Ruth BENEDICT. O crisântemo e a espada

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Ruth Benedict

O Crisntemo e a EspadaPadres da Cultura Japonesa

U N IV E R S ID A D E D E FO R T A LEZA

BIBLIOTECA CENTRAL

ditora Perspectiva

So Paulo

U N IVE R S ID A D E D E F O R T A L E Z A

- BIBLIOTECA CENTRALN

JO IS

Data

4373

Ttulo do original:

The Chrysanthemum and the SwordCopyright by HOUGHTON M IFFLIN & COMPANY Direitos para o Brasil reservados EDITORA PERSPECTIVA S. A. Av. Brig. Lus Antnio, 3.025 So Paulo - SP 1972

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13.

SUMARIO Agradecimentos ....................................................... 7 Misso: Japo ............................................................ 9 Os Japoneses na G uerra............ ............................. 25 Assumindo a Posio D e v id q ................................ 43 A Reforma M eiji ....................................................... 69 Devedor dos Sculos e do M u n d o .......................... 87 Saldando um Dcimo M ilsim o ........................... 99 O Pagamento'.'mais Difcil de Suportar ........... 115 Limpando o N o m e .................................................... 125 O Crculo dos Sentimentos Humanos ................. .. 151 O Dilema da V irtu de ........................... ................... 167 A A utodisciplin a ..................................................... 193 A Criana Aprende . . . ......................................... 213 Os Japoneses desde o Dia da V it r ia ................... 249 Glossrio ........................................ ........................... 265 ndice ......................................................................... 269

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AGRADECIMENTOS Os japoneses, nascidos ou educados no Japo, e que viviam nos Estados Unidos durante os anos de guerra, viram-se colocados numa posio bastante difcil. Foram alvo da desconfiana de muitos americanos. Tenho, portanto, grande prazer em dar testemunho de seu auxlio e amabilidade durante o perodo em que estive reunindo material para este livro. Sou-lhes muito grata, es pecialmente ao meu colega de tempo de guerra, Robert Hashima. Nascido neste pas e educado no Japo, decidiu voltar para os Estados Unidos em 1941. Foi internado num campo de recolocao de guerra e eu fiquei conhecendo-o quando veio trabalhar em Washington nos rgos de guerra dos Estados Unidos.7

Agradeo tambm ao Servio de Informao de Guerra, cujo relatrio de que me incumbiu constitui este livro; particularmente, o Professor George E. Taylor, Vice-Diretor para o Extremo-Oriente, ao Comandante Alexander H. Leighton, MC-USNR, que chefiava a Di viso de Anlise Moral Estrangeira. Quero agradecer tambm queles que leram este li vro total ou parcialmente: Comandante Leighton, Pro fessor Clyde Kluckhohn e o Dr. Nathan Leites, todos pertencentes ao Servio de Informao de Guerra durante o perodo em que estive trabalhando no Japo, tendo me ajudado de muitas maneiras; Professor Conrad Arensberg, Dra. Margaret Mead Gregory Bateson e E. H. Norman. AgfadecTTds por sugestes e auxlio. RUTH BENEDICT

A AUTORA deseja agradecer aos eguintes editores, que lhe permitiram fazer citaes extradas de suaS publica es: D. Appleton-Century Company, Inc., de Behind the Face o f Japan, de Upton Close; Edward Arnold and Company, de Japanese Buddhism, de Sir Charles Eliot; The John Day Company, Inc., de M y Narrow Isle, de Sumie Mishima; J. M. Dent and Sons, Ltd., de Life and Thought o f Japan, de Y oshisabura Okakura; Doubleday and Company, de A Daughter o f the Samurai, de Etsu Inagaki Sugimoto; Penguin Books, Inc., e o Infantry Journal de um artigo pelo Coronel Harold Doud, em How theJap Army Fights; Jarrolds Publishers (London), Ltd., de True Face o f Japan, de K. Nohara; The Macmillan Company, de Buddhist Sects o f Japan, de E. Oberlin Steinilber e de Japan: An A ttem pt at Interpretation, de Lafcadio Hearn; Rinehart and Company, Inc., de Ja panese Nation, de John F. Embree e a University of Chicago Press, de Suye Mura, de John F. Embree.

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1. MISSO: JAPO

Os japoneses foram os inimigos mais hostis jamais enfrentados.pelos Estados Unidos numa guerra total. Em nenhuma outra guerra travada contra um adversrio po deroso fora necessrio levar em considerao hbitos to extremadamente diversos de agir e de pensar. Como a Rssia czarista, que em 1905 nos antecedeu, com batamos uma nao completamente armada e treinada que no pertencia tradio cultural ocidental. As convenes de guerra, que as naes ocidentais aceitaram como fatos consagrados da natureza humana, obviamente no existiam para os japoneses. A guerra no Pacfico constituiu-se, por isso mesmo, em algo mais do que uma srie de desembarques em praias de ilhas, em algo mais9

do que insuperado problema de logfstica. Transformou-se antes de mais nada num problema concernente prpria natureza do inimigo. Teramos de entender stja conduta, a fim de poder combat-lo. As dificuldades foram grandes. Durante os setenta e cinco anos que se seguiram abertura das portas do Ja po, os japoneses vm sendo includos n mais fantstica srie de mas tambm jamais empregada com relao a qualquer nao do mundo. Quando um observador srio escreve a respeito de outros povos afora os japoneses, considerando-os de uma cortesia nunca vista, pouco provvel que acrescente mas tambm insolentes e autoritrios . Quando disser que o povo de determinada nao de uma incomparvel rigidez de conduta, no h de acrescentar mas tambm se adaptam prontamente a inovaes extremas . Quando considerar um povo submisso; no h de assinalar alm disso que no se sujei ta facilmente a um controle de cima. Quando os declarar leais e generosos, no advertir mas tambm traioeiros e vingativos. Quando disser que so verdadeiramente bravos, no discorrer sobre a sua timidez. Quando afirmar que agem sem atentar para a opinio alheia, no observar em seguida que tm uma conscincia ver dadeiramente terrificante. Quando descrever a disciplina de robs do seu exrcito, no se deter a seguir sobre a maneira como os soldados tomam os freios nos dentes, chegando inclusive insubordinao. Quando se referir a um povo que se devota apaixonadamente cultura oci dental, no se expandir sobre o seu ardoroso conser vadorismo. Quando escrever um livro sobre uma nao onde vigora um culto popular de esteticismo, que confere honrarias a atores e artistas, esbanjando arte no cultivo de crisntemos, tal obra no ter de ser completada por uma outra, dedicada ao culto da espada e ascendncia mxima do guerreiro. Todas essas contradies constituem-se, todavia, na prpria tessitura dos livros sobre o Japo. So ver dadeiras. Tanto a espada como o crisntemo fazem parte do quadro geral. Os japoneses so, no mais alto grau, agressivos e amveis, militaristas e estetas, insolentes e corteses, rgidos e maleveis, submissos e rancorosos, leais e traioeiros, valentes e tmidos, conservadores e abertos aos novos costumes. Preocupam-se muito com o que os

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outros possam pensar de sua conduta, sendo tambm acometidos de sentimento de culpa quando os demais na da sabem do su deslize. Seus soldados so disciplinados ao extremo, porm, so igualmente insubordinados. Quando Se tomou extremamente importante para a Amrica compreender o Japo, essas contradies e mui tas outras igualmente clamorosas no puderam ser postas de lado. As crises se sucediam diante de ns. O que fariam os japoneses? Seria possvel capitulao sem invaso? De veramos bombardear o Palcio do Imperador? O que po deramos esperar dos prisioneiros de guerra japoneses? O que poderamos dizer em nossa propaganda para os soldados japoneses e sua ptria que pudesse salvar as vi das de americanos e abater a inteno japonesa de lutar at o ltimo homem? Verificaram-se violentos desen tendimentos entre os que melhor conheciam os japoneses. Quando viesse a paz, seriam eles um povo que precisasse de uma lei marcial perptua para mant-los em ordem? Teria nosso exrcito de se preparar para travar deses perados combates em cada reduto das montanhas do Ja po? Teria de haver uma revoluo no Japo do gnero da Francesa ou da Russa, antes que fosse possvel a paz internacional? Quem a comandaria? A alternativa estaria na erradicao dos japoneses? Faria uma diferena enorme quais fossem nossos julgamentos. Em junho de 1944, recebi o encargo de estudar o Ja po. Pdiram-me que utilizasse todas as tcnicas que pudesse, como antroploga cultural, a fim de decifrar como seriam os japoneses. No inicio daquele vero, nossa grande ofensiva contra o Japo comeava a se revelar na sua verdadeira magnitude. Muita gente nos Estados Uni dos ainda dizia que a guerra com o Japo duraria mais trs anos, ou talvez dez. No Japo, falava-se numa centena de anos. Os americanos, dizia-se entre os japoneses, tinham tido vitrias locais, mas a Nova Guin e as Ilhas de Salomo ficavam a milhares de quilmetros de suas ilhas natais. Seus com unicados oficiais dificilm ente reconheciam derrotas navais e o povo japons ainda se considerava como vitorioso. Em junho, entretanto, a situao comeou a mudar. Abrira-se uma segunda frente na Europa e a prioridade militar que o Alto Comando concedera ao teatro europeu durante dois anos e meio tinha sido resgatada. O fim da

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guerra contra a Alemanha estava prximo. No Pacfico, nossas foras desembarcaram em Saipan numa grande operao, prevendo a derrota final japonesa Dali por diante, nossos soldados iriam enfrentar o exrcito japons em pontes cada vez mais prximos. E sabamos per feitamente, a exemplo dos combates em Nova Guin, Guadalcanal, Burma, Attu, Tarawa e Biak, que en frentvamos um adversrio formidvel. Em junho de 1944, tratava-se, portanto, de responder a uma multido de perguntas sobre o nosso inimigo, o Ja po. Quer o assunto fosse militar ou diplomtico, quer fosse suscitado por questes de alta poltica ou de volantes a serem lanados detrs das linhas de frente japonesas, todos os dados eram importantes. Na guerra total em que se empenhava o Japo, t