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    FICHA TCNICAEdio: Municpio de PenamacorAutor: Helder Manuel Guerra HenriquesDesign grfico: Vtor GilDepsito Legal: 332318/11ISBN: 978-972-99678-8-7

    2011

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    Para a Sara e Maria Leonor

    A Terra Quanto Mais Se Conhece Mais Se Ama

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    Agradecimentos

    Prefcio de Dr. Manuel Lopes Marcelo

    Introduo

    1 PARTE

    O Itinerrio biogrfico: De Aldeia do Bispo Para o Seminrio do Fundo.

    Entre o Liceu Gil Vicente e a Escola Normal Primria de Coimbra.

    A Actividade Pessoal e Profissional: linhas norteadoras entre a dcada de 30 e 50.

    Da dcada de 50 ao final da sua vida: a transferncia de Penamacor para o Montijo.

    2 PARTE

    A produo cientfica e cultural de Jos Manuel Landeiro: exemplos.

    Os trs eixos: A Educao, a Histria e Etnografia.

    O primeiro eixo: A Educao.

    A Educao Nova, O Estado Novo e a Igreja Catlica.

    Jos Manuel Landeiro: O professor pregador.

    A Instruo Primria em Aldeia do Bispo: O Clube Ferno Lopes.

    A Biblioteca e o Museu Escolar da Escola Masculina de Penamacor.

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    INDCE

  • A Biblioteca e o Museu Escolar de Penamacor: Alguns materiais recebidos.

    O Segundo Eixo: a Histria e Arqueologia.

    O Terceiro Eixo: Os costumes, os valores e as tradies.

    As tradies e a religiosidade.

    Os contos e as lendas: a procura do eu.

    3 PARTE

    Pesquisa e Seleco de Textos recolhidos da Imprensa regional e local.

    Efemrides Penamacorenses Cronologia proposta por Jos Manuel Landeiro.

    Consideraes Finais

    Bibliografia e Fontes

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    AGRADECIMENTOS

    A publicao deste trabalho s possvel devido a um conjunto de esforos entre os quais se destaca a persistncia e a crena da Cmara Municipal de Penamacor e da Junta de Freguesia de Aldeia do Bispo na cultura do seu concelho como potencial fonte de riqueza. Neste sentido, ao senhor Presidente do municpio de Penamacor, Dr. Domingos Torro, bem como senhora Vereadora do pelouro da cultura, Dr Ildia Cruchi-nho, so devidos todos os agradecimentos pelo incentivo constante que manifestaram, e continuam a manifestar, sempre que apresentado um projecto de natureza cultural interessante. Ao Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Aldeia do Bispo deixamos um agradecimento por querer co-nhecer sempre mais e melhor a sua terra.

    Nos agradecimentos deve seguir uma nota de apreo relativamente abertura e ao entusiasmo da Dr Carlota Landeiro, filha do nosso ilustre protagonista, no sentido da execuo desta obra facultando um conjunto de materiais fotogrficos e de fontes documentais muito importantes para levar a bom porto este projecto.

    Tambm devemos uma palavra de apreo ao Dr. Manuel Lopes Mar-celo que se disponibilizou para prefaciar este humilde livro utilizando a sua sapincia junto de um autor to jovem, no qual sempre acreditou.

    Deve ficar tambm registado um agradecimento ao pessoal do Arqui-vo Municipal de Penamacor e da Biblioteca da respectiva localidade.

    Agradecemos ao Seminrio do Fundo o facto de ter colocado os seus arquivos minha disposio. No mesmo sentido, registo o incentivo da

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    Escola Superior de Educao de Portalegre, nomeadamente do Departa-mento de Cincias Sociais e Humanas e Suas Didcticas, agora transfor-mado em rea cientfica de Histria, Geografia e Patrimnio.

    No que diz respeito aos agradecimentos pessoais dirijo uma palavra de amizade para o meu amigo, professor e poeta, de longa data Roberto Vinagre que est sempre presente em todos os momentos significativos da nossa vida pessoal e profissional.

    Aos meus pais, irmo, Av e toda a famlia, por todos os sacrifcios que fizeram e pelo constante incentivo junto da minha pessoa sobre as nossas actividades de investigao.

    As ltimas palavras so dirigidas, propositadamente, minha espo-sa: quantas horas de convvio por vezes esta nossa actividade profissional nos retira e, ainda assim, consegue estar sempre presente, querendo saber sempre mais, participando comigo em congressos, encontros, nas inves-tigaes que levo a cabo do ponto de vista acadmico nas diferentes uni-versidades onde j passei, na minha actividade como docente do ensino superior enfim, est aqui o produto do trabalho de muitas e longas ho-ras de pesquisa e pensamento dedicado, todo ele, Sara e Maria Leonor: hinos da minha alegria.

    A todos aqueles que, de algum modo, contriburam para que este es-tudo fosse uma realidade e no apenas uma miragem.

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    PREFCIO

    O tempo actual, mais propcio ao esquecimento e fragmentao da memria, torna descartvel o simblico e tende a asfixiar a fruio con-templativa e reflexiva da gnese cultural de ciclo longo, sedimentada na coerncia e na autenticidade. Vai sobressaindo uma noo de pretensa modernidade que afirma rupturas com o passado, levianamente desconsi-derado por apressados defensores do progresso material consumista.

    Considero que uma falsa modernidade, traduzida num progresso sem alma que representa muitos perigos. Um deles, no o menor, com-porta uma certa rasoira das identidades locais pela progressiva fragiliza-o das marcas identitrias do territrio. Assim, importa contrariar tal corrente e resgatar a memria: estudando e divulgando a personalidade cultural do territrio. Deste modo se valorizar o saudvel e essencial exerccio do cultivo identitrio e de partilha solidria, como base da cida-dania cultural activa e responsvel. Neste exerccio se insere a atitude di-nmica do investigador Helder Henriques, j demonstrada em trabalhos anteriores e de novo bem evidenciada na presente obra, que vivamente sado.

    Importa dar expresso e visibilidade ao conhecimento e vivncia da memria como patrimnio em ntima ligao com o territrio, susci-tando interrogaes, despertando a curiosidade vivificante como energia fundamental das dinmicas culturais locais, envolvendo as pessoas, os va-lores e a histria.

    Helder Henriques assume que as pedras vivas do patrimnio so as

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    pessoas e, assim, sentiu-se motivado pesquisa da vida e obra do Pro-fessor Jos Manuel Landeiro. Concretiza, assim e mais uma vez, uma ac-o de cidadania activa, seguindo o historiador Jos Mattoso que muito oportunamente cita: De facto s me interessam as coisas vivas, que me interpelam, que se metem comigo. S me interessa o presente e a maneira de me movimentar no tempo e no espao onde vivo. Quero com isto dizer que s me atrai no passado, aquilo que permite compreender de viver o presente.

    Fruto de grande dedicao e empenhada pesquisa, Helder Henriques oferece-nos uma narrativa empolgada da vida e obra de um protagonis-ta importante da vida do nosso concelho, nas dcadas centrais do sculo passado. Trata-se de uma obra que suscita o interesse e prende a ateno do leitor, atravs de criteriosa anlise de factos e documentos, enquadra-dos nas respectivas pocas, contextos culturais e sistema ideolgico e po-ltico. Evidncia adeso crtica, sem cair no panegrico ou consideraes suprfluas.

    Jos Manuel Landeiro, moldado nos valores matriciais rurais, alimen-tado pela educao crist do Seminrio e pela aragem do iderio peda-ggico renovador da Educao Nova em Coimbra, desenvolveu toda a sua actividade na partitura controversa e polmica do Regime do Estado Novo. As suas caractersticas de cidado empenhado e com elevada capa-cidade de trabalho, dinamizador de projectos editoriais, activo divulgador do seu concelho na Imprensa regional, professor dedicado e empreende-dor, estudioso da histria, etnografia e arqueologia; tornaram-no uma fi-gura incontornvel da nossa histria recente.

    Quanto sua insero no modelo educativo do Estado Novo, Helder Henriques no foge questo e defende a tese de Professor pregadorque ter conseguido associar escola a realidade cultural e social, atravs da vida associativa (Clube Ferno Lopes), da biblioteca, do museu e do apoio social. Assim, ter conseguido de algum modo contrariar a aridez na viso restritiva e elitista da instruo primria do regime autoritrio do Estado Novo.

    Ontem, como hoje, a polmica entre instruo e educao uma ver-tente essencial no modelo de funcionamento das escolas. E, sempre que se isolam as escolas das suas comunidades envolventes, mais se contribui

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    para a rasoira das identidades locais. O que mais importa so as maneiras de ser e de estar que se manifestam nos saberes e saberes-fazer que permi-tem percepcionar e usufruir a cultura das nossas terras, dignificando a sua histria e valorizando os seus produtos, valores e tradies. E as escolas no podem ficar de fora de tal processo de dignificao e valorizao, pois no seu seio pode frutificar ou morrer a auto-estima e a relao de pertena a um determinado territrio, com a sua histria e cultura prprias.

    Com Jos Manuel Landeiro: Educador, Historiador e Etngrafo; Helder Henriques credor de reconhecimento, pois acrescenta e valoriza o seu j notvel contributo para a historiografia local e regional. Na III parte desta obra, fruto de exaustiva pesquisa e seleco de textos da Im-prensa regional e de Efemrides penamacorenses; dada voz ao protago-nista, facilitando-se o conhecimento directo do seu pensamento.

    Por mais este livro, est de parabns o autor e o concelho de Penama-cor, designadamente os cidados que acreditam na profunda inter-ligao da identidade cultural com a memria histrica e o patrimnio. Trata-se da memria colectiva, fruto dos valores e tradies que se afirmaram e consolidaram ao longo do percurso criativo de sucessivas geraes. O ho-mem, cada pessoa, sentir-se- mais filho da sua terra na medida em que melhor conhea e afectuosamente partilhe a magia e a sabedoria popular, os valores, rituais e tradies da sua Comunidade de origem. E tal afilia-o parte essencial de um sentimento de modernidade responsvel e co-erente, de modo a sabermos de onde viemos e quem somos, para melhor podermos escolher o que queremos ser.

    Lopes Marcelo

    Aranhas; Agosto de 2010

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    INTRODUO

    Ao longo dos ltimos anos temos assistido ao retomar do interesse pe-los processos de (re)construo identitria atravs do mtodo biogrfico. Este mtodo, do nosso ponto de vista, permite uma compreenso alargada sobre os territrios e espaos relacionados com o conhecimento humano constituindo uma relao umbilical com a Histria Regional e Local.

    neste sentido que surge o interesse pelo estudo de personalidades que se destacaram no concelho de Penamacor ao longo da Histria. Um dos casos mais estudados, nos ltimos anos, foi o do mdico e pedagogo Antnio Nunes Ribeiro Sanches1. A natureza destes estudos de interesse regional e local, mas tambm nacional, inserem-se num movimento de redefinio identitria do ponto de vista cultural a que estamos a assis-tir, gradualmente, como um mecanismo potencial aliado dimenso e valorizao econmica de um territrio2. Assim, justificamos o nosso in-teresse pela ideia defendida anteriormente na tentativa de construir um retrato sobre uma das figuras mais relevantes e marcantes, do concelho de Penamacor, ao longo do sculo XX, movimentando-se no interior de vrias dimenses do conhecimento. Mais concretamente referimo-nos ao professor Jos Manuel Landeiro.

    O objectivo central da publicao deste trabalho prende-se com um

    1 Por exemplo: Cordeiro, Faustino, Ribeiro Sanches Dirio de Campanha na Guerra Russo Turca (1735-1739) e outros textos, edio da Cmara Municipal de Penamacor, 2006.

    2 Marcelo, M. Lopes, Banda Filarmnica de Aldeia de Joo Pires Centenrio (1908-2008), edio da Cmara Municipal de Penamacor, 2008.

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    reforo do conhecimento do passado histrico deste concelho, mas tam-bm com a necessidade de, lentamente, se comear a pensar em elaborar uma arqueologia do conhecimento histrico que foi desenvolvido por di-ferentes actores, neste caso particular, principalmente na primeira metade do sculo passado.

    Ora, este trabalho promete apresentar, numa primeira parte, um rotei-ro biogrfico que incide sobre o percurso acadmico pessoal e profissional de Jos Manuel Landeiro. A segunda parte deste estudo perspectiva Lan-deiro enquanto actor que desenvolveu um conjunto significativo de tra-balhos principalmente enquanto esteve numa fase activa da sua activida-de profissional e cientfica no concelho de Penamacor e, por isso mesmo, optamos por dar relevo dimenso Educacional, Histrica e Etnogrfica.

    No seguimento do que anunciamos para as duas primeiras parte fo-mos obrigados a tomar decises, a seleccionar e a escolher alguns dos eixos condutores deste estudo na medida em que a vida de Jos Manuel Landeiro permite um conjunto alargado de abordagens. Optamos por va-lorizar a sua formao acadmica, o trabalho cientfico relacionado com o concelho de Penamacor e a participao como publicista na imprensa regional e local da Beira Baixa e, tambm, a sua actividade como profes-sor do ensino elementar, dado que esta actividade serviu de plataforma circulatria de um conjunto de perspectivas abordadas pelo prprio Jos Manuel Landeiro ao longo da sua vida.

    Desta escolha surge uma terceira parte do trabalho, onde se destacam um conjunto de textos que emergiram, principalmente, em torno de trs eixos privilegiados a que daremos especial destaque por estarem directa-mente relacionados com o concelho de Penamacor. Estes textos resultam da publicao de uma coluna, pelo protagonista deste trabalho num jornal local, intitulada postais da nossa terra. Esta coluna apresenta, por um lado, os textos que reflectem as suas ideias enquanto pedagogo e educa-dor; por outro lado, uma vertente associada dimenso histrica e arque-olgica e, por fim, um conjunto de textos relacionados com elementos etnogrficos que contribuem para uma melhor compreenso da comuni-dade concelhia.

    A vida deste homem apenas o exemplo de um percurso de muitos outros actores que desenvolveram actividades e ajudaram a construir uma

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    determinada dinmica neste concelho. No gostaramos que este trabalho fosse mais um trabalho catalogado como um movimento de valorizao das elites locais, ainda que assim possa ser considerado. De qualquer dos modos, acreditamos que esta personagem pode ser apenas entendido como uma personalidade que se destacou pelo trabalho que desenvolveu, do mesmo modo que o agricultor pode, e deve, ser valorizado por semear e colher para alimentar nos a todos. Uns alimentam o corpo, outros alimentam a alma, todavia o esprito de trabalho e, muitas vezes, de sacri-fcio sempre o mesmo. por isso que Jos Manuel Landeiro considerava que quanto mais se conhece a terra mais se ama. Se o leitor nos permitir, e fugindo aos cnones tradicionais da Histria, tambm ns corrobora-mos totalmente esta expresso dado que tambm ns somos apaixonados pela nossa terra e pelo nosso concelho e, por isso, estudar Jos Manuel Landeiro sinnimo de um processo de compreenso inerente nossa prpria pessoa e identidade.

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    1 PARTE

    Itinerrio Biogrfico: De Aldeia do Bispo Para o Seminrio do Fundo

    Jos Manuel Landeiro nasceu em Aldeia do Bispo, no concelho de Pe-namacor, no inverno de 1905, mais concretamente a 23 de Fevereiro desse mesmo ano. Filho legtimo de Jos Landeiro Toscano e de Maria Borges. Os seus avs paternos eram Manuel Landeiro Maurcio e Rita Penedo. Do lado materno era neto de Jos Joaquim Manteigas e Maria Borges.

    Este homem era proveniente de famlias modestas, ainda que com al-guma influncia pois, o seu bisav, por exemplo, tinha sido Capito de Ordenanas naquele territrio como o prprio Jos Manuel Landeiro sa-lientou num artigo de imprensa do jornal Beira Baixa na dcada de 40 do sculo XX.

    A famlia, ligada ao Catolicismo, depressa mostrou a preocupao de proceder ao baptismo da, ento, criana, podendo ler-se no registo de nascimento o seguinte:

    Aos trese dias do ms de Maro do ano de mil novecentos e cinco, nesta igreja paroquial de S. Bartolomeu de Aldeia do Bispo, concelho de Penamacor, diocese da Guarda, baptizei solenemente um individuo do

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    sexo masculino a quem dei o nome de Jos e que nasceu nesta freguesia s duas horas da manh do dia vinte e trs do ms de Fevereiro do ano de mil novecentos e cinco ()1

    Os seus padrinhos de baptismo foram Jos Manoel Martins de Carva-lho e Ana Landeiro Penedo, ambos solteiros poca.

    Jos M. Landeiro mostrou desde muito cedo inclinao para seguir uma vida ligada aos valores colocando-se ao servio do seu concelho. Fre-quentou a escola de ensino elementar da sua terra natal onde fez exame de instruo primria, passando com distino, no dia 13 de Agosto de 19182. Na escola elementar de Aldeia do Bispo teve como professor o se-nhor Manuel Martins Leito que ensinou nessa localidade entre 1897 e 1923 e que serviu, acreditamos, de inspirao para, mais tarde, Jos M. Landeiro tomar o caminho do ensino como um verdadeiro acto missio-nrio.

    Gostaramos de introduzir aqui uma pequena notcia publicada por Jos M. Landeiro em 1949 onde retratava as condies e as dificuldades do ensino em Aldeia do Bispo desde finais do sculo XIX e, mais tarde, enquanto aluno:

    A escola primria em Aldeia do Bispo foi criada em 1879, como se

    pode ver no Dirio do Governo n 266, do mesmo ano. Comeou a fun-cionar na capela do Esprito Santo, Lameira. Desde essa altura, a Capela do Esprito Santo tornou-se um duplo Templo, templo religioso e instru-tivo. Foi ela durante 38 anos o centro intelectual das primeiras letras da localidade. Dali saram os homens de valor intelectual a que nos referi-mos, tendo frente o grande mestre, o professor Manuel Martins Leito, que foi o grande obreiro da educao e instruo nesta aldeia que muito lhe deve3.

    Jos M. Landeiro frequentou enquanto aluno este duplo templo,

    1 Registo de Nascimento Processo Individual de aluno Seminrio Menor do Fundo 1918/1919.

    2 Cf. Processo individual de Aluno Seminrio Menor do Fundo 1918/1919.

    3 Cf. Cartas da Nossa Aldeia in A Beira Baixa, Castelo Branco, Ano XIII, n642, 13 de Outubro de 1949, pp. 2.

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    como o prprio lhe chamara, at ao ano de 1917 data em que aconteceu um facto inslito no que diz respeito ao local de ensinamentos religiosos e de educao:

    Um dia fez-se nela a Festa da rvore, cuja origem o nosso leitor no deve ignorar. Houve recitaes, discursos e distriburam aos alunos uma bica com um pedao de queijo. Com o peso da gente que foi a assistir festa, o soalho foi abaixo e o Ministrio da Instruo deu como interdita a casa da aula. A Capela do Esprito Santo deixou de ser um duplo Tem-plo desde esse dia que jamais se apagar da nossa memria, para ns to saudosa4.

    Depois da concluso do ensino primrio a vida de Jos M. Landeiro seguiu um caminho muito prprio ao solicitar a integrao numa insti-tuio que promovia a vida eclesistica. Quer isto dizer, que este homem optou por seguir os seus estudos no Seminrio Menor do Fundo, que integrou a partir do ano de 1918, onde permaneceu durante 5 anos. Se-gundo Jos M. Landeiro, o envio dos filhos para instituies com uma matriz religiosa era uma prtica comum em Aldeia do Bispo. Refere-se, algumas vezes, ao envio de rapazes para o Colgio dos Padres de S. Fiel, no Lourial, para o Seminrio do Mondego e, tambm, para o Seminrio do Fundo5.

    Quando o Seminrio passou para o Fundo, Aldeia do Bispo foi a freguesia que mais rapazes contava no seminrio, chegando a haver ao mesmo tempo mais de meia dzia, o que era muito (). certo que a maior parte dos que frequentaram o seminrio no se ordenaram, mas nem por isso deixaram de ser bons catlicos ()6

    Temos razes para pensar que a sua vida aos 13 anos de idade no teria sido fcil exactamente porque para se poder integrar no interior

    4 Cf. Cartas da Nossa Aldeia in A Beira Baixa, Castelo Branco, Ano XIII, n642, 13 de Outubro de 1949, pp. 2.

    5 Note-se que antes de 1917 esta instituio tinha como nome Internato Acadmico.

    6 Cf. Cartas da Nossa Aldeia in A Beira Baixa, Castelo Branco, Ano XII, n642, 13 de Outubro de 1949, pp. 2.

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    deste tipo de instituio deveria cumprir um conjunto de mecanismos ligados ao bom comportamento moral o que, naturalmente, por vezes seria difcil cumprir dada a idade de Jos M. Landeiro. Interessa, porm, antes de avanarmos, apresentar uma ideia da instituio que frequentou no Fundo e do contexto com que Jos M. Landeiro se viu confrontado. Efectivamente, o tempo era de desavenas polticas e religiosas chegando muitas vezes a situaes extremas as relaes entre a Igreja e o Estado, no caminho laicizador da sociedade, em termos gerais, levado a cabo pela 1 Repblica Portuguesa (1910-1926). Pouco tempo antes de Jos M. Lan-deiro entrar para o Seminrio Menor do Fundo assistiam-se a episdios conturbados, tal como salienta Mrio Gonalves em artigo publicado no jornal Manh Radiosa, pertena do Seminrio do Fundo, no ano de 2001:

    Perante luta to renhida e to impetuosa dos poderes governamen-tais, as pessoas mais distintas e de maior relevo da vila, interpretando os sentimentos do povo () do Fundo, mandaram distribuir um manifesto pblico pela conservao do internato. O ano lectivo de 1916/1917 encer-rou assim, numa atmosfera de feroz perseguio jacobina ao Seminrio7

    Como podemos aperceber-nos os tempos imediatamente anteriores entrada de Jos M. Landeiro no Seminrio Menor do Fundo foram, de facto, problemticos e bastante prenunciadores das perseguies levadas a efeito para com a Igreja e os seus membros. Todavia, no ano lectivo em que Jos M. Landeiro integrou o Seminrio do Fundo a comunidade j tinha recuperado algum flego e encontrava-se numa situao um pouco mais pacfica. Assim, o ano lectivo de 1918/1919 contou com um aumento significativo de alunos onde se integrou o prprio Jos M. Landeiro. Nesse ano entraram 120 alunos8 nesta instituio que formou centenas de pes-soas e os soube colocar em diversos pontos da sociedade portuguesa ao longo da sua Histria.

    Jos Manuel Landeiro foi um desses filhos que aparece regularmente

    7 Cf. Epopeia do Herosmo in Manh Radiosa, Ano VIX, n 25, 2001, pp. 9.

    8 Cf. Epopeia do Herosmo in Manh Radiosa, Ano VIX, n 25, 2001, pp. 9.

  • 23

    nas publicaes e/ou comemoraes levadas a cabo pelo prprio Semin-rio.

    Podemos salientar que Landeiro, ao longo da sua vida, nunca negou a sua formao que se encontrava alinhada com o Catolicismo. Alis, muito frequente encontrarmos na documentao por ele escrita um con-junto significativo de referncias ligadas sua formao catlica e aos va-lores que defendia de acordo com a Igreja. De facto, esta ideia confirma-da por um documento passado pela autoridade paroquial de Aldeia do Bispo, em final de Agosto de 1918, onde se pode ler que se atesta que Jos Manoel Landeiro natural e morador nesta freguezia tem bom comporta-mento moral e religioso e muito boa vocao para a vida sacerdotal ()9. Quem defende esta ideia, como dissemos em cima, foi o Proco de Aldeia do Bispo que era Joaquim Pires Da Silva Vaz. Este documento servia para tomar uma melhor deliberao a direco do Seminrio sobre a entrada dos candidatos ao Seminrio.

    O mesmo Proco elaborou um documento para o Seminrio do Fun-do salientando que os Pais de Jos M. Landeiro s poderiam pagar a quantia de quatro mil ris pela educao dos seus filhos10.

    Ao longo da sua estadia no interior do Seminrio Menor do Fundo encontramos um conjunto de documentos que mostram o interesse do mesmo pela religio, pela Histria, pela Etnografia, enfim pela cultura como conceito amplo e aberto.

    No primeiro ano, em que esteve no Seminrio, frequentou as disci-plinas de Francs e Portugus, pedindo em 1919 para frequentar as dis-ciplinas de Portugus 2, Francs 2 e Latim 1. Encontramos uma outra so-licitao onde se faz referncia ao pedido de frequncia das disciplinas de Latim 2, Geografia e, tambm, Matemtica. Frequentando, j no ano lectivo de 1922/1923 as disciplinas de Histria e Literatura, entre outras.

    Torna-se, tambm, interessante compreender as prticas de vigilncia dos alunos do Seminrio. Sabemos que se estabeleciam contactos privile-giados com os Procos de cada localidade para obter informaes sobre o comportamento moral e civil, assiduidade religiosa, decncia no vestu-

    9 Cf. Atestado de bom comportamento Processo individual de Aluno Seminrio Menor do Fundo 1918/1919.10 Cf. Processo individual de Aluno Seminrio Menor do Fundo 1918/1919.

  • 24

    rio, respeito e modstia no tempo, assiduidade na catequese e se cum-priam, ou no, as prticas de confisso. Surgiu, no interior do processo de Jos Manuel Landeiro, um documento onde se abordam estes aspectos e que foi respondido pelo Proco Manuel Matos Silva, em Novembro de 1919, onde se salientava o bom comportamento generalizado da pessoa em causa como podemos observar na ilustrao seguinte:

    Documento enviado pelo Seminrio do Fundo ao Proco de Aldeia do Bispo, em 1919.

  • 25

    Depois de cerca de 30 anos da sua passagem pelo Seminrio do Fun-do, Jos M. Landeiro escreveu um artigo para o jornal Beira Baixa onde manifestava a sua saudade e gratido pelos ensinamentos do seu Reitor, Monsenhor Antnio dos Santos Carreto, e salientava que foi dos primei-ros alunos daquele Seminrio, como j referimos acima, e que continua a respeitar os valores ali apreendidos:

    Quem escreve estas linhas foi dos primeiros alunos do Seminrio do Fundo, onde teve o n 65. J l vo 31 anos! este o maior prazer espi-ritual que nos acompanha desde o dia, que, no sentindo vocao para a vida sacerdotal, tivemos de sair do seminrio que frequentamos durante cinco anos. No esquecemos o grande abrao, os conselhos paternais que o grande mestre nos deu sada, abrao este e conselhos estes que se vm repetindo todas as vezes que entrarmos na Casa que nos formou moral e intelectualmente, que nos ensinou o amor virtude e ao trabalho11.

    Est aqui bem espelhada a importncia que o Seminrio do Fundo teve na formao de Jos Manuel Landeiro e, consequentemente, ao longo de toda a sua vida.

    Alm, de Monsenhor Cnego Santos Carreto, reitor do Seminrio no seu tempo de estudante, naquela instituio teve ainda outros docentes que marcaram definitivamente a sua forma de estar e pensar a sociedade. Referimos os seus mestres, como o prprio salientava, daquela institui-o no incio da dcada de 20 da centria de novecentos:

    - Padre Cnego Wenceslau Ferreira Filipe (Vice-Reitor)- Padre Tomaz da Conceio Ramalho- Cnego Jos Loureno Tavares- Padre Dr. Jlio Csar Pereira de Almeida- Padre Jos da Cruz Moreira Pinto (Bispo de Viseu)- Padre Jos Alfredo Antunes- Padre Agostinho Rodrigues Pintassilgo- Padre Antnio Ribeiro Teles- Padre Antnio Pires

    11 De Penamacor Monsenhor Santos Carreto in A Beira Baixa - Ano XIII, n 640, 01 de Outubro de 1949, pp. 2.

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    - Padre Jos Antnio Canaria- Padre Joaquim Morgadinho

    Os valores alicerados ali, pela mo dos seus professores, marcaram todo um percurso que esteve sempre envolvido com as questes da cari-dade, do sacrifcio, do trabalho, da escola, enfim da cultura.

    neste sentido que defendemos que o Seminrio do Fundo repre-sentou um contributo muito significativo no processo de construo iden-titria deste homem do concelho de Penamacor e de Aldeia do Bispo, em particular12.

    Entre o Liceu de Gil Vicente e a Escola Normal Primria de Coimbra.

    Passados cinco anos de estudo, e dedicao, no Seminrio do Fundo transitou para o Liceu Gil Vicente, com cerca de 20 anos de idade, em Lisboa, assumindo um outro caminho que no o eclesistico. A verdade que a sua chegada ao Liceu Gil Vicente aconteceu no ano lectivo de 1924/1925.

    O Liceu Gil Vicente foi criado por portaria de 4 de Novembro de 1914, constituindo uma seco do Liceu Passos Manuel. O efectivo funciona-mento desta instituio aconteceu a partir de 1915 j com a designao e categoria de Liceu Central de Gil Vicente. No tempo em que Jos M. Landeiro integrou esta instituio o Liceu, originalmente de frequncia masculina, era de frequncia mista.

    Um dos actores educativos mais importantes no interior da estrutura pedaggica e administrativa do ensino liceal era, por norma, o reitor13. A passagem de Jos M. Landeiro pelo Liceu Gil Vicente foi acompanhada

    12 Cf. Pelo Districto Festa de Confraternizao dos Ex- Alunos do Seminrio do Fundo in A Era Nova, Ano II, n 73, 19 de Setembro de 1928, pp. 5.

    13 Cf. BARROSO, J., Os Liceus Organizao Pedaggica e Administrao (1836-1960), II Vols., Lisboa: Fundao Calouste Gul-benkian/ Junta Nacional de Investigao Cientfica e Tecnolgica, 1995.

  • 27

    pelo reitor Jos da Silva Tavares da Rocha Gouveia, professor do 1 gru-po14 disciplinar15.

    O seu percurso no interior desta instituio educativa de enorme prestgio na poca foi tambm significativo e prenunciador dos seus ob-jectivos pessoais no que diz respeito ao seu interesse pela educao. Pouco tempo depois de integrar o corpo discente deste liceu participou numa actividade de natureza editorial no prprio liceu acompanhando H. Trin-dade Ferreira, que foi o director do Jornal escolar intitulado De Capa e Batina. Esta parceria entre Jos M. Landeiro, editor e fundador deste jornal, e Trindade Ferreira, director, apesar de importante no panorama da imprensa escolar, teve apenas um nico nmero cuja publicao acon-teceu a 17 de Fevereiro de 1927.

    Esta publicao representa, de forma simblica, o incio do interesse por uma dimenso do conhecimento que marcou toda a sua vida: a edu-cao.

    Porm, os seus estudos no ficaram pelo Liceu. Na verdade, no final da dcada de 20 vai aprofundar o seu interesse pela educao numa insti-tuio que tinha como objectivo a formao de professores para o ensino elementar. Estas instituies tinham caractersticas muito prprias apos-tando numa componente de natureza terica em cruzamento com uma matriz prtica, desenvolvendo deste modo a profissionalizao do corpo docente portugus.

    De facto, Jos M. Landeiro transitou de Lisboa para Coimbra onde permaneceu durante alguns anos como estudante da Escola do Magist-rio Primrio dessa cidade16. comum, ao longo de toda a pesquisa que efectuamos em diferentes fontes documentais histricas, este protagonista falar das margens do Mondego que lhe serviram muitas vezes de inspi-rao.

    14 Cf. Ascenso, Alberto, Liceu de Gil Vicente Lisboa in Nvoa, Antnio e Santa-Clara, Ana Teresa, Liceus de Portugal His-tria, Arquivos, Memrias, Porto: Edies Asa, 2003, pp. 466 483.

    15 Sobre a constituio dos grupos disciplinares ao longo da Histria do ensino liceal pode consultar-se a dissertao de mes-trado de Helder Henriques intitulado o Professor do Ensino Liceal Caracterizao e Modalidades de Interveno: o Caso do Liceu de Portalegre e do Professor Antnio Raul Galiano Tavares, Faculdade de Psicologia e de Cincias da Educao da Universidade de Lisboa, 2007 (apesar de publicada, consulte-se, para esta questo, a verso original).

    16 Sobre esta escola, ainda que numa 2 fase, leia-se o trabalho de doutoramento de Lus Mota (2006). Consulte-se, tambm, a tese de doutoramento de Maria Joo Mogarro sobre a Escola do Magistrio Primrio de Portalegre (2001).

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    Alis, tambm no interior desta instituio depressa conseguiu afir-mar-se pelo conhecimento e pelas conferncias que proferiu. Podemos ler no jornal A Era Nova o seguinte:

    Segundo vimos no Primeiro de Janeiro do Porto, o nosso conter-rneo, sr. Jos Manoel Landeiro, aluno da Escola Normal de Coimbra, fez no dia 30 de Novembro, na mesma escola, uma alocuo alusiva data gloriosa do 1 de Dezembro de 1640, sendo no fim cumprimentado e feli-citado pelos professores e colegas17.

    Este excerto permite, de certa forma, compreender um dos modos de afirmao de Jos M. Landeiro, no interior das instituies por onde passou. A Escola Normal do Magistrio Primrio de Coimbra no foi ex-cepo e tambm a, deixou a sua marca pessoal procurando transmitir uma imagem de credibilidade, construindo assim em seu redor a respei-tabilidade social que tanto desejava para si e para o professorado primrio portugus.

    Do nosso ponto de vista, um dos aspectos mais relevantes da sua pas-sagem por Coimbra foi, de facto, a edio da revista pedaggica Escola Renovada. Esta revista foi publicada, pela primeira vez, no dia 8 de Mar-o de 1930 e era pertena da Liga dos Antigos Alunos da Escola Normal Primria de Coimbra. O primeiro nmero da revista era composto, alm de Jos M. Landeiro, por Mrio da Cruz Sanches, antigo colega do Semi-nrio do Fundo de Landeiro e editor da revista, e Joaquina Matoso Flo-res. Logo a partir do segundo nmero a direco foi ampliada passando a contar com a presena de Rui Fernandes Martins, Clotilde Gaspar Cabral e Afonso Frias.

    O objectivo principal desta revista, acreditamos, era o da valorizao da figura do professor do ensino primrio. Neste sentido podemos ler o seguinte:

    E assim a ns alunos da Escola Normal e professores de amanh,

    17 A Era Nova no Districto Aldeia do Bispo (Penamacor). In A Era Nova, Ano III, n 126, 05 de Dezembro de 1929.

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    Do lado direito Jos Manuel Landeiro (Dcada de 20); no lado esquerdo, um texto publicado na imprensa noticiando

    a aco de Landeiro que referimos acima.

    ----------------------------------------------------Fotografia gentilmente cedida pela Dr. Carlota Landeiro (filha do professor Jos Manuel Landeiro)

    sugeriu-nos a ideia da publicao da Escola Renovada porque ao obser-varmos, em contacto com os nossos Mestres, os processos de ensino mo-dernamente seguidos, conclumos que o professor actual tem deveras jus nossa considerao, no s pela qualidade da misso que desempenha como ainda pelos muitos variados conhecimentos que acumula.

    O nosso programa est pois tratado: - Erguer bem alto essa falange de almas sonhadoras que to admiravelmente se sacrificam pelo bem da Ptria e cujo ideal nem sempre conseguem realizar. E isto porque, aqueles a quem competia auxiliar, zelar ou cuidar da instruo, so muitas vezes os primeiros a olhar com desprezo o homem, para eles insignificante, a que por troa chamam o mestre-escola. Todavia, ele, o professor primrio, smbolo do sacrifcio to mal agradecido, no se ofende com o tratamen-to, e cnscio da misso sagrada que vai desempenhar, l parte satisfeito para essas aldeias transmontanas ou sertanejas a lutar contra a ignorncia

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    pelo engrandecimento da Ptria (A Direco, 1930 in Nvoa, 1995: 230)

    Uma leitura mais atenta desta carta de intenes revela a ideia de misso, que foi difundida ao longo da Histria da profisso docente, principalmente da instruo primria18.

    Por outro lado, era necessrio acompanhar as novas ideias que se for-maram l fora ao nvel da educao. Tambm este aspecto passou pelo es-prito dos antigos alunos da Escola Normal Primria de Coimbra quando no segundo nmero um dos elementos da direco da revista refere:

    A Direco da liga dos Antigos Alunos editar e orientar uma re-vista de carcter exclusivamente pedaggico que ser a afirmao exube-rante de que na nossa Escola Normal se fez e faz o ensino moderno cuja necessidade de espritos eminentes como Claparde e Decroly desde h muito imperiosamente proclamam: que ser a demonstrao indestrut-vel de que todos ns possumos a impulsionar-nos o desejo forte de sem-pre alevantar bem alto, e cada vez mais dignificado, o pendo florisante e prestigioso da Escola Nova; - que ser a prova incontestvel de que um ncleo numeroso de vontades firmes, arrostar, impvido, em todas as emergncias, com quem quer que seja e donde quer que venha, que pro-cure aviltar a Escola e enxovalhar o seu levita; - que ser a guarda avana-da de quantos procurem com tenacidade de apstolos a rpida conquista das nossas mais caras e justas reivindicaes19.

    De facto, apesar desta revista ter apenas dois nmeros incorpora dois

    eixos fundamentais de compreenso da educao em Portugal, onde Jos M. Landeiro participou de modo activo e consistente: por um lado, a va-lorizao e dignificao do ensino primrio e da figura do professor; e, por outro lado, a ideia de uma educao com um esprito renovado incorpo-rando os ideais da Escola Nova, onde uma das presenas mais destacadas em Portugal participa com os seus alunos: lvaro Viana de Lemos. Pode-

    18 Cf. NVOA, A., Le Temps Des Professeurs, 2 vols., Lisboa: Instituto Nacional de Investigao Cientifica, 1989.

    19 Martins (n2, 1930) in NVOA, A. (dir.), A Imprensa de Educao e Ensino: Repertrio Analtico (Sculos XIX e XX). Lisboa: Instituto de Inovao Educacional, 1993, pp.230.

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    mos, efectivamente, avanar que Jos M. Landeiro inspirou-se nos ideais promovidos por lvaro Viana de Lemos, tendo mais tarde inclusivamente recebido material escolar proveniente deste homem defensor da educa-o nova, no interior de uma experincia pedaggica que apresentaremos adiante.

    No mbito desta revista devemos ainda realar a aco de promoo de uma das figuras mais relevantes para o ensino primrio: Joo de Deus. Efectivamente, as comemoraes do centenrio do nascimento de Joo de Deus aconteceram com a presena de Jos M. Landeiro em Coimbra. Landeiro, participou nesta homenagem estando por dentro de vrias ini-ciativas levadas a cabo pela instituio, mas no s. Tambm na impren-sa regional do distrito de Castelo Branco encontramos vestgios dessas comemoraes e confirmado o papel dinamizador de Jos M. Landeiro no contexto da sua prpria aprendizagem no interior da Escola Normal Primria de Coimbra. Neste sentido no jornal Aco Regional encontra-mos vrios artigos de sua autoria que nos levam para as referidas come-moraes:

    Em Coimbra vo reunir-se nos dias 8 e 9 de Maro os cursos da Es-cola Normal Primria (Nova Reforma 1919-1929). Dedica-se o 1 dia comemorao do centenrio do grande pedagogo Joo de Deus. Neste dia haver uma exposio biogrfica de Joo de Deus dirigida pelo professor da E.N. Primria, sr. Tomaz da Fonseca e uma palestra sobre a obra lite-rria de Joo de Deus pelo professor e insigne poeta, colaborador distinto deste jornal Dr. Afonso Duarte, de colaborao com os actuais alunos da Escola Normal Primria. O segundo dia ser destinado a festejar o pri-meiro decnio da criao das novas Escolas Normais, recepo solene aos antigos alunos, jantar de confraternisao, leitura de relatrios sobre o estado actual da nova escola primaria e exposio de material didctico, dirigido pela distinta professora da Escola Anexa sr d. Celeste Teles. O Centenrio do insigne pedagogo Joo de Deus vae decerto ser comemo-rado condignamente na Escola N. P. de Coimbra, que temos a honra de frequentar. Vai o centenrio do Mestre ser festejado pelos continuadores da obra do autor da Cartilha Maternal e s por aqueles em cujas mos esto confiados os destinos da nossa Ptria os Professores Primrios!

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    Tenho a certeza que esta reunio vae marcar, significando o brio das almas moas, sempre abertas a toda a iniciativa levantada. Ser uma reu-nio de irmos, muitos dos quais voltam a pisar saudosamente os cami-nhos por onde passearam a sua descuidosa juventude. Ela concorrer para que os antigos alunos e actuaes professores confraternisem e ut unun sint.

    A Escola Primria, que to despresada tem sido em nossos dias, ser lembrada e exaltada. Estamos certos de que desta reunio ou congresso a classe colher bons e copiosos frutos ()20

    Fica registado o papel activo de Jos M. Landeiro na promoo das actividades relacionadas com o pedagogo Joo de Deus no distrito de Cas-telo Branco. De facto, ao longo de toda a sua vida conseguimos identificar um conjunto de Homens que marcaram profundamente o seu percurso biogrfico e pedaggico. Joo de Deus, ter sido um desses homens que o ajudou a pensar as diferentes concepes pedaggicas que poderiam ser levadas a efeito no interior da sua, futura, profisso como educador de conscincias. Ora, foi neste sentido que Jos M. Landeiro continuou a realar, na imprensa regional albicastrense, tais comemoraes chegando mesmo a deixar-nos testemunho de alguns nomes, que ficam registados para a posteridade, que fizeram parte das diferentes iniciativas onde ele tambm participou:

    () No dia 8. Como professor mais antigo da escola toma a pre-sidncia da mesa o prof. Bernardino da Fonseca Lage que convida para secretariar o 1 aluno do primeiro ano do curso da Escola, o profe. Manoel Romo e aluna do primeiro ano do curso de 1929-1930, D. Ana Lopes d`Oliveira. O prof. Lage diz em rpidas palavras que no d as boas vin-das aos ex-alunos porque, isso devia o fazer da a pouco o sr. Director que aquela hora ainda no estava presente e d a palavra ao prof. e distinto po-eta Afonso Duarte. Afonso Duarte descreve-nos em palavras muito buri-ladas a biografia de Joo de Deus e faz depois a anlise literria da obra de Joo de Deus, dizendo-nos todas as impresses que os literatos do tempo do poeta tinham acerca da obra do mesmo.

    20 Em Coimbra Reunio de Cursos da Escola Normal Primria e Centenrio de Joo de Deus in Aco Regional, Ano IV, n 194 de 09 de Fevereiro de 1930.

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    Esses homens de letras, segundo diz o conferente, do ao autor do Campo de Flores o 2 lugar entre os lricos e diz que Joo de deus foi o poeta mais original. A importante conferncia do sr. Afonso Duarte no fim coroada com uma salva de palmas.

    Em seguida, seguem-se recitaes de poesias de Joo de Deus por alu-nos de Escolas. E no nmero de alunos recitaram os seguintes: Isolina Abrantes com Carlos de Figueiredo (o dilogo muito pedir), Orbelino Geraldes Ferreira (Monarquia), Maria Piedade Fria (Dinheiro) e a aluna Joaquina Matoso Flores (Minha prece a Joo de Deus), de que autora e o seguinte soneto tambm da sua autoria:

    Aos antigos alunos da E.N.P.de Coimbra

    Eu vos sado Jovens portugueses,() Eu vos sado!Quantas, quantas vezes,Eu vos tentei seguir, ser vossa igual;Procurando ento, de vale em vale,A Vs professores portugueses!

    rdua a tarefa, mas que importa,Se a nossa esperana no est ainda morta?!Trabalhe cada qual tudo o que deveE, um dia, j velhinhos, com prazerNs havemos tambm de ouvir dizer:Ditosa Ptria que tais filhos teve!

    A aluna Joaquina Matoso Flores, que uma distinta poetisa foi muito aplaudida. A seguir s recitaes fez-se ouvir o orfeo da Escola sob a re-gncia da prof. D. Alice de oliveira. O orfeo comeou pelo hino nacional, seguindo depois as canes de cuja letra de autoria de Joo de Deus,

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    terminando pelo hino nacional. Ao rgo segue-se uma lio mtodo de Joo de deus pela prof. D. Celeste Teles e depois as vizitas exposio bi-bliogrfica das obras de Joo de Deus dirigida pelo prof. Tomaz da Fonse-ca e exposio do material didctico dirigido pela professora d. Celeste Teles e para terminar a vizita exposio de trabalhos de alunos dirigida pelo prof. Viana de Lemos.

    Tivemos ocasio de admirar dois retratos de Joo de Deus, do aluno e nosso conterrneo Luiz Martins Carreira, que embora novo j conside-rado um grande artista. Vimos tambm os retratos a pastel dos seguintes pedagogos: Kerscheeusteiner, Frriere, Claparede e Lomband-Ratice, do prof. V. de Lemos. noite foi oferecido, pelos professores da Escola e ac-tuais alunos um ch danante, aos ex-alunos.

    O ch danante realizou-se no Grmio-Operrio que correu muito animado, prprio das almas moas21.

    Importa interromper neste momento o artigo produzido por Landei-ro e introduzir aqui algumas referncias sobre o movimento da educao nova. Efectivamente, esta Escola acompanhou os ideais de Claparde e Frriere, entre outros, tendo lvaro Viana de Lemos como o grande dina-mizador deste esprito. Jos M. Landeiro foi influenciado decisivamente luz das teorias da educao nova que consistiam principalmente num ensino activo, til, prtico, com estratgias pedaggicas dinmicas e em relao com a comunidade envolvente. No obstante, sobre este assunto voltaremos posteriormente no captulo dedicado produo cientfica de Jos Manuel Landeiro, mais especificamente s questes ligadas educa-o.

    Voltando um pouco atrs, continuamos a transcrio do artigo de Landeiro que nos d conta das comemoraes do centenrio de Joo de Deus, levadas a cabo na Escola Normal Primria de Coimbra:

    O Dia 9 destinado, como os jornais diziam sesso dedicada aos antigos alunos. Abre a sesso o Director da Escola que comea em pe-dir desculpa de no ter comparecido no dia antecedente e d depois as

    21 Na Escola Normal Primria de Coimbra O Centenrio de Joo de Deus e a festa de confraternisao dos antigos alunos in Aco Regional, Ano IV, n 199 de 16 de Fevereiro de 1930.

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    boas vindas aos antigos alunos. D em seguida a palavra ao prof. Viana de Lemos que sadam igualmente os antigos alunos. Fala em seguida o ex-aluno Afonso Frias comea o insigne orador por recordar os tempos de Coimbra. Agradece aos oradores antecedentes as saudaes que lhes dirigiram. Evoca em seguida a memoria dos professores e ex-alunos que j dormem o sono da paz e em discurso bem longo ele conta-nos o estado da escola onde ele exerceu o seu ministrio: Quando foi era um autentico pardieiro e agora que, custa da sua carteira, j est um pouco melhor.

    Fala em seguida o ex-aluno e jornalista Rui Fernandes Martins. Fala em nome dos alunos que terminaram o curso antes de 1919, elogia o an-tigo e actual corpo docente da Escola Normal. E em voz alta e bom som exclama que desta escola tem sado os maiores professores de Portugal: Aquilino de Sousa, Manoel da Silva e Ablio Amaral e tantos outros. O seu verbo inflamado conquista a ateno dos ouvintes. Rui Martins explica durante meia hora o estado actual das escolas primrias e louva a inicia-tiva particular e diz ele que a cmara do seu concelho a Figueira da Foz gasta por ano com a instruo mais de cem contos. Em seguida fala a ex--aluna Maria Garret que comea por saudar o Director e confessa o teste-munho de amisade para com as colegas, irms espirituais. E referindo-se ao professor primrio diz que os destinos da ptria esto nas suas mos.

    Por ultimo, fala ainda a ex-aluna Clotilde Gaspar Cabral, que nos rela-ta o estado da sua escola. E depois de vrias consideraes combina-se: 1) que todos os ex-alunos sejam scios da Liga dos antigos alunos, 2) Que a revista Escola Renovada, da direco de Mrio Cruz Sanches Joaqui-na Matoso Flores e ns, seja propriedade da liga dos antigos alunos que fazem parte da direco da revista e os ex-alunos Rui Fernandes Martins, Clotilde Gaspar Cabral e Afonso Frias, 4 Que todos os anos os ex-alunos realisem um congresso de antigos e actuais alunos e que esse congresso seja em Coimbra.

    Os actuais e ex-alunos visitaram o jardim-Escola de Joo de Deus e Jardim botnico, onde se fotografaram. noite realisou-se um jantar de confraternisao no hotel Bragana. O jantar correu animado tendo brin-dado os professores Antnio Leito, Tomaz da Fonseca, Afonso Duarte Lage, V. de Lemos, D. Alice de Oliveira, Simes Pereira, D. Celeste Teles, os ex-alunos A. Frias, Rui Fernandes Martins e dos actuais alunos os di-

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    rectores da revista Escola Renovada, Mrio Cruz Sanches Joaquina-Matoso Flores e ns22.

    A aco de Jos Manuel Landeiro em Coimbra ficou ainda marcada pelos seus textos-romances que foram publicados na imprensa regional. Estes textos retratavam, muitas vezes, a procura de um ideal romntico sobre figuras da sua aldeia Aldeia do Bispo no concelho de Penamacor e que, de alguma forma, ficaram registadas. A tia Ana, tecedeira23 um exemplo interessante do cruzamento da etnografia, com os seus princ-pios morais e sentimento de pertena pela terra natal.

    22 Na Escola Normal Primria de Coimbra O Centenrio de Joo de Deus e a festa de confraternisao dos antigos alunos in Aco Regional, Ano IV, n 199 de 16 de Fevereiro de 1930.

    23 A Tia Ana, Tecedeira in Aco Regional, Ano V, n 230 de 26 de Outubro de 1930.

    Poema dedicado a Jos

    Manuel Landeiro por

    Jos Gonalves Macedo

    em, Coimbra, Maio de

    1930.

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    Posto isto, Jos M. Landeiro iniciou a sua actividade profissional no ano de 1934 em Portomar (Concelho de Mira). A sua permanncia, du-rante cerca de dois anos, nesta localidade fez com que este professor se afastasse gradualmente das publicaes peridicas ligadas ao distrito de Castelo Branco. De qualquer dos modos, manteve sempre uma aco cientfica e pedaggica activa. Passados dois anos, em 1934, regressou ao concelho de Penamacor onde retomou a sua carreira docente na aldeia de guas. Nesta aldeia esteve durante dois anos, mudando-se pouco tempo depois, em 1936, para a Escola Masculina de Penamacor, onde permane-ceu at sua ida para o Montijo em 1950, e desenvolveu um conjunto de projectos pedaggicos e cientficos no domnio da educao, da etnogra-fia, da Histria e Arqueologia que daremos conta posteriormente.

    A actividade pessoal e profissional: linhas norteadoras entre as dcadas de 30 e 50.

    A dcada de 30 pode ser considerada como um tempo de uma impor-tncia assinalvel na vida de Landeiro, exactamente porque foi nesta d-cada que se concretizou a sua publicao do primeiro livro: O Concelho de Penamacor na Histria, na Tradio e na Lenda (1938). Foi tambm nesta dcada que casou com Benedita de Jesus Gonalves, natural de Vila Ruiva (1933).

    Postal, com imagem de Benedita Gonalves Landeiro,

    com dedicatria ao seu pai.----------------------------------------Escreve a professora Benedita Landeiro, no verso deste pos-tal, ao seu pai: Permita-me oferecer-lhe a minha fotografia como prova do profundo amor que sinto por si ().

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    Alis, este autor dedicou algum do seu tempo a investigar sobre esta localidade nomeadamente os seus costumes, os seus hbitos e o modo como se construiu ali a religiosidade24.

    O incio da dcada seguinte tambm foi marcado pelo lanamento de novos livros nomeadamente A Diocese da Guarda O Arciprestado de Penamacor (1940).

    Do ponto de vista da educao foi, tambm, na dcada de 40, da cen-tria de novecentos, que o seu trabalho, desenvolvido principalmente na dcada de 30, foi reconhecido pelas autoridades competentes ligadas ao Ministrio da Educao Nacional. Jos M. Landeiro foi nomeado dele-gado escolar do concelho de Penamacor em 1940, exercendo uma aco pedaggica, cientfica e disciplina muito importante junto dos seus co-legas. Alis, no so raras as vezes que o director escolar do distrito de Castelo Branco manifestava o agrado pela forma como este se aplicava

    24 Cf. Landeiro, Jos Manuel, Genius Loci de Vila Ruiva de Terra de Algodres, Castelo Branco: Grfica de S. Jos, 1968.

    Jos Manuel Landeiro

    e a sua esposa

    (dcada de 30).

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    nas questes do ensino. A propsito desta nomeao encontramos uma manifestao de apreo por parte do jornal A Beira Baixa, em 1940, onde se pode ler o seguinte:

    O nosso presado amigo e assduo colaborador sr. Jos Manuel Lan-deiro, distinto professor oficial em Penamacor, foi h dias nomeado, por despacho do sr. Ministro da Educao Nacional, delegado da Junta Nacio-nal de Educao, no concelho de Penamacor. Esta nomeao claramente mostra que a Junta Nacional de Educao reconheceu no nosso querido amigo dotes de trabalho de investigao, bom senso, escrpulo, mtodo, sinceridade e objectividade, alm de vigilncia e calma, requisitos indis-pensveis para o desempenho do cargo. Este cargo est integrado na 6 seco da referida Junta, que abrange antiguidades, escavaes e numis-mtica ()25

    Os anos quarenta do sculo passado representam um momento de produo cientfica assinalvel por parte de Jos M. Landeiro. Efectiva-mente, esta aco cientfica, de algum modo, serviu de mecanismo legiti-mador da sua personalidade no interior dos meios em que se encontrava envolvido.

    Alm de ter desenvolvido um intenso trabalho no domnio da educa-o, a sua aco no interior da Histria e da Arqueologia ou da Etnografia

    25 Jos Manuel Landeiro in A Beira Baixa, Ano IV, n 162 de 25 de Maio de 1940.

    Jos Manuel Landeiro no jornal

    A Beira Baixa em 1940

    ----------------------------- Jos Manuel Landeiro in A Beira Baixa, Ano IV, n 162 de 25 de Maio de 1940.

  • 40

    revelou-se reconhecida pelo facto de ter integrado a Sociedade Portugue-sa de Geografia26. Foi seu proponente a scio desta organizao o Dr. Jai-me Lopes Dias tendo, Jos Manuel Landeiro, sido admitido a 14 de Abril de 1947 como scio efectivo n. 15 306. A Sociedade de Geografia de Lis-boa emitiu o seu diploma em 14 de Abril de 1947. Jos Manuel Landeiro afastou-se desta Sociedade em 16 de Maio de 195827.

    Ainda nos anos 40, da centria de novecentos, integrou, como scio, o Instituto Portugus de Arqueologia, Histria e Etnografia reforando este organismo o sentido que Jos M. Landeiro imprimiu sua vida acadmica e cientfica e que abordaremos depois, no captulo que diz respeito sua produo cientfica.

    Esta dcada ficou ainda marcada pela publicao de vrios trabalhos cientficos que representaram um despertar sobre a conscincia e impor-tncia histrica do interior de Portugal, em particular da Histria do Con-celho de Penamacor e da Beira Baixa.

    26 Cf. Processo Individual de Jos Manuel Landeiro Sociedade de Geografia de Lisboa (1947).

    27 A bibliografia disponvel da autoria do Sr. Jos Manuel Landeiro nesta Biblioteca a seguinte: A Escolha do Gama para Capito; Diocese da Guarda o Arciprestado de Penamacor; No Rolar dos Anos; Da Velha Egitnia; Forais de Penamacor; O foral de D. Sancho a Penamacor: Qual o seu tipo?; O Tesouro funerrio da Lameira Larga: poca Luso-Romana de Aldeia do Bispo (Informao cedida pela Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa).

    Carto de membro da

    Sociedade Portuguesa de

    Geografia

    --------------------------Este carto foi expedido em 31 de Outubro de 1947 pela Sociedade de Geografia de Lisboa.

  • 41

    Integrou vrias comisses de exames de instruo primria e reve-lou-se, segundo testemunhos orais, um professor exigente com um forte carcter moral de que se valia como modo de afirmao da sua prpria pessoa pela exemplaridade.

    Alm de ter pertencido Sociedade de Geografia de Lisboa e ao Insti-tuto Portugus de Arqueologia, Histria e Etnografia ao longo da sua vida, principalmente nos anos 40 e seguintes, fez parte, ainda, do Clube Inter-nacional de Folk-Lore desenvolvendo todo um ideal de perseverana dos costumes e das tradies das localidades a que sempre esteve ligado.

    Para terminar este ponto importa salientar que no final dos anos 40, do sculo XX, o trabalho desenvolvido por este homem era tambm reco-nhecido pelos rgos do prprio Estado Novo, como a Emissora Nacional:

    A Emissora Nacional na sua habitual Nota do Dia, de 23 do cor-rente [Setembro] referiu-se ao distinto professor de Penamacor, sr. Jos Manuel Landeiro pela obra que vem realizando [] nesta vila. Estas refe-

    Um grupo de alunos de Penamacor no ano lectivo de 1949 - 1950

    ---------------------------------------------------------Imagem extrada de O Concelho de Penamacor na Histria, na Tradio e na Lenda de Jos Manuel Landeiro, 4 edio, 1995.

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    rncias elogiosas muito justas, foi pretexto para que nesse dia o professor Landeiro, que a modstia personificada, fosse muito felicitado em sua casa. O esforo e trabalho deste digno professor foi apreciado pela primei-ra emissora do Pas que por assim dizer a Voz da Nao ()28

    Percebemos, deste modo, o alcance da vida de um homem que mes-mo encontrando-se num cenrio de interioridade conseguiu mostrar a importncia do seu trabalho e o reconhecimento alcanado junto de altas instncias do Estado.

    Da dcada de 50 ao final da sua vida: a transferncia de Penamacor para o Montijo.

    A dcada de 50 representou na vida de Jos Manuel Landeiro um ver-dadeiro momento de transio do ponto de vista profissional e pessoal. Acreditamos que este momento no ter sido pacfico com o seu prprio eu, dado que estava profundamente ligado aos seus alunos, sua escola em Penamacor, enfim sua terra natal. Por outro lado, Jos M. Landeiro foi um verdadeiro dinamizador da actividade escolar e pedaggica, etno-grfica e histrica do concelho de Penamacor at aos anos 50.

    Landeiro mudou-se com a famlia para o Montijo. Encontramos eco deste facto na imprensa regional albicastrense que manifestou o sentimen-to de perda de um grande dinamizador do pensamento da Beira Baixa:

    () chegou-nos a surpreendente noticia da transferncia, a seu pedi-do, das escolas de Penamacor para as de Montijo deste nosso prezado ami-go e activo colaborador do nosso jornal. O professor Landeiro, com cuja amisade e colaborao contou, sempre, desde o seu aparecimento o nosso jornal, deixa nas escolas de Penamacor e at na prpria vila uma obra que atesta o seu amor pela escola e pela vila de Penamacor e seu concelho as quais tanto soube dignificar e elevar. A Penamacor e seu concelho deixa-

    28 Prof. Jos Manuel Landeiro. in A Beira Baixa, Ano XII, 2 de Outubro de 1948, n 588.

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    -lhe o valioso estudo O Concelho de Penamacor, uma grande parte do Diocese da Guarda e valiosos artigos dispersos em jornais e revistas.

    Na escola deixa uma cantina modelar, um museu e uma biblioteca, que s o dinamismo do professor Landeiro podia conseguir. Penamacor tem motivos de lamentar a sada deste seu professor, e Montijo para bem dizer a sua transferncia (...)29

    A sua partida, com a esposa Benedita Gonalves Landeiro e sua filha Carlota Gonalves Landeiro, foi um momento de forte impacto junto da populao de Aldeia do Bispo e, tambm, do concelho de Penamacor.

    Alis, o Clube Ferno Lopes, que falaremos adiante, promoveu uma festa de homenagem ao professor Landeiro, como forma de manifestar a gratido e o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em prol da sua terra Natal e do concelho de Penamacor.

    No jornal A Beira Baixa encontramos notcia sobre esta homena-

    29 Prof. Jos Manuel Landeiro. in A Beira Baixa, Ano XIII, n 650, 10 de Dezembro de 1949, pp.2.

    Notcia publicada no Jornal a Beira baixa

    em 1950

    --------------------------D. Benedita Gonalves Landeiro. in A Beira Baixa, Ano XIII, n 662, 4 de Maro de 1950.

  • 44

    gem onde podemos ler o seguinte, pois fazemos questo de a transcrever na ntegra:

    Aps a significativa homenagem que lhe foi prestada no dia 21, e qual se referiu largamente a imprensa de Lisboa, Porto e Coimbra, veio hoje a esta aldeia, com o fim de agradecer ao Clube Ferno Lopes a parte activa que tivera naquela homenagem e de um modo principal a valiosa e artstica lembrana que lhe foi oferecida, o distinto professor Jos Manuel Landeiro filho muito querido desta aldeia. Antes da hora marcada para a comparncia do sr. Professor Jos Manuel Landeiro no edifcio do clube, numerosos scios compareceram na casa do distinto professor.

    Este, num eloquente improviso, expandiu a sua alegria por ver ali nu-merosos amigos da infncia, o seu proco, um dos seus professores da instruo primria, sr. Prof. Jos Martins Leito, filho do tambm seu professor, o seu verdadeiro e efectivo professor, o falecido mestre Ma-nuel Martins Leito. Falou da grande misso do proco e do professor nos meios rurais, que deve ser sempre harmnica, visando o mesmo fim. Com palavras de saudade evocou a memria saudosa do prof. Manuel M. Leito que soube erguer a mentalidade da sua aldeia to querida que, no campo da instruo, caminha na vanguarda. O orador terminou, pedindo s autoridades da aldeia, ali todas presentes, que soubesse perpectuar o nome de to ilustre mestre (apoiados frenticos).

    Falaram a seguir o sr. Padre Jos Maria Lopes Nogueira que sublinhou a palavras do professor Landeiro quanto colaborao mtua do proco e do professor na preparao da juventude e recordou com saudade o fa-lecido mestre que conseguiu ter em cada um dos seus alunos um amigo.

    Falaram ainda os srs. Alferes Lopes Robalo que saudou o professor Landeiro e evocou tambm a memria do prof. Leito, de quem ele foi primeiro aluno na escola desta aldeia. As palavras de homenagem me-mria do prof. Leito agradeceu o seu filho Jos.

    O prof. Landeiro foi ainda saudado pelos srs. Domingos da Costa Martins, regedor da freguesia, Domingos Borges de Campos, Presidente da Junta de Freguesia. Terminou a srie de discursos o sr. Tenente-Coro-nel de Engenharia, Martins Leito, professor dos Altos Estudos Militares que saudou o Prof. Jos Manuel, na Esposa D. Benedita e sua filhinha, a

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    Carlota Maria a que todos os scios do Clube ali presentes inclusive as senhoras que ali se encontravam, apeteceram as maiores e melhores feli-cidades pela vida fora30.

    No Montijo depressa conseguiu afirmar os cnones profissionais, cientficos e acadmicos que consolidou em Penamacor. Na verdade, desenvolveu igualmente uma forte aco dinamizadora a vrios nveis, como j tinha acontecido antes no concelho natal. Esta ideia confirmada pela nomeao de que foi alvo para ser delegado da Junta Nacional de Educao, alm do concelho de Penamacor que referimos acima, tambm do concelho de Alcochete.

    Verdadeiramente a sua produo cientfica e pedaggica ao longo dos anos 50 no parou. comum encontrarmos artigos deste professor no interior de vrias revistas pedaggicas, como a Escola Portuguesa, A Nossa Escola ou A Educao Nacional, mas tambm artigos no interior de publi-caes peridicas como os jornais locais por onde ele tinha passado e que continuou a manter a correspondncia apesar do afastamento para a zona do Montijo.

    Aristides Galhardo Mota salienta, em jeito de sntese, que Jos Manuel Landeiro no decorrer da sua curta existncia, alm de se dedicar ao en-sino primrio, no qual se revelou um bom mestre, dedicou-se igualmente com xito ao estudo da arqueologia, da Histria e da investigao nestes campos, tendo publicado mais de duas dezenas de trabalhos. Dedicou-se ainda ao jornalismo colaborando em cerca de uma centena de revistas e jornais, nacionais e estrangeiros ()31.

    Alm desta actividade, Landeiro participou em vrios encontros liga-dos s reas cientficas referidas. Destacamos, pela sua importncia, a par-ticipao no Congresso Municipal do Fundo (1947); a participao no 1 colquio de estudos Suvico-Bizantinos realizado na cidade de Braga (1957) e a participao no 1 Congresso Nacional de Arqueologia (1958).

    Como salientvamos atrs, o facto de Jos M. Landeiro se ter trans-

    30 De Aldeia do Bispo Professor Jos Manuel Landeiro. In A Beira Baixa, Ano XIV, n 630, 8 de Julho de 1950.

    31 Mota, Aristides Galhardo, Jos Manuel Landeiro in Landeiro, Jos Manuel, O Concelho de Penamacor na Histria, na Tradio e na Lenda, 4 Edio, Fundo: Cmara Municipal de Penamacor, 1994.

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    ferido para o Montijo no o impediu de produzir cientificamente sobre a sua terra natal e comum encontramos trabalhos deste autor espalhados por diferentes meios de divulgao cientfica da poca, em especial re-vistas e jornais, ligadas ao distrito de Castelo Branco. Neste ponto salien-tamos, j nos anos 60, a sua participao na Revista Estudos de Castelo Branco que era dirigida por Jos Lopes Dias, um homem natural do con-celho de Penamacor Vale do Lobo com o qual j tinha colaborado na dcada de 30.

    interessante compreender que este homem soube adaptar-se s transformaes do seu tempo. Segundo informao recolhida junto de familiares prximos, Jos M. Landeiro teve, no Montijo, um programa de

    Jos Manuel Landeiro

    condecorado

    na dcada de 40 do sculo XX.

  • 47

    rdio a que deu o nome de Lendas da Nossa Terra. Este programa pode ser cruzado com uma outra experincia, num outro meio de divulgao do distrito de Castelo Branco e mais especificamente nos jornais Aco Regional e, depois, A Beira Baixa, com a coluna Postais da Nossa Terra que manteve durante anos. Esta coluna de divulgao, principalmente, de natureza histrica teve o seu incio na dcada de 30 e prolongou-se at ao final dos anos 40 do sculo passado32.

    O reconhecimento do trabalho de uma vida aconteceu com a distin-o e atribuio das insgnias do Instituto Portugus de Histria, Arqueo-logia e Etnografia e, ainda, da Sociedade de Geografia de Lisboa.

    A vida de Jos Manuel Landeiro foi recheada de trabalho, sempre com um visvel amor pela sua terra natal e com uma vontade enorme de dar a conhecer Aldeia do Bispo e o concelho de Penamacor. A sua morte, em 1973, no foi sinnimo de um fecho de ciclo, mas antes provocou um de-sejo intenso de reconhecimento do seu trabalho, logo em 1975.

    Notabilizou-se pelo seu amor e trabalho dedicado ao concelho de Pe-namacor, tendo sido por isso mesmo, e com inteira justia, homenageado publicamente, na sua terra natal, com o descerramento de uma lpide na casa onde nasceu e sendo atribudo o seu nome a um largo da freguesia, em Setembro de 197533

    De facto, Landeiro representa um marco simblico da Histria do

    concelho de Penamacor, exactamente porque ainda hoje os seus trabalhos so de consulta obrigatria. Apesar de todas as dificuldade inerentes construo e difuso do conhecimento cientifico no interior de Portugal, a autarquia Penamacorense por vrias vezes, com o aval da famlia de Jos Manuel Landeiro, elaborou edies de uma das obras mais significativas deste Homem, e de Penamacor34, que conta j com 4 edies, a ultima das quais de 1995.

    32 Esta coluna Postais da Nossa Terra encontra-se publicada na terceira parte deste trabalho.

    33 Idem.

    34 Landeiro, Jos, O Concelho de Penamacor na Histria, na Tradio e na Lenda, 4 Ed., Fundo: Cmara Municipal de Pena-macor, 1995.

  • 48

    Entramos no sculo XXI e, novamente, resolvemos chamar a ateno para a importncia deste homem no contexto da investigao histrica no mbito das comemoraes dos 800 anos do foral de Penamacor por acre-ditarmos ser digno de estudo o seu pensamento e a vontade de divulgar e acrescentar mais qualquer coisa a este territrio que precisa, cada vez mais, laos de segurana e pertena.

    Jos Manuel Landeiro com a sua famlia: professora Benedita Gonalves Landeiro e a sua filha Carlota Gonalves

    Landeiro (dcada de 60 (?))

  • 49

    A Histria pode, e deve, ter aqui um papel fundamental na apresenta-o daqueles que nos ajudaram a constituir enquanto homens e mulheres deste nosso concelho.

    Terminamos, este ponto, com as palavras, que prefaciaram o livro re-ferido atrs O Concelho de Penamacor, na Histria, na Tradio e na Lenda - de Jaime Lopes Dias:

    Como de uso, e necessrio, deverei falar do autor e da obra. Quanto ao primeiro, trabalhador incansvel que custa do esforo prprio se tem feito, cumpre-me, como da primeira vez que me revelou os seus propsi-tos, aplaudi-lo sinceramente! Felicit-lo e louv-lo! Poucos sabem quanto custa em trabalho, e em sacrifcios de toda a ordem, uma obra de investi-gao histrica, sobretudo a quem vive longe dos arquivos e das bibliote-cas. Contratempos, demoras, aborrecimentos e at surpresas dolorosas: de tudo h! Depois, se a histria do passado difcil a do presente ingrata! Egostas, despeitados e invejosos, fomentando ruins paixes, no perdo-am aos que, trabalhando com sinceridade no rido campo do interesse pblico, os no descobrem para os incensar e apontar posteridade! No faltar quem veja omisses propositadas, elogios exagerados, referncias injustas ou imerecidas, numa palavra, obra cheia de defeitos, incompleta, pletrica de pequenos nadas e sem interesse! Creio que Jos Manuel Lan-deiro se no amofinar. No deve amofinar-se!35

    Jos M. Landeiro conseguiu construir uma dinmica muito prpria a partir do seu pensamento ilustrado, que soube desenvolver sabiamente aliando os seus interesses cientficos com os pessoais. sobre o seu pensa-mento e os campos de aco que integrou e relacionou que nos debrua-remos na segunda parte deste trabalho.

    Verdadeiramente, este homem representa a vontade de saber, o inte-

    resse pela Educao, pela Histria, pela ideia de que o homem na sua essncia bom e que este pode ser melhor trabalhado se forem aplicadas as tcnicas e metodologias devidas onde a Escola desempenha um papel fundamental na construo identitria de cada um dos indivduos.

    35 Idem.

  • 51

    2 PARTE

    A Produo Cientifica e Cultural de Landeiro: Exemplos

    Ao longo de toda a sua vida, Jos Manuel Landeiro, produziu um con-junto de ideias no interior dos domnios cientficos que lhe interessavam, em particular: a Educao, a Histria e Arqueologia e a Etnografia. Desde a dcada de 20, da centria de novecentos, que podemos encontrar na im-prensa regional e local albicastrense, em particular, um conjunto de textos que anunciaram o papel de relevo que este professor teve ao longo de toda a sua vida em prol da educao, mas sobretudo, porque esse o ponto que nos interessa relevar, do concelho de Penamacor.

    Efectivamente, as suas preocupaes encontram-se registadas na im-prensa regional e local, nas revistas pedaggicas em que participou, e que referiremos adiante, e, naturalmente, nos livros que deixou ligados aos vrios pontos do pas.

    Quando reflectimos sobre este autor de imediato surge um pensamen-to ligado sua obra mais conhecida, no concelho de Penamacor, intitula-da o Concelho de Penamacor, na Histria, na Tradio e na Lenda. Esta obra foi publicada em 1938 e reuniu um conjunto de textos que foram preparados, e alguns deles publicados previamente na imprensa regional e local, pelo professor Landeiro.

  • 52

    Importa tambm deixar registado o interesse das imagens que cons-tam nesse livro, principalmente os desenhos, elaboradas por Jlio Fidalgo Oliveira. Alis, Jos M. Landeiro reconhecia neste seu conterrneo uma qualidade artstica imensa tal como podemos ler em artigo que constar da terceira parte deste livro, dedicado, entre outros, a este artista1.

    As reaces de vrios elementos da sociedade portuguesa da poca, ligados a quadrantes diversos no interior do Estado Novo, foram as mais honrosas e gratificantes para o autor. Ora, o facto de estas reaces terem sido publicadas em 1940 no interior do seu segundo livro, representa bem uma manifestao de gratido do autor para com os jornais com que se correspondia e para com alguns indivduos particulares da sociedade:

    este livro novo, escrito pelo nosso colaborador sr. Jos Manuel Lan-deiro, que gentilmente dele nos fez oferta. O ttulo do livro diz tudo o que ele . a narrao sumria dos acontecimentos que directa e especialmen-te interessam s terras que formam o concelho de Penamacor e merecem ser conhecidos e apreciados. a biografia dos seus homens ilustres e dos benemritos que pela sua benemerncia adquiriram direito gratido e ao respeito dos que vieram depois ()

    (A Beira Baixa, Castelo Branco)

    Mas no foram apenas os jornais locais que fizeram noticia com a publicao deste trabalho de Jos Manuel Landeiro. Tambm a imprensa mais reconhecida, do ponto de vista nacional, como os peridicos O S-culo ou o Dirio de Noticias fizeram questo de salientar o seguinte sobre este trabalho:

    () obra de interesse cientifico, histrico e etnogrfico, d-nos a conhecer, em linguagem elegante, toda a vida do concelho de Penama-cor, atravs dos tempos, enriquecendo assim, a histria da provncia da Beira Baixa e a divulgao das tradies do seu povo, na verdade muito curiosas. O trabalho revela as magnficas qualidades de investigador do sr. Jos Manuel Landeiro e, simultaneamente, o caminho que colocou na

    1 Ver artigo, na terceira parte deste trabalho, onde se sublinha a vida e obra de Jlio Fidalgo Oliveira.

  • 53

    elaborao da sua obra, um alto servio aos penamacorenses, no s da vila como do concelho.

    (O Sculo)

    () o livro pode considerar-se bem ordenado, cheio de interesse pe-los elementos que faculta a todos os que pretendam estudar a histria do antigo concelho beiro. O que foi e o que o raiano concelho nesta obra se l; at mesmo a parte lendria da regio o autor compilou, contribuindo para valorizar o seu trabalho que deve merecer plena gratido de todos os penamacorenses.

    (Dirio de Noticias)

    Na verdade, a imprensa um pouco por todo o pas elaborou manifes-taes de apreo obra do autor e fez questo de o salutar pelo trabalho. Alm dos peridicos j referidos poderamos ainda acrescentar outros como A Voz, Novidades, Aco Escolar, Renascena, Dirio de Coimbra, O Navio (de lhavo) ou a revista Terra do Tejo.

    De facto, este livro significou, e continua a significar, um contributo valioso para o conhecimento do concelho de Penamacor que utilizado frequentemente pelos historiadores regionais e locais quando se debru-am sobre as Terras do Lince2.

    Porm, tambm elementos individuais escreveram ao professor Lan-deiro manifestando o seu apreo pelo trabalho desenvolvido. Alis, alguns dos quais foram elementos inspiradores de Jos M. Landeiro ao longo de todo o seu percurso biogrfico. A ttulo de exemplo salientamos a carta do Padre Francisco Manuel Alves, de Bragana, mais conhecido por Abade do Baal, sobre quem Landeiro elaborou um estudo e referenciou vrias vezes como exemplo a seguir3:

    Ex.mo Sr. Que agradvel surpresa a de O Concelho de Penamacor!Tam elegante grfica e intelectualmente! Como lhe agradecerei a gen-

    2 Designao utilizada recentemente para identificar o concelho de Penamacor com a presena (?) do Lince no seu territrio.

    3 Encontramos referncia, por exemplo, na revista pedaggica A Escola Portuguesa na dcada de 50 do sculo XX.

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    tileza da oferta autografa? Enfim: bem-haja; Deus lhe pague, como se diz nesta minha terra, e releve-me, desde j, a audcia de aproveitar para ter-mo de confrontaes nos meus estudos remeter parte da etnografia trata-da no seu valioso trabalho, e a franqueza de aplaudir calorosamente a sua iniciativa. Oh! Como seria a historiografia do nosso Portugal se estudos monogrficos como os de V. Ex. se realizassem em todos os concelhos e freguesias! Os procos e os professores primrios que esto em melhores condies de os realizar () e do pblico letrado e do pblico em con-dies econmicas fracos incentivos vm. Enfim, a sua iniciativa bela e nessa beleza moral est a recompensa4

    Uma outra figura marcou decisivamente o seu interesse pelas questes etnogrficas e da prpria Histria: Jos Leite de Vasconcelos. Segundo tes-temunho publicado no livro A Diocese da Guarda (1940) Jos Manuel Landeiro ter oferecido um exemplar a Jos Leite de Vasconcelos, ilustre etngrafo admirado por Landeiro, ao que este no respondeu por estar doente. Porm, encarregou o seu primo, Pedro de Sotto Mayor Negro, de escrever as seguintes palavras, em jeito de agradecimento, no dia 3 de Novembro de 1940:

    O dr. Leite, meu primo, que est doente, agradece os cumprimentos que lhe dirigiu, e o pedido com que o honrou. Quanto a este, -lhe absolu-tamente impossvel corresponder por falta de tempo. Apenas acrescentou que julga til o livro pelas muitas informaes que contm e que tirou dele algum proveito para os seus estudos, como mostrar a seu tempo, citando-o5.

    Alm destas personalidades que povoaram sempre o imaginrio de Jos Manuel Landeiro como modelos a seguir na sua vida acadmica e cientfica, tambm outros elementos manifestaram gratido e interesse pelo trabalho realizado. Foi o caso de Monsenhor Santos Carreto e do Bis-po Auxiliar da Guarda Jos Augusto que, sobretudo o primeiro, tiveram

    4 Carta enviada a Jos Manuel Landeiro em 23 de Janeiro de 1939, publicada em 1940.

    5 Carta enviada a Jos Manuel Landeiro em Novembro de 1940.

  • 55

    um papel importante na formao do carcter de Landeiro e nos valores por ele defendidos durante a sua vida, como fizemos referncia na primei-ra parte deste trabalho. Encontramos tambm anotaes dos professores catedrticos da Universidade de Coimbra Joaquim de Carvalho e Fernan-do de Almeida Ribeiro.

    Ligados Direco Escolar do distrito de Castelo Branco encontra-mos publicado o apreo de Jos Henriques Fernandes de Carvalho que foi, mais tarde director escolar do mesmo distrito.

    Alm desta obra, Jos M. Landeiro publicou um outro livro que tam-bm marcou significativamente o seu percurso enquanto historiador. Es-tamos a referir-nos ao seu estudo publicado em 1940, intitulado: Diocese da Guarda com sede em Idanha-a-Velha (Egitnia), Penamacor e Guarda O Arciprestado de Penamacor. Esta obra representa de igual modo os seus prprios interesses pessoais do ponto de vista da valorizao mo-ral que aprendera enquanto aluno do Seminrio do Fundo (Diocese da Guarda) a quem ficou, ao longo de toda a sua vida, muito grato pelas aprendizagens proporcionadas.

    Este livro foi publicado em homenagem a D. Jos Alves Matoso, pelos 25 anos de trabalho ao servio da Diocese da Guarda e pelos 25 anos do

    Capa do livro de Jos Manuel Landeiro

    O Concelho de Penamacor na Histria,

    na Tradio e na Lenda

    (edio original de 1938).

  • 56

    Seminrio do Fundo. Alis, toda a receita liquida proveniente da venda dos exemplares desta obra revertiam para os Seminrios da Guarda, in-cluindo, naturalmente, o Seminrio do Fundo.

    Foram vrios os momentos em que este estudo serviu de inspirao ao autor para chegar a novas ideias e conhecimentos dado que ao longo de toda a sua obra aparece sempre citado vrias vezes e em vrios mo-mentos. Acreditamos que, se por um lado, O Concelho de Penamacor na Histria, na Tradio e na Lenda representa o livro mais conhecido deste autor, este no lhe fica atrs dado que o objecto de estudo mais alargado e por isso citado em muitos trabalhos da historiografia nacional, regional e local.

    Estes dois livros, para ns, podem ser considerados o expoente mxi-mo da qualidade da sua produo cientfica ligada Beira Baixa desde os anos 20 at sua partida para o Montijo. Porm, a dcada de 50 tambm foi marcada por uma produtividade cientfica assinalvel.

    Nesta dcada Jos Manuel Landeiro conta com vrios trabalhos e par-ticipaes em congressos relevantes ligados a diversas reas cientficas.

    Ao longo dos anos 60 contamos, principalmente, a participao na re-

    Edio original do livro Diocese da Guarda

    com sede em Idanha-a-Velha (Egitnia),

    Penamacor e Guarda O Arciprestado de

    Penamacor, publicado em 1940.

  • 57

    vista Estudos de Castelo Branco, onde se encontram alguns estudos ligados a Penamacor, mas tambm ao Fundo.

    J percebemos que Jos M. Landeiro foi sempre um homem enrgico

    e com vontade de conhecer e dar a conhecer sempre mais aos seus alunos ou s pessoas das localidades onde estava presente.

    O que nos interessa agora, depois desta abordagem geral, chamar a ateno para aspectos concretos do seu pensamento relacionados com as dimenses em que circulou ao longo de toda a sua vida mas, princi-palmente, enquanto esteve mais ligado ao concelho de Penamacor. Quer dizer que a nossa abordagem daqui para a frente centrar-se- principal-mente nas dcadas de 30 e 40, do sculo XX, e na dinmica construda por este professor nos diversos domnios referidos, por vrias vezes, an-teriormente.

    Destacaremos momentos chave que nos possam permitir compreen-der de uma forma abrangente o pensamento deste autor sem, no entanto, esquecer todo o contexto poltico e social que o envolveu no tempo j referido.

    Algumas capas de textos publicados por Jos Manuel Landeiro na dcadas em que se

    afastou do concelho de Penamacor (anos 50 e seguintes)

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    OS TRS EIXOS: EDUCAO, HISTRIA E ETNOGRAFIA

    O Primeiro Eixo: A Educao

    Neste ponto destacaremos o pensamento de Jos Manuel Landeiro re-lacionado com a sua actividade profissional de professor. Na medida do possvel tentaremos retratar as correntes pedaggicas que seguiu, as suas principais caractersticas, e o modo como as adaptou ao contexto que o envolveu.

    A Educao Nova, o Estado Novo e a Igreja Catlica

    O professor Jos Manuel Landeiro foi um defensor acrrimo da im-portncia da profisso de professor primrio junto das comunidades em que estava presente. Esta ideia de defesa da profisso no pode ser desliga-da de um contexto mais alargado do ponto de vista pedaggico e tambm poltico.

    Acreditamos que Jos Manuel Landeiro foi influenciado principal-mente por duas instituies de ensino por onde passou. A primeira, como referimos na primeira parte deste trabalho, o Seminrio do Fundo que lhe transmitiu um conjunto de referncias associadas Igreja Catlica; a segunda, a Escola Normal Primria de Coimbra, onde teve contacto com ncleos dinamizadores do movimento da Educao Nova, como por exemplo lvaro Viana de Lemos.

    Ora, se no que diz respeito aos valores transmitidos pela Igreja Ca-tlica, numa fase primaveril da sua vida, o nosso entendimento, sobre os mesmos valores, pacfico e do conhecimento geral, j no que toca Educao Nova convm introduzir alguns esclarecimentos sobre este ideal pedaggico.

    Segundo Manuel Henrique Figueira o termo genrico Educao

  • 59

    Nova foi usado a partir dos finais do sculo XIX, para significar um mo-vimento de inovao educativa constitudo por uma mistura de intenes idealistas e de prticas pedaggicas inovadoras que pretendeu alterar o panorama educativo existente6. Efectivamente, este movimento, apesar de ter uma expresso mais visvel a partir do final de oitocentos nasceu inspirado por homens do sculo XVIII, nomeadamente Rousseau (1712 1778), Pestalozzi (1746-1827), Froebel (1782-1852), entre outros con-tributos.

    O essencial do movimento prende-se com a construo de um dis-curso pedaggico que se preocupa principalmente com a criana e tudo aquilo que a envolve directamente.

    neste sentido que Manuel Henrique Figueira salienta que preten-de-se [] evidenciar duas preocupaes [entre outras]: compreenso da natureza da criana, que conduzir mais tarde, na viragem do sculo XIX para o sculo XX, criao da psicologia infantil como cincia [e a] ino-vao da educao e dos seus processos []7

    neste sentido que desperta um interesse assinalvel no inicio do s-culo XX pelo movimento de uma Educao Nova ao contrrio de um ensino livresco, tradicional que era acusado de ser enciclopdico, arti-ficial, antinatural, abstracto, afastados dos interesses e das necessidades da criana, desadequado ao seu natural desenvolvimento fisiolgico, psico-lgico e fisico-mental8.

    Um dos principais dinamizadores deste movimento foi Adolphe Fer-rire que dizia o seguinte:

    [] l`poque actuelle est-elle donc, au point de vue social, celle de l`anarchie relative, celle de la rvolte contre l` autorit du pass et de la prparation au solidarisme librement consenti de l` avenir? Beaucoup de bons esprits le pensent. Je le crois aussi fermement. [] l`ordre qui meurt fera place un ordre nouveau, reconnu, consenti et voulu. C`est au maitre d`cole ouvrir ds aujourd`hui les portes de cet avenir. Cet l`cole

    6 Cf. Figueira, Manuel Henriques, Um Roteiro da Educao Nova em Portugal, Lisboa: Livros Horizonte, 2004, pp. 27.

    7 Idem, pp. 28.

    8 Ibidem, pp. 29.

  • 60

    active preparer les hommes appels instaurer cette unit nouvelle. Pr-parer des tres actifs et constructifs est, aujourd`hui plus que jamais, le but par excellence de l`cole9.

    No fundo o que se pretendia era que a Escola deixasse de ser algo est-

    tico e fosse considerada como um agente activo e dinmico no interior das localidades e dos espaos onde estavam inseridas. Naturalmente que este centrar de ateno nos actores educativos alunos e professores como elementos dinmicos esteve na origem do desenvolvimento de alguns sa-beres como por exemplo a psicologia infantil ou a prpria medicina ligada ao mundo escolar.

    Quando no final do sculo XIX a pedagogia se constituiu como cam-po de reflexo e de investigao independente, elegeu a criana como sujeito do acto educativo, no rasto da tradio rousseauniana. Foi ento defendido o retorno s origens, cuja caracterstica principal era a ino-cncia ou a ingenuidade, isto como reaco sociedade industrial moderna que corrompia a criana atravs de uma escola intelectualizada, longe da vida. A soluo encontrava-se na educao natural, feita de actividades artesanais e manuais, ss e formadoras dos futuros homens e mulheres. Esta concepo educativa puerocntrica, que desenvolveu os dois conceitos-chave partir da criana e mtodo natural, deu origem a um vasto conjunto de trabalhos tericos, de prticas e de experincias pedaggicas []10.

    Porm, outros autores poderamos referenciar como elementos liga-dos ao movimento da educao nova numa altura em que a Escola deixa-va de ser centrada no mestre e passava a ser direccionada ao encontro das necessidades e individualidades dos alunos11.

    9 Frriere citado por Figueira, Manuel Henrique, Um Roteiro da Educao Nova em Portugal, Lisboa: Livros Horizonte, 2004, pp. 30.

    10 Figueira, Manuel Henrique, Um Roteiro da Educao Nova em Portugal, Lisboa: Livros Horizonte, 2004, pp. 33.

    11 Pereira, Sylvie Gonalves, A Parte Recreativa da Festa O Papel e funes das festas escolares no 1 ciclo do ensino bsico do ponto de vista pedaggico, social, moral, religioso e poltico na formao integral do aluno e da comunidade no distrito de Bragana do inicio do sculo XX at dcada de sessenta, Dissertao de Mestrado apresenta Faculdade de Psicologia e de

  • 61

    Referncias pedaggicas como Dewey, Claparde, Ferrire (que j referimos atrs) ou os portugueses Antnio Srgio, lvaro Viana de Le-mos, Adolfo Lima ou Faria de Vasconcelos, entre outros, so considera-dos como os grandes pensadores do movimento da educao nova em Portugal e os elementos mais activos na propagao deste movimento no interior das instituies a que estiveram ligados12.

    Estes homens desenvolveram as ideias que anunciamos atrs princi-palmente at aos anos 20, altura em que a 1 Repblica Portuguesa, que tinha como um dos seus principais campos de aco, ainda que isso fosse por vezes mais idealista do que prtico, a educao, substituda por um ditadura militar (1926) que se desenvolver no sentido do conhecido regi-me poltico de Antnio de Oliveira Salazar: o Estado Novo (1933 1974).

    A relao pedaggica livre e aberta que se pretendia para as Escolas portuguesas pelo conjunto de personalidades que j referimos foi alvo de uma tentativa de silenciamento por parte do Estado Novo. Efectivamente os mentores da Educao Nova foram silenciados e marginalizados pelo regime13 poltico, pois os objectivos que ilustramos atrs no eram os que correspondiam aos interesses do novo regime dado que, a Educao Nova, se encontrava muito associada aos ideias da 1 Republica Portugue-sa. Ideais esses que era necessrio submeter, apagar e reformular luz das novas relaes polticas, sociais e religiosas que o Estado Novo promoveu.

    As principais medidas tomadas ao longo dos anos 30, da centria de novecentos, prendem-se com uma lgica minimalista relacionada com a actividade profissional de professor do ensino primrio.

    A reduo da escolaridade obrigatria (1930), a criao dos postos de ensino (1931), a orientao do ensino pela moral crist (1935) e a simpli-ficao dos programas (1929-1937) so algumas das medidas que ilustram bem a poltica educativa do Estado Novo. [De facto o Estado Novo pro-

    Cincias da Educao da Universidade de Lisboa, 2006 (policopiada).

    12 Sobre este assunto devem consultar-se as obras de Antnio Nvoa e Jorge Ramos do , entre outros.

    13 Pereira, Sylvie Gonalves, A Parte Recreativa da Festa O Papel e funes das festas escolares no 1 ciclo do ensino bsico do ponto de vista pedaggico, social, moral, religioso e poltico na formao integral do aluno e da comunidade no distrito de Bragana do inicio do sculo XX at dcada de sessenta, Dissertao de Mestrado apresenta Faculdade de Psicologia e de Cincias da Educao da Universidade de Lisboa, 2006, pp. 17 (policopiada).

  • 62

    curou] levar a escola ao conjunto da populao, sem desencadear novas expectativas sociais e minimizando os efeitos de uma hipottica utilizao do capital escolar como factor de mobilidade social14.

    Alm do sentido moralizante inspirado nos valores do catolicismo, a

    escola primria portuguesa deveria seguir uma educao nacionalista de modo a que se pudesse garantir, na medida do possvel o seguinte quadro de princpios definido por Antnio Nvoa:

    1) Garantir e impor uma instruo mnima a todos, o que obriga a conceber o ensino primrio de forma mais simples (ao alcance de todos) e a dedicar-lhe uma ateno privilegiada.

    2) Escolher os mais capazes, separando-os logo que possvel dos in-capazes de ascenderem aos graus superiores de cultura, diversificando os mecanismos de seleco escolar.

    3) Orientar os estudantes no sentido das suas naturais vocaes, isto , no sentido da realizao dos seus destinos sociais.

    4) Fixar de antemo as necessidades do Estado e da colectividade em matria de diplomados, criando restries frequncia de certos graus e modalidades de ensino15.

    Como salientamos tambm a ideia de uma moral arreigada prpria Escola primria teve um importante papel nas funes que estavam atri-budas ao professor do ensino elementar:

    A educao moral na escola primria tem carcter prtico; de acordo com as normas oficiais, o professor tem a misso de orientar os alunos na prtica de aces tendentes aquisio de bons hbitos, quer tendo em vista uma conduta perfeita na vida e a aquisio da virtud