Transcrição Ivan Wedekin

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Transcript of Transcrição Ivan Wedekin

  • FUNDAO GETULIO VARGAS

    CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAO DE

    HISTRIA CONTEMPORNEA DO BRASIL (CPDOC)

    Proibida a publicao no todo ou em parte; permitida a citao. A citao deve ser textual, com indicao de fonte conforme abaixo.

    WEDEKIN, Ivan. Ivan Wedekin (depoimento, 2012). Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, 2012. 30p.

    IVAN WEDEKIN

    (depoimento, 2012)

    Rio de Janeiro

    2012

  • Transcrio

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    Nome do Entrevistado: Ivan Wedekin

    Local da entrevista: So Paulo -SP

    Data da entrevista: 7 de agosto de 2012

    Nome do projeto: Trajetria e Pensamento das Elites do Agronegcio

    Entrevistadores: Mrio Grynszpan e Ana Carolina Bichoffe

    Cmera: Eduardo Ferraz e Thiago Belotto (Samambaia Filmes)

    Transcrio: Letcia Cristina Fonseca Destro

    Data da transcrio: 18 de setembro 2012

    Conferncia de Fidelidade: Ana Carolina Bichoffe

    ** O texto abaixo reproduz na ntegra a entrevista concedida por Ivan Wedekin em 07/08/2012. As partes destacadas em vermelho correspondem aos trechos excludos da edio disponibilizada no portal CPDOC. A consulta gravao integral da entrevista pode ser feita na sala de consulta do CPDOC.

    Mrio Grynszpan Doutor Ivan, ns queramos inicialmente que o senhor falasse um

    pouco das suas origens, seus pais, enfim, onde o senhor nasceu, como tudo comeou.

    Ivan Wedekin Bom, eu nasci no municpio de Buritama, Estado de So Paulo, que

    fica a quinhentos quilmetros da capital, em um bairro rural chamado Roseira. Mas logo

    em seguida, com seis meses de idade, o meu pai se mudou para Turiba, que uma

    cidade ali prxima, e eu fiquei nessa cidade at os quinze anos de idade. Portanto, as

    minhas razes, toda a minha formao humana e de mundo est l nessa regio. Tm

    dois ramos da minha famlia. Na verdade eu sou uma mistura de uma origem alem com

    baianos. Ento, o meu lado paterno na quinta gerao, Teodoro Wedekin veio da

    Alemanha e chegou a Santa Catarina no porto de So Francisco do Sul em mil

    oitocentos e cinquenta e poucos.

    M.G. Veio como colono?

    I.W. Na verdade, a primeira atividade dele foi boticrio. Ele era farmacutico e a teve

    o meu bisav Ernesto Wedekin. E esse meu bisav em algum momento se mudou para

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    Minas Gerais e l nasceu, em 1900, o meu av Vicente Wedekin e depois o meu pai,

    Osvaldo Wedekin. O meu pai j nasceu em 1927. Do lado da minha me... A minha

    me baiana. Veio em 1936-37 de Caitit, do interior da Bahia, com o meu av, o pai

    dela, Antnio Cirino dos Santos. A minha me era menina e vieram de caminho at

    Montes Claros, em Minas Gerais, e l ficaram esperando onze dias at ter vaga em um

    trem, que o governo, naquela poca, patrocinava a migrao. Ento, veio o meu av

    com os filhos, inclusive com os pais dele, portanto, os meus bisavs e chegaram em

    Mirassol prximo de So Jos do Rio Preto de maneira que a minha famlia dos

    avs e seus respectivos filhos foram se encontrando ali em Buritama, Turiba, Zacarias,

    Planalto e Macaubal - onde tenho muitos familiares Wedekin, Teixeiras e dos Santos

    que so os meus queridos baianinhos da minha formao afetiva.

    M.G. E o seu pai tinha irmos?

    I.W. Mais seis irmos. So sete irmos, trs faleceram ainda pequenos. Ento, era uma

    famlia grande. A da minha me tambm era uma famlia de sete, oito irmos. Ento,

    era muito gostoso, na minha infncia, passar o natal na casa dos avs e o ano novo na

    casa dos outros avs. Essas razes rurais para mim foram extremamente importantes na

    minha formao. O meu av materno, Antnio, tinha l um Fordinho vinte e nove e

    eu ficava muito feliz quando ele ia minha casa, me sequestrava. Naquela poca no

    tinha mala, se arrumava uma trouxa de roupa e l ia eu para o stio passar alguns dias. E

    naquela poca no tinha energia eltrica, no tinha nada disso. Era uma vida bastante

    rural.

    M.G. Em que data o senhor nasceu?

    I.W. Treze de novembro de 1953. Esse o documento oficial. Na verdade eu nasci no

    dia anterior, no dia doze, mas o meu pai estava indo a cavalo para a cidade para me

    registrar e choveu, ele voltou para casa e foi no dia seguinte. A o cartorrio acabou

    anotando dia treze de novembro.

    M.G. E as escolas por onde...? H sim, o senhor tem irmos e irms?

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    I.W. Eu tenho dois irmos, eu sou o mais novo, o meu irmo que o do meio tem trs

    filhos, a minha irm tem duas filhas, eu tenho um casal de filhos e uma netinha que tem

    hoje cinco anos.

    M.G. E o senhor se casou em que ano?

    I.W. Eu me casei em 1982, depois me separei. Esses meus filhos so do primeiro

    casamento.

    M.G. Certo. Em que escolas o senhor estudou? O senhor se lembra dessas escolas?

    Enfim, isso ficou marcado na sua formao...?

    I.W. Lembro muito bem. Na minha poca ns tnhamos a fase que era o grupo escolar

    e estudei no grupo escolar de Turiba. Esse municpio s tinha at o quarto grau. A

    partir do quinto ao oitavo grau eu fui estudar em Buritama e na maioria dos dias ns

    amos de caminho, uma estrada de quinze quilmetros de terra. E de vez enquanto, em

    alguns perodos do ano, eu ficava l de segunda sexta na casa dos meus avs paternos

    que moravam em Buritama. No colegial tivemos que mudar novamente de cidade. A eu

    estudei um pedao em Birigui, Monte Aprazvel e terminei o colgio em So Jos do

    Rio Preto a o meu pai j havia se mudado para So Jos do Rio Preto. Ento eu

    completei l o colgio e junto com o terceiro colegial eu j fiz o cursinho e entrei em

    Piracicaba na Esalq1, na Universidade de So Paulo, e fui para Piracicaba fazer

    Agronomia com dezessete anos de idade.

    M.G. Em que ano foi que o senhor entrou na Esalq?

    I.W. Em 1971.

    M.G. Qual era mesmo a profisso do seu pai?

    I.W. Toda a minha descendncia vem da roa, da produo. O meu av produzia

    muito algodo, caf, gado. Toda origem da minha famlia era uma origem de produtores

    agrcolas. Logo aps o meu nascimento, o meu pai se mudou para Turiba e l ele

    vendeu um pouco de gado que tinha e a safra e comprou uma padaria. Ficou por um 1 Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de So Paulo (USP).

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    pouco tempo nisso e a ele foi para o comrcio. Ento ns tnhamos em Turiba a maior

    loja de secos e molhados. Isso era em 1954. As lojas de secos e molhados vendiam

    acar, feijo, caf, corda, fumo, chapus, enxada, tecidos Nova Amrica que vinham

    do Rio de Janeiro. Era um mini supermercado. Claro que naquele momento mais de

    sessenta por cento dos brasileiros viviam na zona rural. Assim, ns tnhamos um grande

    movimento de sbado e domingo quando o pessoal do campo ia fazer compra na

    pequena cidade.

    M.G. E da sua vida universitria, o que o senhor lembra: professores que marcaram,

    interesses mais especficos que o senhor tinha na universidade?

    I.W. Olha, tive professores, assim, muito bons, no ? E chegar na universidade com

    dezessete anos de idade, eu creio que a dimenso mais importante da segunda gerao

    de amigos que voc faz na vida. A primeira gerao de amigos meus est l na minha

    turma de Turiba, do colgio, e a segunda safra de grandes amigos que perduram nesses

    quarenta anos foi na Esalq em Piracicaba. Alguns mestres: professor Aristeu2, que era

    praticamente um mito, era aquele que dava cinco horas seguidas. Dava aula de pecuria

    de corte com grande prazer. Chegou a ser diretor da Esalq. Eu diria que foi uma

    referncia de professor. Eu sei que eu fao uma injustia com muitos excelentes

    professores: Moacyr Corsi, Vidal3, Nakano4. Enfim, tem toda uma gerao de grandes

    mestres que fizeram minha formao. As minhas escolhas na poca, para um garoto

    muito jovem, foram de fazer um currculo diversificado. Eu me formei em 1974.

    Estvamos na fase da revoluo dos insumos agrcolas no Brasil, perodo de

    alavancagem de grande fornecimento de crdito rural. Ento foi em um momento de

    grande transformao, de modernizao da agricultura e foi um momento, portanto, de

    muita procura por profissionais. Ento as empresas de insumo agrcola, os bancos e a

    prpria Fundao Getlio Vargas (FGV) iam s escolas de agronomia contratar

    2 Prof. Aristeu Mendes Peixoto.

    3 Prof. Vidal Pedroso de Faria.

    4 Prof. Octvio Nakano.

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    profissionais. Nesse momento havia acabado de se constituir a Embrapa5, creio que em

    73 . A Embrapa estava contratando tambm um grande nmero de profissionais para

    fazerem mestrado, ps-graduao.

    M.G. E colegas seus daquela poca, enfim, que tiveram uma visibilidade depois, o

    senhor poderia citar alguns nomes, o senhor lembra quem...?

    I.W. Bom, temos o Francisco Graziano, Xico Graziano, que meu colega de turma,

    teve uma carreira muito ligada ao presidente Fernando Henrique Cardoso, foi do Incra6,

    foi secretrio de agricultura de So