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  • RTOR 8 (1), pp. 30-57, 2018

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    SOBRE O JUZO, PANEGRICO DE EMANUELE TESAURO

    ON THE JUDGMENT, A PANEGYRIC WRITTEN BY EMANUELE

    TESAURO

    SOBRE EL JUICIO, PANEGRICO DE EMANUELE TESAURO

    Joo Adolfo Hansen

    Universidade de So Paulo

    (Brasil)

    joaoadolfohansen@gmail.com

    Resumo

    O ensaio trata de Il Giudicio (O Juzo), panegrico escrito em 1625 pelo conde e

    jesuta italiano Emanuele Tesauro, um dos mais importantes preceptistas da agudeza no

    sculo XVII. O panegrico faz o elogio de dois pregadores italianos, os jesutas Albrizzi

    e Orimbelli. Para especificar as propores retricas aplicadas aos sermes pelo juzo de

    cada um deles, Tesauro aplica o princpio do ut pictura poesis, um dos principais da arte

    potica de Horcio. Com ele, aplica trs espcies de oposies aos sermes: distncia,

    em termos de recepo de perto/recepo de longe; nmero de vezes (sermes para

    serem ouvidos uma vez; sermes para serem ouvidos vrias vezes);

    obscuridade/clareza: maior ou menor uso de metforas e outros tropos e figuras de

    estilo que efetuam obscuridade ou clareza.

    Palavras-chave: oratria sacra ut pictura poesis juzo metfora agudeza.

    Abstract

    The article is about Il Giudicio (The Judgement), panegyric written in 1625 by the

    Italian earl and jesuit Emanuele Tesauro, one of the most important preceptists of wit in

    XVIIth century. The panegyric praises two Italian preachers, the jesuits Albrizzi and

    Orimbelli. In order to specify the rhetorical proportions applied to the sermons by the

    judgement of each of them, Tesauro applies ut pictura poesis, one of the main principles

    of Horaces ars poetica. With it, Tesauro applies three kinds of oppositions to the

    sermos: distance, in terms of far or near reception; number of times of reception

    (sermons to be heard one time; sermons to be heard several times); obscurity/clarity

    (big or small quantity of metaphors and other tropes and figures of style that produce

    obscurity or clarity).

    Keywords: sacred oratory ut pictura poesis judgement metaphor wit.

    Resumen

    El artculo se refiere a El juicio, panegrico escrito en 1625 por el conde y jesuita

    italiano Emanuele Tesauri, uno de los ms importantes preceptistas del siglo XVII. El

    panegrico hace el elogio de dos predicadores italianos, los jesuitas Albrizzi y Orimbelli.

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    Para especificar las proporciones retricas aplicadas a los sermones por el juicio de cada

    uno de ellos, Tesauro utiliza el principio del ut pictura poesis, uno de los principales del

    arte potica de Horacio. Como este, aplica tres especies de oposiciones a los sermones:

    distancia, en trminos de recepcin de cercana/lejana; nmero de veces (sermones para

    ser odos una vez; sermones para ser odos varias veces); oscuridad/claridad: mayor o

    menor uso de metforas y otros tropos y figuras de estilo que provocan oscuridad o

    claridad.

    Palabras clave: oratoria sagrada ut pictura poesis juicio metfora agudeza.

    O texto Il Giudicio, do conde e jesuta italiano Emanuele Tesauro, tratadista do

    conceito engenhoso que viveu em Turim no sculo XVII como preceptor dos prncipes

    da cidade, um panegrico, discurso de gnero demonstrativo que faz o elogio de dois

    pregadores italianos, os jesutas Albrizzi e Orimbelli. Escrito em 1625 para ser falado

    como discurso acadmico, foi publicado em 1633 em Turim, no livro Panegirici sacri

    del molto reverendo padre Emanuele Tesauro. Hoje, talvez o autor seja mais conhecido

    pelo seu tratado, Il Cannocchiale Aristotelico, que teve a primeira edio em Turim, em

    1654, e muitssimas outras nos sculos XVII e XVIII, e tambm por outro livro

    doutrinrio, Idea delle perfette imprese, alm de textos de fico, poesia e teatro que

    foram lidssimos na Europa e nas colnias ibricas da Amrica nos sculos XVII e

    XVIII. A partir da segunda metade do sculo XVIII, Tesauro foi esquecido; na segunda

    metade do sculo XX, seus textos e os de autores do conceptismo engenhoso,

    desqualificados desde a segunda metade do sculo XVIII por iluministas, romnticos e

    positivistas como barrocos, rebuscados, fteis, de mau gosto etc., foram

    redescobertos e novamente lidos, quando se passou a fazer a arqueologia dos regimes

    retricos e poticos das letras e artes hoje classificadas neokantianamente como

    barrocas.

    Quando elogia os dois oradores, Tesauro recorre a Aristteles, Ccero, Horcio,

    Aftnio, Hermgenes e Pierre La Rame, expondo categorias dialticas e retricas da

    doutrina da inveno e recepo dos estilos das letras e artes seiscentistas,

    principalmente os estilos da oratria sacra. O Aristteles que fundamenta o discurso de

    Tesauro se evidencia nas definies que faz do juzo como categoria intelectual,

    recorrendo Retrica, ao Organon e a De anima. Tesauro lembra que o juzo o

    princpio de julgamento que fundamenta e regula o engenho dos autores na inveno,

    disposio e elocuo dos discursos, calculando a adequao dos estilos s matrias

    tratadas, s circunstncias e aos pblicos da pregao. Quando cita Aristteles,

  • Sobre O Juzo, panegrico de Emanuele Tesauro / Hansen, J. A.

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    pressupe as apropriaes dele pela teologia-poltica da Contrarreforma; tambm cita

    autores de retricas gregas que passaram a recircular na Europa em tradues editadas

    por Aldo Mancio a partir de 1502. Como se sabe, desde 1540 a Companhia de Jesus as

    utilizou no ensino de seus colgios, principalmente os progymnasmata ou exerccios

    preparatrios de Aftnio e Hermgenes, alm do tratado do ltimo sobre as ideias ou os

    28 estilos, Per Ideon, central na poesia de D. Lus de Gngora, de poetas metafsicos

    ingleses, como John Donne, e na prosa de Cervantes e outros autores dos sculos XVI e

    XVII. Tesauro cita Hermgenes falando de ideia para significar forma e estilo.

    Principalmente, Tesauro inventa o discurso do panegrico pressupondo as conceituaes

    da faculdade da inveno artstica, o engenho, decorrentes das redefinies das funes

    da retrica e da dialtica feitas a partir da segunda metade do sculo XVI

    principalmente por Pierre La Rame, Petrus Ramus, calvinista assassinado na matana

    do dia de So Bartolomeu.

    Como se sabe, as redefinies transformaram o estatuto da metfora. Antes simples

    tropo da elocuo ou termo de sentido figurado substituindo termo de sentido prprio,

    no mundo catlico a metfora passou a ser proposta como fundamento do pensamento e

    da linguagem iluminados pela luz natural da Graa inata que aconselha o juzo do autor

    no ato da inveno; simultaneamente, as redefinies propuseram que o engenho

    artstico dialtico-retrico, ou seja, que a dialtica, como lgica, ocupa-se da anlise e

    definio dos lugares-comuns que formam os argumentos e as premissas da inveno;

    retrica, definida como retrica restrita elocuo, cabem os tropos e figuras da

    ornamentao.

    Doutrinando o discurso como ornato dialtico, o texto de O Juzo entende o

    sermo inventado pelo engenho dos dois jesutas como discurso que pe em cena

    conceitos metafricos da teologia-poltica catlica analisados e definidos

    dialeticamente, no ato da inveno, pelo juzo de ambos os autores. Como faculdade

    analtica, o juzo perspicaz, isto , capaz de penetrar nas matrias do discurso para

    distinguir o que nelas confuso. Para fazer a anatomia ou a anlise delas, o juzo recorre

    s 10 categorias aristotlicas substncia, quantidade, qualidade, relao, paixo, ao,

    situao, tempo, lugar, hbito. Assim, o conceito arqutipo ou fantasma mental que

    figurado exteriormente por signos verbais, orais e escritos, resulta de um ato do juzo,

    que regula o engenho do autor como causa eficiente das imagens mentais e como signos

    que as figuram; pela aplicao das dez categorias aristotlicas, a dialtica permite

    inventar dez definies metafricas correspondentes; elocutivamente, a versatilidade do

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    autor, entendida como capacidade de velozmente achar imagens metafricas para os

    conceitos analisados, encontra, para cada uma das dez definies feitas, formulaes

    metafricas adequadas. No estilo que Tesauro chama de peregrino, tais formulaes

    so, quase sempre, mais e mais semanticamente distantes da definio inicial.

    Aplicando novamente a elas mais uma das categorias, o autor produz novas

    metaforizaes entendidas como o mirabile, a maravilha, que fa stupire, espantando o

    destinatrio. Quando as categorias so combinadas e cada uma das dez metforas

    obtidas traduzida por outras metforas semanticamente mais distantes, so efetuadas

    formulaes agudssimas, muitas vezes incongruentes e quase sempre hermticas. Com

    as dez categorias, que chama de ndice categrico, em Il Cannocchiale Aristotelico

    Tesauro prope que imaginemos, por exemplo, a composio de um poema de gnero

    baixo em que vamos recorrer ao termo ano para caracterizar o personagem como tipo

    inferior e ridculo. Quando examinamos o termo por meio das categorias por exemplo,

    a categoria substncia ou a categoria quantidade, que a primeira das acidentais

    podemos achar metforas de coisas pequenas em coisas elementares, como tomo e

    gro de areia; em coisas humanas, como pigmeu e unha; em animais, como

    formiga, pulga, mosca, caro, escama de peixe; em vegetais, como gro de

    trigo, e, ainda, em objetos artificiais, como os militares, umbigo do escudo etc. Por

    meio das categor