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  • DOI: 10.1590/TEM-1980-542X2015v213710 Revista Tempo | Vol. 21 n. 37 | Artigo

    ResumoEm 1972, durante a Conferncia de Estocolmo, a oposio do Brasil s propostas de regulamentao ambiental despertou fortes crticas internacionais. Este artigo discute as conexes entre a ditadura civil-militar, o milagre econmico e a poltica ambiental brasileira entre 1967 e 1973, com foco na poluio atmosfrica. Como outros pases latino-americanos, o Brasil enfrentava dilemas entre desenvolvi-mento e qualidade ambiental. Algumas instituies propuseram solues diversas para o tema, como Cepal e Redpanaire, ambas agn-cias das Naes Unidas na Amrica Latina. A polmica da poluio atmosfrica explicita as contradies do regime civil-militar brasileiro, que justificava a poluio como meio para o desenvolvimento e a luta contra a pobreza ao mesmo tempo em que adotava polticas que resultaram em concentrao de riqueza. Enquanto o poder de compra e a qualidade de vida das elites cresciam rapidamente, a maioria da populao brasileira experimentou altas taxas de mortalidade infantil, ms condies de sade, ambientes degradados e significativas perdas salariais. A ditadura deixou para o Brasil um duplo legado de aprofundamento da desigualdade social e da degradao ambiental.Palavras-chave: poluio atmosfrica; Conferncia de Estocolmo; poltica ambiental.

    Turn to pollute: air pollution and development model during the Brazilian miracle (1967-1973)AbstractIn 1972, at the Stockholm Conference, Brazilian opposition to environmental regulation proposals aroused strong criticism. This article discusses the connections between the civil-military dictatorship, the economic miracle and the Brazilian environmental politics from 1967 to 1973, focusing on air pollution. As other Latin American countries, Brazil was facing dilemmas between development and environmental conservation. International institutions took action in the region, proposing different solutions to this issue, as Cepal and Redpanaire, both agencies of the United Nations in Latin America. The air pollution quandary made explicit the contradictions of the civil-military Brazilian regime, which justified the pollution as a means for development and fighting poverty, at the same time that adopted policies that resulted in wealth concentration. While the elites buying power and quality of life grew rapidly, most of the Brazilian population experienced high rates of infant mortality, poor health and environmental conditions, and a significant drop in real minimum wages. At the end of the dictatorship, Brazil inherited a legacy of both social inequality and environmental degradation.Key-words: air pollution; Stockholm Conference; environmental policy.

    Turn to pollute: la contaminacin atmosfrica y el modelo de desarrollo en el milagro brasileo (1967-1973)

    ResumenEn 1972, durante la Conferencia de Estocolmo, la oposicin de Brasil a las propuestas de regulacin ambiental provoc fuertes crticas internacionales. Este artculo analiza las conexiones entre la dictadura cvico-militar, el milagro econmico y la poltica ambiental brasilea entre 1967 y 1973, centrndose en la contaminacin del aire. Al igual que otros pases de Amrica Latina, Brasil enfrent dilemas entre el desarrollo y la conservacin del medio ambiente. Algunas instituciones propusieron diferentes soluciones al problema, como la Cepal y Redpanaire, ambas agencias de las Naciones Unidas en Amrica Latina. La controversia de la contaminacin atmosfrica explicit las contradicciones del rgimen civil-militar brasileo, que justificaba la contaminacin como un medio para el desarrollo y la lucha contra la pobreza, al mismo tiempo en que adoptaron polticas que resultaron en concentracin de la riqueza. Mientras que el poder adquisitivo y la calidad de vida de las lites crecieron rpidamente, la mayora de la poblacin ha experimentado altas tasas de mortalidad infantil, la mala salud, entornos degradados y prdidas salariales significativas. La dictadura leg a Brasil un doble legado de desigualdad social y degradacin ambiental.Palabras claves: contaminacin del aire; Conferencia de Estocolmo; poltica ambiental.

    Turn to pollute : la pollution de lair et le modle de dveloppement au cours du miracle brsilien (1967-1973) RsumEn 1972, lors de la Confrence de Stockholm, lopposition du Brsil des propositions de rglementation environnementale a suscit de vives critiques internationales. Cet article dbat les liens entre la dictature civile-militaire, le miracle conomique et la politique environnementale brsilienne entre les annes 1967 et 1973, en se concentrant sur la pollution atmosphrique. Certaines organisations ont propos plusieurs solutions la question, tels que Cepal et Redpanaire, agences des Nations Unies en Amrique Latine. La controverse de la pollution atmosphrique explicite les contradictions du rgime civile-militaire brsilienne, ce qui justifiait la pollution comme un moyen de dveloppement et de lutte contre la pauvret, tandis quil a adopt des politiques qui ont abouti la concentration de la richesse. En mme temps que le pouvoir dachat et la qualit de vie des lites ont augment rapidement, la plupart de la population a connu des taux levs de mortalit infantile, la mauvaise sant, les environnements dtriors et les pertes salariales importantes. La dictature a lgu au Brsil une double hritage de lingalit sociale et de dgradation environnementale.Mots-cls: pollution atmosphrique; Confrence de Stockholm; politique environnementale.

    Artigo recebido em 22 de janeiro de 2015 e aprovado para publicao em 19 de junho de 2015.[1] Professora do Departamento de Histria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Belo Horizonte (MG) Brasil. E-mail: reginahortaduarte@gmail.com.

    Turn to pollute: poluio atmosfrica e modelo de desenvolvimento no milagre brasileiro (1967-1973)Regina Horta Duarte[1]

  • Revista Tempo, 2015:0064-008765

    A defesa de uma estratgia

    Em janeiro de 1972, o ministro do Planejamento Joo Paulo dos Reis Velloso concedeu uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro, realizando balanos e expondo estratgias futuras para o desenvolvimento do pas. O ministro assumiu uma postura tecnocrtica, mostrando grficos e tabelas com profunda seriedade. O nico sorriso esboado por ele ocorreu no momento em que mencionou a atrao do capital japons. No Japo como em outras naes ricas , o controle crescente dos impactos ambientais impunha limi-taes s atividades industriais. Mas os empresrios encontrariam outra tendncia no Brasil. Reis Velloso afirmou sem rodeios: Ns ainda temos muita rea para poluir (O retrato..., 1972, p. 56-57).

    A disposio alardeada pelo Brasil de tornar-se um verdadeiro importador de poluio teve grande e negativa repercusso em certos setores internacio-nais. Editorial do The New York Times intitulado Turn to pollute (algo como Recorrendo poluio) comparou a declarao de Reis Velloso expresso do comodoro Vanderbilt, the public be damned (o pblico que se dane), em uma atitude de zombaria em relao Conference on the Human Environment, prevista para 5 a 12 de junho daquele ano, em Estocolmo (Turn..., 1972, p. 40; Novitski, 1971, p. 18).

    No impossvel que o sorriso de Reis Velloso, observado e anotado pela imprensa, tenha sido uma manifestao de desafio ou escrnio. O anda-mento dos trabalhos preparatrios pelo Brasil para a conferncia indicava a rejeio de quaisquer tentativas de controle do crescimento econmico do pas visando a conservao ambiental. Poucos dias aps a publicao do editorial de crticas pelo NYT, o representante do Brasil nas Naes Unidas escreveu uma carta ao editor do jornal reafirmando a prioridade da nao em combater a pobreza qualificada como a pior poluio e a inabalvel deciso do Brasil de manter e aumentar tanto quanto possvel a acelerao de sua economia (Frazo, 1972, p. 29).

    The Guardian apontava manchas no boom econmico brasileiro, pois, ao mesmo tempo em que comemorava surpreendentes taxas de crescimento nos ltimos anos, o Brasil vivia uma rigorosa ditadura que exilava, torturava e matava os dissidentes. Diante da repercusso da crtica internacional, o minis-tro Delfim Netto reuniu a imprensa para defender sua estratgia de concentrar renda como meio de promover o desenvolvimento. Segundo suas palavras, era preciso deixar o bolo crescer, para depois dividir. Sobre a poluio, o minis-tro reafirmou a posio de que nada poderia inibir o desenvolvimento (Roper, 1972, p.3; Delfim Netto, 1972, p.3-5).

    Os representantes do Brasil em Estocolmo receberam a misso de defen-der de forma intransigente a industrializao sem maiores constrangimentos conservacionistas, assim como obras de grande repercusso sobre o ambiente, como a construo da rodovia Transamaznica. Neste artigo, argumentarei que as aes econmico-sociais e ambientais do governo brasileiro estiveram em sintonia durante o Milagre Brasileiro (1967-73).

  • Revista Tempo, 2015:0064-008766

    Protestos contra esses posicionamentos foram ignorados ou silenciados pela ditadura, que se enrijeceu a partir de 1967. A conduo de Costa e Silva presidncia significou a vitria da linha-dura do Exrcito. Todo esse contexto brasileiro foi embalado por um clima ufanista com palavras de ordem como Brasil pas do futuro, pra frente Brasil, ningum segura este pas, Brasil, ame-o ou deixe-o e endossado por grande parte das elites e das classes mdias, que gozaram anos de grande prosperidade, com mdia de crescimento do PIB de 11,2% entre 1968 e 1973.

    A despeito de o Brasil adotar uma atitude resistente s demandas interna-cionais por novas prticas em relao ao ambiente, a destruio natural era cada vez mais evidente e, por vezes, ganhou destaque em alguns rgos de imprensa nacionais e em protestos de artistas, tcnicos e membros da comunidade cien-tfica. Em vrias cidades e nas reas industriais, o aumento da poluio mudava a cor do cu, tornava as guas imprprias para uso da populao, contaminava lenis freticos, manchava as roup