Vestigios Arqueologicos Na Alta de Coimbra Redescobrir a Igreja de S Cristovao

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  • VESTGIOS ARQUEOLGICOS NA ALTA DE COIMBRA:

    REDESCOBRIR A IGREJA DE S. CRISTVO

    SRGIO MADEIRA*

    MARIA ANTNIA LUCAS DA SILVA **

    Menino que () passeias pelas ruas, olha tua volta e repara que muitas coisas existem na tua terra que

    no foram feitas agora. Nasceram h muitos anos. Fizeram-nas homens que j morreram e dos quais ningum se lembra. Mas eles trabalharam para ti, para todos os meninos que ho-de suceder-te (). E tu, como ns todos, deves contribuir para que essa esperana no se perca, no seja destruda pelo tempo ou

    pelos maus tratos dos homens.

    Um Tesouro para Descobrir Uma Herana para Defender, de Natlia Correia Guedes

    Os trabalhos arqueolgicos de acompanhamento de empreitadas de recuperao de

    imveis no Centro Histrico da cidade de Coimbra tm vindo a ser decisivos na

    actualizao do conhecimento relativamente forma como foi atravs dos tempos

    ocupado e transformado o espao urbano, redefinidas as relaes scio-econmicas e

    alteradas as rotinas do quotidiano.

    ____________________

    * Arquelogo, Cmara Municipal de Coimbra.

    ** Tcnica Superior de Histria da Arte, Cmara Municipal de Coimbra.

  • Os trabalhos desenvolvidos no imvel sito na Rua Joaquim Antnio de Aguiar n. 26-28

    so mais um exemplo dessa mais-valia, ao porem a descoberto um cunhal lateral da

    antiga igreja de S. Cristvo, cujos vestgios se pensavam total e irremediavelmente

    desaparecidos em resultado da sua demolio por altura de 1860.

    Resultante do seu avanado estado de degradao, o imvel em apreo, delimitado pela

    interseco da Rua Joaquim Antnio de Aguiar (a oeste) e da Rua de S. Cristvo (a

    norte) e adossado ao Teatro Sousa Bastos (local onde outrora se situava a Igreja de S.

    Cristvo), foi sujeito a uma remodelao que passou pela substituio da cobertura,

    estabilizao das paredes exteriores e reparao ou substituio dos vos existentes.

    Situando-se numa rea em que o PDM vigente atribui o Grau de Proteco 1 (grau

    mximo de proteco no que diz respeito ao patrimnio histrico e arqueolgico), os

    trabalhos a desenvolver ao nvel da empreitada de construo civil (Programa

    PRAUD/Obras) foram sujeitos ao respectivo acompanhamento arqueolgico por parte

    de um arquelogo da Autarquia.

    Localizao do imvel sito na Rua Joaquim Antnio de Aguiar,

    n.os 26-28

  • O edifcio apresenta algumas caractersticas comuns aos imveis da Alta da cidade de

    Coimbra. Nesse sentido refira-se ao nvel do rs-do-cho a existncia de duas portas de

    abertura (uma delas adaptada posteriormente a janela fixa), esquema tpico atravs do

    qual uma das portas, privada, permitia o acesso casa, enquanto a outra, aberta ao

    pblico, permitia a explorao de determinada actividade econmica.

    Outro trao comum arquitectura da Alta, sobretudo nos sculos XIX e XX a varanda

    corrida com guarda metlica que rasga o 3 andar.

    Perspectiva do imvel sito na Rua Joaquim Ant. de Aguiar,

    n.os 26-28

  • Atravs da picagem de rebocos e arranque de taipas, para alm de aparelhos

    construtivos pobres, de pedra e argamassa, ficou a descoberto, no interior do edifcio, a

    partir do 1 piso, um cunhal composto por pedras de grandes dimenses. Comparando a

    localizao destes vestgios com a planta da antiga Igreja de S. Cristvo poder-se-

    concluir que tais vestgios podero pertencer parede de um anexo do lado norte da

    igreja, talvez no espao que outrora abrangeu (...) uma casa annexa de religiosos da

    regra de Santo Agostinho (...)(SIMES, 1870; p. 14).

    O prolongamento vertical do cunhal revela a existncia de, pelo menos, dois nveis de

    alteamento, visveis sobretudo no 3 piso e, muito provavelmente, relacionados com a

    construo e adossamento do imvel (sculos XVIII/ XIX) e o posterior alteamento

    desse mesmo piso (eventualmente aps a destruio da igreja no sculo XIX).

    Remoo de argamassas inerentes ao projecto de empreitada e aspecto do cunhal em evidncia

  • A referncia mais antiga Igreja de So Cristvo remonta ao sculo XII, altura em que

    foi construda semelhana da S Velha no seu estilo e disposio, ainda que de mais

    reduzidas dimenses. Sob a tutela de um grupo de Religiosos Agostinhos vindos de

    Frana este foi, assim, um dos templos mais antigos de Coimbra, sendo que se idealiza a

    hiptese de ter sido edificado sobre um outro templo religioso mais antigo,

    fundamentando-se essa teoria em vestgios de ossadas com cronologia anterior

    construo da igreja romnica, descobertas em escavaes na dcada de 90 do sculo

    passado. Na planta da Igreja de S. Cristvo (1859) pode observar-se a representao de

    uma cripta que poder corresponder ainda ao vestgio dessa pr-existncia.

    O edifcio medieval manteve-se ao longo dos sculos quase sem alteraes estruturais,

    excepo de algumas obras no 2 quartel do sculo XVIII, das quais constam um

    alongamento lateral a Norte no terceiro e quarto tramos e a abertura de cinco novas

    frestas.

    Sobreposio da Planta do 1 piso

    dos nmeros 26-28 da Rua Joaquim Antnio de

    Aguiar e da Planta da Antiga Igreja de So Cristvo

  • No entanto, em meados do sculo XIX, a igreja encontrava-se muito arruinada e

    desprovida da importncia que havia tido em tempos anteriores. Aps vrias

    ponderaes, acabou por se avanar em 1859 com o desmonte integral da igreja, com

    vista construo do Teatro D. Lus, inaugurado a 22 de Dezembro de 1861. A leitura

    da planta do teatro permite verificar que manteve grosso modo a implantao da igreja

    destruda, com alargamentos que resultaram na eliminao da rua e consequente

    adossamento da fachada sul s construes existentes e na reduo da rua a nascente.

    Em resultado de falta de obras de manuteno e da apressada demolio da igreja, este

    novo edifcio ir cair tambm em runa e acabar por sofrer outras alteraes

    arquitectnicas importantes na sua adaptao a cinema em meados do sculo XX para

    dar origem ao Cine-Teatro Sousa Bastos em 15 de Junho de 1914, em homenagem ao

    empresrio ligado ao mundo do teatro.

    Aps uma vida de vrios momentos de notoriedade o Cine-Teatro Sousa Bastos entrou

    num declnio que culminou com o seu fecho em 1978, ficando o edifcio votado ao

    abandono at aos dias de hoje, encontrando-se a edificao totalmente devoluta e com

    sinais evidentes de degradao.

    Estado actual do edifcio do extinto Teatro Sousa Bastos, na sua maioria desprovido de cobertura e

    de miolo e fachadas com janelas partidas, rebocos soltos, vegetao nos beirados.

  • Por entre todas as alteraes que o espao sofreu ao longo de quase mil anos de

    Histria, o cunhal posto em evidncia aquando da recuperao do imvel sito nos

    nmeros 26-28 da Rua Joaquim Antnio de Aguiar mantm-se como vestgio dessa

    Igreja cuja imponncia se pode agora reconstituir e que, a seu tempo, foi sede de

    parquia e de freguesia e onde nas ruas que dela radiavam, agora camufladas pela actual

    malha urbana, mltiplos mesteres e respectivas confrarias se fixaram, numa importante

    dinmica econmico-social.

    Veja-se o caso da Rua de Gatos que, iniciando no adro da S Velha, atravessava pelo

    actual Beco da Carqueja, paralela Rua de Alpedide (uma das antigas denominaes da

    Rua Joaquim Antnio de Aguiar), com a qual se ramificavam caminhos e/ou serventias,

    at Pracinha na Rua das Esteirinhas.

    Planta actual com recuperao do aspecto de alguns supostos antigos traados que

    mediaram a Igreja de S. Cristvo

  • Considerando o seu potencial patrimonial e esttico, props-se como medida de

    minimizao e salvaguarda que o cunhal fosse mantido a descoberto e integrado no

    projecto de remodelao do imvel em apreo.

    Placas toponmicas das actuais ruas de Joaquim Antnio de Aguiar e de S. Cristvo

  • BIBLIOGRAFIA

    ALARCO, J. de (1999), A evoluo urbanstica de Coimbra: das origens a 1940, Actas do I Colquio

    de Geografia de Coimbra, Cadernos de Geografia, n. especial, p. 1-10.

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    HARRIS, C. H. (1991), Princpios de Estratigrafia Arqueolgica, Editorial Crtica, Barcelona.

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