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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

    INSTITUTO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE HISTRIA

    TRABALHO DE CONCLUSO DE CURSO

    Deuses negros e demnios brancos: Nao do Isl como movimento social nos Estados Unidos da Amrica

    RAFAEL FILTER SANTOS DA SILVA

    PORTO ALEGRE, 2011

  • 2

    RAFAEL FILTER SANTOS DA SILVA

    Deuses negros e demnios brancos: Nao do Isl como movimento social nos Estados Unidos da Amrica

    Monografia apresentada ao Curso de Histria da

    Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito

    parcial para a obteno do ttulo de Licenciado em Histria.

    Orientador: Prof. Dr. Csar Augusto B. Guazzelli.

    Porto Alegre, 2011

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    AGRADECIMENTO

    Agradeo minha me, minha av e ao meu irmo por me aguentarem e me

    apoiarem em qualquer situao. Pessoas cujo amor incondicional me d foras para trilhar o

    caminho do bem.

    Aos meus amigos/irmos adotivos que torcem por mim e cujas diferentes vises de

    mundo abrem minha mente, tornando-me mais humano.

    Aos meus animais de estimao que com um simples olhar, ou abano de rabo,

    conseguem revigorar meu esprito.

    Ao professor Csar Guazzelli por aceitar orientar este trabalho.

  • 4

    SUMRIO

    INTRODUO 5

    1. ESTADOS UNIDOS DA AMRICA ENTRE 1920 E 1940 12

    1.1 OS NEGROS EM DETROIT E EM CHICAGO 15

    1.2 A TRAJETRIA DE WALLACE FARD E ELIJAH MUHAMMAD 22

    2. A DOUTRINA DA NAO DO ISL 26

    3. ANLISE TERICA 34

    CONSIDERAES FINAIS 40

    FONTE PRIMRIA 42

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 43

    ANEXO 46

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    INTRODUO

    Os Estados Unidos da Amrica, ou simplesmente os EUA, cristalizaram uma imagem

    idlica de um local dotado de um povo multicultural e defensor de valores augustos. O norte

    do Novo Mundo era visto como a oportunidade para recomear a vida, consequentemente,

    atraiu gigantesca quantidade de pessoas em busca do sucesso.

    Imigrantes provindos de variados rinces rumavam para aquele pas sonhando em

    vencer, em tornar-se parte de uma nao que prezasse pela igualdade de oportunidades e

    possibilitasse ascenso socioeconmica. Os Estados Unidos, graas aos ideais que

    encarnaram, eram considerados a terra onde o trabalho rende verdadeiros frutos.

    O vasto territrio norte-americano era capaz de abrigar incontveis pessoas ansiosas

    por seu lugar ao sol, mas era necessrio competir com os demais. A extenso territorial

    incentivava a livre concorrncia, concedia boas chances para quem estivesse insatisfeito com

    sua situao e fosse forte o suficiente de adentrar o interior. Os homens iam para l esperando

    ganhar um espao para trabalhar - e a grande maioria realmente logrou sua meta - com o

    intuito de galgarem seus objetivos por via do prprio esforo. Um esprito individualista

    guiava os speros pioneiros procura do mrito pessoal.

    A autonomia do indivduo, Turner1 assevera, serviu de sustentculo basilar expanso

    da democracia, porquanto havia ... antipatia ao controle e particularmente a qualquer

    controle direto 2 da vida. O oeste era distante do centro de deciso poltica. Os mecanismos

    de poder estatal no se faziam presente no interior, desse modo, inexistiam condies para

    regular a vida das pessoas da forma devida. Isso as fazia crer serem aptas a governar seus

    prprios destinos, logo, se fosse para existir um governo, que esse ficasse sob influncia dos

    indivduos isonmicos habitantes dos Estados Unidos. A democracia seria, portanto, atributo

    inerente ao pas em formao.

    A liberdade e a igualdade fora iada a um alto patamar. Cabia a cada um aproveitar a

    chance como achasse melhor. preguia era creditado o fracasso, ao esforo, a glria.

    Contudo, os valores aventados com tanto orgulho por este Estado no se estendiam a todos os

    seres humanos existentes sobre seu solo ptrio.

    Os ndios e negros eram malquistos pelo resto da populao. O primeiro era visto

    como um selvagem, nada mais que um ser inferior, cuja presena obstaculizava o povoamento

    1 TURNER, Frederick Jackson. O significado da fronteira na histria americana IN: KNAUSS, Paulo (org.).

    Oeste americano. Quatro ensaios de histria dos Estados Unidos da Amrica de Frederick Jackson

    Turner. Niteri: UFF, 2004. 2 Ibidem pg. 48.

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    do oeste. Ao segundo era dado o estatuto de escravo, um objeto usado em prol do crescimento

    do dono branco. Essas mculas existentes no pensamento norte-americano, por mais cruis

    que fossem, no podem ser consideradas um contrassenso, porque tais tendncias pertenciam

    a lgica da poca.

    O negro sofreu por longos anos nas mos dos senhores de escravos. No entanto, a

    abolio da escravido no esmoreceu o suplcio, pois foi substituda pelo racismo.

    Principalmente o sul, dependente da mo de obra escrava, resistiu s propostas abolicionistas.

    Por fim, a derrota na Guerra da Secesso obrigou a manumisso de todos os afro-americanos.

    A raiva, afirma Demant3, gerada pelo fim de um sistema econmico lucrativo esteado pelo

    trabalho compulsrio confluiu contra a integrao tnica, favorecendo a polarizao racial.

    A emancipao lanou o negro em uma situao ainda mais desfavorvel que a

    anterior. Roubou a proteo trazida pelo rtulo de escravo, pois diante da cidadania ele

    abandonou a gide de seu proprietrio, ficando sob a proteo de um Estado regido por

    numerveis lderes pr-escravido. Destarte

    ... os estados do sul legislaram a segregao na vida pblica, segundo o

    modelo farisaico de iguais mas separados. Uma variedade de subterfgios legais, associada violncia fsica pela maioria branca, os privou de quaisquer garantias

    constitucionais e os recolocou numa posio de inferioridade estrutural, justificada

    em termos racistas.4

    Os novos estadunidenses ganharam uma cidadania meramente declaratria 5. Calhou,

    continua o autor, um processo de desumanizao, objetivando o tratamento diferenciado entre

    branco e negro. Conquanto tenha sido declarada a igualdade entre todos os homens, os afro-

    americanos, perante leis preconceituosas como as leis de Jim Crow, viviam tolhidos de

    vrios direitos, inclusive direitos civis bsicos como, por exemplo, a livre circulao no

    espao urbano, devendo frequentar ambientes reservados a eles; e direitos polticos tais como

    o voto. Os ex-escravos e suas proles transformaram-se em cidados de segunda classe

    amedrontados por atos de violncia fsica e psicolgica.

    Um dos grandes responsveis pelas agresses racistas, apesar de no perseguir

    somente negros, era o famoso grupo denominado Ku Klux Klan (KKK), fundado por antigos

    adeptos dos ideais confederados no estado do Tennessee. Esse cl de brancos se

    autoproclamava o protetor dos fracos e inocentes do sul. Segundo Carneiro6, se consideravam

    3 DEMANT, Peter. Minorias. Direitos para os excludos. IN: PINSKY, Carla Bassanezi; PINSKY, Jaime

    (org.). Histria da cidadania. So Paulo: Contexto, 2010. 4Ibidem pg. 368-369.

    5 Ibidem pg. 369.

    6 CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Ku Klux Klan. A seita da supremacia branca. IN: PINSKY, Carla

    Bassanezi; PINSKY, Jaime (org.). Faces do fanatismo. So Paulo: Contexto, 2004.

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    o baluarte do cavalheirismo, da humanidade, da misericrdia e do patriotismo, cujo objetivo

    era dar suporte ao plano divino de manter a pureza do branco anglo-saxo protestante violado

    pela abolio. Os membros dessa agremiao eram originrios de todas as classes sociais.

    Coagiam, chegando ao ponto de matar os supostos inimigos da sociedade em assassinatos

    ritualsticos.

    Malgrado existisse ramificaes da KKK no norte dos Estados Unidos, essa regio se

    distinguia do sul no que tange ao racismo. As leis nortistas no institucionalizavam a

    diferenciao entre os cidados pela cor da pele. Elas foram um dos fatores que estimularam a

    migrao dos negros do sul para o norte.

    Grande parcela da populao negra sonhava com uma vida no norte. Imaginava locais

    repletos de oportunidades e de convvio amigvel. Jornais de proprietrios afro-descendentes

    nortistas acabavam por iludir os leitores do sul, porque retratavam a imagem de um norte

    prspero para todos os negros. Esses elementos ocasionaram fortes migraes para regio

    austral. O fluxo de pessoas negras foi tamanho que esse deslocamento populacional ficou

    conhecido como a Grande Migrao 7, tendo incio no limiar do sculo XX.

    Cidades como Detroit, no estado de Michigan, e Chicago, em Illinois, foram destinos

    para os negros em busca de um recomeo. A sada do sul resultou num aumento populacional

    vertiginoso das comunidades afro-americanas dos centros urbanos do norte e provocou o

    crescimento dos ndices de racismo nessas mesmas zonas.

    A vida urbana era desconhecida para a maioria dos migrantes. As novidades exigiam

    uma adaptao difcil de ser obtida isoladamente ento, surgiram diversas instituies, de

    cunho religioso ou laico, para acolher e orientar os recm-chegados.

    Nas grandes cidades que receberam os negros, ocorreu o desenvolvimento de guetos,

    uma forma de segregao informal nos EUA. Os migrantes se estabeleciam nas periferias

    sofrendo a marginalizao social. A degradao da vida e a desiluso proporcionada pela

    situao enfraqueciam a autoestima dos indivduos culminando com a desvalorizao