Vol 10 Da Natureza e Relevância

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estratégia.Gen Loureiro dos Santos

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  • DA NATUREZA E RELEVNCIA DO PENSAMENTO ESTRATGICO 1

    Jos Alberto Loureiro dos Santos General (R)

    Introduo

    Embora a actividade editorial no nosso pas tenha atingido um reconfor-tante dinamismo nos lt imos anos, nomeadamente no domnio da ensastica, no parece exagerado afirmar que o lanamento de uma coleco de "Clssicos do Pensamento Es t ra tg ico" uma atitude surpreendente e que deve ser devida-mente salientada. Surpreendente pelo risco que esta operao empresarial com-porta. Merecedora de destaque, pela enorme mais valia que ela significa para todos ns, pela oportunidade que oferece de conhecermos textos ainda no publicados em por tugus , da autoria de muitos que, nas diferentes pocas histri-cas, se debruaram sobre temas de estratgia.

    Sendo a estratgia o campo privilegiado da luta de vontades que visam obter finalidades que se excluem mutuamente, ela configura-se como rea onde o conhecimento e a inteligncia se manifestam de forma intensa. A possibilidade de os portugueses passarem a ter acesso directo a diferentes modos de pensar estratgia, ou seja, de abordar questes cruciais, seno centrais, na vida dos esta-dos, das empresas, das pessoas com responsabilidades de comando e de direco, em especial quando os textos que os apresentam foram escritos por autores que se destacaram - ou porque se notabilizaram no estudo destes problemas ou porque foram grandes lderes que a Histria lembra e reconhece - , esta possibili-dade constitui t ambm uma oportunidade que no ir ser certamente desprezada por todos quantos a estes problemas se dedicam.

    Aqueles que, profissionalmente, precisam de analisar e resolver questes de estratgia, como os dirigentes polticos, os militares e os empresrios. Mas tambm os que, nas actividades acadmicas que desenvolvem, necessitam de abordar esta problemtica, ou ensinando ou aprendendo.

    Foi-me concedida a honra de, nesta cerimnia de lanamento da coleco e dos seus dois primeiros volumes, discorrer sobre a "natureza e a relevncia do pensamento est ra tgico", o que farei com o maior gosto e com a maior disponi-bilidade.

    1 Conferncia proferida no lanamento da coleco "Clssicos do Pensamento Estra-tgico", em 25 de Setembro de 2003

    PhOSOphica, 22, Lisboa, 2003, pp. 177-185

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    Abordarei o tema nos pontos seguintes. Primeiro, tentativa de desvendar a natureza do pensamento estratgico. Segundo, o pensamento estratgico como factor crucial do potencial estratgico dos estados, bem como de outros actores com responsabilidades estratgicas. Terceiro, as modalidades de emprego do potencial estratgico, em funo dos princpios do objectivo e da economia. Quarto e ltimo, algumas notas sobre os mitos e o simbolismo na aco estrat-gica, como exemplo do predomnio da inteligncia no pensamento estratgico.

    Natureza do pensamento estratgico

    Do meu ponto de vista, o elemento distintivo do pensamento estratgico a sua natureza dialctica, pela qual as aces de um actor para atingir os seus objec-tivos enfrentam aces de outro ou de outros, cujos objectivos excluem os do primeiro. Mas a natureza dialctica do pensamento estratgico salienta tambm a sua essncia eminentemente racional.

    O clculo de perdas e ganhos encontra-se presente em todo o raciocnio estratgico. Embora utilize os sentimentos e as emoes, assim como procure desvendar os caminhos mais adequados em ambiente de caos, onde reinam a incerteza e o acaso, actua sempre com a convico de que se enquadra numa matriz de racionalidade tal, que a teoria dos jogos procura frequentemente reproduzi-la.

    O pensamento estratgico da responsabilidade das direces polticas dos actores que se encontram em disputa. Actores que reagem uns relativamente aos outros, executando manobras cuja concepo, articulao e percia consigam prevalecer em relao ao objectivo. Alis, o "raciocnio puro" elaborado pela direco poltica apenas uma das "pessoas" da "surpreendente trindade" que, nas palavra de Clausewitz, constitui a guerra. Recordo que as outras so: por um lado, "paixo e dio", o elemento motivador e mobilizador do povo; por outro, "incerteza e acaso", prprio das vicissitudes do jogo, com que se defrontam os exrcitos em operaes.

    Destas trs "pessoas", duas "paixo dio" e "incerteza e acaso" - so mais do mbito dos sentimentos e das emoes - da arte - do que do domnio da racionalidade fria. Lembro as trs razes que podem originar a guerra, apontadas por Tuededes, na sua "Histria das Guerras do Peloponeso": o medo, o interesse e o prestgio ou reputao. Tambm trs motivos, dos quais apenas um (o inte-resse) se coloca no campo da racionalidade, em termos de clculo de lucros e perdas, de vantagens e inconvenientes, uma vez que o medo e a reputao rele-vam do domnio dos sentimentos mais do que da razo.

    Estas observaes permitem compreender o enorme desafio a que o pensa-mento estratgico est sujeito na actualidade, como resultado da revoluo da informao iniciada nos anos noventa e que continua em desenvolvimento.

    Para j, o ambiente meditico verdadeiramente obsessivo em que vivemos -ambiente que afecta e determina todos os fenmenos sociais, e portanto tambm e especialmente aqueles que respeitam poltica - faz-se sentir, de modo avassala-dor, na forma de conceber e aplicar as estratgias. Sendo a estratgia, aos nveis total e geral, decidida e imposta pela poltica, visa objectivos polticos. Estes objectivos situam-se no domnio das opinies e das percepes que se procuram

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    originar, com a finalidade de adequar a vontade dos agentes com quem nos defrontamos, nossa prpria vontade. Tendo em vista que os efeitos mediticos actuam basicamente sobre os sentimentos e as emoes, a omnipresena dos mdia representa um formidvel desafio racionalidade do pensamento estratgico.

    Nestas condies, a natureza do pensamento estratgico ter que analisar e avaliar correctamente: por um lado, as consequncias dos efeitos das aces mediticas no mais decisivo "terreno" das operaes, o verdadeiro objectivo decisivo a atingir - os coraes e as mentes dos adversrios , assim como os potenciais aproveitamentos mediticos (portanto psicolgicos, logo polticos), dos objectivos (militares e no militares), que escolhemos, e das operaes efectuadas para os alcanar; por outro lado, conceber e executar operaes para responder a todos esses resultados, eliminando ou minimizando a sua carga negativa, e tambm operaes susceptveis de provocar efeitos meditico--polticos que nos sejam favorveis; finalmente, ter em considerao, tanto na definio e nvel dos objectivos, como nas modalidades estratgicas para os alcanar, a enorme contraco do factor tempo que o permanente e obsessivo ambiente meditico provoca.

    guerra do Iraque pode servir como exemplo

    Pelos padres de pensamento estratgico tradicional, encontramo-nos apenas no incio das operaes de baixa intensidade que sempre ocorrem na fase ps--conquista dos principais objectivos de uma campanha militar (perto de cinco meses depois). Utilizando uma linguagem comum: para vencer a paz, se o contexto estratgico que rodeia as operaes fosse o que tradicionalmente se considerava, disporamos ainda de muito tempo. Em linguagem militar, teramos muito tempo para "organizar e consolidar" a vitria. Ou seja, para implantar um novo equilbrio de foras, que os vencedores no estaro interessados em modificar, na medida em que sero com ele beneficiados, e os vencidos desistiro de o fazer, porque concluiriam no ter condies para alterar a situao a seu favor.

    Contudo, pelos padres da actua! realidade globalizante, e se tivermos em considerao todos os factores envolvidos, nomeadamente os efeitos do ambiente meditico nas opinies pblicas, as relaes de foras podem ter atin-gido um ponto tal de dificuldade para os que tentaram mudar o estado de coisas anterior (ou seja, os que decidiram a guerra), que haver necessidade de levar a efeito esforos redobrados, para muitos inesperados, para conseguir os objectivos pretendidos com o desencadeamento das operaes, se que isso ainda vivel.

    Outro aspecto, que a natureza do pensamento estratgico aconselha a ponderar na actualidade, diz respeito ao tipo de supremacia que um actor estrat-gico pretende obter sobre outro ou outros, afim de preservar os seus interesses e de obter vantagem.

    Ser prefervel que a supremacia assente no temor que se provoca nos dominados, o que tornar mais avisado o uso de estratgias duras, visando coagir o outro pela fora, conforme Maquiavel referia?

    Ou mais adequado utilizar estratgias suaves, que conduzam a uma supremacia caracterizada preferencialmente pelo consentimento dos dominados,

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    que se julgaro mais protegidos do que coagidos, praticando aquilo que Sun Tzu considerava a arte suprema da estratgia - submeter o inimigo sem combate?

    Na actualidade, melhor provocar medo; ou esbater a resistncia dos outros, procurando o seu consentimento e adeso? Por outras palavras, empregar estratgias duras; ou estratgias suaves? Dar prioridade ao hard power; ou ao soft power1?

    Finalmente, a natureza eminentemente racional do pensamento estratgico depara-se, no nosso tempo, com outro importante desafio. Trata-se da acentuada e crescente globalizao, que, no domnio estratgico, provoca o contacto estrei-to de diferentes culturas e, portanto, da ecloso de tenses que, inevitavelmente, o acompanham.

    A resoluo destas tenses implica a apreciao mais cuidadosa da lgica do outro e a compreenso da sua racionalidade, que, por vezes, contm elemen-tos bem diversos daqueles que nos habituamos a considerar, como resultado dos valores que caracterizam os seus traos culturais.

    Frequentemente, as dificuldades de anlise e de avaliao so tais, que se torna mais fcil efectuar uma observao superficial e simplista que conduz classificao da racionalidade praticada pelo outro, que no compreendemos, como mera irracionalidade. Isto pode provoca