Revista conecta

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revista conecta

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  • 03REVISTA CONECTA

    SUMRIO

    05

    18

    carta ao leitor

    16Brasil inovativoEsforos so premiados

    20Pesquisa, desenvolvimento e inovaoRelao universidade-empresa:uma parceria que pode dar certo

    24spin-offsHistrias que inspiram

    31PIT nas ICTs paulistasPrograma representa esforo paraaproximar instituies e mercado

    28Bruno Moreira e Roberto A. LotufoA metodologia do Programa deInvestigao Tecnolgica

    44Robert F. BinderFontes de investimentoem capital de risco

    64Abraham Sin Oih Yo e Paulo Brito Moreira de AzevedoValorao de tecnologias: questes chaves para aplicao

    34casesArquitetura e Urbanismo

    06entrevistaJoo FurtadoLegislao deve ajudar poltica de solues para problemas nacionais

    40

    78

    Acstica

    Amostra das tecnologias analisadas pelo PIT-SPLista de Tecnologias

    artigosDigenes Feldhaus e Victor FernandesOpen Inovation: nova roupagem para conceitos j estabelecidos

    82dicas de livros

    11reportagensSistema Nacional de InovaoInovao no Brasil: a distnciaentre esforos e resultados

    42Fsica

    47Engenharia Mecnica

    50Engenharia Sanitria

    52Engenharia Qumica

    58Qumica

    59Farmcia

    68Engenharia de Alimentos

    70Biotecnologia

    74Agronomia

    76Gentica

  • EXPEDIENTE

    REDAO

    EDITOR CHEFECarlos Vogt

    EDITORA EXECUTIVASimone Pallone

    EDITORA ASSISTENTEPatrcia Mariuzzo

    REPRTERESDaniela Lot, Fbio Reynol, Flvia Gouveia,

    Flavia Natrcia, Gabriela Di Giulio, Marta Kanashiro, Michela de Paulo, Patrcia Mariuzzo, Sara Nanni, Susana Dias

    COLABORADORESFernando Petermann (fotos),

    Companhia de Comunicao (arte), Wanda Jorge (projeto editorial e reviso de provas finais)

    REVISODaisy Silva de Lara

    FOTO DA CAPARandy Faris/CORBIS/LatinStock

    PROJETO GRFICO E DIAGRAMAOFabiana Pacola Ius / Neo Arte

    IMPRESSOGrfica Editora Modelo Ltda. - Campinas/SP

    LABJORUniversidade Estadual de Campinas

    Cidade Universitria Zeferino Vaz, s/nPrdio V da Reitoria, 3 piso - Campinas - SP - CEP 13083-970

    Tel. (19) 3289-3120 Fax (19) 3521-7857e-mail: [email protected]

    PROGRAMA DE INVESTIGAO TECNOLGICA - SO PAULO

    www.pit-sp.org.br

    COMIT GESTOR DO PITAngela Cristina Azanha Puhlmann

    Oswaldo MassambaniRoberto de Alencar Lotufo

    Srgio R. R. de Queiroz

    GERENTES DO PITClaudio Fuentes (IPT),

    Janana Csar (Unicamp),Jos Ricardo Mendona (USP), Leopoldo Zuaneti (Unesp) e

    Rodolfo Politano (Ipen)

    COORDENADORES DA PUBLICAOBruno MoreiraLvia Fioravanti

    Cartas e mensagens eletrnicas devem ser enviadas para Instituto Inovao

    Av. Dr. Romeu Trtima, 699 - Cidade Universitria Campinas - SP - CEP 13084-791

    e-mail: [email protected]

    A revista Conecta uma publicao elaborada pelosNcleos de Inovao Tecnolgica do Ipen, IPT, Unesp,

    Unicamp e USP e pelo Instituto Inovao como parte das atividades de divulgao do Programa de

    Investigao Tecnolgica de So Paulo (PIT-SP).

    04REVISTA CONECTA

  • 05REVISTA CONECTA

    VVVacina contra salmonelose, radiofrmaco para tratamen-

    to de cncer, chocolate de cupuau, mini-estao para tratamento

    de esgoto, herbicida menos poluente, plsticos biodegradveis,

    estas so algumas das tecnologias que foram analisadas pelo

    Programa de Investigao Tecnolgica de So Paulo (PIT-SP),

    metodologia desenvolvida pela Unicamp em parceria com o

    Instituto Inovao e conduzida pelos Ncleos de Inovao

    Tecnolgica (NITs) das trs universidades pblicas do estado

    e dois institutos de pesquisa Unicamp, Unesp, USP, Ipen e

    IPT. A metodologia baseada na Diligncia da Inovao e adap-

    tada para o ambiente dos NITs, visa encontrar entre as diver-

    sas tecnologias desenvolvidas nessas instituies de ensino e

    pesquisa, quais delas apresentam maior potencial para entrar

    no mercado.

    Existem trs caractersticas que tornam este programa estru-

    turante e nico: 1) formao de recursos humanos para ges-

    to da inovao, pois so os alunos bolsistas, na maioria per-

    tencentes a cursos de graduao, que fazem a investigao den-

    tro de um processo de superviso e treinamento; 2) difuso da

    cultura de inovao nas ICTs Instituies Cientficas e

    Tecnolgicas, pois informaes de mercado e de negcios so

    discutidas junto aos grupos de pesquisa; 3) implementao de

    uma metologia de gesto para os NITs no suporte prospec-

    o, proteo, valorao e comercializao dos resultados de

    pesquisas das ICTs.

    A Lei de Inovao de 2004 traz grande nfase para est-

    mulo ao desenvolvimento cientfico e tecnolgico nas ICTs,

    definindo o NIT como responsvel pela gesto da poltica de

    inovao. Existem ainda poucos instrumentos e metodologias

    difundidas para que esses ncleos venham a cumprir o seu

    papel. Este programa pode servir de exemplo a ser estimulado

    pelos rgos governamentais de C, T & I e seguido por outros

    NITs do pas.

    A aproximao entre instituies cientficas e o setor

    industrial torna-se cada vez mais imperativa, no contexto de

    uma economia mais competitiva a cada dia, na qual a ino-

    vao tecnolgica encontra lugar de destaque. E para isso

    o estmulo vem sendo gerado em forma de novas leis, finan-

    ciamentos, capacitao de recursos humanos e, por que

    no dizer, divulgao, como a que encontramos por meio

    desta revista, e tambm de eventos, como o Conecta, que

    em sua segunda edio pretende mostrar no apenas os

    resultados do PIT-SP, mas de todo o conjunto de incenti-

    vos inovao que teve grande impulso a partir dos anos

    1990 e que ao mesmo tempo que comea a apresentar resul-

    tados, vai se aperfeioando e constituindo um novo Sistema

    Nacional de Inovao, mais prximo do que deve ser um

    sistema capaz de alavancar solues criativas e inovadoras

    para uma sociedade moderna, globalizada, capaz de gerar

    mais conhecimento e riqueza.

    Angela Cristina Azanha Pulhman Coordenadora do Ncleo de Propriedade Intelectual e Comercializaode Tecnologia do IPTOswaldo Massambani Diretor da Agncia USP de InovaoRoberto de Alencar Lotufo Diretor executivo da Agncia de Inovao Inova Unicamp

    ...A aproximao entre instituies cientficas e o setor industrial torna-se cada vez mais imperativa, no contexto

    de uma economia mais competitiva a cada dia, na qual a inovao tecnolgica encontra lugar de destaque....

    CARTA AO LEITOR

  • 06

    Legislao deve ajudar poltica desolues para problemas nacionais

    Com uma trajetria profissional voltada para o tema do desenvol-vimento industrial e tecnolgico e da inovao, o economista e pro-fessor Joo Furtado comenta a Lei de Inovao, suas leis corre-latas e os instrumentos de poltica de C,T&I no Brasil. Suas opi-nies sobre as aes necessrias para promover a inovao no passo marcadas pela preocupao constante com o desenvolvimen-to. Atualmente, Furtado dedica-se atividade docente na EscolaPolitcnica da Universidade de So Paulo (USP), orienta diversostrabalhos relacionados ao desenvolvimento, diretor adjunto daFundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp),editor-executivo da Revista Brasileira de Inovao e participa de umconjunto de projetos envolvendo o tema da inovao.

    A Lei de Inovao entrou em vigor em 2004. Seus pilares soo incentivo ao pesquisador empreendedor e estmulos fis-cais ao investimento empresarial em P&D. Que efeitos podemser atribudos a ela, no que se refere aos esforos na direoda inovao?Em termos de resultados palpveis, ainda no temos nada muito sig-nificativo. Algumas empresas tm despertado para esses esforos, masos resultados efetivos so entre pfios e muito modestos. Uma polti-ca que no seja turbinada com incentivos de natureza fiscal ou mui-ta presso regulamentar, como padres de qualidade, normas tcni-cas etc, incapaz de produzir resultados rapidamente. A Lei deInovao um pano de fundo que cria algumas possibilidades, masnenhuma delas se torna efetiva sem um certo tempo ou medidascomplementares. O tempo ainda no transcorreu e as medidas com-plementares esto ocorrendo agora. Essas sim so muito vigorosas. A Lei do Bem anunciou uma srie de medidas que as empresas esta-vam tateantemente comeando a usar, a poltica anunciada no dia

    12 de maio, turbina isso com apoios de natureza fiscal e com certoapoio financeiro por parte do BNDES. Incentivos fiscais de um lado,financeiros de outro, sobre uma base regulamentar adequada, geramefeitos mais vigorosos, sobretudo porque a economia do pas estcrescendo, e numa situao em que o cmbio no favorece a prote-o. E se o cmbio no favorece essa proteo, pelo contrrio, abrea economia cada dia mais aos produtos importados, as empresastero que se defender com saltos de qualidade, produtividade, efi-cincia e inovao.

    Que efeitos se pode esperar da Lei de Inovao e suas leiscorrelatas enquanto instrumentos de poltica?Espera-se uma convergncia das empresas brasileiras para uma situa-o normal no mundo, que ter ao lado de departamentos de enge-nharia vigorosos das empresas, departamentos de P&D igualmen-te robustos, capazes de colocar na empresa capacidades de desenvolverinternamente solues e produtos, e tambm a capacidade de dia-logar com o mundo externo empresa: outras empresas, fornece-dores, consumidores, institutos e organizaes responsveis pela pro-duo de conhecimento novo. Sem essa estrutura, sua capacidade de avanar se torna muito limi-tada. Ento, se espera que as empresas utilizem o conjunto de ins-trumentos da Lei de Inovao e da Lei do Bem para constituremdepartamentos internos vigorosos, capazes de alavanc-las pelo seuprprio esforo e pelo seu relacionamento com o mundo externo.

    Em quanto tempo possvel obter esses resultados?Quando se iniciou o movimento da qualidade no Brasil, no inciodos anos 90, em resposta s ditas carroas do Collor, indstriade m qualidade, com padres produtivos deficientes e produtospouco atualizados, ningum imaginava que os resultados viessem torapidamente. Porm foram restritos. Algumas empresas aderirammuito rpido ao esforo, mas a maior parte delas continuou alheia,

    REVISTA CONECTA

    ENTREVISTA Joo Furtado

    FLVIA GOUVEIA

  • e ns continuamos a ter uma indstria onde grande parte do teci-do produtivo deficiente, sem padres de qualidade, tcnicos e deprodutividade adequados. Podemos esperar uma repetio disso. Algumas grandes empresasvo convergir rapidamente, aproveitaro esses estmulos do aparatoinstitucional de natureza fiscal e financeira, sobretudo as que podemusufruir dos benefcios da Lei do Bem e da Lei de Inovao, con-centrados nas empresas que declaram imposto de renda, perto de8% do total de empresas.

    Em sua opinio, o que deve ser feito para que os resultadossejam efetivos?O cumprimento dessa tarefa deve considerar estmulos e presses.A primeira das presses suprimir definitivamente a possibilidadede que as empresas consigam existir com base em heterodoxias fis-

    cais, trabalhistas etc. Quem que vai investir em ganhos incremen-tais de unidades de percentuais se pode ter ganhos de dezenas deporcentagem com maracutaias fiscais e trabalhistas? Pelo lado dos estmulos preciso construir um sistema de extensio-nismo industrial e tecnolgico, capaz de levar a modernidade paradentro das pequenas e mdias empresas. Um estmulo de verdade,que passasse pelo sistema de ensino profissionalizante e pelas uni-versidades, que formam os engenheiros.

    Os instrumentos de incentivo Cincia, Tecnologia e Inovaono Brasil (Leis do Bem, de Inovao, de Patentes, deInformtica) podem ser considerados parte de uma polti-ca de C,T&I de longo prazo? So eles estmulos integrados,em funo de um eixo de orientao para o pas, cujos impac-tos ultrapassam mandatos de governo? Os instrumentos so, no mximo, coerentes, mas no constituemum arcabouo bem articulado. A prova disso que os diferentesorganismos governamentais continuam com um enorme grau de desar-ticulao e so incapazes de construir amarraes em determinadosfruns. Por exemplo, essa nova poltica de desenvolvimento anun-cia que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econmico eIndustrial vai ter determinados papis. Um deles deveria ser o de esti-mular que os organismos cobrassem retorno para os seus investi-mentos, de forma coerente, integrada e articulada, para no acon-tecer de uma empresa ganhar benefcios de vrios organismos, se apro-veitar da liberalidade do Estado para receber vantagens e no entre-gar resultados.No caso da poltica de informtica, trata-se de uma poltica de Estado,com variantes momentneas. Persiste no Brasil um conjunto de pol-ticas de apoio aos setores de informtica, microeletrnica, eletrni-ca, telecomunicaes etc. O setor vive h mais de 30 anos com dife-rentes estmulos, uns mais vigorosos, outros menos, uns mais pere-nes, outros menos, mas se mantm o apoio.

    E esse apoio coerente? Em minha opinio, no. pouco coerente porque se insiste na idiade que o mais importante ter produo local, quando o mais impor-tante ter capacidade inovadora local e solues capazes de se tor-narem vencedoras internacionalmente. O complexo eletrnico, detelecomunicaes e informtica tem que ser reconstrudo no Brasilno do material para o material, mas do imaterial para o material,da soluo tecnolgica para as bases materiais dessa soluo. A maior

    07REVISTA CONECTA

    Incentivos fiscais de um lado,financeiros de outro, sobre uma

    base regulamentar adequada,geram efeitos mais vigorosos,

    sobretudo porque a economia dopas est crescendo

    EDUA

    RDO

    CESA

    R/FAP

    ESP

  • 08REVISTA CONECTA

    parte dos componentes do complexo eletrnico e informtico podeser resumida em dois tipos: inacessveis ou irrelevantes, commodi-tizados. As solues inovadoras podem ser construdas com base emcommodities. A criao de valor e riqueza deve estar baseada em solues quesejam brasileiras para o mundo. O exemplo mais conspcuo disso,de uma soluo engenhosa brasileira que poderia ter se tornadomundial e no foi, a urna eletrnica. No preciso ter uma inds-tria eletrnica poderosssima para fazer artefatos eletrnicos, infor-mticos e de telecomunicaes consistentes. A urna eletrnica pode-ria ter sido uma soluo brasileira para o mundo e no foi. No apro-veitamos essa oportunidade. A nossa indstria se formou na idiade que primeiro o mercado interno e depois, muito gradualmen-te, o mercado externo. um erro pensar dessa forma num mun-do em que os ciclos de vida dos produtos so curtssimos. Se o Brasilno aproveita oportunidades como essa visando a escala mundial,um outro pas ir aproveit-la. No caso da urna eletrnica, umaempresa estrangeira aproveitou a oportunidade e comprou a solu-o brasileira.

    A Lei de Inovao pode ser considerada um incentivo hori-zontal, que beneficia todos os setores da mesma forma? Teoricamente sim, mas h empresas que no precisam contratarmestres e doutores para fazerem P&D e desenvolvimento de enge-nharia, enquanto outras precisam. Nesse sentido ela horizon-tal, mas no beneficia todas as empresas na mesma medida. Umaempresa do setor de mveis ou de plstico no precisa de mestrese doutores. Uma empresa de informtica ou de biotecnologia,quase por definio, trabalha com mestres e doutores. Ento, ape-sar de ser uma poltica horizontal, ela estimula diferentemente varia-dos setores.

    Quanto s empresas, os mecanismos legislativos beneficiamigualmente empresas de diferentes portes?No, porque os benefcios fiscais associados Lei de Inovao e Lei do Bem so, sobretudo, dedues do imposto de renda que exis-tem s para as empresas que declaram imposto de renda, menos deuma em cada dez, praticamente uma em cada vinte. preciso criarmecanismos fiscais igualmente vigorosos para os 93, 94% das empre-sas que ficaram de fora. E o principal deles deveria ser um mecanismode extensionismo industrial e tecnolgico, uma espcie de chequeem branco. Dessa forma, qualquer empresa disposta a gastar em ser-

    vios de engenharia, servios de assistncia tcnica, encomendas tec-nolgicas etc, poderia gastar por meio desse crdito, que funciona-ria exatamente como um cheque em branco. Ento, para uma empre-sa de porte pequeno ou mdio, contratar servios para melhorar olayout, reduzir o tempo de desenvolvimento de seus produtos, melho-rar sua eficincia tcnica, ou por qualquer outra razo, os recursosdisponveis teriam de ser equivalentes aos recursos fiscais que hojeesto turbinando a grande empresa. Seria um outro eixo dessa mes-ma poltica, que reconhecesse o fato de ter ficado de fora a parte maisimportante do tecido industrial brasileiro, que so as pequenas emdias empresas.

    A Lei de Inovao atinge as empresas estrangeiras no Brasilde forma diferente em relao s empresas de capital pre-dominantemente nacional?No, a Lei de Inovao no faz distino entre empresas de dife-rentes origens. Porm, o que ocorre que as pequenas e mdiasempresas no Brasil so majo-ritariamente nacionais. Emfuno de seu porte, declaramlucro presumido e, conse-qentemente, no tm acessoaos benefcios da Lei. A maio-ria das empresas estrangeirasopera no Brasil com apuraode lucro real e, portanto,podem beneficiar-se dos incen-tivos em proporo relativa-mente maior do que as empre-sas nacionais. Nesse sentido, embora no haja discriminao expl-cita, como se houvesse, pois a indstria nacional acaba prejudica-da. Isso decorre das diferenas nas formas de declarao de lucro entreempresas nacionais e estrangeiras.

    O Brasil possui exemplos de inovaes em setores tidoscomo de baixa tecnologia, como bioengenharia ou explo-rao de petrleo em guas profundas. Em sua opinio, apoltica de C,T&I do pas deve dar prioridade inovao nossetores eleitos como high tech, em consonncia com pol-ticas alinhadas com as diretrizes internacionais, como a PIT-CE (que elegeu alguns setores como prioritrios ), ou aos seto-res tradicionais?

    ENTREVISTA Joo Furtado

    EDUARDO CESAR/FAPESP

  • 09REVISTA CONECTA

    Nem um nem outro. A poltica deveria utilizar os setores fortes,em que o Brasil competitivo e em que exista uma forte concor-rncia entre as empresas e uma forte concorrncia voltada para oaumento da produo, da qualidade, da produtividade, da ino-vatividade, inclusive para conquistar patentes no mercado inter-nacional. O pas deveria aproveitar esse amplo tecido produtivo,vigoroso e dinmico, para vincular-se aos setores internacionalmenteconsiderados inovadores. Desta forma, seria possvel desenvolver informtica, eletrnica eoutras solues engenhosas para setores em que o pas forte, comoo agronegcio brasileiro. possvel vincular a minerao brasileira eletrnica, possvel utilizar eletrnica, informtica, telecomuni-caes e o programa espacial brasileiro para planejar efetivamentesolues para nossos problemas. O esforo brasileiro de pesquisa edesenvolvimento para a agricultura mais significativo em termosrelativos do que o esforo brasileiro em alguns dos chamados seto-res tecnologicamente avanados, a exemplo do farmacutico.

    No ltimo World Development Report, h uma estatstica que mos-tra que o esforo brasileiro em desenvolvimento cientfico e tecno-lgico para a agricultura equivale a quase 2% do PIB agrcola, por-tanto muito superior ao investimento que nossa farmacutica fazem P&D, como percentual do PIB setorial. Isso em termos relati-vos, mas como o setor do agronegcio brasileiro 30 vezes maior doque o setor farmacutico, ento esse esforo 50 vezes maior (apro-ximando os nmeros) e muito prximo aos esforos dos principaispases desenvolvidos. S estamos muito atrs do Japo, que gasta3,5% do seu PIB agrcola em P&D. No Brasil, o gasto em P&D agr-cola passou de 1,2% para 1,8% entre o incio dos anos 80 e o finaldos 90. Isso sugere que as polticas deveriam acoplar as reas clssi-cas de alta tecnologia s reas tradicionais em que o Brasil se desta-

    ca, sobretudo se isso pudesse ser feito por meio de encomendas tec-nolgicas de risco do governo ou por ele intermediadas, utilizan-do-se cheques e crditos fiscais, de forma que as grandes empresas,como Petrobras e Vale do Rio Doce, obtivessem estmulos para trans-feri-los s pequenas e mdias. Esta seria uma articulao consisten-te. A Petrobras, desde os ncleos de articulao com a indstria, oschamados NAIs, nos anos 50, foi uma grande construtora de solu-es industriais e tecnolgicas. O pas poderia ter centenas de empre-sas nacionais, em diferentes setores, fazendo o mesmo. Os fundosde eletricidade, do petrleo etc, poderiam ser usados deliberada-mente com esse propsito. So usados, mas de forma modesta epouco dinmica.

    O senhor diria que falta essa conscincia ao governo?No falta conscincia, mas falta aos organismos pblicos aprofun-dar os mecanismos de articulao. A poltica brasileira continuainsistindo sobre a capacitao da oferta quando ela deveria acentuara demanda. Quais so os setores que podem demandar soluesengenhosas, inovadoras, tecnologicamente consistentes para o con-junto do tecido produtivo? So os setores que esto em crescimen-to, setores das competncias estabelecidas brasileiras e algumas deinformao. O agronegcio evidente, mas energia tambm , assimcomo as energias renovveis, metal-mecnica...

    Alm de mecanismos legislativos, quais outros meios o paspoderia utilizar para promover a produo de conheci-mento e tecnologia inovadores no contexto internacional?A primeira coisa a identificao de oportunidades nascidas de pro-gramas brasileiros, da multiplicidade cultural brasileira, dos proble-mas sociais, que possam se tornar solues mundiais. O etanol um caso exemplar, foi uma soluo muito criticada durante 25 anos,e que hoje o mundo cobia. Entrevistei uma empresa de Piracicabarecentemente e fiz a seguinte pergunta: quantas vezes vocs mor-reram?, ao que eles responderam, em 1999, ns morremos 365vezes. O barril de petrleo, que hoje custa quase 120 dlares, cus-tava, em 1999, 12 dlares, um dcimo desse valor. Como pode umaindstria, que foi constituda para competir num contexto em queo barril de petrleo custasse 30, 40 dlares, sobreviver com um pre-o de petrleo a 12? Mas sobreviveu e est a at hoje. Os conserva-dores sempre dizem o seguinte: se s tem no Brasil e no jabuti-caba, burrada. O etanol no jabuticaba, s tem no Brasil e omundo inteiro inveja! A urna eletrnica, a declarao eletrnica

    O complexo eletrnico, de telecomunicaes e

    informtica tem que ser reconstrudo no Brasil no domaterial para o material, mas do imaterial para o material

  • ENTREVISTA Joo Furtado

    do imposto de renda e o Bolsa Famlia so exemplos promissores.So estmulos que o governo brasileiro conseguiu desenvolver, cria-dores de solues engenhosas. O terreno mais frtil para a inova-o deveria ser o das polticas pblicas, articulando demandassociais com a engenhosidade do nosso tecido industrial e do apa-relho de pesquisa que o Brasil desenvolveu. O aparato institucio-nal menos importante do que o uso engenhoso aplicado, dire-cionado e inteligente desse aparelho legislativo. Com pouca legis-lao e muita determinao se faz muito. Apenas com muito apa-relho legislativo no se chega a lugar nenhum.

    O senhor acredita que a Lei de Inovao brasileira colocaem risco a qualidade do ensino superior, ao estimular opesquisador a dedicar-se apenas s reas da cincia compotencial inovador mais imediato, negligenciando a cin-cia bsica?No, definitivamente. Trabalhar na universidade ser empreende-

    dor e no ser burocrata, dar aula. H muito tempo os bons pesqui-sadores universitrios j se tornaram empreendedores. E se ele umcientista relevante, ele j ter criado na universidade herdeiros quesabero pegar o basto e seguir adiante na corrida. O bom pesqui-sador forma sucessores e capaz de fazer empreendimentos de natu-reza econmica e comercial fora dos muros universitrios, porqueele relevante. Portanto, no h nenhum problema desse tipo, aocontrrio, quanto mais pessoas sarem, mais vnculos entre o mun-do l fora e o mundo universitrio sero criados.

    A Lei de Inovao e as outras leis correlatas tiveram maisacertos ou erros? Do ponto de vista legislativo, mais acertos do que erros. Do pontode vista operacional, mais letargia do que efetividade. Todos os meca-nismos institucionais precisam ser operacionalizados de forma vigo-rosa e consistente. No h problemas do ponto de vista institucio-nal. H uma operacionalizao efetiva ou no.

  • 11REVISTA CONECTA

    Inovao no Brasil: a distncia entre esforos e resultados

    Mecanismos legislativos e planos de incentivo refletem a preocupao do governo com o tema, mas a construo de um sistema integrado ainda um objetivo a ser perseguido

    SISTEMA NACIONALDE INOVAO

    Os instrumentos de incentivo existem, os agentesconstituintes do sistema esto todos presentes. O quefalta, ento, para que a inovao seja o grande motordo crescimento e do desenvolvimento da economiabrasileira? Especialistas de naturezas distintas aca-dmicos, com passagem pelo setor pblico ou ligadosa empresas privadas divergem em alguns aspectos,mas esto afinados na recomendao de que preci-so articulao entre os agentes e ampliao do cam-po de abrangncia de alguns instrumentos de est-mulo inovao. Articulao fundamental. Semarticulao no h sistema, mas promov-la no umatarefa trivial, diz Srgio Queiroz, professor doDepartamento de Poltica Cientfica e Tecnolgicado Instituto de Geocincias da Unicamp.

    Carlos Amrico Pacheco, professor do Institutode Economia da Unicamp e ex-secretrio executivo do Ministriode Cincia e Tecnologia (MCT), na gesto 1999-2002, faz umbalano positivo da evoluo por que passou o pas. Vejo umainterao cada vez maior entre os atores de nosso sistema, esti-mulada por um ambiente que d nfase inovao e tambmpor instrumentos especficos das agncias de fomento, mas tam-bm creio que a Lei de Inovao se revelou pouco eficaz em pro-mover um arranjo mais eficiente para a cooperao entre osvrios atores.

    O pas no tem uma poltica de inovao de verdade, massim um conjunto desarticulado de aes pontuais na opiniodo consultor e empresrio Maurcio Ghetler, da I4PRO, empre-sa de automao de processos em seguros. Como regra geral,o lado acadmico tem que se aproximar bem mais do ladoempresarial, que alm de potencial investidor em inovaes,pode mostrar a realidade e orientar a pesquisa e o desenvolvi-

    mento de produtos e servios, compartilhando riscos e resul-tados, recomenda Ghetler.

    Apesar da conscincia de que ainda h um considervel cami-nho a ser percorrido para que seja colocada no centro das estra-tgias das empresas e instituies integrantes do sistema de ino-vao do pas, vale destacar que, nos ltimos 60 anos, houve umaimportante evoluo da estrutura poltica e organizacional ligada promoo de inovaes bem como disseminao de infor-maes sobre o tema junto a diversos atores de interesse.

    Instituies, polticas e leis de incentivoPara se ter uma idia, o MCT foi criado somente em 1985.

    Antes dele, outros organismos e instrumentos de incentivo cincia, tecnologia e inovao j haviam sido institudos, mascom efetividade muitas vezes questionvel. O Conselho Nacionalde Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq), a

    A nanotecnologia um dos 25 setores atendidos pela Poltica de Desenvolvimento Produtivo, do MDIC

    FLVIA GOUVEIAPTERUS SANTA-CRUZ/UFPE

  • 12

    Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Ensino Superior(Capes) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico(BNDE, atualmente tambm Social BNDES) foram criados noincio da dcada de 1950, mas somente no final dos anos 1960surgiram medidas de maior impacto, com a instituio daFinanciadora de Estudos e Projetos (Finep), a criao do FundoNacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (FNDCT)e da primeira Fundao de Amparo Pesquisa (a Fapesp, em SoPaulo). Ainda assim, a atuao desses agentes mostrou-se com-prometida ante a desacelerao da economia mundial, e brasi-leira, no incio dos anos 80, com a crise do petrleo e o aumen-to das taxas de juros internacionais.

    A criao dos Fundos Setoriais no final da dcada de 90 e o lan-amento da Poltica Industrial, Tecnolgica e de Comrcio Exterior(Pitce), em 2004, marcaram a retomada da preocupao do gover-no com a inovao como motor do crescimento econmico, numcenrio relativa-mente favorvel decontrole da inflaoe maior estabilidadedos investimentosprodutivos. Em2007, foi lanadopelo MCT o Planode Ao da Cincia,Tecnologia e Inovao, reforado nas diretrizes da mais recentePoltica para o Desenvolvimento Produtivo, anunciada no dia 12de maio deste ano (veja box).

    Segundo Pacheco, os destaques da nova Poltica deDesenvolvimento Produtivo na rea de inovao so o aumento dalinha de financiamento que o BNDES j tinha para atividades deP&D empresariais, a ampliao do Fundo Tecnolgico (Funtec), acriao de rea de renda varivel no mbito do BNDES e a deso-nerao de parte da folha de pagamento das empresas que expor-tam software. Acho as medidas da nova poltica muito positivas,pois estendem a agenda de inovao para alm do mbito do MCT.A movimentao do BNDES nessa direo central, pois isso levao tema da inovao para o centro da rea econmica, o que vitalpara o sucesso dessas iniciativas, diz o ex-secretrio do MCT.

    As diretrizes do Plano de Ao do MCT foram comentadaspelo ministro da Cincia e Tecnologia, Srgio Rezende, em entre-vista ao programa Bom Dia Ministro, da Empresa Brasil de

    Comunicao (EBC), no dia 24 de abril. Um dos destaques foi apreocupao com a descentralizao da produo de cincia, tec-nologia e inovao no Brasil. O desenvolvimento cientfico nopas ainda muito recente e concentrado na regio Sudeste, dis-se Rezende, mas temos o desafio de mudar esse quadro. Rezendelembra que os editais do MCT contam com uma clusula segun-do a qual pelo menos 30% dos recursos de cada chamada pblicadevem ser destinados aos grupos das regies Norte, Nordeste eCentro-Oeste. De acordo com o ministro, essa medida j comeoua produzir efeitos.

    Outros instrumentos de incentivo C,T&I com resultados posi-tivos, como as aes de fomento promovidas por financiadoras ebancos de desenvolvimento ou o estmulo interao entre uni-versidades e empresas, to caro s agncias de inovao, merecemganhar as regies mais distantes do plo paulista.

    Quanto ao arcabouo legislativo, ainda h muita discusso sobrea articulao e efi-cincia das leis deincentivo inovao.Recentemente, opresidente Lula proi-biu as empresas be-neficirias da Lei deInformtica de usu-fruir dos benefcios

    da Lei de Inovao, alegando que o acmulo de benefcios sobre oIPI seria indevido. Os especialistas divergem sobre o assunto. Deacordo com Maurcio Ghetler, as exigncias de um elevado per-centual de exportao para a obteno dos benefcios ignoram ofato de que as empresas no comeam a vender produtos novos nomercado externo com tamanha ousadia.

    Inovao na empresaSe no passado as instituies pblicas de ensino e pesquisa eram

    vistas como as principais produtoras de inovao, hoje j se reco-nhece a importncia das empresas como as detentoras de conhe-cimentos fundamentais para gerar e transformar novas idias emnegcios de sucesso. Srgio Queiroz lembra que, nos pases desen-volvidos, so as empresas que assumem a liderana das inovaes,e ressalta a diferena entre inveno e inovao, sendo esta ltimanecessariamente sancionada pelo mercado. Evidentemente, asempresas no inovam sozinhas. Sua relao com os demais atores

    REVISTA CONECTA

    SISTEMA NACIONALDE INOVAO

    CARLOS AMRICO PACHECO EDUARDO COSTACARLOS H.

    DE BRITO CRUZSRGIO

    REZENDE

    ABRMIGUEL BOYAYANJ. L. RIBEIROASCOM/SD-SP

  • do sistema fundamental, da a importncia das polticas, pon-dera Queiroz.

    consenso entre os especialistas que o grande desafio do Brasilhoje ampliar a atividade de pesquisa e desenvolvimento (P&D)nas empresas: tanto o nmero de empresas que fazem P&D comoo valor gasto pelas empresas que j realizam essas atividades. ParaPacheco, no faltam instrumentos, mas sim usar esses instrumen-tos no apoio P&D nas empresas. O que ir auxiliar muito essemovimento a recuperao do investimento produtivo, pois esseesforo privado s se revela de fato promissor quando o investi-mento se amplia.

    Visando aumentar o financiamento s empresas que quereminovar, a Finep possui uma srie de linhas de fomento para empre-sas de diferentes portes. Eduardo Costa, diretor de tecnologia dainstituio ressalta, porm, a necessidade de ateno especial spequenas empresas, que j enfrentam maiores dificuldades desdea formulao de seus projetos. O financiamento por meio de capi-tal de risco (Programa Venture Frum) tem se mostrado muito efi-ciente, mas ainda no atingiu a escala que a Finep gostaria. Muitasempresas pequenas desconhecem essa forma de aporte de capital.O investidor torna-se scio temporrio da pequena empresa, depoisvende sua parte e sai do negcio, explica Costa.

    Ghetler acredita que h um mito de que a inovao radical sejaa mais importante. Aps trabalhar bastante com P&D, aprendique, em tecnologia, vale mais o aperfeioamento de idias j exis-tentes que a descoberta de uma nova. Ele lembra que o iPhonefoi inovador por trazer um aperfeioamento de interface e de design,mas ressalta que suas funes principais j eram fornecidas por umsimples Smartphone com Pocket PC ou Symbian, lanados cincoanos antes. Tecnicamente, o iPhone pouco agrega, mas temos dereconhecer que foi um fenmeno em 2007, diz ele. Em outroscasos, a inovao est no modelo de negcio com o qual se distri-bui um produto e no no produto em si.

    Recursos humanosParece clara a idia de que a inovao est predominantemen-

    te nas empresas, mas, antes de tudo, a inovao est nas pessoas.So os recursos humanos os responsveis pelas idias que se tornaroinovaes. Da a importncia das polticas de educao e formaoprofissional. Ajustar as necessidades das empresas oferta de mo-de-obra revela-se, portanto, um importante desafio para o sistemade inovao de um pas.

    13REVISTA CONECTA

    Sofisticao e multidisciplinaridade so atributos cada vezmais exigidos pelo mercado. Eduardo Costa aponta a educaobsica como o grande gargalo no Brasil. Temos desemprego comaumento da demanda de fora de trabalho por parte das empre-sas. O que explica isso a falta de capacitao da mo-de-obraofertada, diz.

    Para reduzir as deficincias na formao de mo-de-obraqualificada para a inovao, o professor Srgio Queiroz sugereque sejam eleitas disciplinas das reas tcnicas e de engenhariacomo alvo de polticas de incentivo formao de recursoshumanos, caso contrrio, poderemos ver o Brasil importarchineses. Ele lembra tambm que o custo da mo-de-obra umfator relevante na conta das empresas contratantes e acreditaque o cmbio valorizado pode ameaar a atratividade dos enge-nheiros brasileiros no contexto de internacionalizao dos gru-pos empresariais.

    Aposta em setores-chavePara o economista e professor da Universidade Federal de

    Minas Gerais (UFMG) Eduardo da Motta e Albuquerque, aspolticas de C,T&I devem basear-se em escolhas setoriais estra-tgicas, de forma a combinar a construo do sistema de ino-vao com um efetivo sistema de bem-estar social. Estudioso dasestatsticas de patentes no Brasil e no mundo, Albuquerqueconsidera importante avaliar at que ponto o forte predomniode empresas no-residentes como autoras de patentes registra-das no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI)pode significar bloqueios ou dificuldades para a entrada doBrasil em reas decisivas do progresso tecnolgico contempo-rneo. O contraste ntido: os residentes priorizam tecnolo-gias tradicionais, enquanto os no-residentes concentram-senas reas caractersticas dos paradigmas tecnolgicos mais recen-tes. Isso sugere que o pas precisa de maior capacitao tecno-lgica interna para contornar esses eventuais bloqueios. Umexemplo de setor estratgico, na opinio de Albuquerque, osetor de sade, sobretudo porque representa uma ponte como sistema de bem-estar social.

    "Uma outra perspectiva chama a ateno para a importncia dopotencial inovador existente no Brasil em reas que demandamsolues customizadas aos problemas tipicamente brasileiros, quepodem permear, inclusive, setores tradicionais (considerados inter-nacionalmente como pouco dinmicos em termos de inovao).

  • 14REVISTA CONECTA

    SISTEMA NACIONALDE INOVAO

    Dessa forma, as possibilidades de sucesso seriam potencializadas,pois os conhecimentos tecnolgicos avanados estariam a serviode demandas locais e no empregados em reas cuja concorrnciabrasileira estaria virtualmente perdida ante a consolidada superio-ridade internacional. A inovao sobre essas bases permitiria, nofuturo, o desenvolvimento de produtos e servios relacionados,com perspectivas de conquista de mercados mundiais. (leia a entre-vista com Joo Furtado nesta revista).

    Para Eduardo Costa, da Finep, no podemos querer ser com-petitivos em todos os setores. preciso dar oportunidades de recu-perao s empresas rfs do cmbio, como as dos setores de cal-ados e txtil. Caso contrrio, corremos o risco de perder 100 milpostos de trabalho por ano.

    Estudioso dos sistemas nacionais de inovao, o economistanorte-americano RichardNelson, professor de econo-mia poltica internacional naUniversidade Columbia eprofessor visitante daUniversidade de Manchester,acredita que o Brasil deveriaevitar o que ele chamou defetiche high tech. Com suaeconomia diversificada, o pas deveria encorajar a inovaoem um amplo espectro. Entretanto, isso no significa que cer-tas reas no devam receber uma ateno especial, afirmaNelson.

    O Brasil no mundoEm 25 de abril, houve um seminrio no Instituto de Estudos

    Avanados da Universidade de So Paulo, para apresentao ediscusso dos resultados da pesquisa Mobilizao brasileira paraa inovao, conhecida por Mobit. A pesquisa foi uma demandada Agncia Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), doObservatrio da Inovao e Competitividade e do Centro deAnlise e Planejamento (Cebrap), e analisou os sistemas de ino-vao de sete pases Estados Unidos, Frana, Canad, Irlanda,Reino Unido, Finlndia e Japo alm de levantar dados sobreo Brasil.

    Entre as constataes da pesquisa, observou-se que, apesar dasdiferenas entre os sete pases, todos esto preocupados com suas

    capacidades de elaborao, seleo e execuo de polticas, com nfa-se na inovao em suas estratgias competitivas. Com relao aoBrasil, o estudo destaca os avanos na aproximao universidade-empre-sa, apesar de permanecerem resistncias e inadequaes institucio-nais no resolvidas, nem mesmo com a Lei de Inovao. O Brasiltambm caminhou no sentido de criar um sistema competitivo nabusca de financiamento.

    Em todos os pases estudados, h grande estmulo para a arti-culao do governo com o setor produtivo, o que no aconteceainda no Brasil. Segundo o coordenador da pesquisa GlaucoArbix, tambm coordenador-geral do Observatrio da Inovaoe Competitividade e professor do Departamento de Sociologia daFFLCH/USP, a presena do Estado forte nos sete pases, at mes-mo nos EUA, que se manifestam contra a interveno estatal.

    Todos adotaram polticas indus-triais que definem reas prio-ritrias. "O Brasil tem dificul-dade em determinar a relaoentre oramento e priorida-de", criticou Arbix durante oevento.

    O diretor cientfico daFapesp, Carlos Henrique de

    Brito Cruz, que participou do evento como debatedor, lembrouque no Brasil ainda predomina a viso da universidade como umsimples laboratrio de P&D que a empresa deveria ter e no tem.Para ele, falta uma coordenao suficientemente legtima entre osatores do sistema brasileiro de inovao. Brito Cruz tambm lem-brou que o investimento em P&D no pas em relao a seu ProdutoInterno Bruto (PIB) est estacionado na casa do 1% desde, pelomenos, o comeo desta dcada. O desafio, portanto, criar formasde provocar o aumento do investimento das empresas.

    Entretanto, a comparao do Brasil com outros pases algo quemerece cuidado. As especificidades de um pas podem revelar-sesuficientemente fortes para justificar fracassos quando se tenta repro-duzir processos bem sucedidos trilhados por outra economia. Emoutros casos, boas lies podem ser aprendidas. Segundo RichardNelson, o Brasil deveria seguir o exemplo da China, que promoveuuma forte presso para que as empresas multinacionais inovassem.Mas no se pode esquecer que cada pas tem suas caractersticas.No existe um nico jeito certo conclui.

    EDUARDO M. ALBUQUERQUE SRGIO QUEIROZ MAURCIO GHETLER

    DIVULGAODIVULGAO ASCOM/SD-SP

  • 15REVISTA CONECTA

    POLTICA DE DESENVOLVIMENTO PRODUTIVO MINISTRIO DO DESENVOLVIMENTO,INDSTRIA E COMRCIO (MDIC)

    Lanada em 12 de maio deste ano, umaseqncia da antiga Pitce. Suas principais metas,a serem alcanadas at 2010, so: ampliar oinvestimento fixo, de 17,8% para 21% do PIB;elevar o gasto privado em P&D, de 0,51% em2005 para 0,65% do PIB (PAC da C&T, lanadoem 2007); ampliar a participao das exportaes brasileiras no mundo, de 1,18%para 1,25%; e dinamizar os gastos privados emP&D, ampliando em 10% o nmero de empresas exportadoras. Define tambm 25 setores chave, a serem atendidos por suas diretrizes, seis deles de forma prioritria: nanotecnologia, biotecnologia, complexo de defesa (incluindo enriquecimento de urnio), complexo industrial da sade, energia e tecnologia da informao.

    PLANO DE AO DA CINCIA, TECNOLOGIA E INOVAOMINISTRIO DA CINCIA E TECNOLOGIA (MCT)

    Conhecido como PAC da Cincia e lanado nofim de 2007, visa a estimular o investimento emP&D no setor privado, que, em 2006, destinoucerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB)nacional para a atividade. A meta aumentaresse investimento para 0,65% do PIB at 2010.Para isso, o MCT pretende investir em bolsas depesquisa, programas, como os Fundos Setoriais,e oferecer incentivos fiscais para as empresasrealizarem P&D no Brasil. Suas prioridades estratgicas so: expanso e consolidao do sistema nacional de C,T&I; promoo da inovao tecnolgica nas empresas; P,D&I em reas estratgicas; C&T para o desenvolvimento social.

    LEGISLAO FEDERAL *

    LEI DO BEM (LEI N 11.196/05) principais incentivos so: abatimento de gastos com inovao sobre o lucrotributvel; possibilidade de reduo de 50% do IPI incidente sobre equipamentos, mquinas, aparelhos e instru-mentos destinados para pesquisa e desenvolvimento tecnolgico; reduo do IRPJ (Imposto de Renda sobre PessoaJurdica) na depreciao e na amortizao aceleradas de mquinas, equipamentos e aparelhos; e subveno de 60%da remunerao de mestres e doutores, empregados em atividades de inovao em empresas localizadas no Brasilpor agncias de fomento em C&T.

    LEI ROUANET DA PESQUISA (LEI N 11.487/07) regulamentada em novembro de 2007, modifica a Lei do Bemao incluir a iseno fiscal para empresas que atuarem em parcerias com instituies cientficas e tecnolgicas (ICTs).

    LEI DE INOVAO (LEI N 10.973/04) define mecanismos de incentivo CT&I, entre os quais a subveno aempresas inovadoras, o estabelecimento de dispositivos legais para a incubao de empresas no espao pblico e acriao de regras para a participao do pesquisador pblico nos processos de inovao tecnolgica desenvolvidosnas empresas. A lei permite ainda o compartilhamento de infra-estrutura, equipamentos e recursos humanos, pbli-cos e privados, para o desenvolvimento tecnolgico e a gerao de produtos e processos inovadores. Cria, tambm,os NITs, responsveis pela poltica de inovao nas ICTs.

    LEI DE INFORMTICA (LEI N 11.077/04, QUE ALTEROU AS LEIS N 10.664/03, 10.176/01 E 8.248/91, ) exige o cumprimento de um conjunto mnimo de operaes a serem realizadas no pas (o Processo Produtivo Bsicoou PPB), o investimento da empresa em P&D, cria um incentivo extra para as regies Norte, Nordeste e Centro-Oeste e define a reduo de IPI at 2019. Tambm estipula que os 5% em P&D sejam calculados sobre o fatura-mento com os produtos incentivados, e no mais sobre o faturamento global da empresa. A lei no obriga que osprodutos fabricados no Brasil sejam desenvolvidos aqui, mas sua reedio criou um adicional para produtos cujodesenvolvimento feito localmente.

    Leis de Proteo Intelectual**

    LEI DE PATENTES (LEI N 9.279/96) regula as obrigaes e os direitos ligados propriedade industrial, visan-do garantir ao inventor de um novo produto, processo de produo ou modelo de utilidade com aplicao indus-trial, a propriedade de sua inveno por um determinado perodo, durante o qual qualquer outro interessando emfabricar a inveno, com fins comerciais, dever obter licena do autor e pagar-lhe royalties;

    LEI DE PROTEO DE CULTIVARES (LEI NO. 9.456/97) concede direitos de propriedade intelectual quele queobtiver um cultivar, espcie de planta que foi melhorada devido alterao ou introduo de uma caracterstica queantes no possua. A Lei impede, durante determinado perodo, a comercializao de variedades vegetais por ter-ceiros no autorizados, assim como de seu material de reproduo ou multiplicao comercial em todo o territ-rio brasileiro.

    **As leis de proteo intelectual nem sempre so consideradas de incentivo inovao. H especialistas que defendem que, para algumas reas, essas leis freiam o processo de inovao, sobretudo quando se trata de inovao incremental

    *Existem tambm instrumentos de abrangncia estadual e municipal em diversas unidades da federao, no destacadas neste quadro.

    PRINCIPAIS INCENTIVOS INOVAO VIGENTES NO BRASIL

    PLANOS E POLTICAS MINISTERIAIS

  • 16REVISTA CONECTA

    Esforos so premiados

    Gradualmente, empresas brasileiras encampam inovao como ferramenta competitiva

    Pelo menos uma vez na vida, homens e mulheres muulmanosdevem fazer a peregrinao para Meca, cidade sagrada onde nasceuMaom, o criador do islamismo. Anualmente, cerca de trs milhesde islmicos fazem a viagem a p ou em camelos. A religio no per-mite que, no trajeto, algo separe os fiis do contato com o cu. Asoluo: um nibus sem teto, inovao desenvolvida pela Marcopolo,empresa brasileira fabricante de carrocerias de nibus, presente em11 pases. A Marcopolo um exemplo de empresa brasileira queinveste em inovao. Nos pases mais desenvolvidos as empresascriaram, com apoio do setor pblico, slida capacidade de realizarpesquisa e desenvolvimento, viabilizando um ambiente de inova-o. No Brasil, a cultura da inovao ainda incipiente, mas casoscomo o da Marcopolo indicam mudanas nesse cenrio.

    A Pesquisa Industrial de Inovao Tecnolgica (Pintec) de 2005mostrou que 32,8 mil empresas inovaram em produto ou proces-so no trinio 2003-2005. Desse total, 30.377 so industriais e 2.418de servios. No perodo, o nmero de empresas inovadoras naindstria passou de 28.036 para 30.377, um aumento de 8,4%.Alm disso, segundo a pesquisa, realizada pelo Instituto Brasileirode Geografia e Estatstica (IBGE) em parceria com a Financiadorade Estudos e Projetos (Finep), houve aumento da parcela do fatu-ramento que as empresas industriais gastam com inovaes: de2,5% em 2003 para 2,8% em 2005. Estes nmeros sinalizam umaumento da cultura inovativa nas empresas brasileiras, acredita aeconomista Mariana Rebouas, coordenadora da Pintec.Paulatinamente elas tm percebido a importncia da inovaocomo ferramenta competitiva, diz.

    Longo caminho A despeito da melhora nos indicadores, a verdade que a ino-

    vao caminha devagar no Brasil. Se pensarmos que de 2003 a 2005houve um aumento no nmero de indstrias no pas, possvel con-cluir que o nmero de empresas inovadoras manteve-se constanteno total das empresas industriais. A Pintec mostra que a participa-

    o das empresas inovadoras no total das empresas industriais foide 33,4%. Esse quadro resultado de anos de proteo indstria,que acabou criando um cenrio que dispensava a necessidade deaperfeioar processos ou introduzir novos produtos para competircom outros pases ou mesmo no mercado interno. A indstria bra-sileira cresceu, portanto, em um ambiente institucional marcadopor elevada proteo concorrncia internacional, por meio detarifas e restries comerciais a produtos estrangeiros. Ao mesmotempo, era fcil o acesso s tecnologias vindas do exterior.

    Mas se at o incio da dcada de 90 no havia um impulso deinovao autnomo no pas, a partir da o ambiente institucionalmudou: abertura comercial, globalizao econmica, integraoregional, acordos multilaterais de comrcio e de propriedade inte-lectual colocaram as empresas brasileiras frente concorrncia deprodutos vindos de todos os lugares do planeta. O que antes noera um problema, passou a ser.

    Inovao na lataO governo tem se preocupado em criar instrumentos para moti-

    var a inovao nas empresas, tanto atravs da regulamentao deleis, quanto por meio de financiamento. O montante de recursosdisponveis para a rea de inovao substancial, apesar de o pro-cesso para obt-los ainda precisar de aprimoramentos, acreditaGustavo Zevallos, do Monitor Group, que conduziu o estudo 101inovaes brasileiras, apresentado durante a VIII ConfernciaAnpei de Inovao Tecnolgica. Na opinio do executivo, o finan-ciamento governamental pode ajudar, mas importante que asempresas criem modelos de gesto de inovao que se sustentempelo resultado e no sejam exclusivamente dependentes dos incen-tivos governamentais. A maior dificuldade mesmo mudar a ati-tude frente inovao, acredita o norte-americano Jay Paap, espe-cialista com mais de quatro dcadas de experincia no assunto, quedurante apresentao na conferncia da Anpei afirmou que inovarno difcil, no requer recursos a perder de vista, nem um exr-cito de cientistas com ttulo de doutor. O real motivo pelo qual

    BRASIL INOVATIVO

    PATRCIA MARIUZZO

  • empresas e pases no inovam o modo como pensam, afirmou.A Brasilata, fabricante de embalagens metlicas, um exemplo

    de empresa com pensamento inovador. No ano passado a empre-sa obteve 1 lugar no ndice Brasil de Inovao (IBI), criado por pes-quisadores da Unicamp, no grupo mdia-baixa intensidade tecno-lgica e o terceiro lugar no Prmio Finep de Inovao Tecnolgica,categoria produto. A empresa no tem um departamento de P&De segundo Marilivia de Barri, coordenadora de desenvolvimento depessoal, as inovaes decorrem da adoo de uma prtica empre-sarial que valoriza o funcionrio. Essa cultura traduzida peloProjeto Simplificao, que transforma os 900 funcionrios em 900inventores, diz ela. A Brasilata uma organizao inovadora por-que produz simultaneamente diversificao e aperfeioamento emseus produtos, processos e estratgias, explica.

    A empresa criou um sistema de fechamento de latas metlicasmais resistente s presses internas, choques, pancadas e ao tom-bamento. mais fcil de abrir e fechar, dificulta a violao e apre-senta uma economia de material que, dependendo do dimetro dalata, varia de 19 a 25% no conjunto anel-tampa. As latas com essatecnologia agregada, so comercializadas no Brasil e exportadas paraos pases do Mercosul. A licena de fabricao do produto j foi ven-dida para Itlia e Mxico e j tem patente nos Estados Unidos.Agora a empresa vai expandir o negcio para latas de alimentos emp, como leite e chocolate.

    A patente uma ferramenta muito importante quando umaempresa quer atingir o mercado externo. Conforme explica o asses-sor tcnico da presidncia do Instituto Nacional da PropriedadeIndustrial (INPI), Sergio Paulino, os pases que mais patenteiamnos Estados Unidos so grandes exportadores. Entre eles Coria,Alemanha e Taiwan. Na histria do desenvolvimento industrial noBrasil, entretanto, so poucas as empresas que privilegiaram a pro-duo para o mercado externo. No contexto brasileiro atual apatente mais importante para fazer a difuso da tecnologia doque para proteg-la de algum competidor, acredita Paulino. Issoacontece porque a maioria das patentes depositadas hoje no Brasil

    so geradas nos institutos de pesquisa, os chamados ICTs, ou seja,fora do seu lugar de aplicao. Para se ter um exemplo, a institui-o que mais patenteia no Brasil a Unicamp. Mais do que refle-tir o que as empresas esto fazendo, o nmero de patentes refleteo que o sistema est fazendo. Ele reflete um padro de desenvolvi-mento industrial, completa Paulino.

    Outro aspecto importante a ser destacado sobre a inovao relativo qualidade dos empregos que gera. Segundo pesquisa rea-lizada em 2006, pelo Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada(Ipea), ligado ao Ministrio do Planejamento, Oramento de Gesto,as grandes firmas brasileiras (com mais de 500 funcionrios), maisinovadoras e mais avanadas tecnologicamente, geraram mais empre-gos do que a mdia do pas. Nessas empresas o crescimento deempregos com carteira assinada foi de 29%, maior do que a mdiadas empresas do pas que foi de19%.

    OusadiaAtingir o sucesso no mercado exige ousadia misturada com

    desenvolvimento tecnolgico, acredita Leandro Haach, gerentede inovao e qualidade da Cordoaria So Leopoldo, CSL, quefabrica cabos e cordas para diversas finalidades. A empresa do RioGrande do Sul tem um departamento de pesquisa estruturado etrata a inovao tecnolgica como estratgia de longo prazo.

    O grande salto da empresa foi solucionar o problema de anco-ramento das plataformas de petrleo da Petrobras feito com cor-rentes de ao. A CSL desenvolveu, em parceria com o Centro dePesquisas da Petrobras (Cenpes), um cabo de polister de alta resis-tncia ruptura, com baixssimo alongamento. Construmos umenorme dinammetro para fazer ensaios, capaz de testar cabos de1500 toneladas/fora e investimos pesado na qualificao de nos-sos funcionrios, conta o gerente. A Cordoaria a maior fabri-cante do mundo de cabos de ancoragem de unidades flutuantesNosso foco hoje a busca das matrias-primas que substituiro opolister em guas profundas, oferecendo maior eficincia em menorvolume nas instalaes.

    17REVISTA CONECTA

    Durante muito tempo a CSL usou como matria-primafibras naturais; o salto tecnolgico se deu com o ingresso

    das fibras sintticas, passando a fabricar cabos de altssimaresistncia, usados para ancoramento de grandes

    embarcaes e at plataformas de petrleo

    FOTOS: DIVULGAO

  • 18

    OOppeenn iinnnnoovvaattiioonn:: nova roupagem para conceitos j estabelecidos

    Durante a ltima conferncia da Anpei (Associao Nacionalde Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das EmpresasInovadoras), em maio, o norte-americano Jay Paap tratou em suapalestra de um tema muito em voga no ltimo ano: open innovation.Considerando sua extensa experincia como consultor de empre-sas como Alcan, Proctor & Gamble e Westinghouse (algumas delasj extintas), Paap fez uma apresentao esclarecedora sobre o querepresenta a inovao aberta. Para alvio ou frustrao dos presen-tes, ele definiu essa nova tendncia como sendo um conjunto deconceitos j conhecidos, reorganizados e identificados com umanova denominao. Se considera temas e ferramentas j amadure-cidos e experimentados, esse conjunto de conceito mostra-se, ento,um alvo facilmente alcanvel por qualquer organizao. E por esta-rem reorganizados em torno de uma nova nomenclatura, tornam-se mais interessantes, atraindo mais pessoas e motivando sua utili-zao pelos gestores da inovao.

    Inovao o processo de criao e transformao de invenesem produtos e servios de sucesso. Tem claramente um conceitomercadolgico e , primordialmente, realizada pelas empresas. Noprocesso de gesto da inovao, necessrio desenvolver produtose servios e comercializ-los em um contexto nico, inovador. Openinnovation compreende, de forma ampla, todos os mecanismospelos quais uma empresa envolve outras organizaes para identi-ficao, desenvolvimento ou comercializao de produtos e servi-os inovadores, segundo Paap.

    Para o criador do termo open innovation, Henry Chesbrough, pro-fessor da Universidade de Berkeley, e diretor-executivo do Centerfor Open Innovation, embora o processo de desenvolvimento denovas tecnologias seja importante, o desafio tambm est relacio-nado inovao nos modelos de negcio. Assim, muitas vezes a cha-ve do sucesso do produto ou servio no est necessariamente natecnologia embarcada, mas no canal de venda (por exemplo, mode-lo Natura de venda porta a porta), na logstica (modelo Amazon

    de manuteno de estoques virtuais), no processo de captura devalor (modelo GM de venda do Celta via internet), apenas parailustrar alguns exemplos de destaque nos ltimos anos. Originadosde forma intuitiva ou planejada, atualmente vrias outras expe-rincias florescem em diversos ramos de atividade.

    Outra definio relevante refere-se ao tipo de inovao que umaempresa procura estimular: radical ou incremental. Conforme dadosda ltima Pintec Pesquisa de Inovao Tecnolgica, do IBGE,uma parcela significativa da indstria brasileira ainda concentrafortemente seus esforos em inovao incremental e dispe depequena equipe e infra-estrutura para realizao de PD&I (pesquisa,desenvolvimento e inovao). E, no caso de inovaes radicais, geral-mente o conhecimento necessrio difuso e no est internaliza-do na empresa. Esses cenrios incentivam a promoo do open inno-vation, pois a realizao da inovao combina perfeitamente comesforos externos organizao. Quando se trata de inovao incre-mental, a baixa capacidade de realizao da inovao deve ser com-plementada pela rede de parceiros externos. Considerando-se a ino-vao radical, a expertise (especfica) est alm das fronteiras fsicasda empresa. Alm disso, existe uma barreira cultural introduode produtos e servios radicalmente inovadores, uma dificuldademelhor contornvel por meio de parceiros externos.

    Os instrumentos para a realizao da inovao aberta so diver-sos. Um deles o corporate venturing, uma situao bastante prop-cia ao ambiente atual de negcios no Brasil, com o fortalecimentoe profissionalizao das atividades de empreendedorismo nas uni-versidades e incubadoras, assim como maior presena de capitalempreendedor oriundo de diversas fontes, tais como fundos de seedcapital e venture capital. De forma simplificada, corporate venturingcorresponde criao, por parte de empresas, de novas iniciativasde negcio com capital empreendedor prprio. Desta forma, aempresa consegue manter as suas atividades e foco principal, masd oportunidade a novos projetos inovadores surgirem como um

    REVISTA CONECTA

    ARTIGO DIGENES FELDHAUS VICTOR FERNANDES

  • novo empreendimento. Para uma spin-off fundamental buscarapoio para transformar-se em um grande empreendimento, sejaapoio financeiro (fundos, agncias de fomento), tecnolgico (par-cerias com universidades so muito freqentes nessa fase) ou de outranatureza. Como o novo empreendimento filiado empresa-me,todo o esforo de parcerias externas enquadra-se no conceito deopen innovation.

    No contato da equipe da Inova Unicamp com alunos e pes-quisadores que demonstram interesse em transformar suas linhasde pesquisa em futuras empresas, percebemos uma grande neces-sidade de estabelecimento de parcerias para viabilizar tais projetos.Parcerias para desenvolvimento tecnolgico, obteno de finan-ciamento, acesso a canais de venda, expertise em gesto de pessoasetc. O processo de empreendedorismo , em grande extenso, umaaula prtica de inovao aberta, com os empreendedores de suces-so tendo se graduado magna cum laude. O processo de pr-incuba-o, que significa o desenvolvimento de idias em planos de neg-cio e prottipos, com orientao de um mentor empresarial e outroacadmico, uma das ferra-mentas utilizadas por empresaspara aproxim-las de futuros par-ceiros (empreendedores) quepodem oferecer produtos e ser-vios estratgicos ao seu negcio.

    Para um empresrio, a participao de fornecedores e clientesno processo de PD&I talvez seja algo natural e consolidado, umavez que todas essas organizaes so do tipo empresas e com obje-tivos econmicos complementares. Contudo, para promover a ino-vao muito se discute sobre qual o papel das universidades nocontexto de open innovation. Poderamos discorrer longamente sobreas oportunidades de interao, mas listamos apenas alguns exem-plos: desenvolvimento de pesquisa bsica ou aplicada, utilizando ainfra-estrutura e estoque de conhecimento das universidades; par-ticipao em consrcios de tecnologia pr-competitiva gerenciadospor universidades e apoiados por mltiplas companhias, diluindoriscos e investimentos; incubao de projetos de PD&I das empre-sas em locais especficos das universidades destinados a essa finali-dade (como parques cientficos, p.ex.); licenciamento de tecnolo-gias e patentes das universidades, acelerando o processo de inova-o nas empresas. Para as universidades se engajarem nesse pro-cesso, necessrio uma transformao cultural e aproximao dasfirmas, movimentos que se intensificaram muito nos ltimos anos.

    Tomamos como exemplo a Unicamp, onde mais de 180 contratosde pesquisa colaborativa e 30 licenciamentos foram estabelecidosnos ltimos trs anos.

    ExperinciasO caso da IBM pode ilustrar o alcance de uma estratgia de ino-

    vao fortemente apoiada por parcerias externas. Depois de chegarprxima a um monoplio, a partir dos anos 90 a empresa precisouadotar uma nova abordagem. Na busca de novas fontes de receita,a multinacional criou linhas de pesquisa colaborativa com outrasempresas e centros de pesquisa, dividindo riscos e custos, o que lhegarantiu um papel de liderana na rea de semicondutores e servi-os. Alm disso, passou a conceder licenas referentes sua pro-priedade intelectual. Em 2007, uma receita de mais de 118 bilhesde dlares veio desse novo brao da IBM a IBM Global Services criado h menos de 20 anos.

    Outra iniciativa que ilustra o potencial do open innovation aestratgia da Natura quanto ao seu relacionamento com universi-

    dades. Principalmente com o lan-amento do programa NaturaCampus, a empresa aumenta asua capacidade de renovar seuportflio de tecnologias apoiadopor idias originadas por uni-

    versidades e integradas estratgia da empresa. Como a Naturacompete em um mercado muito disputado, caracterizado por pro-dutos com ciclo de vida relativamente curtos, e com gigantes inter-nacionais com alta capacidade de investimento e infra-estrutura dePD&I, a idia de ampliar a sua capacidade de PD&I atravs de par-cerias vem se mostrando uma estratgia promissora.

    Concluindo, open innovation um conceito que se renova cons-tantemente, j que encampa as experincias e aprendizados passa-dos. Observa-se uma tendncia cada vez maior de incorporar umaestratgia mais agressiva de relacionamento com parceiros externospara promoo da inovao nas empresas. Novas ferramentas emodelos de parceria sero criados no Brasil nos prximos anos.Devemos contar tambm com a chegada de ferramentas j testa-das em pases to diversos como China, Austrlia ou frica do Sul.

    19REVISTA CONECTA

    No processo de gesto da inovao, necessrio desenvolver produtos e servios e comercializ-los em um

    contexto nico, inovador

    DIGENES FELDHAUS Diretor de Desenvolvimento de Parcerias da Agnciade Inovao Inova Unicamp desde julho de 2007.

    VICTOR FERNANDES Diretor de Desenvolvimento de Produtos da Natura.

  • 20REVISTA CONECTA

    Relao universidade-empresa: uma parceria que pode dar certo

    Colaborao gera bons resultados graas a iniciativasdo poder pblico e esforos das instituies acadmicas. O desafio agora gerenciar essa relao

    Alta tecnologia e investimentos pesados em pesquisa e desen-volvimento. Certamente essas caractersticas so fundamentais paraque a Empresa Brasileira de Compressores S.A. Embraco garan-ta a posio de lder mundial na fabricao de compressores her-mticos para refrigerao. Mas a empresa brasileira tambm credi-ta seu sucesso como resultado direto das parcerias que estabelece,desde o incio da dcada de 1980, com universidades e instituiesde pesquisas, sobretudo com a Universidade Federal de SantaCatarina (UFSC), com quem recentemente inaugurou um Plo deLaboratrios de Pesquisa em Refrigerao e Termofsica. Graas aessas parcerias, a Embraco conhecida como uma empresa quetem foco na pesquisa e na busca de produtos com maior eficinciaenergtica, baixo nvel de rudo e confiabilidade.

    As relaes de parceria e cooperao tm sido estratgicas paragarantir o fortalecimento da empresa e para gerar conhecimen-to, na opinio de Guilherme Lima, relaes institucionais emP&D da Embraco. Hoje a empresa tem convnio com dezenasde grupos de pesquisas no Brasil e no exterior, para a realizaode estudos nas mais diversas reas. No conjunto internacionalesto Estados Unidos, Alemanha, Frana, Finlndia, Noruega,Holanda, China e Japo. Alm dos 10 laboratrios, para supor-te ao desenvolvimento tecnolgico de novos produtos espalhadosno Brasil, a empresa conta com outros 28 que atuam como umaextenso dos laboratrios de seus clientes que buscam novas solu-es para refrigerao so oito na Itlia, oito na Eslovquia,nove na China e trs nos Estados Unidos.

    A empresa, como aponta Lima, sabe que sua histria bem suce-dida est diretamente relacionada a uma atitude que hoje tem setornado cada vez mais vital em um mercado competitivo: estabele-cer e fortalecer parcerias para pesquisar, desenvolver e inovar. OBrasil conta hoje com diversos marcos regulatrios que facilitam acooperao entre universidades e empresas, como a criao dosFundos Setoriais e a Lei de Inovao. A necessidade est no enten-dimento por esses dois atores do que deve ser a parceria. O insu-

    cesso acontece quando a empresa enxerga na universidade um cami-nho para terceirizao de P&D, e no uma fonte de cooperao,aponta Lima.

    A relao antes conflituosa entre universidades e empresas, mar-cada por propsitos diferentes, tem sido substituda por uma cola-borao institucionalizada e com resultados positivos, graas prin-cipalmente s iniciativas por parte do poder pblico e aos esforosdespendidos pelas instituies acadmicas, por seus docentes e pes-quisadores. O desafio est na gesto desse relacionamento entreesses dois mundos, aparentemente, diferentes: esse relacionamentoprecisa ser muito bem gerenciado para que seja saudvel e para queno interfira na liberdade acadmica e de pesquisa, to necessriapara as grandes contribuies que a universidade traz para a socie-dade, diz Roberto de Alencar Lotufo, diretor da Agncia de InovaoInova Unicamp, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Quando essa interao se d no nvel da pesquisa e leva pro-duo de novos conhecimentos, ela frutfera para a universidade,alm de beneficiar a empresa. Quando essa interao vista comoa promoo de um negcio, sem medida dos custos para a docn-cia (por exemplo, quando docentes reduzem a dedicao aos alu-nos) e para a pesquisa, (privilegiar a pesquisa aplicada em detrimentoda criao de novas teorias), ela pode dar origem, para a universi-dade, a prejuzos maiores que os possveis benefcios dessa interao.A universidade no pode perder sua identidade nesse processo, sobpena de sacrificar sua prpria essncia, que a capacidade de criar,diz a pesquisadora Sandra Brizolla, do Departamento de PolticaCientfica e Tecnolgica do Instituto de Geocincias da Unicamp.

    Diferentes parceriasO interesse pela parceria vem do entendimento de que a capa-

    cidade de inovar est na raiz da competitividade, que requer aces-so a conhecimentos de origem variada, e de que as universidades,ao realizarem pesquisas, so grandes geradoras de conhecimentosnovos. A palavra parceria bastante genrica e imprecisa. Elacorresponde a diferentes situaes de interaes: consultorias,

    PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E INOVAO

    GABRIELA DI GIULIO

  • pesquisa cooperativa, solicitao de cursos de especializao, pedi-do de servios de testes ou de laudos tcnicos, instalao em incu-badora, licenciamento de tecnologia. Portanto, difcil estabele-cer um padro de relaes entre as universidades e as empresas.As experincias so diversas, s vezes extremamente modestas, emoutros casos so projetos de pesquisa para dois ou trs anos comfinanciamento e equipes importantes, aponta Anne MarieDelaunay Maculan, pesquisadora da Universidade Federal do Riode Janeiro (UFRJ).

    Segundo ela, em alguns casos as empresas apresentam deman-das para realizao de pequenos servios tcnicos. Tais demandaspermitem o estabelecimento entre esses dois atores de relaes for-mais, que podem se tornar o suporte para uma colaborao futu-ra mais intensa e com objetivos mais complexos. H casos em quea empresa chega universidade com um problema especfico e pre-cisa encontrar uma soluo. O papel fundamental dos pesquisadores,nesses casos, equacionar e definir qual o verdadeiro problema.A situao mais favorvel ao avano do conhecimento e a sua apli-cao quando h efetiva participao conjunta no desenvolvi-mento de projetos de pesquisa. Os dois lados vo aproveitar mui-to mais porque vo interagir na gerao dos novos conhecimentos.Mas a empresa deve ter uma estratgia tecnolgica bem definida einvestimentos correlatos, diz Anne Marie.

    A Embraco, por exemplo, conta atualmente com quatro tipos

    de parcerias/convnios estabelecidos com instituies de pesquisa:o consrcio, que visa pesquisa bsica; as parcerias pr-competi-tivas, estabelecidas tanto com universidades como com empresaspara pesquisas em cooperao de mdio prazo; as parcerias tipospot, caracterizadas por uma aproximao forte com a universi-dade; e os programas de pesquisas, que tm como objetivos odesenvolvimento de conhecimento e de pessoas com uma visode longo prazo.

    GargalosAs dificuldades no estabelecimento de parcerias esto atreladas,

    principalmente, ausncia de mecanismos eficazes na definiodos direitos de propriedade, s dificuldades de comunicao, buro-cracia e ausncia de financiamento adequado. possvel aindaverificar diferenas de cultura da universidade e da empresa no quetange ao perodo de durao das atividades de P&D, o curto ver-sus o longo prazo, pontua Mrcia Siqueira Rapini, doutorandaem economia pela UFRJ.

    Para facilitar o dilogo entre essas duas culturas, algumas aesso necessrias. As empresas precisam se qualificar melhor tecno-logicamente para poder perceber o potencial de investir em P&De inovar. Uma das primeiras medidas seria facilitar a contrataode recursos humanos mais qualificados que seriam os intrpretesentre a pesquisa acadmica e o mundo dos negcios.

    Por outro lado, imaginar que os recursos oriundos de contra-tos com empresas possam substituir o financiamento pblico da pes-quisa uma iluso. As estatsticas de outros pases mostram que asempresas tm participao maior nos investimentos totais em P&D.Isso no significa que elas financiam as universidades, significa queelas investem em projetos prprios de P&D. A participao mdiadas empresas nos oramentos das maiores universidades de pes-quisa norte-americanas no chega a 10%, explica Anne Marie.

    Para Sandra Brizolla, as leis de promoo ao investimento emP&D no Brasil ainda so muito tmidas, quando comparadascom outros pases, como a Austrlia. Por outro lado, o nvel edu-cacional do pas desestimula a modernizao tecnolgica de empre-sas, principalmente daquelas que, apesar disso, do bom lucropor serem protegidas de alguma maneira, considera. A pesqui-sadora vai alm ao apontar que a prpria gerncia das empresas formada por pessoas que, em muitos casos, no conseguem dia-logar com os pesquisadores que poderiam promover avanos emseu processo produtivo.

    21REVISTA CONECTA

    Embraco credita seu sucesso s parcerias com instituies de pesquisa desde 1980

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  • 22REVISTA CONECTA

    PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E INOVAO

    Por isso mesmo, a importncia das chamadas agncias de ino-vao e dos escritrios de transferncia de tecnologia. preciso quealgum faa a mediao entre essas duas culturas diferentes. Essa a funo desses escritrios, que procuram ver os interesses dos doislados e verificar como possvel promover uma parceria adequa-damente, explica Luis Afonso Bermudez, professor da Universidadede Braslia (UnB) e ex-presidente da Associao Nacional de EntidadesPromotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec). Para ele,as agncias de inovao e os escritrios tambm tm o papel de for-mar, dentro das universidades, uma cultura a respeito da importnciadas parcerias com empresas. um trabalho de convencer os pes-quisadores a olharem para um horizonte um pouco mais longo doque o seu laboratrio.

    Exemplos de sucesso fato que as parcerias, no Brasil, foram estimuladas pelos edi-

    tais de aplicao dos Fundos Setoriais a partir de 2000. A Lei daInovao, de 2004, tambm tem contribudo, j que incentiva asparcerias na medida em que coloca regras mais claras para a coo-perao das universidades com as empresas. Entretanto, como des-taca a pesquisadora Anne Marie, as experincias de parceria aindaso recentes e insuficientemente investigadas. Precisamos multi-plicar os estudos de caso de maneira a subsidiar melhor a defini-o de polticas de incentivos s parcerias. Muitas delas comeamde maneira informal, o que dificulta a anlise da gnese do processo,dos motivos, das dificuldades. Por isso mesmo, as agncias de fomen-to pesquisa deveriam promover sistematicamente avaliaes deimpacto, sugere.

    Internacionalmente, a Unio Europia tem recebido destaqueno assunto, j que h mais de vinte anos financia pesquisas coo-perativas, em estgio pr-competitivo, com o objetivo de que asempresas que participam dos projetos, numa fase posterior, pos-sam usar os resultados conforme suas necessidades, melhorandoou desenvolvendo produtos. Tais produtos, quase sempre nascemde um conjunto de conhecimentos gerados internamente na empre-sa e completados por pesquisas. Obviamente, assim como no Brasil,h dificuldades. A Frana, por exemplo, j est na sua terceira leide inovao. Mas o processo de aprendizado, a capacitao tecno-lgica, a busca pela maior eficincia do uso da tecnologia nas empre-sas so passos indispensveis para chegar inovao, afirma. Anecessidade da inovao no se proclama; ela brota de um ambien-

    NO MUNDO - No perodo ps-guerra as universidades foram chamadas a exercer papelmais direto na inovao industrial.

    ESTADOS UNIDOS - Aumento do financiamento pblico pesquisa acadmica, refletindoem uma expanso das atividades de pesquisa realizadas nas instituies de ensino superior.Ao mesmo tempo, foram criados institutos nas reas de engenharia, voltados ao desenvol-vimento de solues tecnolgicas especficas e intensificou-se o envolvimento das ativida-des universitrias com propsitos militares.

    BLGICA - Em 1947 promoveu a criao de instituies voltadas pesquisa aplicada e liga-das a uma ou mais universidades.

    ALEMANHA - A Max Planck Society concentrou-se em pesquisa bsica e os institutosFraunhofer Gesellschaft ficaram responsveis pela realizao de pesquisa aplicada por meiode contratos, tendo como misso clara a inovao industrial.

    HOLANDA - O Toegepast Natuur-Wetenschappelijk foi criado como uma organizao depesquisa por contratos, e tambm voltado intermediao entre os dois agentes.

    BRASIL - A primeira iniciativa de parceria se deu no incio da dcada de 1970, relaciona-da ao design de hardware do primeiro microcomputador nacional envolvendo a Universidadede So Paulo (USP) e a Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Em1973, foi criada a Digibrs, holding estatal, visando promoo da indstria brasileira decomputadores.Nos anos 1980, tem-se a primeira iniciativa de aproximao entre a academia e a indstriapartindo do governo federal com o Programa de Inovao Tecnolgica, no mbito do ConselhoNacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq). Em 1990, a Poltica Industriale de Comrcio Exterior concebida destinou significativa importncia associao entre uni-versidades e empresas na modernizao tecnolgica do parque industrial nacional e no aumen-to da participao do setor privado nos investimentos em C&T. Recentemente, os editais de aplicao dos Fundos Setoriais e a Lei de Inovao tm incenti-vado as parcerias e impem regras claras para a cooperao entre universidades e empresas.

    Fonte: Mrcia Siqueira Rapini

    PARCERIAS AO LONGO DOS ANOS

    Alunos da Unicamp assistem palestra sobre criao de empresa Jnior

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  • 23REVISTA CONECTA

    te econmico mais dinmico, promovendo mais interaes entreempresas e mais demandas por produtos tecnologicamente com-plexos, diz Anne Marie.

    Os Estados Unidos tambm saem frente no assunto e o casomais conhecido o da sua indstria de informtica, que proliferouao lado de universidades como o Massachusetts Institute ofTechnology (MIT), que produziram inmeras spin-offs, empresasfundadas por professores, alunos ou ex-alunos dessas instituies,que saram das universidades ou reduziram sua dedicao ao tra-balho acadmico.

    No Brasil, cada vez mais empresas tm reconhecido que vale apena investir nessas parcerias. Exemplos disso so citados na repor-tagem sobre spin-offs que deram certo e que mostram como essascooperaes so vitais para sobreviver e crescer no mercado. Nocaso das universidades, a Unicamp mostra como essas relaespodem ganhar reforos, principalmente quando contam com umforte aliado, como o caso da Agncia de Inovao Inova Unicamp,que tem como um de seus papis se ocupar do licenciamento depatentes obtidas pela universidade. O melhor exemplo que temos o licenciamento de um medicamento para tratamento do dia-betes tipo 2. A parceria realizada com a Ach s foi possvel atra-vs de patente anteriormente depositada e do licenciamento rea-lizado com o apoio da Inova, explica Lotufo, diretor da agncia.O produto, segundo ele, deve ser lanado depois de mais de seteanos de intensos investimentos e desenvolvimento para que o medi-camento pudesse ser disponibilizado ao pblico. Antigamente, essetipo de oportunidade era perdido pela falta de proteo da pro-priedade intelectual, fazendo com que nenhuma empresa se aven-turasse a investir recursos sem a devida proteo para sua poste-rior comercializao.

    Parceria entre instituio e ex-alunosOutra mostra de que investir em parceria traz bons resultados,

    pode ser observado no crescimento da empresa Leucotron Telecom,situada no Arranjo Produtivo Local de Santa Rita do Sapuca (MG),conhecido como Vale da Eletrnica. Especializada no desenvolvi-mento de solues integradas de telecomunicaes para corpora-es e mercado Soho (Small Office/Home Office), a empresa sur-giu da idia de dois engenheiros formados pelo Instituto Nacionalde Telecomunicaes (Inatel).

    Criada inicialmente apenas para fabricar produtos da rea mdi-

    ca, contava com apenas dois funcionrios. Em 1988, com a explo-so das telecomunicaes, os engenheiros perceberam o novo filoque surgia e passaram a atuar apenas na fabricao de produtos vol-tados para telecom. Pesam no sucesso da empresa, que hoje contacom 157 funcionrios (desses 21 na rea de P&D), a constante bus-ca pelo aprimoramento na forma de trabalhar com a gesto de pes-soas e a parceria estabelecida com o Inatel, segundo Marcos GoulartVilela, um dos fundadores da empresa.

    Eleita em 2006 como uma das 100 melhores empresas para setrabalhar no Brasil, segundo o Great Place to Work Institute con-siderada uma das principais consultorias do assunto no mundo ,a Leucotron sabe que seu maior desafio hoje se consolidar no mer-cado VoIP (Voz sobre IP), tanto no segmento corporativo como noresidencial. Para isso, investe 5% do seu faturamento (no divulga-do) em P&D. Somente nos ltimos trs anos, a empresa cresceumais de 150%, e projeta para 2008 um faturamento 43% superiorao do ano passado.

    De olho no futuroAs perspectivas com relao s parcerias entre universidades e

    empresas tendem a ser boas se, como prope Sandra Brizolla, forempreservados, melhorados e difundidos os centros de pesquisa comcapacidade de produzir cincia na fronteira do conhecimento, semesquecer que elas dependem tambm do prprio dinamismo nosistema de produo.

    Como observa Anne Marie, o potencial de uso econmico deconhecimentos gerados em pesquisa que levam inovao mui-to amplo, mas extremamente difcil de prever, planejar e organizar.Para que isso acontea com mais intensidade, o sistema de produ-o precisa ter dinamismo e competncias para identificar as opor-tunidades de inovao abertas pelas pesquisas. Para isso, a proximidadecognitiva entre universidades e empresas primordial. A funoessencial de um projeto de pesquisa gerar um processo que per-mita que engenheiros e cientistas sejam treinados a equacionar pro-blemas, buscar solues novas, testar hipteses novas e conferirconhecimentos tericos. As empresas precisam investir em ativi-dades internas de desenvolvimento e contratar mais cientistas eengenheiros; sem isso no se pode esperar que sejam inovadoras,explica a pesquisadora. Por outro lado, as universidades precisamfazer mais pesquisas avanadas, algumas de ponta, para absorver egerar conhecimentos na fronteira dos avanos da cincia.

  • 24REVISTA CONECTA

    Histrias que inspiram

    Empresas mostram que apoio de incubadoras, parcerias com instituies de pesquisa e esprito inovador fazem a diferena

    Originadas a partir de um nico empreendedor, ou de grupode pesquisadores de universidade ou instituto de pesquisa, oumesmo de uma empresa, as chamadas empresas spin-off so resul-tado de esforos de pessoas que consideram que suas pesquisas eos resultados obtidos tm potencial para gerar produtos e chegarao mercado. Grande parte dessas empresas se concentram emsetores de alta tecnologia.

    No Brasil, segundo Anne Marie Delaunay Maculan, pesqui-sadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, as spin-offs ain-da apresentam grandes vulnerabilidades: o reduzido capital ini-cial, carncia em experincia e competncia de gesto, dificulda-des em conhecer o mercado, complexidade jurdico-legal paracriar uma empresa e escassez do capital de risco. Em outros pa-ses, segundo ela, o conceito de spin-off mais estreito: umaempresa criada para obter o licenciamento de uma patente, inclu-sive pagando royalties universidade. Em alguns casos, a univer-sidade investe capital nessa empresa.

    Para que as tecnologias desenvolvidas nas universidades ganhemfora para se tornarem a base de criao de empresas, o Brasil pre-cisa colocar em prtica trs instrumentos, segundo o diretor exe-cutivo da Agncia de Inovao Inova Unicamp (UniversidadeEstadual de Campinas), Roberto de Alencar Lotufo. De incio, auniversidade deve incluir na sua misso a formao no apenasde futuros profissionais, mas tambm de lderes e futuros gera-dores de emprego. A legislao precisa ser modernizada para quea universidade ou seu ncleo de inovao tecnolgica (NIT) pos-sam ser scios de empresas spin-off, para ajud-las em seu cresci-mento. Quanto ao investimento, h a necessidade de um finan-ciamento de capital semente, fundamental no perodo inicial deformao de uma empresa.

    Importante tambm o papel das incubadoras para que essasempresas tenham vida longa. Elas cumprem a funo de ajudara transformar o conhecimento gerado em produtos de interesseda sociedade. Segundo Guilherme Ary Plonski, presidente da

    Associao Nacional das Entidades Promotoras deEmpreendimentos Inovadores (Anprotec), a incorporao dasincubadoras atuando junto s universidades pode ser considera-da a segunda revoluo acadmica; a primeira teria acontecido nosculo 19, ligada incorporao de laboratrios de pesquisa, essen-ciais para a produo de conhecimento.

    A Anprotec no tem um dado oficial sobre a quantidade despin-offs brasileiras, mas estima que so milhares. A taxa de sobre-vivncia considerada alta: 80% dessas empresas sobrevivem apstrs anos de existncia. Essas empresas, segundo Plonski, contamcom uma fundamentao cientfica e tecnolgica desde sua cria-o e so auxiliadas pela incubadora a adquirir competncias rela-cionadas gesto para assegurar mercado e recursos, alm degerenciar pessoas.

    Alguns casos de spin-offno Brasil so bastante conhecidos, outrosmenos. As empresas Bematech, do Paran, Pipeway, do Rio deJaneiro, e Griaule, de So Paulo so trs bons exemplos. Em comum,elas contaram com a ajuda de incubadoras, com o esprito inova-dor dos seus criadores e com os pesados investimentos em P&D.

    Referncia como empresa incubadaO esprito inovador de dois engenheiros, estudantes de mes-

    trado na poca, foi a base para a criao de uma empresa hoje vis-ta como um dos casos de empresa incubada mais bem sucedidosdo pas. A Bematech, companhia que lidera o mercado brasileirode impressoras fiscais e automao comercial, surgiu em 1990, comum projeto dos engenheiros Wolney Betiol e Marcel Malczewski,desenvolvido no Centro Federal de Educao Tecnolgica do Paran(Cefet-PR). Por essa razo, a empresa credita, tecnicamente, seu nas-cimento universidade. A Bematech se originou do espritoempreendedor de dois formandos. Na verdade, a natureza prticado trabalho desenvolvido por eles foi severamente questionada den-tro da universidade, demonstrando claramente algumas das bar-reiras culturais existentes entre empresas e universidades, diz MiltonRibeiro, diretor de tecnologia e inovao da empresa.

    SPIN-OFFS

    GABRIELA DI GIULIO E PATRCIA MARIUZZO

  • No incio, a ajuda recebida da incubadora Instituto de Tecnologiado Paran, em Curitiba, foi importante e ajudou a transformar oprojeto de uma impressora para aparelhos de telex em produto.Mas, para alcanar sua posio no mercado, a Bematech contou,de fato, com a determinao de seus fundadores, que tiveram delevantar capital privado, trabalhar pesado em automao bancria,buscar fundos de investimentos e estabelecer parcerias com uni-versidades e instituies de pesquisa.

    Hoje, a Bematech uma empresa de capital aberto, com umfaturamento lquido de R$ 240 milhes (registrado em 2007) e comuma perspectiva de crescimento entre 20 e 30% ao ano. Contacom trs instalaes em Curitiba, fbrica em So Jos dos Pinhais,So Paulo e Jundia e com diversas filiais no Brasil. Tem, ainda, sub-sidirias em Taiwan, Estados Unidos, Alemanha e Argentina. Osprodutos da Bematech so vendidos no mundo todo, inclusive suagrande idia a impressora MP 4000, considerada a melhor impres-sora de recibos do mundo. No Brasil, a empresa detm mais de60% do mercado de impressoras fiscais.

    O segredo do sucesso est na constante busca por desenvolvi-mento de produtos e processos inovadores. A empresa, de acordocom Ribeiro, investe entre 3% e 4% do seu faturamento em P&D.Dos 1,4 mil funcionrios, cerca de 100 trabalham diretamente narea de pesquisa. Todos os novos produtos colocados no mercadorefletem o trabalho que a empresa faz em parceria com universidadese instituies de pesquisa, como o caso do Centro de Estudos eSistemas Avanados de Recife (C.E.S.A.R.), da Universidade Federaldo Cear (UFC), dos institutos Certi, Lactec, entre outros.

    Oportunidade bem aproveitadaOutro caso de sucesso de empresa de base tecnolgica que

    passou por incubadora a Pipeway Engenharia, nica compa-nhia do pas e do hemisfrio sul que fabrica e opera equipamen-tos para inspecionar o interior de tubos de leo e gs. O objetivodesses equipamentos conhecer o real estado de conservao dasredes de dutos que transportam leo e gs evitando, assim, vaza-mentos e reduzindo riscos de acidentes ecolgicos. Criada em1998, no Rio de Janeiro, a Pipeway nasceu na Incubadora Gnesis,da Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro (PUC-RJ),como resultado de uma parceria entre o Centro de Pesquisas daPetrobras (Cenpes) e o Centro de Estudos em Telecomunicaesda PUC (Cetuc).

    A soluo de um problema demandada pelo Cenpes, atravsde um acordo com a PUC-RJ, e a existncia de um edital da incu-badora permitiram que a tecnologia que tnhamos desenvolvido,de forte potencial de mercado, pudesse ser negociada, contaJos Augusto Pereira da Silva, diretor presidente da Pipeway.

    A empresa nasceu com sete funcionrios, e hoje conta com60 colaboradores, a maioria atuando direta e indiretamente narea de P&D. Em 2007, o faturamento foi de R$ 9 milhes e foiregistrado um crescimento de 30% em relao a 2006. Se con-sideramos a baixa do dlar, podemos dizer que nossas operaespraticamente dobraram de tamanho, diz Silva, ressaltando quecerca de 15% a 20% do faturamento investido em P&D.

    Hoje, os produtos e tecnologias da Pipeway so exportados paraa Amrica Latina, Amrica Central e, ainda neste semestre, esta-

    25REVISTA CONECTA

    A mineira Leucotron foi criada a partir da idia de dois engenheiros formados pelo Instituto Nacional de Telecomunicaes (Inatel)

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  • 26REVISTA CONECTA

    ro disponveis nos Estados Unidos, onde est sendo criada umasubsidiria. Alm da matriz em So Cristvo (RJ), a empresa con-ta com filiais em Natal (RN), na Argentina e na Colmbia.

    Entre os desafios: competitividade do mercado, garantia da pres-tao de um bom servio e oferecimento de solues mais rpidase melhores. Certamente, nosso maior desafio a abertura da sub-sidiria nos Estados Unidos. L esto cerca de 60% dos dutos domundo. Dali, nossa empresa quer atuar tambm no Mxico e noCanad, observa Silva. Para isso, a lio aprendida no Brasil deve-r se intensificar: queremos estabelecer parcerias com instituiesde pesquisa norte-americanas e j estamos de olho nos editais.

    Filha da Unicamp Segundo dados divulgados pela Inova Unicamp, so cerca de

    150 as empresas criadas por ex-alunos e professores da universida-de. Elas so responsveis por mais de 5 mil colaboradores diretos.A prpria Inova conta com umaincubadora de empresas de base tec-nolgica, a Incamp, por onde j pas-saram mais de 10 empresas. O casode maior sucesso, segundo o diretorexecutivo da agncia, a Griaule,que domina a tecnologia do SistemaAutomatizado de Identificao deImpresses Digitais (Afis, na siglaem ingls). A tcnica de algoritmosde reconhecimento, desenvolvidapela empresa, tem 100% tecnolo-gia nacional e j foi chancelada pelo National Institute of StandardTec