SÃO PAULO EM PAPEL E TINTA Periodismo e Vida Urbana 1890/1915

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Livro sobre os periódicos .que existem na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

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  • SO PAULO EM PAPEL E TINTA Periodismo e Vida Urbana 1890/1915 Heloisa de Faria Cruz
  • GOVERNO DO ESTADO DE SO PAULO Governador Geraldo Alckmin SECRETARIA DE ESTADO CASA CIVIL Secretrio Edson Aparecido ARQUIVO PBLICO DO ESTADO DE SO PAULO Coordenador Izaias Jos de Santana Conselho Editorial Ana Clia Rodrigues Barbara Weinstein Clia Reis Camargo Denise Aparecida Soares de Moura Fernando Teixeira da Silva Jaime Rodrigues James Naylor Green Jeffrey Lesser Joo Roberto Martins Filho Joo Paulo Garrido Pimenta Yara Aun Khoury Diretora do Centro de Difuso e Apoio Pesquisa Haike R. k. da Silva Coordenao Editorial Vania Silva
  • Preparao de Originais e Reviso de Provas Jssica Ferraz Juliano Vania Silva Ilustraes Srgio Jos Meurer Capa Srgio Jos Meurer Projeto Grfico Helen Karina Teixeira Batista Srgio Jos Meurer Diagramao Helen Karina Teixeira Batista Srgio Jos Meurer Reproduo e Tratamento de Imagens Ncleo de Microfilmagem e Digitalizao Reviso e cadastramento de peridicos Ncleo de Biblioteca e Hemeroteca Apoio Tcnico Centro de Processamento de Informaes Digitais.
  • NOTA EXPLICATIVA SOBRE ESTE E-BOOK Os direitos sobre todos os textos contidos neste livro eletrnico (e-book) so reservados ao() seu(sua) autor(a) e esto protegidos pelas leis do direito autoral. Esta uma edio eletrnica, no comercial, que no pode ser vendida nem comercializada em hiptese nenhuma, nem utilizada para quaisquer fins que envolvam interesse monetrio. Este exemplar de livro eletrnico pode ser reproduzido em sua ntegra e sem alteraes, distribudo e compartilhado para usos no comerciais, entre pessoas ou instituies sem fins lucrativos. Em caso de uso acadmico deste e-book, todos os crditos e referncias devem ser dados ao() autor(a) e ao Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Ficha Catalogrfica elaborada por Renata Gonalves CRB 8 n 8248 C962s Cruz, Helosa de Faria So Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana 1890-1915 / Helosa de Faria Cruz. - So Paulo : Arquivo Pblico do Estado de So Paulo, 2013. 2.382Kb ; PDF Modo de Acesso: World Wide Web ISBN: 978-85-63443-04-5 (PDF) ISBN: 978-85-63443-05-2 (Epub) 1. Peridicos de So Paulo. 2. Histria da Imprensa (So Paulo). I. Ttulo. CDD 056.9
  • Como acessar links de peridicos citados O e-book So Paulo em Papel e Tinta traz 106 ttulos citados pela autora com links para jornais e revistas do acervo digitalizado da Hemeroteca do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Esses ttulos ficam em destaque, na cor vermelha, com um link, na primeira vez em que so citados. Veja um exemplo: do que seria a imprensa peridica e a leitura corrente no perodo. Os vagos e muitas vezes irnicos expedientes de tais publicaes, declarando redatores diversos (A Penna, 1882), redao annima (O Alfinete, 1915), sai quando pode (O Gaiato, 1905), redao em toda parte (A Farpa, 1887), escritrio na mesa do canto do caf Guarany ou no olho da rua (O Garoto, 1900) ou mesmo o uso de inmeros pseudnimos para Os mesmo ttulos esto com links tambm na pgina de Fontes (Jornais e Revistas): JORNAIS E REVISTAS lbum das Meninas (1898/1900) O Alfinete (1915) O Amigo do Povo (1902) Anima e Vita (1905) Antarctica Illustrada (1902/1904) Ao clicar nesses ttulos, o leitor que estiver conectado Internet acessar um exemplar do peridico diretamente do acervo digitalizado do site do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo. Caso tenha alguma dvida em relao ao acesso, envie para [email protected] sp.gov.br.
  • AGRADECIMENTOS Este livro resultou de minha tese de doutorado, defendida no Programa de Histria Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da USP, entre os anos de 1990 e 1994. Naquela trajetria, tive o privilgio de contar com inmeras contribuies. Ao professor Marcos Antnio da Silva, agradeo no s o cuidado com que acompanhou os vrios momentos de pesquisa e da redao da tese, mas, sobretudo, o respeito e a pacincia com que conduziu essa complexa relao orientador/orientanda. Alm do orientador, participaram das bancas de qualificao e defesa as professoras Da Ribeiro Fenelon, Maria Clia Paoli, Ana Maria Camargo e Maria Amlia Dantes e o professor Antnio Carlos Barreiro. A todos agradeo a pertinncia dos comentrios crticos e sugestes de pesquisa, sobretudo o modo gentil de suas intervenes. professora Da, professora no curso de graduao em Histria na Universidade de Braslia, orientadora de minha dissertao de mestrado desenvolvida na UNICAMP e colega do Departamento de Histria na PUC/SP, agradeo, especialmente, o privilgio das marcas de um convvio intelectual e humano que j dura mais de 20 anos. O Departamento de Histria da PUC/SP, abrindo mo de minha participao mais efetiva nas rotinas cotidianas do curso no perodo de redao final do trabalho, abriu espao para que ele pudesse ser concludo. Aos colegas do Departamento, Olga, Rosrio, Pilar, Antonieta e outros amigos historiadores, agradeo os momentos de troca e apoio na realizao da pesquisa. Meus alunos, principalmente aqueles que atuaram como bolsistas de iniciao cientfica e aperfeioamento no projeto Imagens Paulistanas, Lauro, Selma, Nvea, Dalton e Daniela, ajudaram a construir um espao rico de aprendizagem coletiva no qual a pesquisa individual ganha um sentido poltico muito mais claro. Gostaria de salientar tambm o atendimento solcito e atencioso de funcionrios e corpo tcnico das diversas instituies em que realizei a pesquisa, agradecendo especialmente ao pessoal do Arquivo do Estado e a Brs Ciro Gallota, que me ajudou com a preciosa coleo de peridicos do Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo. Por fim, cabe registrar o apoio institucional do CNPq, da Fapesp e da Comisso de Pesquisa do Conselho de Ensino e Pesquisa fundamental na viabilizao deste estudo.
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  • IMPRENSA E VIDA URBANA EM SO PAULO: REVISITANDO O TEMA E A PESQUISA Uma revista, como um jornal, ter de ter, forosamente, um carter e uma moral. De um modo genrico: princpios. Dessa obrigao no esto isentas as revistas que se convencionou apelidar de frvolas. A funo da revista ainda no foi, entre ns, suficientemente esclarecida e compreendida. Em paiz da estenso desconforme do Brasil, que um amalgama de naes com uma s alma, a revista rene um complexo de possibilidades que, em certo sentido, rivalizam ou ultrapassam as do jornal. O seu raio de ao incomparvelmente mais amplo no espao e no tempo. Um jornal est adstrito s vinte e quatro horas de sua existncia diria. Cada dia o jornal nasce e fenece, para renascer no dia seguinte. uma metamorphose consecutiva. O jornal de hontem j um documento fora de circulao: um documento de archivo e de biblioteca. O jornal dura um dia. Essa existncia to intensa como breve, dificulta os grandes percursos. um vo celere e curto. O jornal a prpria vida. A revista j um compndio da vida. A sua circulao no est confinada a uma area traada por um compasso cujo ponteiro mvel raro pode exceder um crculo de raio superior a sua distncia mxima percorrvel em vinte e quatro horas. A revista circula desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, infiltra-se por todos os municpios, utiliza na sua expanso todos os meios de conduo terrestre, maritima, fluvial e area; entra e permanece nos lares; leitura da famlia e da vizinhana. A revista o estado intermedirio entre o jornal e o livro. O pargrafo acima parte do extenso editorial que, em 10 de novembro de 1928, trazia a pblico o nmero inaugural daquela que seria a principal revista semanal brasileira no decorrer do sculo XX: a revista O Cruzeiro, publicada regularmente pelos Dirios Associados entre 1928 e meados da dcada de 1970. Sinalizando a superao de um perodo de grande experimentao e disputa no campo de produo peridica em seus vrios gneros e formatos, e que se torna mais visvel no periodismo brasileiro na virada do sculo XIX ao sculo XX, O Cruzeiro, em seu editorial de lanamento, j pode afirmar, de forma inequvoca, as diferenas das revistas em relao aos jornais. Rico de significaes, o editorial prope algumas pistas sobre a 9
  • natureza desse processo de afirmao do gnero revista no Brasil e sobre as estratgias, concepes e disputas que configuraram o processo de conformao das revistas brasileiras nas dcadas anteriores. Ao assumir de forma positiva e sem maiores constrangimentos a qualificao de frvola para as revistas brasileiras ento em circulao, O Cruzeiro no s se coloca no campo da produo da leitura leve e de entretenimento como sinaliza quais foram as direes triunfantes do gnero revista nos momentos anteriores. E aponta, tambm, como, no processo de popularizao da imprensa ento em curso, as revistas articulam-se s novas sociabilidades urbanas e, por meio de correspondentes e dos novos ritmos advindos do desenvolvimento dos transportes e do telgrafo, buscam pblicos nacionais. Em So Paulo, esse movimento de afirmao das revistas configura-se a partir da segunda dcada do sculo XX, indicando um processo de estreitamento da diversidade das publicaes e da atuao dos grupos produtores no campo do periodismo literrio, cultural e de entretenimento. Diferentemente dos processos das dcadas anteriores, as disputas circunscrevem-se, ento, a uns poucos projetos editoriais. Num espao delimitado por empreendimentos marcadamente comerciais, com estruturas profissionais mais definidas, um nmero bastante reduzido de revistas disputa a hegemonia na rea da produo de publicaes ilustradas e de entretenimento. No final da segunda dcada do sculo XX, temos A Vida Moderna e A Cigarra, principais revistas do gnero publicadas na cidade; assumindo ser cada uma a revista de maior tiragem e circulao no estado de So Paulo, travam acirrada disputa pela conquista dos pblicos paulistano e paulista. O processo histrico que configura a vitria das revistas leves e apelidadas de frvolas, como O Cruzeiro e A Cigarra, marcado por tenses e direes diversas. Assim, se recuarmos alguns anos, manifestaes de editores de vrios gneros de publicaes, principalmente da rica imprensa operria do perodo, indicam sentidos e direes diversas nesse campo de disputa sobre o processo de popularizao do periodismo em So Paulo. A imprensa burguesa exerce, sem dvida, uma grande influncia sobre o povo. Ela poderia ser um importante fator na cultura e na formao de sua mentalidade. Mas como est mercantilizada, como o seu fim exclusivamente o lucro, a sua influncia no pode ser mais prejudicial e execrvel. Trecho de um artigo de A Voz do Trabalhador, de 15 de julho de 1908, rgo da Confederao Operria Brasileira. Publicada sob o ttulo A imprensa e a mentalidade popular, a citao acima permite explorar diversas questes sobre a expanso e a popularizao da imprensa naquele momento. Em princpio, tal avaliao, representativa das posies da imprensa anarquista-libertria sobre a imprensa burguesa, ao exprimir a concepo de importantes setores do movimento operrio do perodo, delimita a imprensa enquanto importante campo da luta social. Num primeiro plano, sinaliza que o processo de conquista e expanso da cultura impressa sobre terrenos sociais anteriormente alijados dos circuitos da cultura letrada no se configurou enquanto terreno da mera homogeinizao cultural. Assim, tambm aponta para a crescente articulao do periodismo ao mercado e s prticas mercantis. Por outro 10
  • lado, identificando a mentalidade popular enquanto alvo e objeto da disputa, formula a questo central na discusso sobre a importncia da imprensa na formao do povo. Em outra edio, a do dia 13 de maio de 1909, em matria veiculada sob o ttulo Concurso contra concurso, a mesma publicao, indignada, se insurge contra um concurso lanado na imprensa burguesa que se prope a eleger o operrio mais popular e simptico dos subrbios, e, em retaliao, lana a proposta de eleio, pelos leitores da Voz do Trabalhador, do jornalista mais crpula e mais mistificador do Rio de Janeiro. Seus argumentos ao criticar o concurso se deixam ver na matria: Decididamente preciso abrir sria campanha contra a esplorao jornalstica que visa corromper cada vez mais o operariado. Ainda agora, a Imprensa acaba de iniciar um concurso para saber Qual o operario mais popular e simptico dos subrbios. um recurso comercial reclame para o jornal e imprudente caada ao nquel de operrios simples que tm ainda f de todas as espcies: nos jornalistas, no Estado, na religio e nas boas intenes dos patres. [...] um pernicioso movimento que pretende despertar a vaidade no operariado, distraindo-o, afastando-o das lutas de reivindicao [...] sobre esse perodo de emergncia e afirmao do periodismo paulista e as questes propostas pelos processos de experimentao e disputa no campo da imprensa paulista e paulistana, entre os anos de 1890 e 1915, que se desenvolve a anlise de So Paulo em Papel e Tinta. Tendo como base a pesquisa num conjunto extremamente diverso e significativo de publicaes da pequena imprensa, editadas na cidade de So Paulo no perodo, e problematizando as relaes entre cultura e cidade no momento inicial de formao da metrpole paulistana, enfatiza as articulaes entre periodismo, cultura letrada e vida urbana. A adoo do conceito de periodismo em referncia comunicao impressa e peridica, ainda hoje pouco utilizado nos estudos histricos, prope pensar a imprensa como prtica social constitutiva e instituinte dos modos de viver e pensar a cidade. Com o uso proposital da noo de periodismo, busca captar o movimento de fazer imprensa como experincia e prtica cultural de sujeitos sociais, surpreendendo as redes sociais de comunicao que a se constituem. No dilogo crtico com as experincias e motivaes dos diferentes grupos produtores daquelas publicaes, indaga sobre os sentidos do fazer imprensa, apontando para disputas em meio as quais esses personagens e suas publicaes se moviam naquele tempo. Como indica Raymond Williams em seu artigo sobre a imprensa popular inglesa1, uma abordagem corrente entre ns historiadores, cientistas sociais e estudiosos da comunicao aquela que faz da Histria da imprensa um campo isolado, que referencia a si mesmo, sem buscar as conexes e vnculos no s com a Histria de outras formas de comunicao, mas tambm com a Histria Social mais ampla, desde os movimentos polticos e sociais s conjunturas e processos econmicos, aos movimentos e formaes culturais aos quais as formas histricas da imprensa se articulam de modo mais especfico. 1 WILLIAMS, Raymond. Imprensa e cultura popular: uma perspectiva histrica. Projeto Histria: Histria e Imprensa, So Paulo, n. 35, p. 15-26, dez. 2007. 11
  • Na contramo de abordagens que privilegiam o estudo da imprensa como dimenso derivada ou paralela dos contextos sociais, ou que a utilizam to somente como fonte de informao sobre esses mesmos contextos, na reflexo proposta, o periodismo tratado como dimenso articulada do processo de constituio do espao urbano e de afirmao e construo de lugares, sociabilidades e prticas culturais da cidade. A verticalizao da pesquisa nos diferentes veculos evidencia prticas, sentidos, ambientes e as redes de comunicao social que articulam os variados projetos editoriais que do corpo a esse periodismo. Adotando a perspectiva proposta por Jurgen Habermas2 ao indicar a imprensa como instituio privilegiada da constituio da vida pblica burguesa, trazendo a reflexo sobre a imprensa para o campo da Histria Social, a anlise desvenda articulaes entre os processos de desenvolvimento e transformao da cultura impressa, via estudo do periodismo, e as disputas sociais que transformam as sociabilidades e os modos culturais de viver na cidade. Assim, prope dialogar com o processo de constituio e atuao de atores sociais por meio do estudo de uma gama extremamente rica e variada de peridicos por eles produzidos e que se constituam em um dos principais espaos de articulao coletiva e de difuso e visibilidade pblica de suas concepes, propostas e projetos. Trata-se de entender a imprensa como linguagem constitutiva do social, que detm uma historicidade e peculiaridades prprias e requer ser trabalhada e compreendida como tal, desvendando, a cada momento, as relaes imprensa/sociedade e os movimentos de constituio e instituio do social que essa relao prope. Problematizando a noo da formao do popular massivo, como sugere Jess Martin-Barbero3, interessa refletir sobre os processos de renovao das linguagens e maneiras de contar na constituio de um estilo de fazer jornalismo que busca ampliar o seu universo de leitores, expandindo-se para alm dos espaos cultos das elites letradas. Interessa, tambm, a partir da discusso mais detalhada de algumas dessas publicaes, analisar os sentidos histricos de diferentes projetos editoriais que ali se colocavam em disputa, pondo em evidncia propostas dissidentes ou de oposio aos modelos predominantes. Pensar a imprensa com essa perspectiva implica, em primeiro lugar, tom-la como uma fora ativa da Histria e no como mera depositria de acontecimentos nos diversos processos e conjunturas. Como indicam Robert Darnton e Daniel Roche, preciso pensar a sua insero histrica enquanto fora ativa da vida moderna, muito mais ingrediente do processo do que registro dos acontecimentos, atuando na constituio de nossos modos de vida, perspectivas e conscincia histrica4. Inicialmente publicado pela Imprensa Oficial e pela EDUC, editora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP), em 2000, com o apoio do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo (APESP) e da Fundao de Apoio Pesquisa do Estado de So Paulo (FAPESP), o livro foca as transformaes da cultura letrada na cidade de 2 HABERMAS, Jurgen. Mudana estrutural da esfera pblica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. 3 MARTIN-BARBERO, Jess. Dos meios s mediaes: comunicao, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997. 4 DARNTON, Robert; ROCHE, Daniel. A revoluo impressa: a imprensa na Frana, 1775-1800. So Paulo: EDUSP, 1996. 12
  • So Paulo por meio do estudo da dinmica e do desenvolvimento da pequena imprensa e, principalmente, do periodismo dito cultural, de variedades ou ilustrado. Resultado de pesquisa desenvolvida com alunos do curso de graduao em Histria da PUC-SP, com o apoio da Comisso de Pesquisa da Universidade e da FAPESP, o livro foi apresentado inicialmente como tese de doutoramento, sob o ttulo Na cidade, sobre a cidade: cultura letrada, periodismo e vida urbana 1890/1915, desenvolvida sob a orientao do Prof. Dr. Marcos Antnio da Silva no Programa de Histria Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo (USP), em 1994. O projeto de pesquisa e o livro original contaram tambm com a participao do pessoal do APESP, destacando-se o apoio decisivo do Dr. Fausto Couto Sobrinho e de Lauro vila Pereira, respectivamente Diretor Geral e Coordenador da rea de Apoio Pesquisa da instituio na poca. A pesquisa teve como uma de suas motivaes a avaliao da importncia crucial dos meios de comunicao, especificamente da imprensa, na configurao da esfera pblica no sculo XX. Para alm de vises mais escatolgicas sobre a morte iminente da cultura impressa que hoje se insere num campo mais complexo delineado por sistemas de satlites e cabos, por novas tecnologias e redes de informao , em relao imprensa, fcil constatar que o seu uso, faz algum tempo, encontra-se disseminado nos ambientes de investigao das Cincias Sociais e das Humanidades. Nos diversos campos de pesquisa, da Comunicao Semitica, da Crtica Literria Educao, a imprensa aparece como fonte e objeto de pesquisa. Tambm na rea da Histria, na pesquisa e no ensino sobre os mais variados temas e problemticas, a utilizao de materiais da imprensa, hoje, est cada vez mais generalizada5. Nos ltimos 30 anos, o movimento de incorporao crescente dos materiais da imprensa nos ambientes da pesquisa histrica articula-se ao desenvolvimento dos estudos histricos sobre a imprensa brasileira. Sinal da consolidao de um campo de investigao pode ser avaliado pelo grande nmero de trabalhos sobre o periodismo brasileiro em diversos momentos de nossa histria que a consulta a diretrios de dissertaes e teses dos Programas de Ps-Graduao de Histria revela. Vale notar que a reedio do estudo clssico de Werneck Sodr, Histria da Imprensa no Brasil, no final de 1999, 38 anos aps o lanamento de sua primeira edio, indica um momento de vitalidade e desenvolvimento dessa tradio dos estudos voltados para a Histria de nossa imprensa. Desde o final da dcada de 1970, com a reorganizao dos cursos de ps-graduao, pesquisas diversas com diferentes enfoques e abordagens, em sua maioria apresentadas como dissertaes e teses, fazem da imprensa brasileira seu objeto de estudo. Abrindo o leque temtico, nas ltimas dcadas tais estudos ganharam maior especificidade, distanciando-se de propostas mais generalistas. Nesse campo, destacam-se pesquisas sobre a chamada grande imprensa, sobre publicaes paulistas, sobre a imprensa carioca, bem como sobre grandes jornais dos principais estados brasileiros. Tambm ganha destaque o estudo de publicaes culturais, humorsticas, educacionais e esportivas, assim como de revistas noticiosas e de variedades, e de publicaes mais especializadas, 5 Para discusso mais detalhada de questes terico-metodolgicas do uso da imprensa na pesquisa, ver CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosrio da Cunha. Na oficina do historiador: conversas sobre histria e imprensa. Projeto Histria, So Paulo, v. 1, p. 22-38, 2008. 13
  • voltadas para segmentos especficos do pblico imprensa feminina, negra, operria e sindical, alternativa, popular ou comunitria, entre outras. Assumindo ento essa dinmica de renovao dos estudos sobre a imprensa brasileira, naquele momento, um dos objetivos centrais do projeto de pesquisa que deu origem tese, desenvolvido sob o ttulo Imagens Paulistanas, era tambm o alargamento do universo de fontes para a pesquisa e reflexo histrica sobre o viver urbano e a imprensa paulistana na virada do sculo XIX ao XX. A ideia era a de, como prope Beatriz Sarlo6, a partir da renovao dos registros e dos materiais disponveis para os pesquisadores, promover novas e diferentes indagaes e perspectivas tericas sobre tais temticas. No interior daqueles esforos que, em sua maioria, privilegiavam os estudos sobre os grandes jornais e revistas, nossa preocupao voltou-se para o que passamos a denominar de pequena imprensa. Nesse campo, identificvamos uma grande variedade de peridicos que se constituam de modo sistemtico ou de maneira mais intermitente, mas no menos articulada na vida social do que os grandes jornais. Peridicos que, na maioria das vezes, eram produzidos por pequenos grupos editoriais, sendo dirigidos a pblicos mais especficos e restritos, trazendo interesses mais explcitos, seja de comunidades diversas ou de bairros da cidade, projetos e prticas culturais especficas, movimentos de novas sociabilidades e prticas culturais, com projetos polticos diversificados, e dando visibilidade aos embates na conformao da esfera pblica em que se davam a conhecer e se materializavam. A parceria entre o Centro de Documentao da PUC-SP (CEDIC) e o Arquivo do Estado, em 1997, na publicao de So Paulo em Revista: Catlogo de Publicaes da Imprensa Cultural e de Variedades Paulistana (1870-1930), primeiro fruto do projeto, revelou-se um instrumento de pesquisa que rene referncias sobre uma gama extremamente variada, e at aquele momento dispersa e pouco conhecida, de colees de publicaes da pequena imprensa peridica que vieram a pblico na cidade de So Paulo durante aquele perodo. Como se indicava na introduo do Catlogo, at ento as pesquisas sobre as relaes entre periodismo e cidade tinham como base um conjunto j identificado e bastante reduzido desses materiais. A partir desse momento, o Catlogo transformou-se num instrumento bastante difundido entre os pesquisadores da imprensa e da cidade, impulsionando muitos estudos sobre esses temas. Importante tambm indicar que, desde ento, com a ajuda dos meios eletrnicos de reproduo e acesso, diversas instituies de pesquisa e arquivos deram passos significativos na organizao e na disponibilizao pblica de colees de peridicos da imprensa brasileira. ndice da expanso e consolidao da rea de pesquisa sobre a imprensa brasileira no decorrer das ltimas trs dcadas a preocupao com a preservao e com a construo de instrumentos de referncia vindos a pblico a partir de projetos desenvolvidos em vrios Estados. Nessa direo j apontava o pioneiro Plano Nacional de Microfilmagem de Peridicos Brasileiros, coordenado pela Fundao da Biblioteca Nacional, em desenvolvimento desde 1982, origem da recm-lanada Hemeroteca Digital Brasileira. Esta, segundo informaes do seu portal7, j disponibiliza 5 milhes de pginas digitalizadas, incluindo peridicos raros ou extintos, nmero que se multiplicar com a continuidade da 6 SARLO, Beatriz. A histria contra o esquecimento. In: ______. Paisagens imaginrias: intelectuais, artes e meios de comunicao. So Paulo: EDUSP, 1997. p. 35-42. 7 Disponvel em: . 14
  • reproduo digital em curso. No caso de So Paulo, h de se destacar a disponibilizao, ainda que com restries comerciais de acesso, de acervo digital dos 137 anos de edies do jornal O Estado de So Paulo. dentro desse mesmo propsito de preservao e disponibilizao ampla ao pblico do acervo de sua Hemeroteca que o Arquivo Pblico do Estado de So Paulo vem organizando o site Memria da Imprensa8 e promovendo a digitalizao de suas colees de peridicos. Dispondo de uma Hemeroteca com uma coleo de mais de 200 ttulos de importantes jornais da imprensa paulista e paulistana, e de aproximadamente 1.200 ttulos e mais de 32 mil exemplares de revistas de So Paulo, de outros estados e tambm do exterior, o Arquivo vem progressivamente digitalizando e dando acesso, via seu portal, a esses materiais da imprensa. Relevante destacar, ainda, que a riqussima coleo de peridicos do Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo, que rene mais de 3 mil ttulos de jornais, revistas e folhas tipogrficas do sculo XIX e incio do sculo XX, e no interior da qual se localiza grande parte das colees que serviram de base para a nossa pesquisa, encontra-se, desde 2008, sob a guarda do Arquivo. Na coleo do Instituto, a variedade de ttulos representada por um conjunto documental que abriga uma grande diversidade de publicaes, denotando a emergncia e a expanso da imprensa como espao de manifestao pblica dos mais variados grupos sociais e interesses polticos naquele contexto histrico. Grande parte do acervo composta por exemplares nicos, ou primeiros exemplares do peridico, ou, ento, por pequenas colees de peridicos que tiveram vida efmera, representantes tpicos de um momento em que a imprensa ainda bastante diversificada, indicando a formao de novos grupos produtores e de pblicos leitores para o periodismo nacional. Apesar de quase desconhecidos das pesquisas acadmicas, esses peridicos representam dimenses importantes do processo de formao do jornalismo paulista e de sua afirmao enquanto um ator poltico nas disputas pblicas. A crescente digitalizao dessas colees oportunizam novas opes de pesquisa e debate sobre o estudo e a reflexo proposta pelo livro. Assim, foi com grande satisfao que aceitei a proposta do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo de reeditar o So Paulo em Papel e Tinta no formato e-book. Publicado originalmente em um momento em que as ferramentas da preservao digital dos materiais e a pesquisa na rede mundial ainda engatinhavam, o livro ganha novas conotaes e possibilidades nesse formato. Como indicado na verso impressa, publicada em 2000, julguei melhor assumir na sua totalidade a verso original ento veiculada, trazendo a pblico a reflexo com os vieses e marcas do tempo de sua produo. Na combinao entre ritmos e procedimentos de investigao da era da mquina de escrever eltrica, adotados ento, e as possibilidades atuais que permitem o acesso digital aos mais variados acervos, espero estar contribuindo para o desenvolvimento, o avano e a superao de muitas das questes ali propostas. Na edio do e-book torna-se necessrio, mais uma vez, agradecer a parceria institucional do Arquivo Pblico do Estado de So Paulo e, particularmente, o empenho e trabalho cuidadoso de sua equipe, nas pessoas de Haike Roselane Kleber da Silva, Diretora do Centro de Difuso e Apoio Pesquisa, e aos funcionrios diretamente envolvidos 8 Disponvel em: . 15
  • na edio do livro: Jssica Ferraz Juliano, Srgio Jos Meurer, Vania Silva, Helen Karina Teixeira Batista, Rita de Cssia Higa, Renata Gonalves, Lgia Mrcia Faitarone, Julio Couto Filho, aos funcionrios do Centro de Processamento de Informaes Digitais e do Ncleo de Microfilmagem e Digitalizao. Ao final, no que se refere s relaes entre a pesquisa e as questes da agenda pblica atual, nunca demais reafirmar o diagnstico sobre o processo crescente de concentrao dos meios de comunicao na sociedade brasileira, que se desdobra na formao de poderosos conglomerados miditicos, com enorme poder econmico e poltico, decisivos para o atrofiamento do espao pblico e democrtico. No contexto de disputas emergentes na atual conjuntura de redefinio dos sistemas de comunicao, de rearranjo do controle dos meios e das lutas pela democratizao da comunicao, a inteno ao retomar o estudo sobre a dinmica das lutas e dos embates travados na e pela imprensa em outro momento histrico a de contribuir para a ampliao de tradies de pesquisa que caracterizam a imprensa como um lugar fundamental na articulao de projetos, na afirmao de memrias e na construo de sentidos e de realidades sociais. Esta tambm uma forma de renovar meus compromissos com muitos daqueles homens e mulheres que, num contexto de emergncia da imprensa moderna em So Paulo, muito diferente do nosso tempo, ao produzir jornais e revistas, j assumiam inmeras disputas pela ampliao da liberdade de imprensa, do direito informao e da liberdade de expresso dos cidados na sociedade brasileira. 16
  • SUMRIO APRESENTAO 19 INTRODUO 21 PARTE I - CULTURA LETRADA E VIDA URBANA 1. CIDADE E CULTURA LETRADA 30 2. O BURGO DOS ESTUDANTES 37 3. SO PAULO VIRA PAULICEIA 43 PARTE II - FOLHAS DA CIDADE 4. TEMPO DAS TIPOGRAFIAS 53 5. SAI AOS DOMINGOS 62 6. OUTRAS FOLHAS 75 PARTE III - A IMPRENSA , A CIDADE E O POVO 7. CIRCUITOS DE DIFUSO: DA DONZELA AO OPERRIO 84 8. AO COMRCIO INTELIGENTE: A IMPRENSA E O MERCADO 93 9. A IMPRENSA E A MENTALIDADE DO POVO 100 CONCLUSES 110 BIBLIOGRAFIA 120 FONTES 128 17
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  • APRESENTAO Nesta verso em e-book preservei o texto original de minha tese de doutorado, que s passou por pequenas modificaes, visando, sobretudo, torn-lo mais acessvel a um nmero maior de leitores. As dificuldades em publicar textos desenvolvidos para titulao so bastante conhecidas da rea e, geralmente, impem defasagens entre o momento da redao original e o da publicao. Tal situao abre para os autores a possibilidade ou de uma corrida para a atualizao reviso de questes, referncias bibliogrficas, etc. , ou a de, na publicao, assumir a datao do texto original. No caso do presente trabalho, julguei por bem assumir totalmente as marcas conjunturais da reflexo desenvolvida na tese, conservando, inclusive, a introduo, que contm referncias extremamente datadas. A mudana do ttulo do trabalho que na tese era Na cidade, sobre a cidade: cultura letrada, periodismo e vida urbana para So Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana - 1890/1915 tem a inteno de sinalizar de forma menos acadmica e mais direta para o leitor o campo central de reflexo do trabalho, chamando ateno para o desenvolvimento das relaes entre periodismo e o viver urbano naquele perodo da histria da cidade. No que diz respeito a essas observaes preliminares, deve-se ainda apontar que no decorrer dos seis anos que separam a defesa da tese da publicao da primeira edio desta obra, as pesquisas sobre a imprensa paulistana e suas interaes no processo de transformao da cidade tiveram um grande desenvolvimento. Desde ento, vieram a pblico vrios estudos sobre diversos jornais e revistas paulistanos daquela poca, diferentes dimenses da problemtica, tais como as relaes entre publicidade, imprensa e sociabilidades urbanas; as redefinies e transformaes da cultura letrada paulista no perodo e os processos de constituio das empresas jornalsticas e suas interaes com o mundo do entretenimento foram objeto de vrias pesquisas na rea. Na minha trajetria acadmica no decorrer desse perodo, atuando na linha de pesquisa Cultura e Cidade, do Programa de Estudos Ps-Graduados em Histria da PUC/SP, desenvolvi outras pesquisas e orientei teses e dissertaes sobre o periodismo e a pequena imprensa cultural e de variedades de So Paulo e de outras cidades do pas nas dcadas iniciais do sculo XX. Na publicao do livro, optei pela citao das referncias desses trabalhos na atualizao da bibliografia geral sem, no entanto, incorporar as contribuies, possveis aprofundamentos e debates que eles propem ao texto original da tese. 19
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  • INTRODUO Outubro de 1993, cenas da cidade letrada na Nao brasileira: no dia 20, em meio crise das denncias de corrupo no Congresso Brasileiro, no horrio nobre, ao vivo e em cores, veiculada pelo telejornal de maior audincia nacional o Jornal Nacional , com o semblante srio e satisfeito, Cid Moreira comea a transmitir a cerimnia de posse do Dr. Roberto Marinho, presidente das Organizaes Globo de Telecomunicaes, na Academia Brasileira de Letras. No recesso de seu lar, o povo brasileiro assiste, numa edio de mais de oito minutos, transmisso da cerimnia extremamente concorrida que empossa Roberto Marinho na cadeira de Otto Lara Resende. Na presena dos lderes da Nao, presidentes de associaes do empresariado, governadores, presidentes das casas legislativas, dos altos tribunais, representantes das artes e da cultura, o novo imortal faz um discurso de homenagem palavra. De fardo, emocionado, Dr. Roberto clama pelo resgate de nossa divisa ordem e progresso. Corta. No dia seguinte, em outra rede de televiso, tambm ao vivo e em cores, entra a mais nova sensao do telejornalismo brasileiro: o Aqui e Agora! Subitamente, estamos assistindo maior confuso, tumultos, quebra-quebra, bombas de gs, cinegrafistas sem cmera. Aps mais de 60 dias de greve, os professores de 1 e 2 graus da rede estadual de ensino do Estado de So Paulo, desesperadamente, buscam uma soluo para um movimento que paralisa quase 200 mil professores e mais de 6 milhes de alunos. Nessa e em outras edies dos telejornais daquele dia sobre a ocupao da Assembleia Legislativa de So Paulo, os professores grevistas so descritos como baderneiros e radicais. As cenas transmitidas pelas principais redes de televiso mostram uma categoria letrada, jovem, empobrecida e desesperada de trabalhadores. Nos dias que se seguem, os professores em movimento e seu sindicato buscam persistentemente aglutinar apoios de outros setores sociais na resoluo da greve. Os diversos grupos da sociedade civil, alunos, pais de alunos, professores do ensino particular e das universidades, sindicatos e movimentos diversos da populao mostram-se apticos e incapazes de articular um apoio efetivo luta dos professores. A questo da escola pblica e do ensino aparece como um problema s deles. Como em outros pontos do pas, uma poltica deliberada de descaso em relao educao impe outra derrota ao movimento dos professores. De certa forma, tais cenas exemplificam o cho social onde cresceram as preocupaes de pesquisa sobre as relaes entre cultura e vida urbana, cujos resultados articulam-se neste trabalho. No ambiente de perplexidade e impotncia colocado por esse presente televisivo, parece urgente refletir sobre o lugar da cultura letrada na instituio de poderes na cidade. Nesta reflexo sobre a natureza da cultura letrada, algumas perguntas pouco 21
  • otimistas intrometem-se. Quais caminhos histricos recriam a Academia Brasileira de Letras como lugar do desejo e da vaidade do velho jornalista e mais poderoso homem de comunicaes do pas? Quais processos e projetos, vitrias e derrotas, pontuam este presente de desesperana da escola pblica brasileira? Como pesquisadora da cidade e da cultura, registro e busco sentidos. As indagaes sobre a importncia histrica de tais processos parecem perdidas numa memria que, dialogando centralmente com as fontes produzidas pelas elites, d continuidade a uma viso de que, enquanto Nao, somos muito pouco afeitos ao mundo letrado. A avaliao sobre os significados sociais dos processos de difuso da cultura letrada em nossa histria parece ter sido ofuscada pela compreenso corrente de que somos, sempre fomos e sempre seremos um pas iletrado. Anlises, diagnsticos e avaliaes sobre a questo compem uma linha reta e contnua, um quase destino, que liga nosso passado colonial, iletrado e atrasado, aos ndices atuais de analfabetismo. O domnio dos cdigos letrados, habilidade fornecida pelos bancos acadmicos, permeia o discurso competente das elites e articula argumentos preconceituosos de desqualificao de lideranas populares. As questes sobre as razes do insucesso de inmeros projetos de alfabetizao e letramento do povo, sobre os fracassos do ensino em seus diversos nveis, sobre a incapacidade de penetrao da imprensa respeitvel nos meios populares so sempre respondidas atravs do padro clssico europeu, em que os processos de familiarizao das sociedades com os cdigos da escrita e da leitura obedecem a outros ritmos e temporalidades. O contato com o mundo acadmico, com as avaliaes das elites sobre os processos de educao do povo, transmite a sensao de que carregamos um enorme complexo civilizatrio. Vozes de um outro momento histrico sugerem outras direes de pesquisa e reflexo sobre os processos de difuso da cultura letrada em nossa sociedade. Desenhando-se no interior deste conjunto de preocupaes e indagaes, o objetivo central deste trabalho refletir sobre as relaes entre cultura e cidade. Mais especificamente, buscou-se perseguir algumas daquelas indagaes no estudo das relaes entre cultura letrada, periodismo e vida urbana no processo inicial de formao da metrpole paulistana. O interesse pelo estudo das relaes entre cultura e cidade nasceu de reflexes sobre a prtica profissional do ensino/pesquisa em torno da Histria Social. Na base da definio de uma problemtica que pe em questo a natureza das relaes entre cultura(s) de elite(s) e cultura(s) popular(es) na experincia social da cidade de So Paulo, entre os anos de 1890 e 1915, firma-se a avaliao sobre a importncia das dimenses culturais dos processos de dominao e resistncia na contemporaneidade. Como pesquisadora, a vivncia como professora de uma escola pblica excludente e autoritria, a formao e a militncia intelectual num universo acadmico empobrecido pelo crescente distanciamento em relao s questes que envolvem a gente comum, a sensaco de impotncia frente fora hegemnica dos meios de comunicao de massa nos processos de formao da mentalidade popular misturaram-se e compuseram um leque de preocupaes que orientaram a leitura daquela experincia histrica. De certa forma, a cultura letrada parecia tambm propor um caminho de autorreflexo, aproximando o pesquisador do sujeito histrico. A cidade a companheira mais antiga. Nelas, nas grandes, vivi e me formei. Nelas, desembocaram minhas preocupaes de pesquisa. Em certa medida, a opo por pesqui- 22
  • sar questes da cidade articula a avaliao terica da importncia do espao e da experincia social urbana na histria contempornea em busca de compreenso do prprio espao de vivncia e formao. O ritmo da vida na cidade grande, sua capacidade de fascinar e intimidar, seu ambiente mais alerta, a complexidade e a densidade dos encontros e desencontros que ela promove sempre me atraram mais do que as vivncias e os ritmos mais sincopados do campo. No caminho da reflexo, a pesquisa sobre a experincia social dos trabalhadores em servios na cidade de So Paulo no incio do sculo XX, desenvolvida no trabalho de mestrado, colocou-me em contato com um momento privilegiado de formulao e construo de modos de viver urbanos (CRUZ,1991). Mesmo dentro da perspectiva mais delimitada da histria do trabalho, que ento adotei, a cada momento da pesquisa e da reflexo, o estudo das lutas e embates de trabalhadores, tais como condutores e motorneiros, lixeiros, cocheiros, carregadores, etc., remetia a um processo intenso de transformao da vida urbana. Ali, o dilogo com inmeras leituras e escritas sobre o viver urbano sugeriam um processo intenso de aprendizagem e experimentao social. As transformaes da cidade, que tinham seu lado mais visvel na transformao e ocupao dos espaos do planalto de Piratininga ocasionadas pela exploso demogrfica resultante da incorporao de novos e diferentes grupos populacionais, sugeriam tambm um processo dinmico de constituio/redefinio das relaes culturais. Num primeiro momento, as articulaes entre a cultura letrada e o viver urbano tiveram como ponto de partida as reflexes e questes suscitadas pelo trabalho com a imprensa paulistana das primeiras dcadas do sculo XX, particularmente a pequena imprensa das folhas e revistas ilustradas. A identificao e referenciao dessas fontes, levadas a cabo em um projeto que visou produzir um guia de pesquisa sobre a imprensa peridica paulistana do fim do sculo XIX s primeiras dcadas do sculo XX, colocou-me diante de um processo de expanso/transformao da imprensa, do qual indagava o significado social1. O contato com esses materiais e a identificao de sua crescente articulao com as experincias sociais que constituem a metrpole pareciam propor que a expanso/redefinio da cultura impressa, concretizada principalmente pela expanso da imprensa peridica, constituia-se como dimenso importante daquela experincia social. A partir da ltima dcada do sculo XIX, seja atravs da incorporao das novas formas de produo e representao, seja atravs da construo de temticas e formas de contar, o povo e a cidade intrometem-se nas pginas da imprensa. Assim, ao nos questionarmos sobre os espaos de produo e difuso desses peridicos, a cada instante esbarrvamos com a constituio e/ou transformao das prticas culturais na cidade. A, a belle poque paulistana insinuava-se com toda fora, novas formas de sociabilidade pareciam se impor, jornais e revistas projetavam sobre a cidade as demandas de diferentes grupos sociais e davam visibilidade a um processo acelerado de ocupao/inveno dos espaos pblicos da metrpole em formao. Na reflexo mais 1 O projeto mencionado, desenvolvido sob minha coordenao na PUC/SP, com o apoio do CNPq, teve como objetivo a organizao de um guia sobre a pequena imprensa paulistana no perodo de 1870 a 1930. No desenvolvimento da pesquisa, que examinou mais de 400 colees de peridicos do gnero, foram sitematizadas referncias para cada uma das colees, que constituram a base da publicao por mim organizada. Cf. CRUZ (1997). 23
  • especfica sobre as relaes entre cultura letrada e vida urbana no perodo, a imprensa, constituindo-se enquanto um dos espaos de gestao e manifestao de novas significaes e projetos sociais, apresentava-se como suporte documental fundamental. O prprio movimento de expanso da imprensa peridica, o seu fazer-se, mostrava-se como faceta cultural mais importante do processo de formao/transformao da vida urbana. Da tica que ento interrogava tais materiais, destacava-se o fato de que, nas pginas desse conjunto extremamente variado de publicaes, a cultura letrada tecia estreitas articulaes com os projetos e disputas para e pela cidade. Dando visibilidade a inmeros projetos e concepes sobre o viver urbano no perodo, esses peridicos no s sugeriam um percurso onde a cultura letrada avanava sobre terrenos sociais anteriormente alheios ao seu processo de constituio/instituio como desenhavam um campo extremamente dinmico da disputa cultural. Dentre as inmeras possibilidades que a densidade e a riqueza de tais materiais sugeriam, optei por explorar as relaes entre cultura letrada, periodismo e vida urbana. No desenvolvimento da pesquisa, a pequena imprensa cultural e de variedades do perodo transformou-se no principal suporte documental. O trabalho realizado no projeto anterior, que resultou num conjunto de mais de 400 fichas descritivas de pequenas folhas e revistas da poca, tornou possvel o desenvolvimento de uma reflexo mais generalizada sobre o movimento de constituio/transformao dessa imprensa. Sem minimizar a importncia dos trabalhos que se desenvolvem sob a tica da histria da imprensa e dos meios de comunicao, buscou-se, antes, discutir seu processo de constituio no prprio territrio da Histria Social. Portanto, no interior de uma perspectiva que entende a imprensa enquanto prtica social e momento da constituio/instituio dos modos de viver e pensar. O trabalho com a imprensa peridica, a busca de seus nexos e articulaes sociais mais amplos, levou-me ao contato com um conjunto variado de relatos e memrias sobre a vida paulistana no perodo. Atravs dessa documentao, em sua maioria j incorporada pela historiografia brasileira aos estudos desse momento histrico, foi possvel avanar um pouco mais na reflexo sobre os ambientes, prticas e projetos dos grupos letrados, seus vnculos com diversos setores da populao, a formao dos pblicos e as significaes sociais da leitura. Assim, a retomada do contato com a rica imprensa operria do perodo, realizado anteriormente na investigao de mestrado, tambm permitiu ampliar o escopo das indagaes de pesquisa. O aprofundamento da pesquisa em alguns ttulos significativos dessa imprensa, delineando um campo popular letrado mais explcito que o sugerido pelas pequenas folhas e revistas domingueiras, abriu caminhos para o desenvolvimento da discusso sobre as disputas culturais travadas no campo da cultura letrada. Nesse movimento de construo de um campo de pesquisa que articulasse as questes de cultura letrada, periodismo e viver urbano, alm do convvio mais geral com a literatura terica e historiogrfica pertinentes ao tema, deve-se destacar alguns dilogos mais prximos. As reflexes de Angel Rama, em A Cidade das Letras (1985), sobre o papel das elites letradas e o exerccio das linguagens simblicas da cultura na formao das cidades latino-americanas, impulsionaram o encaminhamento de questes surgidas no trabalho com as fontes, articulando a questo urbana ao estudo da escrita e da imprensa. Nessa mesma 24
  • direo, contriburam suas colocaes sobre o lugar fundamental do jornalismo, que arrebatava as cidades, na redefinio do papel das elites letradas na Histria Social latinoamericana a partir do final do sculo XIX. No interior da perspectiva lanada por Rama, era possvel problematizar o periodismo para alm da identificao dos grandes jornais e jornalistas, estudando como prtica que compunha o tecido social urbano. Devo tambm singularizar alguns trabalhos da recente historiografia brasileira, que abordam a temtica da cultura urbana no perodo, sob enfoques e preocupaes diversas. Vale salientar que, na base do dilogo com tais trabalhos est a preocupao comum em pensar as experincias culturais desse perodo, onde o signo da transio, instabilidade, experimentao e novidade indicam uma situao cultural efervescente em funo de suas marcas prprias. Tal posio implica questionar as qualificaes de pr ou ps como explicativas daquela experincia, deslocando sua compreenso para o interior da Histria Social do perodo. Nesse sentido, o debate com o trabalho de Flora Sussekind, Cinematgrafo de Letras (1987), problematizando as relaes entre tcnica, literatura e modernidade no Brasil do incio do sculo XX, abriu interessantes perspectivas sobre as dimenses sociais da escrita e de sua constituio como prtica social. As preocupaes de Foot Hardman (1983) em analisar o processo tenso e contraditrio de contaminao/marginalizao/ redefinio do popular no mbito das relaes culturais no perodo, que atravessam seu trabalho sobre vida operria e cultura anarquista Nem Ptria, Nem Patro , abriram um espao concreto de dilogo com suportes documentais e perspectivas tericas num mesmo campo temtico. O trabalho de Marcos Antnio da Silva, Caricata Repblica: Z Povo e o Brasil (1990), sobre o humor visual em revistas de variedades da poca, contribui para a formulao de questes que articulam o desenvolvimento do periodismo gestao de um esboo da indstria cultural no perodo. Nas discusses, buscou-se incorporar suas preocupaes sobre a necessidade de avaliao desse processo e de suas articulaes s modalidades ideolgicas dominantes na sociedade brasileira da poca 2. A insero dessas preocupaes de pesquisa no interior de uma perspectiva de Histria Social que compreende a cultura enquanto um campo de foras cujo foco central so as relaes entre cultura e hegemonia, como prope Stuart Hall, levaram delimitao de um campo temtico sobre as relaes entre cultura letrada, periodismo e viver urbano. Buscou-se discutir a cidade enquanto espao da cultura letrada, pensando o exerccio da escrita e da leitura como dimenses importantes das culturas urbanas e das relaes de poder na cidade moderna. No campo terico-metodolgico, buscou-se encaminhar o trabalho em direes diversas daquelas que lidam com o estudo das linguagens a partir de noes como reflexo e derivao. Nessa direo, foram fundamentais as reflexes de Raymond Williams (1979) 2 Deve-se apontar que, desde a finalizao desta tese, em 1994, vrios outros estudos, com propostas diferenciadas, tm abordado as relaes entre periodismo e vida urbana na cidade de So Paulo no perodo do final do sculo XIX e incio do sculo XX. E se, devido opo da manuteno da tese em sua redao original, agora no se incorporaram as contribuies desses estudos, vrios dos quais expandem dimenses do tema aqui somente esboadas ou mesmo que propem discusses com teses aqui defendidas, buscou-se, ao menos, cit-los na bibliografia geral do livro. 25
  • sobre a materialidade dos fenmenos da linguagem. Do dilogo com suas proposies, emerge a perspectiva de que pensar as linguagens enquanto atividade significa buscar desvendar os processos e prticas sociais que articulam sua constituio/instituio em um momento histrico determinado. Na reflexo sobre as relaes entre a(s) cultura(s) de elite(s) e a(s) cultura(s) popular(es), a escrita foi compreendida como dimenso da experincia social que, enquanto espao privilegiado da linguagem dos grupos dominantes, se constitui em permanente tenso com outros espaos da linguagem dos grupos dominados. (SILVA, 1986). Ao adentrar o universo das discusses sobre a natureza das relaes entre cultura de elite e cultura popular, encontrei-me diante de questes e escolhas bastante delicadas. De que forma assumir no interior da pesquisa e da reflexo noes to fludas e ao mesmo tempo to marcadas por movimentos histricos e tradies tericas como as de povo e popular? (FENELON, 1992). Atravs de quais ngulos pode-se articular as noes de povo e popular s relaes de classe, assumindo minhas preocupaes centrais como historiadora sobre os sentidos e direes das lutas, sem cair, conforme alerta Fenelon, na armadilha que, constituindo dois campos isolados, o hegemnico e o autntico, obscurece a vitalidade da cultura como experincia vivida no sentido de um duplo movimento de conteno e resistncia que ela carrega? No caso especfico deste trabalho, como evitar que a definio do prprio terreno da pesquisa, a cultura letrada, marcado e delineado pela forte presena das elites dominantes, exclua a disputa e seja percebido apenas enquanto espao de produo da homogeneizao e da manipulao cultural? De formulao necessria, por vezes delineando um espao de hesitaes e dificuldades para o trabalho concreto de anlise das fontes, este conjunto de perspectivas e questes coloca-se muito mais como um horizonte de preocupaes do que a promessa de um roteiro a ser cumprido. Adotando a viso de que tais questionamentos no encontram resoluo no plano meramente conceitual, buscou-se encaminh-los na discusso das diferentes concepes, projetos e prticas identificados no processo de pesquisa. Em sua redao final, o texto est organizado em trs partes, cada uma composta por captulos menores, que se articulam em torno de uma temtica central. A primeira parte Cultura letrada e vida urbana busca discutir a historicidade das relaes entre a cultura letrada e os modos de viver urbanos. O captulo 1 Cidade e cultura letrada delineia o universo de pesquisa no qual se inserem as preocupaes sobre a cultura letrada e identifica questes gerais sobre o estudo da temtica na histria do Brasil. O captulo 2 O burgo dos estudantes procura refletir sobre a natureza da vida urbana e da cultura letrada na cidade de So Paulo no perodo anterior ao final do sculo XIX. O captulo 3 So Paulo vira Pauliceia busca caracterizar o ambiente da metrpole em formao, a progressiva articulao dos cdigos da escrita e da leitura constituio dos modos de viver e pensar a cidade e a relevncia da difuso da cultura impressa nesse processo. A segunda parte do trabalho Folhas da cidade , centrada no exame dos diferentes gneros de publicaes, procura refletir sobre os caminhos e a natureza social do processo de expanso da imprensa peridica. O captulo 4 Tempo das tipografias examina o processo de expanso e diversificao dos materiais impressos no perodo estudado. O ca- 26
  • ptulo 5 Sai aos domingos trata da formao de uma imprensa ligada ao entretenimento, buscando explorar suas articulaes com o processo de afirmao de novas linguagens e formas de sociabilidade urbanas. O captulo 6 Outras folhas discute as articulaes de outros gneros da pequena imprensa, tais como jornais de bairro e da imprensa operria, no processo de expanso e ampliao social da imprensa peridica. A terceira parte da tese A imprensa, a cidade e o povo procura explorar algumas das direes de reflexo apontadas pelo material pesquisado sobre a expanso da cultura letrada, via imprensa peridica, para alm dos crculos das elites paulistanas tradicionais. O captulo 7 Circuitos de difuso: da donzela ao operrio encaminha indagaes sobre a amplitude e a natureza social dos circuitos de difuso e sentidos da leitura das publicaes peridicas naquele momento histrico. O captulo 8 Ao comrcio inteligente: a imprensa e o mercado , privilegiando a anlise das publicaes comerciais e do reclame, busca discutir as relaes entre cidade, mercado e o periodismo. Finalmente, o captulo 9 A imprensa e a mentalidade do povo persegue indicaes sobre os processos de disputa travados no interior do movimento de expanso da cultura impressa no perodo. 27
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  • 29 A escrita, que tinha encontrado asilo no livro impresso, onde levava sua existncia autnoma, inexoravelmente arrastada para a rua pela propaganda e submetida s brutais heteronomias do caos econmico. Eis a rigorosa escola de sua forma nova. Se h sculos, ela havia pouco a pouco comeado a deitar-se, da inscrio vertical ao manuscrito repousando inclinado na escrivaninha, para finalmente acamar-se no livro impresso, ela comea agora reeguer-se gradualmente do cho. O jornal j lido mais na vertical do que na horizontal, cinema e propaganda acabam impondo escrita a verticalidade ditatorial. [...] Nuvens de gafanhotos de escrita, que hoje em dia tapam o sol do suposto esprito dos habitantes das grandes cidades, tornar-se-o mais densas a cada ano que passa. Rua de Mo nica. Walter Benjamin.
  • 1. CIDADE E CULTURA LETRADA O olho no v coisas, mas imagens de coisas que significam outras coisas As Cidades Invisveis. Italo Calvino. As prticas letradas e, particularmente, a escrita e a leitura constituem dimenses importantes das relaes culturais na cidade. Como coloca Marcel Roncayolo (1985), na tradio clssica da Europa a cidade aparece como o lugar da cultura, nomeadamente da cultura escrita. Lewis Munford (1965) indica que a inveno de formas, tais como o registro escrito, a biblioteca, o arquivo, a escola e as universidades, constitui um dos feitos mais antigos e mais caractersticos da cidade. Em diversos momentos histricos, em relaes sociais diferentes, a escrita e a leitura mediaram os vnculos dos habitantes das cidades. As tenses e articulaes entre a cultura letrada, campo privilegiado de expresso das elites, e a oralidade constituem dimenso fundamental da formao das culturas urbanas e das relaes de poder na cidade moderna. Na historiografia contempornea, conforme observa Robert Darnton(1990) em seu estudo sobre mdia, cultura e revoluo, as relaes entre escrita e oralidade, cultura letrada e cultura popular tm sido progressivamente valorizadas enquanto dimenses importantes para a compreenso da experincia moderna. Num movimento em que a histria social avana sobre campos mais tradicionais, como a histria intelectual ou histria social das ideias, os estudos de movimentos, correntes, prticas e produtos culturais tm assumido novos significados e indagaes. Na verdade, uma grande variedade de estudos, como os de Natalie Zemon Davis (1990), Peter Burke (1989), E. P. Thompson (1979, 1991), Raymond Williams (1989), Carlo Ginsburg (1987), Roger Chartier (1987, 1990) e Robert Darnton (1990, 1992), entre outros, com dilogos e enfoques tericos variados, tem colocado a cultura no centro das reflexes historiogrficas recentes. Nos ltimos anos, como assinala Lynn Hunt, [...] os prprios modelos de explicao que contriburam de forma mais significativa para a ascenso da histria social passaram por uma importante mudana de nfase a partir do interesse cada vez maior, tanto dos marxistas quanto dos adeptos dos Annales, pela histria da cultura. (1992, p. 6). 30
  • Presentes nos trabalhos de inmeros historiadores da atualidade, noes como as de mediaes culturais e morais e experincia social, de extrao thompsoniana; de mentalidade, oriunda da prtica histrica da chamada terceira gerao dos Annales; da cultura como processo instituinte, conforme prope Raymond Williams; de habitus como estrutura que organiza a percepo, elaborada por Pierre Bourdieu expressando a diversidade de abordagens e compreenses terico-metodolgicas sobre as relaes entre os modos de viver e pensar, revelam, sem dvida, a nfase da discusso sobre o terreno da cultura.1 Nessa literatura, temas como o impacto cultural da Reforma, a criao das culturas urbanas e suas relaes com os ambientes rurais, as experincias culturais das revolues burguesas, os processos de moralizao dos pobres no perodo da Revoluo Industrial, os usos sociais da imprensa e as transformaes nas modalidades culturais de dominao e resistncia nas sociedades industriais so analisados sob perspectivas e ngulos diversos. Nesse campo de reflexes, as investigaes sobre a progresso das prticas da escrita e da leitura na Europa moderna tm se constitudo em um eixo extremamente profcuo. O ingresso das sociedades ocidentais na cultura da escrita, o desenvolvimento da cultura impressa, os progressos da alfabetizao e a descoberta de que nos pases reformados ou nas naes catlicas, nas cidades e nos campos, no Velho e no Novo Mundo a familiaridade com a escrita progride, dotando as populaes de competncias culturais que antes constituam o apangio de uma minoria, tm se constitudo como base de problemticas de inmeras investigaes. (CHARTIER, 1991, p. 116). No mbito deste trabalho, interessa principalmente destacar que as articulaes entre vida urbana e cultura letrada, a difuso e penetrao da cultura impressa sobre as parcelas iletradas da sociedade, processo longo na experincia histrica da Europa moderna, que como coloca Peter Burke entre os sculos XVI e XIX solapa a cultura oral tradicional [...], constitui-se em objeto de trabalho de inmeros desses estudos. (BURKE, 1989, p. 17). Na formao do mundo contemporneo, destacam-se os estudos sobre as relaes entre cultura e modernidade. A, as cidades metrpoles, cidades cosmopolitas como Paris, Londres, Viena, Nova York, etc., emergem como locus privilegiado das investigaes. Nesses espaos, a historiografia busca refletir sobre a emergncia de novos modos de viver e novas formas de sensibilidade. O clima cultural e intelectual das metrpoles em formao desdobra-se em inmeros objetos e temticas, como a cidade se constituindo em espao da multido, as transformaes da esfera pblica e a construo das linguagens e do cenrio da cidade moderna.2 Em tais universos, a cultura letrada transforma-se, e a escrita, articulada s novas linguagens como a fotografia, o cinema e a propaganda, invade os espaos pblicos. 1 Essa diversidade de enfoques e abordagens que permeia a Histria da Cultura na atualidade pode ser percebida, entre outros, atravs dos trabalhos de THOMPSON (1981); VOVELLE (1987); LE GOFF (1990); WILLIAMS (1979); BOURDIEU (1987). 2 Alguns exemplos dessa bibliografia sobre a cidade comtempornea e temas correlatos que, recentemente, tm se tornado mais familiares em nossas discusses so: GAY (1978); SENNET (1988); SCHORSKE (1988); LIPOVETSKY (1989); HOLSON (1993). 31
  • Nessa conjuntura, a difuso e a popularizao da cultura letrada por meio de processos como a escolarizao massiva, o desenvolvimento da linguagem comercial da propaganda e a formao de uma imprensa comercial colocam-se como questes importantes para a compreenso das novas redes de comunicao social na metrpole e das relaes de poder a emergentes. Tais estudos e suas perspectivas constituem o universo mais amplo de dilogo historiogrfico desse trabalho. No entanto, como adverte o prprio Burke, a multiplicao de monografias e discusses sobre os temas da cultura fora da Europa, ao mesmo tempo que contribuem para uma reflexo mais generalizada sobre a cultura moderna, tambm [...] definem por contraste o que especificamente europeu e revelam os pontos fortes e fracos de conceitos fundamentais, ao test-los em situaes para as quais no foram originalmente criados [...]. (1989, p. 17). Lograr estabelecer um dilogo criativo e crtico com essa literatura, que problematiza a cultura letrada na tradio clssica europeia dos sculos XVI ao XX, pensando a experincia histrica da Amrica em suas diferentes fases e processos, como articulada aos centros hegemnicos, sem transform-la em modelo terico acabado, um dos desafios deste trabalho. No Brasil, assim como em todo o Novo Continente, as relaes culturais se constituem segundo processos e temporalidades diversos dos do padro clssico europeu. Na reflexo sobre a vida cultural no continente americano, outras periodizaes, temticas e perspectivas emergem. Carente de estudos monogrficos na rea da cultura, o perodo colonial, mais do que qualquer outro momento de nossa histria, apresenta-se como chave de uma herana a ser decifrada. Da leitura de inmeros estudos relacionados temtica das culturas de elite e das prticas letradas, bem como desta pesquisa, fica a impresso de que os parmetros se perdem quando nos encontramos fora do espao do Estado-nao. As interdies metropolitanas ao desenvolvimento das artes grficas na colnia, que provocam a chegada tardia de Gutemberg ao Brasil, transformam a cultura impressa num fenmeno novidadeiro em pleno sculo XIX.3 No espao da Amrica Ibrica, as relaes entre cultura letrada e vida urbana integram uma dimenso da conquista e da colonizao. Aqui, parece instigante pensar, como prope Angel Rama, que a Amrica foi espao pioneiro de experimentao da cultura barroca, e a cidade colonial, livre das heranas da cidade medieval, constitui-se enquanto espao privilegiado do exerccio do saber barroco. Entendendo a cidade colonial como parte do aparato construdo pela dominao metropolitana, o autor coloca que, embora o campo e as grandes propriedades rurais se 3 interessante destacar que esse carter novidadeiro da imprensa e de outras instituies letradas um fenmeno da colonizao portuguesa, j que na Amrica Espanhola as universidades e a imprensa so instituies que vm se afirmando desde os sculos XVI e XVII. Como aponta Srgio Buarque de Holanda, na Amrica Espanhola universidades como as de So Domingos (1538), do Mxico (1551) e de So Marcos, em Lima (1571), so criadas j no sculo XVI. Assim tambm acontece com a imprensa e o mesmo autor nos informa que, por volta de 1747, ano em que aparece no Rio de Janeiro, para logo depois ser fechada, por ordem real, a oficina de Antnio Isidoro da Fonseca, [...] em todas as principais cidades da Amrica Espanhola existiam estabelecimentos grficos. (HOLANDA, 1963, p. 119). 32
  • projetem sobre os ncleos urbanos, estes so a sede do poder metropolitano e neles reinam as ordenaes e as instrues ultramarinas. Refletindo sobre o papel da cidade nas colnias ibero-americanas, o autor prope que: A cidade bastio, a cidade porto, a cidade pioneira das fronteiras civilizadoras, mas sobretudo a cidade sede administrativa que foi a que fixou a norma da cidade barroca, constituram a parte visvel e sensvel da ordem colonizadora, [...] mas dentro delas sempre houve outra cidade, no menos amuralhada, e no menos porm mais agressiva e redentorista, que a regeu e conduziu [...] [que] devemos chamar de cidade letrada [e] que compunha o anel protetor do poder e executor de suas ordens: uma pliade de religiosos, administradores, educadores, profissionais, escritores e mltiplos servidores intelectuais. (RAMA, 1985, p. 29-42). s principais cidades coloniais, como Lima, Mxico, Salvador e Rio de Janeiro, competia dominar e civilizar seu contorno, o que primeiro se chamou evangelizar e depois educar. No clima beligerante da Contra-Reforma, por meio da Companhia de Jesus, de outras ordens religiosas e da Inquisio, das procisses e das festas sacras, do aprendizado dos falares nativos, do combate s prticas culturais dos povos africanos escravizados, monopolizando e sacralizando a escrita e apropriando-se da oralidade das culturas confrontadas, a cidade letrada dominaria vastas multides plurilingusticas e analfabetas. No Brasil, como apontam as discusses de linguistas e estudiosos da cultura, tal processo civilizatrio de produo da unidade lingustica que impe a norma culta portuguesa, realizada atravs da represso etnocida dos falares nativos e da imposio da solido tnica e lingustica aos grupos africanos, tambm recebe o nome de processo de assimilao cultural.4 Mais do que em terras espanholas, onde algumas importantes instituies letradas como as universidades tm suas origens j no sculo XVI, no Brasil a articulao social da grande propriedade, do escravismo e do catolicismo, definiu os estreitos limites de desenvolvimento da cultura letrada. A cidade letrada obedece dinmica da colonizao, movendo-se com o aparato administrativo metropolitano, estabelecendo-se nos centros de governo. O processo civilizatrio mais geral fica a cargo das diversas ordens religiosas, que, integrando a cidade letrada, do conta de sua reproduo e articulao com as culturas orais. At a segunda metade do sculo XVIII, quando se inicia um lento processo de laicizao, mesmo nos centros culturais mais importantes da colnia, as poucas atividades letradas so domnio quase que exclusivo da Igreja. So os franciscanos, beneditinos, carmelitas, mas principalmente os jesutas que, desde a metade do sculo XVI, instituem os primeiros empreendimentos colonizadores na rea da instruo. Nos sculos XVII e XVIII, a Companhia de Jesus, alimentada pela redzima, taxa especial sobre os dzimos e direitos da Coroa Portuguesa estabelecida por D. Sebastio em 1564, e tendo como padro mximo o Real Colgio de Artes de Coimbra, fundaria colgios de norte a sul da colnia portuguesa.5 4 Tais temas so tratados de forma interessante nos artigos de ROSSI (1980) e HOUAISS (1980), publicados na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, So Paulo. 5 Durante esse perodo, os inacianos fundariam instituies no Maranho (1605), em Recife (1619), Alcntara (1716), Colnia de Sacramento (1723), Vigia (1731), Paranagu (1738) e Desterro 33
  • Organizadas enquanto escolas de estudos menores e, primordialmente, casas de formao sacerdotal, as instituies religiosas eram praticamente os nicos locais de aprendizado sistemtico das letras no espao colonial. Instruir era pr-condio para a evangelizao, esta sim capaz de, atravs da oralidade, dos sermes, do plpito e da catequese, dar conta da integrao cultural da colnia. Alis, Alfredo Bosi, no interessante estudo sobre a cultura colonial, chama a ateno para a complexidade desse processo de integrao com as culturas orais nativas, que, segundo o autor, no se opera atravs da linguagem importada do colonizador europeu e requer toda uma ao inventiva dos jesutas no aprendizado dos falares indgenas. (BOSI, 1992, p. 11-63). Diferentemente da experincia histrica europeia e da Amrica Inglesa, onde, em graus diferenciados, as igrejas protestantes reformadas tm na leitura da Bblia, dos catecismos e nas escolas dominicais importantes instrumentos de evangelizao, na Amrica Ibrica impe-se a tradio catlica, na qual o acesso leitura da palavra divina, nos textos sagrados, privilgio dos homens santos. Como indicam trabalhos de Roger Chartier sobre a difuso das prticas da escrita na sociedade moderna, e os de E. P. Thompson sobre o papel do metodismo e das escolas dominicais na formao da classe trabalhadora inglesa, a leitura da Bblia, praticada pelas igrejas protestantes, foi um fator importante no avano do processo de letramento das camadas populares tanto na Europa como na Amrica do Norte.6 Nesse espao de hegemonia do catolicismo, as bibliotecas s existiam nos mosteiros e nos colgios e no em casas particulares ou outras instituies. Conforme Werneck Sodr (1977, p. 14), o livro, instrumento hertico [...] visto sempre com extrema desconfiana, s era natural na mo dos religiosos e at aceito apenas como peculiar ao seu ofcio, e a nenhum outro. Os quadros intelectuais, os homens que escrevem na colnia, formados em Portugal, ou formados portuguesa, tm sua atividade voltada para as tarefas administrativas ou religiosas. Nessa sociedade, como diria Lobato (1919, p. 27-28), o feitor embaixo deslombava negros; a mucama no meio educava as meninas brancas; no alto uma boa inteno de chambre lia os Vedas no original. Nas formas de escrita, sobressaem-se os sermes, os relatrios, as peas de catequese que tm no auditrio da igreja e nos pequenos saraus seu pblico e, no curso oral boca pequena, seu principal meio de divulgao. (HOLANDA, 1968, p. 91-105). No mbito da reflexo sobre as relaes entre cultura letrada e hegemonia, torna-se importante salientar que, no ambiente colonial, a escrita e a leitura so cdigos simblicos restritos a alguns setores das classes dominantes e, apesar de seu papel preponderante na empresa colonizadora, no cotidiano das relaes de dominao prevaleceria, alm da violncia aberta, a oralidade e seus instrumentos simblicos, principalmente os religiosos. De acordo com Alfredo Bosi, (1751). Um estudo sobre a natureza dessas instituies encontra-se no artigo de Laerte Ramos de Carvalho (1972, p. 138-144). 6 Embora no esteja no escopo deste trabalho aprofundar tal discusso, torna-se importante destacar que a questo sobre o peso dessa tradio catlica, que sacraliza a escrita, na reproduo do analfabetismo e das formas extremamente elitistas da cultura escrita em nossa formao histrica, permanece como relevante para compreenso das modalidades de dominao cultural em nossa sociedade. Ver THOMPSON (1987, p. 225-288) e CHARTIER (1991). Ver tambm a coletnea Les Usages de L Imprim. Paris: Fayard, 1987, organizada pelo mesmo autor. 34
  • [...] a cultura letrada rigorosamente estamental, no dando azo mobilidade vertical, a no ser em raros casos de apadrinhamento que confirmam a regra geral. O domnio do alfabeto, reservado a poucos, serve como divisor de guas entre a cultura oficial e a vida popular. O cotidiano colonial-popular se organizou e reproduziu sob o limiar da escrita. (BOSI, 1992, p. 25). No que diz respeito vida urbana, deve-se destacar que apesar da importncia estratgica para a empresa colonizadora de centros urbanos como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, eles constituem excees num universo predominantemente agrrio. Como ironizava Lobato (1919, p. 21), at a petecada napolenica, que bota o rei para c trazendo malas repletas do cosmopolitismo europeu, o provincianismo estendia-se pela colnia. No decorrer do sculo XIX, no processo de formao do Estado nacional, a cidade letrada ganharia novas dimenses. Os esforos na elaborao de corpo de leis, de cdigos, de uma literatura nacional so dimenses importantes desse processo. O deslocamento da corte portuguesa, o desenvolvimento das atividades comerciais e o processo de independncia colocam novas condies para o desenvolvimento da vida urbana e da cultura letrada. Agora, torna-se necessrio no somente formar instituies e quadros para a nascente Nao, mas, sobretudo, ampliar e atingir o circuito de cidados que participam da construo da cultura. Durante esse perodo, alm da criao de inmeras instituies que comeariam a compor uma burocracia administrativa autnoma, tais como o Errio Rgio (1808), a Imprensa Rgia (1808), o Banco do Brasil (1808) e o Supremo Tribunal de Justia (1828), entre outros, organizam-se tambm escolas superiores em vrios ncleos urbanos: a Academia Militar (Rio de Janeiro, 1811), a Academia de Belas Artes (Rio de Janeiro, 1813), as academias jurdicas (Recife e So Paulo, 1927), os cursos de medicina (Rio de Janeiro, 1813; Bahia, 1815) e a Escola de Minas de Ouro Preto (1832/1875).7 Instituies de ensino passam tambm a se articular ao universo mais cotidiano da produo. Como aponta Jos Carlos Barreiro (1987), entre as propostas do Congresso Agrcola de 1878 para organizar e disciplinar o trabalho estavam a criao de escolas que formassem profissionais especializados para a direo dos estabelecimentos agrcolas, a criao de uma corporao de professores ambulantes para percorrer os campos e dar educao s populaes dispersas e a fundao de escolas dominicais, dirigidas por procos bem pagos, nas freguesias onde no chegasse a instruo primria oficial.8 Em ritmos diferenciados, em vrios centros urbanos do Imprio, atividades ligadas cultura letrada, tais como academias, bibliotecas, gabinetes de leitura e livrarias, comeam a se estruturar. Escolas dominicais, professores ambulantes e formao de estabelecimentos de ensino agrcola passam a compor o universo de propostas dos proprietrios agrcolas. Livre das interdies coloniais e com as mnimas condies tcnicas, a imprensa ensaia seus primeiros passos. Para as elites letradas, coloca-se a tarefa de construo acelerada das instituies e prticas letradas da modernidade. 7 Aqui, deve-se ressaltar que embora a Escola de Minas s tenha sido instituda em 1875, sua criao j proposta em lei da Regncia em 1832. Ver CARVALHO (1978). 8 interessante destacar que as reflexes do autor sobre as propostas do Congresso Agrcola j apontam para a gestao de novas articulaes de instituies como a Igreja e a escola no interior das relaes de dominao no sculo XIX. Ver BARREIRO (1987, p. 131-149). 35
  • Seria principalmente nas ltimas dcadas do sculo XIX, surpreendida pela turbulncia das transformaes sociais, que a cultura letrada e impressa comearia decididamente a avanar para alm das elites tradicionais. Nessa poca, em ritmo acelerado, no compasso de um modo de vida que exporta capitais e invade rapidamente inmeros espaos do planeta, a histria da formao das metrpoles brasileiras multiplica o tempo e a experincia social. O tempo se condensa. As grandes transformaes econmicas, polticas e sociais (a abolio da escravido, a proclamao da Repblica, os processos de industrializao, a ampliao acelerada do mercado interno, a imigrao massiva) lanam algumas cidades brasileiras num acelerado processo de urbanizao. Agitada por novas formas de viver e de pensar, novas situaes e projetos sociais, questionada pela emergncia das linguagens da modernidade e de projetos de contestao sociedade burguesa, a cidade letrada, ainda moldada nas tradies elitistas da colnia, enfrentaria inmeros embates e desafios. 36
  • 2. O BURGO DOS ESTUDANTES A escola do Largo de So Francisco era o simples bastio colonial destinado a transmitir s geraes dominantes o vrus do Direito Justiniano, trazido para a livre Amrica pela reao portuguesa. [...] Eu sentia o enorme antagonismo que separava disso meu instinto de homem livre. Um Homem sem Profisso. Oswald de Andrade. Na So Paulo de Piratininga, como na grande maioria das vilas e povoados coloniais, a cultura letrada tem espao extremamente reduzido. Nos relatos da maioria de seus visitantes ilustres, viajantes estrangeiros, missionrios e visitadores da Companhia de Jesus, os elogios exuberncia do planalto e da paisagem dos campos e prados que rodeavam o tringulo central contrastam com as avaliaes sobre o estado de progresso da vila. Os relatos sobre a vida do povoado nos sculos iniciais da colonizao so repletos de descries buclicas. Nessas imagens, as paisagens rurais avanam sobre o espao urbano, os costumes rurais sobre a vida da vila; os modos pacatos e provincianos de suas gentes ganham destaque. Na vora brasileira, formosura de ver1, destacam-se as campinas de terras frteis e abastadas, os campos e prados banhados por pequenos rios, os quintais e chcaras que embelezam os arredores. Sua populao, gente do campo, descrita como recatada, empreendedora, de hbitos frugais e vida sem luxo. Tendo como base mais ampla o gado e a produo agrcola de algodo, acar, marmelo, etc., das fazendas dos vrios pontos da capitania, a vila, no dizer de Morse, constitui-se at o final do sculo XVIII num modesto entreposto (MORSE, 1970, p. 33). Nas imagens do Baro de Paranapiacaba, por volta de 1839, o dia a dia da pequena cidade, quase aldeia, de mbito acanhado e de ruas pouco extensas, estreitas e tortuosas, onde [...] as gentis paulistas faziam milagres de equilbrio para conservarem o seu gracioso porte e mgico meneio, s era animado pelas vrias negociaes das quais viviam seus habitantes, realizadas principalmente nas ruas da Quitanda e das Casinhas (BRUNO, 1981, p. 60). Segundo enfatizam vrios estudos sobre o perodo, a vida citadina tinha continuidade principalmente devido [...] s exigentes tradies ibricas de observncia religiosa e responsabilidade cvica. A cidade s era ocupada pelos homens bons e suas famlias, que 1 Tal expresso de Cardim consta de um trecho dos Tratados da Terra e Gente do Brasil (p. 312315), selecionado e publicado na coletnea organizada por BRUNO (1981, p. 16). importante destacar que recorri a essa mesma coletnea, organizada basicamente a partir de obras anteriores, de viajantes e moradores ilustres, em vrios momentos deste texto. 37
  • se deslocavam de suas moradias rurais para os sobrados urbanos nas pocas de procisses e festas religiosas (MORSE, 1970, p. 30-31). Segundo Ana Luiza Martins, em seu trabalho sobre os Gabinetes de Leitura em So Paulo, [...] a cidade comparecia como mero centro administrativo, prestando-se a encenaes do poder religioso, s procisses e festas religiosas, e nela, a praa pblica [...] pouco permitia como local de convvio e lazer, acentuando a distncia que separava os reduzidos grupos que transitavam na rea do permetro urbano. (MARTINS, 1990, p. 134). A cidade no sculo XVIII adquire aquela feio barroca da qual falava Rama. Alis, torna-se importante salientar que apesar das escassas e pouco favorveis avaliaes sobre a vida cultural da cidade, a maioria dos viajantes impressionava-se com a suntuosidade e com o nvel de participao e agitao que as festas religiosas traziam para ela. A descrio dos inmeros lugares de devoo, das solenes e suntuosas procisses religiosas, do carter pitoresco e animado das festas do Divino uma constante nessas fontes. Nos mesmos documentos, em sua maioria relatos, memrias e trabalhos historiogrficos sobre a vida paulistana na Colnia e no incio do Imprio, as referncias presena de atividades e prticas letradas alm das do colgio dos jesutas so extremamente escassas. As primeiras referncias s aparecem no incio do sculo XIX. Assim, Beyer, em ligeiras notas de viagem do Rio de Janeiro Capitania de So Paulo (1813) nos fala que o clero da cidade tem princpios liberais e que o bispo um homem de mritos literrios, que fez vrias viagens Europa e muito tem contribudo para a tolerncia e o esclarecimento que se notam nessa capital; no entanto, o corpo mdico pequeno, tanto em nmero como em conhecimentos. Mawe, em viagens ao interior do Brasil (1818), nos informa que a educao das graciosas senhoras paulistas se restringe a conhecimentos superficiais e os homens de alta categoria so muito loquazes e propensos jovialidade. Na sua passagem pela cidade em 1819, relatada em Viagem pelo Brasil, Von Martius visita a biblioteca do venerando bispo, a nica biblioteca da cidade alm da do Convento dos Carmelitas. Da descrio de profisses tiradas por Affonso de Freitas do alistamento censitrio de 1822, pode-se inferir que o total de almas da elite letrada paulistana no era muito maior que a soma dos 7 mdicos e cirurgies-mores, 3 boticrios, 2 advogados, 3 letrados, 3 professores de gramtica, 1 de retrica, 1 de filosofia, 1 de teologia dogmtica, 3 mestres de primeiras letras, 1 tabelio, 4 requerentes, 1 solicitador e 2 meirinhos. (FREITAS, 1955, p. 134-135). Apesar do desenvolvimento da vida econmica e da expanso das relaes mercantis na provncia, a capital de So Paulo, durante parte significativa do sculo XIX, manteve as feies de um grande povoado, tendo seu estatuto de centro urbano mais importante da provncia disputado por outros ncleos, como Santos e Campinas. No entanto, do ponto de vista da organizao da cidade letrada, a fundao da Academia de Direito faria toda a diferena. Embora a indicao de So Paulo como local propcio instalao da Academia de Direito tenha sido assunto polmico na Assembleia Constituinte, interessante notar 38
  • que, para alguns contemporneos, justamente o carter pacato da cidade nas primeiras dcadas do sculo XIX que a recomenda para tal mister.2 Assim, em 1818, D Alincourt destaca que a cidade tem [...] todas as propores para o estabelecimento de uma Universidade: o baixo preo dos gneros, a abundncia deles, a salubridade do ar, a temperatura do clima, as poucas distraes que se oferecem [...] [concluindo que] [...] tudo parece conspirar a referir este a qualquer outro stio para a cultura das letras. (apud BRUNO,1981, p. 32). A abertura da Academia de Direito do Largo de So Francisco, em 1828, transformada em marco fundante da cultura letrada paulistana. Nas memrias das elites, a Faculdade de Direito parte central da alma da cidade. Assim, na publicao lanada pelo jornal O Estado de So Paulo nas comemoraes do 4 centenrio da cidade, prope-se resgatar espaos e personagens fundantes da memria paulista com a participao de inmeros intelectuais paulistanos. A. Almeida Jr. (1954, p. 43), em um artigo sobre a Faculdade de Direito e a cidade, relembra que No se pode celebrar a festa natalcia da Capital sem abrir-se um largo captulo para os fastos de sua Faculdade de Direito [...] que permanece at hoje, renovando-se em sua fisionomia material mas conservando intacta a sua alma. E prossegue: Nos cento e vinte e seis anos, que passaram da sua fundao, a Academia tem vivido indissoluvelmente associada a todas as alegrias, amarguras e glrias da cidade. A verdade que, durante grande parte do sculo XIX, a vida intelectual e letrada paulistana permaneceria totalmente centrada na Academia de Direito. No sem tenses, durante grande parte do sculo XIX a Academia, seja atravs do Ptio das Arcadas, centro de convvio dos estudantes, seja atravs da Sala das Becas, lugar onde cotidianamente se encontram os professores, se constituiria como o centro articulador das elites paulistanas. A, passam a ser formados os doutores-deputados-literatos-jornalistas que compem os quadros da poltica municipal e provincial e do conta de suas articulaes com a Capital. Como ainda coloca Almeida Jnior, [...] foi sempre elevado, no Imprio como na Repblica, o nmero de homens de governo, de legisladores e de lderes partidrios formados sob as Arcadas. A, nas vrias geraes, [formou-se] um patrimnio comum de idias, sentimentos e atitudes, que muito contribui para a vinculao afetiva e intelectual dos que vieram a compor as classes dirigentes do pas. (ALMEIDA JR.,1954, p. 52). Para a Coimbra brasileira vm os filhos das importantes famlias de vrios pontos da provncia, das cidades mineiras e tambm estudantes mais cosmopolitas da capital. De acordo com Morse (1970, p. 98), esse o tempo em que a Igreja comea a perder a liderana intelectual, assumida pelas academias de Direito. 2 Indicaes sobre a discusso da Constituinte a respeito da fundao das academias de Direito podem ser encontradas em ALMEIDA JR. (1954, p. 43-64). Ver tambm SCHWARCZ (1993, p. 141-188). 39
  • A presena dos jovens estudantes e da Academia na cidade se faz sentir de inmeras maneiras. No mbito dos costumes, nos relatos e memrias de poca, os estudantes e as estudantadas ganham destaque. No sculo XIX, com a Academia, os memorialistas finalmente conquistam para as ruas e espaos abertos da cidade um personagem de elite. No cenrio da cidade composto por eles, os estudantes recebem status de ator principal. Nesses relatos, os pontos de encontro, as ruas de repblicas, as arruaas como os roubos de galinhas e porcos, as serenatas, os banhos no Tamanduate misturam-se com os vendedores ambulantes; os encontros de tropeiros, os pontos das lavadeiras e, no muito raro, a agitada vida dos estudantes provoca confrontos com as autoridades locais. Com os estudantes e as estudantadas, a sociedade do vs e das sinhs escondidas assiste e namora, de forma encabulada, transgresso de seus costumes. No discurso desses memorialistas, os estudantes permanecero como um corpo estranho na cidade. No dizer de Bernardo Guimares, em Rosaura, Nessa poca havia entre os estudantes um certo esprito de classe to fortemente pronunciado, que formava deles uma corporao no s respeitada como temida dos futricas, nome que se dava a todo cidado estranho ao corpo acadmico. (GUIMARES apud BRUNO, 1981, p. 64). Na descrio de Zaluar em sua Peregrinao pela Provncia de So Paulo 1860/61 (1953, p. 128-129), Os habitantes da cidade e os cursistas da Academia so dois corpos que no combinam se no produzindo um precipitado monstruoso, mas advertia que se tirassem a Academia de So Paulo, esse grande centro morrerinanimado. Sem lavoura e sem indstrias montadas em grande escala, a capital da provncia deixando de ser o que deixarde existir. O funcionamento do curso jurdico passa a articular outros espaos da cultura letrada, tais como casas livreiras, sociedades literrias, bibliotecas. Da tipografia Imparcial, da Litterria, da Costa Silveira, as primeiras tipografias da cidade, saem jornais polticos e revistas acadmicas que articulam as discusses da elite letrada da provncia e constituem esforos para o estabelecimento da imprensa peridica paulistana. Essas folhas e revistas acadmicas constituram-se nos principais produtos das prticas letradas no perodo. Publicaes como A Crena (1873), peridico redigido por acadmicos, O Tribuno (1873) ou o Labarum, rgo da Associao Litteraria e Scientfica do 1 Ano, animam as discusses polticas e cientficas dos acadmicos e abrem espao para o exerccio da literatura. Assim como as arcadas do Largo de So Francisco, tais publicaes, conhecidas como nossas revistas de cultura, permanecem na memria enquanto marcos fundantes das letras paulistanas. Estruturadas em 4 pginas com 2 colunas cada, em tamanho ofcio ou pouco menores, j no perodo anterior, pequenas folhas como O Farol Paulistano (1827/1832), O Observador Constitucional (1829/1831) e Voz Paulistana (1831) davam voz s correntes liberal e conservadora da provncia, ora na situao, ora na oposio. Revistas como a Revista da Sociedade Filomtica (1833), Revista Mensal de Ensino Filosfico Paulistano (1851) e Ensaios Litterarios do Ateneu Paulistano (1856) viabilizavam as discusses jurdicas, literrias e filosficas dessa elite letrada que se aglutinava em associaes acadmicas. 40