Sinalização de Trilhas - Guia Prático - Pedro da Cunha e Menezes

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Uma trilha nada mais é que uma estrada para pedestres (ou em alguns casos ciclistas). As rodovias existentes hoje são as sucessoras de trilhas antigas. Na Europa muitas delas foram construídas sobre vias romanas, aproveitando seu traçado. Na América do Sul fenômeno semelhante ocorreu com a malha viária inca, cujo leito deu lugar a diversas estradas atuais. Também no Brasil, muitas rodovias foram edificadas sobre antigas picadas indígenas (peabirus), caminhos bandeirantes e rotas coloniais ou do tempo de Império. Nos estados de Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro temos vários desses exemplos, como são os casos de muitos trechos da Estrada Real, da Estrada da Graciosa, da Estrada Caeira e do Caminho do Ouro. Prefácio Todas as estradas, desde sua concepção inicial, sempre incorporaram a necessidade da sinalização, seja ela direcional ou interpretativa. Os romanos tinham marcas a cada milha de suas vias. O marco zero de todas elas era o centro de Roma, daí o ditado: “todos os caminhos levam a Roma”. No Brasil, os caminhos bandeirantes eram marcados com cortes de facão em árvores ou, em regiões onde não havia florestas, com totens de pedras amontoadas. Seja como for, desde tempos imemoriais, sempre que houvesse possibilidade de dúvida quanto a direção a ser seguida, adotou-se algum tipo de sinalização. ... Um projeto com o apoio de wikiparques.org.br oeco.org.br Fonte: http://sinalizetrilhas.wikiparques.org.br/wp-content/uploads/2014/08/SinalizeTrilhas1.pdf

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  • 1. Pedro da Cunha e Menezes

2. Pedro da Cunha e MenezesSinalizao de Trilhas - Guia Prtico 3. wikiparques.org.broeco.org.br 4. Prefcio4Uma trilha nada mais que uma estrada para pedestres (ou em algunscasos ciclistas). As rodovias existentes hoje so as sucessoras de trilhasantigas. Na Europa muitas delas foram construdas sobre vias romanas,aproveitando seu traado. Na Amrica do Sul fenmeno semelhante ocorreucom a malha viria inca, cujo leito deu lugar a diversas estradas atuais.Tambm no Brasil, muitas rodovias foram edificadas sobre antigas picadasindgenas (peabirus), caminhos bandeirantes e rotas coloniais ou do tempode Imprio. Nos estados de Minas Gerais, Paran, So Paulo, Gois e Rio deJaneiro temos vrios desses exemplos, como so os casos de muitos trechosda Estrada Real, da Estrada da Graciosa, da Estrada Caeira e do Caminho doOuro.Todas as estradas, desde sua concepo inicial, sempre incorporaram anecessidade da sinalizao, seja ela direcional ou interpretativa. Os romanostinham marcas a cada milha de suas vias. O marco zero de todas elas era ocentro de Roma, da o ditado: todos os caminhos levam a Roma. No Brasil, oscaminhos bandeirantes eram marcados com cortes de faco em rvores ou,em regies onde no havia florestas, com totens de pedras amontoadas. Sejacomo for, desde tempos imemoriais, sempre que houvesse possibilidade dedvida quanto a direo a ser seguida, adotou-se algum tipo de sinalizao.As estradas e ruas de hoje em dia tm sinalizao direcional em formatode placas indicando os destinos. Por exemplo: So Paulo, Belo Horizonte, 5. 5Passa Quatro, Laranjeiras. Tambm tm sinalizao calmante, que objetivatranquilizar o viajante dando alguma informao sobre a durao do caminho(por exemplo: BR 101, quilmetro 832), ou placas de sinalizao interpretativa(ponte sobre o crrego das Taxas). Por fim, as estradas do sculo XXI aindatm sinalizao educativa (dirigir sem cinto de segurana mata ou mantenhaa distncia), indutiva (curva acentuada para a direita), ou regulatria (sobneblina use farol baixo).Considerando-se que uma trilha uma estrada, exatamente as mesmasregras tm sido aplicadas s vias pedestres em todo o mundo, com grandegrau de uniformidade e consenso em todos os pases. Assim a sinalizaode trilhas nos Estados Unidos, Austrlia, Argentina, frica do Sul, Japo,Coreia, Caribe, Europa e na vasta maioria dos outros pases tende a ser muitoparecida e a utilizar os mesmos modelos e regras. Os mtodos e normas desinalizao apresentados nesse manual no so novos, nem desconhecidosno resto do mundo. Com efeito, o Brasil um dos poucos pases em todoo planeta em que as instituies responsveis pela administrao de reasprotegidas ainda no tm sinalizado sistematicamente suas trilhas de formapadronizada e dentro de regras pr-estabelecidas e mundialmente testadas.Apenas para efeito de comparao. Ao tempo da redao deste manual,os 75 milhes de hectares do Sistema Federal de Unidades de ConservaoBrasileiro contavam com menos de 300 km de trilhas sinalizadas. J o Sistemade Florestas Nacionais dos Estados Unidos, com tamanho similar (cerca de73 milhes de hectares), contava com 225 mil km de trilhas sinalizadas. Nooutro extremo de tamanho, a Ilha de Dominica, um diminuto pas caribenho,com 70 mil habitantes e 75 mil hectares de rea total, tinha cerca de 250km de trilhas sinalizadas, dos quais 183 contnuos em uma Trilha de LongoPercurso, a Waitakubuli National Trail. Outro exemplo que merece ser citadopela sua reduzida rea geogrfica o da Eslovnia. O pas europeu, de apenas20.256 km (menor que o menor estado brasileiro Sergipe tem 21.910 km),tem uma malha de sete mil quilmetros de trilhas sinalizadas. Vale tambmmencionar uma unidade de conservao na frica do Sul, pas com nvelde desenvolvimento similar ao Brasil. O Parque Nacional da Montanha daMesa, de 25 mil hectares, tem 600 km de trilhas sinalizadas. Para terminara ilustrao, seguem alguns nmeros dos totais de trilhas sinalizadas emoutros pases europeus: Alemanha: 260 mil km, Frana: 180 mil km, Sua: 50 mil km, Espanha: 14 mil km, Sucia: 6 mil km, Holanda: 5 mil km, Blgica: 4.300 km e Portugal: 1.500 km.Na Europa as trilhas so sinalizadas desde antes do Imprio Romano,quando ainda eram destinadas ao trnsito, entre localidades, de pessoase cargas levadas em lombo de animais. A partir de 1876, com a criao doprimeiro parque nacional do mundo, Yellowstone, os Estados Unidos e oresto dos pases, incluindo a prpria Europa, adaptaram o conhecimento e osmtodos adquiridos ao longo de mais de dois mil anos nessas estradas parapedestres e desenvolveram tcnicas de sinalizao de trilhas voltadas paraatividades de excursionismo e recreao dentro de unidades de conservao. 6. 6No processo de mais de um sculo desde ento, foi acumulado muitoconhecimento do que fazer e do que no fazer. Este know-how, alm de serensinado em cursos e oficinas de treinamento, encontra-se registrado emvasta literatura publicada sobre o tema, disponvel em livrarias especializadase na internet (vide a nossa bibliografia).O presente Manual de Sinalizao no tenta reinventar a roda. Buscamosmostrar como a sinalizao de trilhas tem sido feita mundo afora. Utilizamosexemplos colhidos em cerca de duas centenas de unidades de conservaoem quase cinquenta pases. Esse grande volume de conhecimento acumuladoe testado no mundo inteiro foi ento usado para subsidiar o estabelecimentode regras e mtodos de sinalizao que podem e devem ser aplicados navasta malha de trilhas das Unidades de Conservao brasileiras.O padro aqui proposto tem sido usado com sucesso no Parque Nacionalda Tijuca h mais de 15 anos onde, depois dos trabalhos de sinalizao em1999-2000, a mdia de pessoas perdidas em suas trilhas caiu de maisde cem para menos de cinco por ano. Recentemente, o mesmo modelofoi adotado por outras UCs como os Parques Nacionais da Chapada dosVeadeiros, Serra dos rgos, Pau Brasil e Saint Hilaire-Lange e os ParquesEstaduais fluminenses dos Trs Picos e da Pedra Branca entre outros.Agora resolvemos disponibilizar esse conhecimento acumulado paratodos os colegas que entendem que o ecoturismo uma ferramenta deconservao e que desejam comear a fazer o manejo de suas trilhas.Boa leitura e, sobretudo, bom trabalho!Pedro da Cunha e Menezes, agosto de 2014 7. Tipos de Sinalizao7Na linguagem tcnica, sinalizao de uma trilha se subdivide basicamenteem dois tipos: direcional e interpretativa.Para comear, vamos abordar casos da sinalizao direcional.A sinalizao direcional utiliza SOBRETUDO setas. Tambm pode utilizarsmbolos, tais como um crculo ou retngulo colorido, ou ainda a logomarcaoficial de alguma trilha, como o caso da Trilha Transcarioca no Rio de Janeiro:uma pegada de bota de caminhadas com o Cristo Redentor desenhado emsua sola.A pegada com o Cristo na sola: sinalizao direcionaloficial da Trilha Transcarioca (Nacional da Tijuca). 8. 8A sinalizao direcional de uma trilha tem dois objetivos bsicos:1. Indicar a direo correta aos visitantes, evitando que se percam;2. Facilitar aes de manejo do interesse da respectiva Unidade deConservao, evitando processos erosivos, impedindo a criaode atalhos e desestimulando o pisoteio de reas sensveis, entreoutros benefcios ambientais.A sinalizao direcional se divide em quatro tipos:Direcional aquela que, como o nome diz, aponta a direo e osentido que o caminhante deve seguir;Confirmatria aquela que, logo aps uma bifurcao, confirma queo caminhante escolheu a opo correta;Calmante aquela que de tempos em tempos reassegura aocaminhante de que est no caminho correto. Em oposio, sempreque o caminhante andar mais de cinco minutos sem ver umasinalizao calmante, saber que errou o caminho e tentar retornarat encontrar a ltima sinalizao e voltar trilha certa;Indutiva Sinalizao usada para segurana ou manejo. aquela queinduz o caminhante a seguir na direo que interessa Unidade deConservao, evitando que ele pisoteie reas sensveis, estimulando-oa no pegar atalhos, e direcionando-o para trajetos mais longos,em detrimento de opes mais curtas, mas com alto potencial deacidentes ou de impactos ambientais.1. Trilha de longo curso Jeju Olle, Coria do Sul2. Embora as setas sejam o mtodo ideal de sinalizao ideal, pegadas tambm so comuns(Parque Nacional do Limpopo, Moambique)3. Pases europeus tendem a preferir o uso de retngulos coloridos que tem a desvantagem deno apontar a direo a ser seguida (Parque Nacional Galicica, Macednia)4. Mesmo esses pases j comeam a transformar antigos retngulos em setas como no casodo Parque Nacional Prokletje, em Montenegro. 9. 9Sinalizao direcionalDeve ser colocada SEMPRE que houver possibilidade de dvida natrilha. Ou seja, em todas as bifurcaes ou em trechos em que atrilha esteja mal definida, ou ainda onde haja ocorrncia comumde neblina.Onde a mata estiver fechada, a trilha for mal definida, pouco visvel ouonde houver ocorrncia de neblina ou cerrao, a sinalizao deve ser pintadaa espaos regulares e curtos, de modo que de uma sinalizao sempre sejapossvel ver a seguinte. Esse mtodo, que tambm vlido para descampados,alta montanha, campinas, desertos ou reas pedregosas extensas, serve paraassegurar que o caminhante no se perca. Ao ver pelo menos a sinalizaeseguinte sua frente o caminhante consegue traar seu rumo, mesmo sobneblina, no lusco-fusco, na penumbra, ou em terrenos onde a trilha est maldefinida.1. Sinalizao intensiva em trecho de mata fechada na Trilha Nacional Waitukubuli, onde ocaminho est mal definido. A sinalizao intensiva garante que o visitante no se perder(Parque Nacional de Trois Pitons. Dominica/Caribe).2. Sinalizao intensiva em trecho de mata fechada: de uma seta possvel ver a seguinte (APAEstadual de Guaraqueaba/ Paran).3. Sinalizao intensiva em trecho desrtico da Trilha Nacional Israel no Parque Nacional EinAvdat, em Israel. Notar que de uma sinalizao possvel ver a seguinte.4. Sinalizao intensiva em trecho de campo florido no Parque Nacional da Namaqualndia(frica do Sul). Notar que de uma sinalizao possvel ver as duas seguintes.5. Sinalizao intensiva em local propens