Tipos de circulação e predominância das artérias ... · circunflexo da artéria coronária...

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Rev. Bras. Gir. Gardiovasc. 8(2):152-162,1993.

Tipos de circulao e predominncia das artrias coronrias em coraes

de brasileiros

Renato FALCI JNIOR*, Richard Haiti CABRAL *, Nadir Eunice Valverde B. de PRATES**

RBCCV 44205-21 o

FALCI JNIOR, R.; CABRAL, R. H.; PRATES, N. E. V. B. - Tipos de circulao e predominncia das artrias coronrias em coraes de brasileiros. Rev. Bras. Gir. Gardiovasc., 8(2):152-162, 1993.

RESUMO: O conhecimento anatmico do tipo de circulao, com a identificao da dominncia das artrias coronrias na irrigao do corao, apresenta grande interesse clnico e cirrgico, devido a que variaes nessa irrigao ocasionam diferentes graus de gravidade em casos de obstruo. Foram estudados 50 coraes retirados de indivduos adultos, de ambos os sexos e diferentes raas, nos quais as artrias coronrias foram dissecadas, visando identificar o tipo de circulao. Realizamos, ainda, estudo morfomtrico em coraes cujo peso mdio foi 291 gramas e altura ventricular mdia de 97 mm. Em 72% dos coraes estudados havia dominncia da direita, 16% circulao balanceada e 12% dominncia da esquerda. Identificamos o nmero de ramos que ultrapassam a crux cordis, sendo o mnimo de um ramo e o mximo de cinco ramos, com valor mdio de 2,2 nos casos de dominncia da direita e em apenas dois coraes um ramo (em cada um) nos 8 de dominncia da esquerda. Em 50% dos coraes estudados o ramo interven-tricular anterior ultrapassa o pice cardaco, atingindo a sua face diafragmtica.

DESCRITORES: artrias coronrias, morfologia; artrias coronrias, anatomia.

INTRODUO

O estudo morfolgico das artrias coronanas sempre foi um assunto de grande interesse na anatomia e na cardiologia. Devido grande variabi-lidade na distribuio das artrias no corao e possveis correlaes anatomoclnicas entre o tipo de irrigao e o diferente risco de infarto do mio-crdio, as artrias coronrias vm sendo melhor estudadas ultimamente, com a difuso da cine-coronariografia.

" de grande interesse saber o porqu das variaes e as leis que governam as variaes das artrias coronrias". Nesta frase clebre que BANCHI 1 cita em trabalho sobre a morfologia das artrias

coronanas, abre para a pesquisa um novo captulo da anatomia. O autor enfatiza o fato de que as variaes da irrigao do corao dependem da relao recproca entre o comprimento do ramo circunflexo da artria coronria esquerda e o da artria coronria direita.

Em 1929 CAMPBELL 4, em estudo radiolgico das artrias coronrias, descreve as variaes na sua distribuio ventricular. Na superfcie anterior do corao h pequenas variaes, sendo o ramo interventricular anterior um ramo constante da art-ria coronria esquerda. No entanto, na superfcie posterior, h variaes no tamanho e na distribui-o. Para o autor, a artria coronria direita ru-dimentar em 18% dos casos e envia apenas um

Trabalho realizado no Departamento de Anatomia do Instituto de Cincias Biomdicas e Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. So Paulo, SP, Brasil. Recebido para publicao em 30 de maro de 1993. * Acadmico da Faculdade de Medicina da USP. ** Professora do Departamento de Anatomia do Instituto de Cincias Biomdicas. Endereo para separatas: Renato Falci Jnior. Faculdade de Medicina - USP. Av. Dr. Arnaldo, 455. 01423-906 So Paulo, SP, Brasil.

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ramo para a face posterior do ventrculo direito em 54% dos casos. Tem uma distribuio equilibrada com a artria coronria esquerda em 14% e atra-vessa a crux cordis em 14% dos casos.

J WHITTEN 15 d nfase especial ao aspecto clnico, estudando a relao da distribuio e estru-tura das artrias coronrias com o infarto do mio-crdio. Descreve que em 47 casos de infarto do miocrdio havia acometimento do ventrculo esquer-do em todos; em 36 deles o ventrculo esquerdo recebia suprimento da artria coronria esquerda; em 22 casos havia participao da artria coronria direita e em apenas 4 casos havia infarto do ven-trculo direito. O autor relata, ainda, que o infarto do ventrculo esquerdo por leso da artria coronria esquerda mais freqente por doena do ramo interventricular anterior que do ramo circunflexo e o fato de que o infarto mais freqente no ventrculo esquerdo do que no direito parece depender das diferenas anatmicas de distribuio das artrias coronrias nos dois ventrculos.

Em 1931, EHRICH et a/ii 5 estudam as artrias coronrias em 51 coraes humanos de O a 97 anos, atravs de mtodos radiolgicos, anatmicos e histolgicos. Descrevem o trajeto macroscpico das artrias coronrias e suas alteraes em rela-o idade. Enfatizam que, em alguns casos, a artria coronria direita pequena e termina na superfcie posterior entre a margem direita e a crux cordis e, em outros, ela pode ser mais longa, ex-tendendo-se at a margem esquerda. Descrevem distribuio semelhante para a artria coronria es-querda. Os autores tambm demonstram a existn-cia de diferenas notveis entre as artrias coro-nrias direita e esquerda, sendo que os ramos da esquerda, embora presentes em menor nmero, pos-suem comprimento maior, tendendo a atingir o pice do corao; concluem que o desenvolvimento das duas artrias coronrias paraticamente igual.

SCHLESINGER 11 introduz o conceito de domi-nncia, baseado no suprimento arterial da crux cor-dis, que corresponde regio posterior do corao onde os sulcos atrioventricular, interatrial e interven-tricular se encontram. Com base nesse critrio, o autor relata trs tipos de circulao coronariana: balanceada, dominncia de direita e dominncia de esquerda. Considera circulao balanceada quando ambas as artrias atingem a crux cordis e no a ultrapassam, sendo o ramo interventricular posteri-or ramo da artria coronria direita. Se esta artria atravessa a crux cordis e d um ou mais ramos para o ventrculo esquerdo, o autor refere a dominncia de direita e, finalmente, quando o ramo circunflexo da artria coronria esquerda origina o ramo inter-ventricular posterior e, facultativamente, d algum ramo para o ventrculo direito, considera dominncia de esquerda.

O mesmo SCHLESINGER 12 estuda a relao entre o padro anatmico e as condies patolgi-cas das artrias coronrias, em 269 coraes hu-manos. Como as ocluses de ramos das artrias coronrias estavam ausentes at a idade de 37 anos, o autor decide estudar o padro anatmico normal em 225 coraes com idade superior a 35 anos . Encontra dominncia de direita em 48%, balanceada em 34% e dominncia de esquerda em 18%. Refere, ainda, que os infartos que ocorrem nos coraes com circulao balanceada so mais benignos, raramente levando morte, concluindo que o tipo de circulao balanceada o melhor padro para o ser humano. Por outro lado, os co-raes com dominncia de esquerda constituem um grupo patologicamente importante, pois so os que mais sofrem com a arteriosclerose e, conseqente-mente, com o infarto do miocrdio.

Em 1940, BLUMGART et a/ii 3 estudam a impor-tncia das variaes na distribuio anatmica das artrias coronrias, observando 125 coraes. De-finem trs tipos de circulao: balanceada, do-minncia de direita e dominncia de esquerda, en-contrado uma estatstica de 40%, 40%e 20%, res-pectivamente.

Em 1951 , ZOLL 16 estuda as anatomias normal e patolgica das artrias coronrias usando tcnica radiolgica, a qual serve de guia para disseco e anlise das anastomoses em coraes normais e de cardiopatas. Em relao irrigao, relata a dominncia de esquerda como grupo muito pouco freqente (1/6 dos casos), circulao balanceada, e constata cerca de 50% de dominncia de direita. Para o autor, as variaes anatmicas so de con-sidervel importncia clnica e patolgica.

Estudando as variaes da circulao coronria, FANFANI 7 analisa 150 coraes de indivduos com idade varivel entre 30 e 80 anos, atravs da tc-nica radiolgica. Encontra 116 (77,33%) casos de dominncia de direita, 24 (16%) casos de dominncia de esquerda e 10 (6,67%) casos de circulao balanceada.

Em 1958, SPADA et alii 13 , dedicando-se ao estudo da anatomia radiolgica das artrias coro-nrias, identificam e definem dois tipos de circula-o, baseados no comprimento do ramo circunfle-xo. No primeiro grupo, o ramo circunflexo curto e o ramo interventricular posterior ramo da artria coronria direita; no segundo grupo, o ramo circun-flexo longo e origina o ramo interventricular pos-terior. Referem que a regio do miocrdio mais propensa insuficincia coronria e infarto cons-tituda pelo territrio dependente do ramo inter-ventricular anterior, sendo a artria coronria es-querda denominada artria da morte sbita.

MAY 9 publ ica trabalho sobre a anatomia cirr-

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gica das artrias coronrias. Estuda radiologicamente 500 coraes no formolizados obtidos em necropsia. Encontra dominncia de direita em 55% dos casos, balanceada em 9% e dominncia de esquerda em 36%. Na maioria dos casos, a artria coronria direita d, em mdia, 1,8 ramos para o ventrculo esquerdo, apresentando um mximo de seis ramos. Encontra, em mdia, nmero seme-lhante de ramos para os dois ventrculos, embora o ventrculo esquerdo necessite de cerca de duas vezes mais suprimento sangneo, independente da dominncia, o que esperado devido ao diferente papel fisiolgico de cada ventrculo.

Em 1961 , VASKO et alii 14 estudam dominncia, das artrias coronrias atravs de arteriografia e perfuso em 56 coraes humanos com idade de 7 a 93 anos, sem cardiopatias agudas. No estudo anatmico encontram 48% de dominncia de di-reita, 16% de dominncia de esquerda e 36% ba-lanceada. Analisando a dominncia de perfuso, ou seja, observando qual das artrias coronrias capaz de perfundir maior quantidade de soluo salina, observam os seguintes resultados: 19% de dominncia de dirieta, 69% de dominncia de es-querda e 12% balanceada. O maior fluxo da artria coronria esquerda em relao direita indica que a quantidade de massa muscular suprida pelos dois vasos importante na determinao da dominncia.

Estudando a anatomia das artrias coronrias nos padres normal e patolgico, JAMES 8 des-creve minuciosamente o trajeto do ramo interven-tricular anterior, do ramo circunflexo e os ramos da artria coronria direita. Observa que, em 90% dos casos, a artria coronria direita cruza o sulco interventricular posterior para suprir aproximada-mente metade da face diafragmtica do ventrculo esquerdo. Nos 10% restantes, o ramo circunflxo da artria coronria esquerda supre praticamente toda a face diafragmtica desse ventrculo.

Descrevendo a anatomia das artrias coronrias em 125 coraes humanos, PENTHER et alii 10 verificam que, em 10% dos casos, a artria coronria esquerda dominante,ou seja, ela d origem ao ramo interventricular posterior e que, em 90% dos casos restantes o ramo interventricular posterior originado da artria coronria direita. Neste grupo esto includos dois tipos de circulao: dominncia de direita e balanceada. Encontram, tambm, em 5% dos casos, um ramo interventricular posterior curto, que corre na poro proxial do sulco interven-tricular posterior.

Mais recentemente, em 1988, BAPTISTA et alii 2 descrevem o pice do corao e seu suprimento sangneo em 81 coraes normais (56 homens e 25 mulheres) , atravs de estudo radiolgico. O aspecto mais importante a nomenclatura estabe-

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lecida para mais de 25 ramos das artrias coron-rias , que pode servir de base para o estudo morfolgico da irrigao cardaca. Relatam que em 86,4% dos casos o ramo interventricular anterior forma uma ala ao redor do pice, verificando di-ferenas entre homens e mulheres, sendo mais freqente nestas.

Analisando vrios trabalhos clssicos na litera-tura sobre as artrias coronrias e, somando-se a eles, conhecimentos antomo-clnicos, acreditamos ser de grande importncia estudar detalhadamente a anatomia das artrias coronrias.

O objetivo do nosso trabalho determinar o tipo de circulao e predominncia das artrias coro-nrias. Some-se o carter pioneiro que tal pesquisa tem no Brasil , possibilitando dados estatsticos especficos para a populao brasileira, uma vez que, como sabemos, devido grande miscigena-o, a populao brasileira apresenta um carter sui generis, para a qual no se deve aplicar esta-tsticas internacionais, exceto na ausncia de ou-tros dados. Visando complementar este trabalho, realizamos estudo morfomtrico dos ramos que determinam a dominncia, para estabelecer suas possveis correlaeE antomo-funcionais.

MATERIAL E MTODOS

Utilizamos 50 coraes de adultos (17 a 80 anos) de ambos os sexos (35 masculino e 15 femini-no) , de diferentes raas (28 da raa branca, 21 da raa negra e 1 da raa amarela) . obtidos de necrop-sia no Servio de Verificao de bitos da capital. Aps a obteno dos coraes, procedemos a:

1) Lavagem da pea em gua corrente.

2) Cateterizao das artrias coronrias a partir de seus stios na aorta.

3) Injeo de soluo fisiolgica nas artrias coronrias para a eliminao de resduos de sangue.

4) Injeo de 10ml de soluo de gelatina co-rada pelo cinbrio sob presso constante nas artrias cateterizadas.

5) Ligadura da artria ao redor do seu stio com fio de algodo 2-0, visando evitar o refluxo da gelatina injetada.

6) Injeo de 10 mi de gelatina corada pelo azul xadrez no stio de abertura do seio coronrio visando facilitar a distino entre artria e vei~ durante a documentao fotogrfica.

7) Lavagem da pea em gua corrente por 10 minutos para endurecimento da gelatina.

8) Imerso da pea em soluo de formalina a

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8 Fig. 1 - A) Fotografia de corao apresentando dominncia de direita. B) Esquema representativo da fotografia, indicando os possveis ramos ps

crux cordis.

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10%, por no mnimo sete dias antes da dissec-o.

9) Disseco macroscpica cuidadosa das art-rias coronrias e seus ramos, bem como das veias cardacas e suas tributrias, dando nfa-se sua distribuio na fase diafragmtica, visando identificar o tipo de circulao.

10) Estudo morfomtrico: a) peso cardaco: medido por balana de prato

(tcnica industrial Oswaldo Filizola) com di-viso de um grama. (Padronizamos a pesa-gem com a retirada das peas da soluo de formol uma hora antes do procedimento);

b) altura ventricular: distncia linear entre o stio da artria coronria esquerda e pice do corao;

c) comprimento do ramo interventricular poste-rior: medida linear do ramo interventricular posterior no seu trajeto no sulco interventri-cular posterior;

d) calibre do ramo interventricular posterior: calibre desse ramo no seu ponto mdio;

e) nmero de ramos ps crux cordis; f) comprimento dos ramoS ps crux cordis:

medida linear a partir do sulco coronrio de cada ramo;

g) calibre de cada ramo ps crux cordis: ca-libre medido no ponto mdio de cada ramo;

h) nmero de ramos que ultrapassam o pice do corao;

i) comprimento dos ramos que ultrapassam o pice do corao: comprimento linear do ramo medido a partir do pice anatmico do cora-o;

j) calibre dos ramos que ultrapassam o pice do corao: calibre medido no ponto mdio de cada ramo.

Realizamos as medies com paqumetro ele-trnico "Digit-Cal II" da Brown and Sharpe, na uni-dade mtrica de milmetro, com duas casas deci-mais, tendo, portanto, a preciso de dez micr-metros.

Analisamos os dados obtidos estatisticamente, realizando clculo da mdia e desvio padro para cada medio do software especializado "Epi-Info" verso 5.0 A, o software "Harvard Graphics" e "Microsoft Excel" verso 4.0, obtendo, atravs des-tes, os grficos. Para o processamento do texto foi utilizado o "Microsoft Word" verso 5.0 e o "Microsoft Word for Windows" verso 2.0 e, para a confeco de tabelas, utilizamos o software "Flow Chart" ver-so 1988-89.

RESULTADOS

Os 50 coraes estudados apresentam um peso

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mdio de 291,22 gramas (g) variando de 143 g a 533 g; altura ventricular mdia de 97,20 milmetros (mm) variando de 77,08 mm a 130,18 mm e o comprimento do sulco interventricular posterior com variao de 58,12 mm e 104,35 mm (mdia de 76,79 mm). Estas medidas nos do uma idia do tamanho das peas.

Dessas peas, 72% das observaes so de dominncia de direita (Figura 1, A e B), o que corresponde a 36 peas; 8 peas apresentam do-minncia de esquerda (Figura 2, A e B), equivalente a 16% do total e a circulao balanceada (Figura 3, A e B) ficou com 12%, correspondente a 6 peas anatmicas (Grfico 1).

O ramo interventricular posterior apresentou comprimento mdio de 48,74 mm, sendo o compri-mento mximo 82,62 mm e o mnimo 12,32 mm. Para estudo dos ramos que ultrapassam a crux cordis adotamos a nomenclatura seguida por BAPTISTA et alii 2 e FALCI JNIOR & PRATES 6, segundo a qual utilizamos a letra M seguida de nmeros romanos consecutivos para os ramos da artria coronria direita que ultrapassam a crux crodis e irrigam a parede posterior do ventrculo esquerdo:

12 ramo) M-I: ramo ventricular posterior esquerdo medial I;

22 ramo) M-II : ramo ventricular posterior esquerdo medial II;

32 ramo) M-III: ramo ventricular posteriot esquerdo medial III;

42 ramo) M-IV: ramo ventricular posterior esquerdo medial IV;

5 ramo) M-V: ramo ventricular posterior esquerdo medial V.

O nmero mdio de ramos encontrado foi 2,27.

De maneira anloga, utilizamos a letra L segui-da do nmero romano para designar a artria do ramo circunflexo que ultrapassa a crux cordis:

L-I : ramo ventricular posterior direito lateral I.

Dentre as 36 peas com dominncia de direita, 67% (24) apresentaram dois ramos (M-I eM-II) ultrapassando a crux cordis, 42% (15) apresenta-ram trs ramos (M-I, M-II eM-III) , 14% (5) quatro ramos (M-I, M-II, M-III e M-IV) e apenas 6% (2) tinham cinco ramos (M-I, M-II, M-III, M-IV eM-V) ultrapassando essa estrutura (Figura 4). Deve-se recordar que, pelo conceito de dominncia de direi-ta, todas essas peas possuem pelo menos um ramo ultrapassando a crux cordis e todos esses ramos irrigam a parede posterior do ventrculo esquerdo.

Estudo anlogo foi procedido para os casos de dominncia de esquerda, no qual verificamos que

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B Fig. 2 - A) Fotografia de corao apreseniando dominncia de esquerda. B) Esquma representtivo da dominncia de esquerda.

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8 Fig_ 3 - A) Fotografia de corao evidenciando circulao tipo balanceada; B) Esquema representando o tipo de circulao balanceada.

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-1

I

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ESTUDO DE DOMINNCIA TIPOS DE DOMINNCIA

GRFICO 1

DISTRIBUiO DO TIPO DE CIRCULAO NA AMOSTRA ESTUDADA

BALANCEADA 12%

ESQUE RDA 16%

em 16% dos casos (2 peas de um total de 8 com dominncia de esquerda), o ramo circunflexo da artria coronria esquerda d, alm do ramo inter-ventricular posterior, um ramo terminal que ultra-passa a crux cordis (L-I) . Nesses casos, temos uma grande massa de msculo cardaco dependente de uma nica artria. No Grfico 2, obtivemos esses valores em relao totalidade das peas (50).

Realizamos, ainda, a correlao numrica entre o comprimento do ramo interventricular posterior e o sulco interventricular posterior, obtendo um nme-ro entre zero e um, que nos d uma idia do com-primento relativo desse vaso. Com este resultado, tentamos estabelecer relao estatstica entre este valor e o fato de o ramo interventricular anterior passar para a regio posterior do corao. Em 50% (25) das observaes o ramo interventricular ante-rior ultrapassa o pice do corao e atinge a regio posterior (Figura 5) , enquanto em apenas 4% (2) dos casos o ramo interventricular posterior passa para a regio anterior. Nas 25 peas cujo ramo interventricular anterior ultrapassa o pice do cora-o, a mdia da relao entre esse ramo e o sulco interventricular posterior foi de 0,61, enquanto que, nos restantes, a mdia encontrada foi de 0,68, provavelmente demonstrando que esse talvez no seja O nico fato r que determine a passagem desse ramo para a reg io posterior.

Nos coraes que apresentam dominncia de direita, calculamos o produto comprimento X cali-bre para cada ramo proveniente da artria coronria direita, ou seja, ramo interventricular posterior e ramos ventriculares posteriores esquerdos mediais I, II , III, IV e V, sempre que presentes. Com essa medida, tentamos estabelecer a importncia relati-

Fig. 4 - Fotografia de corao apresentando circulao de dominncia de direita. Notar os cinco ramos que ultrapassam a crux cordis: M-I (1), M II (2) , M-III (3), MIV (4) e M-V (5). '

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ESTUDO DE DOMINNCIA RAMOS PS CRUX CORDIS

GRFICO 2

PRESENA DE RAMOS PS CRUX CORDIS EM RELAO AO TOTAL DE PEAS (50 CORAES).

MIII

20%

24%

LI 4%

MV 4%

6%

va de cada ramo no suprimento sangneo da re-gio posterior do ventrculo esquerdo, no caso de dominncia de direita.

A mdia obtida para cada ramo de: ramo interventricular posterior: 160,88; ramo ventri-

cular posterior esquerdo medial I (M-I): 81,71; M-Il: 71,82; M-III: 74,75; M-IV: 89,14 eM-V: 91 . Todas unidades em mm2.

COMENTRIOS

Os resultados obtidos em relao dominncia de direita no diferem de maneira significativa da maioria dos autores da literatura citada, os quais afirmam haver uma predominncia da artria coro-nria direita em relao esquerda e circulao balanceada.

FANFANI 7 encontra 77% e JAMES 890% de coraes com dominncia da artria coronria direi-ta. Estes resultados esto mais prximos dos nos-sos 72%.

A dominncia de esquerda e a circulao balan-ceada referidas em propores prximas pelos di-versos autores, esto de acordo com nossos acha-dos para a populao brasileira (Quadro 1).

Dos autores citados, apenas MA Y 9 refere-se ao nmero de ramos que ultrapassam a crux cordis em casos de dominncia de direita, relatando uma mdia de 1,8 ramos, o que est prximo da mdia por ns encontrada de 2,2 ramos. No h reltatos

Fig. 5 - Fotografia de corao evidenciando o ramo interventricular anterior ultrapassando o pice do corao e atingindo a regio posterior (seta).

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QUADRO 1

RESUL TADOS OBTIDOS POR DIFERENTES AUTORES QUANTO AO TIPO DE CIRCULAO CORONRIA.

AUTOR DIREITA

Campbell 68% May 55% Schlesinger 48% Blumgart et alii 40% Zoll 50% Fanfani 77% Vasko et alii 48% James 90% Penthe r et alii 90% Falci Jr. et alii 72%

na literatura sobre comprimento e calibre desses ramos.

BAPTISTA et alii 2 relatam que em 86,4% dos casos o ramo interventricular anterior forma uma ala ao redor do pice atingindo a face diafragmtica do corao. Em nosso material, em 50% dos casos este fato foi comprovado, o que demonstra a impor-tncia desse ramo, cuja ocluso pode provocar infartos de grande extenso.

O nosso estudo fornece dados sobre a domi-nncia anatmica das artrias coronrias; contudo, cumpre-nos complementar atravs de levantamen-tos obtidos pelas cinecoronariografias . De acordo com VASKO et alii 14, a dominncia de perfuso que reflete uma predominncia funcional das artrias coronrias mostra uma inverso de valores com 69% de dominncia de esquerda, o que significa que a dominncia anatmica no corresponde exa-tamente dominncia funcional.

Cabe-nos ressaltar, ainda, que a dominncia da direita a manuteno do padro fetal de circula-o e que, mesmo nesses casos, existe um predo-mnio da artria coronria esquerda devido a que esta artria irriga paredes card acas com maior mas-sa muscular.

BALANCEADA

18% 9%

34% 40% 16% 7%

36%

12%

CONCLUSES

ESQUERDA

14% 36% 18% 20% 44% 16% 16% 10% 10% 16%

1) Em coraes de brasileiros, a dominncia de direita consideravelmente maior que a domi-nncia de esquerda e circulao balanceada.

2) Na metade dos coraes estudados encontra-mos um ramo interventricular anterior que ultra-passa o pice cardaco e atinge a regio pos-terior.

3) No existe correlao estatisticamente significa-tiva entre o comprimento do ramo interventricular posterior e os ramos do ramo interventricular anterior que ultrapassam o pice do corao.

4) Nos coraes com dominncia de direita, a maio-ria apresenta mais de um ramo ultrapassando a crux cordis, com um mximo de cinco ramos.

5) Nos coraes com dominncia de esquerda, a maioria no apresenta ramos ultrapassando a crux cordis.

6) Nos coraes com dominncia de direita, os maiores ramos so o interventricular posterior, o M-V e o M-IV, quando presentes, em ordem decrescente de tamanho . Esse fato demonstra a importncia da artria coronria direita na irrigao de toda a parede posterior do ventrculo esquerdo.

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FALCI JNIOR, R.; CABRAL, R. H.; PRATES, N. E. V. B. - Tipos de circulao e predominncia das artrias coronrias em coraes de brasileiros. Rev. Bras. Cir. Cardiovasc., 8(2):152-162, 1993.

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FALCI JNIOR, R.; CABRAL, R. H.; PRATES, N. E. V. B. - Predominance of the coronary arteries of the brazilian hearts: morphometric study. Rev. Bras. Cir. Cardiovasc., 8(2):152-162, 1993.

ABSTRACT: The type of circulation and the predominance of the coronary arteries have a great interest in Cardiology as well as in Cardiac Surgery. There is a close relationship between the type of circulation and the risk of myocardial injuries after coronary obstruction. We carried out 50 normal hearts (35 males and 15 females) of 28 caucasian and 22 non-caucasian individuais. The arteries were injected with colored gelatine. The average cardiac weight was 291 9 and the ventricular length was 97 mm. The right coronary predomi-nance was the most common pattern of distribution (72%) and is followed in incidence by a left coronary predominance (16%) and least frequently by a balanced circulation (12%). The incidence of branches crossing the crux cordisranged from 1 to 5 (average 2,2) in right coronary predominance. On the other hand, in the left coronary predominance we found one branch in two hearts. The most frequent branch reaching the diaphragmatic from the sternocostal surface was the interventricularis anterioris ramus(50%).

DESCRIPTORS: coronary arteries, morphology; coronary arteries, anatomy.

AGRADECIMENTO: Ao Sr. Srgio Spezzia, Sr. Hlio Francisco de Souza e Sr. Argemiro Falcett Jnior, pela documentao cientfica. Ao Sr. Divino Geraldo da Silva, Jos Ado Mendes e Edson Dantos da Silva, pela ajuda na coleta do material. Ao Prof. Dr. Clvis Takiguti e Sr. Ivaldo, pela interpretao dos dados estatsticos. Ao Prof. Dr. Fbio B. Jatene, pela colaborao no uso dos recursos tcnicos do Museu anatmico-cirrgico. Ao Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universida-de de So Paulo, pelo emprstimo dos computado-res .

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