Va 11 Completo18-02 Final (1)

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Aquicultura Visão Agrícola Conteúdo técnico com qualidade editorial Anuncie em Visão Agrícola Conteúdo produzido por uma instituição pioneira, com mais de cento e dez anos de ensino, pesquisa e extensão, reconhecida no Brasil e no Exterior. Visão Agrícola atinge um público especializado, composto por profissionais, empresários, estudantes e técnicos das diversas áreas das ciências agrárias. AV. PÁDUA DIAS N º 11 CP 9 PIRACICABA SP 13418-900 PRÉDIO DA CULTURA E EXTENSÃO PABX: (19) 3429.4100 FAX: (19) 3429.4249 WWW.ESALQ.USP.BR Assine ou adquira um exemplar Visão Agrícola chega com este exemplar à sua décima primeira edição, cada uma delas enfocando de forma abrangente e detalhada uma área relevante da agricultura brasileira. As edições anteriores continuam disponíveis para os interessados: nº 1 – Cana-de-açúcar nº 2 Cítrus nº 3 Bovinos nº 4 Florestas nº 5 Soja nº 6 Algodão Informações Revista Visão Agrícola Tel./fax: (19) 3429.4249 [email protected] www.esalq.usp.br/visaoagricola Faça seu pedido por fax ou pelo Correio (Formulário pág. 158) Número avulso: R$ 30,00 Assinatura anual (duas edições): R$ 50,00 (inclui postagem em território nacional) ISSN 1806-6402 USP ESALQ ANO 8 JUL | DEZ 2012 11 PAULO SOARES/USP ESALQ Incentivos fizeram setor dar saltos expressivos nº 7 Pós-Colheita nº 8 Agroenergia nº 9 Plantio Direto nº 10 Agricultura e Sustentabilidade nº 11 Aquicultura VISÃO AGRÍCOLA 11 USP ESALQ ANO 8 JUL | DEZ 2012 CRESCIMENTO PORCENTUAL DA DEMANDA SUPERA EXPECTATIVAS MELHORAMENTO TORNA TILÁPIA VARIEDADE MAIS COMPETITIVA SETOR AMPLIA AÇÕES PARA REDUZIR IMPACTO AMBIENTAL

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Transcript of Va 11 Completo18-02 Final (1)

  • Aquicultura

    Viso AgrcolaContedo tcnico com qualidade editorialAnuncie em Viso AgrcolaContedo produzido por uma instituio pioneira, com mais de cento e dez anos de ensino, pesquisa e extenso, reconhecida no Brasil e no Exterior. Viso Agrcola atinge um pblico especializado, composto por profissionais, empresrios, estudantes e tcnicos das diversas reas das cincias agrrias.

    Av. PduA diAs n11 CP 9 PirACiCAbA sP 13418-900

    PrdiO dA CuLTurA E EXTEnsO

    PAbX: (19) 3429.4100 FAX: (19) 3429.4249

    www.EsALq.usP.br

    Assine ou adquira um exemplarViso Agrcola chega com este exemplar sua dcima primeira edio, cada uma delas enfocando de forma abrangente e detalhada uma rea relevante da agricultura brasileira. As edies anteriores continuam disponveis para os interessados: n 1 Cana-de-acar

    n 2 Ctrus

    n 3 Bovinos

    n 4 Florestas

    n 5 Soja

    n 6 Algodo

    informaes

    Revista Viso AgrcolaTel./fax: (19) [email protected]/visaoagricola

    Faa seu pedido por fax ou pelo Correio (Formulrio pg. 158) Nmero avulso: R$ 30,00Assinatura anual (duas edies): R$ 50,00 (inclui postagem em territrio nacional)

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    Incentivos fizeram setor dar saltos expressivos

    n 7 ps-Colheita

    n 8 Agroenergia

    n 9 plantio Direto

    n 10 Agricultura e Sustentabilidade

    n 11 Aquicultura

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    12

    CRESCIMENTO pORCENTual

    Da DEMaNDa SupERa

    ExpECTaTIvaS

    MElHORaMENTO TORNa

    TIlpIa vaRIEDaDE MaIS

    COMpETITIva

    SETOR aMplIa aES

    paRa REDuzIR

    IMpaCTO aMbIENTal

  • MaNTM????

  • D ao homem um peixe e ele se alimentar por um dia. Ensine um homem a pescar e ele se alimentar por toda a vida. Este antigo provrbio chins (atribudo a Lao-Ts, importante filsofo da China antiga, conhecido como o autor do Tao Te Ching, obra basilar da filosofia taosta) continua trazendo a mensagem intrnseca e figurada com relao necessidade do desenvolvimento contnuo e sistemtico de nossos profissionais.

    Literalmente, ao longo dos tempos, a ESALQ vem dis-ponibilizando peixes de porte e certamente proporcio-nando diversas oportunidades do ensinar a pescar a partir de uma srie de contribuies de membros de sua comunidade aquicultura brasileira.

    Tal como j vem sendo observado em diversos pases que detm uma clara e bem definida orla martima, assim como um sistema fluvial extenso e bem capilarizado, o segmento brasileiro de pesca comea a ser tratado de forma destacada (e integrada agricultura) por nossas lideranas polticas (autoridades federais, em particu-lar), de tal maneira que um ministrio ou mesmo uma secretaria (com status de ministrio) especializados passam a ser agentes fundamentais para a acelerao do crescimento desse ambiente, que est sendo tratado nesta edio nmero 11 de nossa Viso Agrcola.

    Portanto, o desafio, um pouco distinto daquele preco-nizado pelo provrbio chins, a obteno do equilbrio de foras voltadas ao se dar o peixe e ao se ensinar a pescar. Boa leitura!

    Jos Vicente Caixeta Filho

    Diretor da USP/ESALQ

    Editorial

    1viso agrcola n11 jul | dez 2012

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    ISSN 1806-6402

    www.esalq.usp.br/visaoagricola

    [email protected]

    PotENCiaiS do SEtor instrumentos disponveis podem melhorar uso de nossos potenciais hdricos 9

    Marcos Vinicius Folegatti, Alba Maria Guadalupe Orellana Gonzlez e Rodrigo Mximo Snchez-Romn

    rede Aquabrasil promove sade e qualidade ao pescado brasileiro 13Jorge Antonio Ferreira de Lara

    novas formas de comercializao ampliam retornos a produtores 15Joo Donato Scorvo Filho, Clia Dria Frasca Scorvo e Alceu Donadelli

    SEGMENtoS da aquiCultura Com excelentes condies ambientais, piscicultura marinha carece de investimentos 18

    Ronaldo Olivera Cavalli

    Demanda faz crescer interesse por criao de camares em estufas 24Dariano Krummenauer, Gabriele Rodrigues de Lara e Wilson Wasielesky Jnior

    Cultivo em bioflocos (BFT) eficaz na produo intensiva de camares 28Geraldo Kipper Fes, Carlos Augusto Prata Gaona e Lus Henrique Poersch

    ranicultura se consolida com cadeia produtiva operando em rede interativa 33Andre Muniz Afonso

    MEio aMBiENtE Boas prticas aqucolas (BPA) em viveiros garantem sucesso da produo 36

    Jlio Ferraz de Queiroz

    Certificao e selos de qualidade asseguram requisitos na produo 40Fernanda Garcia Sampaio e Mirella de Souza Nogueira Costa

    Prs e contras da aplicao de pesticidas na aquicultura 45Rafael Grossi Botelho, Paulo Alexandre de Toledo Alves, Lucineide Aparecida Maranho,

    Srgio Henrique Monteiro, Bruno Inacio Abdon de Sousa, Debora da Silva Avelar e Valdemar Luiz Tornisielo

    Off-flavour em peixes cultivados , ainda, dificuldade para produo nacional 49Alexandre Matthiensen, Juliana Antunes Galvo e Jair Sebastio da Silva Pinto

    Cultivo aqutico sustentvel implica monitoramento de cianobactrias 54Juliana Antunes Galvo, Maria do Carmo Bittencourt-Oliveira, Marlia Oetterer

    Ambiente e biorremediao de efluentes da aquicultura 56Antonio Fernando Monteiro Camargo e Matheus Nicolino Peixoto Henares

    GENtiCa E rEProduo Tilpias do nilo tm programa de melhoramento gentico em curso 61

    Ricardo Pereira Ribeiro, Carlos Antonio Lopes de Oliveira, Emiko Kawakami de Resende, Lauro Vargas, Luiz Alexandre Filho e Angela Puchnick Legat

    Produtividade depende da conjugao de fatores diversos 65Alexandre Wagner Silva Hilsdorf e Laura Helena rfo

    Manejos de gametas e embries exigem programao hormonal 69Danilo P. Streit Jr.; Jayme A. Povh; Darci C. Fornari

    SEES Editorial 1 FruM 4 A importncia da pesquisa para o desenvolvimento da cadeia produtiva da aquicultura Eric Arthur Bastos Routledge e colaboradores

    rEPortaGEM 86 Para atingir seu potencial, setor do pescado deve ser prioridade Extrao marinha almeja mais qualidade do que quantidade Aquabrasil fez melhoramento de espcies prioritrias por regies

    iNoVaES tECNolGiCaS 154 tEMaS

  • Nutrio

    73 Ma nejo a l im enta r ef ica z v i abi l i za aquacultura lucrat i v a e susten tv el Jos Eurico Possebon Cyrino 77 nutrio adequada a cada espcie desafio para pesquisa e produo lvaro Jos de Almeida Bicudo e Eduardo Gianini Abimorad 80 Preveno de doenas em peixes tem nutrio como fator determinante Ricardo Yuji Sado e lvaro Jos de Almeida Bicudo

    83 Alimentao determinante na cadeia da piscicultura ornamental Leandro Portz e Welliton Gonalves de Frana

    SaNidadE E qualidadE 103 Preveno de doenas evita mortalidade e reduz custos Andra Belm-Costa 105 Getep soma estudo, indstria e comunidade na busca por qualificao Luciana Kimie Savay-da-Silva, Juliana Antunes Galvo e Marlia Oetterer

    108 rastreabilidade permite busca de solues para inconformidades Juliana Antunes Galvo, rika da Silva Maciel e Marlia Oetterer

    111 Atendimento a normas e padres deve considerar mercado alvo Cristiane Rodrigues Pinheiro Neiva, Rubia Yuri Tomita, Erika Fabiane Furlan e Marildes Josefina Lemos Neto

    115 Aquicultura internacional vive quadro de expanso e concorrncia aguerrida Carlos A. M. Lima dos Santos

    ProCESSaMENto 118 Minced e surimi de tilpia congelados atraem consumidor Maria Fernanda Calil Angelini, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Marlia Oetterer

    120 Produtos do pescado esto a servio da gastronomia no mundo Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    124 Gastronomia molecular une a cincia arte culinria Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    128 os desafios para manter o pescado fresco e com qualidade gastronmica Marlia Oetterer, Juliana Antunes Galvo e Luciana Kimie Savay-da-Silva

    131 refrigerao correta do pescado mantm valor nutritivo do produto Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    134 Uso do gelo pea-chave na conservao do pescado Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    137 Congelamento o melhor mtodo para a conservao do pescado Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    140 Componentes funcionais de peixes previnem doenas e promovem sade Lia Ferraz de Arruda, Ligiane Din Shirahigue e Marlia Oetterer

    142 Tecnologias emergentes prolongam caractersticas do pescado in natura Marlia Oetterer, Luciana Kimie Savay-da-Silva e Juliana Antunes Galvo

    MErCado E CoNSuMo 145 Consumo de pescado no Brasil fica abaixo da mdia internacional Daniel Yokoyama Sonoda e Ricardo Shirota

    148 A complexa avaliao do consumo de pescado Erika da Silva Maciel, Juliana Antunes Galvo e Marlia Oetterer

    SuStENtaBil idadE 150 Aproveitamento de resduos reduz desperdcios e poluio ambiental Lia Ferraz de Arruda Sucasas, Ricardo Borghesi e Marlia Oetterer

    152 Produtores e cientistas buscam novas prticas que protejam o meio ambiente Lia Ferraz de Arruda Sucasas, Juliana Antunes Galvo, Ricardo Borghesi e Marlia Oetterer

  • FruM

    o desenvolvimento do potencial da aqui-

    cultura que nenhum outro pas nas con-

    dies do Brasil ignoraria poder estabe-

    lecer novas fronteiras para a diversificao

    da economia brasileira, com a explorao

    da gua no somente como insumo bsico

    para a produo agrcola e animal, mas,

    principalmente, como territrio para

    ampliao da produo de alimentos asso-

    ciada gerao de riqueza. A aquicultura

    representa uma atividade produtiva que

    vem crescendo no pas, principalmente

    nas regies norte e Centro-oeste, onde

    muitos produtores rurais esto diversifi-

    cando a produo. A ltima estatstica do

    Ministrio da Pesca e Aquicultura (MPA)

    apontou uma produo oriunda da aqui-

    cultura de cerca de 480 mil toneladas, em

    A importncia da pesquisa para o desenvolvimento da cadeia produtiva da aquicultura

    Eric Arthur Bastos Routledge e colaboradores*

    2010, e estima-se que, para 2012, a produ-

    o possa atingir aproximadamente 600

    mil toneladas. Tal fato positivo; porm,

    levanta questes diversas, dentre as quais:

    como crescer mais em nveis sustentveis e

    como alcanar o status de outras cadeias

    da produo animal? Como aproveitar o

    crescimento do mercado interno a partir

    do aumento da qualidade de vida e do

    consumo das famlias brasileiras para

    estimular a produo nacional de pescado,

    e no as importaes?

    inevitavelmente, esses questionamen-

    tos remetem demanda da gerao de

    conhecimentos, desenvolvimento de pes-

    quisas e incremento da inovao tecnol-

    gica. A chave o investimento em pesquisa

    e tecnologia, no longo prazo, visando ao

    aumento da competitividade da indstria

    nacional de pescado, seja pela reduo de

    custos de produo, como pela introduo

    de novos produtos e processos ou, ainda,

    pelo aperfeioamento destes. So muitos,

    portanto, os desafios para a aquicultura

    no Brasil. Entre as diversas perspectivas

    para a expanso do setor esto a implan-

    tao de parques aqucolas em guas de

    domnio da Unio, a diversificao dos

    cultivos utilizando espcies nativas, o

    desenvolvimento da piscicultura marinha

    e a adoo de novos conceitos, tecnologias

    e mtodos de produo, como o cultivo

    em sistema de bioflocos, a maricultura em

    sistemas off-shore, o desenvolvimento

    de cultivos multitrficos e a automao

    de processos.

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  • Colheita do consrcio milho com Brachiaria ruziziensis no oeste baiano

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    Despesca em rea de cultivo; Palmas, TO, 2012

  • Tabela 1 | quanTiTaTivo e recursos aporTados em projeTos de pesqui-sa por meio de ediTais conjunTos do mpa e mcTi; 2003 a 2010

    ano nmero de projeTos recursos em r$

    2003 39 R$ 1.999.564,70

    2004 0 R$ 0,00

    2005 30 R$ 3.232.795,86

    2006 19 R$ 2.141.090,65

    2007 11 R$ 1.055.154,61

    2008 39 R$ 9.500.000,00

    2009 15 R$ 7.300.000,00

    2010 93 R$ 25.000.000,00

    Fonte: Ministrio da Pesca e Aquicultura (MPA).

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    o Brasil possui condies geogrficas

    e climticas favorveis para a atividade:

    elevada produo de gros insumo para

    a fabricao de rao , abundncia de

    recursos hdricos e localizao estratgica

    para escoamento da produo para toda

    a Amrica e Europa. Porm, no campo da

    pesquisa e inovao, ainda h muito a ser

    feito. o que vemos que a tilpia (Oreo-

    chromis niloticus) e o camaro-branco

    do pacfico (Litopenaeus vannamei),

    ambas espcies exticas, vm dando

    condies estruturao de uma cadeia

    produtiva na aquicultura. Entretanto, o

    desenvolvimento de pesquisas e o esta-

    belecimento de sistemas de produo tm

    possibilitado o aumento do espao para as

    espcies nativas, muito tambm devido

    ao apelo dos peixes da Amaznia e do

    Pantanal, como o tambaqui (Colossoma

    macropomum), o pirarucu (Arapaima

    gigas) e o surubim-pintado (Pseudopla-

    tystoma spp.).

    A falta de foco na definio das deman-

    das de pesquisa ainda existe, provocada

    muitas vezes pela grande quantidade de

    espcies nativas com potencial zootc-

    nico e pela existncia de gargalos tecno-

    lgicos nas diferentes etapas de cultivo,

    beneficiamento e comercializao. Pre-

    domina, tambm, uma baixa cultura da

    academia em transformar os resultados

    das pesquisas em produtos e processos

    aplicados resoluo dos entraves do

    setor, assim como h uma carncia de

    recursos humanos preparados para a

    realidade da indstria e de infraestruturas

    mais modernas para execuo de pesqui-

    sa, e pelo baixo investimento do setor

    privado. Ainda necessrio que haja uma

    maior interao entre a academia e o setor

    produtivo, caracterstica imprescindvel

    para que as demandas sejam levantadas

    e atendidas, bem como um efetivo dilogo

    com o governo para subsidiar o desenvol-

    vimento de diretrizes e polticas pblicas

    ao setor.

    o MPA tem adotado diferentes estrat-

    gias para fomentar a pesquisa nas reas

    de pesca e aquicultura no Brasil, como a

    elaborao e o lanamento de chamadas

    pblicas (editais), ferramenta que promo-

    ve a ampla concorrncia de forma trans-

    parente, com apoio fundamentado na

    meritocracia das propostas. Estes editais

    de demanda induzida visam resoluo

    de problemas estruturais relacionados

    Tanques para produo de alevinos; Zacarias, SP, 2012

    6

  • Figura 2 | disTribuio regional do nmero de projeTos de pesquisa Financiados por ediTais conjunTos do mpa e mcTi; 2003 a 2010

    Fonte: Ministrio da Pesca e Aquicultura (MPA).

    Figura 1 | recursos aporTados em projeTos de pesquisa por meio de ediTais conjun-Tos do mpa e mcTi; 2003 a 2010*

    infraestrutura de pesquisa e formao

    e qualificao de recursos humanos, bem

    como estimulam a formao de redes de

    pesquisa multi-institucionais e multidis-

    ciplinares em reas estratgicas com base

    em demandas levantadas pelo MPA e no

    mbito do Conselho nacional de Aquicul-

    tura e Pesca (Conape), entre outros fruns.

    Desde 2003, foram lanados 11 editais,

    resultado da parceria entre o MPA e o Mi-

    nistrio de Cincia, Tecnologia e inovao

    (MCTi) e suas agncias de fomento o

    Conselho nacional de Desenvolvimento

    Cientfico e Tecnolgico (CnPq) e a Fi-

    nanciadora de Estudos e Projetos (Finep).

    Foram financiados 262 projetos e conce-

    didas cerca de 500 bolsas de estudo nos

    nveis tcnico, de graduao e ps-gradu-

    ao, com aporte de, aproximadamente,

    r$ 60 milhes. Cerca de 80% dos projetos

    trataram exclusivamente de pesquisas em

    reas da aquicultura, tais como: melhora-

    mento gentico, nutrio, manejo, engor-

    da, reproduo e sanidade de organismos

    aquticos, dentre outras. Tal demanda

    reflete o interesse em desenvolver o

    potencial da atividade diante da falta de

    perspectivas de expanso da pesca.

    Quanto distribuio do quantitativo

    desses projetos de pesquisa por regio

    geogrfica brasileira, percebe-se maior

    concentrao na regio Sul, seguida da

    regio Sudeste. Este fato reflete, dentre

    outros fatores, a presena nessas regies

    de um maior nmero de instituies de

    ensino e pesquisa que atuam h anos com

    a temtica da pesca e/ou aquicultura e

    que possuem cursos de graduao e/ou

    ps-graduao especficos nessas reas

    ou em reas de grande interface, bem

    como infraestrutura compatvel. Tambm

    considervel o quantitativo de projetos

    apoiados na regio norte devido ao lan-

    amento de editais com foco na regio

    amaznica. Por outro lado, verifica-se,

    ainda, grande carncia na capacidade ins-

    talada nas regies norte e Centro-oeste,

    em relao s demais. vale destacar que

    este problema vem sendo considerado no

    escopo do planejamento, estruturao e

    execuo das polticas do MPA, para uma

    melhor distribuio e desenvolvimento

    do setor entre as diversas regies do pas.

    2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

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    15,0

    20,0

    25,0

    30,0

    35,0

    40,0

    Recursos R$Nmero de projetos

    Tanques para produo de alevinos; Zacarias, SP, 2012

    *O valor mdio financiado por projeto foi de R$ 167.910,00.

    Fonte: Ministrio da Pesca e Aquicultura (MPA).

    7viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • FruM

    Considerando-se a necessidade de

    que as prioridades intersetoriais de cada

    regio sejam critrios que pautem a foca-

    lizao dos investimentos de futuras aes

    governamentais, importante notar que

    as regies divergem no que se refere im-

    portncia econmica da atividade aquco-

    la. Apesar do crescente fomento a projetos

    de pesquisa nos ltimos anos, h espao

    para melhor organizar a demanda, dando

    foco em reas estratgicas e espcies

    prioritrias a serem trabalhadas em m-

    bito nacional e regional. outra constante

    necessidade refere-se ao estabelecimento

    de ferramentas para acompanhamento e

    avaliao desses projetos, como forma

    de exigir a transferncia adequada dos

    resultados e que no se limitem ao aten-

    dimento dos indicadores tradicionais de

    cincia e tecnologia, de forma a contribuir

    para aes posteriores de transferncia da

    tecnologia desenvolvida, assim como para

    a evoluo do setor e reconhecimento da

    sociedade.

    Esta , tambm, a perspectiva do Con-

    srcio Brasileiro de Pesquisa e Desen-

    volvimento (P&D) e Transferncia de

    Tecnologia (TT) em Pesca e Aquicultura

    (CBPA), cuja proposta est em fase de dis-

    cusso para sua posterior implementao.

    Tal consrcio tem sido discutido entre o

    MPA e a Empresa Brasileira de Pesquisa

    Agropecuria (Embrapa), e contar com

    envolvimento de representantes dos elos

    da cadeia produtiva aqucola, incluindo

    outras instituies de pesquisa, exten-

    so e fomento. Para amparar o fomento

    regular de pesquisas e o funcionamento

    do consrcio, um estudo de viabilidade

    para a criao de um fundo setorial para

    a aquicultura atrelado ao Fundo nacional

    de Desenvolvimento Cientfico e Tecno-

    lgico (FnDCT) est sendo desenvolvido

    entre o MPA e o MCTi com base na Classifi-

    cao nacional de Atividades Econmicas

    (Cnae).

    outro mecanismo que contribuir para

    a soluo dos entraves da P,D&i em aqui-

    cultura a busca por investimentos na

    formao e na capacitao dos recursos

    humanos brasileiros. nesse sentido, o

    MPA tem se articulado com o MCTi e a Co-

    ordenao de Aperfeioamento de Pesso-

    al de nvel Superior (Capes) para sensibili-

    zar a incluso da aquicultura no mbito do

    Programa Cincia Sem Fronteiras (www.

    cienciasemfronteiras.gov.br), para que

    sejam financiadas bolsas de estudos de

    graduao e ps-graduao nas principais

    instituies de pesquisa do mundo que

    atuam com aquicultura e/ou pesca, assim

    como atrair profissionais de referncia in-

    ternacional para atuarem como docentes

    e pesquisadores temporrios vinculados

    s instituies brasileiras. Adicionalmen-

    te, destaca-se que, sendo a aquicultura

    uma rea multidisciplinar, alm das linhas

    de pesquisa tradicionalmente estudadas,

    deve-se buscar a realizao de estudos

    mais abrangentes, que envolvam diversas

    reas, como economia, logstica, admi-

    nistrao, direito, e tambm estudos de

    mercado. visando ganhar tempo, ser

    importante induzir o envolvimento de

    pesquisadores e estudiosos que geraram

    as condies para desenvolver o sucesso

    atual das diferentes cadeias produtivas

    da agropecuria brasileira para aplicar a

    expertise adquirida na aquicultura.

    Alm disso, deve-se incentivar a mu-

    dana na poltica das empresas tradi-

    cionais para que se transformem em

    empresas inovadoras, investindo em

    pesquisa e contratando pesquisadores,

    sendo fundamental para a mudana de

    perfil do setor. Atrelado a esta ao, tem-

    -se buscado aumentar os mecanismos

    e as ferramentas governamentais de

    incentivo atividade inovadora, assim

    como divulg-los para as empresas. A

    aquicultura vem ganhando ateno de

    todo o governo federal e considerada

    rea prioritria na nova poltica indus-

    trial, intitulada Plano Brasil Maior, sob a

    coordenao do Ministrio da indstria,

    Desenvolvimento e Comrcio Exterior

    (MDiC) e, tambm, na Estratgia nacional

    de Cincia, Tecnologia e inovao (Encti),

    poltica lanada em dezembro de 2011 e

    coordenada pelo MCTi.

    Um trabalho integrado, inclusive no

    meio governamental, vital para a con-

    solidao de toda a cadeia produtiva da

    aquicultura, pois nenhuma organizao

    detm todas as competncias, assim como

    recursos, capacidade e capilaridade de

    execuo.

    * Eric Arthur Bastos Routledge bilogo, pesquisador da Embrapa e, atualmente, Coordenador Geral de Pesquisa e Gerao de Novas Tecnologias do Ministrio da Pesca e Aquicultura ([email protected]).Guilherme Brigo Zanette engenheiro de aquicultura e chefe de diviso do Ministrio da Pesca e Aquicultura ([email protected]); Elisa Couti-nho de Lima Saldanha biloga e assessora tcnica do Ministrio da Pesca e Aquicultura ([email protected]); Rodrigo Roubach bilogo, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia (INPA/MCTI) e coordenador geral de Planejamento e Ordenamento da Aquicultura Marinha em Estabelecimentos Rurais e reas Urbanas do Ministrio da Pesca e Aquicultura (MPA) ([email protected]).

    8

  • JEFFErSon ChriSToFoLETTi/EMBrAPA AQUiC. E PESCA

    Planejamento

    instrumentos disponveis podem melhorar uso de nossos potenciais hdricosMarcos Vinicius Folegatti, Alba Maria Guadalupe Orellana Gonzlez e Rodrigo Mximo Snchez-Romn*

    PotENCiaiS do SEtor

    Represa; Palmas, TO, 2012

    9viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • Fonte: Conjuntura Recursos Hdricos no Brasil, Informe 201, Agncia Nacional de guas (ANA).

    Figura 1 | balano quanTiTaTivo: relao enTre demanda e disponibilidade hdrica superFicial; 2011

    PotENCiaiS do SEtor

    o Brasil privilegiado por ter em seu

    territrio 12% da gua doce do planeta,

    sendo que 70% desta esto na regio hi-

    drogrfica amaznica (a maior do mundo

    em disponibilidade de gua) e os 30%

    restantes distribudos nas outras onze

    regies hidrogrficas do pas. Contra-

    pondo-se a essa grande disponibilidade

    de gua e solo, observam-se grandes

    concentraes populacionais em bacias

    hidrogrficas em situaes crticas, tendo

    em vista a grande demanda em relao

    oferta de gua (Figura 1). o que nos

    falta? onde est o grande problema?

    Talvez a resposta resuma-se em uma

    nica palavra: planejamento. E, diante

    da intensa falta de planejamento, o Brasil

    tem a grande oportunidade de organizar

    os usos mltiplos da gua, com ativa

    participao da sociedade, por meio da

    Lei das guas (n. 9433/97), utilizando-se

    de cinco importantes instrumentos, que

    so recursos que a prpria lei dispe para

    sua materializao. So eles:

    Plano de recursos hdricos das Bacias

    hidrogrficas So planos diretores

    de longo prazo e visam fundamentar e

    orientar o gerenciamento dos recursos

    hdricos, estabelecendo prioridades

    compatveis com os perodos estabeleci-

    dos de implantao de seus programas e

    projetos. Destaca-se aqui a importncia

    do instrumento, que, uma vez estabeleci-

    do, sofrer pequenos ajustes peridicos.

    A cada processo de escolha dos cole-

    giados procurar-se- escolher entre os

    candidatos os mais qualificados para dar

    continuidade ao plano preestabelecido.

    Enquadramento dos corpos dgua

    Estabelece o nvel de qualidade a ser al-

    canado ou mantido ao longo do tempo.

    Este um instrumento de planejamento,

    pois considera o nvel de qualidade que

    deveria possuir ou ser mantido para

    atender s necessidades estabelecidas

    pela sociedade, e no apenas a condio

    atual em que se encontra o corpo dgua

    em questo. A classe de enquadramento

    de um corpo dgua deve ser definida em

    um pacto acordado pela sociedade em

    funo das prioridades de uso, e a dis-

    10

  • Figura 2 | esquema de uma bacia hidrogrFicacusso e o estabelecimento desse pacto

    ocorrem no mbito do Sistema nacional

    de Gerenciamento de recursos hdricos

    (Singreh). o enquadramento referncia

    para os instrumentos de outorga e co-

    brana pelo uso da gua, e instrumentos

    de gesto ambiental (licenciamento e

    monitoramento), sendo uma conexo

    importante entre o Singreh e Sistema

    nacional de Meio Ambiente (Sisnama).

    outorga de direito de uso de recursos

    hdricos o objetivo assegurar os con-

    troles quantitativo e qualitativo dos usos

    da gua e o efetivo exerccio dos direitos

    de acesso aos recursos hdricos. , por-

    tanto, um ato administrativo mediante o

    qual o poder pblico outorgante (Unio,

    Estado ou Distrito Federal) faculta ao

    outorgado o direito de uso dos recursos

    hdricos, por prazo determinado, nos

    termos e nas condies expressas no

    respectivo ato. Dentre os vrios usos que

    dependem de outorga esto os que alte-

    ram o regime, a quantidade e qualidade

    da gua existente em um corpo dgua.

    Cobrana pelo uso da gua visa

    estimular o uso racional da gua e gerar

    recursos financeiros para investimentos

    e preservao dos mananciais das bacias.

    A cobrana um pacto condominial, fixa-

    do pelos usurios de gua participantes

    do comit de bacia.

    Sistema nacional de informaes

    Sobre recursos hdricos (Snirh) rene

    e divulga dados e informaes sobre a

    situao qualitativa e quantitativa dos

    recursos hdricos no Brasil. Alm disso,

    atualiza permanentemente as informa-

    es sobre disponibilidade e demanda

    de recursos hdricos e fornece subsdios

    para a elaborao dos Planos de recur-

    sos hdricos das Bacias hidrogrficas.

    AtividAde multidisciplinArA aquicultura uma prtica produtiva,

    fonte de alimentos, realizada desde os

    primrdios das civilizaes. registros

    histricos evidenciam o uso da tcnica

    pelos chineses e egpcios na poca dos

    faras, os quais utilizavam um sistema

    muito simples, que consistia no arma-

    zenamento de exemplares imaturos

    de diversas espcies, sem utilizao

    de insumos e recursos sofisticados. A

    aquicultura considerada uma atividade

    multidisciplinar, que visa ao cultivo de

    diversos organismos aquticos, tais como

    plantas aquticas, moluscos, crustceos e

    peixes. A interveno humana pretende

    aumentar a produo de massa alimentar

    por metro quadrado de espelho de gua,

    mediante o manejo do processo da cria-

    o dos indivduos.

    na aquicultura os organismos ma-

    nejados, geralmente num espao con-

    finado e controlado, so de ambiente

    predominantemente aqutico, em qual-

    quer fase de desenvolvimento. Assim,

    a prtica pode demandar e consumir

    recursos naturais, como gua, energia

    e solo. Portanto, existe a necessidade

    de racionalizao e gesto destes. A

    aquicultura sustentvel prope-se pela

    produo lucrativa, com a conservao

    dos recursos naturais e a promoo do

    desenvolvimento social. nos ltimos

    vinte anos, a aquicultura vem ganhando

    espao importante como fonte de renda

    e como fonte de alimentos. Destaca-se,

    no Brasil, a aquicultura em guas conti-

    nentais, ou seja, a atividade desenvolvida

    nos corpos de gua inseridos nas bacias

    hidrogrficas. Esta atividade, portanto,

    ser afetada pela Lei 9.433/97 e pela Lei

    da Pesca e Aquicultura. Ainda em 2009

    foi aprovada a resoluo n. 413/2009 do

    Conselho nacional do Meio Ambiente

    (Conama), que considera a aquicultura

    uma atividade de baixo impacto e sim-

    plifica o licenciamento ambiental para

    empreendimentos no ramo.

    BrAsil e mundoo Brasil, com 8.400 km de costa martima

    e 5,5 milhes de hectares em reservat-

    rios de gua doce, tem grande potencial

    para o desenvolvimento da aquicultura

    (Seap, 2007). As razes principais para

    alavancar a aquicultura no Pas so

    a grande disponibilidade de recursos

    hdricos, clima extremamente favor-

    vel, disponibilidade de mo de obra e

    crescente demanda do mercado interno.

    A aquicultura est presente em todos

    os estados brasileiros. As modalidades

    principais so: piscicultura (criao de

    Fonte: Paula Lima, 2008.

    1 1viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • peixes), carcinicultura (camares), rani-

    cultura (rs) e malacocultura (moluscos,

    ostras, mexilhes, escargot). outras mo-

    dalidades de produo aqutica tambm

    so praticadas, mas em menor escala

    (ibama, 2004), como o cultivo de algas.

    Pelo ritmo de crescimento populacional

    mundial, estima-se, para o ano de 2025,

    uma populao em torno de 8,5 bilhes

    de pessoas, que apresentar uma deman-

    da por peixes na ordem de 162 milhes

    de toneladas, baseando-se no consumo

    preconizado pela FAo, que de 25 kg per

    capita/ano.

    A aquicultura cresce mais rapidamente

    que todos os outros setores da produo

    animal mundial, a uma taxa anual mdia

    de 8,8% desde 1970. A taxa mdia de cres-

    cimento para os sistemas de produo de

    animais terrestres de 2,8% ao ano (FAo,

    2007). Alguns fatores tm sido fundamen-

    tais para o desenvolvimento da aquicul-

    tura mundial. Dentre eles, pode-se citar

    (i) a garantia de produtos de qualidade, o

    que leva a uma maior segurana alimen-

    tar da populao; e (ii) a possibilidade

    de produo em reas antes tidas como

    imprprias para o cultivo de peixes,

    por meio da utilizao de sistemas que

    otimizem o uso dos recursos hdricos,

    como os tanques-rede e os sistemas de

    reutilizao de gua (FAo, 2007).

    Existem duas possibilidades para se

    explorar a gua na aquicultura. So elas:

    a explorao em territrio continental ou

    a produo martima. no Brasil, cerca de

    70% da produo proveniente do conti-

    nente (ibama, 2008), que vem crescendo

    devido disponibilidade de extenses

    de terra passveis de serem destinadas

    atividade, a grandes volumes de gua

    doce de boa qualidade e adaptabilidade

    das espcies.

    Aspectos AmBientAiso primeiro pensamento em relao aos

    aspectos ambientais da aquicultura cos-

    tuma ser o consumo e a destinao do uso

    de gua pelo setor. Entretanto, recursos

    como disponibilidade de terra, espao

    fsico e o prprio consumo de gua pas-

    sam como variveis secundrias em uma

    avaliao de negcios. outras fontes de

    insumos so trabalhadas com destaque,

    como questes relacionadas aos alevinos

    e s raes. o sistema produtivo adotado

    poder gerar mais ou menos interfe-

    rncias ambientais, conforme sua con-

    cepo, e, de forma simplista, reunido

    em funo de produtividade (extensivo,

    semi-intensivo ou intensivo), nmero

    de espcies envolvidas, monocultura

    ou policultura e compartilhamento

    consrcio com outras espcies que no

    aquelas exclusivamente aquticas. As

    trs prticas de produtividade podem

    ser resumidas da seguinte forma: a)

    extensiva explorao feita em audes,

    lagoas, represas e outros mananciais,

    nos quais no h interferncia contra

    predadores, qualidade da gua, alimento;

    b) semi-intensiva existe a interferncia

    em relao ao alimento, fertilizao da

    gua com suplementos; c) intensiva uso

    de raes balanceadas em virtude da alta

    densidade de indivduos.

    desenvolvimentoA lei 9.433 de 1997, que trata da Poltica

    de Gesto integrada dos recursos hdri-

    cos, estabelece que a Bacia hidrogrfica

    (Figura 2) a unidade de planejamento

    desses recursos. importante considerar

    o impacto da atividade sobre tais recur-

    sos, j que sero includos vrios centros

    de cultivo mais ou menos integrados

    (uma rea aqucola), os quais partilham

    um corpo de gua comum e que precisam

    ter uma gesto integrada.

    o impacto socioambiental de uma

    granja aqucola pode ser marginal para o

    ecossistema. no entanto, quando se con-

    sideram os impactos acumulativos de um

    conjunto de granjas (por exemplo, a eu-

    trofizao), a situao pode ser diferente.

    Quando no se conta com uma gesto

    integrada, a aquicultura pode afetar as

    funes e os servios ecossistmicos da

    Bacia hidrogrfica. Assim, fundamental

    considerar os impactos da atividade

    aqucola e das outras atividades eco-

    nmicas que se desenvolvem na mesma

    Bacia a fim de preservar a qualidade da

    sua gua e sua biodiversidade.

    * Marcos Vinicius Folegatti professor no Departamento de Engenharia de Biossiste-mas, USP/ESALQ ([email protected]); Alba Maria Guadalupe Orellana Gonzlez ps--doutoranda no Departamento de Engenha-ria Rural, da Faculdade de Cincias Agron-micas, Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho ([email protected]); Rodrigo Mximo Snchez-Romn professor no Departamento de Engenharia Rural, da Faculdade de Cincias Agronmi-cas, Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho ([email protected]).

    refernciAs BiBliogrficAsAGnCiA nACionAL DE GUAS (AnA). Conjun-

    tura dos recursos hdricos no Brasil: informe 2011. Braslia: AnA, 2011. 112p. Disponvel em: .

    inSTiTUTo BrASiLEiro Do MEio AMBiEnTE E DoS rECUrSoS nATUrAiS rEnovvEiS (ibama), 2008. Adaptado de: ibama. Estatstica da pesca 2006: Brasil, grandes regies e Unidades da Federao. ibama, 2008.

    FAo Fisheries Department, Fishery information Data and Statistics Unit. Fishstat plus: univer-sal software for fishery statistical time series. Aquaculture production: quantities 1950-2005, Aquaculture production: values 1984-2005.Cap-ture production: 1950-2005. version 2.30. rome: FAo, 2007. Disponvel em: .

    PAULA LiMA, W. hidrolgica florestal aplicada ao manejo de bacias hidrogrficas. 2. ed. So Paulo: Universidade de So Paulo, 2008. 245p.

    SECrETAriA ESPECiAL DE AQUiCULTUrA E PESCA (Seap), 2007. Aquicultura no Brasil: o desafio crescer. 2008. Disponvel em: .

    PotENCiaiS do SEtor

    12

  • A aquicultura surgiu como uma estrat-

    gia para suprir a lacuna entre a captura

    pesqueira mundial e a demanda por

    pescado, implicando o desenvolvimen-

    to de tecnologias slidas, necessrias

    promoo sustentvel da atividade

    aqucola. o projeto rede Aquabrasil visa

    promoo desse desenvolvimento e ao

    atendimento das principais demandas

    da cadeia produtiva, especialmente na

    obteno de alevinos geneticamente

    melhorados, respondendo aos requeri-

    mentos nutricionais e s boas prticas

    de manejo que garantam sade e qua-

    lidade na produo de pescado para

    processamento industrial. As espcies

    priorizadas para o atendimento das

    demandas nacionais e regionais foram

    baseadas em aspectos da realidade de

    produo e consumo. So elas: camaro-

    -branco (L. vannamei), tilpia (Oreo-

    chromis niloticus), tambaqui (Colosso-

    ma macropomum) e surubim-cachara

    (Pseudoplatystoma fasciatum).

    A rede Aquabrasil subdivide-se nos

    seguintes projetos componentes: gesto,

    melhoramento gentico, sanidade, nutri-

    o, gesto e manejo ambiental e apro-

    veitamento agroindustrial, cada qual com

    objetivos e metas para as quatro espcies

    escolhidas. Participam do projeto 14 uni-

    dades de pesquisa da Embrapa, 17 universi-

    dades e instituies de pesquisa federais e

    estaduais, quatro empresas pblicas e sete

    empresas privadas. Como metas, pretende-

    -se: o melhoramento gentico dos animais;

    a obteno de raes de baixo custo, baixos

    impactos ambientais e com maiores valores

    nutricionais; a minimizao dos impactos

    rede Aquabrasil promove sade e qualidade ao pescado brasileiroJorge Antnio Ferreira de Lara*

    Tambaqui, uma das espcies priorizadas pela Rede Aquabrasil; 2012

    JEFFErSo

    n Ch

    riSTo

    FoLETTi/EM

    BrA

    PA A

    QU

    iC. E PESCA

    13viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • causados por doenas e pelo estresse ao

    pescado; a adoo de boas prticas de ma-

    nejo, de modo a se obterem produtos com

    melhor qualidade nutricional e sanitria e

    de padro comercial competitivo, com alto

    valor agregado, capazes de atender aos

    mercados nacional e internacional.

    competncia do Conselho Consultivo os

    planos de ao dos projetos componentes,

    a incluso dos resultados e o andamento

    das atividades do plano de ao.

    o ltimo nvel se d por meio de

    workshops anuais para avaliao de

    resultados e encaminhamento de solu-

    es para possveis problemas comuns,

    alm do delineamento de estratgias de

    difuso, transferncia de informaes e

    divulgao das tecnologias produzidas. o

    desafio de transferir o contedo gerado

    pelos pesquisadores e aumentar o nmero

    de resultados e participantes da rede um

    foco permanente para uma equipe que atua

    coesa e de forma sinrgica.

    resultAdos 2009/2011 As principais demandas de solues tec-

    nolgicas esto relacionadas s limitaes

    na produo, sua cadeia produtiva

    que envolve melhoramento gentico,

    determinao de suas exigncias nutri-

    cionais, sanidade, manejo e gesto dos

    sistemas de cultivo e de formas eficientes

    de aproveitamento agroindustrial. Parte

    dos resultados gerados pelo projeto, no

    perodo 2009-2011, est apresentada nas

    linhas que se seguem:

    foram formadas 73 famlias de cacharas e 62 de tambaquis para programa de

    melhoramento gentico;

    foram realizadas seleo e avaliao de linhagens de camaro livres de pat-

    genos com desempenho superior para

    crescimento;

    houve aumento de 28% na taxa de cresci-mento da tilpia Gift, na quarta gerao

    (2010), a partir da sua introduo no

    Brasil, em 2005;

    foram determinadas as exigncias proteico-energticas de alevinos para

    subsidiar o desenvolvimento de raes

    de alto desempenho e baixo custo;

    foram determinados os ingredientes para fabricao de raes para alimen-

    tao de tilpias e tambaquis, cujo uso

    foi testado comprovando melhoria

    perceptvel no desempenho produtivo

    pelo uso de probiticos nas raes;

    foram desenvolvidos bioindicadores bentnicos para avaliao da qualidade

    do ambiente de cultivo, alm do software

    Aquisys, para monitoramento dos siste-

    mas de cultivo e processamento;

    boas prticas de manejo, que garantam a qualidade dos ambientes de cultivo,

    foram implementadas, incluindo a pa-

    dronizao de metodologias para diag-

    nsticos parasitolgico, microbiolgico,

    hematolgico e de coleta para exames

    patolgicos, nas espcies nativas, alm

    do monitoramento sanitrio com apri-

    moramento dos manejos de profilaxia;

    houve desenvolvimento de produtos a partir da carne e dos resduos de

    filetagem, tais como: farinhas para

    incluso em alimentos; couro curtido

    para vesturio; tecnologia de produ-

    o de fils defumados; tecnologias

    de extrao de leos; padronizao

    das etapas do processamento mnimo

    da tilpia, bem como estabelecimento

    de rotulagem para rastreabilidade;

    validao de questionrio on-line

    para aferir o consumo de pescado e a

    qualidade de vida;

    foram elaborados coprodutos a partir da otimizao da produo da silagem

    de tilpia;

    foi realizado o levantamento e a padro-nizao dos pontos para rastreabilidade

    de fazendas produtoras de tilpias;

    foi desenvolvido produto fast-food Quenelle de tilpia.

    fertilizantes e produtos farmacuticos foram obtidos a partir de resduos de

    beneficiamento do camaro.

    * Jorge Antonio Ferreira de Lara pesqui-sador da Embrapa Pantanal ([email protected]).

    refernciAs BiBliogrficAsrESEnDE. E. K. Projeto em rede Aquabrasil.

    Macroprograma da Embrapa. Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento. Braslia: Embrapa Sede, 2007.

    rESEnDE E. K. Bases tecnolgicas para o desen-volvimento sustentvel da aquicultura no Bra-sil Aquabrasil. Encarte Tcnico. Corumb: Embrapa Pantanal, 2011.

    Logomarca da Rede Aquabrasil

    AQ

    UA

    BrA

    SiL,

    200

    9

    modelo de gestoo Aquabrasil estruturado em trs n-

    veis de ao: estratgico, consultivo e

    de avaliao, por meio de workshops

    anuais. o nvel estratgico composto

    pelo Comit Gestor, formado pelos lde-

    res e vice-lderes do projeto e dos seus

    componentes. Fica a encargo do Comit

    realizar o acompanhamento da execuo

    do projeto, identificando os pontos de es-

    trangulamento no desenvolvimento das

    atividades e intervindo com solues aos

    entraves identificados. Cabe presidente

    do comit, Emiko resende (Embrapa

    Pantanal), realizar o acompanhamento

    da liberao dos recursos oramentrios,

    analisar e encaminhar soluo aos pro-

    blemas decorrentes de eventuais atrasos

    no uso dos recursos.

    o segundo nvel um Conselho Con-

    sultivo formado pelo lder e vice-lder do

    projeto e pelos membros indicados pelas

    entidades governamentais relacionadas

    ao assunto, como Ministrio da Pesca e

    Aquicultura, CnPq e Ministrio da Cincia

    e Tecnologia (por intermdio do CT-Agro),

    tendo como funo acompanhar e avaliar

    os resultados obtidos. A comunicao geral

    entre os membros permanente, sendo de

    PotENCiaiS do SEtor

    14

  • no Brasil, a aquicultura uma atividade

    que data da poca da invaso holandesa,

    quando, no litoral pernambucano, havia

    algumas estruturas de criao de peixes

    estuarinos. A importncia econmica

    da cadeia produtiva foi alavancada pela

    abertura dos pesqueiros particulares, na

    dcada de 1980, e com a exportao de

    camaro, no incio do sculo XXi. Ante-

    riormente, o nico meio de produo de

    pescado era oriundo da pesca tradicio-

    nal, que abastecia o mercado interno com

    produtos das mais variadas formas, sem

    um canal de escoamento eficiente que

    possibilitasse condies do crescimen-

    to da atividade. Atualmente, comum

    encontrar nas redes de supermercados,

    em feiras livres e outros meios de co-

    mercializao o pescado proveniente da

    aquicultura. o trajeto do pescado advin-

    do do cultivo, passando pelas gndolas

    do comrcio at a mesa do consumidor,

    j se faz presente. Porm, esse no tem

    sido um caminho fcil.

    o Ministrio da Pesca e Aquicultura

    (MPA) demonstra em dados de 2010 que,

    nos ltimos anos, a produo pesqueira

    brasileira est estagnada: 783.176 t em

    2007, 791.056 t em 2008 e 825.164 t em

    2009. Esses dados indicam que a ativida-

    de no conseguir atender crescente

    demanda por pescado no Brasil, e mostra

    que a aquicultura passa a ter um papel

    importante no cenrio de fornecimento

    de pescado. o MPA relata que o consu-

    mo (per capita) de pescado no Brasil

    aumentou 40% em seis anos, alcanando

    9,03 kg por ano e por habitante, em 2009.

    Em contrapartida, segue muito abaixo da

    mdia mundial e do recomendado pela

    organizao Mundial da Sade (oMS).

    At o incio do ano 2000, o canal de

    comercializao de peixes provenientes

    dos viveiros de criao eram os pes-

    queiros, grandes impulsionadores do

    crescimento da piscicultura continen-

    tal. Tambm conhecidos como pesque

    pague, os pesqueiros se espalharam

    novas formas de comercializao ampliam retornos a produtoresJoo Donato Scorvo Filho, Clia Dria Frasca Scorvo e Alceu Donadelli*

    Escoamento

    Salmo com especiarias, embalado a vcuo sous vide; Laboratrio de Pescado, USP/ESALQ, Piracicaba, SP, 2012

    PotENCiaiS do SEtor

    LUCiA

    nA

    KiM

    iE SAvAy-D

    A-SiLvA

    15viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • por quase todo o territrio nacional,

    localizados prximo aos pontos de pesca

    tradicional, como rios, represas e lagos

    (contrariando as teorias de que a pesca

    em rios e represas era a forma preferida

    pelos pescadores).

    A tilpia est entre as espcies con-

    tinentais mais comercializadas no

    pas, sendo que 70% de sua produo

    no estado de So Paulo so entregues

    s processadoras de peixe e comercia-

    lizados na forma de fil. o restante

    comercializado em outros canais, como

    a Companhia de Entrepostos e Arma-

    zns Gerais do Estado de So Paulo

    (Ceagesp) e pesque pague (Sussel, 2011).

    o aquicultor deve ter conhecimento

    dos canais de comercializao para

    montar a estratgia de escoamento da

    sua produo, de forma a obter maior

    rentabilidade. A abertura de mercado

    tem colocado uma gama de produtos

    com preos mais baixos, atingindo a po-

    pulao de menor renda e concorrendo

    com o produto nacional, que apresenta

    menor competitividade.

    Um dos fatores que tm afetado a

    competitividade do pescado nacional

    a escala de produo. h algumas dca-

    das, a escala de produo da aquicultura

    apresentava um tamanho perfeito para

    atender aos pesqueiros. Com o aumento

    da produo, estimulada pelo preo

    pago pelos pesqueiros e, tambm, pela

    diminuio destes estabelecimentos co-

    merciais, a oferta ultrapassou a demanda.

    Esse fato ocasionou uma desvalorizao

    do pescado e fez os aquicultores procu-

    rarem novos canais de comercializao.

    Uma das sadas para o aumento do es-

    coamento da produo foi encaminhar

    o pescado ao mercado atacadista, que

    uma tradicional forma de comerciali-

    zao de pescado oriundo da captura e

    se caracteriza pela diversidade de tipos,

    tamanhos e preos. De forma geral, o ata-

    cadista de pescado tenta atender a todas

    as demandas: pescado fino, popular, de

    grande tamanho e de pequenas pores.

    neiva et al (2010) relatam que a Ceagesp

    o ponto de referncia na venda ataca-

    dista de pescado, sediando 65 empresas

    de pesca (Figura 1).

    o volume de pescado comercializado

    na Ceagesp vem apresentando queda

    nos ltimos 20 anos. o aparecimento

    de novos entrepostos instalados pelas

    grandes redes de supermercado e novas

    formas de comercializao so as princi-

    pais causas dessa diminuio. no ano de

    2009 foram comercializadas, aproxima-

    damente, 105 espcies de pescado, tota-

    lizando 43.100 toneladas. Em mdia so

    comercializadas 176 t por dia, equivalente

    ao volume financeiro mdio dirio de

    r$ 861.000,00. As espcies mais vendidas

    foram: sardinha, pescada, salmo, cor-

    vina, cavalinha, tilpia, bacalhau seco,

    atum e tainha, que juntas representam

    67% do volume total comercializado.

    A Figura 2 apresenta os preos m-

    dios anuais, nominais e deflacionados,

    para o ano de 2010, do quilo da tilpia

    comercializada na Ceagesp. os preos

    da tilpia no Entreposto (1996 a 2009),

    apresentados na Figura 2, demonstram

    30.000

    40.000

    50.000

    60.000

    70.000

    20.000

    10.000

    0

    80.000

    90.000

    Ton

    Toneladas - Ano

    Figura 1 | volume de pescado (T) comercializado na ceagesp; 1991 a 2009

    Fonte: Ceagesp, 2010. In: Neiva et al, 2010.

    Figura 2 | preos mdios anuais, nominais e deFlacionados do quilo da Tilpia co-mercializada na ceagesp; 2010

    Fonte: Ceagesp, 2011 (modificada pelos autores).

    PotENCiaiS do SEtor

    0,00

    0,50

    1,00

    1,50

    2,00

    2,50

    3,00

    3,50

    4,00

    4,50

    1,31 1,49 1,31 1,61 1,52 1,64 1,92 ,79 3,14 3,19 3,71 3,40 3,40 2,70 2,93 2,25 2,22 2,43 ,50 3,75 3,43 3,92 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

    R$/kg

    Preo deflacionado

    Preo nominal

    Ano

    Preo deflacionado

    Preo nominal

    16

  • que estes apresentaram variao ao

    longo do perodo. os valores nominais

    tiveram uma tendncia de elevao,

    mas, quando deflacionados para o ano de

    2010 pelo iPCA (FGv), a variao muda de

    caractersticas e apresenta um perodo

    de queda do ano de 2000 at 2005. na Fi-

    gura 3, verifica-se que houve aumento na

    quantidade de tilpia comercializada no

    mesmo perodo, de 1999 a 2009, de 24,4 t

    em 1999 para 256,5 t em 2006, com cres-

    cimento de 951,2%. o aumento da oferta

    pode ter causado a queda nos preos.

    A Ceagesp hoje um canal de venda

    tanto para o pequeno como para o mdio

    e grande produtor, sendo s vezes a nica

    alternativa para aqueles que esto longe

    de processadoras e de pesque pague.

    Prochmann & Michels (2003) relatam que,

    atualmente, os elos mais frgeis da cadeia

    produtiva da piscicultura so aqueles em

    que ocorre o processo produtivo, como

    o processamento e a distribuio dos

    produtos oriundos do peixe. o proces-

    samento dos peixes criados em viveiros

    ainda muito incipiente e feito quase

    sempre em escala reduzida, em frigorfi-

    cos de pequeno porte. os dados de neiva

    et al (2010) informam que, de acordo com

    o Ministrio de Agricultura, Pecuria

    e Abastecimento, em 2010, o estado de

    So Paulo tinha 53 estabelecimentos

    trabalhando com pescado, sendo que 17

    estavam localizados na regio Metropo-

    litana de So Paulo.

    As processadoras no estado de So

    Paulo trabalham basicamente com a

    filetagem da tilpia e poucas esto pro-

    duzindo outros produtos do processa-

    mento, como formatados e empanados.

    o aproveitamento total do pescado pela

    indstria processadora poder gerar

    novos produtos (a farinha e o leo de

    peixe, por exemplo), aumentando seus

    lucros, e contribuir para a sustentabili-

    dade da atividade. A frequncia na pro-

    duo e a produo de lotes homogneos

    so requisitos bsicos para atender s

    exigncias das processadoras. Para a

    manuteno desses requisitos impor-

    tante trabalhar de forma comunitria,

    organizada e verticalizada. Dessa forma,

    a indstria poder diminuir custos,

    implantar a rastreabilidade do produto

    e agregar valor produo. o produtor

    pode buscar um mercado prprio (nicho)

    que proporcionar melhores preos de

    venda e, consequentemente, melhor

    rentabilidade. Mercados locais associa-

    dos ao turismo, a comunidades raciais e

    religiosas que, em alguns casos, tm dado

    ao produtor excelentes resultados.

    o Brasil, com todo o seu potencial,

    utilizando um planejamento adequado

    da produo, novas tecnologias, organi-

    zao e representao dos produtores,

    poder tornar-se um dos maiores pro-

    dutores mundiais de pescado. Para isso

    necessrio que sejam tomadas medidas

    com o intuito de fomentar o setor de

    modo ordenado e elevar ainda mais a

    sua competitividade. Embora a aquicul-

    tura j venha se viabilizando enquanto

    atividade econmica, algumas condi-

    es devem ser melhoradas, tais como

    pesca, despesca, abate e conservao do

    pescado, organizao dos produtores,

    falta de padronizao dos produtos e

    comercializao.

    * Joo Donato Scorvo Filho ([email protected]), Clia Dria Frasca Scorvo ([email protected]) e Alceu Donadelli ([email protected]) so pesquisadores da APTA Regional do Leste Paulista (APTA/SAA-SP), Monte Alegre do Sul, SP.

    refernciAs BiBliogrficAsCoMPAnhiA DE EnTrEPoSToS E ArMAznS

    GErAiS Do ESTADo DE So PAULo (Ceagesp). Disponvel em: . Acesso em: 30 jul. 2011.

    BrASiL, Ministrio da Pesca e Aquicultura. 2010. Boletim Estatstico da Pesca e Aquicultura Brasil 2008 2009.

    nEivA, C. r. P. et al, 2010. Estudo: o mercado do pescado da regio Metropolitana de So Paulo. infopesca, Srie: o mercado do pes-cado nas grandes cidades latino-americanas. Santos, SP, 2010.

    ProChMAnn, A. M.; MiChELS, i. L. (2003). Estudo Das Cadeias Produtivas De Mato Grosso Do Sul: Piscicultura. Campo Grande, MS. Disponvel em: . Acesso em: 2 ago. 2011.

    SUSSEL, F. 2011. Tilapicultura no Estado de So Paulo. Disponvel em: . Acesso em: 1 ago. 2011.

    Figura 3 | quanTidade anual, em Toneladas, de Tilpia comercializada na ceagesp duranTe o perodo de 1999 a 2009

    Fonte: Ceagesp, 2011.

    0,0

    50,0

    100,0

    150,0

    200,0

    250,0

    300,0

    toneladas 24,4 32,3 93,8 163,9 266,9 205,8 256,2 142,8 109,7 145,8 132,1 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

    tone

    lada

    s

    Ano

    toneladas

    17viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • Bombas captam gua em manguezal para uma produo de camaro; Fortaleza, CE, 2011

    SEGMENtoS da aquiCultura

    Com excelentes condies ambientais, piscicultura marinha carece de investimentosRonaldo Olivera Cavalli*

    Produo

    ro

    Dr

    iGo

    ESTEvAM

    MU

    nh

    oz D

    E ALM

    EiDA

    18

  • Figura 1 | beijupir criado no laboraTrio de pisciculTura marinha, na universidade Federal rural de pernambuco

    Figura 2 | Tanques-rede onde so criados os beijupir

    nos ltimos 20 anos, a produo da pisci-

    cultura marinha mundial tem apresentado

    uma taxa de crescimento anual superior a

    10%, o que a situa como um dos setores da

    aquicultura de maior crescimento (FAo,

    2012). no Brasil, criar peixes marinhos no

    uma atividade recente: a produo em

    viveiros de mar j era uma realidade na

    cidade de recife, PE, na dcada de 1930.

    Apesar desse incio remoto e aparente-

    mente promissor, hoje em dia a piscicultura

    marinha no contribui significativamente

    para a produo de pescado no Brasil.

    Durante anos, as principais espcies de

    peixe marinho consideradas para aqui-

    cultura foram, no Brasil, as tainhas (Mu-

    gil spp.), o robalo-peva (Centropomus

    parallelus) e o linguado (Paralichthys

    orbignyanus) (Baldisserotto & Gomes,

    2010). Apesar dos esforos de pesquisa

    e desenvolvimento, a criao dessas

    espcies ainda no tem importncia

    comercial relevante. Com o desenvolvi-

    mento da tecnologia de cultivo e, conse-

    quentemente, da produo do beijupir

    (Rachycentron canadum) na sia, al-

    guns produtores brasileiros passaram a

    considerar o cultivo dessa espcie, visto

    que ela naturalmente encontrada em

    nosso litoral (Figura 1).

    o beijupir cresce rapidamente, po-

    dendo alcanar at 6 kg em um ano, to-

    lera variaes de parmetros ambientais,

    tem relativa resistncia a doenas (Liao &

    Leao, 2007), e a tecnologia de produo

    de alevinos e a engorda j esto relati-

    vamente bem desenvolvidas (holt et al.,

    2007; Liao & Leao, 2007). Considerado

    um peixe de primeira qualidade, o beiju-

    pir tem carne branca, de textura macia

    e firme, e contm alto valor nutricional.

    Assim, a produo mundial dessa esp-

    cie vem crescendo gradativamente e,

    em 2010, foi estimada em 40.768 t (FAo,

    2012). A maior parcela provm de gaiolas

    (tanques-rede) (Figuras 2 e 3) instaladas

    em reas protegidas na China, em Taiwan

    e no vietnam.

    A despeito do interesse na aquicultura

    do beijupir no Brasil, os estudos com

    esta espcie ainda so escassos. A re-

    produo em cativeiro vem sendo obtida

    desde 2006, quando desovas espontne-

    as ocorreram na Bahia e, um ano depois,

    em Pernambuco. Apesar da relativa

    facilidade na reproduo, a produo de

    alevinos em larga escala ainda limitada.

    nos poucos laboratrios nacionais que

    trabalham com essa espcie, a larvicul-

    tura realizada intensivamente em gua

    com salinidade 35, temperatura entre 26

    e 29 C, fotoperodo natural ou com 13

    horas dirias de luz e aerao constante.

    A realizao de larviculturas em sistemas

    extensivos tem produzido resultados

    to bons quanto no sistema intensivo.

    neste sistema, as larvas so estocadas

    com densidades comparativamente mais

    ro

    nA

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    19viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • Figura 3 | pesca de beijupir em um Tanque-rede

    SEGMENtoS da aquiCultura

    baixas em tanques de grande volume

    ou em viveiros escavados, os quais so

    previamente adubados para estimular a

    produo de fito e zooplncton.

    A produo de larvas no sistema

    extensivo demanda mais espao, ao

    mesmo tempo que oferece menor con-

    trole sobre a produtividade, embora, em

    contrapartida, o crescimento seja mais

    elevado do que no sistema intensivo.

    independentemente do sistema de lar-

    vicultura utilizado, o aperfeioamento da

    tecnologia empregada em outros pases

    para uso nas condies brasileiras dever

    incluir o oferecimento de alimentos vivos

    alternativos aos rotferos e Artemia, a

    melhoria no controle do canibalismo e

    o aprimoramento do processo de trans-

    ferncia do alimento vivo para o inerte

    (desmame ou weaning).

    Atualmente, existem projetos de en-

    gorda de beijupir na Bahia, em Pernam-

    buco, no rio Grande do norte, no rio de

    Janeiro e em So Paulo. At o presente,

    duas fazendas em mar aberto foram ins-

    taladas em Pernambuco, mas iniciativas

    de criao em reas marinhas protegidas

    vm sendo conduzidas em Angra dos reis,

    rJ, e em ilhabela, SP. A criao em viveiros

    estuarinos tambm vem sendo testada

    no rio Grande do norte e na Bahia. Caso

    tenham sucesso, essas iniciativas pode-

    ro ter um impacto significativo, pois

    o Brasil dispe de mais de 16.000 ha de

    viveiros de camaro, os quais tambm

    poderiam ser utilizados para a criao do

    beijupir. no entanto, o sucesso da en-

    gorda em viveiros depender da resposta

    do beijupir s condies prevalentes

    nestes ambientes, tais como variaes

    de salinidade e de oxignio dissolvido,

    e nveis relativamente altos de material

    em suspenso.

    no mercado brasileiro, o preo que

    o consumidor paga pelo beijupir evis-

    cerado varia entre r$ 12,00 e r$ 22,00/

    kg. Esses valores, contudo, so de

    exemplares provenientes da pesca,

    j que a venda de beijupir cultivado

    ainda incipiente. Em Pernambuco, o

    preo pago ao aquicultor foi r$ 15,00/kg.

    ro

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    20

  • Figura 5| produo de alevinos

    Com base nesse valor, a viabilidade de

    uma fazenda de criao de beijupir em

    mar aberto em Pernambuco foi anali-

    sada. Para produtividade de 10 kg/m, a

    atividade seria rentvel, considerando-

    -se o custo de produo de r$ 11,48/

    kg. nesse caso, o retorno do capital

    investido levaria 5,1 anos. Com um au-

    mento da produtividade para 15 kg/m,

    compatvel com o observado em outros

    pases, o custo de produo cairia para

    r$ 9,46/kg, e o retorno do capital seria

    de 2,8 anos. Em funo dos elevados

    investimentos necessrios implanta-

    o e ao custeio do empreendimento, o

    aumento da escala de produo tornaria

    o empreendimento mais atraente.

    proBlemAs e oBstculosComo o beijupir uma espcie nova na

    aquicultura, ainda existem importantes

    lacunas no seu ciclo produtivo, tais como

    ausncia de laboratrios de produo de

    alevinos com esquemas de biossegurana

    e com plantis de reprodutores com a

    devida variabilidade gentica, e tambm

    limitaes quanto produo consisten-

    te de ovos, larvas e alevinos. Em relao

    engorda, faltam informaes sobre

    exigncias nutricionais que permitam a

    formulao de dietas especficas (holt et

    al., 2007; Liao & Leao, 2007). A necessi-

    dade de desenvolvimento de mercado

    outra questo importante. na natureza,

    o beijupir raramente forma cardumes

    e, por isso, sua produo pela pesca

    pequena, tornando-o uma espcie des-

    conhecida pelos consumidores.

    no Brasil, a questo legal um dos

    principais entraves ao desenvolvimen-

    to da atividade. o Decreto n. 4.895, de

    nov./2003, que regulamenta a cesso de

    guas de domnio da Unio, representa

    um importante marco legal para o de-

    senvolvimento da aquicultura em mar

    aberto. Entretanto, apesar do incentivo

    atividade e das diversas aes buscando

    regularizar a demarcao, o monitora-

    mento e a concesso de reas por parte

    do Ministrio da Pesca e Aquicultura

    Figura 4 | produo de alevinos

    ro

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    21viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • (MPA), ainda ocorrem conflitos sobre as

    atribuies legais entre alguns rgos

    governamentais, em particular os de

    fiscalizao e licenciamento ambiental.

    na prtica, isso retarda o andamento das

    solicitaes de cesso de guas da Unio.

    Por exemplo, a cesso de guas da Unio

    para os dois projetos implantados em

    Pernambuco levou dois anos. h, por-

    tanto, a necessidade de fortalecer institu-

    cionalmente o MPA, principalmente por

    meio da criao de corpo tcnico prprio,

    o que permitir acelerar os processos de

    cesso e de licenciamento ambiental.

    Por ser uma atividade incipiente no

    Brasil, existe uma carncia de insumos

    e de servios especializados em pisci-

    cultura marinha. Apesar de o avano na

    criao de camares marinhos e tilpias

    ter gerado infraestrutura (equipamen-

    tos, raes e demais insumos) para o

    desenvolvimento da aquicultura no

    pas, importante destacar que tais ati-

    vidades tm caractersticas e demandas

    diferentes da criao de peixes mari-

    nhos. Por exemplo, o Brasil ainda no

    conta com empresas capacitadas e com

    experincia na construo e instalao

    de estruturas de criao no mar. Alm

    disso, ainda no dispomos de dietas

    especficas para peixes marinhos que

    tenham sido testadas nas nossas condi-

    es. As dietas atualmente disponveis no

    mercado nacional no tm resultado no

    desempenho esperado, tanto em ensaios

    experimentais como em condies de

    cultivo comercial. Sob as mais variadas

    condies ambientais e de manejo, foram

    Figura 6 | processamenTo de beijupir na qualimar

    observadas baixas taxas de crescimento,

    alta converso alimentar e at mesmo

    peixes regurgitando a dieta. Com relao

    composio, anlises bromatolgicas

    indicaram baixas concentraes de

    aminocidos e cidos graxos essenciais.

    vale ressaltar que, no caso do beijupir,

    por se tratar do cultivo intensivo de um

    peixe carnvoro, os gastos com alimenta-

    o podem representar at 70% do custo

    de produo. Portanto, este nico item

    pode definir a viabilidade econmica

    da atividade.

    os empreendedores que se interes-

    sarem em desenvolver a piscicultura

    em mar aberto no Brasil possuem duas

    opes com relao aquisio de

    equipamentos e estruturas de criao.

    A primeira adaptar equipamentos na-

    SEGMENtoS da aquiCultura

    ro

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    CAvALLi

    22

  • cionais, os quais, na maioria dos casos,

    foram desenvolvidos para ambientes de

    gua doce. Esses equipamentos e estru-

    turas, porm, nem sempre se adaptam s

    condies de mar. Caso optem pela aqui-

    sio de equipamentos e embarcaes

    especializados para esta atividade, tero

    de import-los, o que onera excessiva-

    mente os custos finais.

    outra deficincia a de profissionais

    capacitados e experientes nas diversas

    reas da piscicultura marinha. Uma an-

    lise na Plataforma Lattes (http://lattes.

    cnpq.br/index.htm) indica carncia de

    especialistas em sanidade de peixes

    marinhos no Brasil, o que se reflete na

    inexistncia de insumos especficos para

    a sanidade de animais aquticos, ou de

    empresas especializadas no diagnsti-

    co, controle e preveno de doenas.

    h tambm dificuldades de obteno

    de seguro aqucola e questes relativas

    adequao da legislao trabalhista

    e das normas martimas, uma vez que

    estas foram estabelecidas sem levar em

    considerao a prtica da maricultura.

    considerAes finAisApesar da pouca experincia brasileira

    em piscicultura marinha, devido a sua longa

    costa ( 8,5 mil km), seu mar territorial e sua

    zona Econmica Exclusiva (zEE) de duzen-

    tas milhas ( 4,5 milhes km2) e mais de 2,5

    milhes de hectares de reas estuarinas, o

    Brasil apresenta timas condies ambien-

    tais e de infraestrutura para o desenvolvi-

    mento da piscicultura marinha. nos ltimos

    cinco anos, os resultados obtidos com o

    cultivo do beijupir tm sido satisfatrios.

    A tecnologia de reproduo em cativeiro

    est praticamente dominada, e a produo

    de alevinos (Figura 4 e Figura 5), embora

    ainda instvel, permite o estabelecimento

    de cultivos experimentais e at mesmo de

    nvel comercial. os resultados de engorda,

    porm, ainda so insuficientes para indicar

    se os nveis de produtividade sero simila-

    res aos observados em outros pases.

    Entre as vrias demandas de pesquisa e

    desenvolvimento, destacam-se as reas de

    sanidade e nutrio. os estudos sobre nu-

    trio e alimentao devem ser aplicados

    principalmente fase de engorda, pois a

    disponibilidade de dietas apropriadas ao

    beijupir, a um custo acessvel, um dos

    grandes limitantes para a sua criao no

    Brasil. igual importncia deve ser dada

    pesquisa e formao de pessoal especia-

    lizado em sanidade, alm de condies

    que facilitem a criao de uma estrutura

    especializada no diagnstico, controle e

    preveno de doenas. Faz-se necessrio,

    tambm, fortalecer institucionalmente

    o MPA a fim de acelerar os processos de

    cesso de guas pblicas e licenciamento

    ambiental. A maior agilidade e transparn-

    cia nesses processos certamente serviro

    para atrair interessados na atividade.

    Acredita-se que, superados os obst-

    culos iniciais, naturais a toda atividade

    pioneira, a criao e a comercializao

    do beijupir (Figura 6) podero servir de

    base para o desenvolvimento sustentvel

    da piscicultura marinha no Brasil, o que

    incluir a necessidade de diversificao

    de espcies e sistemas de cultivo, alm de

    permitir o estabelecimento de uma nova

    atividade geradora de trabalho e renda.

    * Ronaldo Olivera Cavalli professor do Departamento de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco (DEPAq/UFRPE) ([email protected]).

    refernciAs BiBliogrficAsBALDiSSEroTTo, B.; GoMES, L. C. Espcies nativas

    para a piscicultura no Brasil. 2 a. Santa Maria: Editora da UFSM, 2010. 608 p.

    FAo. The State of World Fisheries and Aquaculture 2010. rome: FAo, 2012.

    hoLT, G. J.; FAULK, C.; SChWArz, M. A review of the larviculture of cobia rachycentrom canadum, a warmwater marine fish. Aquaculture, v. 268, 181-187 p., 2007.

    LiAo, i. C.; LEAo, E. M. Cobia aquaculture: research, development and commercial pro-duction. 1. ed. Taiwan: Asian Fisheries Society, 2007. 178 p.

    23viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • Comercializao de camaro salgado e seco em banca de mercado; Aracaju, SE, 2011

    EriK

    A FA

    BiAn

    E FUr

    LAn

    SEGMENtoS da aquiCultura

    nas ltimas dcadas, houve escassez na

    oferta de alimentos de origem aqutica,

    principalmente nos pases em desenvol-

    vimento. Como consequncia, a produo

    mundial de camares apresentou cresci-

    mento considervel. Entretanto, surgiram

    problemas prejudiciais atividade refe-

    rentes poluio das guas (pela emisso

    de efluentes sem tratamento), crescente

    demanda por farinha e leo de peixe (am-

    bos utilizados na formulao de raes) e,

    ainda, disseminao de doenas, como

    Sndrome de Taura, Mancha Branca, entre

    outras (Wasielesky et al., 2006).

    nesse contexto, diversos centros de

    pesquisas iniciaram estudos para o de-

    senvolvimento de tecnologias sustent-

    veis, com objetivos de reduzir a emisso

    de efluentes e, ao mesmo tempo, atingir

    altos ndices de produtividade (acima de

    5.000 kg/ha/ciclo). As novas tecnologias

    baseiam-se na produo de camares

    em sistemas fechados, ou seja, na cria-

    o desses crustceos em sistemas de

    bioflocos (Sistema BFT), cujos cultivos

    so realizados praticamente sem reno-

    vao de gua e com aproveitamento dos

    micro-organismos como alimento natural,

    reduzindo o uso de raes. Assim, alm

    de melhorar os ndices de produtividade,

    o sistema BFT apresenta maior biossegu-

    rana, pois diminui intercmbios de gua

    e doenas (Avnimelech, 2009; Krumme-

    nauer et al., 2011).

    Demanda faz crescer interesse por criao de camares em estufasDariano Krummenauer, Gabriele Rodrigues de Lara e Wilson Wasielesky Jnior*

    Criar camares em raceways cobertos

    (estufas) tem despertado o interesse de

    pesquisadores e produtores em alguns

    pases, oportunizando a criao de ca-

    mares penedeos em regies com clima

    subtropical e temperado (Figura 1). nos

    Estados Unidos da Amrica (Carolina

    do Sul, virgnia, Maryland, Texas, hava,

    entre outros estados), pesquisas esto

    sendo realizadas para a produo em

    estruturas fechadas. na Coreia do Sul, na

    indonsia, na Blgica e na holanda, o sis-

    tema BFT tambm j est sendo utilizado

    para a engorda de camares.

    Um aspecto importante desse sistema

    de cultivo a utilizao de menor quanti-

    dade de gua, quando comparado com os

    Estufas

    24

  • Tabela 1 | principais vanTagens e des-vanTagens do sisTema bFT de culTivo para camares marinhos

    vanTagens

    Aumento da produtividade

    Utilizao de menores reas de cultivo

    Aumento da biossegurana

    Diminuio ou iseno da renovao de

    gua

    Maior estabilidade do sistema

    Diminuio da quantidade de protena

    nas raes

    Maior disponibilidade de alimento natural

    Comunidade microbiana atuando

    como probitico

    Menores unidades de cultivo com

    maior controle

    Menor impacto ambiental

    Possibilidade de cultivo em regies

    afastadas da costa

    desvanTagens

    Maior custo de instalao

    Maiores gastos de energia (aerao)

    Risco do surgimento de

    micro-organismos txicos

    Acmulo de fsforo no sistema (risco com

    cianobactrias)

    Maior custo operacional

    Fonte: Dariano Krummenauer, Gabriele Rodri-gues de Lara e Wilson Wasielesky Jnior.

    sistemas convencionais. isso representa

    uma diminuio na emisso de efluentes,

    podendo-se produzir at 1 kg de camares

    utilizando menos que 100 litros de gua;

    enquanto nos sistemas convencionais

    so utilizados mais de 50 mil litros para

    obter a mesma produo (Samocha et al.,

    2010). o sistema BFT apresenta vantagens

    e desvantagens quando comparado com

    os sistemas tradicionais de cultivo em vi-

    veiros (Tabela 1). inicialmente, observam-

    -se custos maiores, mas compensados

    por produtividades muito maiores que

    as obtidas nos sistemas convencionais.

    Pelo fato de o sistema BFT utilizar

    densidade de estocagem elevada, pos-

    sibilita produtividade de at 10 kg/m,

    o que equivale a uma produo 10 vezes

    maior que em sistemas tradicionais.

    Por exemplo, Samocha et al. (2010), utili-

    zando densidades de estocagem de 450

    camares/m3, obtiveram biomassa final

    de 9,75 kg/m3/safra com peso mdio de

    22,4 gramas e 95% de sobrevivncia na fase

    de engorda. Em outro centro de pesquisa,

    otoshi et al., (2009) reportaram produo

    de 10,3 kg/m2 (103 ton/ha) com camares

    estocados com densidade inicial de 828

    camares/m2 e densidade final de 562

    camares/m2 em sistema BFT em estufas.

    Esses resultados foram obtidos utilizando

    recursos tecnolgicos como oxignio

    injetvel, filtros biolgicos, filtros mec-

    nicos, fracionadores, sedimentadores,

    sistemas automatizados e, em alguns

    casos, com monitoramento eletrnico de

    qualidade da gua. A utilizao de raes

    especficas para camares em sistema

    superintensivos (BFT) provavelmente

    contribuiu para tais resultados (Figura 2).

    BioflocosA formao dos bioflocos ocorre a partir

    da mudana da razo entre carbono

    e nitrognio (C : n) dos cultivos. Esta

    deve manter-se entre 15 e 20 : 1, a fim de

    que ocorra o surgimento de bactrias

    heterotrficas, dando incio a uma su-

    cesso microbiana. Para tanto, so feitas

    aplicaes de fontes de carbono, como

    melao de cana de acar, dextrose,

    farelos de arroz e de trigo. A partir da

    mudana desta relao C : n e atravs

    de uma forte aerao, os agregados ou

    bioflocos so formados durante o ciclo

    de produo (Avnimelech, 2009). Esses

    agregados so constitudos principal-

    mente de bactrias, microalgas, fezes,

    exoesqueletos, restos de organismos

    mortos, protozorios, invertebrados,

    entre outros (Figuras 3 e 4).

    Uma vez formados, eles servem de

    suplemento alimentar para os animais,

    alm de assimilarem os compostos ni-

    trogenados presentes na gua de cultivo,

    que so txicos aos camares. outro fa-

    tor de suma importncia associado for-

    mao desses agregados a possibilidade

    de reduo do teor de protena bruta nas

    raes fornecidas aos camares, devido

    ao incremento na produtividade natural

    do sistema (Wasielesky et al., 2006).

    Estudos realizados em Belize (Amrica

    Central) demonstraram que mais de 29%

    Figura 1 | esTuFa de culTivo de camares em sisTemas bFT; eua

    WiLSo

    n W

    ASiELESK

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    25viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • WiL

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    y

    Figura 2 | esTuFa (585m2) para TesTes piloTo com Tanques revesTidos de geomembra-na (pead) na esTao marinha de aquaculTura da Furg; rio grande, rs

    do alimento consumido por Litopenaeus

    vannamei podem ser provenientes do

    floco microbiano (bioflocos) presente

    na gua do cultivo, demonstrando assim

    a viabilidade do sistema.

    A Estao Marinha de Aquacultura da

    Furg conta com um sistema de estufas

    de 580m2 com 10 raceways, todos re-

    vestidos com geomembrana (Figura 5).

    com bioflocos e 3 salas experimentais

    para realizao de experimentos em

    microescala com bioflocos.

    estudos nA furgCom o objetivo de adaptar esta modali-

    dade de criao realidade brasileira, a

    Furg vem desenvolvendo estudos visan-

    do preencher as lacunas ainda existentes,

    como os experimentos que identificam

    os principais grupos de agregados mi-

    crobianos, a utilizao de probiticos

    especficos para a criao em sistemas

    de bioflocos, em cuja formao foram

    testadas diferentes fontes de aerao,

    de carbono, alm da adio de amnia

    para acelerar a formao dos agregados

    microbianos. Tambm foram realizados

    cultivos com gua marinha natural e

    artificial, com diferentes salinidades,

    e visando viabilidade da reutilizao

    de gua.

    inicialmente realizaram-se testes em

    berrios intensivos com densidades

    entre 1.500 e 6.000 camares/m. os

    resultados so estimuladores, pois as

    sobrevivncias foram acima de 90% em

    diferentes densidades, sem renovao de

    gua. na fase de engorda, Krummenauer

    et al. (2011) testaram as densidades de

    150, 300 e 450 camares/m durante

    Figuras 3 e 4 | deTalhe dos Flocos microbianos em microscpio de epiFluorescncia e no culTivo de Litopenaeus vannamei

    ED

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    SEGMENtoS da aquiCulura

    A aerao dos tanques realizada atravs

    de um soprador (blower) de 4 hp. A estufa

    ainda conta com sistemas de emergncia

    e filtrao. A estufa piloto de cultivo

    possibilita que sejam realizados testes

    em repeties simulando ciclos com-

    pletos de cultivo (berrio e engorda). o

    laboratrio ainda possui duas estufas de

    pesquisa para crescimento de camares

    26

  • Tabela 2 | desempenho mdio do camaro-branco Litopenaeus vanna-mei em raceways com sisTema bFT, nas insTalaes da esTao marinha de aquaculTura (ema/io/Furg)

    Densidade inicial 400 (ind/m)

    Sobrevivncia 85,0 (%)

    Ganho de peso/semana 0,85 (g)

    Peso mdio inicial Juvenis de 1g

    Peso mdio final 15,57 (g)

    Tempo mdio de cultivo 120 (dia)

    Biomassa final 4.632 (g/m)

    Rao fornecida 5.512 (g/m)

    Converso alimentar 1:1,19

    Produtividade 46.321 (kg/

    ha)*

    * Mdia dos resultados em 30 ciclos de cultivo em raceways de 50-100 m (100 hp/ha), reves-tidos com Pead em estufas.

    Fonte: Dariano Krummenauer, Gabriele Rodri-gues de Lara e Wilson Wasielesky Jnior.

    90 dias (a partir de 1 g). os melhores re-

    sultados foram observados na densidade

    de 300/m, com crescimento semanal de

    0,82 g, sobrevivncia acima de 85% e

    taxa de converso alimentar de 1,3 : 1. A

    produtividade foi de 3,9 kg de camares/

    m (39 toneladas/ha/ciclo).

    resultAdosos experimentos com raceways tm

    apresentado resultados animadores,

    demonstrando que a tcnica uma

    realidade e est pronta para ser aplicada

    em cultivos comerciais no pas. A sntese

    dos resultados zootcnicos obtidos em

    raceways utilizando o sistema BFT no rio

    Grande do Sul apresentada na Tabela 2.

    Estima-se que os cultivos em raceways

    no sistema BFT sejam uma alternativa

    vivel a ser aplicada em diferentes locais

    em funo de ocupar reas muito peque-

    nas. os resultados aqui apresentados

    mostram que possvel trabalhar com

    produtividades acima de 46 t/ciclo ou

    acima de 130 t/ano.

    os resultados obtidos sugerem que o

    Litopenaeus vannamei, em sistema BFT,

    pode ser utilizado em elevadas densida-

    des de estocagem, desde que seja manti-

    da a qualidade da gua com o auxlio de

    manejo adequado. As taxas de converso

    alimentar so semelhantes aos cultivos

    tradicionais, a sobrevivncia significati-

    vamente superior e a produtividade , no

    mnimo, dez vezes maior que em viveiros

    que no usam o sistema BFT.

    * Dariano Krummenauer professor colaborador do Programa de Ps-Graduao em Aquicultura, da Furg ([email protected]); Gabriele Rodrigues de Lara mestre em Aquicultura pela Furg ([email protected]); Wilson Wasielesky Jnior professor da Universidade Federal do Rio Grande, no Instituto de Oceanografia Cassino, Rio Gran-de, RS ([email protected]).

    refernciAs BiBliogrficAsAvniMELECh, y. Biofloc technology A practical

    guide book. The World Aquaculture Society: Baton rouge, 2009.

    KrUMMEnAUEr, D.; PEiXoTo, S.; CAvALLi, r. o. et al. Super intensive Culture of White Shrimp, Litopenaeus vannamei, in a Biofloc Technology System in Southern Brazil at Di-fferent Stocking Densities. Journal of World Aquaculture Society, 2011, 42:726733p.

    oToShi, C. A.; TAnG, L. r.; MoSS, D. r. et al. Performance of Pacific White Shrimp, Pe-naeus (Litopenaeus) vannamei, cultured in bio secure, super-intensive, re circulating aquaculture systems. in: BroWDy C. L; Jory D. E. (eds.). The rising Tide Proceedings of the Special Session on Sustainable Shrimp Farming, World Aquaculture 2009. The World Aquaculture Society: Baton rouge Louisiana, 2009.

    SAMoChA, T. M.; WiLKEnFELD, J. S.; MorriS T. C. et al. intensive raceways without water exchange analyzed for White shrimp culture. Global Aquaculture Advocate. July/August, 2010, 13:2224p.

    WASiELESKy, W. J.; ATWooD, h. i.; SToKES, A. et al. Effect of natural production in brown wa-ter super-intensive culture system for white shrimp Litopenaeus vannamei. Aquaculture, 2006, 258:396403p.

    DA

    riA

    no

    Kr

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    MEn

    AU

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    Figura 5 | esTruTura de esTuFas para TesTes piloTo com Tanques revesTidos de geomembrana (pead) na esTao marinha de aquaculTura da Furg; rio grande, rs

    27viso agrcola n11 jul | dez 2012

  • Cultivo em bioflocos (BFT) eficaz na produo intensiva de camaresGeraldo Kipper Fes, Carlos Augusto Prata Gaona e Lus Henrique Poersch*

    o cultivo de camares marinhos nas

    Amricas e no Brasil passou por trs

    fases distintas. A primeira, na dcada

    de 1980, foi marcada pela construo de

    grandes viveiros, com reas superiores a

    5 ha e utilizao de baixas densidades de

    estocagem (3 a 8 camares/m2). naquele

    perodo, a produtividade alcanava em

    mdia 1.000 kg ha-1 ano-1. A segunda

    fase, a partir de 1990, caracterizou-se

    pela melhor qualificao da mo de obra

    empregada na produo, pelo aumento de

    tecnologia nos cultivos, como utilizao

    de aerao artificial, emprego de raes

    comerciais de melhor qualidade e uso de

    bandejas de alimentao, o que possibili-

    tou o aumento de densidade para 20 a 30

    camares/ m2.

    Com a adoo dessas prticas, a pro-

    dutividade nos viveiros aumentou para

    6.000 kg ha-1 ano-1. A elevada produti-

    vidade perdurou at o incio do presente

    sculo, quando foram detectadas doenas

    causadas pelo vrus da mancha branca

    (WSSv) e da mionecrose (iMnv), alm de

    dificuldades na exportao do camaro

    produzido no pas. A terceira fase iniciou-

    -se com a melhora no quadro econmico

    do pas, nos ltimos anos, quando o

    mercado interno passou a absorver o

    camaro produzido nas fazendas. A preo-

    cupao dos produtores em relao

    qualidade da gua e do solo dos viveiros

    aumentou, e estes passaram a utilizar

    ps-larvas; a gentica favorecendo o cres-

    cimento e a resistncia a enfermidades.

    SEGMENtoS da aquiCultura

    Camares marinhos produzidos em sistema de flocos microbianos (bioflocos); Estao Marinha de Aquacultura/IO/Furg, Rio Grande, RS, 2010

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    Tecnologia

    28

  • Figura 1 | imagem de Flocos microbianos obTida em viveiro de culTivo de camares e em microscpio pTico (deTalhe); 2010

    GA

    BriE

    LE L

    Ar

    A

    Tabela 1 | caracTersTicas principais dos sisTemas de culTivo Tradicional (semi-inTensivo) com o sisTema de Flocos microbianos (bFT), em viveiros escavados

    sisTema de culTivo densidade (cam/m) liTros de gua / Kilos de camaro

    c o n v e r s o alimenTar

    sobrevivncia (%) produTividade (Kg ha -1 )

    Tradicional 20 - 30 65.000 1,5 60 - 70 6.000

    bFT 120 1.000 1,3 80 - 90 15.000

    Fonte: Luis Poersch et al.2012.

    Desde a dcada de 1990, pesquisa-

    dores vm desenvolvendo tcnicas de

    cultivo ambientalmente mais amigveis,

    preconizando a operao em empreen-

    dimentos biosseguros e a diminuio da

    renovao de gua. vrios fatores foram

    responsveis por esses estudos e pela

    adoo dessas tcnicas de cultivo. Po-

    dem-se citar fatores externos, tais como:

    regulamentaes dos rgos ambientais

    para a reduo na emisso de efluentes

    ricos e nutrientes e matria orgnica

    para o meio ambiente; maior relevncia

    da opinio pblica (consumidor), esti-

    mulando a adoo de tcnicas ambien-

    talmente amigveis pelos produtores;

    disponibilizao de novas tecnologias de

    cultivo pelos centros de pesquisa; adoo

    de sistemas biosseguros de produo,

    principalmente nas regies afetadas por

    enfermidades. Existem tambm fatores

    internos relacionados lucratividade do

    empreendimento: aumento de produtivi-

    dade, melhoria da converso alimentar,

    reduo do tempo de cultivo e aumento

    da lucratividade, entre outros.

    o sistemA BftDentre as novas tecnologias de produo

    e