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  • ResumoOrientar os fiis para uma vida santifi-cada e instru-los para uma boa morte foram objetivos muito comuns na lite-ratura religiosa portuguesa do perodo moderno, especialmente aquela divul-gada no sculo XVIII e que se propunha a definir e propagar virtudes morais e comportamentos que garantissem o bem morrer. Nosso objetivo, neste arti-go, o de analisar as orientaes que todo fiel catlico deveria observar como preparao prvia para a morte nas obras Sermo da Misso da quarta tarde da quaresma (1734), Terceiro Instrudo na Virtude (1742) e Mestre da Virtude (1745), produzidas pelo padre domini-cano portugus Joo Franco.Palavras-chave: morte; manual de devo-o; leitura.

    AbstractGuiding believers to a holy life and in-structing them for a good death were very common objectives in Portuguese reli-gious literature in the modern period, specially, the one divulged in the 18th century, and which proposed to define and propagate moral virtues and behav-iors that would guarantee the good death. The goal, in this article, is to analyze the instructions that every Catholic believer was expected to follow as an early prepa-ration for death in the works Sermo da Misso da quarta tarde da quaresma (1734), Terceiro Instrudo na Virtude (1742) and Mestre da Virtude (1745), produced by Portuguese Dominican Fa-ther Joo Franco.Keywords: death; devotion manual; reading.

    * Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Programa de Ps-Graduao em Histria. So Leopoldo, RS, Brasil. ecdfleck@terra.com.br 1

    ** Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Instituto de Cincias Humanas e da Informao, Programa de Ps-Graduao em Histria. Rio Grande, RS, Brasil. maurodillmann@hotmail.com 2

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, 2015

    http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472015v35n70010

    Se viveres como louco, sabes que hs de morrer sem juzo: as orientaes

    para o bem morrer na literatura crist portuguesa do sculo XVIII

    If you live like a madman, know that you will have to die senseless:instructions for a good death in Eighteenth

    Century Portuguese Christian literature

    Eliane Cristina Deckmann Fleck* Mauro Dillmann**

  • Eliane Cristina Deckmann Fleck e Mauro Dillmann

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    No perodo moderno, especialmente entre o sculo XVII e a primeira metade do sculo XVIII, com a solidificao da imprensa, consolidou-se em Portugal a difuso do discurso religioso sobre a boa morte associado liturgia, doutrina e moral da Igreja Catlica, herdeira dos princpios reformistas catlicos do sculo XVI.

    Dentre os objetivos de vrios livros religiosos publicados ao longo do Setecentos no Reino portugus marcadamente catlico estavam os de encarar a dramaticidade da morte, sua certeza absoluta, a irreversibilidade da vida de modo a conduzir o fiel/leitor reflexo sobre a conduo da sua vida, a con-scincia dos seus atos, suas escolhas pessoais e sua possibilidade de garantir a futura salvao de sua alma (Arajo, 1997, p.147).

    A Reforma Catlica,3 no sculo XVI, representou, em mbito religioso, um impulso espiritual catlico, um novo movimento de misticismo, de evan-gelismo e de caridade que estimulava a fundao de ordens regulares,4 a vasta propaganda das aes positivas da Igreja, a consolidao de cultos mais elab-orados a santos e, por fim, a instruo do laicado, incluindo a a publicao, por parte de religiosos, de obras manuais de carter moral, doutrinrio e devocional (Trevor-Roper, 1972, p.35). Para Federico Palomo (2006, p.57-70) essa literatura deve ser compreendida como recurso de divulgao doutrinria capaz de conduzir as condutas e de difundir os discursos religiosos capazes de comover os fiis. Tanto a oferta desses livros no mercado editorial quanto o incremento da leitura favoreceram significativamente a divulgao das di-retrizes de Trento, garantindo, assim, a homogeneizao doutrinal catlica (Palomo, 2006, p.57-82).

    No Portugal do sculo XVIII, Joo Franco foi um desses religiosos que, na esteira reformista de divulgao dos discursos morais catlicos, pregou e publicou inmeras obras de instruo para a vida santa e devota, bem como para a propagao dos comportamentos que garantissem uma boa morte. Essa literatura, herdeira das ars moriendi do sculo XV e incio do sculo XVI caracterizou-se, segundo Roger Chartier, por apresentar um texto e uma srie de imagens em xilogravuras, que se espalharam por todo o Ocidente, constituindo um estoque de representaes comuns centradas na agonia. Nos sculos seguintes, algumas tradues e adaptaes da ars acabariam, segundo o historiador francs, tornando-se um programa do bem viver (2004, p.143).

    Para a historiadora Cludia Rodrigues (2005, p.53), a literatura religiosa do sculo XVIII deve ser compreendida como uma segunda fase dessas

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    publicaes das artes de bem morrer. Enquanto a ars moriendi dos sculos XV e XVI valorizava a proximidade da morte como ocasio prpria para a preparao do fiel, nos anos compreendidos entre o Conclio de Trento e o sculo XVIII as publicaes passaram a visar salvao mediante o incentivo de uma vida piedosa, com o pensamento cotidiano na morte, em detrimento da valorizao do momento da agonia (Rodrigues, 2005, p.53), muito em-bora a ideia de bem viver j estivesse presente no sculo XVI.

    Foi em funo das Reformas catlica e protestante que, segundo Chartier (2004, p.133), acentuaram-se algumas mudanas nas formas de representao do bem morrer, as quais atenuariam sua nfase nos ltimos instantes, apa-recendo de modo mais disperso e com menor peso na conscincia coletiva. Os manuais editados em Portugal nos sculos XVII e XVIII (ver Figura 1) apresentavam, como destacou a historiadora Ana Cristina Arajo (1997, p.148), uma filosofia de vida e um saber prtico em relao morte. Em outras palavras, bem viver e bem morrer eram prerrogativas que se interliga-vam no discurso cristo-catlico setecentista, uma vez que nos sculos XVI e XVII a ideia de que uma boa morte era algo que se devia conquistar ao longo de toda a vida (Serafim, 2008, p.38) se fazia muito presente no cotidi-ano dos cristos catlicos. Foi em razo disso que as artes de bem morrer passaram a assumir formas de artes de bem viver, situando-se nas reas da meditao, da penitncia e da ascese, aproximando-se, neste sentido, de toda a literatura barroca de espiritualidade (Serafim, 2008, p.38).

    Joo Franco, o autor do manual Mestre da Vida (1731),5 que analisamos neste artigo, foi frade da Ordem dos Dominicanos6 de Lisboa, mestre em Teologia, consultor do Santo Ofcio e Prior no Convento da Ordem dos Pregadores da mesma cidade.7 Possivelmente, nasceu na segunda metade do sculo XVII, pois sabe-se apenas que professou a regra em 1704 e, ao longo da primeira metade do sculo XVIII, ganhou notoriedade intelectual entre religiosos e leigos da sociedade portuguesa e luso-brasileira. Alm de Mestre da Vida, publicou outros manuais de devoo como o Mestre da Virtude (1745)8 que circularam pela Amrica Portuguesa, tendo proferido, tambm, inmeros sermes em vrias igrejas, conventos e seminrios de diversas ci-dades portuguesas, os quais foram reunidos, posteriormente, em dez grandes tomos nos anos 1730.

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    Figura 1 Frontispcio de Mestre da Virtude. Fonte: Biblioteca Joanina Coimbra, Portugal.

    As obras do dominicano Joo Franco carregam, evidentemente, as in-fluncias tericas de seu tempo, baseando-se, como era bastante comum, tanto em passagens bblicas quanto nos doutores da Igreja Agostinho, Toms de Aquino, so Joo Crisstomo e da filosofia antiga Sneca, Plutarco e Aristteles.9 Embora citasse demasiadamente nos seus textos os clssicos doutores da Igreja, que certamente eram fontes de inspirao para a reflexo sobre as verdades da f e da doutrina, possvel pensar que outros religiosos socialmente reconhecidos, autores de outros manuais de sucesso nos sculos XV, XVI e XVII, tambm serviram de base para a construo coerente dos argumentos de Franco.10 Entre essas obras, possvel destacar Imitao de Cristo (1441), escrito pelo alemo Toms de Kempis (1379-1471), que recebeu inmeras reedies nos sculos seguintes e at os dias de hoje, sendo um dos livros mais traduzidos depois da Bblia. O historiador Peter Burke (2009, p.27) assinalou que, antes mesmo de 1700, a obra de Kempis recebeu, no mnimo, 52 tradues, dentre as quais se encontram as verses para o breto, o catalo,

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    o tcheco, o hngaro, o polons e o sueco.11 O captulo 23 desse manual de Kempis, sob o ttulo Da meditao da morte e dividido em nove breves re-flexes, referia no primeiro item a necessidade de preparao antecipada: mui depressa chegar teu fim neste mundo; v, pois, como te preparas (Kempis, 2011[1441], p.73), anunciando j no sculo XV a necessidade de preparao para a morte com argumentos muito similares aos que Joo Franco utilizaria em meados do sculo XVIII. Outro autor reconhecido por Franco e que cer-tamente o inspirou em muitos momentos foi o dominicano Lus de Granada (1505-1588), especialmente com duas de suas obras: Compndio da doutrina Crist (1559) e Guia de pecadores e exortao virtude (1572) (Fleck; Dillmann, 2013, p.297). Segundo a historiadora Clia Borges, o Compndio do padre Granada reunia sermes que serviam de modelos para pregao crist, desti-nados a serem lidos nas igrejas quando os sacerdotes habilitados se mostras-sem inbeis para elaborar os seus prprios sermes (Borges, 2009, p.146). Outro autor de grande influncia no pensamento cristo moderno foi o padre Manuel Bernardes (1644-1710) que, entre tantas obras, escreveu em dois to-mos Exerccios Espirituais e Meditaes da Via Purgativa: sobre a malcia do pecado, vaidade do mundo, misrias da vida humana e quatro novssimos do homem (1686), destacando como finalidade da obra o viver com dio do pecado, desprezo do mundo, pacincia nas misrias d