estudos: os descritivos, do tipo perfil de pblico; os de avaliao, relativos a metas de exposies e programaes educativas; e os tericos, que descrevem as grandes linhas de pensamento na rea, e que no foram abordados no trabalho de reviso de Sousa e Silva (1989, p.95).

    Os estudos descritivos, do tipo perfil de pblico, so fundamentais para dar base a qualquer outro conhecimento sobre pblico que se pretenda ter. Funcionam como grandes diagnsticos. Os dados em geral so coletados ano a ano, de forma a poder indicar modificaes na clientela do museu e apontam a constituio de grupos/visitantes sozinhos, faixa etria, sexo, escolaridade, procedncia, meio de divulgao que o trouxe ao museu etc. Estas variveis bsicas permitem quantificar os segmentos de pblico, constituindo o seu perfil; e a sistemtica comparao dos resultados a serem auferidos a cada perodo de pesquisa pode revelar modificaes passveis de novos estudos (Sousa e Silva, 1989, p.96).

    Os estudos de avaliao, outra modalidade de estudos de pblico, se iniciam nos anos 70 e se aperfeioam nos anos 80, observando os ganhos afetivos e cognitivos dos visitantes. Nesse sentido, se aproximam da Cincia da Informao, que tem estudado a informao na sua relao com os processos cognitivos. A psicologia do visitante de museu e, particularmente, o processo da comunicao museolgica e da percepo da informao veiculada e das peas so objeto de estudo dos pesquisadores, embora ainda se faam as pesquisas de perfil, porm com menor nfase.

    Nestas pesquisas, pelos resultados, foi constatado que a "percepo dirigida pelo objeto, [...] organizada em unidades de sentido, envolvendo organizao e interpretao. Assim, a informao nova integrada quela j existente, podendo modific-la. Desta forma,

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    objetos familiares ou informaes j conhecidas funcionam como referncias de conhecimento que acolhem informaes novas" (Sousa e Silva, 1989:40).

    Associaes e rgos especficos vm se constituindo para estudo da rea como o Visitor Studies Association, dos EUA, e o Observatoire Permanent des Publics, na Frana. A literatura na rea de estudos de pblico de museus representativa. H publicaes peridicas especializadas relatando estas pesquisas, principalmente nos EUA Curator, Journal of Museum Education, na Inglaterra Museum Management and Curatorship, Journal of Education in Museums e na Frana Public et Muses. Alm disso, foi criado um comit especfico do ICOM Conselho Internacional de Museus, o CECA - Comit de Educao e Ao Cultural, cujo objetivo avaliar a eficcia dos museus enquanto agncias educativas e sua influncia na formao de mentalidades. Este comit edita uma publicao anual desde 1998 que aborda tambm questes sobre os visitantes, suas necessidades e a relao com os objetos, o comportamento dos visitantes nos museus e percursos escolhidos... (Studart, Almeida e Valente, 2003, p.130)

    No panorama das pesquisas de pblico no exterior verificamos que os museus norte-americanos e europeus comearam a empreender, a partir dos anos 60 e de forma sistemtica, estudos de pblico de grande porte, marcados pela utilizao de computadores e pela aplicao de tcnica e mtodos quantitativos na rea de Cincias Sociais (Sousa e Silva, 1989, p.13).

    As primeiras pesquisas realizadas nas dcadas de 60 e 70 comearam a revelar, alm do perfil do visitante de museus, aspectos relacionados s motivaes e ao comportamento do seu pblico. A visita ao museu, embora ainda "estigmatizado como espao exclusivo de estudantes e intelectuais", passou a ser relacionada mais ao lazer, diverso e entretenimento do que possibilidade de ganhos cognitivos. As atividades de lazer so consideradas como "ncoras de identidade", atravs das quais o homem procura colocar coerncia nas suas atitudes, auto-imagem e estilo de vida (Sousa e Silva, 1989, p.39).

    Um dos nomes mais importantes na dcada de 60 pela sua contribuio aos estudos de pblico de museus Duncan Cameron, citado anteriormente, responsvel pelo clssico estudo de pblico do Royal Ontario Museum, no Canad, e posteriormente convidado a gerenciar estudos em diversos museus dos Estados Unidos (Sousa e Silva, 1989, p.13).

    O Metropolitan Museum of Art e o Museum of Modern Art de Nova Iorque fazem, freqentemente, as suas pesquisas de visitante para saber qual o impacto econmico da ida de mais turistas quela cidade, por ocasio de mega-exposies como a "Retrospectiva de Henri Matisse", no MoMA, em 1992 e, no mesmo perodo, a de "Magritte" e a de "Jusepe Ribera:

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    Realista Espanhol na Itlia Barroca", no Metropolitan (Arts Research Center,1993). Estes turistas deixam milhares de dlares na cidade e o motivo de sua ida , principalmente, assistir a estas mostras. Para se ter uma idia da importncia deste assunto, estas pesquisas so desenvolvidas em conjunto pelos rgos de turismo e pela prefeitura da cidade. bom ressaltar que o impacto econmico um entre tantos outros impactos que estas pesquisas podem indicar.

    Ainda em relao aos Estados Unidos, na capital, Washington D.C., o Smithsonian Institution coordena 15 dos principais museus nacionais naquela cidade e tem um departamento chamado Institutional Studies. Esse departamento realiza todas as pesquisas para ouvir a opinio do pblico destes museus e, entre os objetivos, est saber qual o perfil do seu visitante e descobrir suas preferncias culturais. Por exemplo, no Museu Nacional de Histria Natural, os resultados dessas pesquisas indicam que os visitantes gostam de visitar primeiro os dinossauros (adultos com crianas), pedras preciosas e minerais (visitantes de fora da cidade desacompanhados de crianas) e a exposio temporria do momento "Aranhas" (visitantes freqentes que vo sozinhos) (Bielick, Pekarik e Doering, 1995).

    No Museu Nacional Aeroespacial, o mais visitado de todos, os visitantes preferem ver primeiro a nave que pela primeira vez levou o homem Lua (Doering,Manning e Black, 1992), numa ambientao com filmes projetados em telas de 360 graus para que o pblico se sinta no espao sideral. Cada vez mais os museus percebem que fazer o visitante se sentir vivendo aquela situao, naquela poca, naquele local, o faz vivenciar uma experincia to agradvel quanto marcante em sua memria.

    No Brasil, a situao quanto aos estudos de pblico bem diferente. Em 1975, a Associao dos membros do ICOM realizou no Real Gabinete Portugus de Leitura no Rio de Janeiro o 1o Seminrio Brasileiro sobre Anlise do Comportamento do Visitante de Museus, quando se discutiu pela primeira vez as pesquisas de pblico em museu.

    Em sua dissertao de mestrado sobre "Pesquisas de Pblico em Museus e Instituies Culturais abertas visitao", Cristina Sousa e Silva assinalou apenas quatro pesquisas de certa relevncia realizadas at 1989: a da Fundao Nacional Pr-Memria com a ENCE/IBGE, (Pszczol, Leon e Carvalho, 1990), a do Museu Lasar Segall (1981) Comportamentos, Atitudes e Motivaes do Pblico, a de Mrio de Souza Chagas (1987) Museu: coisa velha, coisa antiga e a de Tereza Cristina Moletta Scheiner (1977) Anlise do Pblico da Floresta da Tijuca.

    Julgamos oportuno destacar que a pesquisa da Fundao Nacional Pr-Memria de autoria de uma equipe, da qual participamos juntamente com uma sociloga e uma

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    matemtica. Nesta pesquisa elaboramos uma metodologia para conhecer o perfil dos visitantes de museus da Pr-Memria, que congregava cinco museus nacionais de grande porte e 30 museus de mdio e pequeno porte espalhados por diversas cidades brasileiras. Esta metodologia foi distribuda aos 35 museus em 1990 e foi aplicada em trs: no Museu Nacional de Belas Artes (Carvalho, M., 1994) e no Museu Imperial (1995). Acrescente-se a este grupo a Pesquisa do Perfil do Visitante do Museu da Repblica (Carvalho, 1996), coordenada pela autora desta tese, cujas entrevistas com o pblico realizaram-se de novembro de 1996 a novembro de 1997. Os museus mencionados acima fazem parte do conjunto de museus federais do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional - IPHAN, herdados da extinta Fundao Pr-Memria.

    De 1989 at hoje, alm das pesquisas descritas no pargrafo anterior, alguma coisa se alterou neste quadro, atendendo outras reas da cultura como as pesquisas realizadas pela Escola Nacional de Cincias Estatsticas para a Funarte (rea de dana) e a do Centro Cultural Banco do Brasil, estas duas ltimas realizadas em 1995. necessrio esclarecer que todas as pesquisas mencionadas so do tipo perfil de pblico (Vergara, Rocha e Carvalho orgs, 1998).

    importante salientar, tambm, que o Centro Cultural Banco do Brasil vem realizando, desde 1997, dez pesquisas de pblico por ano em algumas das atividades de sua programao, seja em shows musicais ou exposies, para verificar o perfil socio-demogrfico, opinies e lembrana da marca do patrocinador.

    A poltica de ingresso gratuito do CCBB destina-se ao desenvolvimento de um pblico novo, que pode desconhecer arte e com esta oportunidade vir a se tornar um amante de arte. As pessoas que vo a algum dos eventos onde se cobra ingresso, em geral j possuem alguma educao artstica e hbito de freqentar atividades culturais.4

    Os resultados destas pesquisas so utilizados pelo CCBB no apenas para melhorar a sua programao, como tambm para servir de dados concretos para negociao com a rea de Marketing e seus patrocinadores. A Petrobrs, por exemplo, se interessa em atingir nos eventos culturais um pblico acima de 15 anos, que se no compra combustvel hoje, vai comprar daqui a trs anos e, ao decidir entre uma marca e outra de combustvel, ir optar pela que mais confivel, que projetou uma boa imagem de si.

    No Brasil, h poucos registros de estudos de avaliao de exposio: o de Maria Cristina Bruno (1984) que em sua dissertao avaliou a exposio e a ao educativa do

    4 Informaes coletadas em entrevista concedida por Aguinaldo Lester Landi, da rea de marketing e de captao

    de recursos do CCBB, em 1998.

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    Museu de Pr-Histria Paulo Duarte (Instituto de Pr-Histria da USP), o da dissertao de Adriana Mortara de Almeida, sobre a exposio "Na natureza no existem viles" do Museu do Instituto Butantan de So Paulo em 1994 e a pesquisa de avaliao da efetividade de uma exposio cientfica realizada no mesmo ano por Sibele Cazelli e uma equipe de pesquisadores do Museu de Astronomia e Cincias Afins (1998).

    Ainda sobre avaliao de exposies, em 1998, em nossa dissertao de mestrado em Cincia da Informao, estudamos o processo de comunicao e transferncia da informao na exposio Athos Bulco uma trajetria plural no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, por meio de questionrios, entrevistas e observao. (Carvalho, 1998)

    Como pesquisa propriamente dita, essa dissertao diferiu da maioria dos estudos de pblico at ento realizados, em geral quantitativos, descritivos, de avaliao e de definio do perfil de visitantes. Embora tenha tido como objetivo a transferncia da informao, abrangeu as trs funes bsicas do museu: preservao, investigao e comunicao, e analisou outro fator fundamental: o comportamento do visitante na exposio, isto , como ele se locomove, como realiza o seu percurso de visita pela exposio, o que pode ser relacionado ao nvel de absoro da informao. A pesquisa verificou, ainda, como o pblico percebe o discurso produzido pelo museu e seu sentido, na decodificao e compreenso da mensagem do discurso do museu.

    Ficou comprovada a importncia das informaes bibliogrficas (etiquetas, catlogos, crticas) e seu papel complementar na transferncia.

    importante para os profissionais de museu conhecer o que o pblico apreende em suas exposies e se estas comunicam mensagens relevantes.

    A pesquisa mencionada clarificou alguns aspectos da relao exposio e do museu com o pblico e pode contribuir para o entendimento do processo de transferncia de informao nesse tipo de evento e estimular estudos futuros sobre esta relao. (Carvalho, 1998, p.105)

    Em 1994, a antroploga Andra C.M.M.Barbosa realizou um estudo da relao do pblico com o Museu de Arte de So Paulo (MASP); por meio de entrevistas e questionrios, traou um perfil dos dirigentes do museu, dos pblicos e de suas vises sobre o MASP.

    Em outra dissertao de mestrado em 1995, a educadora Maria Esther Valente investigou quais seriam os nveis de interferncia na relao visitante-museu no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

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    Em sua dissertao de mestrado, mencionada anteriormente, Almeida (1995) esclarece que existem vrias dissertaes que enfocaram a educao em museus5. Os profissionais dos setores educativos dos museus realizam avaliaes sistemticas, sejam das exposies ou dos programas educativos visando a reestrutur-los, aproxim-los do interesse do pblico e alimentar novas programaes.

    No Seminrio Internacional "Museu em transformao: as novas identidades dos museus", realizado em setembro de 1996, no Museu da Repblica, em sesso dedicada exclusivamente s pesquisas de pblico, tambm coordenada pela autora deste projeto - a primeira realizada no pas sobre este tema - constatou-se que h carncia de estudos de pblico de museus no Brasil.(Vergara, Rocha e Carvalho, 1998)

    Um passo importante nesta rea foi a realizao da Conferncia Anual do Comit para a Educao e Ao Cultural-CECA do ICOM, em outubro de 1997, no Rio de Janeiro, cujo tema foi "Avaliao da educao e ao cultural em museu - Teoria e Prtica". Nessa reunio foi discutida, basicamente, a avaliao de exposies e o uso de seus resultados no s pela rea educativa dos museus, como pelos muselogos, planejadores, designers e todos os profissionais envolvidos na concepo de uma exposio e na absoro de seu contedo pelo pblico. Participaram profissionais estrangeiros e brasileiros, e dentre estes ltimos, os de Minas Gerais, So Paulo e Rio de Janeiro apresentaram projetos em elaborao e em execuo de avaliao das atividades em museus. Os anais desta conferncia atualizaram este mapeamento dos estudos de avaliao que esto ganhando fora no pas. (CECA/ICOM, 1998)

    Com relao s aes educativas do museu, Studart, Almeida e Valente (2003, p.152) citam dois estudos recentes: o de Mazzilli e o de Almeida. O primeiro foi realizado por Maria Aparecida Mazzilli, em 1997, para o Museu de Histria Natural e Jardim Botnico da UFMG, a fim de avaliar os programas educacionais, identificar o perfil do pblico, suas expectativas e conhecer suas sugestes. No ano de 2000, como parte de sua tese de doutorado para a ECA/USP, Almeida (2001) realizou estudo para o Museu Lasar Segall, em So Paulo, avaliando a exposio Lasar Segall: construo e potica de uma obra e de sua ao

    5 Excetuando a tese de doutorado de GASPAR, as demais so dissertaes de mestrado: ALENCAR, V.A .

    Museu-Educao: se faz caminho ao andar... Depto. de Educao PUC/RJ, 1995; CAZELLI, S.. Alfabetizao Cientfica e os Museus Interativos de Cincia. Depto. de Educao PUC/RJ, 1992; CINTRA, M.C.S.L.R. Leitura de fragmentos: relato de uma experincia completa a partir de um acervo incompleto. ECA/USP, 1990;FREIRE,B.M. O encontro museu/escola: o que se diz e o que se faz. Depto de Educao, PUC/RJ, 1992;GASPAR, A . Museus e Centros de Cincias - conceituao e proposta de um referencial terico. FE/USP, 1993; GRINSPUM,D. Discusso para uma proposta de poltica educacional da Diviso de Ao Educativo-Cultural do Museu Lasar Segall. ECA/USP, 1991; GROSSMANN, M. Interao entre Arte-Educao: subsdios para a reflexo e atualizao das metodologias aplicadas. ECA/USP, 1988; LOPES,M.M. Museu: uma perspectiva de educao em geologia. Fac. de Educao, UNICAMP, 1988.

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    educativa. Os dados foram coletados por meio de questionrios, entrevistas e observao do pblico escolar e espontneo e serviram para redirecionar partes da exposio, pouco aproveitadas pelo pblico.

    Ainda nessa pesquisa, num levantamento sobre estudos de pblico, Almeida (2001) verificou um maior nmero de estudos de pblico em museus de cincia do que em museus de arte, corroborando uma tendncia tambm observada na literatura estrangeira.

    Os museus brasileiros no realizam estudos de pblico sistemticos, com poucas excees. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Museu de Astronomia e Cincias Afins (MAST) vem realizando desde 1995 pesquisas de pblico e avaliaes de exposies e da ao educativa do forma sistemtica (Studart, Almeida e Valente, 2003, p.153). No Museu Histrico Nacional, desde 1999, vimos realizando, mensalmente, levantamento do perfil do visitante e, freqentemente, pesquisas qualitativas com o pblico das exposies temporrias, de forma a avaliar a transferncia da informao das mesmas para os visitantes. Atualmente, o Museu da Vida (FIOCRUZ) comea a desenvolver estudos nessa rea, de maneira continuada. Da mesma forma, a partir de 1998, o MHN deu nfase s pesquisas de pblico e avaliaes de exposies, ao reabrir a Diviso de Pesquisa que esteve fechada durante alguns anos, a qual passamos a integrar com esta finalidade. O resultado dessas pesquisas foi comunicado ao pblico atravs dos Anais do MHN (Carvalho, 2002, p.395-412), no volume comemorativo dos 80 anos dessa instituio.

    Em sntese, este o panorama geral da rea da pesquisa de pblico em museus. Ainda so poucas as pesquisas de pblico feitas no Brasil, conforme j ressaltamos, sendo a maior parte pesquisas quantitativas. Grandes recursos envolvem a montagem de exposies, mas ainda no contemplam estudos cientficos do pblico que as visita. Tambm no foram identificadas outras pesquisas que privilegiassem a informao, tal como ocorre na Cincia da Informao. E o ainda baixo ndice de visitao de museus no Brasil no estimula seus administradores a investir nos estudos de pblico como forma de subsidiar o planejamento de suas atividades.

    Mais recentemente, o Journal of the American Society for Information Science JASIS (2000) publicou uma edio abordando os museus no espao virtual, intitulada Quando a Informtica de Museu encontra a World Wide Web, gera energia (When Museum Informatics Meets the World Wide Web, It Generates Energy). Nesta edio, com o objetivo de atualizar a presente discusso, selecionamos dois artigos que tratam de aspectos da visitao e do pblico virtuais, que sero aqui mencionados e aprofundados mais adiante. So eles: o artigo de P. Paolini et al., denominado Visitando juntos um museu: como

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    compartilhar uma visita ao mundo virtual, e o de P. Walsh, O Paintbrush neon: olhando tecnologia e museu como metfora. Ambos demonstram como o museu est trabalhando a virtualidade, tanto nas interaes sociais, que so a chave para o aprendizado em museus, quanto ao examinar a maneira como a tecnologia corrente pode estar mudando o que vemos.

    2.2 A Cincia da Informao e os estudos de usurios

    Antes mesmo de existirem os estudos de pblico de museus, na rea da Cincia da Informao foram realizados estudos de usurios voltados para bibliotecas, utilizando as tcnicas e mtodos das Cincias Sociais e da Psicologia. Conforme foi dito, os estudos de usurios tambm se chamam hoje estudos de necessidades, demandas e uso da informao. Entende-se como necessidade tudo que potencialmente necessrio para o indivduo; compreende-se demanda como o pedido em si, o pedido que o indivduo formula para um servio de informao. Nas preocupaes da Psicologia aplicada s situaes de trabalho, foram desenvolvidas atividades de diagnstico dos sistemas organizacionais atravs de tcnicas de anlise do trabalho, o estudo da clientela e dos consumidores que se utilizam dos produtos dos sistemas organizacionais e que neles interferem., afirma o psiclogo Jos Augusto Dela Coleta (1980, p.7-9) na apresentao da coletnea A contribuio da psicologia para o estudo dos usurios da informao tcnico-cientfica, publicada em 1980, com artigos de especialistas brasileiros e estrangeiros da rea da Cincia da Informao. Dois tpicos centrais devem ser ressaltados: a organizao percebida como um sistema e sua relao entre os produtores e consumidores de informao, bens e servios e os estudos dos usurios em si.

    No seu trabalho de reviso Usurios - Informao: o contexto da cincia e da tecnologia, Pinheiro (1982, p.1) afirma: "Os estudos sobre usurios da informao so importantes para o conhecimento do fluxo da informao, de sua demanda, da satisfao do usurio, dos resultados e efeitos da informao sobre o conhecimento, do uso, aperfeioamento, relaes e distribuio de recursos de sistemas de informao".

    Os estudos de usurios tm tamanha importncia e se intensificaram na dcada de 70, que foram criados centros especialmente com essa finalidade, como o Centre for Research on User Studies - CRUS, na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, fundado em 1976, sob o patrocnio do British Library Research and Development Department.(Pinheiro, 1982, p.1).

    Estes estudos funcionam como canais de comunicao entre a biblioteca e a comunidade qual ela serve, contribuindo para uma gerncia voltada para o usurio. O que

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    houve na verdade foi uma mudana de atitude em relao aos usurios: a biblioteca tornou-se mais ativa, dinmica, com a criao e a disseminao de novos produtos e servios, alm do aperfeioamento de outros j prestados. Nos anos 60, com a nova postura de conquistar os usurios, fornecendo-lhes no apenas o documento, mas a informao, as bibliotecas, com as novas tarefas de compactao da literatura atravs de revises, snteses, anlises, compilaes crticas, passaram a constituir-se em centros de anlise da informao (Figueiredo, 1994, p.37).

    No artigo de reviso mencionado acima, Pinheiro (1982, p.3) utilizou como fontes bibliogrficas, o Annual Review of Information Science and Technology ARIST, de 1966 a 1979, num total de 14 volumes; o Library Information Scientific Abstracts, de 1977 a 1981, bibliografias de estudos de usurios e sumrios peridicos da biblioteca do Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia IBICT, alm de documentos de bibliotecas particulares de especialistas da rea. A reviso abrange 99 estudos levantados alm de mais 171 itens de informao que no foram localizados nem estavam disponveis, mas que constam de bibliografia complementar.

    A autora tece consideraes sobre a importncia, problemas e o estgio, naquela poca (1982), de estudos de usurios no exterior, principalmente nos Estados Unidos e na Gr-Bretanha, alm da reviso propriamente dita e focaliza os dados mais questionveis, como a quantidade e a qualidade de estudos existentes, a metodologia e a classificao dos estudos. (Pinheiro, 1982, p.3)

    O primeiro perodo de estudos de usurios, em meados de 1960, privilegiou a rea de informao cientfica e tcnica, na qual os problemas de informao eram tradicionalmente tratados, tendo sido mais ativos os especialistas da informao. Nessa fase, foram numerosas as pesquisas e, como conseqncia, a literatura de Cincia da Informao foi tumultuada com os resultados de grande nmero de levantamentos de qualidade medocre. (Martyn apud Pinheiro, 1982).

    A literatura sobre necessidades e usos da informao continuou crescendo em 1971 e apresentou, como caracterstica marcante, o fato deste assunto ter se tornado um fenmeno internacional . No somente nos Estados Unidos, mas outros pases passaram a se interessar pelo problema. Se ocorreu mudana para os responsveis pelo planejamento e poltica de sistemas de informao, para cientistas e tecnlogos suas implicaes foram ainda maiores. (Pinheiro, 1982:7)

    Lancaster (apud Pinheiro, 1982) afirma que, apesar dos muitos estudos de usurios existentes, poucas so as suas verdades universais, generalizveis, e apenas revelam

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    tendncias bem amplas. Por este motivo, certamente nenhum estudo pode ser aplicado sem modificaes locais apropriadas a diferentes situaes. A maioria dessas pesquisas trata da demanda e no das necessidades de informao. Os estudos de necessidades e usos de informao tem obedecido s mais diversas classificaes, levando em conta deferentes fatores, componentes, metodologia etc. Segundo Menzel (1966), pelas caractersticas das abordagens, os estudos podem ser assim enquadrados: - do ponto de vista dos cientistas e tecnlogos, so estudos de comportamento da

    comunicao cientfica;

    - do ponto de vista de qualquer meio de comunicao, so estudos de uso; e - do ponto de vista de sistemas de comunicao na Cincia, so estudos de fluxo de

    informao entre cientistas e tecnlogos.

    Nos estudos de usurios de bibliotecas, importante explicitar a metodologia e as tcnicas empregadas: Os dados sobre necessidades e usos da informao tm sido obtidos principalmente atravs de questionrios expedidos, dirios e entrevistas pessoais estruturadas. So mtodos que, embora possuam valor, tm suas falhas tambm, da Paisley (1968) ser favorvel a uma metodologia mais ecltica ou operacionalismo mltiplo. No lugar dessas tcnicas adotadas anteriormente, seriam levantadas opinies mais crticas e avaliaes de servios, suas deficincias e necessidades de aperfeioamento. (Pinheiro, 1982)

    Um exemplo de mtodo no totalmente convencional o usado por Parker (apud Paisley, 1968), que uma combinao da anlise secundria de dados de questionrios previamente coletados, com entrevistas mais profundas, registradas em fitas e aplicadas numa populao essencialmente a mesma.

    At meados da dcada de 60 a tcnica mais usada foi a de questionrios auto-administrados, de propsito mais exploratrio, cujo resultado desejado era a descrio em termos mais gerais de hbitos e necessidades de se fazer a coleta das informaes, o mais quantificada possvel. (Pinheiro, 1982, p.9)

    Ao examinar as diferentes tcnicas usadas em estudos de usurios, Lancaster (1974) menciona o incidente crtico, incorporado ao questionrio ou entrevista, e vlido por ser mais exato, uma vez que descreve um episdio recente. O incidente crtico tambm pode ser com o dirio, na tcnica de simulao de tarefas na qual o incidente documentado como acontece e no depende de falhas de memria e registros inexatos.

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    Parker e Paisley (1970), por exemplo, estudaram a interface dos cientistas e seu sistema de informao, na rea da Psicologia, recorrendo tcnica do incidente crtico, explicado logo a seguir.

    Entre as tcnicas destacamos a do "incidente crtico", j mencionada, que vem sendo utilizada desde a Segunda Guerra Mundial, por Flanagan (1973), em pilotos de aviao. "Consiste em um conjunto de procedimentos para a coleta de observaes diretas do comportamento humano, de modo a facilitar sua utilizao potencial na soluo de problemas prticos e no desenvolvimento de amplos princpios psicolgicos." Esta tcnica foi posteriormente includa em estudos de usurios de bibliotecas, centros e sistemas de informao. Possibilita dirigir a memria do entrevistado a uma situao especfica como, por exemplo, a lembrana da ltima visita feita a uma determinada instituio e, por extenso, ao museu. O incidente crtico permite identificar atitudes e motivaes de ordem subjetiva, pois quando o entrevistado pode discorrer sobre uma situao com menos constrangimento. (Pinheiro, 1982)

    Uma maior explorao da tcnica do incidente crtico pode aprofundar bastante os estudos de avaliao em museus, investigando comportamentos, preferncias e a recepo da informao.

    A transferncia da informao, qual dedicamos um segmento mais adiante neste captulo, se insere nesta discusso como a parte fundamental do ciclo ou do processo da informao, onde se produz o conhecimento. importante porque onde ocorre a relao entre informao e conhecimento.

    Os estudos de usurios das bibliotecas e centros de informao, portanto, so realizados h muito mais tempo do que os de museu, com diversos segmentos de pblico e podem trazer uma grande contribuio s pesquisas de pblico de museus. Neles so adotadas diversas tcnicas e mtodos de pesquisa, que tm suas vantagens e desvantagens (Cunha, 1982, p.7), e podem ser aplicados em instituies educativo-culturais como o museu. Uma forma de verificar a atualidade destes estudos de usurios a sua existncia em duas instncias importantes da Cincia da Informao: a primeira, no sumrio da ARIST-Annual Review of Information Science and Technology, onde aparecem como grande tema os estudos de necessidades e uso da informao. Tambm pode ser encontrado no site da ASIST-American Society for Information Science and Technology (Associao Americana de Cincia da Informao e Tecnologia) um grupo de discusso, dedicado s necessidades e usos da informao.

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    Os grupos de interesse especial (ou SIGs Special Interest Groups) so participantes das duas reunies anuais realizadas pela ASIST, com sesses prprias e, tambm, realizam ao longo do ano seus encontros especficos. Dos 23 SIGs de diferentes temticas, um dedica-se aos Estudos de Necessidades, Demandas e Uso de Informao, que o Information Needs, Seeking and Use Special Interest Group - SIG-USE. Em sua reunio anual de 2002 sobre Medies de Comportamentos de Busca: mtodos correntes e propostos, foi publicado um artigo sobre Medies em Estudos de Usurios de Charles T. Meadow, professor emrito da Faculdade de Cincia da Informao, da Universidade de Toronto, Canad, convidando os participantes do grupo a realizarem comunicaes sobre este tema. Os relatrios contendo os resultados dos grupos 1 e 2 foram publicados no site do SIG-USE6 assim como os newsletters das reunies de 2002 e 2003. interessante observar que neste site h uma bibliografia sobre os estudos de necessidades, demandas e uso de informao na qual Michel Menou, autor francs da Cincia da Informao, j mencionado na Introduo desta tese, citado diversas vezes com comunicaes e artigos recentes, sendo um deles sobre O Impacto da Internet.7

    A compreenso do significado de necessidades e fontes de informao reafirma que a maior dificuldade para criao de um sistema de informao est na definio das necessidades e demandas por parte dos usurios, pois, por vrias vezes, foram citadas fontes como necessidades de informao para a tomada de deciso. (Guimares e vora, 2004, p.7) No Brasil, um dos exemplos o Estudo da demanda de informao dos usurios de biotecnologia de Afrnio de Carvalho Aguiar (1986) com o objetivo de verificar se ocorriam diferenas acentuadas entre os grupos - Sade, Agropecuria, Energia, Planejamento e Gesto e usurios da rea industrial - no que diz respeito s suas necessidades de informao. Para os usurios da rea industrial, as caractersticas de demanda de informao no so grandemente diferenciadas das que correspondem aos usurios das reas de pesquisa e de planejamento e gesto. Na sua pesquisa, revelado que os usurios na rea estudada tm maior preferncia por fontes primrias e fontes secundrias convencionais (revistas tcnico-cientficas, anais de congressos, boletins tipo current contents, abstracts, impressos), e por formas tradicionais de atuao dos servios de informao. O uso de bases bibliogrficas muito restrito e parece no haver grande conhecimento da existncia e do potencial de uso dessas bases, havendo

    6 Disponvel em < http://www.asis.org/SIG/SIGUSE/> Acesso em 30/11/2004

    7 Menou, Michel J. (2000). Impact of the Internet: some conceptual and methodological issues, or how to hit a

    moving target behind the smoke screen. In D. Nicholas, I. Rowlands, eds., The Internet: its impact and evaluation. Proceedings of an international forum held at Cumberland Lodge, Windsor Park,16-18 July 1999 (48-64). London : Aslib. [Note: early version available in the proceedings of the Far Hills, Quebec, workshop on the evaluation of telecentres http://www.idrc.ca/telecentre/evaluation/nn/24_Imp.html]

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    clara preferncia pelos canais formais de comunicao, naquele momento, h quase 20 anos atrs.

    Exemplos recentes de estudos de necessidades, demanda e uso da informao so encontrados na revista Cincia da Informao, disponvel na Internet desde os fascculos de 1995, onde levantamos os artigos de 1995 a 2004, que apresentam a tendncia de pesquisar os usurios de setores produtivos. Em 1996 encontramos o artigo Pesquisa de demanda por informao tecnolgica do setor produtivo que traa um perfil da demanda por informaes tecnolgicas por parte das empresas do setor de bens de capital associadas Abimaq-Sindimac, sindicatos ligados indstria da construo civil.

    Em 1997 o artigo Demanda de informao pelo setor industrial: dois estudos no intervalo de 25 anos, de Vania M. R. Hermes de Arajo, Isa Maria Freire, doutoras em Cincia da Informao, e Teresa Cristina M. Mendes, demonstra o quanto o setor produtivo demanda informaes para a tomada de decises. Segundo as autoras, embora os estudos de usurios tenham, tradicionalmente, enfocado os indivduos e grupos envolvidos na produo do conhecimento cientfico e tecnolgico, abordando seus padres caractersticos de comunicao com uma ou vrias fontes de informao, o foco no usurio do setor produtivo se ampliou medida que cresciam tanto a oferta de produtos e servios de informao, quanto a demanda das indstrias por informao que represente acesso ao "conhecimento para ao".

    Tambm neste ano, as uruguaias Poggi, Pereyra e Maiche (1997), publicam seu artigo Estudio sobre necesidades, demanda y uso de informacin de productores de leche ovina y/o caprina. Nele descreve-se um estudo das necessidades, demanda e uso de informao por parte de produtores de leite de ovelha e/ou de cabra, com base num universo de 36 produtores. Selecionaram-se aqueles indicadores que permitem elaborar um perfil destes produtores como usurios potenciais de informao. Os dados foram obtidos por meio de um questionrio testado, previamente distribuio, em entrevistas. Apresentam-se os resultados de acordo com os seguintes itens identificados: perfil da comunidade, comportamento informacional, demanda e necessidade. Trata-se de uma pesquisa realizada com o fim de detectar os produtos e servios de informao necessrios para estes produtores no desenvolvimento da sua atividade, apresentando propostas a partir destes resultados.

    No mbito das tecnologias da informao, as pesquisas de uso/usurios caracterizam-se por avaliar o comportamento dos usurios ao utilizar os mecanismos de busca, visando criar novos servios ou melhorar sistemas j existentes. Envolvem a facilidade do acesso, a ergonomia dos servios de informao disponveis e os aspectos relacionados necessidade de treinamento dos usurios.

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    Alencar (2001, p.27), em sua dissertao de mestrado em Cincia da Informao sobre os mecanismos de busca na Web, afirma que no estudo financiado pela JISC Joint Information Systems Committee8, entidade que promove o uso de tecnologia de informao no ensino superior no Reino Unido, descobriu-se que na poca em que a pesquisa foi realizada, a conexo internacional do Reino Unido com o resto do mundo era feita com baixa velocidade, o que dificultava o uso dos mecanismos de busca, na sua maioria, localizados nos Estados Unidos. Um importante conjunto de informaes foi obtido atravs de questionrio disponvel na Web, onde foram coletadas informaes sobre comportamento de usurios, preferncias e satisfao ou no com o atual servio dos mecanismos de busca. (Stobart e Kerridge apud Alencar)

    Segundo a Webopedia, uma enciclopdia digital, os mecanismos de busca (search engines) so:

    Programas que pesquisam em documentos por palavras-chave especificadas e recuperam uma lista de documentos onde as palavras-chave foram encontradas. Permitem a usurios pesquisar documentos na World Wide Web.

    Tipicamente, um mecanismo de busca trabalha enviando um rob (spider) para buscar o maior volume de documentos possvel. Outro programa, chamado indexador, l esses documentos e cria um ndice baseado nas palavras contidas em cada documento. Cada mecanismo de busca usa um algoritmo prprio para criar seu ndice de tal modo que, em condies ideais, s resultados significativos sejam recuperados para cada busca.

    Alencar (2001, p.27) afirma que alguns autores tratam da questo da experincia do usurio no uso de computadores, da Internet ou especificamente dos mecanismos de busca. A autora descreve a metodologia e os resultados de muitos destes estudos. Destacamos uma dessas pesquisas, mais adequada nossa tese de doutorado.

    Este o caso do estudo de Lazonder, Biemans & Wopereis (2000), que analisa o comportamento de usurios em duas fases: a localizao de um site relevante para sua necessidade de informao e, subseqentemente, de recuperao da informao requerida naquele site. Os resultados indicam que usurios com experincia na Web so mais eficientes em localizar Websites que usurios novatos. A diferena observada foi relacionada a maior

    8 JISC - Joint Information Systems Committee. Entidade que promove o uso de tecnologia de informao e

    sistemas de informao no ensino superior no Reino Unido.

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    habilidade em operar mecanismos de busca na Web. No entanto, nas tarefas onde foi solicitado que os usurios localizassem informao em um site especfico, a performance de usurios novatos e experientes foi equivalente. Este resultado est de acordo com as pesquisas sobre hipertexto. Os autores concluem que o treinamento de usurios deve se concentrar nos aspectos relativos localizao de sites, ou seja, em mecanismos de busca, e no apenas nas questes relativas navegao em ambiente hipertextual.

    Outros trabalhos que investigam o comportamento de usurios na rede vm sendo desenvolvidos mais sistematicamente, a partir do anos 80. No vamos descrev-los aqui por no ser este o objetivo desta tese. Porm, o conhecimento do comportamento de usurios na busca de informao pode ser o caminho para o desenvolvimento de novas tecnologias em servios de recuperao da informao. Destacamos apenas o interessante artigo de Tatiana Furquim (2004) no mais recente nmero da revista Cincia da Informao a respeito de Fatores motivadores de uso de site Web. Este artigo trata de estudo de caso destinado a alcanar um entendimento sobre os fatores relativos a um Website que motivam as pessoas a utiliz-lo. Para tanto, buscou-se embasamento terico na literatura cientfica sobre avaliao de Websites e marketing da informao.

    Ao discutir a questo o que pensam os usurios da Web?, Furquim cita os resultados de estudo realizado por Rosenfield & Morvile (1998, p.8), que afirma que os usurios da Web detestam quando no conseguem encontrar no Website a informao que eles sabem que est l, projeto grfico pobre, uso gratuito da tecnologia (figuras animadas, sons, filmes que somente tornam o tempo de resposta da pgina Web mais longo, sem agregar valor ao contedo), tom inapropriado (uso de jarges ou de uma linguagem no-adequada ao usurio), construo da pgina Web centrada nos critrios do produtor, pginas Web em construo e falta de ateno aos detalhes (links que no funcionam, contedo desatualizado, falta de datas, programas que executam com erro). Por outro lado, consideram que os usurios so motivados por esttica: ou seja, os usurios podem usar um Website somente porque o Website esteticamente agradvel; por boas idias: Websites que mudam a forma como o usurio enxerga as coisas; pela utilidade: para os autores, os usurios visitam e retornam a um Website que de alguma forma julgam teis; possibilidade que a Web oferece de se poder encontrar praticamente tudo; finalmente, a possibilidade de se poder obter no Website informaes customizadas e personalizadas.

    O ltimo tipo de estudos sobre mecanismos de busca envolve, de certa forma, as novas tecnologias a serem desenvolvidas. So os estudos que discutem as tendncias em mecanismos de busca. Uma delas melhorar a potncia destes mecanismos atravs do uso da

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    busca em linguagem natural, j utilizado em alguns servios como o AltaVista e o ElectricMonk. Outra aplicao seria a extenso semntica, ou seja, o sistema estender a busca para sinnimos dos termos digitados para busca, e a traduo de frases freqentes, como o AskJeeves faz. Ou seja, o mecanismo interpreta semanticamente a pergunta feita pelo usurio e a compara com uma base de dados de perguntas j preparadas (Cornella,1999).

    Uma das tendncias que mais interessam a esta tese, para a soluo do problema de recuperar informao cientfica, segundo Butler (2000), a portalizao, ou seja, a criao de portais especializados em temas, em vez da busca por palavras-chave.

    Sandra Rebel Gomes (2002), em sua tese de doutorado sobre bibliotecas virtuais afirma que a biblioteca virtual um desses novos mecanismos a integrar a infra-estrutura de informao necessria Cincia e Tecnologia e portanto, ao desenvolvimento da pesquisa, pois esta, como sabemos, no pode prescindir de um aparato complexo para desenvolver-se. As bibliotecas virtuais so especializadas em um determinado assunto para facilitar a busca e a troca de informaes entre pesquisadores no Brasil e no exterior. Um portal tem a mesma estrutura especializada, porm, a terminologia ainda no consolidada, apesar do termo portal ser tambm utilizado.

    Em sua tese, Gomes (2002) verificou em que medida as bibliotecas virtuais se constituem, hoje, num servio de informao de grande importncia para apoiar a pesquisa cientfica e a sua comunicao.

    Voltando a Butler, o autor destaca tambm como tendncia a criao de programas inteligentes que faro as pesquisas a partir da anlise da necessidade e interesse de seus usurios. Assim, no futuro, haver servios baseados na anlise dos resultados de busca selecionados anteriormente em relao a esta ou aquela pesquisa e ao tempo que o usurio ficou em uma pgina particular, gerando ciclos automticos de retroalimentao (Butler, 2000).

    Referncias bibliogrficas:

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