Responsabilidade social pra quê e pra quem?

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  • 1 Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da TKCSA

    Responsabilidade social pra qu e pra quem?Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da ThyssenKrupp Companhia Siderrgica do Atlntico TKCSA, em Santa Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

    Rio de Janeiro, maro de 2015

    1 edio

  • PACS - Instituto Polticas Alternativas para o Cone Sul

    Rua Evaristo da Veiga, 47/702 - Centro - CEP 20031-040 - Rio de Janeiro - RJ

    Telefone: +55 21 2210-2124

    www.pacs.org.br

    Coordenao Instituto Polticas Alternativas para o Cone Sul - PACS

    Texto Equipe PACS

    Pesquisa Anderson Tavares

    Fotos Arquivo PACS

    Reviso de Texto Gigi Silva

    Projeto Grfico Gabi Caspary - Espao Donas Marcianas

    Ilustraes Pdua Pires e Gabi Caspary

    Apoio Fundao Rosa Luxemburgo (FRL)Esta publicao foi financiada com recursos da FRL com fundos do Ministrio Federal da Cooperao Econmica e de Desenvolvimento (BMZ).

    ISBN 978-85-89366-30-4

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    Apresentao ___________________________________________________________________ 4Responsabilidade Social Corporativa da TKCSA: soluo ou problema para quem? __ 12Servio pblico, poder privado __________________________________________________ 14S os empregos no bastam... _________________________________________________ 16Nova ou velha estratgia? _______________________________________________________ 17Harmonia ou conflito de interesses?______________________________________________ 21Qual a lgica da Responsabilidade Social? _______________________________________ 27Projetos voluntrios e apoios pontuais ___________________________________________ 33De onde vem a Responsabilidade Social Corporativa? _____________________________ 34Alvos e funes da Responsabilidade Social Corporativa ___________________________ 41O negcio da Responsabilidade _________________________________________________ 43E a Vale? ______________________________________________________________________ 45A voz do poder corporativo, mas na boca do povo _________________________________ 46Os projetos e reas escolhidas: preciso cirrgica _______________________________ 58Projetos sociais da TKCSA: direito negado e servio oferecido __________________ 60Concluso: 10 lies sobre a Responsabilidade Social Corporativa _________________ 81Conhea os materiais do PACS __________________________________________________ 87Bibliografia ____________________________________________________________________ 90

  • 4 Responsabilidade social pra qu e pra quem?

    Agora, imagine se um dia um sujeito milionrio vier morar justo na sua rua, sem voc saber direito o porqu. Mas que no era rua de rico, isso voc sabia bem.

    E se, de repente, esse ricao comeasse a jogar o lixo dele na rua todos os dias? E olha que gente rica produz bastante lixo, hein! Desperdcio de mercadorias, toda hora comprando coisas novas, jogando outras fora, fazendo festas, banquetes, churrascos, recepes de negcios... Sabe como : muito luxo - e haja lixo!

    A vida no est fcil pra ningum. Mas a gente vai levando, no mesmo?

  • 5 Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da TKCSA

    Mas a situao fica pior: o milionrio - que, descobriu-se em seguida, veio de fora do pas -, alm do barulho e do fechamento frequente das ruas da vizinhana para seus convidados e clientes,

    comeou a jogar o lixo no apenas na calada, mas tambm no rio que passa dentro da manso dele e desce pelas ruas do bairro. Justo no rio que alimentava as casas da vizinhana com gua pura desde sempre. A no d, n?!

    As pessoas comearam a reclamar, falar entre si, ver o que podiam fazer. Tentaram pedir para ele parar, mas Ele informou que a manso funcionava como uma empresa e que no podia parar de fazer negcios e nem parar de sujar tudo com seu lixo, pois arriscaria diminuir a margem de lucro.

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  • 6 Responsabilidade social pra qu e pra quem?

    Por mais que o povo reclamasse, o pessoal do governo dizia que ia fazer algo, mas sempre enrolava. Estranho? Hum, o governo assim com gente rica, todo mundo sabe.

    Depois de um tempo descobriu-se que ele tinha recebido o terreno de graa da prefeitura e que no pagava um monte de impostos por deciso do prprio governo... E mais: ele no tinha licena para estar fazendo aqueles negcios ali. Deve ser algum muito poderoso, todo mundo concluiu.

    Teve um pessoal que se revoltou. Outros o apelidaram de rico sujo, mas no teve jeito. O cara tinha um bando de seguranas particulares, guarda-costas armados; s de olhar dava medo... E o pior: as autoridades no faziam nada!

  • 7 Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da TKCSA

    Ele ento chamou os vizinhos pra conversar e props um acordo: a poluio (que o milionrio chama de incmodo) vai continuar, no tem jeito; mas j que ele podre de rico, pode oferecer algumas compensaes. Por exemplo, comeou a construir uma escola, um novo posto de sade (que trata de tudo, menos da doena provocada pela gua poluda), chamou algumas pessoas para trabalhar com ele, comeou a comprar no mercado local, pagar o dzimo mais generoso da Igreja, bancou uma roda de samba no carnaval, botou uma grana na caixinha da associao de moradores (que nem existia)... Enfim, abriu a carteira para apoiar projetos sociais na comunidade.

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    S que as pessoas comearam a ficar doentes com a gua do rio cada vez mais poluda. Crianas e idosos mais que todos. Sabe-se l o que ele despejava l. Seria algo txico? Os mdicos no do laudo, mas na comunidade h quem jure que teve mais de uma idosa que morreu por causa daquela poluio... Um horror!

    A indignao voltou na vizinhana, que comeou a se organizar, pedir ajuda, ir na justia, na televiso, falar com deputados, juzes, artistas... A coisa cresceu, ganhou manchetes no pas e no mundo, at no lugar de onde o milionrio veio.

  • 8 Responsabilidade social pra qu e pra quem?

    Os projetos no resolviam os problemas, mas ajudavam um bocado pra quem sempre havia tido servios pblicos ruins. A maioria dos projetos era pra jovens e idosos. E pra quem estava sem emprego, qualquer trabalho trabalho, certo? Ainda mais perto de casa. De fato, alguns projetos eram bem legais e ajudaram o pessoal em coisas importantes, at mesmo a tirar documentos... Mas a poluio continuava e as pessoas, adoecendo. Que situao!

    O povo que antes estava unido, pelo menos na reclamao e no uso comum da gua, agora estava todo dividido. Ningum sabia o que pensar, como agir. Era uma escolha difcil, pois a chegada do milionrio era ruim e boa ao mesmo tempo, de jeitos diferentes: ruim pra sade e boa pro salrio e pra alguns servios. Ser que valia a pena? Ningum se entendia.

  • 9 Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da TKCSA

    E nenhum daqueles projetos sociais era ilegal, mas ajudavam a manter uma situao injusta e perigosa. O rico seguia mais rico, sem licena e poluindo a vida dos vizinhos. E os projetos sociais limpando a barra dele. Uma sujeira. E agora, o que fazer?

    O governo aproveitou pra seguir sem fazer nada contra o cara, pois se j no fazia antes, agora que parte dos vizinhos parou de reclamar do rico sujo por medo dos seguranas e por medo dos projetos sociais acabarem, ficou mais fcil pro governo ignorar a poluio.

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  • 10 Responsabilidade social pra qu e pra quem?

  • 11 Anlise crtica dos projetos de responsabilidade social corporativa da TKCSA

    Essa histria do milionrio sujo no verdade, foi inventada.

    A que vamos contar nas prximas pginas parecida com ela, s que se trata de uma histria verdadeira. E ela est acontecendo agora mesmo no bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

    E, infelizmente, por ser uma histria real, ela mais difcil de ser resolvida do que os problemas enfrentados pelos vizinhos do milionrio sujo.

    L em Santa Cruz eles precisam de ajuda para sair dessa confuso, mas no adianta dar uma contribuio em dinheiro, nem assinar uma petio online apenas. A ajuda que podemos dar agora pensando junto com eles como sair dessa enrascada, que o Governo do Estado e duas grandes empresas multinacionais colocaram para esses moradores ao instalarem uma usina siderrgica no quintal de suas casas.

    Por um lado, as pessoas sentem que esto ficando doentes com a poeira expelida pela fbrica.

    Por outro, a empresa criou uma srie de projetos sociais em uma regio que sempre foi muito mal atendida pelo poder pblico.

    E agora, o que fazer?

    E se a histria for parecida com a realidade?

    Estado do Rio de Janeiro

    Zona Oeste:Santa CruzGuaratiba

    Campo GrandeBangu

    RealengoJacarepagu

    Barra da Tijuca

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  • 12 Responsabilidade social pra qu e pra quem?

    Responsabilidade Social Corporativa da TKCSA:Soluo ou problema... para quem?

    O problema que os moradores de Santa Cruz esto vivendo chegou em 2006, quando a ThyssenKrupp Companhia Siderrgica do Atlntico (TKCSA) comeou a construir aquela que seria a maior siderrgica da Amrica Latina no terreno que fica entre as suas casas e s margens da baa de Sepetiba. Naquela poca, os moradores no sabiam o que estava por vir quando a fbrica entrasse em operao em 2010. No comeo, foram s os pescadores que perceberam o problema que tinha chegado.

    Afinal, um investimento de R$ 15 bilhes realizado pela alem ThyssenKrupp e pela brasileira Vale S.A. estava sendo apresentado como indutor de progresso e desenvolvimento para aquela regio. A expectativa era alta. Somente em 2014 o faturamento global da ThyssenKrupp, que possui 73% das aes da TKCSA, foi de 41 bilhes de dlares1. A Vale, que possui os restantes 2