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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE EDUCAO E CINCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTRIA

NATALLY COSTA DE OLIVEIRA

CRISTOS-NOVOS E INQUISIO: UM LABIRINTO DE EMBATES E

CONTROVRSIAS

SO CRISTVO/ SE

2015

NATALLY COSTA DE OLIVEIRA

CRISTOS-NOVOS E INQUISIO: UM LABIRINTO DE EMBATES E

CONTROVRSIAS

NEW CRISTIAN AND INQUISITION: A MAZE OF CLASHES AND

CONTROVERSIES

Artigo apresentado disciplina

Prtica de Pesquisa, como requisito

para obteno do ttulo de Licenciada

em Histria pela Universidade Federal

de Sergipe.

Orientador: Prof. Dr. Marcos Silva

So Cristvo/SE

2015

3

Cristos-Novos e Inquisio: um labirinto de embates e controvrsias

Natally Costa de Oliveira1

Resumo: o presente trabalho tem como objetivo analisar os principais embates tecidos

por estudiosos acerca dos Cristos-Novos. Para isso, utilizaremos como documento

central a entrevista concedida ao jornal O Dirio de Lisboa pelo historiador Israel

Salvador Rvah, conduzida pelo jornalista Ablio Dinis Silva, cuja teve como tema a

obra Inquisio e Cristos-Novos de Jos Antnio Saraiva. A partir da entrevista e das

rplicas e trplicas s quais os envolvidos tiveram direito, assim como, considerando os

estudos essenciais sobre o assunto, possvel apontarmos e discutirmos quais so os

maiores impasses existentes na historiografia sobre os Cristos-Novos.

Palavras-chave: Cristos-Novos, Inquisio, controvrsias.

Abstrat: The present study aims to analyze the main expatiated clashes by researchers

about the New Christians. For this, we use as the main text interview with the

newspaper Dirio de Lisboa by historian Israel Salvador Rvah, conducted by journalist

Abilio Silva Dinis, which had as its theme the work Inquisition and New Christians of

Jos Antonio Saraiva. From the interview and replies and rejoinders to which those

involved had the right, as well as, considering the essential studies about the subjectit is

possible point out and discuss what are the major existing deadlocks in the

historiography of the New Christians.

Key-Words: New Christians. Inquisition. Controversies.

Introduo

As Inquisies portuguesa e espanhola se diferenciavam das demais,

sobretudo, pela natureza dos rus que elas perseguiam, os chamados Cristos-Novos 2

1 Graduanda em Histria pela Universidade Federal de Sergipe. Email: [email protected]

4

ou Marranos. O processo inquisitorial era regido pela juno de dois direitos, o direito

eclesistico (aplicado pelo brao inquisitorial) e o direito civil (aplicado pelo brao

temporal).

Com efeito, sendo uma instituio eclesistica, a Inquisio s podia,

em princpio, impor penas espirituais (excomunhes, penitncias,

etc.); mas, entregando, ou relaxando ao brao secular, isto , justia

civil, os condenados, submetia-os implicitamente pena de morte e de

confiscao de bens, que o direito civil estatua para certos crimes,

entre os quais os de heresia. (SARAIVA, 1969, p.14-15).

No incio, tanto em Portugal como na Espanha, a Inquisio ocupava-se

exclusivamente dos sditos da Igreja, dos batizados que se afastavam da f, em teoria, a

Igreja no podia obrigar a converter-se a f crist os nascidos fora de sua comunidade,

como Judeus e Mulumanos.

Entretanto, a partir do final do sculo XV, o problema dos Cristos- Novos

toma propores diferentes nesses dois pases. Pois se de um lado, o Tribunal do Santo

Ofcio j exercia toda sua fora e poderio na Espanha desde o incio do sculo XV, foi

s a partir de 1536 que os judeus convertidos foradamente religio catlica foram

duramente perseguidos em Portugal. Sendo que, as devastaes desta ultrapassaro as

da instituio castelhana similar, cuja atividade antimarrana diminui consideravelmente

aps os terrveis excessos dos primeiros decnios. (RVAH, 1977, p.100).

Desse modo, fica ntido que apesar da Inquisio ter demorado mais para ser

intensificada em Portugal, foi nesse pas onde essa teve maior durao e

consequentemente vitimou maior quantidade de judeus e inocentes. A diferena entre o

perodo em que a Inquisio foi intensificada na Espanha e em Portugal foi decisiva

para que se estabelecessem no ltimo, os alicerces espirituais e religiosos marranos.

A problemtica que envolve os Cristos-Novos alvo de muitas discusses e

embates entre os estudiosos do assunto. As discordncias acerca desse fenmeno vo

desde o termo utilizado para designar esse grupo at maneira como a relao entre o

Tribunal do Santo Ofcio e Cristos-Novos interpretada e compreendida pelos

pesquisadores.

2Cristo-novo foi a expresso pela qual foram designados os judeus convertidos ao catolicismo,

contrapondo-se ao cristo-velho sem antecedentes judaicos. Cristo-novo era, com freqncia, substituda

por converso e, na Espanha, por marrano, expresso de origem polmica uma vez que para alguns

significa porco, porque as religies, judaica e muulmana, proibiam a ingesto da carne desse animal, e

para outros o termo seria de origem hebraica com influncia ibrica e significa homem batizado fora.

Anussim, termo de origem hebraica, quer significar exatamente a categoria daqueles que foram

forados a abdicar de sua identidade ancestral. (SILVA, 2009, p.01)

5

Se por um lado temos estudiosos como Joo Lcio de Azevedo, Lopes

Martinez e Caro Baroja, legitimando a existncia e o modo de funcionamento do

Tribunal do Santo Ofcio, atravs da alegao de que uma vez batizados na religio

catlica os Cristos-Novos eram sditos da Igreja e deveriam estar conscientes quanto

s suas sanes eclesisticas, no importando se seus antepassados tivessem sido

convertidos fora. Por outro, temos autores como M. Kayserling, Yitzhak Baer e N.

Sloush que defendem o direito dos Cristos-Novos em no se reconhecerem como tal,

uma vez que as converses de seus antepassados ao catolicismo no aconteceram

espontaneamente, mas atravs do uso da fora, desse modo no poderiam ser

legitimadas e por isso no aceitavam a religio catlico e em segredo praticavam os

ritos judaizantes (NOVINSKY, 1992 P.03-04).

Diante dessas questes, preciso que esclareamos ao longo do trabalho alguns

pontos para que alcancemos uma melhor compreenso desse grupo to complexo que

so os cristos-novos. Para isso, tentaremos responder alguns questionamentos que

procuraro englobar desde fatores da vida prtica at aquelas concernentes identidade

cultural e a conscincia histrica do grupo.

Instigado com as diferenas de concepes entre os especialistas, o Dirio de

Lisboa,3 realizou atravs do jornalista Ablio Dinis Silva, uma entrevista com prof.

Israel Salvador Rvah do College de France e da cole Pratique des Haustes Estudes da

Sorbonne, com a inteno de conseguir uma resposta contraditria s teses defendidas

por Antnio Jos Saraiva, em seu livro Inquisio e Cristos-Novos, essa entrevista

acaba por adquirir um tom polmico.

Antes de adentrarmos a entrevista e discusso de seus temas mais polmicos,

faz-se necessrio conhecermos as regras para o uso dos documentos inquisitoriais.

Como sabemos todo documento de fabricao humana passvel de parcialidade, sendo

que est pode se dar de forma voluntria ou involuntria.

Entretanto, para Rvah h vrios mtodos para se controlar a autenticidade dos

documentos inquisitoriais, o prprio enumerou quatro possibilidades de controle, so

elas:

1- por vezes, basta estudar um processo isolado para se demonstrar a

autenticidade dos seus documentos, quando se encontram descritos

3 Jornal vespertino que circulou em Portugal no perodo compreendido entre 21 de abril de 1921 a 30 de

dezembro de 1990, sem dvidas foi um dos jornais de maior referncia do sculo XX em Portugal. No

perodo que nos interessa (1971) o jornal era dirigido por Antnio Ruella Ramos (1938-2009), o qual

posteriormente tambm foi administrador da Lisgrfica.

6

com preciso aspectos da teologia ou, principalmente, da liturgia

judaica (ou marrnica). Estes aspectos no podem ter sido

fraudulosamente sugeridos pelos inquisidores que se limitavam de

deficientes definies oficiais da heresia judaizante, e que nunca

procurava informa-se sobre o judasmo. Comecei a reunir os

elementos de uma histria da liturgia judeomarrnica ao seguir certas

oraes desde os processos do sc. XVI at a poca contempornea,

na qual, quando se redescobriram os marranos portugueses,

investigadores ligados directa ou indirectamente ao judasmo

publicaram numerosos textos que recolhiam da tradio escrita ou

oral. Embora os processos onde aparecem verses destas oraes

tenham sido instaurados pelos mais diversos tribunais: Lisboa,

Coimbra, vora, Toledo, Logroo, Mxico, Lima, Cartagena das

ndias, nada nos regulamentos das Inquisies portuguesa e espanhola,

explica essa extraordinri