Sobre a liberdade - Albert Einstein

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    01-Nov-2014
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Transcript of Sobre a liberdade - Albert Einstein

  • 1. SOBRE A LIBERDADE Por Albert Einstein Sei que intil tentar discutir os juzos de valores fundamentais. Se algum aprova como meta, por exemplo, a eliminao da espcie humana da face da Terra, no se pode refutar esse ponto de vista em bases racionais. Se houver porm concordncia quanto a certas metas e valores, possvel discutir racionalmente os meios pelos quais essesobjetivos podem ser atingidos. Indiquemos, portanto, duas metas comque certamente estaro de acordo quase todos os que lem estas linhas.1. Os bens instrumentais que servem para preservar a vida e a sade de todos os seres humanos devem ser produzidos mediante o menor esforo possvel de todos. 2. A satisfao de necessidades fsicas por certo a precondio indispensvel de uma existncia satisfatria, mas em si mesma no suficiente. Para se realizar, os homens precisam ter tambm a possibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artsticas sem limites restritivos, segundo suas caractersticas e aptides pessoais.A primeira dessas duas metas exige a promoo de todo conhecimento referente s leis da natureza e dos processos sociais, isto , a promoo de todo esforo cientfico. Pois o empreendimento cientfico um todo natural, cujas partes se sustentam mutuamente de uma maneira que certamente ningum pode prever. Entretanto, o progresso da cincia pressupe a possibilidade de comunicao irrestrita de rodos os resultados e julgamentos - liberdade de expresso e ensino em todos os campos do esforo
  • 2. intelectual. Por liberdade, entendo condies sociais, tais que, a expresso de opinies e afirmaes sobre questes gerais e particulares do conhecimento no envolvam perigos ou graves desvantagens para seu autor. Essa liberdade de comunicao indispensvel para o desenvolvimento e a ampliao do conhecimento cientfico, aspecto de grande importncia prtica. Em primeiro lugar, ela deve ser assegurada por lei. Mas as leis por si mesmas no podemassegurar a liberdade de expresso; para que todo homem possa expor suas idias sem ser punido, deve haver um esprito de tolerncia em toda a populao. Tal ideal de liberdade externa jamais poder ser plenamente atingido, mas deve ser incansavelmente perseguido para que o pensamento cientfico e o pensamento filosfico, e criativo em geral, possam avanar tanto quanto possvel. Para que a segunda meta, isto , a possibilidade de desenvolvimento espiritual de todos os indivduos, possa ser assegurada, necessrioum segundo tipo de liberdade externa. O homem no deve ser obrigado a trabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal queno lhe restem tempo nem foras para as atividades pessoais. Sem este segundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expresso intil para ele. Avanos na tecnologia tornariam possvel esse tipo de liberdade, se o problema de uma diviso justa do trabalho fosse resolvido.O desenvolvimento da cincia e das atividades criativas do esprito em geral exige ainda outro tipo de liberdade, que pode ser caracterizado como liberdade interna. Trata-se daquela liberdade de esprito que consiste na independncia do pensamento em face das restries de preconceitos autoritrios e sociais, bem como, da "rotinizao" e do hbito irrefletidos em geral. Essa liberdade interna um raro dom da natureza e uma valiosa meta para o indivduo. No entanto, a comunidadepode fazer muito para favorecer essa conquista, pelo menos, deixando de interferir no desenvolvimento. As escolas, por exemplo, podem
  • 3. interferir no desenvolvimento da liberdade interna mediante influncias autoritrias e a imposio de cargas espirituais aos jovens excessivas; por outro lado, as escolas podem favorecer essa liberdade, incentivando o pensamento independente. S quando a liberdade externa e interna so constantes e conscienciosamenteperseguidas h possibilidade de desenvolvimento e aperfeioamento espiritual e, portanto, de aprimorar a vida externa e interna do homem. Albert Einstein Cincia e Religio Parte I Durante o sculo passado e em parte do que o precedeu, a existncia de um conflito insolvel entre conhecimento e crena foi amplamente sustentada. Prevalecia entre mentes avanadas a opinio de que chegara a hora de substituir, cada vez mais, a crena pelo conhecimento; toda crena que no se fundasse ela prpria em conhecimento era superstio e, como tal, devia ser combatida. Segundo essa concepo, a funo exclusiva da educao seria abrir caminho para o pensamento e o conhecimento, devendo a escola, como o rgo por excelncia para a educao do povo, servir exclusivamente a esse fim. provvel que raramente, ou mesmo nunca, possamos encontrar o ponto de vista racionalista expresso com tanta crueza; pois todo homem sensvel veria de imediato o quanto essa formulao tendenciosa. Mas conveniente formular uma tese de maneira nua e crua quando se quer aclarar a prpria mente com relao a sua natureza. verdade que a experincia e o pensamento claro so a melhor maneira de fundamentar as convices. Quanto a isto, podemos concordar irrestritamente com o racionalista
  • 4. extremado. O ponto fraco dessa concepo, contudo, e que asconvices necessrias e determinantes para nossa conduta e nossos juzos no podem ser encontradas unicamente nessa slida via cientifica. Pois o mtodo cientifico no nos pode ensinar outra coisaalm do modo como os fatos se relacionam e so condicionados uns pelos outros. A aspirao a esse conhecimento objetivo est entre as mais elevadas de que o homem e capaz, e certamente ningum pode suspeitar que eu deseje subestimar as realizaes e os hericos esforos do homem nessa esfera. igualmente claro, no entanto, que o conhecimento do que , no abre diretamente a porta para o que deve ser. Podemos ter o mais claro e completo conhecimento do que , sem contudo sermos capazes de deduzir disso qual deveria ser a meta de nossas aspiraes humanas. O conhecimento objetivo nos fornece poderosos instrumentos para atingir certos fins, mas a meta final em si a mesma, e o desejo de atingi-la devem emanar de outra fonte. E praticamente desnecessrio defender a idia de que nossa existncia e nossa atividade s adquirem sentido mediante o estabelecimento de uma meta como essa e dos valores correspondentes. O conhecimento da verdade como tal maravilhoso, mas to pouco capaz de servir de guia que no consegue provar sequer a justificaoe o valor da aspirao a esse mesmo conhecimento da verdade. Aqui defrontamos, portanto, com os limites da concepo puramente racional de nossa existncia. Mas no se deve presumir que o pensamento inteligente no possa desempenhar nenhum papel na formao da meta e de juzos ticos. Quando algum se d conta de que certo meio seria til para a consecuo de um fim, isto faz com que o prprio meio se torne um fim. A inteligncia elucida para ns a inter-relao entre meios e fins. O mero pensamento no pode, contudo, nos dar uma conscincia dos fins ltimos e fundamentais. Elucidar esses fins e valores fundamentais engast-los firmemente na vida emocional do indivduo; parece-me, precisamente, a mais importante funo que a religio tem a desempenhar na vida social do homem. E se
  • 5. algum pergunta de onde provm a autoridade desses fins fundamentais, j que eles no podem ser formulados e justificados puramente pela razo, s h uma resposta: eles existem numa sociedade saudvel na forma de tradies vigorosas, que agem sobre a conduta, as aspiraes e os juzos dos indivduos; eles existem, isto , vivem dentro dela, sem que seja preciso encontrar justificao para sua existncia. Nascem, no atravs da demonstrao, mas da revelao, por meio de personalidades excepcionais. No se deve tentar justific-los, mas antes, sentir, simples e claramente, sua natureza. Os mais elevados princpios para nossas aspiraes e juzos nos so dados pela tradio religiosa judico-crist. Trata-se de uma meta muito elevada, que, com nossos parcos poderes, s podemos atingir de maneira muito insatisfatria, mas que da um slidofundamento a nossas aspiraes e avaliaes. Se quisssemos tirar essa meta de sua forma religiosa e considerar apenas seu aspecto puramente humano, talvez pudssemos formul-la assim: desenvolvimento livre e responsvel do indivduo, de modo que ele possa por suas capacidades, com liberdade e alegria a servio de toda a humanidade. No h lugar nisso para a divinizao de uma nao, de uma classe, nem muito menos de um indivduo. No somos todos filhos de um s pai, como se diz na linguagem religiosa? Naverdade, mesmo a divinizao da humanidade, como totalidade abstrata, no estaria no esprito desse ideal. E somente ao indivduo que dada uma alma. E o sublime destino do indivduo antes servir que comandar, ou impor-se de qualquer outra maneira. Se considerarmos mais a substncia que a forma, poderemos ver tambm nestas palavras a expresso da postura democrtica fundamental. Ao verdadeiro democrata e to invivel idol