T253 - estudogeral.sib.uc.pt epigrafia... · Teatro Grego e Romano. 205 1José d’Encarnação...

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  • ana Livia Bomfim vieiraCLaudia BeLTro da rosa

    (orGanizadoras)

    so Lus2015

    TeaTro GreGo e romanoHistria, Cultura e Sociedade

  • Copyright 2015 by Ana Livia Bomfim Vieira & Claudia Beltro da RosaEditorao: Caf & LpisEditores: Claunsio Amorim Carvalho & Germana Costa Queiroz CarvalhoReviso: Claunsio Amorim CarvalhoDiagramao: Germana Costa Queiroz CarvalhoCapa: Marsio Amorim CarvalhoIlustrao da capa: Carta Arqueolgica. Gravura em metal. gua-forte e gua tinta, de Patrcia Horvat.Impresso: Halley S. A. Grfica e Editora

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)__________________________________________________________

    T253

    Teatro Grego e Romano: Histria, Cultura e Sociedade /. Ana Livia Bomfim Vieira; Claudia Beltro da Rosa (Organizadoras). - So Lus: Caf & Lpis; Ed. UEMA, 2015.

    284 p.

    Coletnea de ArtigosISBN 978-85-62485-48-0 (Caf & Lpis)ISBN 978-85-8227-083-7 (Editora UEMA)

    1. Teatro Greco-romano Histria. I. Veira, Ana Livia Bomfim. II. Rosa, Claudia Beltro da. III. Ttulo

    CDU 930.85:792(37/38)CDD 792.01

    __________________________________________________________ Ficha catalogrfica elaborada por:

    Marcelo Neves Diniz Bibliotecrio CRB 489/13

    Livro publicado com recursos provenientes do Edital n. 010/2012 - Programa de Apoio Publicao (APUB/FAPEMA).

    CASA EDITORIAL QUEIROZ CARVALHO LTDA.CNPJ 10630734/0001-08 - Inscrio Estadual n. [email protected] Lus - MA Telefone: (98) 3082-8871

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  • DIVISO DE EDITORAOAlan Kardec Gomes Pachco Filho

    EDITOR RESPONSVELAlan Kardec Gomes Pachco Filho

    CONSELHO EDITORIALAna Lucia Abreu Silva

    Ana Lcia Cunha Duarte Eduardo Aurlio Barros Aguiar

    Fabola Oliveira Aguiar Helciane de Ftima Abreu Arajo

    Jackson Ronie S da Silva Jos Roberto Pereira de Sousa Jos Sampaio de Mattos Jnior Luiz Carlos Arajo dos Santos

    Marcelo Cheche Galves Mrcia Milena Galdez Ferreira

    Maria Claudene Barros Maria Jos Nlo

  • Teatro Grego e Romano 205.

    1Jos dEncarnao

    Entende-se por epigrafia teatral o conjunto de epgrafes que, de forma directa ou indirecta, se prendem com o teatro como espao ou como espectculo e seus intervenientes.2 A expresso Portugal romano, desprovida de sentido numa acepo literal pois nunca houve um Portugal romano!... , pode considerar-se, porm, aceitvel se nela consubstanciarmos, de forma expedita, dois conceitos no contemporneos: o geogrfico e o histrico; ou seja, ter em linha de conta o que , hoje, o territrio portugus (por sinal, um dos territrios europeus cujas fronteiras se mantm inalterveis h mais de oitocentos anos) e, por outro lado, os vestgios que nele foram deixados pelos Romanos h mais de dois mil anos.

    Por conseguinte, ainda que essa rea compreenda o que foi, na Antiguidade, a provncia romana da Lusitnia, certo que no apenas a capital dessa provncia se situa, na actualidade, em territrio

    1 Esta nota insere-se na actividade desenvolvida no mbito dos objectivos propostos pelo projecto de investigao do grupo Epigraphy and Iconology of Antiquity and Medieval Ages, do Centro de Estudos Arqueolgicos das Uni-versidades de Coimbra e Porto (Unidade I&D n. 281 da Fundao para a Cincia e a Tecnologia).2 Expresso equivalente, epigrafia anfiteatral, tem sido amide utilizada, precisamente para identificar as inscries ligadas aos anfiteatros e aos espec-tculos neles realizados. Consagraram-na, entre outros, o projecto Epigrafia anfiteatrale dellOccidente Romano iniciado em Roma por Patrizia Sabbatini Tu-molesi (1988), que estudou os textos de Roma. No que concerne Pennsula Ibrica, coube a Joaqun Gmez-Pantoja a elaborao do respectivo volume (o VII da srie, 2009). Idntica iniciativa ainda se no tomou em relao ao teatro, decerto tambm porque so consideravelmente menos as epgrafes relacionadas com a actividade teatral.

    da ePiGrafia TeaTraL noPorTuGaL romano1

  • Jos dEncarnao206 .

    espanhol, como o espao geogrfico a norte do rio Douro estava administrativamente incorporado na provncia da Hispania Citerior.

    Qual , pois, o objectivo desta nota? Apresentar e comentar as epgrafes mais significativas de que tenho conhecimento e que se prendem com a actividade teatral nesta finisterra romana. No temos, diga-se desde j, riqueza substancial nesse domnio. Uma placa (Fig. 1) como a de Pompeios, que, afixada num odeon, explicita claramente quem o mandou fazer C(aius) Quinctius C(aii) f(ilius) Valg (us) / M(arcus) Porcius M(arci) f(ilius) / duovir(i) dec(urionum) decr(eto) / theatrum tectum / fac(iundum) locar(unt) eidemq(ue) prob(arunt) [CIL X 844]3 no encontrou, por enquanto, qualquer paralelo na Hispnia ocidental.

    Figura 1

    Encontrou-se um teatro, o de Olisipo; temos srias probabilidades de que outros hajam existido. Epgrafes que falem de representaes teatrais, quer as de ndole particular, encomendadas por senhores para gudio dos seus convidados, quer as que resultam de circunstancia-lismos poltico-sociais, pois que celebrar um acontecimento com re-presentaes teatrais era hbito corrente por todo o Imprio no h! Por enquanto pensamos ns! Primeiro, porque este Ocidente, embora afastado dos centros decisrios e culturais importantes, nun-ca deixaria seus crditos por mos alheias; depois, porque, sitas em contextos urbanos que perduraram ocupados at aos nossos dias, sem dvida que essas pedras com letras foram, naturalmente, aproveitadas nas construes seguintes3 Traduo: Gaio Quncio Valgo, filho de Gaio, Marco Prcio, filho de Mar-co, dunviros, por decreto dos decuries trataram da implantao e fiscaliza-ram a construo deste teatro coberto.

  • Teatro Grego e Romano 207.

    Converteu-se o teatro num difusor da ideologia imperial, me-Converteu-se o teatro num difusor da ideologia imperial, me-dida que esta se foi enraizando no seio da sociedade romana. Assi-nalou-o Zanker em termos bem adequados: o teatro como ponto de encontro entre o Princeps e o povo, escreveu Jos L. Jimnez Salvador (1993, p. 237). No admira, portanto, que todas as capitais conventuais, por exemplo, devessem ter teatro, precisamente para ser palco dessas manifestaes, em que, para alm dos aspectos artsticos propriamente ditos, as implicaes sociopolticas eram deveras considerveis.

    No se trata, este, de um tema de investigao indito; contudo, apesar de no volume 2 dos Cuadernos de Arquitectura Romana (1993) se ter optado por analisar, em exclusivo, os teatros romanos de Hispnia (), quase se pode apontar o ano de 2002 como o do sbito despertar do interesse por estas problemticas, se pensarmos que se reuniram, em Crdoba, nesse ano, umas jornadas sobre teatros romanos em Hispania (MRQUEZ; VENTURA, 2006), e Trinidad Nogales Basarrate superintendeu a edio de Ludi Romani, o catlogo de uma exposio realizada em Mrida, sobre esse tema dos espectculos na Hispnia romana, de 29 de julho a 13 de outubro de 2002, acerca do qual, na ocasio, se realizou tambm um Colquio Internacional, cujas conferncias so dadas a conhecer nesta obra.

    Nesse domnio se tem distinguido, entre outros, Alberto Ceballos Hornero, que traou, em 2004, uma panormica da documentao epigrfica relativa a tudo o que eram espectculos da Hispnia romana, temtica a que continuou a dedicar-se (2007; 2011).

    Os teatros nas cidades

    Por consequncia, bem provvel que trabalhos arqueolgicos de emergncia ou sistematicamente planeados venham dar a conhecer edifcios teatrais nas mais importantes cidades do Ocidente romano.

    Pax Iulia (a actual Beja, sita no Sul do territrio portugus), que foi capital do conventus Pacensis, t-lo-ia sem dvida, embora os vestgios materiais da sua existncia ainda se no tenham logrado encontrar.4Da cidade provm a inscrio de um eventual exodiarius, a que mais adiante me referirei.

    Em Bracara Augusta (a actual Braga, sita no Norte), que foi ca-pital do conventus Bracaraugustanus, pertencente provncia romana da

    4 Sugere Vasco Mantas (1996, p. 13) a sua localizao: Apesar de pouco nti-da, a estrutura do edifcio evidencia-se atravs da anlise estereoscpica [].

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    Hispania Citerior, existiu. Os seus vestgios arquitectnicos foram pos-tos a descoberto pela equipa da Universidade do Minho (MARTINS, RIBEIRO; MAGALHES, 2006); contudo, no so conhecidas, por enquanto, inscries relacionveis com o edifcio ou com a actividade teatral.

    De duas outras cidades importantes na poca romana, Aeminium (actual Coimbra) e Conimbriga (esta, seguramente, o ncleo urbano mais escavado do Portugal romano), poder sempre suspeitar-se que tiveram teatro; nada, porm, at ao momento de relacionvel se encontrou.5

    Para alm dos edifcios e cingindo-nos, de modo especial, ao tema desta nota haver que encontrar inscries. Podem ser monu-mentais, do jeito da que atrs se citou, de Pompeios, relativas, portanto, s circunstncias que envolveram a ereco do edifcio e s personalida-des que nisso intervieram. Essas sero, pois, referncias directas, como o seria tambm o achado de pedras com nmeros, a identificar como na actualidade os assentos. Podem ser, todavia, referncias indirectas: a epgrafe que assinala ter uma personalidade celebrado um aconte-cimento editis ludis scaenicis, promovendo representaes teatrais, ou uma singela tessera theatralis, de osso, de cermica ou mesmo metal, semelhana dos bilhetes de ingresso de agora

    No territrio que escolhemos para estudo, nada disso foi encon-trado at ao momento; mas, como se sublinhou, dado que as cidades continuaram a ser habitadas e a ter construes, o normal assistir-se ao aproveitamento das pedras antigas nas novas edificaes. Da que seja, hoje, de norma o acompanhamento arqueolgico de tudo o que renovao urbana.

    Um teatro em vora

    O caso de Ebora Liberalitas Iulia (vora) pode exemplificar o que acaba de se assinalar.

    5 O eixo determinado pela fachada oeste do criptoprtico coincide com o eixo transversal da estrutura que julgamos representar o teatro, escreveu Vasco Mantas, ao referir-se estrutura urbana de Aeminium (1992, p. 508); o tema no teve, porm, que eu saiba, ulterior desenvolvimento, dado que, em 1999, afirmou: De outros monumentos da cidade apenas restam indcios ou vestgios de difcil ou impossvel identificao, caso do teatro, que se levanta-ria a norte do frum (p. 386).

  • Teatro Grego e Romano 209.

    Na verdade, no s a anlise da morfologia do aglomerado urbano j sugeriu inclusive a mui provvel localizao do teatro,6 como a inscrio7 gravada no que considerei as costas de um assento do teatro, que se a minha interpretao est correcta, porque apresentei a reconstituio feita a partir de um fragmento nos d conta de que Philon ofereceu ao seu patrono, Aulus Castricius Iulianus, um subsellium, ou seja, o assento de mrmore que lhe ficava reservado.

    a primeira vez que se encontra um testemunho deste teor; da, a razo da minha cautela na proposta de interpretao que fiz.

    Regista-se a profisso de subselliarius na Roma antiga: veja-se, por exemplo, essa palavra no Oxford Latin Dictionary, que traz colao a epgrafe de Roma (CIL VI 6055), referente a Aulus Veturius Tiro, liberto de uma mulher, que dito supsellarius [sic]. Trata-se de singela placa, achada em columbrio modesto, e nada mais diz.

    Por seu turno, o termo subsellium, sem uma traduo especfica para portugus, usava-se, de modo especial, no foro judicial: homo a sub-selliis era a expresso que designava quem era costumeiro nos tribunais; versatus in utrisque subselliis identificava quem era versado em questes analisadas tanto do ponto de vista dos juzes como do dos advogados; e o citado dicionrio apresenta uma srie de testemunhos do uso da palavra nesse contexto.

    Ps-se-me, por conseguinte, a questo: justificava-se a oferta de um assento na cria? Pareceu-me que o mais ajustado seria optar por um cenrio de pompa, de solene privilgio e, para esse fim, nada me-lhor que um teatro. Havia, como se sabe, lugares marcados no teatro consoante a categoria social; considerei, pois, que seria essa a melhor opo. De resto, Victor Chapot, no artigo sobre subsellium que assina no Dictionnaire das Antiquits Grecques et Romaines dirigido por Ch. Da-remberg e Edm. Saglio (p. 1551-1552), peremptrio: No teatro, no anfiteatro ou no circo, designavam-se assim todas as filas de assentos que rodeavam em crculo o interior do edifcio (cavea), em degraus so-brepostos.

    6 A curva que a actual Rua de S. Mancos descreve sugere a curvatura da cavea de um teatro. A ser assim, o teatro romano de vora ficaria perfeitamente axializado com o frum (ALARCO, 1988, p. 185).7 Veja-se Encarnao (2008, p. 225). O estudo mais pormenorizado do texto apresentei-o em 1986-1987, p. 13-18. Acrescente-se agora Ceballos Hornero (2004, p. 616-617) (inscrio n. 150), que, no entanto, parece preferir, sem argumentos, a hiptese de insero da epgrafe num anfiteatro.

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    E esta ser, sem dvida, uma prova deveras interessante no apenas da existncia do edifcio como, inclusive, da importncia que lhe era concedida no seio da populao culta da cidade.

    O teatro de Lisboa

    , contudo, em Olisipo (Lisboa) que temos o teatro mais bem documentado e estudado desta zona ocidental do Imprio.8

    A zona foi abalada pelo terramoto de 1755 e s quando, em 1798, ali se abriram os alicerces para um prdio, se puseram a descoberto as suas runas, que o arquitecto Francisco Xavier Fabri desenhou, desenhos que Lus Antnio de Azevedo (1815) deu a conhecer.

    A reconstruo da cidade no teve, porm, em considerao a possibilidade de recuperao total do edifcio (os tempos e as mentalidades eram outros!...) e s a partir de meados do sculo XX se voltou a dar mais ateno s runas existentes, embora mui significativa parte das bancadas, por exemplo, jazam ainda hoje sob o casario.9 Tm sido praticamente impossveis as negociaes para que os proprietrios dos imveis aceitem vend-los ou permut-los.

    Figura 2

    8 Cf. Ceballos Hornero (2004, p. 593-596), (n. 140).9 Veja-se, por exemplo, em Jorge de ALARCO (1982) breve histria da des-coberta e descrio do monumento.

  • Teatro Grego e Romano 211.

    No que concerne aos vestgios epigrficos, teve-se a sorte de partes de uma das mais sugestivas epgrafes ter sido desenhada tambm; e os subsequentes trabalhos arqueolgicos, a cargo de equipas sob a tutela do Municpio, ajudaram a identificar os blocos que sobreviveram (FERNANDES; CAESSA, 2006-2007, p. 93-98) (Fig. 2).

    Era, de facto, uma grande inscrio arquitectnica, distribuda por blocos que se ajustavam. Nem todos foram encontrados. Ou seja: nunca tivemos a inscrio completa e logo Lus Antnio de Azevedo teve o cuidado de esclarecer:

    Como as relquias das letras que se descobriram da primei-ra inscrio foram ainda, num quadrngulo ESARIS, num semicrculo AESAR, alm de AVG e Is, assentmos, em consequncia e conformidade destas palavras e slabas, que devamos suprir na presente inscrio o que, de ordinrio, trazem semelhantes monumentos, que dizerem no s de quem o imperador filho, mas tambm declarar de quem neto, bisneto, trineto, e assim dos outros parentescos da por diante, como se prova de um grande nmero de inscries que a todos aqueles que tiverem lio desta matria so no-trias (AZEVEDO, 1815, p. 13-14).

    Na verdade, parece ter sido corrente e certamente por obedi-ncia a uma directriz imperial tendente a justificar, por hereditariedade, a legitimidade da sua assuno do poder que, nos monumentos em que se inclua a identificao do imperador Nero, viesse exaustiva re-o do imperador Nero, viesse exaustiva re- do imperador Nero, viesse exaustiva re-ferncia aos seus antepassados: trineto do divino Augusto, bisneto de Tibrio, neto de Germnico, filho do divino Cludio...10 O que resta, na actualidade, do monumento epigrfico de Olisipo confirma, em parte, essa possibilidade, at porque se reconhece a existncia de muitas lacu-nas, dado que a epgrafe se desenvolveria numa nica linha, a ocupar o proscnio em toda a sua largura.

    Uma possvel reconstituio seria, pois, a seguinte:

    NERONE CLAVDIO DIVI CLAVDI(i) F(ilio) GERMA[NICI C]AESA[RIS NEP(ote) / [TI(berii) C]AESARIS [PRON(epote) DIVI AVGVSTI ABN(epote) CAESARE] AVG(usto) GERMANICO PONT(ifice) MAX(imo)

    TRIB(unicia) POT(estate) III (tertia) IMP(eratore) III (tertium) CO(n)

    10 Cf. : registos 1249, 1360 e 1683, por exemplo, todos da provncia da Btica.

  • Jos dEncarnao212 .

    S(ule) II (secundum) DESIGNATO III (tertium) / PROSCAENIVM ET ORCHESTRAM CVM ORNAMENTIS / AVGVSTALIS PERPETVVS

    C(aius) HEIVS PRIMVS []

    Que assim se poderia traduzir:

    Sendo Nero Cludio Augusto Germnico filho do divino Cludio, neto do Csar Germnico, bisneto de Tibrio Csar, trineto do divino Augusto pontfice mximo, no 3. poder tribuncio, imperador pela 3. vez, cnsul pela 2. vez, designado pela 3. Gaio Heio Primo, augustal perptuo, (ofereceu?) o proscnio e a orquestra com ornamentos

    Reconhecemos, com Armn Stylow (2001, 145 citado em Hep, 11, 2005, n. 690), que a identificao do imperador se deve reconstituir em ablativo, a indicar a data da benemerncia do augustal, neste caso uma data bem precisa: pouco antes de 13 de outubro do ano 57, dia em que assumir o 4. poder tribuncio, mas j est designado cnsul pela 3. vez, cargo de que apenas ser empossado a 1. de janeiro de 58. No , de facto, vivel, porque fora do comum neste contexto, supor que se trata de uma dedicatria e h, pois, que corrigir todos os comentrios que vm sendo feitos nesse sentido.

    No h motivo, por outro lado, para se no continuar a pensar que existiu uma primeira construo, provavelmente em tempo de Augusto, contempornea, mui provavelmente, da urbanizao inicial da cidade no contexto poltico a que atrs se fez referncia e que esta interveno de Gaio Heio Primo se insere numa remodelao do edifcio.

    Tendo sido nomeado augustal perptuo uma honra de muito merecimento, que teve certamente justificao plena no papel por ele desempenhado no seio da sociedade olisiponense, ao nvel econmico, poltico e social11 , no quis tambm ele deixar os seus crditos por mos alheias e meteu ombros ao empreendimento de custear as despesas de construo do proscnio e da orquestra, com a decorao adequada. A monumental inscrio perpetuaria perante todos o seu nome e o seu gesto com mui justificada razo.

    11 Lus da Silva Fernandes (2007) teve ocasio de enquadrar esta famlia dos Heii no contexto romano, sublinhando a sua importncia.

  • Teatro Grego e Romano 213.

    Figura 3

    Fica-se, porm, com a sensao de que o texto poderia ter continuao: a presena dos nomes Cato e Heia no desenho de Fabri (Fig. 3), no final da epgrafe, pode sugerir que algo mais haveria e acaba por remeter, queiramos ou no, para a outra epgrafe citada por Azevedo e de que traz desenho (Fig. 4), em que libertos de Primus o homenageiam. Se, como parece, esse cipo12 foi colocado em lugar de

    12 No creio que possa ser pedestal de esttua, pois, no teatro, esttuas havia, sim, mas de divindades ou de imperadores em pose de deuses e estou a re-

    Figura 4

  • Jos dEncarnao214 .

    destaque no prprio teatro, tambm poderia ter acontecido que, alm de Primus, outros membros da sua famlia houvessem contribudo para a remodelao do edifcio.

    H, porm, outro vestgio epigrfico a merecer amplo realce: a placa incompleta com a representao, em baixo-relevo, de Melpomene, musa da tragdia (Fig. 5).

    Podemos sempre interrogar-nos acerca do lugar onde esse frag-mento de placa de revestimento se encontraria originalmente e se se faria acompanhar de outras musas e, qui, do prprio Apolo. No crvel, de facto, que apenas Melpomene tivesse tal honra. Contudo, o que tambm interessa acentuar a circunstncia de a identificao da musa vir em caracteres gregos! Trata-se, na verdade, de uma das poucas inscries gregas do corpus de inscries do Portugal romano e h que fazer notar que tamanha singularidade significa no apenas erudio

    cordar a escultura do teatro de Arles a representar Augusto como se de Apolo se tratasse

    Figura 5

  • Teatro Grego e Romano 215.

    e cultura, mas tambm uma atitude deveras assinalvel de cosmopoli-tismo, perfeitamente consentneo com o facto de os augustais serem libertos e de o cipo honorfico ter sido mandado lavrar por libertos cuja onomstica , tambm ela, etimologicamente grega.13

    Assume-se Olisipo, desta sorte, como ponto de encontro de culturas, um porto de mar que bem poderia fazer a ponte entre o Atlntico e o Mediterrneo Oriental.

    Nomes que so indcios

    - Ento e que nome vamos pr ao beb?- O pai disse-me que se chamasse Manuel Jos.- Apelido da me?- Marques; ela da famlia dos Marques.- Apelido do pai?- Ah esse eu no sei!... Ns chamamos-lhe os Torneiros, porque um

    dos antepassados deles era torneiro, mas o nome verdadeiro no sei!...- Ento, o mido fica Manuel Jos Marques Torneiro perorou o

    funcionrio do Registo Civil.

    A cena passou-se em 1946, em Portalegre. Nessa altura, era o almocreve que, uma vez por ms, quando ia cidade, registava as crianas nascidas nas redondezas. E, como se calcula, o pai no gostou da opo; mas, apesar de ter ficado zangado com o almocreve, acabou por chamar de Marques Torneiro a todos os filhos homens.

    Refiro o caso, que verdico, porque frequente ainda nos dias de hoje, como o seria em tempo de Romanos: a profisso transformar-se,

    13 Transcrevo a verso de (registo n. 21 285): - - - - - - / [Augu]stali / perpetuo / C(aio) Heio C(ai) l(iberto) / Primo / C(aius) Heius Primi lib(ertus) / Nothus et Heia / Primi l[ib(erta)] Elpis / Heia No-tha Secunda / C(aius) Heius Nothi f(ilius) Gal(eria) / Primus Ca[t]o / Heia Nothi f(ilia) Chelid(a) / T(itus) [H]eius Nothi f(ilius) Gal(eria) / Glaphyrus Nothian/[us? - - -] / - - - - - -. Os seus libertos aqui identificados so: Gaio Heio Primo, Heia Elpis e Heia Notha Secunda; Gaio Heio Primo Cato, filho de Notho, j cidado, uma vez que est inscrito na tribo Galria (de Olisipo); registam-se, ainda, Heia Qulida, filha de Notho, e seu irmo, Tito Heio Gla-firo Nothiano [?], tambm ele j cidado inscrito na tribo Galria. E outros nomes haveria. Trata-se, por conseguinte, de uma homenagem familiar, ape-nas passvel de estar integrada no edifcio, devido benemerente contribuio dada pelo seu patrono.

  • Jos dEncarnao216 .

    a dado momento, em nome prprio. E serve de introduo explicativa ao que se vai aduzir de seguida.

    Exodiarius

    Figura 6

    Foi dado a conhecer por Frei Manuel do Cenculo, atravs de desenho constante no seu lbum,14 o fragmento de uma placa funerria (Fig. 6), onde se l o seguinte (apresento a leitura interpretada):

    D(is) M(anibus) S(acrum) / PATRICIVS /EXODIARIVS / ANNORVM / []

    14 Este arcebispo de vora foi notvel coleccionador de antigualhas, que reu-niu desde os tempos em que esteve em Lisboa at ir para Beja, onde juntou uma coleco, que foi o embrio do actual Museu regional de Beja. Quando foi nomeado arcebispo de vora, levou consigo boa parte da coleco, hoje no acerbo do Museu dessa cidade. Foi, porm, meticuloso desenhador das peas que ia ajuntando e nesses seus desenhos podemos confiar, uma vez que, comparando-os com os monumentos existentes, se verifica essa fideli-dade aos mais imperceptveis pormenores; da que, em relao aos objectos arqueolgicos que desenhou, nomeadamente inscries, ns possamos garan-tir que o erro ser mnimo, to grande foi o rigor com que tudo registou. O seu lbum que cito na bibliografia religiosamente guardado na Biblioteca Pblica de vora constitui, por isso mesmo, uma importante fonte histrica. Cf.: Encarnao (2010, p. 47); e Morais (2009).

  • Teatro Grego e Romano 217.

    Reflecti sobre a epgrafe e dei dela, em 1984 (IRCP 247), a seguinte traduo:

    Consagrado aos deuses Manes. (Aqui jaz) Patrcio,actor, de anos. []

    Analisando o desenho de Frei Manuel do Cenculo, comentei, acerca da leitura do cognomen de Patricius, que Emlio Hbner (CIL II 65) interpretara como [E]XOD[IA]RIVS, embora, primeira vista, se leia, de facto, IXODINPIVS (com NP em nexo):

    Efectivamente, no desenho de Cenculo, da primeira letra resta a metade inferior: uma haste vertical com vestgio da barra mediana poder ser, portanto, um E cuja barra infe-rior estivesse pouco ntida; os AA no so traados, pelo que a letra aps o primeiro I pode ser A com a haste da direita bastante prolongada, chegando a tocar a letra seguinte que tambm poder ser R parece-nos ver a haste oblqua infe-rior; do S final distingue-se a terminao de baixo.

    Atendendo habitual preciso de Frei Manuel do Cenculo, a proposta de interpretao vivel e s h que esperar que o fragmento se reencontre para melhor podermos ajuizar da sua viabilidade. Em todo o caso, na sequncia do que atrs se disse a propsito de o termo indicativo de uma profisso poder vir a ser integrado como antropni-mo, poderia pensar-se que a traduo mais correcta seria, no a que eu propus, mas sim Patrcio Exodirio, funcionando a palavra como cogno-men; neste caso, parece-me que no, atendendo a que no h praenomen e Patricius, usado isoladamente se adequa a uma utilizao como nome nico e no como nomen, indiciando estatuto de escravo.15 Estaremos, pois, mui provavelmente, em presena de um exodirio, o que acres-centa populao de Pax Iulia um nvel cultural deveras significativo.

    Na verdade, quanto me dado saber, apenas mais uma referncia explcita a um exodiarius se registar no conjunto da epigrafia imperial: trata-se de uma clebre inscrio em verso, de Roma (CIL VI 9797), datada do ano 126, em que (se bem a interpreto) Urso se vangloria das suas faanhas, sublinhando, nas linhas 19 e 20: nec semel sed saepius

    15 Remeto para Kajanto (1982, p. 313), que inclui este antropnimo entre os cognomes, informando que, na Pennsula Ibrica, no conjunto do CIL, h 8 testemunhos em 20. Esse estatuto servil parece ter sido tambm o dos trs Patricii da necrpole de Quinta de Marim (Olho): IRCP 49 e 50.

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    cuius libenter dicor exodiarius, no uma s vez mas amide que de muito boamente sou chamado exodirio.16

    Tambm no sero frequentes as referncias literrias ao exodium, pequena pea, do jeito de uma farsa, que finalizava, completando-a gra-ciosamente, uma representao teatral. No Oxford Latin Dictionary (s. v. exodium), alude-se a uma passagem da Vida dos Doze Csares, de Suet-nio, concretamente no final do captulo XLV referente ao imperador Tibrio, em que se faz lbrica citao de uma atelana, remetendo, pois, para as ento chamadas exodia Atellanica. E, na verdade, se dificil-mente encontraremos exdio num dicionrio de lngua portuguesa, atelanas est consignado como farsas populares em uso entre os antigos Romanos. ainda em Suetnio, na vida de Domiciano (X, 4), que se l: Occidit et Helvidium filium, quasi scaenico exodio sub per-sona Paridis et Oenones divortium suum cum uxore taxasset (Man- (Man- (Man-Man-Man-dou matar tambm Helvdio filho, com o pretexto de que numa repre-sentao intitulada Paris e Oenone censurava o divrcio do prncipe).17

    Sirva-nos este pequeno excurso de aperitivo para uma concluso: caso, como parece, Patricius foi exodiarius, populao de Pax Iulia ter mesmo de atribuir-se um estatuto cultural deveras elevado, se atendermos s caractersticas atrs citadas dos exdios: pequenas peas, de algum sabor irnico e crtico, destinadas a transmitir ao espectador forte dose de boa disposio. Alis, isso mesmo se pode depreender da seguinte explicao, a propsito de uma stira de Juvenal (III, 175), aduzida por Grifi (p. 27):

    Exodiarius apud veteres in fine ludorum intrabat, quod ridiculus foret;ut quidquid lacrymarum atque tristitiae coegissent ex tragicis affectibus,

    huius spectaculi risus detergeret.

    O que, em traduo livre, quer dizer o seguinte:

    Entre os antigos, o exodirio entrava no final das peas, para serridculo; a fim de que, se trgicos sentimentos tivessem provocadolgrimas e tristeza, o riso deste espectculo os fizesse desaparecer.

    16 Esta inscrio frequentemente citada, desde h muito. Veja-se, a ttulo de exemplo, que j vem comentada no livro de Grifi (1847, p. 28-29). 17 Sigo a traduo indicada na bibliografia; contudo, facilmente se verificar que se trata de uma verso um tudo-nada livre, que no respeita a preciso terminolgica, no caso vertente do tipo de representao.

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    J vimos que, com muita verosimilhana viro a encontrar-se, um dia, sob as actuais construes de Beja os restos de um edifcio teatral. No era obrigatrio que o exodirio necessitasse de um palco formal para representar as suas pantomimas (passe o termo); mas no restam dvidas de que, a ser correcta a interpretao que vimos dando a esta epgrafe, o seu testemunho refora substancialmente essa realidade.18

    Thymelicus

    Se se procurar o significado de Thymelicus, decerto a primeira ima-gem que nos aparece pode ser a de uma borboleta, a Thymelicus sylvestris, pertencente ao gnero Thymelicus, famlia das Hesperiidae. Num comum dicionrio de Latim, ocorrer encontrar-se o antropnimo feminino Thymele, Tmele; contudo, no Oxford Latin Dictionary, algo se acrescenta, com base em Marcial (1.4.5) e em Juvenal (6.66): nome de uma famosa bailarina, tida como o expoente mximo da sua profisso (a famous dancer, taken as typical of her profession). Vem, de seguida, o voc-). Vem, de seguida, o voc-). Vem, de seguida, o voc-bulo Thymelicus, directamente colhido do grego e referente dana e ao teatro of or connected with (dancing in) the orches-tra of a theatre , como adjectivo ou, em funo substantiva, como danarino, a performer in such dancing. E transcrevem-se passagens de Apuleio (Apol. 13), Vitrvio (5.7.2) e Ulpiano (Dig. 3.2.4), em que a palavra surge, assim como da inscrio CIL VI 32 323 (que o co-mentrio acerca dos V Jogos Seculares), onde se refere a realizao de representaes gregas timlicas no teatro de Pompeu, terceira hora: (ludos) graecos thymelicos in theatro Pompei h(ora) III (tertia).

    No admira, pois, que, tendo encontrado numa inscrio19 o cog-nomen Thymelicus, eu o tivesse relacionado, de imediato, com a actividade teatral (ENCARNAO 2010, 126-130). O texto o seguinte:

    18 Ceballos Hornero (2004) tambm inclui esta epgrafe no seu livro: p. 383-384 (inscrio n. 66). Cita a opinio de Mariner segundo a qual Patricius po-deria actuaria com o seu grupo pela Pennsula Ibrica, acabando por morrer em Pax Iulia; isso prova, conclui, que havia a um teatro, tal como, alis, cita, opinio de Hauschild de que pelo menos em cada capital conventual ha-veria um teatro permanente onde a populao poderia assistir regularmente representao de ludi.19 Vide: , registo 22 859. Fig. 7.

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    Iulia L(ucii) f(ilia) Modesta an(norum) XIIX (duodeviginti) /Livia Nymphe an(norum) XXXX (quadraginta) / h(ic) s(itae) s(unt) /

    L(ucius) Iulius Thymelicus sibi filiae et / uxori

    Aqui jazem Jlia Modesta, filha de Lcio, de 18 anos;Lvia Ninfe, de 40 anos.

    Lcio Jlio Timlico para si, para a filha e para a esposa.

    Procede esta placa (de 43,3 cm de altura e 92 de comprimento) da aldeia de Souto da Casa, concelho do Fundo, um concelho bem rural da actual Beira Baixa portuguesa. Perto, em tempo de Romanos e com alguma relevncia poltica, econmica e social, apenas a civitas Igaeditanorum.20 No se encontrou ainda qualquer vestgio de teatro entre as muitas descobertas que na cidade se vm fazendo (CARVALHO 2009). E no se ps sequer, por enquanto, a hiptese de o vir a encontrar. No sabemos, porm, donde oriundo Timlico, ainda que a sua onomstica e o cognomen de sua mulher grafado maneira grega nos deem quase a garantia de que estamos em presena de uma famlia de libertos. Ter, no entanto, a atribuio do cognomen Thymelicus algo a ver com uma tradio teatral ou com o seu desempenho como actor ou bailarino, porventura enquanto escravo e ainda que a ttulo privado ou a nvel da comunidade local? Nunca o poderemos garantir; como tambm nunca poderemos garantir o contrrio! Que estamos perante um nome invulgar, pleno de mistrio e mui sugestivo, isso no se pode negar. Mais um caso em que a profisso determinou a onomstica? E por que no?

    CONCLUSO Estavam os teatros nas cidades. s cidades romanas foram

    sucedendo, salvo raras excepes (como no caso de Conimbriga), outras cidades ao longo dos tempos. Pedras para as novas construes havia-as, por isso, ali mesmo, mo de semear, e muitas delas j aparelhadas, a jeito de serem incorporadas nas paredes. Ento as pedras com letras eram normalmente bem facetadas e mesmo medida!...

    Essa, a razo primordial para que, neste Ocidente peninsular a que demos, por comodidade, o nome de Portugal romano, a epigrafia teatral seja escassssima. De vora suspeitamos que um fragmento de 20 Vide o mais recente estudo sobre a sociedade e a cultura nesta cidade: S 2007.

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    mrmore possa ter pertencido ao assento no teatro de um notvel local. De Lisboa logrou-se retirar uma srie de blocos pertencentes a uma das epgrafes mais significativas, que redunda, afinal, em prestgio do augustal benemerente, dado que o seu nome ficava bem vista de todos no teatro para cuja reabilitao ele, a expensas suas, largamente contribura. Por tal motivo, nesse mesmo espao colocaram inscrio em sua honra. E como o teatro denunciava inspirao, bem presentes estariam ali as musas, de que se recolheu o baixo-relevo de uma, Melpomene, a da tragdia.

    Serviu-nos, por fim, na falta de outros elementos, a onomstica: se Patricius, de Pax Iulia, foi realmente um exodiarius, estavam os habitantes da cidade dotados de elevado grau de cultura; se um Thymelicus teve tal nome por ser actor, h-de procurar-se local onde actuasse, a no ser que de actor ambulante se tratasse e, nesse caso, qualquer local lhe serviria para se fazer ouvir.

    A expectativa? Que o acompanhamento metdico dos trabalhos em meio urbano, designadamente nas cidades que foram romanas, venha a mostrar-nos esses tais monumentos epigrafados a dar conta de que as famlias locais tambm sabiam que as representaes no teatro (editis ludis scaenicis) constituam imprescindvel veculo de inigualvel promoo social.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS (COMENTADAS)

    ALARCO, Jorge de. O Domnio Romano em Portugal, Mem Martins: Edies Europa-Amrica, 1988.Sntese do que ento se conhecia sobre a presena romana no territrio actualmente portugus: economia, sociedade, cultura, urbanismo, organizao territorial... a edio em lngua portuguesa do I vol. de Roman Portugal, Warminster, 1988.

    ALARCO, Jorge, O teatro romano de Lisboa. Actas del Simposio El Teatro en la Hispania Romana, Badajoz, 1982, 287-302.Uma das primeiras snteses sobre a problemtica arqueolgica e histrica suscitada pelos vestgios at ento postos a descoberto.

    AZEVEDO, Lus Antnio de. Dissertao Critico-Filologico-Historica sobre o verdadeiro anno, manifestas causas, e attendiveis circumstancias da ereco do

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    Tablado e Orquestra do antigo Theatro Romano, descoberto na excavao da Rua de So Mamede perto do Castelo desta Cidade, com a intelligencia da sua Inscripo em honra de Nero, e noticia instructiva doutras Memorias alli mesmo achadas, e atgora apparecidas. Lisboa, 1815.O ttulo, bem maneira da poca, d logo o resumo do seu contedo. Como natural numa cincia em fase de nascimento, a fantasia prende-se com a realidade e constante o recurso s fontes literrias antigas.

    CARVALHO, Pedro C., O frum dos Igaeditani e os primeiros tempos da civitas Igaeditanorum (Idanha-a-Velha, Portugal). Archivo Espaol de Arqueologa, 82, p. 115-131, 2009.Um dos trabalhos mais vlidos sobre esta civitas, na medida em que, com base nos novos dados trazidos pelas escavaes que o autor diri-giu, se faz uma concatenao com os conhecimentos anteriores. Dis-ponvel em: .

    CEBALLOS HORNERO, Alberto e David, La nominacin de los espectculos romanos en la epigrafa provincial del Occidente latino, Emerita, 79/1, p. 105-130, 2011.Resumo: Existem 279 espectculos mencionados em 234 inscries latinas, de cronologia alto-imperial, que provm das provncias do Oci-dente romano, excluda Itlia. O objectivo dos autores estabelecerem que frmulas latinas se utilizavam para designar a edio dos espectcu-los: munera gladiatorum, uenationes, ludi scaenici, circenses e certamina pugilum.

    CEBALLOS HORNERO, Alberto, Geografa y cronologa de los ludi en la Hispania romana, Csaraugusta, 78, p. 437-454, 2007.Integrao geogrfica e histrica da realizao dos ludi documentados.

    CEBALLOS HORNERO, Alberto, Los Espectculos en la Hispania Romana: La Documentacin Epigrfica, 2 tomos, Cuadernos Emeritenses 26, Museo Nacional de Arte Romano, Mrida, 2004.A mais completa colectnea de inscries que, directa ou indirectamente, se relacionam com os espectculos (no teatro, no anfiteatro e no hipdromo). Inclui tambm as duvidosas e apresenta resumo das informaes que d cada uma.

  • Teatro Grego e Romano 223.

    CENCULO, Frei Manuel do. Manuscrito da Biblioteca Publica de vora: lbum de Antiguidades Lusitanas e Luso-romanas e Lapides do Museu Sesinando Cenculo Pacense [Cdice CXXIX/1-14].Um dos preciosos manuscritos deixados por este bispo amante de antiguidades. D o desenho bastante rigoroso de cada uma das peas da sua coleco e anota o local de achado. Vrias das peas que desenhou se perderam, o que torna estes manuscritos de muito maior valia.

    ENCARNAO, Jos d, Epigrafia As Pedras que Falam. 2 ed., revista e aumentada, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, mar. 2010.Manual para o estudo da Epigrafia, designadamente da Epigrafia Romana. Encara-se o monumento epigrfico como singular fonte histrica e do-se exemplos.

    ENCARNAO, Jos d, IRCP 25 anos depois. Revista Portuguesa de Arqueologia. 11/2, p. 215-230, 2008. Disponvel em: .Apontamentos sobre achados epigrficos mais significativos ocorridos aps 1984 (data da publicao de IRCP). No caso da epgrafe aqui estudada, apresentada a correspondente bibliografia.

    ENCARNAO, Jos d. Religio e cultura na vora dos Romanos. A Cidade de vora 69-70, p. 5-19, 1986-1987. Disponvel em: .

    ENCARNAO, Jos d. Inscries Romanas do Conventus Pacensis [IRPC]. Coimbra, 1984. [O nmero indica o nmero da inscrio no catlogo].O I volume contm o estudo tanto quanto possvel exaustivo de cada um dos quase 700 monumentos epigrficos deste conventus, que abarca todo o Sul de Portugal. Analisam-se, no II, as informaes que eles fornecem sobre os diversos aspectos da aculturao romana nesse territrio. Esto disponveis em: a introduo, a concluso geral e o ndice.

    FERNANDES, Ldia; CAESSA, Ana. O proscaenium do teatro romano de Lisboa: aspectos arquitectnicos, escultricos e epigrficos da

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    renovao decorativa do espao cnico. Arqueologia e Histria (Revista da Associao dos Arquelogos Portugueses) 58/59, p. 83-102, 2006-2007.Ldia Fernandes a arqueloga encarregada deste teatro e nele tem feito escavaes; Ana Caessa tambm tcnica superior no municpio olisiponense, tendo a seu cargo a anlise das epgrafes que vo sendo encontradas. Este , pois, um trabalho que actualiza os dados conhecidos.

    FERNANDES, Lus da Silva, C. Heius Primus, augustalis perpetuus. Thtre et mise en scne du pouvoir Olisipo. In : MAYER I OLIV, Marc; BARATTA, Giulia; GUZMN ALMAGRO, Alejandra (edit.). Acta XII Congressus Internationalis Epigraphiae Graecae et Latinae, Barcelona, p. 483-490, 2007. Disponvel em: .Panormica dos testemunhos epigrficos acerca da famlia dos Heii em nvel de todo o Imprio Romano, com vista a melhor se compreender o seu papel benemerente e a sua posio sociopoltica e econmica em Olisipo.

    GMEZ-PANTOJA, Joaqun L. Epigrafia Anfiteatrale dellOccidente Romano. VII Baetica, Tarraconensis, Lusitania, Roma: Edizioni Quasar, 2009.Corpus bem estruturado de todas as epgrafes relativas aos espectculos que se realizaram nos anfiteatros das provncias hispnicas.

    GRIFI, Luigi. Sulle iscrizioni intorno a teatri antichi e a giuochi in essi rappresentati ragionamento primo. Roma: Tipografia delle Belle Arti, 1847.Vale o livro no apenas pelas informaes que d data dos primeiros tempos do grande interesse pelos monumentos epigrficos mas tambm pelas consideraes e citaes com que recheia os seus comentrios. uma obra acessvel: Google eBook.

    HAUSCHILD, Theodor. La situacin urbanstica de los teatros en la Pennsula Ibrica. El Teatro en la Hispania Romana. Badajoz, p. 95-98, 1982.

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    Arquitecto de formao, arquelogo por paixo, T. Hauschild constitui, sem dvida, um dos investigadores mais sabedores acerca da relao entre os edifcios pblicos e o urbanismo romanos. Tambm estudou exaustivamente o teatro romano de Lisboa (Madrider Mitteilungen, 31, p. 348-392, 1990).

    HISPANIA EPIGRAPHICA [HEp]. Revista editada pela Universidade Complutense de Madrid.Indica-se, geralmente, o nmero, a data da publicao e o nmero da inscrio. Existe uma verso on line: .

    JIMNEZ SALVADOR, Jos L., Teatro y desarrollo monumental urbano en Hispnia. Cuadernos de Arquitectura Romana, 2, p. 225-238, 1993.A integrao do teatro no tecido urbano. Disponvel em: .

    KAJANTO, Iiro. The Latin Cognomina, Roma, 1982 (reimp.).A obra ainda clssica sobre os cognomes latinos, porquanto regista todos os testemunhos documentados no conjunto do CIL (Corpus Inscriptionum Latinarum, obra monumental de recolha de todas as inscries romanas, levada a cabo pela Academia de Cincias de Berlim).

    MANTAS, Vasco Gil. O espao urbano nas cidades do Norte da Lusitnia. In: RODRGUEZ COLMENERO, Antonio (coord.). Los Orgenes de la Ciudad en el Noroeste Hispnico, I, Lugo, p. 355-391, 1999.O autor tem-se interessado pela problemtica do urbanismo romano; nesta comunicao faz o ponto da situao acerca do que nesse mbito se pode apontar como viveis hipteses de anlise espacial.

    MANTAS, Vasco Gil. Teledeteco, cidade e territrio: Pax Iulia, Arquivo de Beja, I (3. srie) p. 5-30, 1996.Tendo sido um dos primeiros arquelogos portugueses a recorrer aos dados colhidos mediante a teledeteco, o autor aplica o sistema ao caso da cidade de Pax Iulia.

    MANTAS, Vasco Gil. Notas sobre a estrutura urbana de Aeminium, Biblos, 68, p. 487-513, 1992.

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    Uma das mais sugestivas reflexes acerca do modo como a cidade de Aeminium (hoje, Coimbra) se implantou no terreno, com especial destaque para o circuito da muralha e a localizao dos principais edifcios pblicos romanos.

    MRQUEZ MORENO, Carlos; VENTURA VILLANUEVA, ngel (coords.). Jornadas sobre Teatros Romanos en Hispania, Crdoba, 2006.Actas desta reunio cientfica, realizada em Crdoba, em 2002, uma das primeiras que escolheu o teatro, nos seus diversos aspectos, como tema primordial de anlise.

    MARTINS, Manuela; RIBEIRO, Jorge; MAGALHES, Fernanda. A arqueologia urbana em Braga e a descoberta do teatro romano de Bracara Augusta, Forum, 40, p. 9-30, jul./dez. 2006. Disponvel em: .A primeira notcia sobre a identificao das estruturas do teatro e sua integrao na malha urbana da cidade.

    MORAIS, Rui. Um caso exemplar: Cenculo e o coleccionismo no Portugal de Setecentos, Cadmo, 19, p. 209-228, 2009.Uma perspectiva sobre a actividade de Frei Manuel do Cenculo enquanto coleccionador de antiguidades.

    NOGALES BASARRATE, Trinidad [ed.], Ludi Romani (Espectculos en Hispania Romana), Museo Nacional de Arte Romano, Mrida, 2002. Recenso em Conimbriga, 42, p. 237-242, 2003 Disponvel em: .

    S, Ana Marques de. Civitas Igaeditanorum: Os Deuses e os Homens, Municpio de Idanha-a-Nova, 2007.Primeira grande actualizao do livro de D. Fernando de Almeida sobre Egitnia (Idanha-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova), feita a partir de cuidada anlise das epgrafes na sua totalidade. Os captulos de sntese tratam, de modo especial, da sociedade, da cultura e da religio. Realce para as excelentes fotografias, de Delfim Ferreira, cuja memria desta forma tambm se homenageia.

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    STYLOW, Armn U. Las estatuas honorificas como mdio de Autorrepresentacin de las elites locales de Hispania. In: NAVARRO CABALLERO, Milagros; DEMOUGIN, Sgoulne (coords.), lites Hispaniques, Bordus, p. 141-155, 2001.Discute o facto de conseguir autorizao para levantar uma esttua em lugar pblico ser honra reservada apenas a alguns notveis locais.

    SUETNIO. Os Doze Csares, Trad. e notas de Joo Gaspar Simes. Lisboa, Editorial Presena, 1979.Uma das verses em lngua portuguesa desta obra clssica, onde amide, como se sabe, a realidade se mescla com o boato e a intriga palaciana constitui tema dominante.

    TUMOLESI, Patrizia Sabbatini. Epigrafia Anfiteatrale dellOccidente Romano: I. Roma, Roma: Edizioni Quasar, 1988. [Recenso in: Conimbriga, 27, p. 216-220, 1988].O primeiro grande corpus epigrfico sobre este tema dos gladiadores e dos espectculos levados a efeito em Roma nos anfiteatros. Um olhar arguto sobre um mundo verdadeiramente insuspeitado, que tambm escolheu a epgrafe como forma de eternizar sentimentos e memrias.