Tempo, espaço urbano e melancolia em “Viagem aos seios de ... · Tempo, espaço urbano e...

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  • Tempo, espao urbano e melancolia em Viagem aos seios de Dulia1, de Anbal Machado

    Time, urban space and melancholy at Viagem aos seios de Dulia, by Anbal Machado

    Carlos Augusto Magalhes2

    RESUMO: O conto Viagem aos seios de Dulia, de Anbal Machado, analisa a trajetria de Jos Maria. A aposentadoria o momento que possibilita ao melanclico funcionrio pblico do Rio de Janeiro fazer um balano de vida. Ele constata que contemplou mais que experimentou a vida. A ausncia de prazer, de vnculos afetivos e a interao superficial com o presente reafirmam o vazio da vida e tambm caracterizam a prpria melancolia. H um elo com o passado e com uma cidadezinha de Minas Gerais, tempo-espao de uma experincia prazerosa com Dulia. Equivocadamente, Jos Maria resolve voltar em busca da namoradinha e, principalmente, da energia da adolescncia distante. A dificuldade em lidar com o tempo se reflete tambm no descompasso entre a vivncia do tempo biolgico e do tempo existencial. Palavras-chave: Melancolia; Tempo-espao; Passado; Espetculo; Rio de Janeiro. ABSTRACT: The short story Viagem aos seios de Dulia, by Anbal Machado, analyses Jos Marias life story. The retirement is the moment that makes it possible for a melancholic public servant from Rio de Janeiro to take stock of his life. He realizes that he spent most of his life gazing instead of enjoying life. The absence of pleasure, of affective entailments and the superficial interaction with the present re-states his empty life and also depicts his own melancholy. There is bond with the past and with a tiny city in the state of Minas Gerais, time-space of a pleasant experience with Dulia. Mistakenly, Jos Maria decides to go back to look for his sweetheart and mainly to look for the energy of his lost and far adolescence. The difficulty to deal with time can also be seen in the mismatch with the time which also becomes clear in the unsteadiness between the biological time and existential one. Keywords: Melancholy; Time-space; Past; Event; Rio de Janeiro.

    1Disponvel em: < http://www.cocminas.com.br/arquivos/file/Viagem%20aos%20seios%20de%20Duilia.pdf>. O conto objeto de estudo neste trabalho da quarta edio do livro A morte da porta-estandarte e outras histrias, de 1972. Todas as transcries do conto so dessa edio e aparecem no texto entre aspas, seguidas do nmero da pgina, colocado entre parnteses. As edies mais recentes da obra apresentam-se com o ttulo A morte da porta-estandarte e Taiti, a garota e outras histrias. 2 Professor Titular Pleno da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, Dept de Cincias Humanas, Campus I, Salvador. Atua no curso de Letras e no Programa de Ps-Graduao em Estudos de Linguagens PPGEL. E-mail: [email protected]

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    Aqueles cinco ou seis homens se ressentem, sobremaneira, de sua baixa estatura. O

    diminuto tamanho lhes causa incmodo, irritao, transtorno. A convivncia com a

    irremovvel condio no pacfica, assumindo, ao contrrio, ares e formas de intensa

    exasperao. O mais curioso que esses cariocas Fagundes, Gorgulho, Espadim, Vtor,

    Josias no aceitam as prprias limitaes e jamais se conformam com o elenco de perdas a

    que estariam sujeitos e expostos no dia a dia urbano. So indisfarveis, incontornveis os

    constantes encontros e contatos, com vistas a uma ajuda mtua, mas o companheirismo e o

    compartilhamento solidrio dos dissabores passam a ser olhados noutra direo, a partir do

    momento em que eles chegam concluso de que o convvio e a partilha das desditas s

    fazem realar a pequena altura de cada um e do grupo como um todo. Enfim, decidem se

    separar. Melhor que cada qual, por seu turno, venha a cuidar da prpria vida.

    com a disperso que ganha visibilidade o sexto rapaz do grupo, o condutor das

    aventuras e infortnios daqueles liliputianos3 errantes urbanos, hipoteticamente remetidos ao

    mundo das margens, no caso, por exibirem uma estatura destoante do padro de homem eleito

    e bem-sucedido no universo do Rio de Janeiro de ento, Distrito Federal, nos meados do

    sculo XX. Entra em cena o narrador de O homem alto, conto integrante da antologia A

    morte da porta-estandarte e outras histrias, de Anbal Machado. Ainda que destituda de

    nome, isto , no dispondo da insubstituvel identificao nominal nome prprio e, como

    tal, apresentando-se privada desse essencial instituto civil, a personagem vem a ser a figura

    central do texto. Alm de incorporar e desempenhar as funes do foco narrativo de primeira

    pessoa, ela assume o protagonismo em termos de se colocar como sujeito que radicaliza o

    inconformismo ante as feies, maneiras e jeitos com que as prticas sociais e o cotidiano

    urbano em geral tratariam os homens de baixa estatura.

    A no aceitao dos modos e das formas com que se delineiam os impedimentos, como

    tambm a no concordncia com as restries e at mesmo com as conformaes com as

    quais o real se apresenta, inquietam e fomentam a necessidade de uma urgente reao.

    Afastando-se de uma paralisante imerso em possveis recalques e frustraes, o protagonista,

    ao contrrio, transporta-se para esferas que lhe permitem alcanar situaes de extremada

    3 Habitantes da Lilipcia ou Lilliput, pas dos anes, criaturinhas de 5 a 6 centmetros, que povoam o mundo fantstico da narrativa As viagens de Gulliver, de autoria de Jonathan Swift, escritor irlands do sculo XVIII. Lemwel Gulliver aporta nesse pas, salvando-se, sozinho, de um naufrgio, quando fazia sua primeira viagem, como mdico de bordo. Partiu Gulliver, de Bristol, em 4 de maio de 1699, no navio veleiro chamado Antlope. Ficou em Lilipcia, passando por algumas peripcias entre os homnculos, porm [foi] acolhido e considerado por estes lilipucianos (CARVALHO, [19--], p.36-37).

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    libertao. Atenta a seu propsito indeclinvel [...] de modificar o rumo das coisas do real, [a

    personagem realiza] pela nusea e pela magia um desejo neurtico de ganhar altura fsica

    (ARAJO, 1985, p. 51).

    O inconformismo ante a realidade implacvel e inexorvel da baixa estatura chega s

    raias da alucinao. Assim, num arroubo de fantasia ou, talvez, de delrio, esse

    brobdignaquiano4 com quem Gulliver agora se defrontaria, magicamente, passa a se ver, a se

    sentir e a se comportar como homem alto, cidado cnscio dos privilgios e das benesses

    sociais de que poderia agora desfrutar. Esse homem pequeno imagina-se, ou melhor, v-se no

    auge das reconhecidas magnitude e estatura social de autoridade digna e respeitada, condio

    que a nova altura lhe possibilita e lhe concede. Dando asas ao desvario, ele se entrega a

    imaginaes e fantasias que lhe permitem sentir-se num mundo de deslumbramentos e de

    sonhos que o remetem a maravilhosos patamares de vida agora ento disponibilizados. Essa

    fantasia o liberta da reassuno dos limites da real estatura, oferecendo-lhe, nessa direo, o

    direito de viver para sempre os privilgios e as delcias de ser agora um homem alto.

    A ilusria iniciativa de superao e/ou de anulao da inevitabilidade do ritmo do tempo

    e a tentativa fantasiosa de contorno de um impasse existencial vm a se constituir como uma

    das tematizaes de outro texto, a narrativa eleita por este artigo Viagem aos seios de

    Dulia , conto moderno, tambm integrante da antologia do autor acima citado. Como ser

    analisado, Jos Maria, personagem principal, protagoniza uma pungente trajetria em que se

    expem sopros de melancolia, categoria que costuma se enlaar com outra, o tempo, em

    especial, a esfera do passado.

    A personagem-narrador de O homem alto e Jos Maria, protagonista de Viagem aos

    seios de Dulia so apenas dois dos muitos solitrios e decados heris modernos que

    integram a galeria das criaturas que povoam os mundos representados nas narrativas de

    Anbal Machado. So heris, ou melhor, anti-heris transgressores, que buscam enfrentar e

    rejeitar as estipulaes e as mesmices de cotidianos descoloridos e desprovidos de emoo.

    No raras vezes, tais heris se descolam, se despregam no s das leis e dos cdigos com que

    se pautam os costumes e as prticas sociais, como tambm dos jeitos e modos com que a vida

    se apresenta, pagando altos preos pelo destemor e pela ousadia, arrebatamentos que os

    4 Jonathan Swift cria mais uma viagem para Gulliver. Agora, o navegador parte de Liverpool, no navio Aventura, em 1703 [...]. Exausto, adormece e desperta com a fuga de seus companheiros que, apavorados com os gigantes que avistaram, se precipitam ao mar, deixando-o s. Em Brobdignac, onde os homens tinham a altura de 15 a 20 metros, nada lhe fizeram. Gulliver era ento um lilipuciano. Apenas se invertiam as situaes. O seu tamanho ridculo transforma-o num bichinho insignificante (CARVALHO, [19--], p.37).

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    colocam ante [...] o riso e a lgrima mais a lgrima que o riso (ADONIAS FILHO, 1969,

    p. 110).

    A personagem anibaliana focalizada, a princpio, em atitudes identificadas com as

    variadas convenes reinantes nas interaes do dia a dia. A estabilidade, as conformaes

    sociais e certo pacifismo da rotina so interceptados no momento em que emerge o mais

    profundo intimismo que coloca em cena reaes e comportamentos instveis e

    surpreendentes, instantaneamente flagrados. Ganham relevo sujeitos cujos mundos recnditos

    se exteriorizam, algumas vezes, em situaes de desalinho e de desarmonia, em perspectiva

    de singularidade existencial, sempre. O desconcerto expe as fraturas e as desagregaes da

    personagem transportada para o mundo das relaes sociais quase sempre por meio de

    eventos recheados de cenas espetaculares, desencadeadoras de profundas e densas

    perplexidades. Adonias Filho (1969, p. 110) anota que [...] se fosse indispensvel definir o

    processo novelstico de Anbal Machado, [poder-se-ia afirmar que] a base desse encontro

    entre o homem e o mundo se molda nas relaes da personagem com o espetculo.

    O sentido de espetculo pode ser observado, inclusive, em situaes nas quais a

    instncia temporal diretamente acionada. Sem dvida, h personagens do universo de

    Anbal Machado que enfrentam embates espetaculares nas interaes com a esfera temporal.

    Assim, flagram-se criaturas atreladas a um passado que as oprime e bloqueia a fluidez de suas

    vidas. como se elas enfrentassem relaes no resolvidas com o momento existencial

    pretrito. Enfim, no geral, a personagem anibaliana costuma ser apanhada em grandezas e

    misrias, em realizaes e infortnios, mas sempre em processo de busca da prpria verdade,

    oportunidade em que ela costuma viver situaes inesperadas e espetaculares.

    No conto Viagem aos seios de Dulia, desenham-se elos melanclicos com um

    passado longnquo e com um lugarejo perdido, tempo-espao de uma fugaz cena de prazer

    vivida a partir da contemplao do corpo do Outro, experincia e gozo que se apresentam,

    sobretudo, como nicos, sem par, na vida de Jos Maria. Na cidadezinha mineira de Pouso

    Triste, aquele rapazinho observa deslumbradamente os seios de Dulia, a namoradinha que, no

    entremeio de uma procisso religiosa, resolve se afastar das companheiras e, na penumbra de

    uma rvore, silenciosa e disfaradamente, mostra os seios brancos, um aps o outro, quele

    tmido rapaz. Dulia concede quele adolescente a momentnea oportunidade de uma

    contemplao extasiante.

    Essa cena passa a integrar o rol dos eventos decisivos na trajetria do protagonista, uma

    vez que tal momento tambm assume importante papel na estruturao dos traos

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    psicolgicos e na construo de sua individualidade e singularidade. No se deixe de observar

    que a cena ocorre em paralelo a uma procisso religiosa. O quadro perpetrado pelo casal

    correria o risco de desencadear censuras e recriminaes, pois poderia ser visto como

    desrespeitoso e at mesmo como pecaminoso. Atente-se para o fato de que o acontecimento

    reporta a uma experincia5, de certa forma, interrompida e, principalmente, retida e congelada

    no passado. Reitera-se que se trata de um prazer exclusivo, mpar e vivido rapidamente.

    Nesse evento do qual Dulia participa, observa-se que o aspecto contemplativo com que

    o gozo se apresenta teria ofuscado a oportunidade de Jos Maria viver um sentimento de

    realizao, mediado pela plenitude da experincia do prazer. Na verdade, o afeto melanclico

    faz com que a atitude de contemplao ganhe bem mais espao que a experimentao da vida

    propriamente dita, em termos de interaes com a riqueza das nuances que o dia a dia coloca,

    demandando posturas e posies mais definidas. Certo carter de passividade com que a

    inibio se coloca costuma se expressar, se manifestar em Jos Maria tambm por meio de

    fantasias e bloqueios irmanados com sentimentos de culpa. Enfim, a hesitao faz com que o

    congraamento com o Outro seja permeado pela inconsistncia no que concerne ao hedone

    termo que em grego indica prazer sensual (SENNET, 2003, p. 67).

    Os aspectos de fragilidade e de exiguidade comparecem no todo da caminhada

    existencial de Jos Maria, a qual volta a ser flagrada, apenas uma vez mais, por um diminuto e

    fortuito gozo que se apresenta acompanhado de significativa autocensura. Trata-se do evento

    no qual o olhar do funcionrio pblico volta a fixar os seios de uma mulher, oportunidade em

    que ele vive novamente uma rpida sensao de prazer; na homenagem por ocasio da

    aposentadoria, Adlia, funcionria que usava decote largo (p. 36) lhe dirige palavras

    elogiosas. O olhar do funcionrio pousou como um relmpago pelo colo branco de sua

    5 Vivncia e experincia so conceitos tematizados por Walter Benjamin e discutidos por Srgio Paulo Rouanet em dipo e anjo: itinerrios freudianos em Walter Benjamin. Ao analisar o texto de Benjamin, Rouanet relaciona os princpios ali expostos com a teoria freudiana, buscando, assim, estabelecer correlaes entre memria e conscincia, no propsito de uma crtica da cultura. A experincia caracteriza-se por ser a esfera na qual a memria acumula impresses, sensaes, sentimentos, excitaes que jamais se tornam conscientes e que, transmitidas ao inconsciente, deixam nele traos mnemnicos durveis, isto , recursos que facilitam a aquisio e a conservao da memria. A memria e a experincia so, assim, elementos preservadores das razes e da identidade do ser. Pertencem esfera da vivncia, as impresses cujo efeito de choque interceptado pelo sistema percepo-conscincia, que se tornam conscientes e, por isso mesmo, desaparecem de forma instantnea, sem se incorporar memria. O choque assim amparado, assim interceptado pela conscincia, daria ao acontecimento que o desencadeou o carter de vivncia, no sentido eminente. Quanto maior a participao do elemento de choque nas impresses individuais, menos essas impresses so incorporadas experincia, e mais elas satisfazem o conceito de vivncia. Essa interpretao da teoria freudiana do choque constitui o fio condutor da crtica cultural de Walter Benjamin. A partir da concepo benjaminiana, o mundo moderno se caracteriza por atingir situaes e nveis nos quais o choque aparece contnua e intensamente nos diversos domnios da vida social e individual.

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    subordinada, (p. 37) a qual lhe concede a clere possibilidade da observao prazerosa, ainda

    que reprimida.

    Principalmente na interao com Dulia, o carter de corte fragmentrio, de contato

    desprovido de integrao se identifica com desfrutes que ostentam, sobretudo, modos, feies

    e sentidos relacionados a fragmentos de natureza metonmica. O prazer limitado, apoucado,

    pois articulado com o gozo apenas em parte, o que guarda relao com o carter metonmico,

    em termos da relao da parte em lugar do todo. Assim, trata-se de um gozo parcial,

    destitudo da completude realizadora. O aspecto de prazer, por assim dizer, substitutivo, ou

    seja, vivenciado bem mais no plano da fantasia que no campo dos fatos reais, se faz presente

    nos modos com que, como se sabe, se esboam os devaneios, voyeurismos e fetichismos, o

    que ocorre tambm com Jos Maria, anlise a ser feita mais adiante. Como est sendo

    descrito, pode-se afirmar que a no efetivao da troca prazerosa se relaciona igualmente com

    a postura de contemplao da vida, em vez da insero definitiva nela, atitude com que

    tambm se qualificam traos de melancolia do protagonista em estudo.

    Focalizando-se o passado e o presente, pode-se afirmar que, embora limitado, no tempo

    pretrito que Jos Maria vivera um momento determinante e significativo. Hoje, essa

    energia nostlgica cavouca e chacoalha o presente montono, desbotado e destitudo de

    vitalidade e encenado num Rio de Janeiro antes mtico e, agora, plido e desprovido de

    encantamento. Como se ver, a tentativa de retomada de eventos ligados quela cena do

    passado far com que Jos Maria protagonize um processo desagregante, espetacular e

    equivocado de tentativa de reverso da inexorabilidade do fluxo do tempo. Sem dvida, a

    condio melanclica coloca Jos Maria numa encruzilhada, no que diz respeito relao

    com a instncia temporal. Continuando a apreciao crtica, Adonias Filho afirma que, na

    produo de Anbal Machado, [entrosam-se] personagem e espetculo, [tornando-se] as duas

    posies responsveis pelo equilbrio das narrativas que se traduz em firmeza na dissociao

    do mundo interior (a personagem) e na representao do mundo exterior (o espetculo)

    (ADONIAS FILHO, 1969, p. 110-111).

    Com efeito, Jos Maria experiencia a atroz dissoluo interior, mas est exposto a

    situaes curiosas e, talvez, excntricas. O carter de exposio a certo espetculo a que ele

    est submetido faz com que haja a fragmentao da dramaticidade por meio do humor, ainda

    que irnico. Michel Zeraffa (1971, p.389) lembra [...] que o absurdo implica a ironia6.

    6 Rappelons quabsurde implique ironie.

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    A referncia ao tempo remete de imediato questo do espao. Espao e tempo so

    categorias essenciais da existncia humana, mas seus sentidos so vivenciados e analisados,

    na maioria das situaes, a partir de perspectivas prticas e reificantes. Em tal enfoque, a

    dualidade e o aspecto simblico que costumam envolver as relaes humanas com tudo que as

    cerca, inclusive o tempo e o espao, no ocupam posio de destaque. No entanto, sob a

    aparncia das ideias imediatistas acerca dessas duas categorias, ocultam-se territrios de

    ambiguidade, de incoerncia e de luta.

    Ultrapassando a perspectiva utilitarista, constata-se que a experincia subjetiva pode nos

    levar a domnios de percepo, de imaginao e de fantasia que produzem espaos e mapas

    mentais como miragens da coisa real e diretamente relacionados a uma viso intimista da

    dimenso tempo-espacial. No resta dvida de que o modo notadamente pessoal e singular e a

    condio de elo indiscutivelmente profundo, aspectos e feies com que se apresentam as

    interaes de Jos Maria com o tempo e com o espao se constituem como elementos

    fundamentais de sua melancolia e da narrativa em estudo.

    Assim, o conto em foco pode ser visto como um flagrante de vivncias ambivalentes

    nas quais o tempo e o espao se imbricam no itinerrio das personagens e em que h

    articulaes notadamente metafricas recursos verbais que fazem com que fantasia e

    realidade, sonho e viglia se confundam. O jogo entre iluso e realidade, aspecto a ser

    analisado, perpassa essa narrativa moderna; no plano da realidade exterior, identificada com

    as vivncias e com a sequncia linear dos fatos, retratado o priplo do aposentado, que deixa

    o Rio de Janeiro no encalo do lugarejo de onde partiu na adolescncia.

    No plano da interioridade, ligado sucesso das experincias, que torna complexo o

    enredo, focaliza-se a questo dramtica e fantasiosa de um indivduo que, no desejo de

    encontrar o sentido da prpria vida, busca reverter o ritmo do tempo. Expondo componentes

    existenciais identificados com fortes traos de singularidade, a narrativa focaliza a tentativa

    ilusria de retorno experincia vivida no passado no lugarejo de origem, iniciativa

    empreendida por Jos Maria, funcionrio pblico h pouco aposentado, como foi observado.

    A odisseia de Jos Maria no poderia se realizar, apenas, no aspecto geogrfico fsico; o

    percurso assume a dimenso simblica de um atar as duas pontas da vida, numa evocao

    machadiana, isto , representa a tentativa ingnua e disfarada pela fantasia de religao com

    um tempo pretrito, em que se vislumbrariam possibilidades de eventos dotados de vitalidade

    e de significaes, perspectivas ausentes no momento atual. O retorno a esse universo

    identifica-se com o desejo de reencontro de referncias, das quais poderiam advir expectativas

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    de futuro percepes, articulaes e sentidos bastante fragilizados, ou, talvez, inconcebveis

    no momento atual no Rio de Janeiro. Refora-se aqui que os modos e as feies com que se

    caracterizam o tempo-espao vivido na capital Federal, como tambm o deslocamento em

    busca do tempo e do espao encravados e congelados no interior de Minas Gerais, se

    apresentam como demandas existenciais que ajudam a esboar traos da melancolia do

    protagonista.

    A representao de si mesmo como algum sem futuro, reflexo a que Jos Maria

    remetido com densidade maior a partir da aposentadoria, expe as relaes inconsistentes com

    a vida em geral e indiciam e clarificam componentes da prpria melancolia, especialmente na

    relao com o tempo: Disponvel, sem jeito de viver no presente, compreendeu que

    despertara com muitos anos de atraso nos dias de hoje. No encontraria mais os caminhos do

    futuro, nem havia mais futuro nenhum. Chegara ao fim da pista. (p. 42). Como foi apontado,

    o tempo pretrito vem a ser a quadra existencial que concentra pelo menos uma experincia,

    de certo modo, prazerosa e marcante, gozo agora recordado, imaginado e, sobretudo,

    desejado. O atrelamento da libido ao passado e, como tal, a ligao ao que de certa forma foi

    perdido, alm do alheamento e do desinteresse em relao vida presente, colocam Jos

    Maria como protagonista de tocantes cenas desencadeadoras de desconcertantes

    perplexidades. Sem dvida, sua atitude de retorno e o desejo de retomada do tempo-espao

    pretrito, a partir do que foi congelado na fantasia idealizadora, assume o carter de um

    dramtico e pungente evento espetacular.

    O conto se inicia, e talvez no por acaso, com o momento exato da desautomatizao na

    vida do protagonista; naquele dia, rompendo com o que costumava fazer h trinta e seis anos,

    ele interrompe a rotineira viagem no bonde que o levava ao centro da cidade, rea onde est

    instalado o Ministrio, seu local de trabalho. Tambm o bondinho de Santa Teresa mantinha o

    hbito dirio de parar em frente quela casa para que o servidor pblico nele entrasse:

    Durante mais de trinta anos, o bondezinho das dez e quinze, que descia do Silvestre, parava

    como burro ensinado em frente casinha de Jos Maria, e ali encontrava almoado e pontual,

    o velho funcionrio (p. 35).

    Interpelado pela aflita e surpresa Floripes, a empregada portuguesa, resolve comunicar-

    lhe, querendo rir, que, daquele dia em diante no mais iria trabalhar estava aposentado. Na

    vspera, havia sido homenageado pelos colegas; a mesa foi enfeitada com flores; foi saudado

    pelo diretor mais antigo, um ex-adversrio; tambm recebeu palavras de homenagem de um

    dos subordinados, um estudante de Medicina; o ministro passou um telegrama; uma

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    funcionria, Adlia, a quem j se fez meno, se referiu [...] competncia e exemplar

    austeridade do querido chefe de quem todos se lembraro com saudade (p. 36); finalmente,

    uma garota, filha do arquivista, entregou-lhe uma bengala de casto de ouro, com a data e seu

    nome gravados.

    A bengala indcio de iminncia da velhice a forma encontrada pelos colegas do

    Ministrio para demonstrar o reconhecimento pela lisura e seriedade com que aquele homem

    ntegro e exemplar sempre tratou a coisa pblica. Jos Maria, caracterizado por M. Cavalcanti

    Proena (1972, p. xxii) como [...] avatar de machadianos funcionrios pblicos, talvez,

    aparentado com o pai de Iai Garcia, merecia, agora, dentro do previsvel socialmente, gozar

    a tranquilidade da aposentadoria e caminhar para o envelhecimento com a dignidade que

    aquele smbolo, certamente, ostentaria.

    Mas o domingo sem fim... (p. 35) que passaria a ser a vida do aposentado comea,

    pouco a pouco, a causar-lhe estranhas e desassossegadoras emoes: Ora veja! Estou livre

    agora, livre! ... Mas livre para qu? (p. 37). O rompimento brusco com a rotina diria

    esperar o bonde, comprar o jornal da manh, tomar caf na Avenida, despachar, sisuda e

    caladamente, os processos na repartio representa no s a alterao do cotidiano, mas,

    principalmente, a desestabilizao da referncia maior a profisso, o trabalho, a ocupao:

    antes tivesse ainda algum processo a informar; estaria ocupado em alguma coisa (p. 40).

    Assim, um grande vazio e uma significativa inquietao comeam a tomar conta de seu ser:

    com os trinta e seis anos perdidos na Repartio, teria perdido tambm o dom de viver? (p.

    36). Tenta encontrar novas ocupaes, procura estabelecer novos vnculos, modificar-se

    externamente, livrar-se da mscara fria, que os decnios de trabalho montono, de

    austeridade exemplar, (p. 37), conforme as palavras de Adlia, lhe forjaram. O desejo de

    metamorfose comea a alimentar seu imaginrio; a primeira transformao foi o abandono do

    chapu, smbolo de sisudez, atitude interpretada pelas pessoas como [...] o primeiro passo

    para um programa de rejuvenescimento (p. 38). Comea o desejo de negao da maturidade,

    ao lado do sonho de retorno ao mundo adolescente.

    medida que os dias passavam, mais se acentuava o sentimento de vazio, de solido e

    de inutilidade: O farol dos automveis apagava nas guas da Lagoa o reflexo das ltimas

    estrelas. Um casal abraava-se debaixo de uma amendoeira. Sentiu-se mais s. A vida era

    para os outros (p. 40). Resolve intensificar a mudana de hbitos, usando roupas claras

    outro ndice de busca de rejuvenescimento e procura se aproximar mais da empregada, a

    nica referncia afetiva, mas no experimenta grandes xitos nessa empreitada. Ao constatar

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    que no participava da vida urbana, busca reverter tal situao tornando-se scio de um clube

    recreativo, mas no consegue construir e estabelecer relaes sociais naquele universo. Busca

    o prazer solitrio na leitura de romances: Entrou numa livraria [...]. Pediu um [livro],

    escolha do caixeiro. Tentou ler. Impossvel passar das primeiras pginas. No compreendia

    como tanta gente perde horas lendo mentiras. Ao atravessar, dias depois, o Viaduto, deixou o

    livro cair l embaixo, sentiu-se livre daquilo (p. 40; 41). A convivncia com processos

    burocrticos o havia deformado e no consegue se concentrar. Enfim, resolve voltar para a

    cidadezinha mineira da qual partiu na adolescncia.

    O desejo de realizar o deslocamento tempo-espacial se identifica com as inquietaes e

    com a premncia de uma tentativa de metamorfose existencial. A viagem se caracterizaria

    como importante indcio de transformao, em termos de apresentar-se como tentativa de

    rompimento com o tdio e com o vazio dominantes. O retorno s origens, num plano

    filosfico mais amplo, representaria a reivindicao de uma proposta libertadora, o que

    possibilitaria uma nova interpretao da existncia e a assimilao de uma linguagem que lhe

    permitiria um novo olhar sobre o universo. Essa linguagem, original e no uniformizada,

    instauraria a possibilidade de uma viso mais contundente do mundo. Essa perspectiva,

    certamente, desestabilizaria o convencionalismo das relaes sociais e aprofundaria as

    ligaes do ser consigo prprio, com o Outro, com o Cosmos e com a Vida.

    Um impulso de renovao e um desejo de recomeo se implantam, ainda que,

    eternamente, a runa, aspecto que se identifica com a fenda melanclica decorrente da

    vivncia do tempo lacunar o vazio existencial , se faa presente sempre. Buscando, de

    certa forma, neutralizar a ausncia de sentido da prpria vida, a ao de Jos Maria no espao

    retorno terra natal, Pouso Triste , se mescla ao movimento no tempo, em termos da

    busca de um tempo perdido, numa evocao proustiana. A memria pessoal faz a

    constatao de que, ao longo de todos esses anos no Rio de Janeiro, sua vida se apresenta

    montona, medocre, sem objetivo um tempo perdido , em ltima anlise, o que agora

    dolorosamente avaliado. O entrecruzamento e a interpenetrao da memria com a melancolia

    assumem importncia capital no conto em anlise. Indiscutivelmente, h um elo muito forte

    entre tempo e/ou memria e melancolia. Sobre essa relao, Gilles Barbedette (1987, p. 19)

    faz afirmaes conclusivas segundo as quais [...] no h melancolia sem memria, nem

    memria sem melancolia7.

    7Il ny a pas de mlancolie sans mmorie et pas de mmoire sans mlancolie.

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    Enfim, a partir da reflexo da qual provm o sentimento de inutilidade da prpria vida

    no Rio de Janeiro que Jos Maria passa a alimentar o desejo de regresso ao momento que foi

    congelado e retido na experincia de prazer vivida na adolescncia e tornada indelvel pela

    memria. Assim, ele busca fazer o retorno para o no menos mtico Pouso Triste, vilarejo

    incrustado no interior mineiro, na iluso esperanosa de poder experimentar a aura do prazer e

    da liberdade da adolescncia distante. A viagem e os seios de Dulia so signos que

    assumem indubitvel importncia, concluso a que se chega a partir da observao de suas

    presenas tambm no ttulo da narrativa. Com efeito, a viagem a Pouso Triste em busca de

    Dulia e, em especial, o desejo de retomada do evento em que ganham realce os seios brancos,

    so pilares sustentadores do enredo. Como se v, esses elementos apresentam-se como

    componentes importantes que tambm se entrecruzam nas representaes da singularidade

    melanclica de Jos Maria.

    Por outro lado, no se perca de vista que, muito mais do que Pouso Triste e at mesmo

    Dulia, interessa a Jos Maria, sobretudo, o reencontro com o tempo da juventude. Focando as

    duas categorias (tempo e espao) e sua relao com a memria e levando em conta

    elaboraes de Kant, no que concerne ao entrelaamento da nostalgia mais com o tempo do

    que com o lugar, Julia Kristeva termina por tambm tecer oportunas consideraes. A

    princpio, convm se observar que a saudade, a nostalgia e a melancolia, cada uma com as

    prprias especificidades, so categorias que estabelecem relaes decisivas com o tempo, com

    a memria. A citao de Kristeva extensa, mas o texto se constitui de reflexes

    esclarecedoras:

    Nos lembremos de que a ideia de encarar a depresso como dependente em relao a um tempo mais do que a um lugar cabe a Kant. Refletindo sobre essa variante especfica da depresso, que a nostalgia, Kant afirma que o nostlgico no deseja o lugar da sua juventude, mas sua prpria juventude, que o seu desejo est busca do tempo e no da coisa a ser reencontrada. A noo freudiana de objeto psquico, ao qual estaria fixado o depressivo, participa da mesma concepo o objeto psquico um fato de memria, pertence ao tempo perdido moda de Proust. uma construo subjetiva, e como tal, depende de uma memria, certamente inapreensvel e refeita em cada verbalizao atual, mas que, de repente, se instala, no num espao fsico, mas no espao imaginrio e simblico do aparelho psquico (KRISTEVA, 1989, p.61-62) (Grifos da autora).

    O protagonista segue os roteiros e os esboos de uma geografia intimista e irmanada

    com um resgate tempo-espacial em que vicejam mapas e percursos de imaginao e de

    sonhos. O trajeto vem a ser uma viagem que se norteia, sobretudo, por um desejo de retorno a

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    casa, aos lugares das emoes primeiras e protetoras de um tempo-espao de origem,

    fundamental, portanto. A investida de Jos Maria incorpora como norte o devaneio e no

    podia, logicamente, obedecer a traados lineares e cronolgicos, uma vez que no trilhar de um

    roteiro como esse, [...] as condies reais j no so determinantes. Com a poesia a imaginao coloca-se na margem em que precisamente a funo do irreal vem arrebatar ou inquietar sempre despertar o ser adormecido nos seus automatismos. O mais insidioso dos automatismos, o automatismo da linguagem, deixa de funcionar quando penetramos nos domnios da sublimao pura. (BACHELARD, 1988, p. 18).

    O percurso atravs do espao se realizaria paralelamente travessia de carter

    filosfico; a marcha do mundo exterior urbano em direo ao mundo interior rural,

    identifica-se com a proposta existencial de Jos Maria, que faz um caminho iniciado na

    exterioridade das aparncias e segue em direo ao desejo de mergulho no mais recndito de

    sua interioridade, em busca da identidade perdida. No se trata de itinerncias espaciais e,

    sim, de roteiros emocionais, atemporais e no espaciais, portanto.

    Ante o intuito de anlise de possveis atrofias que teriam permeado a trajetria do

    protagonista, uma delas residiria na sua relao com o espao urbano. Bachelard refere-se

    [...] topoanlise que seria ento o estudo psicolgico sistemtico dos locais de nossa vida

    ntima. [...]. Por vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas

    uma srie de fixaes nos espaos da estabilidade do ser, de um ser que no quer passar no

    tempo (BACHELARD, 1988, p. 28). Ao longo da caminhada no Rio de Janeiro,

    gradativamente, vo-se apagando em Jos Maria o deslumbramento e a ligao afetiva com

    aquela cidade, o que vai fazendo emergir um sentimento de saudade diretamente relacionado

    com um tempo passado que se articula tambm com suas vivncias primeiras naquela cidade.

    Hoje tudo contribui para a desidentificao e para o desenho de uma saudade interior

    que se articula com uma inquietao no totalmente nomeada, no totalmente qualificada.

    Trata-se de um lamento diante de um tempo-espao j passado, do qual provm um

    sentimento de saudade irmanado com os vazios e dissolues do agora. O vazio e a falta se

    relacionam com limites inerentes atitude contemplativa, a qual se posta em lugar da

    experimentao e vivncia plenas da instncia tempo-espacial, quando ela se constitua como

    tempo presente. Hoje, aquele presente vivido superficialmente o passado do qual provm o

    sentimento de perda, elemento muito caro ao afeto melanclico.

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    Assim, o presente o tempo, por excelncia, da lacuna e do descompasso ante uma

    poca que passou e da qual restam agora pendncias e dbitos identificados com uma saudade

    sofrida, ante o que no foi vivido, no foi experimentado com intensidade. Esses aspectos

    caracterizam a singular e melanclica relao de Jos Maria com o tempo-espao do Rio de

    Janeiro: Debruado janela, Jos Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste

    (p. 35).

    A viso do funcionrio pblico sobre a capital carioca foi se tornando a do estrangeiro

    na prpria ptria, j que ele no conseguiu acompanhar o presente e a metamorfose da cidade

    que vive um crescimento e uma transformao que o incomodam: Da velha cidade que

    restava? Onde o Rio de outrora? As casas rentes ao solo, os preges, o peixeiro porta? (p.

    42). Diante do crescimento urbano, ele se impe um indisfarvel enclausuramento, e a

    relao com a cidade reduz-se ao diminuto percurso dirio residncia em Santa Teresa

    versus Ministrio, centro da cidade. No por acaso, ele mora nesse bairro prximo ao centro,

    reduto da cidade antiga e que no se renova como espao urbano, com sua rede de

    implicaes. A percepo plida e apoucada da vida se identifica no apenas com a leitura

    limitada e desgastada dos signos citadinos e a utilizao restrita da morfologia urbana, mas

    tambm com as cores desbotadas com que seu olhar visualiza a cidade como um todo.

    Hoje, convm chamar a ateno para as evidncias segundo as quais os estmulos do

    meio exterior e do momento atual no so suficientemente capazes de mobilizar o aposentado.

    Ao contrrio, o rompimento com a rotina e com um trabalho desprovido de maiores

    criatividades, longe de ser uma oportunidade de adeso a qualquer outro tipo de projeto, s

    faz acentuar os sentidos de vazio, apatia e runa.

    Antes de tudo, no se pode perder de vista que, bem mais do que com o Rio de Janeiro,

    na relao com a prpria vida que se pode observar melhor a condio melanclica da

    personagem. Nesse sentido, na situao em tela, ele experimenta a saudade de um tempo

    pretrito, vivido na Capital federal, como foi apontado anteriormente. A melancolia instaura

    nesse sujeito o ar de alheamento, a inao, a absoro constante, o mergulho diuturno em si

    mesmo, o isolamento social atitudes e comportamentos que o levam a uma postura de

    ruminao constante perante os fatos, a vida, o mundo. Esboa-se a acedia8. Benjamin lembra

    que Saturno torna os homens [...] apticos, indecisos, vagarosos (BENJAMIN, 1984, p.

    178). Enfim, delineiam-se traos paralisantes, tudo indiciando a fora da bile negra que

    atuaria, sobremaneira, na constituio do melanclico. Marsile Ficin alerta que, alm da to

    8 Termo medieval com que se designava a melancolia.

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    invocada causa astrolgica e celestial atuao de Mercrio e Saturno sobre o melanclico ,

    duas outras razes tambm se instalam na estruturao e na caracterizao da tristeza dos

    intelectuais a natural e a humana. Focaliza-se aqui a causa natural, diretamente relacionada

    com a bile negra. Segundo o terico,

    [...] a bile negra no cessa de chamar a alma coeso, imobilizao, contemplao. E semelhante [...] ao centro do mundo, ela a impele a procurar o centro das coisas singulares; ela a eleva at a compreenso das coisas mais altas, do mesmo modo que ela est de acordo plenamente com Saturno, o mais alto dos planetas. Em sentido inverso, concentrando-se nela prpria e se comprimindo (ou se dominando) por assim dizer, a contemplao assume uma natureza muito semelhante bile negra.9 (FICIN, 1987, p. 33).

    A inseparvel fragilidade e a incisiva inibio desencadeiam a misantropia da qual o

    aposentado se ressente, como fica evidente no momento do balano de vida e da reflexo

    sobre a necessidade de estabelecimento de novos vnculos sociais, iniciativa de que vai

    resultar mais um insucesso: [...] Mais do que nunca, sentiu Jos Maria naquela noite a

    solido da casa. No tinha amigos, no tinha mulher nem amante (p. 38). No consegue se

    aproximar das pessoas, pois a timidez cria constrangimentos, e ele se acha incapaz de se

    tornar agradvel, de seduzir o Outro: como chegar [...] s principais beldades do bairro.

    Como dialogar com elas? (p. 40).

    O desalinho da relao tempo-espacial pode ser observado tambm na perplexidade

    experimentada ante as transformaes do mundo todo , por meio do olhar sobre o

    crescimento do Rio de Janeiro parte e da singular interao do sujeito em foco com essa

    cidade, Capital Federal naquele momento: a cada arranha-cu que subia eles sobem a todo

    momento a cidade calma de Jos Maria ia-se desmanchando (p. 42).

    Observando-se o protagonista, pode-se afirmar que o pasmo e a no adeso ao presente,

    como tambm sua no imerso significativa nessa instncia temporal, desencadeiam a

    precariedade e/ou inexistncia de uma sequencialidade das experincias. Tal interrupo e

    paralisia geram certo sentimento de no continuidade integrativa do vivido, do

    experimentado, falta que faz com que, num momento futuro, o perodo anterior, vivenciado a

    partir de certo imobilismo e sem a imerso necessria, venha a ser saudosamente lembrado.

    9 Ainsi la bile noire ne cesse-t-elle dappeler lme la cohsion, limmobilisation, la contemplation. Et semblable elle-mme au centre du monde, elle la pousse rechercher le centre des choses singulires; elle llve jusqu la comprhension des choses les plus hautes, dautant quelle saccorde pleinement avec Saturne, la plus haute des plantes. Inversement, em se recueillant constamment em elle-mme et en se comprimant pour ainsi dire, la contemplation acquiert une nature fort semblable la bile noire .

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    Instaura-se certo descompasso temporal e existencial, o que desencadeia uma espcie

    de saudade interior e a nostalgia do no vivido. Referindo-se ao poeta Augusto dos Anjos e

    sua produo lrica, Jos Villaa faz afirmaes que se aproximariam de traos psicolgicos

    com que se busca aqui caracterizar Jos Maria. Afirma o crtico: [...] uma das maiores

    preocupaes subjacentes extraordinria potica de Augusto dos Anjos a de algo perdido

    no passado do homem, uma ruptura, a falta de unidade [...], uma espcie de saudade interior

    (VILLAA, 1994, p. 14).

    Entre as debilidades de Jos Maria, ocupa espao a tenuidade dos prprios desejos. A

    realizao e/ou experimentao do desejo aconteceriam de modo superficial e inconsistente,

    precariedade esta que s faz intensificar os sentimentos relacionados com a inexistncia de

    certa realizao pessoal. Essa ausncia desencadeia uma incorrigvel e generalizada

    perplexidade, sentimento que se robustece diante da constatao do vazio da vida e do mundo

    e do acirramento do sentimento de culpa. O sentido de falta dolorosamente observado pelo

    funcionrio pblico tambm a partir das reflexes e constataes voltadas para seus

    descompassos e desencontros ante as vivncias, experincias e interaes com o tempo, como

    foi apontado. As noes de perda e de falta sero examinadas mais adiante.

    Freud foi quem primeiro tematizou as noes de luto e de melancolia, abordagem

    que se apresenta como referncia e ponto de partida para o estudo do afeto melanclico.

    Enfim, delineiam-se profundos sentimentos de perda e de falta cujas origens e razes no so

    totalmente identificadas, esclarecidas, nomeadas. Tudo desemboca numa leitura avaliativa

    carregada de dor moral e de sentimento de baixa autoestima, queda que se irmana, ou melhor,

    decorre da culpa. A baixa autoestima se corporificaria a partir da inexistncia da categoria h

    pouco apontada, isto , a segurana e a tranquilidade oriundas de algum tipo de realizao

    pessoal, sentimento compensador que decorreria do sucesso da obstinada investida no desejo.

    Nesse sentido, articulam-se falta, perda, desejo, culpa e baixa autoestima. As perdas e as

    faltas fazem parte da vida humana e buscar super-las costuma ser um exerccio do desejo,

    como apontam as reflexes de Antonio Quinet (1999, p. 93):

    [...] evidente que o sujeito ser sempre confrontado com perdas em toda sua vida e a aparecer a dor da falta. Qual a arma que o sujeito tem para dar conta dessa falta? O desejo, que a manifestao da falta em outra vertente. Mas quando o sujeito cede de seu desejo a falta se transforma em falta moral, e o que advm para ele a culpa.

    A culpa desencadeia a diminuio ou a precarizao da autoestima, sentimento que se

    manifesta em autocensuras, autoacusaes. No se perca de vista o carter de rigidez com que

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    o superego, tambm no caso do protagonista em estudo, incidiria, observaria, mensuraria e,

    sobretudo, julgaria o ego. No clube recreativo, Jos Maria foi apresentado, pelo colega de

    trabalho Lulu tpico bon vivant carioca , [...] bom atleta e pssimo funcionrio, s

    principais beldades do bairro, como velho servidor do Estado. [Jos Maria] tentou manter

    conversa, no conseguiu. Parecia-lhe que zombavam dele. Se algumas moas lhe dirigiam a

    palavra, era como se lhe atirassem esmola. Acabou a noite s e triste, agarrado ao seu copo de

    usque [...] Quase nunca provava essa bebida, achava-a at ruim. Como fazia parte do rito

    social, no custava virar o copo. Deixou o Lulu com as moas, e saiu fazendo careta. Velho

    servidor do Estado... (p. 40).

    Realando o carter de perda e de falta e a fora do sentimento de culpa, cuja atuao

    desencadeia o empobrecimento do ego, no texto Luto e melancolia, Freud explicita que

    [...] a diminuio dos sentimentos de auto-estima [pode chegar] a ponto de encontrar

    expresso em auto-recriminao e auto-evilecimento, culminando numa expectativa delirante

    de punio (FREUD, [1917]1987, p. 250). H uma falta, enfim, uma lacuna no totalmente

    identificada, no totalmente qualificada, no totalmente nomeada da qual brotaria o

    sofrimento. A nfase na impreciso em caracterizar a profunda dor que aqui se discute

    reforada por Freud que, inclusive, aponta diferenciaes entre ela e o incmodo desalinho

    provocado pelo luto:

    [...] verificamos que a inibio e a perda de interesse so plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego est absorvido. [...] A diferena consiste em que a inibio do melanclico nos parece enigmtica porque no podemos ver o que que o est absorvendo to completamente. [...] No luto, o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, o prprio ego (FREUD, [1917]1987, p. 251).

    Na melancolia, haveria uma carncia existencial de que resulta o sofrimento. Sobre tal

    ausncia, tambm Antonio Quinet (1999, p. 136) se pronuncia, descrevendo-a como uma [...]

    dor profunda, o que Lacan nomear de dor de existir tristeza profunda, abatimento moral,

    abulia, perda de desejo , a dor moral da melancolia, em ltima instncia. Discutindo as

    noes de perda e de falta, relacionando-as, respectivamente, com a nostalgia e com a

    melancolia, Chico Viana aponta importantes diferenciaes:

    [...] enquanto a nostalgia decorre de uma perda, a melancolia deriva de uma falta. Corresponde a uma espcie de lacuna no ser. O que orienta o desejo humano a capacidade de tratar essa falta como perda, criando a partir disso

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    a possibilidade de um reencontro. O que nos falta est perdido para sempre; o que perdemos, no. (VIANA, 2004, p. 22).

    Ainda no referente caracterizao da nostalgia e da melancolia e s diferenciaes que

    as individualizam, Viana continua trazendo contribuies oportunas. Normalmente as duas

    expresses so empregadas como sinnimas, mas o crtico faz afirmaes esclarecedoras:

    [...] a melancolia difere da nostalgia por decorrer de uma perda ideal, proveniente menos do

    vivido que do imaginado. antes a saudade do que no se teve, sendo a nostalgia a saudade

    do que se teve. Assim, a nostalgia histrica; a melancolia mtica. [...] Freud acentua o

    quanto h nela de fantasioso e mtico (VIANA, 2004, p. 22).

    Em Jos Maria, o carter de fragilidade comparece, principalmente, na tentativa de

    construo de novas experincias, tenuidade de que resultam as tmidas relaes sociais com

    que o protagonista se envolve e o sentimento de culpa diante do fracasso dessas investidas; a

    precariedade das vivncias impossibilitaria ou impediria a presena de slidos encadeamentos

    e sequencialidades de experincias e de contatos sociais enriquecedores: como chegar s

    principais beldades do bairro. Como dialogar com elas? No conhecia futebol nem equitao,

    no sabia jogar baralho, no guardava nome de artistas de cinema, ignorava os escndalos da

    sociedade (p. 40).

    Agora, com todo o tempo do mundo a seu dispor, Jos Maria permite-se ficar bem mais

    janela, observando a paisagem, interessada e demoradamente. Passa a ver a natureza de

    forma diferente; contempla a Baa de Guanabara e nela descobre ilhas, ilhotas, recantos nunca

    percebidos, reentrncias das praias, montanhas, o vai e vem das guas, as nuvens, o efeito das

    transformaes da luz no cu e sobre as guas, enfim, comea a sentir a exploso de

    vitalidade da natureza. O aspecto vigoroso do mundo natural vai transportando-o a um

    universo conhecido seu espao, seu mundo campestre. Pouco a pouco, os contornos

    arredondados das montanhas comeam a impulsionar fantasias que cavoucam reminiscncias

    fugazes, roando suavemente a sensualidade reprimida. As sensaes fugidias vo se

    cristalizando e o prazer da contemplao das formas sinuosas das colinas vai apagando as

    lembranas negativas vindas tona recentemente.

    A percepo metonmica, to prxima das fortuitas experincias prazerosas, com a qual

    seu olhar sempre recortou e continua a recortar a cidade e as pessoas, o Outro , direciona-

    se, agora, para sensaes de prazer, o que vai alimentando a fruio fetichizada que seu

    imaginrio est redescobrindo. O elemento da natureza que est preenchendo, agora, o

    universo particular da personagem vem a se constituir um fetiche, a princpio, dotado de

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    feio ldica e apresentado como decorrncia de devaneios voyeursticos. Posteriormente, o

    objeto natural vai ganhando contornos mais definidos e, nesse sentido, uma figura feminina

    passa a assumir espaos mais ntidos na imaginao do ex-funcionrio as curvas das colinas,

    num claro processo de deslocamento, fazem lembrar os seios de Dulia, a mulher arrebatadora

    que marcou a adolescncia daquele garoto tmido: Era o afloramento sbito da namorada,

    seus seios reluzindo na memria como duas gemas no fundo dgua (p. 41). Dulia, eis a,

    definitivamente, o ser que concentra e acumula o universo de Jos Maria.

    Por outro lado, no se pode perder de vista o carter intransitivo com que se apresenta a

    inquietao de Jos Maria, uma vez que sua saudade e nostalgia ultrapassam a geografia fsica

    de Minas Gerais, espao do qual faz parte principalmente Dulia. Esses elementos se

    apresentam como componentes da esfera do mundo objetivo e, como tal, so identificados,

    nomeados. Na verdade, Jos Maria estaria exposto a uma saudade interior cujas razes e

    caracterizaes escapariam de uma percepo imediata, concreta, relacionada e identificada

    com objetos do mundo referente. A melancolia guarda relaes muito prximas com aspectos

    de idealizao. J foi apontado o quanto h de idealizao no afeto melanclico.

    Em termos da relao de Jos Maria e Dulia, seria plausvel observar-se quanto h

    tambm de fantasioso, idealizado e mtico nesse relacionamento. Observa-se que, bem mais

    que as lembranas do que foi vivido, so as imaginaes que alimentam as motivaes do

    protagonista. como se o que est sendo revivido na saudade fossem antes as esperanas, os

    sonhos, os desejos, ou seja, em Jos Maria, as idealizaes ocupariam bem mais espao que

    as recordaes oriundas do que realmente constitui os fatos da histria pessoal. Ele estaria

    vivendo, por assim dizer, a saudade do que no foi efetivamente experimentado.

    Um fetiche surgido a partir da observao distrada de partes da paisagem escava e faz

    eclodir outro fetiche, que se caracteriza por ser a experincia distante, mas radical de um

    adolescente que mirou e experimentou um rpido prazer voyeurstico, verdadeiro estado de

    xtase, gozo possibilitado pela contemplao de partes do corpo de uma mulher. A percepo

    metonmica seios fortuitos, arredios, sedutores, deslumbrantes que aquele olhar vido

    captou e registrou para sempre, tornou-se o objeto de desejo que volta a fazer pulsar sua vida.

    Retomando a imagem bachelardiana, percebemos que o momento vivencial de Jos Maria

    propicia que sua imaginao corra livremente e mergulhe na memria, ambas trabalhando,

    associada e profundamente, com o objetivo de fazer com que aquela lembrana passageira se

    concretize nas imagens de bem-estar e prazer possveis de ser, novamente, desfrutadas. Na

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    fruio desta cena, que o imaginrio do rapazinho tornou indelvel, est a matriz do

    voyeurismo e do fetichismo, importantes componentes de sua personalidade e identidade.

    Assim, no Rio de Janeiro de hoje, s lhe faz bem voltar ao passado, por meio da

    contemplao fetichista e voyeurstica da paisagem que lhe possibilita visualizar [...] os dois

    focos luminosos [...] ora se acendendo, ora se apagando (p. 42). O jogo sensorial e fantasioso

    que se estabelece a partir da observao da natureza cintilante reafirma citaes

    bachelardianas de que no [...] plano do devaneio e no no plano dos fatos, que a infncia

    permanece em ns viva e poeticamente til. Por essa infncia permanente, preservamos a

    poesia do passado (BACHELARD, 1988, p. 35). Jos Maria resolve retomar o tempo-espao

    do passado ldico, juvenil, de poesia e de devaneio, s possvel ao lado de Dulia. Decide

    partir, desejoso de novamente fruir o alumbramento de uma experincia mgica e

    resplandecente que, como se sabe, seu imaginrio tornou indelvel. Resolve voltar s origens,

    em busca da identidade afetiva interrompida com a vinda para a metrpole e, mais do que

    isso, volta em busca do adolescente cheio de vitalidade que ficou no lugarejo distante.

    A viagem vem a ser a tentativa de busca de um encadeamento existencial e de uma

    sequncia de sentidos para sua vida. Esse evento representaria o desejo de busca da base para

    o reerguimento da inteireza por ser construda, ou seja, a viagem representaria a possibilidade

    de nascedouro e/ou de retomada de uma completude em vias de esfacelamento definitivo.

    Nessa perspectiva, como se o tempo e o espao se irmanassem com energias inerentes a

    viagens que se comprometeriam com tais intuitos de recomeo. Enfim, a razo do

    deslocamento seria [...] para se voltar ao ponto anterior partida, onde tudo passvel de

    ressignificao. Viaja-se para plurissignificar o que se (SANTOS, 2000, p. 59).

    Na verdade, o retorno ao universo original representa, na trajetria existencial de Jos

    Maria, um mergulho na fantstica e dramtica utopia de querer reverter o fluxo ininterrupto

    do tempo, o que talvez ilusoriamente possibilitaria que ele reescrevesse a prpria histria,

    como se ela pudesse retroceder. Resolve, assim, iniciar uma peregrinao amorosa mesclada

    de iluses, na verdade, um grande equvoco. Almir de Campos Bruneti, que analisa a

    trajetria de Jos Maria numa perspectiva mitolgica, afirma que [...] com a partida do Rio

    comea a descida aos Infernos (BRUNETTI, 1978, p. 13), ou seja, metaforicamente, o

    crtico reala o carter de derrocada com que se qualifica a partida de Jos Maria do Rio de

    Janeiro em busca do passado.

    Jos Maria foge do mundo que o rodeia, mas, a cada instante, confrontado com signos

    que indiciam transformaes, quer os relacionados com o progresso material, quer os ligados

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    prpria ordem natural da vida. O trem de luxo, as estradas novas, os caminhes e os nibus,

    as chamins de uma fbrica de cimento, os fornos de uma siderrgica so ndices de progresso

    que desencadeiam sentimentos de perplexidade e de melancolia. A inadaptao realidade

    objetiva terreno rido para o sonho assim como a no aceitao das evidncias da

    passagem do tempo, vo ocupando contornos cada vez mais ntidos no viajante. Em Belo

    Horizonte, preferiu recolher-se ao quarto do hotel a ver a cidade que tambm cresceu, optando

    por uma sada que no viesse aumentar-lhe a sensao de envelhecimento pessoal (p. 44). A

    partir desse momento, a trajetria do protagonista mergulha, cada vez mais, em territrios de

    ambiguidade entre iluso e viglia. Segundo Elza Min (1984, p.11), [...] as personagens

    anibalianas pelo sonho, ingenuamente contestam um mundo racional e mistificador que no

    abre espao para o imaginrio e a sensibilidade.

    Coerentemente com a abordagem simblica acima referida, o texto explora, em

    profundidade, o signo lingustico em todas as potencialidades expressionais, elegendo, alm

    da j analisada percepo metonmica ligada ao deslocamento, o discurso metafrico, voltado

    para a condensao, por meio de imagens predominantemente visuais, o que, alis, segundo

    Elza Min (1984, p. 11) uma caracterstica do autor, pois

    [...] marcam a escrita de Anbal Machado um mineiro e vagaroso caminhar por entre as palavras e uma perfeccionista e medida escolha. Tambm um aguar da percepo visual a recuperar-se em metforas de luz e cor, em contrastes de sombra e irradiao que acusam, por vezes, preocupao um tanto excessiva com o torneio frasal.

    As metforas visuais aparecem ao longo do conto como indcios imagticos de que se

    vale o narrador para expressar os estados onricos e psicolgicos da personagem. Encontram-

    se expresses de claridade, denunciadoras de satisfao e de esperana, bem como expresses

    sombrias, relacionadas a pressentimentos de destruio. As metforas constituem tambm os

    recursos lingusticos com os quais o autor esboa a tenuidade dos limites entre realidade e

    imaginao.

    A percepo da metfora como elemento de condensao analisada por M. Cavalcanti

    Proena que afirma sobre o conto: [...] a luminosa viagem aos seios de Dulia um caminhar

    para o nascente (PROENA, 1972, p. xxxiii). Essas imagens tornam-se recorrentes e

    assumem carter matricial em funo da abrangncia semntica que elas incorporam ao longo

    do texto, o que confirmado pelo crtico: [...] quando dissemos a luminosa viagem aos

    seios de Dulia, tnhamos em pensamento a acumulao de imagens relativas luz e seus

    opostos (escurido, trevas, noite). Assim, o conto se estrutura em torno da luz e de seus

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    contrrios e poderia chamar-se em busca da adolescncia perdida (PROENA, 1972, p.

    xxxiv). O discurso metafrico caminha, passo a passo, com o roteiro que levaria o

    protagonista, ilusoriamente, ao encontro do mundo do nascente, cujas trilhas esto sendo

    seguidas. L est a definitiva fonte de claridade (p. 48) da vida de Jos Maria.

    O to desejado momento se aproxima e a ansiedade cresce. Jos Maria dirige-se

    escola rural, em cuja fachada havia o letreiro grafado com sinais desbotados. A sala de espera

    da casinha se apresenta decorada com gravuras de santos enfeitados de flores de papel (p.

    52). O local de funes mltiplas escola, residncia e chiqueiro o espao real em que

    vive a professora Dona Dudu. A identificao nominal desfigurada, prenncio de uma

    metamorfose destrutiva, causa-lhe choque e pasmo.

    Jos Maria bate porta e atendido por uma senhora muito plida, em chinelos, e ele

    gagueja: Eu queria falar com Dulia... Dona Dulia... (p. 52). Ela o recebe, depois pediu

    licena, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos,

    a voz meio rouca, o sorriso simptico, apesar de exibir os dentes cariados. Ainda no tinha

    sessenta anos, e aparentava mais (p. 52). E Jos Maria no pode mais escapar da realidade:

    quando as crianas chamam Dona Dudu, ele, definitivamente, admite que a mulher com quem

    est conversando sua Dulia. Nada faz lembrar o santurio de Dulia (p. 50), o templo de

    luminosidade em que vive a deusa de seus pensamentos.

    Gradualmente, ele se identifica e vai relatando o porqu de estar ali. A mulher abre os

    olhos com curiosidade, escuta atentamente a narrao-descritiva do gesto por ela praticado e,

    ao reconhecer naquele homem, o rapazinho com quem vivera aquele momento de

    deslumbramento, volta a viver um rpido instante de juventude, expresso na claridade do seu

    rosto. Depois de encar-lo longamente, abaixa a cabea e enrubesce, com quarenta anos de

    atraso (p. 53). Tambm ela mergulha no passado distante, mas, numa evidncia de que

    consegue elaborar melhor as transformaes, abandona o devaneio e adverte Jos Maria sobre

    a inutilidade de sua ao: Tudo aqui envelheceu tanto! Disse, erguendo a cabea. Que veio

    fazer neste fim de mundo, seu Jos Maria? (p. 53). Jos Maria fixa o olhar nos seios, local do

    inolvidvel acontecimento e os v murchos e cados. Ela, distanciando-se mais do momento

    de enlevo, novamente o adverte desta vez sobre a imprudncia da atitude de voltar ao lugar

    das primeiras iluses, viajar to longe para se encontrar com uma sombra! (p. 54).

    Mas, repentinamente, a raiva opera transformaes nas prprias feies e Jos Maria

    sente vontade de espancar aquela mulher, destruir aquele corpo que ousava ter sido o de

    Dulia [...] desse corpo de que s vira um trecho, num relmpago de esplendor (p. 54). Num

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    ntido processo de espelhamento, ele nega a Dulia de hoje, a Dona Dudu, projetando nela a

    rejeio ao Jos Maria atual, aposentado, solitrio, fragmentado e sem identidade, em

    especial, a afetiva. No aceitando o envelhecimento de Dulia, nem o prprio, evidencia-se o

    bloqueio de Jos Maria diante das transformaes em geral, assim como fica patente sua

    dificuldade em lidar com aspectos relacionados com a metamorfose temporal na vida humana.

    Tentando voltar realidade, a professora pergunta-lhe, calmamente, se vai retornar para

    o Rio. A voz musical da mulher, presena viva da doce Dulia do passado, emociona-o e ele

    baixa o rosto, comeando a soluar. Ela, compassiva e, ao mesmo tempo, surpresa com o

    prprio gesto, acaricia-lhe a mo, buscando consol-lo: Por longo tempo, as duas mos

    enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoo, ambos cerraram os

    olhos. Duas sombras dentro da sala triste... (p. 55).

    Acareado mais uma vez com a realidade, agora de modo mais contundente, Jos Maria

    pensa em ficar ali, ao lado daquela mulher que se dizia Dulia, espectro da outra (p. 54). O

    tempo no lhe permite mais entregar-se a sonhos: [...] j no tinha mais tempo para criar

    novas iluses [...] nada mais a esperar. Ficaria por ali mesmo. (p. 54). Numa imagem

    kafkiana, ele estacionaria naquele buraco (p. 54), preso aos fragmentos de um passado do

    qual poderia ter brotado um mundo de plenitude e de sonho, com o qual imaginou poder

    voltar a conviver.

    O conto cala a voz do narrador, que agora se limita a colocar para o leitor, entre aspas, o

    texto da reflexo de Jos Maria sobre a falta de sentido de sua empreitada: Sim, verdade,

    pensou o homem, no devia ter vindo. O melhor de seu passado no estava ali, estava dentro

    dele. A distncia alimenta o sonho. Enganara-se (p. 54). A reflexo de Jos Maria identifica-

    se com a imagem bachelardiana segundo a qual [...] sempre haver mais coisas num cofre

    fechado do que num cofre aberto. A verificao faz as imagens morrerem. Imaginar ser

    sempre maior que viver (BACHELARD, 1988, p. 100).

    De repente, opera-se uma transformao em Jos Maria; j que no mais podia sonhar,

    ele prefere rejeitar, pela ltima vez, o pouco que a realidade lhe oferecia, no aceitando os

    possveis fragmentos de afetividade ali disponibilizados: o homem no se conteve. Ergueu-

    se, saiu precipitadamente. A professora correu atrs: Jos Maria, Senhor Jos Maria!... [...] Os

    moradores se alvoroaram [...] e j se preparavam para perseguir o intruso, munindo-se de

    pedras e pedaos de pau. Mas o desconhecido desapareceu na escurido (p. 55).

    Jos Maria! A despeito da indiscutvel singularidade, mais uma personagem anibaliana

    cuja trajetria remete a desfechos constitudos de cenas inusitadas, tocantes, espetaculares e

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    desencadeadoras de paralisantes perplexidades. Tambm o funcionrio pblico arremessado,

    sem defesa, aos recnditos do desvario. Nesse momento, no mais fantasias e devaneios

    compem o espetculo com que se defrontaria o leitor. Agora ele se queda diante do quadro

    delirante, alucinado e permeado de certo carter punitivo em que mergulha Jos Maria,

    melanclica e especial criatura desse especial contista mineiro/carioca.

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    Recebido em: 20 de setembro de 2016. Aceito em: 30 de novembro de 2016.