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SEMENTE DE LINHAÇA COMO MATÉRIA-PRIMA PARA ATIVOS E EXCIPIENTES COSMÉTICOS Alexandra Hewlett Benvenuto 1 - Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina. Pollyana Mudrek 2 - Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina. Daisy Janice Aguilar Netz 3 – Orientadora- Professora Doutora do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina. Contatos 1 [email protected] 2 [email protected] 3 [email protected] Resumo: O interesse nos benefícios do consumo alimentício e do uso de produtos cosméticos com propriedades funcionais tem aumentando nas últimas décadas, sendo este aspecto objeto de inúmeras pesquisas e de produtos de mercado. Neste trabalho, que utiliza metodologia classificada como qualitativa, descritiva e exploratória, constatou-se que a linhaça (Linum usitatissimum L.) tem sido considerada um ingrediente funcional de grande importância, por conter nutrientes funcionais como o ácido linolênico (ALA ou ω-3), lignana, como a secoisolariciresinol, e fibras, além dos compostos fenólicos, vitaminas, fucose, ramnose, minerais e ácido fítico. Dos derivados da semente se destacam o óleo comestível e óleo de uso industrial, utilizado na produção de tintas e vernizes, e também a farinha e o farelo, utilizados na alimentação humana e animal. Da extração do óleo se obtém como resíduo a torta, que pode ser utilizada como ração animal e como matéria prima para extração da mucilagem. Quanto à aplicação tópica, para fins cosméticos, os componentes do óleo e da mucilagem têm relevância em função dos benefícios que podem proporcionar na manutenção da homeostasia cutânea e no retardo do envelhecimento. O ácido fítico, encontrado na semente, é usado como despigmentante quando incluído em formulações cosméticas. O uso de ω-3 e ω-6 confere maciez e hidratação ao cabelo. Fucose, ramnose, xilose, galactose e o ácido galacturônico se acoplam a proteínas e lipídeos de membrana, formando glicoproteínas e glicolipídios,que atuam como receptores celulares, atuando como potentes antioxidantes, estimuladores de fibroblastos e inibidores das metaloproteinases. A presença de γ-tocoferol na linhaça favorece a capacidade protetora contra os radicais livres.

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SEMENTE DE LINHAÇA COMO MATÉRIA-PRIMA PARA ATIVOS E EXCIPIENTES COSMÉTICOS

Alexandra Hewlett Benvenuto1 - Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina.

Pollyana Mudrek2 - Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina.

Daisy Janice Aguilar Netz3 – Orientadora- Professora Doutora do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Florianópolis, Santa Catarina.

Contatos

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Resumo:

O interesse nos benefícios do consumo alimentício e do uso de produtos cosméticos com propriedades funcionais tem aumentando nas últimas décadas, sendo este aspecto objeto de inúmeras pesquisas e de produtos de mercado. Neste trabalho, que utiliza metodologia classificada como qualitativa, descritiva e exploratória, constatou-se que a linhaça (Linum usitatissimum L.) tem sido considerada um ingrediente funcional de grande importância, por conter nutrientes funcionais como o ácido linolênico (ALA ou ω-3), lignana, como a secoisolariciresinol, e fibras, além dos compostos fenólicos, vitaminas, fucose, ramnose, minerais e ácido fítico. Dos derivados da semente se destacam o óleo comestível e óleo de uso industrial, utilizado na produção de tintas e vernizes, e também a farinha e o farelo, utilizados na alimentação humana e animal. Da extração do óleo se obtém como resíduo a torta, que pode ser utilizada como ração animal e como matéria prima para extração da mucilagem. Quanto à aplicação tópica, para fins cosméticos, os componentes do óleo e da mucilagem têm relevância em função dos benefícios que podem proporcionar na manutenção da homeostasia cutânea e no retardo do envelhecimento. O ácido fítico, encontrado na semente, é usado como despigmentante quando incluído em formulações cosméticas. O uso de ω-3 e ω-6 confere maciez e hidratação ao cabelo. Fucose, ramnose, xilose, galactose e o ácido galacturônico se acoplam a proteínas e lipídeos de membrana, formando glicoproteínas e glicolipídios,que atuam como receptores celulares, atuando como potentes antioxidantes, estimuladores de fibroblastos e inibidores das metaloproteinases. A presença de γ-tocoferol na linhaça favorece a capacidade protetora contra os radicais livres.

Palavras-chave: Linhaça. Óleo. Mucilagem. Polissacarídeos. Cosméticos.

1. INTRODUÇÃO

A tendência mundial a respeito dos ingredientes cosméticos tem mostrado um olhar

fitológico e sustentável, ou seja, que prioriza o emprego de matérias-primas vegetais ao

invés de derivados animais e o aproveitamento total de uma matéria-prima (PEREIRA,

2012). Para não se voltar somente aos tão cotizados produtos amazônicos esse estudo

enfocou o emprego de uma planta conhecida e produzida pela humanidade por mais de

5.000 anos, da qual se conhece, em função de seu emprego alimentício, quase todos

seus componentes, propriedades funcionais e benefícios para a saúde: a linhaça ou

semente de linho, Linum usitatissimun L.(NOVELLO; POLONIO, 2011).

A ação da linhaça como alimento funcional tem sido amplamente propagada (TORRES,

2002; GALVÃO, 2008; MARQUES, 2008), sendo notável o fato de o grão ter sido

eleito pelo National Cancer Institute (NCI) como uma das seis principais plantas e/ou

sementes de maior foco em pesquisas, tendo em vista que estudos já sinalizam para o

interesse na proteção contra o câncer (OOMAH; MAZZA, 2000).

Para Torres (2002) um aspecto importante da semente de linhaça é a variedade de

subprodutos que dela pode ser obtido, dependendo do processo de extração. Dentre

estes subprodutos, destacam-se, do ponto de vista nutricional e quanto à utilização em

produtos cosméticos, o óleo e a mucilagem.

O óleo de linhaça apresenta cor que varia de amarelo-dourado, marrom ou âmbar. É

obtido por prensagem á frio, uma vez que a temperatura é uma variável determinante

para acelerar o processo de oxidação. Entretanto, observa-se que com a prensagem na

faixa de temperatura de 40°C a 45ºC é possível obter rendimento maior em termos de

quantidades de óleo, comparado à prensagem a 25ºC (LOPES, 2009).

Além do interesse alimentício, amplamente estabelecido, destaca-se o interesse nesta

semente como ingrediente cosmético. Assim, este trabalho buscou fornecer informações

relativas ao entendimento da relação entre os constituintes da semente de linhaça e o

efeito biológico que possam desempenhar na pele, assim como a utilização deste

material como excipiente cosmético.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Características botânicas da linhaça

A semente de linhaça é um produto obtido a partir do linho (Linum usitatissimum L.),

pertencente à família Linaceae. Seu nome em Latim, Linum usitatissimum, significa

“muito útil”. É uma das mais antigas plantas domesticadas pelo homem na antiguidade

da Ásia Ocidental e no Mediterrâneo. Como fonte de fibra de linho, foi cultivada desde

aproximadamente 5.000 a.C. e há mais de 2.500 anos é usada popularmente como

medicamento, sendo hoje conhecida principalmente pelo emprego de seu óleo

(OOMAH, 2001).

Figura 1 -. Partes da planta Linhaça (Linum usitatissimum L.)

Fonte: Galvão (2008).

Trata-se de uma planta herbácea, que chega a atingir de 40 a 80 cm de altura, e que

abrange várias subespécies, integradas com o nome botânico Linum usitatissimum L.

Apresenta um talo principal do qual saem vários ramos onde nascem as folhas, as flores

e as cápsulas (Fig.1). Apresenta caules cilíndricos e compridos, prostrado-ascendentes

ou ascendentes, geralmente ramificados. As folhas, esparsas, são finas e de margem lisa,

alternas e sem pecíolo. As flores, de cor azul claro (por vezes, brancas) com nervuras

bem marcadas de um tom mais escuro, têm 5 pétalas, 5 sépalas e 5 estames. O fruto é

uma cápsula globosa dividida em 5 cavidades onde se formam as sementes (GALVÂO,

2008).

2.2. Componentes da linhaça e importância biológica

Do caule da planta é retirada a fibra do linho, matéria-prima para a fabricação de

tecidos, e da cápsula, se obtém a semente de linhaça, que apesar de usada há milênios na

alimentação humana, na atualidade a maior parte do cultivo é destinada ás indústrias de

óleo para tintura e para ração animal (NOVELLO, 2011).

Figura 2 -. Sementes de linhaça marrom e dourada

Fonte: Lima (2007).

A semente de linhaça (Fig. 2) é um grão oleaginoso, de cor marrom ou amarelo

dourado. A linhaça dourada é bem mais difícil encontrar no Brasil, já que ela aprecia

climas frios; seu sabor é mais suave do que a variedade escura (linhaça marrom) que

tem a casca um pouco mais resistente devido à presença de pigmentos protetores.

Quanto aos nutrientes, não diferem entre si (PEREIRA, 2012)

A semente de linhaça é rica em ácidos graxos poli-insaturados, como o α-linolênico

(ALA ou ω-3) e, em menor quantidade, linoléico (AL ou ω-6), além de conter teores

significativos de proteína, fibra alimentar solúvel e insolúvel, goma ou mucilagem,

compostos fenólicos (lignanas, ácidos fenólicos, e tocoferol) ácido fítico, vitaminas e

minerais. Todas essas substâncias são consideradas importantes devido aos efeitos

benéficos para a saúde, em função de suas propriedades biológicas (OOMAH; MAZZA,

2000), sendo os principais constituintes listados no Quadro 01 em anexo, e descritos de

forma geral a seguir:

2.2.1. Lipídios

O óleo de linhaça é rico em ácidos graxos poli-insaturados, especialmente o ω-3 e em

menor quantidade, o ω-6. Também contém ácidos graxos monoinsaturados

(palmitoléico, oléico, gadoléico, erúcico e nervônico) e saturados (cáprico, láurico,

mirístico, pentadecílico, palmítico, margárico, esteárico, araquídico, behênico e

lignocérico) (EPAMINONDAS, 2009). A figura 3 ilustra a distribuição dos ácidos

graxos presentes no óleo da semente de linhaça.

Figura 3 Porcentual de ácidos graxos na fração lipídica da semente de linhaça

Fonte: Adaptado de Epaminondas (2009).

O ω-3 (acido linolênico) e o ω-6 (acido linoléico), precursores dos demais ácidos graxos

da família ômega-3 e ômega-6, são conhecidos como essenciais, pelo fato do organismo

humano não sintetizá-los, tornando-se indispensável o consumo na dieta (LOPES,

2009). O uso da palavra ômega é uma forma de classificação dos ácidos graxos

57% 16%

18% 9%

AG n-3

AG n-6

AG mono

AG sat

poliinsaturados. O número que o acompanha significa a posição do carbono que possui

a primeira instauração (NAWAR, 2000) (Fig. 4).

Figura 4 - Representação esquemática dos ácidos graxos ω-3 e ω-6

ω-3 ω-6

Fonte: Lopes (2009).

O ω-6 pode ser encontrado também em abundância em óleos de milho, soja, girassol, e

em outros óleos, enquanto que o ω-3 é encontrado em concentrações elevadas na

semente de linhaça, numa proporção de aproximadamente 40 a 60% (do peso total)

fazendo com que essa oleaginosa seja a maior fonte vegetal deste ácido graxo essencial.

Sua predominância é importante fator na prevenção de doenças cardíacas

(EPAMINONDAS, 2009).

Os ω-3 (ALA) e ω-6 (AL) dão origem outros ácidos graxos poli-insaturados, também

importantes para a integridade da membrana fosfolipídica, tendo efeitos na renovação,

cicatrização e no crescimento celular. Previnem a perda transepidermal de água, uma

vez que as ceramidas, constituintes da função barreira no estrato córneo contém cerca de

20% de acido linoléico (ω-6) (RIBEIRO, 2010).

Segundo o mesmo autor, os ácidos graxos poliinsaturados transformam-se nos ácidos

seicosapentaenoico, docosahexaenóico, araquidônico e γ-linolênico, os quais são

sinalizadores celulares. Especificamente com relação ao ácido araquidônico, salienta-se

que é removido das membranas fosfolipídicas pela enzima fosfolipase A2 e convertido

em leucotrienos (envolvidos nos processos inflamatórios e asma) e em prostaglandina,

mediadora pró-inflamatória, sensibilizadora neuronal, influente na contração e dilatação

dos vasos sanguíneos e no acúmulo e liberação de lipídios pelos adipócitos (NAWAR,

2000).

Quando ocorre carência orgânica do ω-6, aspectos negativos são percebidos na pele e

nos cabelos, como alopecia, dificuldade de cicatrização e eczema, além de problemas

circulatórios (FAO/OMS, 1997).

A vitamina F, que corresponde ao conjunto dos ácidos graxos linolênico, linoléico e

araquidônico, na concentração de 2% aumenta a renovação celular por estimular a

mitose a nível epidérmico, o que pode proporcionar a redução de rugas finas e marcas

de expressão (RIBEIRO, 2010).

O ω-3, devido sua ação antioxidante e imunoestimulante, previne doenças

degenerativas, cardiovasculares e apresenta excelente resultado no tratamento da tensão

pré-menstrual, sendo empregado também para o tratamento da menopausa e na redução

do risco de câncer de mama, próstata e pulmão. Em indústrias cosméticas e farmácias de

manipulação, o óleo tem sido utilizado em formulações para tratamento de eczema, acne

e dermatite atópica, tendo excelente poder cicatrizante (SCHNEIDER, 2005).

Os principais ácidos graxos atualmente utilizados na cosmetologia são os ácidos

linoléico e ácido linolênico, cujas fontes mais frequentes são o óleo de onagro, o óleo de

borragem, de groselha e de rosa mosqueta. São utilizados nos cremes, nos óleos de

massagem, xampus, condicionadores e sabonetes. Atuam diminuindo a perdas de água

por meio da incorporação nos fosfolipídios epiteliais (HERNANDEZ; MERCIER-

FRESNER, 1999).

2.2.2 Proteínas

A composição de aminoácidos encontrados na proteína da linhaça é similar a da

proteína de soja, sendo que a albumina e a globulina respondem por cerca de 20% e

42% da fração protéica (LIMA, 2007; PORTAL VERDE, 2004). Dentre os

aminoácidos, salientam-se a metionina e a cisteína. Tem como aminoácidos limitantes a

lisina, treonina e a tirosina. Seu valor nutritivo é comparável ao da soja e, além disso,

uma característica das proteínas da linhaça é de serem pouco solúveis em água

(OOMAH; MAZZA, 2007).

2.2.3 Polissacarídeos

A semente de linhaça, apesar de conter cerca de 30% de carboidratos totais, não pode

ser considerada alimento glicêmico, em razão de estar isenta de amidos e de seu baixo

teor de açúcar (1 a 2%, dependendo da variedade). .

As maiores frações de fibra na linhaça são: celulose, que é principal estrutura material

das paredes celulares das plantas, mucilagem, que é um tipo de um polissacarídeo que

se torna viscoso ao se misturar com a água ou outros fluidos aquosos e a lignana, que é

uma fibra altamente ramificada, que se encontra dentro das paredes celulares de plantas

lenhosas e tem propriedades de fitohormônios. As porções de fibras podem ser

classificadas como fibra dietética e fibra funcional. Não obstante, as sementes inteiras

são fonte de fibra dietética, enquanto que as mucilagens extraídas das sementes de

linhaça e agregadas aos laxantes e xaropes para tosse são fibra funcional

(ZIOLKOVSKA, 2010).

A goma e a mucilagem extraída da semente em questão ligam-se ao colesterol e aos

ácidos biliares; fornecendo material fermentável para as bactérias colônicas, com a

produção de ácidos graxos voláteis e gás; retarda o tempo de esvaziamento gástrico

(estómago), previne obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares (LIMA, 2007).

A mucilagem da linhaça, associada com a casca, constitui goma composta de

polissacarídeos ácidos e neutros (Fig.5). A fração neutra contém principalmente, xilose,

sendo a fração ácida da semente formada preponderantemente de ramnose e de

galactose (WANASSUNDARA & SHAHIDI, 1996).

A goma extraída desta semente, independente do estagio operacional, pode se tornar um

produto de elevado valor tecnológico na indústria alimentícia e cosmética,

especialmente pelo seu excelente potencial como hidrocolóide formador de gel, em

função de sua importante capacidade de sofrer inchamento (hidratação) e por apresentar

alta viscosidade em solução aquosa (CHEN XU;WANG 2006).

Funcionalmente, assemelha-se á goma arábica mais que as outras gomas, porém, é

viável comercialmente apenas como subproduto da indústria de óleo de linhaça,

apresentando menor custo em relação a outras gomas comerciais (CUI; MAZZA, 1996,

CHEN XU;WANG 2006). Além disso, deve se considerar que o seu rendimento

dependera do método de extração (OOMAH et al.,1995a, CHEN XU;WANG 2006).

Figura 5 - Fotografia ilustrando a mucilagem formada ao redor da semente de linhaça macerada

Fonte: Wu (2004).

Dados analíticos como pureza, composição química e propriedades físicas são fatores

importantes para definir sua área de aplicação e sua aceitabilidade como formador de

gel (CUI; MAZZA ,1996). A goma de linhaça exibe propriedades de gel fraco, o que

pode ser empregado para substituir a maioria das gomas não-gelatinosas em aplicações

alimentícias e não alimentícias. Salienta-se o fato de não apresentar carga, o que

aumenta o potencial de compatibilidade com a maioria dos excipientes e ativos

cosméticos (CUI; MAZZA, 1996, CHEN XU;WANG, 2006).

A goma, que também pode ser denominada de mucilagem, é formada por xilose,

arabinose, glicose, galactose, ácido galacturônico, ramnose e fucose, e geralmente é

extraída da torta de linhaça (CHEN; XU; WUANG, 2006).

Segundo Ribeiro (2010) os queratinócitos têm receptores específicos para certos

açúcares, como a ramnose, fucose e galactose. Baseando-se nestes achados, alguns

açúcares são usados como ativos cosméticos.

Estudos de Peterszegi et al. (2003) relatam que compostos preparados de fucose,

galactose e ac. galacturônico podem proporcionar estimulação in vitro de fibroblastos

com ótimos resultados, assim como na modulação da atividade das metaloproteinases 2

e 9, e retardo dos mecanismos de envelhecimento celular .

A mistura de oligo e posissacarídeos, ricos em L-fucose e L-ramnose, é encontrada em

formulações para peles envelhecidas com a finalidade de diminuir a profundidade e

largura de rugas. Os açúcares são capazes de estimular a proliferação de fibroblastos ao

formar glicoproteínas de membrana, que atuam como receptoras de sinalizadores

celulares, estimulando a produção de glucosaminoglucanas, colágeno e tropoelastina

(precursor da elastina), com conseqüente aumento da espessura total da pele, derme e

epiderme, melhorando assim a elasticidade e o relevo cutâneo (RIBEIRO, 2010).

2.2.4. Compostos fenólicos

São amplamente distribuídos nos vegetais, como metabólitos secundários. Estes

compostos abrangem ácidos fenólicos, cumarinas, flavonóides, taninos e lignanas

(PIMENTEL;FRANCKI;GOLLÜCKE, 2005). As lignanas são convertidas em

fitoestrógenos, que são compostos derivados de plantas que têm propriedades similares

as do estrogênio (HERCHI, 2010).

A semente de linhaça possui o diglucosídeo secoisolaricirresinol, uma lignana que pela

ação das bactérias da flora intestinal origina duas ligninas com propriedades

estrogênicas; o enterodiol e a enterolactona (CUNHA, 2007). O enterodiol e a

enterolactona podem ajudar na prevenção de certos tipos de câncer relacionado a

hormônios como câncer de mama, endométrio, próstata e doenças hormono-

dependentes como a osteoporose, através de sua interferência com o metabolismo das

glândulas sexuais (MACIEL, 2006; TOMINAGA, 1985; LEE et al., 1991) .

Thompson et al. (1991) afirmam que a linhaça é uma das fontes mais ricas de

fitoestrógeno em sua forma de lignana. Maciel (2006) diz conter concentrações mais

altas de secoisolariciresinol (28.800- 369.000 μg/g) que qualquer outro alimento.

Apesar do conhecimento a respeito desse importante componente não há na literatura

cientifica informações sobre a atividade biológica em uso tópico das lignanas. Outros

compostos fenólicos presentes na semente de linhaça são os ácidos fenólicos (por conter

na sua molécula um anel fenólico); trans-ferúlico, trans-sinápico, trans-p-cumárico e o

trans-caféico

O ácido ferúlico é um potente antioxidante, encontrado em altas concentrações em

plantas, principalmente no farelo de arroz e de milho. Possui um alto potencial

fotoprotetor, age como uma barreira de membrana celular, impedindo a atividade de

radicais livres. Nos últimos anos o potencial fotoprotetor do ácido ferúlico tem sido

amplamente estudado. Dados científicos mostram que a aplicação tópica do ácido

ferúlico inibe a formação de eritema provocado pela exposição da pele aos raios

ultravioletas B (UVB) (LIN et al, 2003).

Foi estudada por Murray et al. (2008) uma formulação com 15% de vit C, 2% de vit E e

0,5% de acido ferúlico e se comprovou sua eficiência na proteção contra radiações UVA

e UVB, na inibição de dímeros de tiamina e do gene p53 ambos cancerígenos, inibitório

tb de citocinas proinflamatoria e imunosupresoras. O AC ferúlico alem de proporcionar

estabilidade a formulação duplica o efeito protetor da vit C(Ac. Ascórbico) conjugada a

Vit E (alfa tocoferol). O efeito protetor é diferente aos dos protetores solares de

mercado pois penetram na pele e exercem sua função de antioxidantes nas células . Em

Harry (1990) é mencionado que o acido ferúlico pode ser adicionado aos tônicos

capilares para promover o crescimento capilar.

O acido cafeico (não relacionado com a cafeína) é um precursor do acido ferúlico e

intermediário na biossíntese das ligninas. E um dos principais fenóis, com potente efeito

antioxidante (CADENAS; PACKER, 2002).

O γ-tocoferol está presente, em algum grau, em todos os óleos vegetais. Desempenha

muitas funções, salientando-se o aspecto de proteção do núcleo e da membrana celular e

tem um papel significativo frente ao estresse oxidativo devido ao ozônio, por isso

considerado potente antioxidante endógeno, sendo produzido pelas glândulas sebáceas

nas formas de α e γ-tocoferol (GRAF, 2005; QUIROGA, 2005).

De acordo com Graf (2005), o tocoferol, quando combinado com vitamina C exerce

grande poder protetor contra radiações UV sendo que a vitamina C é um cofator

essencial para a hidroxilação da prolina e lisina na síntese de colágeno, inibe a

metaloproteinase-1 (MMP-1) e tem comprovada atuação na redução de

hiperpigmentações pela inibição da tirosinase.

2.2.5. Outros componentes da semente

Ácido Fítico possui a propriedade de ser um excelente inibidor da melanogeênese, por

ser um quelante de minerais polivalentes como o Fe e ou Cu atuando no clareamento de

manchas hipercrômicas, salientando-se que sem a presença de Cu não ocorre o

desencadeamento da ação da tirosinase. Pode ser usado em pele que apresente

sensibilidade, ou com discreto grau de eritema (como no pós operatório de peeling com

laser CO2 ) (NICOLETTI et al., 2002).

A vitamina C é um importante antioxidante, considerada indispensável para a saúde, já

que o organismo não pode produzi-la, sendo empregada tanto via ingestão como tópica,

sendo capaz de proporcionar grande benefício para a pele (QUIROGA, 2005). Atua em

sinergismo com o tocoferol na produção de colágeno pelos fibroblastos e dependendo

da concentração, pode inibir a melanogênese e proporcionar clareamento de manchas ou

efeito “iluminador” na pele (RIBEIRO, 2010).

O mesmo autor destaca que o mineral mais importante como antioxidante e anti-

inflamatório é o Selênio, também presente na semente de linhaça, considerado essencial

para a ativação da enzima antioxidante glutationa peroxidase e inibidor das citocinas

inflamatórias induzidas pela radiação UV. Entretanto, o selênio não penetra na pele, só

na forma de seleniometionina.

Faz parte da composição da semente de linhaça uma pequena fração de ácido

pantotênico (pantenol) que é um componente da co-enzima A, cuja deficiência causa

corneificação, despigmentação e descamação da pele. A regeneração celular é acelerada

pelo uso de pantenol (RIBEIRO, 2010).

A niacinamida, também conhecida como niacina, nicotinamida ou vitamina PP é uma

das vitaminas do complexo B ou B3. Durante o envelhecimento os níveis de

niacinamida sistêmico e intracelular diminuem, sendo necessária a suplementação

localizada desta vitamina através de formulações cosméticas, o que ajuda a restaurar

seus níveis intracelulares. Na pele, pode estimular o aumento da síntese de ceramidas,

ácidos graxos livres, colesterol e esfingomielina pelos queratinócitos, auxiliando na

reestruturação da função de barreira.

METODOLOGIA:

Este estudo caracteriza-se por uma pesquisa qualitativa do tipo descritiva exploratória,

com base em dados teóricos obtidos através de livros, artigos, teses, patentes, periódicos

e informações e pesquisas de produtos pela internet. Cabe citar que a pesquisa de cunho

qualitativo tem como característica principal a subjetividade das informações, e se dá

quando só fazem sentido através de um tratamento lógico secundário, feito pelo

pesquisador. A presente pesquisa é considerada do tipo descritiva, pois os fatos foram

observados, registrados, analisados, classificados e interpretados sem que o pesquisador

interferisse neles. E exploratória, pois proporciona maiores informações sobre o tema a

ser abordado, esse tipo também é denominado de pesquisa bibliográfica (CIRIBELLI,

2003).

ANALISE DE DADOS

O objetivo deste trabalho foi pautado no estudo da potencialidade de sub-produtos da

semente de linhaça (óleo e mucilagem). Verificou-se que existem poucos artigos que

abordam a semente de linhaça integral do ponto de vista da aplicação cosmética (WU,

2010). Contudo, pelas características descritas na literatura, visualiza-se grande

potencial em formulações cosméticas, uma vez que a mesma possui em sua composição

elementos considerados muito ativos e importantes para a manutenção da integridade

celular, como os ácidos graxos ω-3 e ω-6, γ-tocoferol, fucose, galactose, ramnose,

arabinose, ácido galacturônico, ácido fitico, ferúlico, cafeico , ascórbico e minerais

como o selênio. (WARRAND et al.,2004; PETERSZEGI et al., 2003; GALVÃO,

2008).

O tocoferol é produzido pelo organismo porem quando adicionado a cosméticos

potencializa seu efeito antioxidante localmente. A combinação de fucose, galactose e

acido galacturônico in vitro tem um potente efeito estimulador dos fibroblastos e

inibidor das metaloproteinases. O acido ferúlico interfere na melanogênese por quelar o

cobre necessário para a atividade da tirosinase.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em conta que a utilização da semente de linhaça vem ao encontro da crescente

tendência do mercado pelos produtos naturais e funcionais, esse estudo é alinhado com

esta tendência, visando proporcionar um panorama mais aprofundado no que toca a

importância deste material como matéria prima cosmética.

Com base no material pesquisado, pode-se constatar que os principais sub-produtos da

semente de linhaça, a saber o óleo e a mucilagem são potencialmente classificados

como promissores no emprego de formulações cosméticas tópicas , tanto como ativos,

quanto como excipiente (MACIEL, 2006; LOPES, 2009).

Assim, pode-se já visualizar possíveis desdobramentos deste estudo, com o emprego da

mucilagem in natura, talvez como máscara para o tratamento de manchas (por conter

ácido fítico, ácido ferúlico), para minimizar o antienvelhecimento (por conter açúcares

raros, compostos fenólicos, antioxidantes, fito estrógenos, selênio e outros minerais) em

cremes, e o óleo, pelo seu efeito hidratante e capacidade de reestruturador da barreira

córnea (por conter os ômegas 3 e 6 que inibiriam o TEWL).

REFERÊNCIAS

BEMILLER, James N.; L.WHISLER, Roy. Carbohidratos. In: FENNEMA, Owen R.. Química de los Alimentos. 2° Indiana - USA: Acribia S. A., 2000. Cap. 4, p. 187-267.

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